sábado, 8 de setembro de 2018



08 DE SETEMBRO DE 2018
CLAUDIA TAJES

Sobre apertos e feiuras

Duros e complicados têm sido os dias para boa parte das pessoas. Poucos estão conseguindo viver sem atrasar nenhuma prestação, sem empréstimos para pagar a juros de perder o sono, sem aquele consignado que, na hora, parece um bom negócio, mas que dói, como dói, quando o salário chega. Isso quando o salário chega. Com os malfadados parcelamentos, há quem sequer note que o salário entrou na conta, tantas são as dívidas comendo o pouco que cai ali. Não faz muito, um leitor me escreveu dizendo que é preciso compreender o parcelamento. E o banco, será que compreende?

Pausa para uma rápida digressão. Não tenho a menor simpatia por banco algum, mas adoro todas as minhas gerentes da era pré-atendimento digital. Samantha, Angélica, Bruna e tantas outras, que saudade de vocês. Antes de sumir com seus gerentes - e sobrecarregar os poucos mantidos nas agências -, os bancos costumavam trocá-los tão logo a gente desenvolvia com eles uma relação menos impessoal. Um belo dia, lá estava um funcionário desconhecido no lugar de quem te entendia tão bem. Por vezes, a sorte ainda ajuda os insistentes. 

Recentemente, conheci o Mirto, que se aposentou tão logo começou a me atender - talvez por desgosto. Também tive uma ótima experiência com a Eneida e o Diego. Na semana passada, depois de uma triste confusão que quase terminou com o banco tomando as minhas ceroulas, que eu nem uso, a Aline conseguiu resolver tudo da forma menos dolorosa possível. Não sem o meu sangue, mas seria muito pior sem ela. Nada como uma pessoa de verdade em lugar de um sotaque paulista ao telefone: enteeeeeindo, mas não posso ajudar. Às gerentes, bancárias e bancários que se viram nos trinta, cara a cara com o cliente, aquele abraço.

Voltando ao aperto. Quem trabalha sabe direitinho para onde vai cada pila gasto - e porque a conta não fecha no fim do mês. Uma amiga atira os boletos para cima e paga os que pegar. Os outros, depois ela vê. De certo mesmo é que ninguém serve lagosta no almoço se, com isso, não sobrar para vestir os filhos. Já em um país, cidadãos não têm hospital, crianças não têm escola, museus não têm manutenção, mas juízes e políticos têm aumentos e regalias que, melhor destinados, resolveriam muita coisa. Não há obviedade maior, mas não para quem decide os rumos do dinheiro. 

A gestão do vampiro morto-vivo, mais morto que vivo nesses meses que antecedem seu desaparecimento para sempre, investiu menos no museu incendiado (R$ 205.821,00) do que a Câmara dos Deputados prevê para lavar seus 83 veículos oficiais em 2018 (R$ 563 mil). Para manter o Palácio do Alvorada, onde ninguém mora desde que o vampiro & família não curtiram a decoração, são gastos R$ 500 mil. Por mês. Outro dado de cair os butiás: apenas um par de brincos da ex-primeira dama do Rio, o espeto de turmalinas, custou mais (R$ 612 mil) do que manter um museu de 13 mil metros quadrados por um ano.

Não que na nossa casa a situação seja muito diferente. Enquanto o Teatro Amazonas na distante e, dizem, menos civilizada Manaus, oferece visitas guiadas de quinze em quinze minutos, o nosso lindo São Pedro agora só abre em dias de espetáculo. O café, de longas filas de espera nos bons tempos, não existe mais. Não fosse a Associação dos Amigos dos Theatro São Pedro, tudo seria ainda pior. 

Por isso os valentes sucessores da dona Eva Sopher seguem na luta para aumentar o número de associados. Informações aqui: www.teatrosaopedro.com.br/aatsp. A cidade vê espaços tradicionais se deteriorarem até o fechamento, caso do Teatro de Câmara. A Usina do Gasômetro, que já foi um complexo de salas, aguarda uma prometida reforma. Os outros teatros públicos, ainda que em condições precárias, seguem resistindo. Até quando, eis a questão.

