sábado, 11 de agosto de 2018


11 DE AGOSTO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

Na hora certa

Já se falou que um romance, para engatar, precisa acontecer entre pessoas que tenham muitas afinidades. Outros defendem que os temperamentos é que têm que combinar. Outros, ainda, dizem que não pode haver tanta diferença de idade, ou situação financeira discrepante. Amor a distância? Ele em Rondônia e você em Floripa? É dar muito crédito ao Cupido, melhor esquecer e procurar algo mais perto do seu quintal.

Falam, falam, falam. E quanto mais se fala, menos escutamos. Mergulhamos fundo em relações caóticas, o que quase todas são, pois dificilmente dois seres humanos se reconhecerão como almas gêmeas, esse troço que dizem que existe, mas que, aqui em casa, nunca tocou a campainha.

O jeito é virarmos experts no gerenciamento do caos. E lá vamos nós amar, sofrer, viver em êxtase, viver aos prantos, apaixonados e desapaixonados, tontos pelos altos e baixos dos nossos desejos, os explícitos e os secretos. É isso ou sair do jogo, resignando-se à única relação que realmente pode durar para sempre: você com sua (bendita ou maldita) solidão.

Todo esse preâmbulo não é para desanimar ninguém. Sou da turma que diz: vá! Tenta com o bonitão e com o feioso, com o surfista e com o tiozão, com o socialista e com o neoliberal (quer tentar com a bancada evangélica, sorte aí). Vá ao encontro dos seus iguais, e também diga sim para os que você pressente que, após duas semanas, nunca mais. O amor pode estar encruado onde você nunca imaginou encontrá-lo, então use as ferramentas que te deram e boa sorte na extração. Não conheço outra aventura na vida mais educadora e mais estimulante - muitas vezes, mais frustrante também, mas qual é a alternativa?

Desistir de amar não é uma alternativa, é apenas uma estratégia para se proteger de futuras decepções.

O amor dá certo até quando dá errado, pelo simples fato de ter acontecido, mas, se você pleiteia a eternidade conjugal, lembre que ficha corrida ("inteligente, bonito, divertido") não garante nada. O sucesso depende apenas de algo que em bom português se chama timing: surgir na hora certa.

Os dois se encontram quando ambos já demitiram o tal Cupido, esse impostor. Os dois se encontram quando programaram os mesmos filmes para assistir até o fim dos dias. Os dois se encontram quando têm problemas parecidos que nunca serão resolvidos e tudo bem. Os dois se encontram quando a libido continua tão valorizada quanto o cérebro. 

Os dois se encontram quando ambos já abriram mão de suas idealizações, mas ainda gostam de conversar sobre elas. Os dois se encontram com as malas feitas e os passaportes em dia, só aguardando a chamada para o embarque. Esses dois abençoados estão aptos para o amor eterno pela simples razão de terem se conhecido quando desejavam a mesma coisa da vida. Querer o mesmo é que dá match.

MARTHA MEDEIROS

11 DE AGOSTO DE 2018
CARPINEJAR

Lanterninha


Na minha infância, havia uma figura central no cinema, hoje extinta: o lanterninha. Ele ajudava quem chegava atrasado na sessão a encontrar um local vago. Antes de começar o filme, o facho de luz se esgueirava entre todos os presentes em busca de uma poltrona vazia. Existia a arte de equilibrista de não atrapalhar os outros, o foco rastejava no chão até os joelhos dos espectadores. Não mais alto que isso senão o povo chiava.

Tenho hoje sido lanterninha dos meus pais velhos. Lanterninha à luz do dia. Quando saio com eles, o meu primeiro instinto é procurar um assento. No lotação. No restaurante. Na sala de espera do médico. No shopping. Eles não podem permanecer muito tempo de pé. Só me acalmo quando avisto uma brecha na multidão. Na faixa dos 80 anos, eles usam os dedos para caminhar. Os dedos vão na frente apalpando os obstáculos.

Como filho, devo abrir caminhos, me antecipar aos problemas e inconveniências. Vivo no minuto seguinte para alojá-los no mundo e para que não sofram com à espera. Meu braço é um cabide dos braços deles. Um gancho de seus passos lindos e lentos. Dificilmente nos damos as mãos, o amor maduro consiste em dar os braços.

Aprendi a andar vagarosamente, aceitando o ritmo da brisa. A minha impressão é que estamos sempre atravessando os degraus que se abrem e se fecham de uma escada rolante.

Enquanto o meu corpo obedece à calma, os meus pensamentos correm para os lados a prospectar possíveis descansos.

Nunca valorizei tanto uma cadeira. Nunca amei tanto uma cadeira. Nunca desejei tanto uma cadeira. Nunca sonhei tanto com uma cadeira. Nunca ambicionei tanto uma cadeira. Nunca sofri tanto por uma cadeira.

Troco o meu reino por uma cadeira, pela alegria deles em sentar após longo trotear. Quando conseguem, me retribuem com um olhar generoso, agradecendo sem falar, comemorando que não precisam explicar o que sentem.

É o meu trabalho no filme da vida de meus pais, carregá-los no colo de meus olhos. Devolver todas as vezes em que me transportaram, ainda menino, nos ombros.

CARPINEJAR

11 DE AGOSTO DE 2018
PIANGERS

Um dia completo


Eu me sentia incompleto no Dia dos Pais. A professora mostrava pra turma que éramos o tronco de uma árvore genealógica, formados por galhos que vinham dos nossos pais e avós e bisavós e tataravós. Eu olhava aquela árvore e me sentia incompleto. Eu era uma árvore pela metade. Tinha todo um lado de mim que eu não sabia de onde vinha nem o nome, nem nada.

Minha mãe pagava todas as contas sozinha, estava sempre trabalhando, não tinha nem dinheiro, nem tempo pra nada. Mas me ensinou uma coisa: eu podia fazer tudo diferente. Um dia você vai ser pai, meu filho. Você não vai repetir o erro do seu pai biológico. Um dia você vai ser um bom pai.

O que perde um homem que abandona uma mulher grávida? Acordar ao lado da coisa mais fofa do mundo. Ter sua vida transformada por um amor maior do que se consegue explicar. Ouvir reflexões maravilhosas todo dia durante o jantar. Abraços e beijos antes de dormir. Orgulho cotidiano ao perceber que você ajudou a construir uma boa pessoa. Senso de realização, para além do seu trabalho no escritório. Para muito além do que qualquer outra realização.

Porque, no final da vida, ninguém se lembra do resto. Você trocaria tudo por mais um dia de vida. Por mais 10 minutos abraçado nos seus filhos. Por mais 10 segundos rodeado de quem você ama.

Minhas filhas mudaram meu segundo domingo de agosto. Neste Dia dos Pais, sinto como se meu coração quintuplicasse de tamanho. Elas fazem cartinhas. Cantam músicas. Sinto como se as apresentações que elas fazem, descoordenadas, desafinadas, fosse Beethoven. Tudo é mágico. Cada abraço é encantado. Me emociona e me transforma. Eu me sinto sortudo e agradecido. E, depois de tanto tempo, finalmente, completo.

É profundamente emocionante. Aponto para minhas meninas, elas cheias de dificuldades e sem coordenação motora, aponto para elas e digo para as pessoas que estão ao me lado: "Olhe! Aquelas ali são minhas! Eu que as fiz!".

Quem diria, aqui estou eu, escrevendo sobre o Dia dos Pais, este dia em que eu me sentia abandonado quando criança e hoje me enche o peito de gratidão. Uma coisa eu entendo: o cara que abandonou minha mãe grávida não se sentia preparado pra paternidade porque não foi nem ele, nem quase nenhum outro homem desse lado do mundo, preparado pra ser pai. Homens são preparados pra serem só duas coisas: pegador e provedor. 

Você vai tentar namorar (usei um termo comportado aqui) o maior número de mulheres para mostrar aos outros homens como é macho; e vai tentar juntar a maior quantidade de dinheiro possível pra mostrar para os outros homens (e mulheres) o quanto é bem-sucedido. Esse referencial de masculinidade está em todo lugar - livros, filmes, conversas, piadas - de forma que não me surpreende quando um homem foge da paternidade. Ele foi criado pra ser um idiota, afinal. Abandonar uma mulher grávida é só mais uma das suas idiotices.

