domingo, 26 de agosto de 2018


25 DE AGOSTO DE 2018
CARPINEJAR

Vodu dos documentos


Em todas as vezes em que eu fui tirar a foto para um documento, o mundo desabou, o carro estragou, passei a noite em claro.

É uma sina. No passaporte, a minha cara é de traficante. Na identidade, a minha lata é de terrorista. Nunca dou sorte. Ainda mais agora que não há mais como levar fotinho 3x4 e encomendar um layout mais simpático. As fotografias são feitas nas repartições na hora e baixadas imediatamente sem compaixão e repescagem.

Perdemos o romantismo do banquinho e do fundo branco dos estúdios. Minhas melhores fotinhos são da infância, quando os pais me levavam, todo arrumado, para os cliques do lambe-lambe da avenida Protásio Alves.

Mobilizei esforços para caprichar na carteira de motorista. Mas, para variar, a escrita torta do destino usou novamente o seu garrancho comigo. Não dormi preso no banheiro, com dores de barriga, depois de um churrasco exagerado de madrugada com amigos do futebol. Juro que a minha feição é de febre amarela, cadavérica, olhos sugados pelas olheiras, pele de iogurte vencido. É retrato adequado para aposentadoria por invalidez na Previdência, não para mostrar que sou capaz ao volante. Talvez, numa blitz, os guardas tenham pena de mim e chamem o Samu.

Serão cinco anos tendo que lidar com essa imagem fúnebre e hospitalar. O triste de renovar documentos é que eles duram muito tempo e não existe como intervir com filtros e Photoshop.

Pode reparar, na identidade, ninguém é bonito como no Instagram.

Acabei por produzir provas contra mim.

Quando estava cadastrando as minhas digitais e posto no paredão da câmera, na cabine ao meu lado uma mulher pediu para ver como ficou a sua foto. Nem esperou o atendente responder, virou o monitor do computador para si e gritou:

- Nunca será! Estou uma bruxa. Só ex vai gostar disso.

Pegou a sua bolsa e explicou para o funcionário:

- Vou para a casa me maquiar e já volto.

E saiu para colorir o livro dos seus traços. Pena que não partilhei da mesma coragem.

CARPINEJAR

25 DE AGOSTO DE 2018
PIANGERS

São todos nossos filhos


Não tenho problema algum com comentários maldosos, acho-os divertidos, consigo ver a graça na perversidade, desde que inofensiva. Imagino como é prazeroso, para uma pessoa sem filhos, comentar sobre o filho dos outros. "Aquele é uma pestinha!", dizem alguns. "Sabe uma creche boa para aquele ali? A prisão!", já ouvi de uma amiga. Acho graça, quero crer que é brincadeira. Malvadezas colocam pra fora esses nossos demônios. Todos os temos.

Me incomoda, apenas quando, de tanto nos permitirmos falar barbaridades, acabamos nos tornando bárbaros. Cuidado com o que finge ser, pois você é aquilo que finge ser, disse o escritor. Nossas brincadeiras a respeito das crianças, de vez em quando, escorregam pra realidade. Gritamos com crianças, arrancamos-lhes coisas das mãos, damos castigos, batemos nelas. Reclamamos de crianças em viagens de avião, odiamos pequenos nos restaurantes, criamos ambientes onde é proibida a presença de menores. Odiamos, assim, nós mesmos. Fomos todos crianças um dia, talvez piores do que estas.

Em primeiro lugar, crianças são o reflexo dos pais. Crianças mal-educadas são sempre uma derivação quase impecável do comportamento adulto. São muitos os lugares onde é proibido entrar crianças, cheios de adultos se comportando mal. Hotéis e restaurantes onde você vai pra se ver longe dos filhos, cheios de adultos inconvenientes, bebendo e falando alto.

Segundo, crianças mal-educadas são a minoria. A maioria das crianças é dócil, amável, está em processo de aprendizado. Choram quando estão desconfortáveis, derramam líquidos tentando equilibrá-los. São filhos de todos nós. Estamos juntos nessa: é responsabilidade de todos criá-los. "Problema é da mãe", já ouvi. Maldade. O problema é de todos nós. Crianças serão a sociedade que queremos no futuro. Cuidarão (ou não) de nós quando formos velhos. Formá-las educadas, amáveis e justas é cuidar de todos nós.

Ajudar uma mãe no aeroporto, ao invés de julgá-la. Respeitar um pai que precisa faltar ao trabalho pra ficar com o filho, ao invés de diminuí-lo. Conversar com crianças com gentileza quando não se comportam. Ajudar a cuidar de todas as crianças que aparecem na nossa frente, sem achar que é obrigação apenas da mãe ou da escola. É um exercício diário de ir contra nosso instinto malvado. De cuidar de todos como se fôssemos um. Somos todos pais da próxima geração.

PIANGERS

25 DE AGOSTO DE 2018
ANA CARDOSO

Tadinho do homem sem uma mulher

Ainda tem gente que tem pena de homem que se separa e não se casa de novo.

"Tadinho, tem que se virar", ouvi da avó de uma colega da Anita, se referindo ao seu nenê de 43 anos. Imaginei o pobre homem cozinhando feijão, estendendo as cuecas no varal, fazendo a lista de compras. Correu uma lágrima. Mentira.

Eu fiquei quieta. Estou assim agora, não quero problematizar e brigar com todo mundo.

As meninas estudam. Vão para a escola, se esforçam, engolem diversos sapos e muitas de nós conseguem empregos mesmo quando estamos em idade reprodutiva. Por motivo de: competência.

Mas grande parte dos homens e boa parte das mulheres ainda acha que nosso real valor está em cuidar de um homem, de uma casa, dos filhos. Como se nosso cérebro não compreendesse algoritmos ou raciocínios lógicos e só fôssemos boas em trabalhos braçais, servis e não remunerados.

É sério isso?

Então, para tudo. Tira a menina da escola e bota no curso de boas maneiras. Esquece a gramática e as regras de física e foca no abdominal e na hidratação capilar. Que se lixem as equações, o que importa é manjar das dietas.

Outro dia, minha mãe falou: "Vou ensinar tuas filhas a cuidarem da casa. Não te ensinei e olha só no que deu". Abracei-a e disse: "Mãe, você acertou tanto comigo que não vou nem discutir. Mas, por favor, deixe as meninas se ocuparem dos estudos e de suas brincadeiras".

Vão aprender a cuidar de suas casas quando saírem de casa. Se casarem, vão construir seu próprio método a quatro mãos. Como tem que ser. E, se casarem com algum homem que não divide os serviços não remunerados com elas, prometo não ter pena dos "coitadinhos" em caso de separação.

ANA CARDOSO

25 DE AGOSTO DE 2018
DAVID COIMBRA

O Melhor Bar da História de Porto Alegre

Qual o melhor bar da história de Porto Alegre?

Tenho discutido essa candente questão com os amigos. Estou pensando até em organizar uma eleição. Claro, muitos dos critérios de análise serão pessoais e de natureza afetiva. Mas as escolhas são sempre assim, não é mesmo? Porém, ah, porém, tento ser justo. Provarei o quanto, apresentando outros de meus campeões, em outros setores da vida. Por exemplo, na música:

Melhor intérprete do Brasil - Roberto Carlos.

Melhor voz masculina - Tim Maia.

Melhor voz feminina - Elis Regina.

Melhor letrista - Chico Buarque, empatado com Noel Rosa.

Melhor poeta - Belchior empatado com Caetano Veloso.

Melhor sambista - Paulinho da Viola.

Melhor músico, o melhor de todos, o campeão dos campeões - Tom Jobim.

Você pode não ter concordado comigo em alguns pontos, mas repare que houve reflexão na minha eleição. Coerência, entendeu? E assim procederei para escolher O Melhor Bar da História de Porto Alegre.