Na segunda-feira pós-comoção com a destruição do Museu Nacional, outra notícia chocou tanto quanto o incêndio. Nenhum estado brasileiro atingiu a meta do Ideb, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. Pior: entre os cinco que regrediram, está o Rio Grande do Sul. Mais um péssimo resultado para se juntar a outro, divulgado em agosto. Enquanto 5,7% das crianças e jovens entre 4 a 17 anos estão fora da escola no país, no nosso estado o índice pula para 16,8%. E mais não digo para não estragar o fim de semana dos meus queridos leitores. Mas que a coisa é feia e vem se debruçando, para usar uma expressão do clássico Dicionário de Porto-Alegrês do professor Fischer, ah, ela é.

CLAUDIA TAJES

08 DE SETEMBRO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

Uma árvore


Acompanhei de longe a história de uma árvore do bairro Jardim Botânico, no Rio. Uma amiga soube que ela iria ser derrubada por motivos fúteis (não estava ameaçando a vida de ninguém) e se empenhou em salvá-la. Primeiro ato: minha amiga subiu na árvore, que é como os ativistas ecológicos defendem seu território, e só desceu de lá depois de conseguir mobilizar a opinião pública - ou parte dela, representada por seus vizinhos e amigos. Estava tudo correndo bem, até marchinha de Carnaval a árvore ganhou em sua defesa e camisetas foram confeccionadas para angariar mais simpatizantes à causa, mas não foi suficiente. A bonita árvore foi cortada, veio abaixo.

Esta não é uma crônica sobre consciência ambiental, mas poderia ser. Não é uma crônica sobre os maus-tratos que a natureza sofre e seus efeitos sobre a vida no planeta, mas poderia ser. Não é uma crônica sobre a ideia canhestra de que só é válido se manifestar contra a devastação de uma floresta, mas uma arvorezinha só, uma arvorezinha de rua, essa não vai fazer falta a ninguém. Essa crônica poderia ser sobre a miopia de só darmos atenção às tragédias coletivas, às tragédias televisionadas, sem nos importarmos com os erros individuais e silenciosos que são cometidos embaixo do nosso nariz. Mas não é sobre isso a crônica.

É sobre paixão.

Uma mulher declara-se apaixonada por uma blusa. Ao comprá-la, resolve sua carência por 10 minutos. Logo se apaixonará por um sapato, e assim vai tentando preencher seu vazio. Muitos são apaixonados por chocolate. Outros são apaixonados por carro. Banalizamos o verbo, somos todos apaixonados pelo que podemos consumir. Quantos ainda são apaixonados pela vida?

Minha amiga me telefonou assim que cortaram a árvore. Chorava. Chorava sua impotência, chorava sua desolação. Era só uma árvore, e ela sentia como se fosse a morte de um parente. Ela havia defendido um bem público, não era dona da árvore, a árvore era de toda a cidade, mas alguém com uma motosserra embaixo do braço olhou para ela e disse: perdeu, moça.

A paixão pela vida se manifesta, hoje, através de alguns poucos Dom Quixotes urbanos. O cara que usa dinheiro do próprio bolso para montar uma peça de teatro, o atleta com deficiência física que compete nas paraolimpíadas, o motorista que dá carona no seu carro aos que percorrem o mesmo trajeto que ele, os que recusam propostas milionárias para ter mais tempo livre a fim de se dedicar ao que interessa de fato. E o que interessa de fato? Família, amigos, amor, arte, natureza e algum idealismo, mesmo que esteja fora de moda. É só pelo que vale brigar.

Mas as pessoas brigam por uma geladeira em liquidação, brigam por uma vaga no estacionamento, brigam dentro da escola, brigam por miudezas e quando vencem, não ganham nada. Brigar por uma árvore é ao menos poético. Perdeu coisa nenhuma, minha amiga.