PIANGERS

11 DE AGOSTO DE 2018
LEANDRO KARNAL

MASCULINIDADE TÓXICA

Historiador, professor da Unicamp, autor de, entre outros, "Todos Contra Todos: o Ódio Nosso de Cada Dia".

Certa vez, fui convidado a fazer parte de um programa chamado Amor & Sexo, conduzido por Fernanda Lima. Em meio a demonstrações elaboradas de música e dança, houve um bom debate sobre masculinidade. Foi trazido à tona o conceito de masculinidade tóxica.

A toxidade do masculino é autoevidente. Estupros, pedofilia, acidentes de trânsito com mortes, homicídios, feminicídios, latrocínios, misoginia, assédio, brigas de bar e muitas coisas mais são exclusivas ou dominantes do planeta Marte, o deus cujo escudo se tornou o símbolo dos homens. Sim, há mulheres que assediam e que matam. No planeta Vênus (cujo espelho é o símbolo do feminino), a toxidade existe, porém de forma muito mais esporádica. Os símbolos são eloquentes: Marte é o deus da guerra e Vênus preside o amor. Dado importante: toda doença venérea é derivada de Vênus, ou seja, traz a ideia errada de que a mulher seria sempre fonte da contaminação.

Como acontece em períodos pós-ditaduras, os que fizeram a derrubada do sistema antigo associam todo o mal ao autoritarismo anterior. A ditadura do masculino não terminou, porém, apresenta brechas feitas pela consciência feminina crescente.

O machismo parece ser similar à inveja: erro que todos sofrem, mas ninguém inflige. Um dos convidados perguntou à plateia se alguém era machista e nem um único braço se levantou. O ambiente era de crítica à noção de macho predador, porém houve maior constrangimento do que verdade na imobilidade dos braços.

Todos somos machistas em variados graus. Não poderia ser diferente. Fomos criados assim desde o começo. Nosso vocabulário, nossas ideias culturais, nossas regras morais e até nossos textos religiosos reforçam as práticas misóginas. Ninguém nasceu no Sol, todos viemos de Marte ou de Vênus. Não somos neutros. Militantes feministas são (ou seriam) aquelas e aqueles que mais conseguiram se afastar do molde cultural misógino. Homens conscientes e críticos da masculinidade tóxica também lutam bem contra sua identidade marcada pela misoginia. No entanto, uns e outras precisamos de atenção constante. 

O uso do cachimbo entortou a boca. Nós lemos Madame Bovary e Ana Karenina e não Senhor Bovary ou Ivan Karenino. Nós perguntamos sobre a fidelidade de Capitu, nunca sobre a chatice paranoica de Bentinho. Em algum momento da juventude, nossa boca julgou o mesmo comportamento sexual com dois animais distintos: piranha e garanhão. O depreciativo implícito do peixe e o elogio ao mamífero estão além da zoologia, inserem-se no campo do discurso tóxico que homens e mulheres aprenderam cedo. Levamos milênios para construir uma identidade masculina dominante nas sociedades; provavelmente, não resolveremos a questão em seis meses.

A existência de mulheres apoiando candidatos misóginos à presidência mostra que a jornada é longa e a luta, intestina. Não basta o(a) candidato(a) ter evitado frases machistas pelos seus treinadores midiáticos. É necessário identificar na sua biografia um genuíno pensamento feminista. Ética, luta contra o racismo e combate à misoginia e homofobia não são adereços desejáveis na mulher ou no homem que pretende a presidência (e o Congresso!), e sim condições indispensáveis para que ela ou ele possam (sequer) concorrer.

Quase todos fomos criados em ambientes misóginos. Quase todos fomos educados com a crença de que certas afirmações de machismo eram virtuosas. A cultura masculina é tão forte que mulheres incorporam o preconceito. Não estamos tratando de um suposto mimimi, estamos lidando com assassinatos e estupros. A mulher negra de classe social mais baixa é a vítima por excelência, mas o risco recai sobre todas. Como dissemos várias vezes no programa citado, também precisamos libertar nós, homens, do peso do machismo, que institui um papel pesado e muitas vezes limitador. A toxidade atinge os homens, inclusive, ainda que as vítimas reais dela sejam mulheres e população LGBT+.

Algumas coisas do passado ficaram mais evidentes e claras com o passar dos anos. Quem hoje, de sã consciência, acharia justificável a escravização de um ser humano por outro? Quem aceitaria ver na rua uma pessoa atada em ferros ou um capitão do mato perseguindo um indivíduo pelo Ibirapuera? Até o mais empedernido conservador lutaria contra. Curiosamente, a misoginia e a violência contra as mulheres pertencem ao mesmo momento da escravidão. Conseguimos dar um passo abolindo o trabalho compulsório e ficamos lá, nos séculos anteriores, quando o tema é o feminino. Mais uma vez, não estamos debatendo biquínis ou cabelos soltos, falamos de assassinatos e de espancamento.

É preciso reformular nossa linguagem, nosso pensamento e nossa ação. Todos já utilizamos expressões como "é preciso ser macho para", associando coragem e resistência ao masculino. Por que nunca "é preciso ser muito fêmea" para enfrentar tal problema? Enquanto houver um homem orgulhoso de "ajudar" a esposa ao trocar a fralda ainda estaremos no campo do estereótipo e das obrigações sociais assumidas como naturais ou biológicas. 

Sem que nos atentemos, essas concepções machistas, naturalizadas em nossas vidas, param na lei. Enquanto a licença-paternidade não equivaler à feminina, um pai sempre terá menos tempo na primeira infância do filho. Isso para o pai que não se furta à responsabilidade do título. Discute-se previdência, prevendo menos anos de trabalho para as mulheres do que para os homens, por conta de sua "dupla jornada": no lugar do ofício e em casa. Por que não discutimos a dupla jornada masculina?

Enfim, a preservação da vida e a felicidade podem ganhar com o fim da masculinidade tóxica e a emersão de um homem diferente, capaz de se entregar a um prazer um pouco além da bravata com testosterona. É preciso manter a esperança.

LEANDRO KARNAL

11 DE AGOSTO DE 2018
CLAUDIA LAITANO

NÃO CHOREM PELAS ARGENTINAS


Há derrotas e derrotas. Na primeira vez em que participei de uma manifestação de rua, em 13 de abril de 1984, tinha apenas 17 anos e a certeza de que as eleições diretas seriam aprovadas no Congresso Nacional antes do final daquele mês. Estava no primeiro ano da faculdade de Psicologia, não sabia quase nada sobre política e menos ainda sobre a vida, mas estava convencida de que a voz dos milhões de brasileiros que coloriram as ruas de amarelo pedindo o fim da ditadura militar não seria calada. Não poderia ser calada.

A derrota da emenda das Diretas Já, alguns dias depois, foi um golpe duro na minha ingenuidade e uma lição sobre a forma como a política dos gabinetes funciona. Chorei vendo o resultado da votação no Jornal Nacional, de raiva e de frustração, mas também por não entender que aquilo tudo não havia sido exatamente uma derrota, mas apenas um adiamento. A ditadura militar já estava liquidada, e a derrota no Congresso não era um grito de vitória, mas apenas o último suspiro de um moribundo.

Na última quinta-feira, acordei com a notícia de que o Senado da Argentina havia derrubado o projeto de lei que descriminalizava a interrupção da gravidez. Por uma diferença de apenas sete votos, os senadores argentinos decidiram manter na ilegalidade os cerca de 500 mil abortos realizados todos os anos naquele país - com lei ou sem lei. Mulheres argentinas que abortam, principalmente as mais pobres, vão continuar sendo penalizadas, com exceção dos casos em que há perigo para a vida da mulher, impossibilidade de sobrevivência fora do útero ou estupro. (O primeiro e o terceiro item, aliás, deixam claro que há, sim, valores morais que se sobrepõem às circunstâncias meramente biológicas de uma gravidez, mas deixa para lá.)