Um dos critérios pessoais que pesam na avaliação é: bares em que você se deu bem, emocionalmente falando. No meu caso, destacaria o velho Doctor Jekyll, que ficava ali no Largo da Epatur. A música era ótima, só clássicos do rock?n?roll, e lá eu demonstrava por que era chamado de "O John Travolta do IAPI".

Havia uma cabeça de onça empalhada pendurada numa das paredes. O Professor Juninho se posicionava bem debaixo daquela onça, sempre com uma garrafinha de cerveja na mão. Por algum motivo, as mulheres olhavam para a onça, depois olhavam para o Juninho, de novo para a onça e mais uma vez para o Juninho. Neste instante, ele investia. Rosnava, um onço:

- Grrrau!

Elas estremeciam.

Uma noite, eu mesmo estava parado debaixo da onça e chegou uma morena e me disse, sem nem se apresentar:

- Vamos sair daqui agora!

Saí.

Ah, o velho Doctor Jekyll está na minha lista.

Outro que já fechou, e por enquanto falarei só nos que já fecharam, outro era o Espaço IAB. Nós íamos lá todas as quintas-feiras, eu, meu irmão Régis, o Zini, o Ricardo Carle, o Cyro Martins, o Sérgio Lüdtke.

O Zini havia voltado recentemente de Londres, onde vivera por três anos. Naquela época, as pessoas não viajavam tanto como agora. Então, quando o Zini começava a conversar com alguma moça interessante, era sempre esse o engate do assunto. Ele comentava casualmente:

- No tempo em que vivi em Londres, não era assim?

Ela se admirava:

- Tu viveu em Londres???

Ele, modesto:

- Pois é?

Houve também a Calçada da Fama, que não era um bar, era um complexo de bares. No princípio, nada existia naquele lugar. Tudo era ermo e sombrio, quando não turvo. A Fernando Gomes não passava de uma rua pacata e arborizada, com algumas poucas casas do lado direito e as costas do Dmae do lado esquerdo. Então, o Dirceu Russi abriu o Jazz Café e o Ricardo Carle nos convocou:

- Vamos lá prestigiar o Dirceu e sorver alguns drinques?

Foi o que fizemos. E o Jazz começou a fazer bom sucesso e logo um novo bar, o Lilliput, resolveu abrir uma filial bem ao lado. O Dirceu se inquietou, pensou que teria de dividir seus clientes, mas foi o contrário: a saudável concorrência os multiplicou e, assim, outros bares vieram e outros e mais outros, até que, num 8 de janeiro de 1997, aniversário do Professor Juninho, protagonizamos a célebre Noite dos 600 Chopes.

Ainda estou estudando os bares que incluirei na minha lista. Aguardo contribuições. Por ora, citarei mais um, o desconhecido Bar do Chico, que ficava debaixo do Viaduto Obirici, ao lado da Barbearia Gre-Nal, onde cortávamos cabelo lendo antigas edições da revista Placar. Não havia nada de especial naquele bar, a não ser o mais importante: tratava-se da cerveja mais gelada da cidade. Vinha para a mesa branquinha de neve por fora, no ponto exato antes do congelamento.

Uma noite, estávamos no Bar do Chico e, numa mesa mais afastada, acomodou-se o Ronaldo, nosso amigo do IAPI. O Ronaldo sabia brigar. Ele era frio. Ele jamais se enervava. Apenas olhava para a cara do adversário, enquanto usava os punhos para transformá-la em um xis-bacon com ovo. Nessa noite, quatro sujeitos de uma mesa próxima começaram a discutir com ele.

- Nós somos da polícia! - avisou um.

A resposta do Ronaldo:

- Bem feito. Se tivessem estudado, seriam arquitetos.

Eles se levantaram para brigar. O Ronaldo se levantou. Eu e os outros nos levantamos e nos homiziamos atrás do balcão. Sabíamos o que aconteceria. Aconteceu: o Ronaldo transformou as caras deles em xis-bacon com ovo. E quebrou o bar todinho.

Quanta história nos grandes bares de Porto Alegre!
DAVID COIMBRA

25 DE AGOSTO DE 2018
MÁRIO CORSO

Um zoológico de amores

Tentando consolar a filha por uma perda, o pai sai com a frase: "Todo mundo morre, minha filha, homem, bicho, cavalo...".

Nem é preciso dizer que o autor da frase é um gaúcho, desses que levam o pampa gravado na alma. Dá para imaginá-lo mateando e bombeando o horizonte, enquanto filosofa sobre o inevitável.

A dica está na sua peculiar classificação: cavalo não entraria na categoria animal. Seria algo à parte, a terceira possibilidade da existência. Desvelando algo que não é só dele, mas de todo homem do campo. Afinal, o cavalo é a obra-prima da domesticação. Alia beleza à utilidade e força à fidelidade.

Das coisas que não vivi, me ressinto da falta de intimidade com cavalos. Andar ocasionalmente a cavalo não é o mesmo que ter um cavalo, ter feito uma jornada juntos; curtir o cansaço de horas de marcha, tendo apenas um ao outro por companhia.

Ao menos tive muitos e excelentes cães. Cada um com sua personalidade ímpar. Eram companheiros de aventuras, amigos para qualquer hora. Com sua energia impetuosa, o cachorro dá uma alma extra a qualquer casa.

Ter ou adotar não é um verbo correto para felinos. Convivi com inúmeros gatos de mentes esquivas e labirínticas. Eles são um exercício mental, nunca se deixam decifrar por completo. Passeiam pela casa como fantasmas benignos, arrastando uma elegância esculpida em pelos. São companheiros do sono, do silêncio, da mansidão, da preguiça ao sol.

Acho a maior tristeza uma infância sem animais. Mais do que o apelo lúdico, valem como experiência de alteridade. Descentram as crianças do eixo do humano, treinam sua empatia com outra espécie, as fazem decodificar uma mente estrangeira em todos os sentidos. São uma porta para entender a natureza e a nossa própria natureza, que vivemos a negar.

Mas tanta conversa só para dizer que não entendo o exclusivismo na paixão por animais: quem gosta apenas de uma espécie. Ou então, quem faz aquelas classificações tolas: gostar de cães versus gostar de gatos. Como se isso dissesse algo de alguém. A convivência com um animal é abertura para a diversidade, por que restringir-se a um tipo?

Nos afastamos da natureza no espírito e na prática. A magia do mistério da vida - e sua extraordinária pluralidade - já não faz parte do cotidiano. Estamos imersos no asfalto, vemos mais postes do que árvores. Os pets são a familiaridade possível com a vida animal, o que sobrou para alguém engaiolado no 10º andar.

Os pets são uma paixão controlada, uma natureza bonsai, mera amostra de um mundo abandonado. Mas é o que temos. Perdemos a floresta e criamos uma samambaia; longe da imensa fauna, nos contentamos com um poodle. Fazemos como as crianças, brincamos com mundos em miniatura. Elas, para treinarem para o futuro. Nós, para nos conectarmos com o passado.

MÁRIO CORSO

25 DE AGOSTO DE 2018
ARTIGO

A ADVERTÊNCIA

O ideal seria escrever apenas sobre o amor, a bondade e a solidariedade. Ou sobre alegres coisas profundas e, com elas, povoar a vida. Limitar-se a isto, porém, seria não ver o que está à frente.

A pouco mais de um mês das eleições para presidente, governador e parlamentares, aí está o fétido lodaçal com que a politicalha enxovalhou a disputa política sã. Votar não é apertar botões, como diz a propaganda eleitoral oficial, nem optar pelo "nulo" ou pelo "em branco", como protesto e desencanto. Votar é ato exponencial que incide sobre nossos passos e atos futuros.