Como naquele mês de abril de 1984, fiquei triste e com raiva com o resultado da votação no Congresso argentino, mas, sabendo agora um pouco mais sobre política e sobre a vida do que há 30 anos, suspeito de que a derrota na Argentina está longe de ser definitiva. A onda verde que se espalhou pelas ruas e pelas redes sociais nas últimas semanas mostrou que não será tão fácil continuar mantendo o assunto sob um manto de silêncio e hipocrisia. As mulheres argentinas, por sua vez, não vão se desmobilizar e devem continuar servindo de inspiração para movimentos semelhantes em toda a América Latina.

O fato é que nenhuma conquista das mulheres tem sido fácil nos últimos cem anos. Nem o voto, nem a chance de frequentar uma universidade, muito menos o direito de decidir sobre o próprio corpo. A jornalista argentina Luciana Peker batizou o movimento dos lenços verdes de "a revolução das filhas", destacando a ruptura não apenas de gênero, mas geracional das manifestantes em relação à classe política do país: "As jovens abortam, mas não votam; os senadores votam, mas não abortam".

Mas não será sempre assim. Essas meninas vão crescer, e outras virão se juntar a elas. Os lenços verdes não serão guardados na gaveta - nem na Argentina, nem no Brasil. Existe uma mudança cultural em curso, e sabemos agora que ela pode estar a apenas sete votos de distância das argentinas. Não foi realmente uma derrota. O futuro, senhores, já é das meninas.

CLAUDIA LAITANO

11 DE AGOSTO DE 2018
DRAUZIO VARELLA

IRRESPONSABILIDADE

A sociedade brasileira é, acima de tudo, irresponsável. Em 20 anos, perdemos o controle das cadeias, a epidemia de crack invadiu cidades pequenas e entregamos os morros e as periferias ao jugo do crime organizado. Cracolândias e as barbáries de PCC, Comando Vermelho, Família do Norte, Bonde dos Treze, Primeiro Grupo Catarinense, ADA e de outras quadrilhas com milhares de membros já não causam estranheza.

O trabalho tem me levado às periferias, favelas e lugarejos desconhecidos da maioria dos brasileiros. Semanas atrás, na pobreza da beira do Rio Juruá, no Acre, entrevistei uma menina de sete anos que teve três episódios de malária nos últimos seis meses. Ao saber que a entrevista seria levada ao ar no Fantástico, a mãe disse que não poderia assistir. A família não ligava a televisão à noite, para a luz da tela não atrair os bandidos da vizinhança.

A violência da qual a classe média se queixa nas cidades é brincadeira de criança perto da que enfrentam os mais pobres. O que falta para nos convencermos de que não dá para viver em paz num país com tamanha desigualdade social?

Num sistema burocratizado, em que apenas R$2 de cada R$10 destinados à educação chegam na sala de aula, e somente um em cada 27 matriculados no Ensino Básico entra na universidade, represamos uma massa de despreparados para as exigências da economia moderna.

O desemprego de 12% no país em crise sobe para 25% na população de 18 a 25 anos. Embora os estudos mostrem que a criminalidade aumenta em comunidades com homens desempregados nessa faixa etária, que iniciativas tomamos para qualificar e oferecer trabalho para esse contingente?

Nesse caldo de cultura, juntamos a gravidez na adolescência. Condenarmos meninas a engravidar aos 14 anos por falta de acesso à contracepção é a maior violência que a sociedade brasileira comete contra a mulher pobre. Na Penitenciária Feminina da Capital (em São Paulo), onde atendo, temos uma moça de 28 anos que é avó. Outra, de 40 anos, tem três bisnetos.

Queremos um Brasil sem violência nem políticos ladrões, é o que repetem todos. Acho lindo, mas com essa disparidade de renda?

Por bem ou mal, ou os que mais têm cedem uma parte ou correm risco de perder tudo; eventualmente a vida. Bill Gates criou uma fundação bilionária para financiar programas educacionais e de combate aos grandes problemas de saúde no mundo inteiro: HIV/aids, malária e tuberculose, por exemplo. Investe pessoalmente mais do que qualquer país europeu; só perde para o governo americano. A despeito de iniciativas isoladas, o que fazem os milionários brasileiros?

É cômodo jogar a culpa nos políticos, dizer que, por causa deles, a educação e a saúde são uma vergonha, mas qual a justificativa para as grandes empresas, os conglomerados econômicos, os bancos, o agronegócio e os mais ricos não criarem escolas gratuitas, cursos profissionalizantes, postos de trabalho nas periferias e nas cadeias, unidades básicas de saúde e programas de prevenção que ajudem a reduzir os gastos do SUS?

Quando foi anunciado o Bolsa Família, a turma do "não adianta dar o peixe sem ensinar a pescar" ficou revoltada. Quanta mesquinhez, diante de uma ajuda tímida que consome 1% do PIB nacional.

De outro lado, a inteligência brasileira encastelada nas universidades e nas camadas sociais que tiveram acesso a elas, de quem esperaríamos racionalidade na indicação de caminhos para reduzir as desigualdades que nos afligem, continua aturdida no atoleiro das divisões obtusas entre direita e esquerda, décadas depois da queda do muro de Berlim.

Em 1989, quando comecei no Carandiru, havia 90 mil presos no país. No fim deste ano, haverá 800 mil, quase nove vezes mais. Nossas ruas ficaram mais seguras? Faz sentido termos a terceira população carcerária e 17 entre as 50 cidades mais perigosas do mundo?

Não sejamos estúpidos, não há dinheiro para encarcerar tanta gente. Para acabar com a superlotação apenas no Estado de São Paulo, precisaríamos abrir 84 mil vagas, ou seja, mais 84 cadeias. A um custo de construção de R$ 50 milhões cada, gastaríamos R$ 4,2 bilhões somente para colocá-las em pé. E para mantê-las? E os novos presos?

Permitimos que a bandidagem se organizasse a ponto de servir de paradigma a ser seguido pelas crianças da periferia e de oferecer a elas a única possibilidade de melhorar de vida. A guerra contra o crime será longa, sofrida e infrutífera.

DRAUZIO VARELLA

11 DE AGOSTO DE 2018
J.J. CAMARGO

SOLIDÃO É RUIM. A DOIS, É PIOR

A companhia de um era desagradável ao outro e nenhum dos dois tinha a menor preocupação em disfarçar. Como aparentemente havia consenso de que aturar em silêncio era mais fácil, calaram.

Uma das filhas lembrava de uma época em que mudanças inesperadas do tempo suscitavam algum comentário, mas depois eles entenderam que tudo se repetia e passaram a odiar os meteorologistas que conseguem, contra todas as forças da razão, demonstrar entusiasmo apesar da monotonia do assunto. E, então, até a possibilidade de tormenta saiu da pauta. Ela tricotava sem parar e, como não fazia sentido debater a alternância de cores na confecção do pulôver, a ausência do diálogo se justificava. Ele, sempre pendurado no cachimbo, lia o jornal de ponta a ponta e sofria mais porque, várias vezes, deparava com notícias interessantes ou estapafúrdias e não comentá-las provocava um sofrimento intenso de introspecção. Precisou de anos para aprender a domesticá-lo. Mas conseguiu, e um sorrisinho de aprovação ou um resmungo de repúdio, ambos quase silenciosos, enterravam a possibilidade cada vez mais remota de interação.

Um dia, ele teve um acesso violento de tosse e foi cuspir no lavabo. Demorou alguns minutos, deu descarga várias vezes e voltou ao Caderno de Esportes. Ela teria sabido que alguma coisa mudara no olhar dele, onde a altivez cedera lugar ao medo. Mas, para isto, ela deveria tê-lo encarado por um tempo incomum, assim como uns dois segundos.

Os acessos de tosse se tornaram mais frequentes e logo caíram na rotina, pois ocorriam sempre durante a cachimbada do meio da tarde. E a rotina, como se sabe, é indispensável na construção da paz dos solitários. Uma tarde, a Amantina, uma servente antiga, veio servir-lhe um cafezinho e comentou assustada: "Mas, seu Miguel, o que é esta mancha de sangue na sua blusa?". Antes que ele abrisse a boca, a justificativa veio do outro lado da sala: "Deve ter se cortado. Bem que eu avisei que tem que botar os óculos para se barbear, mas quem diz que ele me escuta?".

Miguel não conteve um olhar de tristeza e Amantina se afastou em silenciosa cumplicidade: ele deixara a barba crescer havia dois anos. Na semana seguinte, o sangramento se repetiu e a esposa ligou para o filho comunicando a novidade. Teriam combinado que ele devia suspender esses remédios que afinam o sangue e facilitam sangramento. Se o problema persistisse depois de uma semana, ele seria levado ao médico. Tão deprimido que andava, não teve ânimo para comentar que estava escarrando sangue há cinco meses.

Antes de completar a semana de observação, ele teve uma queda no banheiro, foi levado ao hospital em coma e se constatou uma grande lesão no cérebro, com características de metástase. A tomografia de tórax confirmou o pulmão como sede do tumor primitivo, como ocorre na maioria desses casos. Soube da morte do Miguel pelo jornal, procurei na ficha do consultório, e a última revisão tinha mais de cinco anos. Quando liguei para saber o que tinha ocorrido, a esposa foi sucinta: "O senhor acredita que o Miguel, teimoso como uma mula, nunca deixou de fumar? Deu no que deu!". Antes que eu dissesse que não sabia o que dizer, a ligação, por sorte, caiu. Esperei que ela retornasse. Em vão. Eu senti que tinha interrompido o tricô!

J.J. CAMARGO

11 DE AGOSTO DE 2018
DAVID COIMBRA

Azul da cor do mar

Aboa arte, em geral, nasce da dor. Tim Maia sofria. Carlos Imperial, não. Faço a comparação por ter terminado agora, tardiamente, a biografia de Imperial escrita por Denilson Monteiro, Dez, Nota Dez!, e por ter, bem antes disso, lido a biografia de Tim de autoria de Nelson Motta, Vale Tudo.

A qualidade dos livros não é muito diferente da dos artistas retratados. O texto de Motta é bem superior ao de Monteiro, mas o livro sobre Imperial também tem o seu valor. Está repleto de informações e de histórias de um tempo de luzes da música popular brasileira.

Tim Maia dizia que era preto, gordo e barulhento. Foi também pobre, antes de ficar quase rico, morou na Tijuca, foi preso nos Estados Unidos e se transformou na maior voz do Brasil.

Carlos Imperial era branco, gordo e barulhento, pertencia à burguesia da zona sul do Rio, foi preso pela ditadura e não cantava nada.

Os dois, Tim e Imperial, viviam para a música e para as mulheres. Imperial com mais sucesso com as mulheres, Tim com mais sucesso com a música.

Certa época, Imperial se sentia o rei do Rio e Tim se sentia o bobo da corte. Imperial era o descobridor de talentos do Brasil. Havia lançado Roberto Carlos, prospectara Elis Regina e fez um cantor paraguaio chamado "Juanzito" tornar-se "Fábio" e atingir razoável fama na Jovem Guarda.

Tim Maia também mudara de nome por sugestão de Imperial: ele antes se chamava Tião, de "Sebastião".

Um dia, Fábio ouviu Tim cantar e se impressionou. Percebeu, na hora, o talento singular do gordo e foi falar com ele para cumprimentá-lo. Acabaram virando os melhores amigos. Tanto que, ao tomar conhecimento da situação financeira de Tim, que não tinha nem mesmo onde morar, convidou-o para se homiziar em seu apartamento, desde que aceitasse dormir no sofá. Tim aceitou, é claro.

Aquele sofá se converteu em uma espécie de camarote do qual Tim assistia às conquistas amorosas de Fábio. Todos os dias, Fábio aparecia com uma menina nova. Umas eram sereias douradas; outras, branquinhas de leite; ou mulatas da cor do pecado que faz tão bem. Tim olhava-as desfilando em direção ao quarto, depois ouvia os gemidos do amor e, quando elas saíam, quase uivava para a lua ao sentir o aroma exalado pela mulher que se empanturrou de prazer.

Um dia, Fábio viajou e Tim ficou sozinho no apartamento. Decidiu que, enquanto o amigo estivesse fora, iria dormir na cama dele. Foi o que fez. Solitário no quarto de Fábio, Tim passava horas admirando um pôster colado na parede, em que uma doce, nua e longilínea morena caminhava pela areia, tendo o mar azul do Atlântico como fundo. Tim suspirava fitando a foto e pensava que nunca teria nos braços uma mulher como aquela. Então, surgiu-lhe a ideia de uma música. E começou a escrever:

"Ah, se o mundo inteiro me pudesse ouvir? Tenho tanto pra contar, dizer que aprendi que na vida a gente tem que entender que um nasce pra sofrer, enquanto o outro ri".

Quando Fábio retornou, Tim mostrou-lhe a canção e o paraguaio exclamou:

- Você escreveu a música da sua vida!

Em seguida, os dois correram para mostrá-la a Imperial, que certamente ajudaria a promovê-la. Imperial gostou, mas achou que poderia ficar melhor se acrescentasse um verso de sua autoria:

"Olha como tudo está tão belo

Veja como tudo é tão lindo

Penso em você meu bem?".

Tim não concordou:

- Não, Imperial, aqui só entra violino.

Imperial não desistiu. Passou dias insistindo para Tim acrescentar o verso. Tim logo compreendeu a razão de tamanho assédio: Imperial queria a coautoria na composição, que, sabia, faria história na MPB. E fez. Tim fugiu de Imperial, gravou a música como queria e Azul da Cor do Mar foi uma consagração.

Imperial não possuía o talento de Tim, mas sabia reconhecê-lo. Talvez até soubesse que jamais conseguiria fazer o que Tim fazia, por uma razão: ele não sofria. Imperial tinha o que queria e, quando não tinha, pegava. Tim, não. Tim entendia que quem sofre sempre tem que procurar razão para viver.

Tim achou sua razão para viver no sofrimento. E foi grande. Maior do que Imperial, que não sofria.

Por isso, meu amigo, não se queixe da dor: faça algo bom com ela.

DAVID COIMBRA

11 DE AGOSTO DE 2018
OPINIÃO DA RBS

O AVANÇO DA VIOLÊNCIA

Num ano eleitoral, o país precisa ouvir o que os candidatos e os diferentes poderes têm a apresentar como resposta ao clamor nacional por mais segurança para os cidadãos

Apiora nas estatísticas da violência, apontada pelo Anuário Brasileiro de Segurança, é um indicativo de que o modelo policial e penal no país está falido e cada vez mais longe de conseguir dar a resposta que a sociedade exige para o combate à criminalidade. Não haverá reversão se a situação continuar como está, com a polícia claramente enxugando gelo, com base em estratégias e leis que já se mostravam ultrapassadas no século passado. O país não tem como permanecer impassível diante de um total de 63.880 mortes violentas intencionais em 2017, o que significa uma média de sete a cada hora.

O aumento de 3% nas estatísticas da criminalidade, em relação a 2016, fez com que, pela primeira vez, a taxa de mortes violentas tenha ultrapassado 30 casos por 100 mil habitantes. Mesmo no Rio Grande do Sul, que no ano passado registrou queda no total de latrocínios e estabilidade no de homicídios, a situação preocupa. Além de ser o quinto em número de estupros e terceiro em feminicídios, o Estado ocupa o sexto lugar em latrocínios e o oitavo em homicídios. É o que indicam os dados divulgados durante a realização do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em São Paulo.

O país precisa de ações de curto prazo, como policiamento e retirada dos criminosos das ruas. Mas é importante que possa colocar em prática principalmente iniciativas de longo prazo, com potencial para prevenir a entrada no crime ou reincidência. Isso significa conferir mais ênfase à educação, de forma continuada, e apostar mais no uso de inteligência e de inovações tecnológicas, entre as quais a mais conhecida são as tornozeleiras eletrônicas. Alternativas como a ênfase na construção de presídios, além de caras, têm se mostrado menos eficientes na redução da violência. Na prática, confinar usuários de drogas e pequenos traficantes acaba muitas vezes servindo mais para fortalecer líderes de facções do que para combater o crime.