Votar é saber discernir. Somos mais importantes do que o candidato, pois lhe damos o mandato. A politiquice, porém, fez da eleição uma feira de promessas ou bravatas ocas de supermachos e a desilusão nos deixa inertes. Em vez de exigir mudanças, nos conformamos com o choque das "pesquisas", em que (junto aos "nulos e brancos") aparecem à frente os dois candidatos presidenciais envolvidos com a Justiça.

Mais do que "pesquisa", porém, foi uma advertência. O dólar disparou e a bolsa baixou, antevendo o desastre futuro se Lula da Silva e Jair Bolsonaro continuarem na ponta. O horror leva a perguntar: Lula, já condenado, e Bolsonaro, réu em dois processos no Supremo Tribunal, podem pretender nos governar?

O ministro Marco Aurélio Mello, relator dos processos, já indagou: "Quem é réu pode ser candidato? E, se eleito, pode tomar posse? Ou estaríamos em total insegurança jurídica?".

Dias atrás, lembrei aqui que Lula e Bolsonaro são iguais no tom místico e autoritário, na habilidade de nunca revelar o que são ao se esconder mais ou ocultar-se menos. Preso, um está calado. Mas o outro, nos gestos e no que diz, não estará se mostrando um pequeno Hitler, fanatizado por rancor e ódio?

A advertência está no ar. Só falta ouvi-la.

Semanas atrás, ouvi advertências de outro tipo, duras mas generosas: "Não se constrói em cima de alicerces falsos", alertou o industrial Paulo Vellinho na homenagem que lhe prestou a Associação Comercial de Porto Alegre pelo pioneirismo no ramo da refrigeração e televisores nos anos 1950 no Brasil.

"Devemos acreditar nas pessoas e na solidariedade", acentuou do alto de seus quase 91 anos. Criticou o corporativismo e o "maldito direito adquirido" e indagou:

- Onde estás, Rio Grande? Para onde vais? Destruíram a educação, o Ensino Fundamental acabou-se. Fomos exemplos de cidadãos e, hoje, onde estamos? Acabaram com o Brasil e nada se faz!

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

Cafés em Porto Alegre 

A querida e competente Laura Glüer, jornalista, professora universitária, palestrante, pós-doutora informal em cafelogia e criadora do site Café Combustível, me convidou para uma tarde agradável sobre cafés, música, Porto Alegre e outros milhares de temas simpáticos que pousaram na mesa do Café Correto, um dos mais antigos da cidade, criado em 1992 e pilotado por Waldyr Beuren. No Centro Histórico está o café e confeitaria Matheus, de 1947, provavelmente o vovô dos cafés da cidade. 

Porto Alegre não tem cafés multicentenários como os lendários Zur Letzten Instanz de Berlim (1621); El Florian de Veneza (1720); Tortoni de Buenos Aires (1858); Café de Flore de Paris (década de 1880) e o Café Nicola de Lisboa (1929), com sua esplanada voltada para o Rossio. Chegaremos lá. O Correto tem 26 anos, o Café do Porto, da Cacaia Bestetti, tem 23 anos e, junto com o Jazz Café, do Dirceu Russi, e do Bar Azteca, do Ricardo Koeche, deu um upgrade para o Moinhos. Café é milenar. 

Dizem que os antigos africanos faziam uma pasta com ele, alimentavam animais e também utilizavam para fortalecer guerreiros. Depois vieram a Arábia, a primeira loja de café em Constantinopla, em 1475; Veneza, em 1570; e Inglaterra, em 1652 - aí para o resto do planeta. Em Porto Alegre, na Rua da Praia, 1.234, de 1964 a 1976, o Rian foi nosso café preferido, tipo a sala de nosso lar. Servia milhares de cafezinhos por dia e um chocolatinho servido numa xicrinha de cafezinho. 

Na saudosa Confeitaria Rocco, na Riachuelo com Dr. Flores, nossa memória proustiana degusta biscoitinhos, chás, torradas, cafés e Toddy. Não só nas lembranças que o Centro Histórico sobrevive e precisa do nosso carinho. Da passagem do Rian até meados dos anos 1980, quando surgiram os grandes shoppings, ficamos lamentando pelos cantos a ausência de cafés. Hoje, os cafés se espraiaram pela cidade, de Norte a Sul, de Leste a Oeste. 

Os porto-alegrenses, que antes tomavam café de pé no Centro, passaram a sentar, conversar, conviver e a pedir café da forma como devem ser as pessoas: quente, doce e forte. Nada contra café sem açúcar ou chafé americano, mas é que eu tinha que usar a comparação ensinada por minha nonna italiana, que gostava de um café do tipo correto: uma dose de espresso mais um pouco de grappa, Sambuca ou brandy. 

Os aposentados, apesar das várias maldades que fazem com eles, estão vivendo mais tempo e ainda têm uns pilas para o café. Podem curtir os amigos sorvendo lentamente cafezinhos, apreciando o desfile das pessoas e da vida, levando a sério a brincadeira ou brincando de ser sério. Observam a pátina do tempo caindo lenta ou rápida e jogam fora ou armazenam conversas. 

A turma do Cacu, um dos melhores exemplos de confraria, há décadas, nas manhãs de sábado e domingo, no Shopping Moinhos, toma café e fala de economia, política, futebol, mulheres, homens etc. - especialmente etc. Os rapazes são bons cronistas, especialistas em generalidades, têm boa memória e quase sempre dispensam o auxílio do dr. Google.   

a propósito...

Até pouco tempo, no Brasil, não consumíamos o melhor café. Os melhores grãos iam para o exterior. Precisávamos das divisas. Não havia muitos tipos de café à disposição. Cafezinho era gentileza para as antigas visitas de vizinhos, parentes e amigos, que apareciam até sem avisar. A etiqueta era bater na porta antes de entrar. Nos ambientes de trabalho, segue a tradição da rubiácea, agora em muitos casos paga pelos consumidores.

Verbas e cortesias andam escassas. É a crise: tem igreja evangélica devendo aluguel, escola privada fechando e mendigo aceitando esmola à prestação. O cafezinho segue preferência nacional, democrático, republicano e ótimo pretexto para conversas e silêncios confortáveis.
Jaime Cimenti 

Jornal do Comércio (https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/colunas/livros/2018/08/644877-paulo-vellinho-sonhos-e-conquistas.html)


Paulo Vellinho, 

Sonhos e conquistas Paulo Vellinho - O realizador de um sonho chamado Springer (Fronteira, 370 páginas), do experiente e consagrado jornalista Mario de Santi, traz as memórias de um dos maiores empreendedores brasileiros, o empresário caxiense Paulo D'Arrigo Vellinho, hoje com 91 anos. 

Durante 61 anos, trabalhou afanosamente em busca de sonhos e realizações. Mario de Santi iniciou como jornalista na Veja e na Abril-Tec. Depois foi repórter, chefe de redação e diretor regional da Gazeta Mercantil, num total de 15 anos. Durante oito anos, foi gerente regional de O Estado de S. Paulo, Agência Estado e Broadcast em Porto Alegre. Paulo Vellinho começou a trabalhar aos 18 anos, como vendedor autônomo em um pequeno negócio que mesclava comércio e indústria artesanal, depois foi executivo de um minúsculo fabricante de refrigeradores domésticos. 

A partir daí, durante décadas, foi presidente ou vice de empresas como Springer, Coemsa, Avipal e atuou em entidades como Fiergs, Abinee, Confederação Nacional da Indústria e Associação Gaúcha de Avicultura. Vellinho transformou a pequena oficina de refrigeração em uma grande empresa, associada à Admiral e a nomes do tamanho da Carrier e da Midea; e viveu intensamente os precários anos 1950, a tumultuada década de 1960, com suas crises e transformações, os anos 1970, do milagre econômico e das crises do petróleo, a perdida década de 1980, a virada nos anos 1990 e os primeiros anos do século XXI, com as polêmicas experiências político-econômicas. 