Só agora, quando o avanço da criminalidade já parece irrefreável, o Executivo começa a acordar da letargia. O Poder Judiciário e o Congresso são decisivos nesse enfrentamento. Mesmo assim, ainda parecem tratar com certa normalidade e distanciamento o acelerado processo de ascensão no número de mortes violentas. O Legislativo, especialmente, precisa assumir protagonismo e não se limitar apenas a transferir para o Executivo, como acontece frequentemente, o ônus político de vetos a medidas demagógicas ou ineficientes.

Particularmente num ano eleitoral, o país precisa ouvir o que os candidatos e os diferentes poderes têm a apresentar como resposta ao clamor nacional por mais segurança para os cidadãos.

11 DE AGOSTO DE 2018

INFORME ESPECIAL


OLHA O PASSARINHO


A carteira da Agência Nacional de Aviação Civil com a foto de um passarinho, autorizado oficialmente a voar, me provocou uma gargalhada. O documento é uma das peças do quebra-cabeça montado pelo catarinucho Walmor Corrêa, um dos mais consistentes e respeitados artistas brasileiros.

Hiper-resumo: Walmor encontrou, em um museu de Washington, uma ave empalhada e indigente, sem documentos nem história. Curioso e sempre caçando as vírgulas, descobriu, recorrendo a ornitólogos, que era de uma espécie incidente no sul do Brasil. A partir daí, desafiando com leveza os limites entre ficção e realidade, (re)construiu a identidade do bípede exilado. Confeccionou um passaporte brasileiro com visto americano, um RG e a carteirinha que me fez rir.

Na terça-feira, cheguei mais cedo ao Instituto Ling, em Porto Alegre. Ao lado do artista, percorri a exposição Walmor Correa e Sporophila Beltoni. Foi então que gargalhei. Pouco depois, Walmor foi cumprimentar um amigo que chegava.

Aproveitando a brecha, minha filha mais moça, 12 anos, ar levemente preocupado e curioso, perguntou:

- Pai, será que ele se importa que achem graça?

Eu já havia conversado com o Walmor sobre riso e arte. Nada disse à minha filha. Esperei uma oportunidade e questionei novamente, anos depois:

- Walmor, o que tu sentes quando as pessoas riem ao olhar o teu trabalho?

Suave e feliz, respondeu que adora. Que a arte existe para provocar reações e que o riso é uma das mais nobres.

Antes da abertura da exposição, houve a palestra. Falou também o curador Paulo Myada. Compenetrado, sério, profundo. Talvez nervoso com a presença da plateia, nada disse sobre o humor previsível diante do estranhamento causado pela coleção ali distribuída.

O riso é vítima de preconceito. Não posso ser definitivo sobre o curador. A ausência do tema apenas me abriu o link: a gargalhada muitas vezes é tratada como uma dimensão menor de uma produção cultural que só adquire valor se compreendida por poucos e que, para isso, precisa de sisudez e complexidade. Distante, muito distante do público sufocado por teses rebuscadas e que acaba tendo vergonha do jeito mais direito de gostar da arte.

Justiça seja feita, a concepção da exposição é delicada, linda e faz sentido. Há espaço entre as obras, há respiro e respeito. Se você for visitá-la, pode rir à vontade. O artista não se importa. Mais do que isso: ele curte.

TULIO MILMAN

sábado, 4 de agosto de 2018


04 DE AGOSTO DE 2018
LYA LUFT

Ter amigos


Quando pequena, eu tinha poucas amigas reais: não se usava muito isso de dormir ou comer na casa dos outros, não havia praticamente vizinhas da minha idade, e levei muito tempo para me adaptar ao Jardim de Infância. Pra variar, chorava tanto, e por tanto tempo, que acabava não ficando. Mas eu tinha amigos imaginários, de que já falei: uma família inteira. Familinha, diminutos, vestidos de verde, chapeuzinho pontudo. Eu os sentava no peitoril da janela e conversava com eles. Imaginação infantil ou de verdade gnomos benfazejos? Criança enxerga o que adultos há muito deixaram de ver.

Na escola, comecei a entender amizade e coleguismo. Afinal, já podia visitar amigas e elas vinham à minha casa. Sempre havia as mais ligadas a mim e as mais ligadas entre si: eu, em geral a mais novinha e maior, mais pateta para muitas coisas, ficava um pouco de fora. Mas adorava dançar de mãos dadas no pátio da escola, cantiga de roda, sobretudo - ao entardecer nos dias de calor - na calçada de casa. Quando se usava calçada para brincar, conversar, não só para andar depressa, olhando sobre o ombro, bolsa apertada no peito.

Nem sempre eu podia, nem sempre me deixavam, pais amorosos mas preocupados e, em algumas coisas, rígidos. Quando, já escurecendo, a criançada ainda corria ou girava na rua, eu tinha de entrar: banho, comer e cama. Surgiram daí minhas revoluções bobas e prematuras: "Por que tenho de entrar se as outras podem continuar brincando? Por que tenho de comer e logo dormir? Por que, por que, por quê? A resposta, em geral, era: "Porque eu quero". Ou: "Porque você não é as outras". "Mas então eu sou pior?" "Não chateia, menina."

Por isso e outros motivos, sempre desejei crescer. Ser jovem, adulta, entrar na maturidade, envelhecer: cada vez ficaria mais independente, mais livre. "Ninguém é livre", me diziam. É, sim, eu teimava. Livre para ler ou caminhar quando quisesse, para dormir quando sentisse vontade, para comer algo além de purê de batata, peito de frango, saladinha e canja. Poder dizer coisas bobas e dar risada fora de hora sem ficar de castigo no corredor, fora da sala de aula, por causa de uns irreprimíveis frouxos de riso. (Que ainda tenho hoje...)

Mais tarde, surgiram as grandes, verdadeiras amizades. Cedo vim para cá para fazer faculdade, e Porto Alegre me adotou definitivamente, então tenho poucas amigas de infância, mas algumas de muitas décadas. Se a gente pouco se encontra, estamos juntas no Whats ou no Face, e viva o cyberspace. Estamos ao alcance de um telefonema, e aqui e ali nos vemos. Muita risada, lembrança engraçada ou novidade triste - porque uma desvantagem do passar do tempo é que morrem mais pessoas queridas do que quando éramos moços. Também tenho amigos jovens, o que me ensina, comove e diverte.

Amigo, esse que não cobra, não trai, não tem inveja nem ciúme, nem te deixa na mão - e, mesmo quando não te entende, te curte -, como eu espero ser para os meus, é um tesouro que o tempo não corrói, e que de um jeito ou de outro nos salva.

LYA LUFT

04 DE AGOSTO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

Tudo É Rio


É bem possível que você nunca tenha escutado falar em Carla Madeira, mas sugiro que abra espaço para ela entrar em sua vida. Até o final de 2018, espero que essa autora mineira já esteja encabeçando as listas dos mais vendidos, que esteja sendo disputada para entrevistas e que esteja recebendo propostas de editoras para lançar algum novo livro, já que o de estreia, Tudo É Rio, deixa evidente que ela chegou para ficar - é a revelação literária do ano (não tenho autorização de ninguém para decretar coisa alguma, não li tudo o que foi lançado até aqui, mas estou me permitindo usar o entusiasmo como critério).

Tudo É Rio é uma obra-prima, e não há exagero no que afirmo. É daqueles livros que, ao ser terminado, dá vontade de começar tudo de novo, no mesmo instante, desta vez para se demorar em cada linha, saborear cada frase, deixar-se abraçar pela poesia da prosa. Na primeira leitura, essa entrega mais lenta é quase impossível, pois a correnteza dos acontecimentos nos leva até a última página sem nos dar chance para respirar. É preciso manter-se à tona ou a gente se afoga.

É a história de Dalva e Venâncio, um casal apaixonado que passa por uma perda que transfigura o seu destino, e de Lucy, a prostituta mais despudorada da cidade, que se intromete no caminho desta dupla, formando um triângulo que poderia ser clichê, não fosse a habilidade de Carla em conduzir a trama para longe do lugar-comum e de dominar o erotismo - ela narra o explícito sem ser vulgar, ela perturba e fascina, é atrevida e lírica, louca, lúcida.

Carla dá até raiva na gente. Como assim, um livro de estreia tão potente, tão perfeito, tão pronto? Mas, diante da excelência, não adianta esbravejar, manda a humildade que façamos nossa parte: divulguemos. Mesmo o produto sendo da maior qualidade, sem divulgação o milagre não acontece, os leitores não ficam sabendo, e autor nenhum deseja escrever apenas para meia dúzia de parentes, com todo respeito aos nossos tios e primos. 

Carla merece que seu livro passe de mão em mão e, para isso, ela precisa do boca a boca. Os sortudos, como eu, que já tiveram o privilégio de conhecer seu trabalho, têm o dever de chamar a atenção para esta joia que talvez permaneça escondida nas prateleiras das livrarias em meio a tantos outros títulos. Não bastasse o prazer da leitura, atenção, cineastas: daria um filme magnético.

Tudo É Rio, como sugere o título, é líquido. Suores, lágrimas, sêmen, sangue, saliva. Mas Carla consegue não deixar cair um pingo pra fora da narrativa, a prosa nunca escorre para o sentimentalismo barato, não há enchente, transbordamento, excesso - a precisão de sua literatura é absoluta (navegar é preciso).

A única que está se derramando aqui sou eu.

MARTHA MEDEIROS


04 DE AGOSTO DE 2018
CARPINEJAR

Carro dos Zé

Meu amigo Zé queria vender o seu Santana branco, 1987.

Até que recebeu uma ótima proposta de compra. O valor superava as suas expectativas. Era alvo da obsessão de um colecionador, que não mediria esforços para concretizar o acerto. Bastava somente acenar afirmativamente a cabeça e selar o interesse com o cumprimento.

Só que Zé lembrou que era o carro dado pelo seu pai falecido, também Zé.

Lembrou que eles brincavam que era o veículo dos Zé.

Lembrou que não tinha outra herança paterna tão significativa.

Lembrou que esse caixão não deixaria a terra levar.

Lembrou que ele conhecia o mal-estar das estradas pelo ronco do motor.

Lembrou que cursou uma universidade inteira indo e voltando naquela carroceria.

Lembrou que assimilou ali macetes do volante, como dirigir na banguela.

Lembrou que começou e desfez namoros em seu banco cinza.

Lembrou da quantidade de tempestades e geadas que atravessaram juntos.

Lembrou que já foi ao Rio de Janeiro com amigos, em madrugadas viradas.

Lembrou que é o único lugar de sua vida que ainda tem toca-fitas.

Lembrou que o vidro não é automático e o quanto gostava de certas operações manuais, como girar a manivela para receber o vento na cara.

Lembrou que apenas não desaprendeu a rezar porque sempre tem a sua frente a lomba da Lucas de Oliveira.

Enquanto recordava das três décadas de história, mudou o seu semblante na negociação, de esperançoso a melancólico, e passou a boicotar a própria posse:

- Serei sincero: o câmbio não funciona, a seta tranca, faz tempo que não passa por revisão, vive me deixando na mão, engole gasolina que nem doido...

Foram tamanhas as críticas desferidas que o interessado recolheu a oferta silenciosamente e agradeceu a honestidade.

Zé nunca venderá o Santana branco, 1987.

Não é pelo preço, mas pelo apreço.

CARPINEJAR


04 DE AGOSTO DE 2018
PIANGERS

O nome certo para as coisas


Uma mulher me apresenta a filha como sendo "filha do coração". Presumo que seja adotada. Estão juntas há tanto tempo, pergunto se só "filha" não seria o bastante. "É", ela diz. Um homem me apresenta dois garotos, "meus enteados, mas é como se fossem meus filhos", ele diz. "Então, são filhos", respondi. São filhos da sua companheira, mas se você os trata como filhos, se eles chamam você de pai, oras, pra que "enteados"?

Uma mãe me conta que o pai dos seus filhos mal aparece, mas que o padrasto deles é atencioso e muito participativo. "Este é o pai, então", eu disse. Ela não entendeu. "Não, esse é o padrasto. O pai de verdade nem participa de nada", me respondeu. "Se não participa, não é o pai de verdade. O pai de verdade é esse. Se participa e faz tudo, se é companheiro e carinhoso com as crianças, esse é o pai. O outro é um tio", disse eu.

Precisamos dar o nome certo para as coisas. Se é como se fosse um filho, é filho. Se é como se fosse um pai, é pai. Se é como se fosse um estranho, é estranho. Por isso, costumo dizer que não tenho pai. Porque não tenho. Tem um homem que deu uma célula - uma célula! - pra minha mãe, e ela transformou aqui nisso que eu sou. Ela fez tudo. Tive mãe. Não tive pai.

Quando alguém me diz "pai de verdade" pra se referir a um pai que não participa, ou "filho adotivo" pra se referir a um filho de verdade, doem meu ouvido e o peito. Quando um filho ouve o tempo todo que é adotivo ou enteado, se sente menos filho. Quando um pai ouve o tempo todo que é "como se fosse um pai", é menos pai.

É tanta família misturada hoje em dia, buscando ambiente de amor e afeto, que é muito injusto chamar pelo nome errado. A gente tem que dar o nome certo. "Filho de coração", "enteado", "pai adotivo", esses termos distanciam. Filho é filho, e chamá-lo assim é uma declaração de amor. O mesmo vale pra "pai" e "mãe". São declarações de amor. É eu te amo disfarçado de substantivo. É o nome certo para as coisas.

PIANGERS

04 DE AGOSTO DE 2018
SINGULAR

TERRA LONGÍNQUA E DE DIFÍCIL ACESSO

Quem nasce e cresce em Walachai carrega essa singularidade que atravessa gerações: para um filho da localidade, o passado jamais é esquecido. É reverenciado.

Basta caminhar na comunidade que um dia foi identificada pelos desbravadores como "terra longínqua e de difícil acesso" - é este o significado do nome, em alemão antigo. O fundador, Mathias Mombach, foi homenageado com o nome da única avenida pavimentada da comunidade. Na mesma via, as casas centenários em enxaimel - técnica trazida pelos imigrantes alemães, cujas paredes são montadas com pilares de madeira encaixados e os espaços entre eles preenchidos com barro ou tijolos - distinguem-se das casas de alvenaria recém construídas. No cemitério, túmulos erguidos ainda no final do século 19, com frases escritas somente em alemão, dividem o mesmo espaço com jazigos recentes.

Se nas ruas e no comércio local o dialeto hunsrückisch - trazido pelos primeiros moradores, há quase dois séculos - segue vivo, dificilmente se encontra alguém que sabe escrevê-lo. O hunsrückisch sobrevive quase exclusivamente por meio da comunicação oral entre os habitantes de Walachai. Palavras em português surgem misturadas em meio aos diálogos - quando não existe tradução para elas.

Nos primeiros 110 anos de existência de Walachai, os imigrantes jamais aprenderam português no povoado. No início da década de 1940, porém, tudo mudou. À época, em meio à II Guerra Mundial, o Brasil declarou guerra contra a Alemanha, e o então presidente Getúlio Vargas assinou um decreto proibindo que se falasse em alemão publicamente em território nacional. Foi a partir da lei que a escola de Walachai passou a ensinar a Língua Portuguesa. Moradores mais antigos contam que quem se negasse a se expressar em português recebia castigo. Poucos aprenderam a se comunicar nas duas línguas. Talvez venha daí o isolamento que por décadas deixou a região ainda mais distante das localidades vizinhas do Vale do Paranhana.

Hoje, a maior parte da população local já se comunica em português por necessidade de adaptar-se à evolução da região e à chegada de moradores de outras partes do Estado. Mas o único lugar da localidade onde o hunsrückisch não é a língua padrão segue sendo a Escola de Educação Infantil e Ensino Fundamental Rui Barbosa, que tem, no total, 122 alunos.

Quando cruzam a entrada principal da instituição, as crianças não são proibidas de falarem o dialeto, mas, isso sim, estimuladas a se comunicarem apenas em português. Como em todas as escolas do município, o alemão padrão - que tem diferenças, na comparação com o dialeto - é disciplina regular e praticada em sala de aula uma hora por semana. A atual professora de alemão e ex-diretora da instituição Keina Werle Backes, 34 anos, que morou na localidade por dois anos, recorda que até cerca de uma década os alunos da educação infantil chegavam à Rui Barbosa apenas se comunicando em hunsrückisch.