O texto, competente e ágil, mostra como Paulo Vellinho, com muito trabalho, determinação, disciplina e habilidade no trato com todos, construiu, com Dona Ruth, uma bela família de quatro filhos, netos e bisnetos, a trajetória profissional impressionante e como, depois de viúvo, redescobriu o amor com a empresária Lourdes Fellini, guerreira como ele. 

A obra tem apresentações de Humberto Barbato, presidente da Abinee, e do ex-ministro Delfim Netto, que diz: "A minha admiração por sua personalidade íntegra, corajosa, sempre pronta a engajar-se no bom combate, firmou em mim a certeza de que nosso Paulinho é, mesmo, um raro exemplar que demonstra quanta qualidade e grandeza pode ter um ser humano". Nesses tempos pós-modernos de raras referências e lideranças boas, a vida e obra de Paulo Vellinho, que acreditou em si e no Brasil, inspiram e dão esperança. 

Lançamentos 

A maldição de Eros & outras histórias (Farol 360 páginas), quarto livro do brilhante jornalista Flávio Dutra, traz minicontos, contos e crônicas bem escritos, plenos de finos humor e ironia, retratando as aventuras eróticas, cômicas e por vezes tristes, que vivem as pessoas nesses dias rápidos e surpreendentes. "Permite um assédio? Politicamente correto, era a forma como abordava o sexo oposto na mesa ao Aldo" é um dos minicontos. 

O amuleto de Leila - Um caso árabe-gauchesco (Chiado, 320 páginas) é o quarto romance do escritor paranaense Gilberto Abrão, filho de imigrantes sírios. A narrativa traz Otto, filho de pastor evangélico, nascido num vilarejo do interior gaúcho, que vai se envolver com sua exuberante professora de português e de artes sexuais. Em paralelo, um palestino muçulmano casa-se com a filha de um palestino. 

Conflitos vão surgir. Nada será como antes - 2013 (Libretos, 216 páginas), do jornalista e mestre em Comunicação Alexandre Haubrich, traça um panorama crítico dos dias de protesto de 2013, o ano que não acabou, na cidade onde tudo começou. Reportagem minuciosa e pulsante, traz, entre outros textos, as reflexões das principais lideranças do movimento, na tentativa de entender o significado dos acontecimentos. - Jornal do Comércio 

https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/colunas/livros/2018/08/644877-paulo-vellinho-sonhos-e-conquistas.html


24 DE AGOSTO DE 2018
OPINIÃO DA RBS

CRISE NA APRENDIZAGEM

Determinado a convocar líderes da sociedade civil para uma mudança no patamar de ensino, o movimento Todos pela Educação tem uma contribuição indispensável para políticos em campanha ao governo gaúcho e à Presidência da República. No caso do Rio Grande do Sul, a presidente-executiva da organização, Priscila Cruz, ratificou as dificuldades registradas nessa área, em entrevista ao Gaúcha Atualidade e a Zero Hora, atribuindo-as basicamente a uma descontinuidade absurda das políticas educacionais. Daí a importância conferida, por parte da instituição, ao papel de líderes da sociedade civil em pressionar governantes e candidatos para a necessidade de políticas continuadas nessa área.

É significativo também o alerta da responsável pela entidade de que o país enfrenta uma crise não na educação, mas de aprendizagem. Uma situação dessas dificilmente pode ser corrigida apenas com promessa de mais investimentos por parte de candidatos - a começar pelo fato de que as dotações orçamentárias específicas estão asseguradas por lei. Nos últimos anos, por exemplo, o país triplicou o investimento por aluno no Ensino Médio, mas o resultado caiu. A saída para garantir avanços continuados, na visão da instituição, inclui mudanças na formação docente e investimentos na primeira infância, que são pressupostos para o país e o Estado reduzirem as deficiências de aprendizagem.

No Rio Grande do Sul, o mau desempenho na área educacional foi preponderante na queda de qualidade de vida dos gaúchos e se reflete na perda de posição no ranking geral do Índice de Desenvolvimento Estadual-RS (iRS). O aspecto mais preocupante, no caso, é o fato de mais de 30% dos alunos do Ensino Médio se encontrarem acima da idade considerada adequada para a série cursada em 2016, ano tomado como base para o levantamento. A deformação tem origens que remontam à falta de oportunidades adequadas de formação educacional desde a primeira infância. Ao mesmo tempo, ajuda a explicar por que tantos jovens, mesmo quando conseguem concluir o Ensino Básico, não têm o domínio esperado em português e em matemática.

O Estado e o país só conseguirão enfrentar mazelas como economia fraca e violência extremada quando colocarem em prática políticas eficazes e continuadas na área educacional. Os candidatos a governador, especificamente, precisam deixar claro como pretendem reduzir o elevado número de analfabetos funcionais que, no Rio Grande do Sul, deixam a escola todos os anos para disputar o mercado de trabalho.

OPINIÃO DA RBS

24 DE AGOSTO DE 2018
EDUARDO BUENO


Incompatibilidade de gênios

Já fui filiado ao PT. A forma como tudo se deu foi um tanto tortuosa - mas também foi engraçada. Além de elucidativa, é claro.

Em fins da década de 1970, fui contratado pela TV Globo a peso de ouro (no caso, o peso do meu irmão, mais fornido). Pode ter sido erro de casting: buscavam um garoto-prodígio, mas, ao invés de Robin, levaram Peninha. A questão é que, embora eu tenha sido mui bem tratado e jamais voltasse a perceber salário tão alto, estávamos em pleno regime militar. E, como todos sabiam, a Globo apoiara o golpe - e ainda faltavam 25 anos para que ela pedisse desculpas. Por isso, julguei que lá não era o lugar adequado para um velho rebelde de 20 anos como eu exercer seu ofício. Nove meses depois, pedi demissão. Abandonei o salário de 65 mil cruzeiros e vim ganhar 16 mil no Coojornal, em Porto Alegre.

De início, me senti Maiakovski em 1917: trabalhava numa cooperativa, em nome da revolução. Então, no verão de 1980, um colega se aproximou e, em tom sedicioso e camuflado - simultaneamente melífluo e autoritário, como era o tom da época -, disse-me ao pé do ouvido: "Vamos formar um novo partido. O Partido dos Trabalhadores". Gostei da ideia. Eu trabalhava desde os 18 anos: era um trabalhador! O caso é que eu havia lido A Desobediência Civil, de Thoreau, venerava Bob Dylan e considerava Jack Kerouac um deus. Julgava, por isso, já ter meu próprio partido. Apoiaria aquele que surgia, mas filiar-me a ele não estava nos planos.

Só que o ponto era justamente este: "Já temos gente em todos os bairros...". Seguiu-se uma pausa dramática e veio o touché: "Menos no Moinhos de Vento...". Talvez o agente recrutador estivesse se referindo a seções eleitorais, ou mentindo, mas o fato é que, com o olhar a lançar chamas e a voz férrea, ele mencionou, quase soletrando, o nome do lugar onde eu havia nascido, crescido e morava. E estendeu a ficha. E eu a assinei.

Não precisei de mais de um mês para descobrir que a rebeldia de Thoreau era tida como "infantil" e que, por serem norte-americanos, Dylan e Kerouac não eram bem-vistos nem bem-vindos. Fui instruído a substituí-los por Eduardo Galeano, Chico Buarque e Darcy Ribeiro. Ok, eu gostava desses também - e até do Gonzaguinha. Mas então, certo dia, ao lusco-fusco, caí no erro de aparecer com Gilberto Freyre sob o braço. Nem lembrava que, como a Globo, ele também apoiara "os milicos". Precipitou-se ali a crise definitiva, que redundou em divórcio litigioso, com ambas as partes alegando "incompatibilidade de gênios".