- Gradativamente, isso foi mudando. Hoje, são exceções os que chegam à escola falando só no dialeto. Acredito que seja porque as mães começaram a trabalhar em outras áreas que não a agricultura, e aí tiveram de deixar os filhos nas creches ou com as tias crecheiras, que falavam português. A escola não proíbe o aluno de falar o hunsrückisch. Porque se expressar na língua materna é sempre mais fácil em momentos de tensão ou quando ocorre, por exemplo, um conflito. O dialeto segue sendo estimulado nas famílias porque os mais velhos não falam português. Por isso, esse alemão segue sendo difundido entre os mais jovens de Walachai - explica a professora.

Preocupada com o futuro da localidade, em 2015 e 2016 Keina propôs aos familiares dos estudantes viagens para outras partes do Estado. Em cada uma delas, fazia questão de convidar os pais para seguirem junto, nos ônibus que cruzavam o Rio Grande do Sul rumo a paisagens até então desconhecidas para todos. Em 2015, com um ônibus repleto de alunos do quinto ano e alguns parentes deles, Keina atravessou 960 quilômetros de ida e volta até São Miguel das Missões para que os moradores assistissem ao espetáculo de som e luz de Natal em meio às ruínas jesuíticas. Saíram de madrugada e retornaram após o evento. No ano seguinte, a professora levou dois ônibus até Pelotas, para visitarem a Fenadoce. Foram mais 760 quilômetros de ida e volta.

- Me chamava atenção o desconhecimento deles sobre o que existe fora daqui. Só viam e ouviam pela televisão e pela internet. Minha ideia sempre foi mostrar o mundo lá fora para que valorizassem a própria comunidade. Em Walachai, os pais passam para os filhos a responsabilidade de preservarem as histórias de suas famílias - justifica a professora.

Mas, diferentemente da explicação de Keina, a agricultora Magdalena Büttenbender Dieter, 60 anos, não sabe para quem deixará as terras que já estão sob os cuidados da quinta geração. As filhas Ana, 23 anos, e Maria Marta, 26, optaram por trabalhar num supermercado de Morro Reuter. Magdalena e o marido, Carlos Leopoldo Dieter, 58 anos, são os únicos responsáveis pela lavoura de aipim e pelo cuidado com as vacas leiteiras. Eles produzem e comercializam queijo nas redondezas. Para ampliar a renda familiar, o casal cuida de um bar no balneário de Rio Loch, que pertence a Walachai, na divisa com o município de Santa Maria do Herval.

Assim como os Berg, a família também segue vivendo nas duas casas construídas pelos antepassados. Uma serve abriga os quartos, e a outra, a sala e a cozinha. Apenas uma operadora telefônica funciona na região. Conectada, Ana sabe direitinho em quais locais da casa o sinal de telefonia fica mais forte: na escada do banheiro e junto à estante do aparelho de televisão.

Na casa dos Dieter o dialeto é a língua falada. Ana prefere responder em português, mas acaba sendo convencida a seguir falando em hunsrückisch.

- Aqui tu tens a tua paz, mas é afastado de tudo. Tenho um carro, e isso facilita a vida para sair de Walachai - conta Ana.

Há dois anos, Magdalena precisou sair da comunidade mais do que gostaria. Ao descobrir um câncer de mama, teve de realizar o tratamento em Porto Alegre, onde segue com consultas de reavaliação. As fortes doses de quimioterapia e radioterapia fizeram com que a agricultora perdesse quase todos os dentes. Hoje, Magdalena pouco sorri por ter vergonha. Mas mantém o bom humor e, principalmente, a força necessária para seguir trabalhando diariamente na lavoura. Sozinha, arranca e carrega até 20 quilos de aipim nas costas numa única ida à plantação. A força e a destreza são tamanhas, que Magdalena nem segura o saco pesado. Coloca-o sobre um ombro, com um dos braços dobrado na cintura. O esforço que precisa fazer para carregar o alimento das vacas a faz caminhar curvada.

- Minha vida é esta e gosto dela. Quero muito que uma das minhas filhas assuma a nossa função, mas sei que elas têm outros planos. Minha esperança é que uma delas mude de ideia - desabafa Magdalena.

04 DE AGOSTO DE 2018
LEANDRO KARNAL

O DEUS DAS PEQUENAS COISAS




Historiador, professor da Unicamp, autor de, entre outros, "Todos Contra Todos: o Ódio Nosso de Cada Dia".

Existe a grande ética, aquela analisada por Aristóteles e que fala das escolhas corretas para atingir a felicidade verdadeira. Também a grande ética contemporânea trata da lisura nos negócios públicos e privados e inunda nossas manchetes há alguns anos. A grande ética filosófica e política é um debate fundamental e uma prática indispensável. Hoje quero tratar da pequena ética, a etiqueta.

Muita gente imagina que aprender etiqueta é distinguir o copo correto para o vinho adequado, a maneira apropriada de segurar o escargot ou instruções para que o uso da lavanda seja natural. Lembrem-se: alguém de família aristocrática nunca precisou de uma aula sobre a lavanda porque nasceu vendo seu uso. O nosso nobre não aprendeu o correto uso do guardanapo com uma professora de boas maneiras ou em algum livro, ele viu sua mãe usando desde a infância. O ramo formal da etiqueta tem algumas regras de bom senso e outras absolutamente ridículas. Volto à origem do termo. No Antigo Regime, quando alguém que não pertencia ao círculo da polidez da nobreza recebia um convite para visitar a corte, recebia uma etiqueta, um pequeno "rótulo" com as instruções do que fazer e do que não fazer.

Não quero falar do campo do uso dos garfos e facas. Não desejo distribuir etiquetas de visita ao rei. Quero falar da etiqueta como pequena ética. O centro da etiqueta é fazer com que meu comportamento exista em harmonia com os outros, sem perturbar, invadir, desagradar ou agredir pessoas de forma intencional. Se a grande ética mira na convivência da polis e das suas instituições, a pequena ética fala do respeito microfísico do poder da gentileza. Explorei a relação entre ambas em um texto de 2016.

No recorte que quero abordar hoje, o primeiro passo é multiplicar expressões que me desloquem do centro do universo. Com palavras e gestos, devo indicar que faço parte de um todo maior e que existo, mas não vivo isolado. Assim, "por favor", "com licença", "muito obrigado" e o coloquial "me desculpe" indicam que desejo me harmonizar com outras pessoas, respeitar suas existências. Todos os indivíduos que me proporcionam benefícios devem ser notados para retirar seu caráter de robôs e reintegrá-los ao mundo humano. O "por favor" e o "muito obrigado" têm, ambos, o dom de aplainar o automatismo das ações, reconhecer que existe um ser humano que está me servindo e que, por pequeno que seja o gesto, deve ser notado. Se o gesto for feito por alguém que não tem nenhuma necessidade de me dirigir uma ajuda, as expressões se tornam mais enfáticas ainda. Se a pessoa que me serve, por motivos profissionais, cumpre seu estatuto laboral, as duas expressões revestem o servido com a aura da gentileza e da humanidade, reconhecendo o bom serviço e o humano que ali trabalha e cumpre bem seu ofício.

"Com licença" implica a plena consciência de que necessito invadir um espaço que não é meu. O coloquial e proclítico "me desculpe" afirma ao mundo minha falibilidade e meu arrependimento por um gesto ou expressão inadequados. Um pedido de desculpas, pequeno ou grande, é o simbólico reconhecimento da nossa igualdade e de que somos perfectíveis, não perfeitos.

As quatro expressões utilizadas devem ser enunciadas de forma clara e olhando nos olhos da pessoa. Sem esse cuidado, ingressam no campo do automatismo e deixam de ser uma pequena ética para se diluírem no campo oco da formalidade fria.

A cena se repete diariamente nos restaurantes. O indivíduo faz um pedido olhando para o prato ou, pior, digitando algo no celular. Sem contato visual e com a voz projetada para baixo, amiúde não é entendido e chega a se irritar com a falha que, na origem, é dele. Depois, recebe o pedido e de novo não agradece ou sorri. Malgrado o gesto grosseiro e vulgar, utiliza o talher correto para o peixe e harmoniza o vinho com sabedoria. Ele compreendeu o acessório e ignorou o principal. Se fosse um católico, saberia todas as respostas da missa com clareza, só não sabe o sentido real da sua presença na igreja.

A gentileza é a chave da etiqueta. Meu amigo Clóvis de Barros Filho acaba de lançar um livro fascinante sobre o tema: a leitura é obrigatória para quem deseja melhorar como pessoa (Shinsetsu - O Poder da Gentileza, editora Planeta).

A etiqueta empurra nosso egocentrismo para a jornada de purificação e o começo da ascensão moral. A gentileza é a chave de uma canastra inaudita que libera surpresas positivas. Ser gentil desarma cenhos e punhos. A gentileza é o deus das pequenas coisas, o antídoto ao Neandertal permanente que nos acompanha no trânsito, à mesa e no leito. A grosseria é densa e esconde nosso ser dos outros, pois é uma defesa. A gentileza traz à tona o melhor de cada um.

De tudo o que já escrevi na minha vida, o texto de hoje é o que mais eu preciso ler, reler, refletir e tentar seguir o que recomendo aos outros. Meu troglodita interno é vivo, forte e altivo. Sob a pátina de civilizado há em mim um homem primitivo e tosco. É uma luta. Sou derrotado com frequência, todavia tento, tento e tento novamente. Todas as muitas vezes que eu não consigo, peço licença a vocês, dou meu muito obrigado ao carinho e, por favor, aceitem meu proclítico "me desculpem". É preciso manter a esperança.

LEANDRO KARNAL

04 DE AGOSTO DE 2018
EM FAMÍLIA

UM ALMOÇO DE DOMINGO DURANTE A SEMANA INTEIRA, 24H POR DIA

GRUPOS DE FAMÍLIA NO WHATSAPP FACILITAM A COMUNICAÇÃO, MAS PODEM GERAR DIVERSOS DESENTENDIMENTOS
Antes mesmo de lavar o rosto ou arrumar a cama, Jaqueline Durgant, 53 anos, começa a manhã respondendo as mensagens de "bom dia!" no grupo da família no WhatsApp. Para ela, não é chateação - a empregada doméstica é uma das mais empenhadas em manter a tradição que liga os Durgant da Capital, do Interior e de Santa Catarina.

- Todo mundo tem que dar bom dia - explica. - E, se não responde, já chama no privado para ver se está magoado.

Invenção valiosa para aproximar o parente que mora longe, mas danada para quem tem pouca paciência ou pavio curto, o grupo de família no Whats chegou para ficar. A empresa não divulga estimativa de quantos existem, mas nem mesmo a família mais célebre do planeta escapa: no começo do ano, o marido de uma neta da rainha Elizabeth revelou ao The Daily Mirror que a realeza britânica também usa a ferramenta.

Além de notificações que não acabam mais, o resultado é um onipresente churrasco de domingo, a semana inteira, 24 horas por dia. Está tudo lá: corneta de futebol, discussão por causa de política, fotos constrangedoras, um festival de piada de tiozão (literalmente) e os monólogos da tia tagarela, que viram áudios de cinco minutos - ou mais.

O que está lá também, segundo a terapeuta cognitiva e professora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da PUCRS Carolina Lisboa, é um conflito de gerações entre quem já nasceu na era tecnológica e quem está começando a usar esses aplicativos. Isso explica as listas em blogs e perfis no Instagram com engraçados mal-entendidos envolvendo os mais velhos. Ou então é o parente de mais idade que pode não entender algum emoji ou abreviação e achar algum comentário dos mais jovens desrespeitoso.

Mas o grande perigo desses grupos é que na conversa pelo aplicativo não há todos os elementos da comunicação "olho no olho", segundo Carolina, o que pode levar alguém a falar a coisa errada, na forma errada ou no momento errado - e iniciar um desentendimento.

- No grupo de família, já se tem o pressuposto de que todos são íntimos, então, há uma certa legitimidade para falar o que quiser. E no Whats ainda há a facilidade de mandar a mensagem com um clique. Às vezes, isso é uma bomba - afirma Carolina.

Depois de algumas brigas, a solução encontrada pela família de Rosangela Martins, 41 anos, foi fragmentar o grupo da Grande Família. Hoje, eles têm o grupo da esquerda, o da direita e um focado na organização de festas.

- Quando começamos com os grupos, nem me dava conta de que tinha tanta diferença (entre os parentes) - diz a funcionária pública.
JÉSSICA REBECA WEBER

04 DE AGOSTO DE 2018
J.J. CAMARGO

HOUVE UM TEMPO EM QUE SÓ TÍNHAMOS QUE SER MÉDICOS

O atual sistema de saúde pública respira com ajuda de aparelhos porque, lá na sua origem, não houve a preocupação de provê-lo de recursos para acompanhar as mudanças impostas por duas variáveis previsíveis e que se revelaram devastadoras para um modelo romântico, surreal e meio demagógico: o incremento exponencial de dependentes em função da falta de planejamento familiar da população mais necessitada e o aumento real do custo da medicina moderna enriquecida de tecnologias em constante evolução. Ninguém ousaria considerar lamentável o aumento da idade média da população, observável em curva ascendente a cada década, mas também nenhum gestor pode ignorar o quanto a festejada maior longevidade acrescenta de despesas com o cuidado de mais doenças degenerativas.

Na medida em que o custeio da saúde pública ficou insustentável, os planos privados de saúde suplementar assumiram um protagonismo cada vez maior e, como não podia ser de outra forma, com visão empresarial, o que transformou os pacientes em clientes externos e seus tratamentos em códigos e números que passaram a ser regidos por projeções e metas. Para a prosperidade do negócio saúde, a figura do médico passou a ser considerada essencial, porque, afinal, ele não podia sair por aí prescrevendo ingenuamente tratamentos que onerassem o plano, corroendo a margem de lucro do empresário que, em nome do crescimento da empresa, impõe limites de gastos. E, assim, o plano disponível, na hora de usar, em nada se parece com o da publicidade.

O crescimento de algumas empresas do segmento saúde foi extraordinário, a ponto do dono de uma delas (que era médico) ter declarado sem nenhum pudor que atribuía o seu sucesso empresarial astronômico ao privilégio de contar com uma mão de obra qualificada e barata, que era a classe médica brasileira. Não se ouviu mais do que resmungos de alguns dos 450 mil tripudiados existentes no país e que aparentemente estavam tão ocupados com os cuidados de pessoas doentes que nem perceberam a extensão do ultraje. Quem paga por algum serviço sente-se, justificadamente, no direito de exigir contrapartida, e, então, o médico brasileiro se converteu inesperadamente em marisco, espremido entre o mar de exigências dos pacientes e a inflexibilidade do rochedo empresarial.

Como o pobre paciente não tem conhecimento dos meandros do processo, o médico, única ponta visível do sistema, passou a ser visto como um para-choques das mazelas da saúde, pública ou privada, e descobriu-se vulnerável diante de crescentes demandas judiciais.

Neste fogo cruzado de interesses escusos, ele tem tentado sobreviver com a dignidade e o respeito historicamente destinados aos médicos de verdade. E haja esforço para preservar a altivez nestes tempos de honorários baixos, condições de trabalho precárias, ministros desqualificados (o último a debandar - graças a Deus - foi capaz da desfaçatez de dizer que os médicos brasileiros precisam parar de fingir que trabalham), e pressão dos planos de saúde para que o médico seja também um gestor de gastos, com o objetivo de preservar seu empreguinho de salários degradantes. Para quem achava que pior não podia ficar, uma surpresa: podia. Se um doente processar o médico, ele se descobrirá absolutamente sozinho e seus pedidos de apoio dos contratantes serão ignorados.

Com este cenário de fogo amigo, tenho ensinado aos médicos jovens que, em uma demanda judicial, eles só encontrarão quem os defenda se tiverem priorizado integralmente o interesse do paciente, ou seja, o médico também tem que ser, o tempo todo, o advogado do cliente. E com uma fidelidade ideológica inabalável, como se vê em alguns ministros do Supremo.

J.J. CAMARGO