Sigo achando que meus gênios eram melhores do que os deles.

De todo modo, sou grato ao PT: dois anos depois, fui sorteado para ser mesário, mas, como fora filiado, dispensaram-me. Mas tem mais: naquela época, os militantes do PT pelo menos sabiam quem Thoreau, Dylan, Kerouac eram. Os integrantes dos outros partidos, não. E esses, ao contrário da Globo, ainda não pediram desculpas por terem apoiado tanta coisa ruim.
EDUARDO BUENO

sábado, 18 de agosto de 2018


18 DE AGOSTO DE 2018
LYA LUFT

As pequenas coisas


Dizem alguns que Deus está nos detalhes. Outros, que é o Capeta que está lá metido. Há quem afirme que o Diabo não existe, outros ainda que quem não existe é Deus, ou que, se um não existe, o outro também não haveria, pois só temos o Bem pelo Mal em contraposição.

Simplifiquei as coisas hoje aqui: a vida está nos detalhes, nas coisas pequenas, miúdas, que muitas vezes esquecemos porque nos impingem (ou nos impingimos) o grandioso. O máximo. O super, o tri, a suprema utopia. Um amor como nenhum outro, prazeres indescritíveis e obrigatórios, sucessos inevitáveis e objetivos maravilhosos alcançados, alcançáveis - a não ser que sejamos muito incompetentes.

A esta altura da vida, talvez eu tenha aprendido, depois de muita rasteira e engano, que na verdade, para mim ao menos, graças a Deus o importante quase sempre está no pequeno, no detalhe.

A vida está no simples.

Um jornalista me enviou um poema meu que encontrou num recorte de jornal de 1968. Não me lembrava dele, sou meio negligente com minhas coisas, mas quando li e reli fui recordando. Devia ter me acontecido, em 1968, algo bem doloroso, porque eu falava numa enorme pedra que tinha caído sobre mim. E terminei dizendo que peguei um cinzel e esculpi num fino traço na dura superfície um rosto de anjo, e, por fim, acrescentei uma lágrima. Essa ideia da lágrima devia ter me consolado, porque a botei ali. Não foi uma tragédia, ou eu não a teria esquecido. E foi num tempo de muitas alegrias, sem maiores perdas: elas me estavam reservadas, como a todos nós, um pouco mais adiante.

O detalhe da carinha de anjo, e da lágrima final, deve ter me concedido uma sensação de alívio, transformando a chateação ou dor em um pequeno elegante desenho. E com uma lágrima simbolizando as minhas - que, repito, esqueci.

Fui entendendo, com o passar dos muitos anos, ou aprendendo com dificuldade, o valor do pequeno, do simples, do mínimo. Não é ganhando a loteria, fazendo uma viagem sensacional, arranjando um namorado, perdendo 20 quilos, fazendo a mais fabulosa plástica ou comprando um carrão mais sensacional que a gente se recupera - até onde dá - de um grande sofrimento. É nesse dia a dia: a janela se abrindo sobre uma paisagem tranquila; o amigo telefonando com afeto e interesse; família vindo almoçar, ou nos chamando, netos, netas, com alguma carinhosa brincadeira. Marido chegando em casa com uma boa notícia do seu trabalho ou com um ar de especial cuidado porque hoje não estamos de cara muito boa.

Alguém mandando um vaso de lindas flores, que boto na minha frente, na mesa de centro da sala, e toda a casa fica iluminada: pela cor, pela beleza, pelo gesto. Nos detalhes está o amor. Nos detalhes estão os afetos, a paz, a harmonia - isto é, na simplicidade. Mas é preciso acalmar-se o suficiente para poder enxergar. O que nestes tempos, em que fora de nós nos atropelam empobrecimento e preocupações, é dura labuta.

LYA LUFT

18 DE AGOSTO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

Amazônia parte 1: distância

Quase todos sabem a diferença: Amazonas é um Estado brasileiro, enquanto que Amazônia denomina toda a floresta, cuja maior parte fica no Brasil, mas se estende por outros países também. É desta Amazônia que falo hoje e talvez continue em outras edições, pois tudo é tão imenso por lá que não há como resumir num único texto.

Passei três dias navegando pelo Rio Negro, conhecendo comunidades indígenas e ribeirinhas. Em um pequeno barco, me embrenhei entre os igarapés como se tivesse licença para entrar num sonho que não era meu. Tocava as árvores com os dedos, desviava dos cipós, sentia o perfume das flores exóticas. Nadei ao lado de botos cor-de-rosa. Fui ao encontro do Negro com o Solimões, que não se misturam, mantendo cada rio a sua cor, a sua temperatura, a sua densidade. 

Comi peixes e frutas que inauguraram em mim um novo paladar. Escutei histórias reais e também as lendas que a floresta inspira. Percebi na mata gradações de verde que as cartelas de tintas desconhecem. No escuro da noite, no meio do rio, observei uma sequência de estrelas cadentes num céu pontilhado de luzes - o motor do barco foi desligado, nos calamos e o silêncio absoluto se encarregou do êxtase. Achei que tinha viajado para os confins do meu país, mas não. Minha noção de distância se alterou. Nós, do Sul e Sudeste, é que estamos muito longe.

A Amazônia é um santuário, onde a natureza é fonte de tudo que importa: ar puro, alimento saudável, sobrevivência. Índios e caboclos dedicam-se a preservar seus valores e costumes, e extraem da água e do mato tudo o que necessitam para comer, se proteger e se divertir. Como nada é perfeito, muitos se sentem atraídos por esses aparelhinhos eletrônicos que levamos em mãos e que são considerados símbolos de modernidade, a ponto de alguns comprarem smartphones mesmo não havendo sinal onde vivem - usam para o básico. Menos mal. O básico basta.

Simplicidade e sofisticação. Emoções genuínas, beleza sem artifícios, poder sem empáfia. A Amazônia, com toda sua grandiosidade, é discreta. Não se impõe, existe. Ajuda o planeta a respirar. É mãe, acolhe. Terra de gente risonha, que reparte o que sabe e tem apego pelo que é natural. O sol cai, alaranjado. As águas caudalosas espelham a vegetação das margens. A samaúma, árvore colossal que atinge até 50 metros, está ali há 500, 600 anos, e resistirá outras tantas centenas, alertando para o nosso tamanho: somos pequenos e passamos ligeiro pela vida. Deveríamos ser mais humildes e menos espalhafatosos. A Amazônia nos redimensiona, e faz isso com surpreendente afeto. É jungle para exploradores, não para os íntimos. Para quem ali vive, é uma casa, um lar estendido ao infinito, onde o céu e a terra se encontram.

Deslocados estamos nós, os ansiosos, os aflitos das selvas urbanas. Sem desmerecer as cidades que nos fazem felizes a seu modo, passei a entender que somos uma maioria de estrangeiros dentro do próprio país, vivendo longe da essência primária. Os confins são aqui.

MARTHA MEDEIROS

18 DE AGOSTO DE 2018
CARPINEJAR

A fechadura da beleza


Não tem sentido para o meu filho o buraco da fechadura.

Mas, antes do olho mágico e das portarias eletrônicas, era a nossa fresta para ver se alguém estava em casa.

Foram incontáveis as vezes que, ao visitar um colega de aula, diante do silêncio da campainha e para não perder a viagem, eu me agachei na porta para vislumbrar se havia alguma movimentação. Tapava o olho esquerdo e procurava calibrar o direito. O mundo proibido tinha a forma de uma fechadura.

Tanto que um dos nosso lazeres consistia em ir de porta em porta na vizinhança para radiografar a rotina dos vizinhos. Festejávamos quando a chave não estava na porta e um de nós acabava escolhido para a missão, o mais corajoso, de narrar o que via para os demais.

Desse jeito eu testemunhei a primeira mulher nua de minha vida. Era uma solteira trocando de roupa no sofá, numa pequena residência de madeira da Rua Bagé. Foi um encantamento. A turma pedia para que eu descrevesse o que estava observando. E, tomado pela beleza, não conseguia acertar a língua. Engasguei. Extraviei o prumo dos pensamentos, como uma pandorga que se enrola nos fios de luz. Jamais tinha visto algo tão impactante.

As sombras cobriam a pele como uma segunda vestimenta. Ela se movimentava com a lentidão de um sonho, com inexplicável preguiça, com fascínio. Os seios, a cintura larga e os braços magros compunham uma coreografia insondável para a minha experiência de menino. Não sabia mesmo o que dizer, as palavras para aquele maravilhamento sensual não existiam para mim. Não conhecia a gramática do amor. Apenas entendia que era belo, muito belo, e só.

- Conta o que está acontecendo? - eles gritavam.

Menti que não havia nada, ninguém ali. E seguimos embora.

Não queria que nenhum deles profanasse o momento com sacanagens e desaforos, maldades que tampouco compreendia, mas não me cheiravam bem.

Eu devo ter sentido os primeiros sinais de um arrebatamento romântico. Quando gostamos de um desejo, não queremos dividir, não queremos reduzir a pessoa em caricatura, não aceitamos que falem mal. Há um respeito pelo mistério, há uma proteção pelo segredo, há uma exclusividade no batimento cardíaco.

Fechei aquela porta para sempre com os meus olhos.

CARPINEJAR

18 DE AGOSTO DE 2018
PIANGERS

Escrever


Escrever é como arrumar a casa para receber amigos. Você se sente um pouco inseguro, tenta organizar todas as coisas, prevê onde irão sentar, de que frase irão gostar mais, deixa os objetos alinhados na estante, os objetos diretos, o quadro alinhado, os talheres bem dispostos, os apostos, as vírgulas bem colocadas, os ponto e vírgulas; estende a toalha de mesa e espera que venham.

Escrever não é você de verdade; é você enfeitado, de banho tomado, talco. A gente deixa as louças novas à mostra, ideias, fica namorando com elas, será que vão gostar? Se demoram, ligamos o rádio, fingimos que estamos nos divertindo sozinhos, desdenhamos da hora, já chegaram e eu nem tive tempo de reler o texto, deve estar cheio de erro gramatical, não liguem pra essa falta de aspas.

Escrever é abrir o quarto, pedir cuidado com os sapatos jogados, adjetivos, permitir que usem o seu banheiro, vejam que livro está lendo em secreto. Quando a comida é exatamente aquela de que a visita mais gosta foi só coincidência, jamais iria imaginar que você gosta de ternura e filhos, e amor de mãe e esperança. Jamais imaginava que você ia gostar tanto de choro, de vulnerabilidade cozida em banho-maria. De sobremesa, frase de fechar parágrafos.

Surpresa, um presentinho bobo que comprei. O escritor está apaixonado. Ele só faz o que faz pra que vejam, é um exibicionista. Às vezes, arruma a casa só pra si. Escreve para que ninguém leia. Se sente bem, mas nesses dias pensa: "Queria que alguém tivesse vindo". A sopa estava tão boa, que pena que não foi um dia de evento. Quando aparecem, quer agradar com gracinhas. Toca a música favorita, diz que é só uma canção no aleatório. Sabe que estão com pressa, valoriza o tempo das visitas.

Escrever é como permitir que entrem no seu escritório, se encantem com suas memórias, sua decoração. Que opinem sobre sua cafonice, sua falta de vocabulário. Vejam fotos antigas, banguelas, desenhos de quando éramos crianças. Escrever é como abrir o seu coração. Sejam todos bem-vindos. Que bom que vocês vieram.

PIANGERS


18 DE AGOSTO DE 2018
LEANDRO KARNAL - Historiador, professor da Unicamp, autor de, entre outros, "Todos Contra Todos: o Ódio Nosso de Cada Dia".

Sempre senti o fascínio poderoso por bibliotecas. Tínhamos uma em casa, uma na escola e eu frequentava muito a Biblioteca Pública Municipal Olavo Bilac de São Leopoldo. Meu paraíso era próximo ao de Jorge Luis Borges: livros enfileirados.

Na faculdade, eu não tinha dúvida alguma: ter muitos livros era indispensável ao bom viver. Causa ainda certa espécie aos que hoje visitam minha casa que meu quarto seja decorado por uma imensa e belíssima foto de Yuri Seródio focando a Biblioteca Riccardiana de Florença. Deito e acordo com a representação de uma biblioteca. Silêncio, calma, livros, conhecimento: quase tudo é virtuoso no espaço de livros enfileirados.

Amo bibliotecas. O amor foi sofrendo golpes. Os primeiros são as mudanças. Cada vez que troco de casa tenho de avaliar quais os livros que realmente são importantes. Como me mudei há pouco, mais uma vez tive de avaliar coisas. Um exemplo: eu tinha uma extensa coleção de dicionários de português, praticamente todos os grandes léxicos da nossa língua.

Avaliei mentalmente: qual foi a última vez que abri o volume físico do dicionário? Não consegui recordar. Deixei de necessitar? Pelo contrário, não consigo escrever um parágrafo sem buscar auxílio deles. Porém, como quase tudo, percebi que só uso versões digitais, rápidas de serem acessadas. Aqueles livros imensos estavam ali, belos, imponentes, com histórias, parados e sem uso além do valor simbólico na estante. Doei todos os que existiam em forma não virtual. Mantive apenas os mais antigos, como o Dicionário Analógico do padre Carlos Spitzer.

Muitos livros com reproduções de imagens artísticas tiveram o mesmo destino. Pensei em como consigo acessar em altíssima resolução afrescos da Capela Sistina, sem que eu precise guardar aqueles volumes gigantescos com fotografias dela ainda antes da restauração. Fiz uma sessão de "processos de Moscou" com meus livros. Ao contrário de um tirano como Stalin, ao menos dei a cada um o direito de se defender. Muitos reconheceram que sua culpa não estava na alma, mas no corpo. Por qual motivo manter volumes de peso enorme, acumuladores de pó, desafiadores de todas as estantes possíveis se algo melhor e mais rápido era possível na tela? Se alguém alegar que só consegue ler em papel, deve ter cuidado, aproxima-se o dia em que não apenas os livros físicos serão descartados, mas os leitores deles, ambos, aparentemente, obsoletos.

Ato contínuo: tentei doar a colégios públicos próximos ao meu antigo endereço. Nenhum aceitou. Levei os mais acadêmicos para minha universidade e a acolhida não foi entusiasmada. Consegui doar muitos para presídios, onde a falta de acesso fácil à internet ainda torna o livro físico um valor.

Talvez eu esteja vendo o fim da tradição de Alexandria e outros centros bibliotecários. Será que bibliotecas serão como as canetas-tinteiro que coleciono? Peças antigas, bonitas, evocativas, porém há muito suplantadas por similares mais práticas e fáceis?

Em janeiro estive em uma das maiores bibliotecas do mundo: a Britânica de Londres. Admirei uma exposição com a Magna Carta e outros documentos extraordinários. Ao subir aos andares mais elevados, encontrei, claro, quilômetros de estantes com livros de bela encadernação. O óbvio ocorria a minha frente: a maioria absoluta dos seus muitos frequentadores estava lendo em... tablets. A biblioteca era um espaço de silêncio e de wi-fi potente. Vi que as obras antigas e mais delicadas eram todas digitalizadas e a biblioteca oferecia uma enormidade de títulos para serem baixados.

Toda geração cria nostalgia com sua tecnologia, mesmo a superada. Eu, baby boomer, olho com simpatia uma fita K7. Sei que meus sistemas de baixar músicas garantem mais clareza de som e muito mais praticidade. O que me faz sorrir ao reencontrar a peça é, por certo, uma nostalgia da infância ou uma lembrança de que guardo segredos históricos do passado desconhecido pelos jovens. Que adolescente saberia hoje dar aquela "puxadinha" no braço do toca-discos para iniciar o movimento rotatório do disco de vinil? Qual a utilidade desse conhecimento? Nenhuma...

O importante é o conhecimento, não o livro. Quero aprender e não valorizar um suporte específico, o livro in-quarto em papel feito a partir de celulose. Conhecimento pode estar em papiro, pergaminho, papel ou na tela. O saber é o substantivo, os adjetivos são secundários. A rigor, nada se perderia com o fim dos livros físicos, escaneados, digitalizados, guardados na nuvem e acessíveis a ainda mais leitores. Morrendo minha geração, provavelmente, livros podem ser vistos como um console de telejogo. Alguém ainda lembra ou sente falta?

A minha biblioteca privada vem diminuindo e só conservo obras raras, livros afetivos ou autografados por escritores conhecidos. Baixo mais livros do que compro novos em papel. Suponho que, em alguns anos, prédios de bibliotecas serão como os templos egípcios no vale do Nilo: imensos, solenes, narradores pétreos de uma glória antiga e, sem fiéis ou sem deuses, apenas com turistas e selfies. Será que todos terão consciência de que aqueles templos foram construídos também porque havia saberes em bibliotecas?

Minha rinite melhorou com a novidade, minha alma sempre será melancólica com o fim dos livros físicos. Será que um dia terei no quarto só a senha do wi-fi e os computadores para ver fotografias? Sempre é preciso cultivar a esperança.



18 DE AGOSTO DE 2018
DRAUZIO VARELLA

1 BILHÃO DE FUMANTES

No mundo, cerca de 1 bilhão de pessoas fumam. Essa é a estimativa do Global Burden of Disease (GBD), publicada na revista The Lancet, depois de analisar mais de 3 mil pesquisas e estatísticas oficiais colhidas em 195 países. O estudo foi patrocinado pela Bill & Melinda Gates Foundation e pela Bloomberg Foundation.

Graças aos programas de combate ao tabagismo implantados na maioria dos países, a prevalência mundial do fumo diminuiu quase 30% no período de 1990 a 2015. O aumento populacional nesses 15 anos, entretanto, fez o número total de fumantes crescer de 870 milhões para os 933 milhões atuais.

O GBD estima que um em cada quatro homens e uma em cada 20 mulheres ainda fumem diariamente, embora nos 15 anos citados a prevalência em ambos os sexos tenha diminuído 28% e 34%, respectivamente.

A dependência de nicotina tem enorme impacto na saúde pública:

1) É a segunda causa de morte no mundo (atrás apenas da hipertensão arterial).

2) A queda na prevalência não foi suficiente para impedir o aumento de 4,7% no número absoluto de mortes causadas pelo fumo.

3) No mundo, mais de 10% das mortes são provocadas pelo cigarro.

Em entrevista para o Medpage, a primeira autora da pesquisa, Emmanuela Gakidou, professora na Universidade de Washington, diz que as medidas propostas pela Convenção Quadro, da Organização Mundial da Saúde (OMS), têm tido papel de destaque na redução da prevalência. Entre elas: cobrança de impostos, restrições na propaganda e marketing de cigarros e serviços públicos gratuitos para tratamento dos dependentes.

Segundo ela, o Brasil, signatário da Convenção Quadro, é um dos exemplos de maior sucesso. A porcentagem de fumantes com mais de 15 anos de idade, que chegava a 30% em 1990, caiu atualmente para cerca de 10%. Hoje, fumamos menos do que os norte-americanos (15%) e do que todos os europeus.

Apesar da diminuição, ainda estamos entre os 10 países com maior número absoluto de fumantes, ao lado de China, Índia, Indonésia, Estados Unidos, Rússia, Bangladesh, Japão, Alemanha e Filipinas.

Na Rússia, entre 1990 e 2015, a prevalência aumentou 7,9% entre os homens e 12,3% entre as mulheres. Na Indonésia, em Bangladesh e nas Filipinas, não houve reduções no período. No Congo e no Azerbaijão, aumentou a prevalência em homens. No Kuwait e no Timor-Leste, o aumento ocorreu entre as mulheres.

No ano de 2015, a prevalência mundial do fumo foi de 25% para os homens e 5,4% para as mulheres, números que mostram reduções de 28% e 34%, respectivamente, em relação aos de 1990. Apenas no ano de 2015, perderam a vida por causa do cigarro 6,4 milhões de pessoas, 52% das quais em quatro países: China, Índia, Estados Unidos e Rússia.

São inegáveis os progressos do combate ao fumo em nosso país. Fumarmos menos do que em países desenvolvidos como Alemanha, Estados Unidos, Inglaterra, Dinamarca e outros é motivo de orgulho.

Ao mesmo tempo, serve de estímulo para insistirmos na educação das crianças e no cerceamento da liberdade de ação dos criminosos que fazem de tudo para torná-las dependentes de nicotina.

DRAUZIO VARELLA

18 DE AGOSTO DE 2018
J.J. CAMARGO

A VIDA CABE NUMA AGENDA


Havia uma serenidade sem amargura nas palavras do Maicon, só um realismo incomum. Desde o começo da doença, foi revelando essa resignação sem desistência que só se encontra nos fortes que não desperdiçam energia em lamentos ou fantasias. O que mais se assemelhava a uma queixa era a intolerância com promessas que nunca se cumpririam.

Quando quis saber de onde tirava toda a coragem, ele resumiu: "Que bom que dou essa impressão, porque odeio que alguém possa ter pena de mim. Então, se minha atitude parece corajosa, quer dizer que estou desempenhando bem meu papel. Na verdade, doutor, medo é o que mais sinto, mas meus pais, velhinhos como são, não precisam ser torturados com uma situação em que não saberiam o que fazer e a impotência os liquidaria. 

Ontem, minha mãe esteve aqui e, depois que lhe disse o quanto estava melhor, ela começou a me contar como está preocupada com meu pai e suas mudanças de humor. Discutimos estratégias para enfrentar a dependência gradual do meu velho e, quando ela saiu, fiquei agradecido por ela não ter percebido que rabugice não mata e, de qualquer maneira, não viverei tempo suficiente para contribuir com o futuro que combinamos!".

Qualquer procedimento indicado para desacelerar o crescimento do seu tumor de fígado era precedido por uma bateria de perguntas sobre os riscos que correria, tempo de terapia intensiva e expectativa de internação mais prolongada, para que pudesse planejar o melhor dia da semana, quando sabia que todos estariam absortos com suas vidas saudáveis e não ficariam em torno dele numa vigília tensa e improdutiva.

Sempre me impressionei com aqueles que, diante de uma grande ameaça, são capazes de manter o controle emocional para estabelecer prioridades e proteger a família de um sofrimento que só a eles cabe administrar. Como atestado de grandeza, evitam disseminar ansiedade entre aqueles que até gostariam, mas não têm como ajudar. 

Atribuir essa conduta à maturidade parece pouco. Há mais do que isso nesse esforço de proteger os seus de uma provação desgastante e inútil. Há uma enorme coragem em guardar para si o que aos outros machucaria daquele jeito que só sabem machucar as dores dos nossos amados. Uma tarde, o encontrei distraído, brincando com o celular e, de vez em quando, sorria. Confessou, então, ter encontrado uma tarefa divertida: "O senhor acredita que tenho mais de 500 criaturas na minha agenda? 

Pois só descobri isso agora, o que quer dizer que fui depositando lá contatos que nunca farei e agora percebi que, se recebesse a missão de contar minha triste história para 10 agendados por dia, eu não conseguiria, porque tenho certeza de que não viverei o tempo necessário. Então, antes que tivesse a chance de me deprimir, tive uma ideia para gastar o tempo que me resta, com alguma diversão: primeiro vou deletar os chatos, incluindo os síndicos e os vendedores de seguro, a seguir os que nunca mostraram a cara fora dos grupos de Whats, depois os que não tenho a menor ideia do que estão fazendo no meu celular porque não lembro deles, depois os parentes que nunca apareceram. Assim, na véspera, só restarão os meus favoritos, e desses vou poder me despedir com calma".

Ele morreu sem véspera, numa madrugada de sábado, aos cuidados de um irmão caçula. Dias depois, esse irmão me procurou: "Doutor, eu sei que ele gostava muito do senhor e, então, talvez possa me ajudar. Naquela noite, ficamos conversando até tarde, e ele parecia bem. Lá pelas duas da manhã, fui dormir e me acordei ao amanhecer, quando a enfermeira entrou no quarto e o encontrou morto, com o celular vibrando sobre o peito descoberto, e no visor estava escrito ELA. O senhor tem ideia de quem ELA possa ser?". Eu suspeitava que sim, mas disse que não. Recomendei que deletasse logo, porque nunca morremos sozinhos. A morte, além de impiedosa, é sempre coletiva, e arrasta nossos amores, secretos ou não. Com a morte DELE, ELA morria também. Combinamos assim. E pareceu justo.

J.J. CAMARGO


18 DE AGOSTO DE 2018
MÁRIO CORSO


Equívocos do pragmatismo


Um dos inimigos da educação é o pragmatismo. Sabe aquelas perguntas: para que serve este conteúdo; quando vou usar isso na minha vida?

Engana-se quem crê que seja apenas desculpa de aluno preguiçoso. A partir dos anos 60 do século passado, aspectos do ensino tradicional foram jogados no lixo como sendo inúteis, irrelevantes, ou sem sentido. Retiraram tudo o que era esforço e repetição. Os mestres abriram mão de exercícios de fixação e memória.

Exemplo de algo hoje desvalorizado: caligrafia. O senso comum já a colocou no reino dos hábitos em extinção. O teclado seria uma evolução, e talvez, no futuro, as crianças não sejam iniciadas na arte da escrita manual. Afinal, para que serviriam horas de domesticação da motricidade fina?

Porém, os caminhos do nosso cérebro são mais complexos do que os pragmáticos imaginam. Caligrafia não melhora apenas o desenho das letras, ela está ligada, posteriormente, ao aumento da velocidade e fluência na leitura e na fala. É um exercício que treina o cérebro para a intimidade com os símbolos. Experimentos clínicos revelaram conexões impensáveis entre a escrita manual, desenho, e outras aptidões verbais.

O mesmo se deu com decorar, que virou decoreba. O apelido pejorativo já diz tudo. As habilidades com a memória foram desdenhadas. O importante seria entender. Óbvio, mas por que não treinar também a memória? É tolo pensar que, se decoramos um poema, ficamos limitados a isso. Aprendemos também a manter mais coisas na nossa cabeça ao mesmo tempo.

O psiquiatra e psicanalista Norman Doidge, de quem cito as teses, considera o cérebro assemelhado a um músculo, necessitando de exercícios de repetição para desenvolver seu tamanho e capacidade. Fala, escrita e leitura estão conectadas em um centro de processamento. Portanto, uma ajuda, ou atrapalha, a outra. Por isso, segundo ele, o abandono de certas práticas do ensino tradicional contribuiu para o declínio da eloquência.

O aumento do número de crianças com problemas de aprendizagem deve-se a que antes inúmeros transtornos eram sanados pelo assentar tijolos da repetição. Nem todos precisam disso, mas os cérebros são desnivelados, todos temos algumas funções cerebrais mais fracas. O exercício regular com as letras automatizava e arrumava conexões desajustadas.

Parte das crianças hiperativas nunca foi ensinada a ter foco. A multitarefa e a dispersão são características naturais. A capacidade de abstração e concentração é aquisição cultural e precisa ser desenvolvida. Mas como, se frustrar-se é pecado e o mínimo tédio um castigo?

Sem saudade do ensino autoritário, no qual não havia lugar para criatividade e individualidade. Mas, na pressa de mudar, jogaram fora o bebê com a água suja. O pragmatismo confundiu andaimes e escoras com o futuro prédio.

MÁRIO CORSO

sábado, 11 de agosto de 2018


11 DE AGOSTO DE 2018
LYA LUFT

Lobos e cordeiros

O homem é o lobo do homem, frase que se perpetuou e vai se provando realidade, pois, repito, somos animais predadores: cada vez mais, ao menos nestes dias, estamos devorando alguém. Não como verdadeiros canibais, mas morais, cibernéticos, numa assustadora ânsia de denegrir o outro.

Diferenças ideológicas servem para querer sujar. Mudanças políticas dão motivo para decapitar. Manifestações variadas fazem a gente jogar no lixo pessoas que não nos fazem mal, que possivelmente nem entendemos, cuja situação desconhecemos, mas a quem não concedemos a liberdade do pensamento diferente (enquanto isso, vociferamos sobre democracia).

Quando tanto se fala em diversidade, ela não é respeitada no terreno da política, da filosofia, da postura. Mentira que queremos democracia: queremos a ditadura mental e moral mais fascista e destrutiva do mundo, que é a nossa. E, mesmo sem documento, sem fundamento, espalhamos debochadamente acusações, às vezes até meias verdades que melhor seria se ficassem discretas. Pois o Brasil não vai melhorar com esse tipo de violência.

Enfim, nestes tempos esquisitos, não sabemos quem é pró ou contra coisa nenhuma, porque em poucas horas tudo pode mudar - não por ideal ou ideologia, mas por medo, interesse ou outro motivo não muito nobre. Nosso amigo vira nosso inimigo. Denegrimos nosso amigo por sua postura política: a amizade morre, o respeito sucumbe, a dignidade nossa e a do outro também, pois quem xinga o outro está se expondo.

Na lista de candidatos a qualquer coisa, sobretudo à reeleição, a imensa maioria tem rabo preso e todo mundo sabe. A lista de insultados que muitas vezes nada têm a ver cresce a cada dia. Mesmo que alguém tome uma atitude que não aprovo, não é muito legal expô-lo nas redes sociais como nas medievais fogueiras, em que centenas de inocentes foram assados vivos enquanto a turba assistia deliciada e louca, comendo suas marmitas, tricotando suas roupas, refocilando na ignomínia e nos horrores.

Talvez eu exagere, mas me dá calafrios ver, ler, constatar a cada hora a facilidade com que apontamos o dedo para o outro - apenas um ser humano com direito a postura, compostura e opinião, até engano - com um prazer no mínimo preocupante.

Ninguém deve ser um cordeiro pacífico que engole todos os sapos; não é possível também ser, rapidamente, o lobo feroz que sem pensar dilacera corpo e alma de vítimas que em geral nem conhece direito. Ai de quem tente explicar, ou defender, ou ao menos justificar a postura, as palavras, o jeito de algum conhecido ou amigo que - sabemos - não está sendo tratado com justiça. No mínimo, receberemos um obtuso e irracional "vocês se merecem!".

Parece que a política, nestes dias, faz manifestar-se o pior em alguns de nós. Isso não é política, isso não é democracia. Sinto muito. Os verdadeiros lobos nem raciocinam, nem são maldosos: seguem seu instinto. Matam para comer, para proteger sua ninhada. Nós seguimos nossos desejos, pensamentos e frustrações inconfessáveis.

LYA LUFT