MARTHA MEDEIROS


08 DE SETEMBRO DE 2018
LYA LUFT

Metáfora e tragédia

Acordar numa segunda-feira de manhã e deparar com o belíssimo, importantíssimo Museu Nacional, da Quinta da Boa Vista no Rio, aniquilado pelas chamas foi uma das experiências que jamais esquecerei. Incredulidade, sensação de algo surreal e impossível, mágoa, dor, vergonha, raiva, indignação, e uma compaixão enorme por todos nós, pelo Brasil já tão espoliado, tão submetido, espezinhado e esvaziado.

Passo os dias seguintes ouvindo, compungida e aflita, os lamentos dos mais diretamente atingidos - funcionários, pesquisadores, alunos e frequentadores habituais do museu. Mas o pior, o grave, o mais constrangedor, têm sido as péssimas declarações dos realmente responsáveis, sejam ministérios, sejam outros responsáveis pelo museu. Um diretor chegou a dizer, e repetir, que os bombeiros tinham demorado no atendimento. 

Ora, eu mesma presenciei o desespero dos bombeiros quando a água secou depois de poucos minutos, e ficaram impotentes, no alto da grua (única, aliás, no começo) ou com as mangueiras no chão, cruelmente secas. Alguns choravam. Claro que demoraria para pegar água no lago ou outras providências, e, pela altura das chamas desde o começo, está bastante claro que nem toda a água do lago iria adiantar.

O que teria adiantado para evitar a vergonhosa desgraça teria sido atender aos apelos, alguns desesperados, de responsáveis, engenheiros, arquitetos, funcionários, pesquisadores, que há meses, até anos, imploravam alguma medida. Um arquiteto enviou um relatório um mês atrás, dizendo claramente que um incêndio parecia inevitável se não se tomassem providências. Não se tomaram medidas, nem foram autoridades ao aniversário de 200 anos do museu - tal a desatenção que por ele tinham.

Fios desencapados, fios enrolados, tomadas sobrecarregadas, infinidade de irregularidades que não dependiam de quem lá trabalhava, mas de quem, mesmo com dinheiro talvez disponível, não o encaminhava para essa pobre, linda, importantíssima instituição respeitada mundialmente. No Brasil e no Exterior, vários noticiários declararam, de maneira realista e trágica, que esse incêndio, por descaso, desinteresse, desvios e ganância ou irresponsabilidade - e sabe-se lá quantos motivos obscenos mais -, era uma metáfora do próprio Brasil em seu momento atual.

O que andamos fazendo de nós mesmos? Estamos como o sujeito que, ao fim da vida, sabendo que pouco tempo lhe resta, para suas correrias supérfluas e desejos inúteis e diz para si mesmo: "O que fiz da minha vida?".

Governos acusam outros governos, autoridades apontam o dedo umas para as outras, alguns fazem comentários cínicos e totalmente inapropriados, querendo diminuir, mais uma vez, o alcance nacional e internacional do ocorrido. Outros falam como se se tratasse apenas de reerguer paredes, pintar de branco, e tudo feito. A perda é incalculável e absolutamente irreparável. Nosso atraso geral aumenta em muitas décadas, mais uma vez.

Pobres de nós: sem pai, sem mãe, sem grandes esperanças. Rezemos para que o país não acabe literalmente uma metáfora dessa torturada ruína esvaziada de seu passado e impedida de um futuro sequer razoável.

LYA LUFT

sábado, 1 de setembro de 2018


01 DE SETEMBRO DE 2018
LYA LUFT

A felicidade

Contesto um pouco o "éramos felizes, e a gente não sabia".


Pois eu acho que em geral sabíamos, sim, se prestássemos um pouco de atenção. Quem não sentiu um reconfortante bem-estar em conversa com amigos leais, ou no sofá junto da pessoa amada, ou com as crianças ao lado, cobertor sobre as pernas se fizesse frio, assistindo com elas a todos os programas infantis que as deliciavam... e você, confesse, se deliciava também? Lembro-me de assistir, com netas e netos bem pequenos, aos Backyardigans: eu era sempre o pinguim Pablo. Era divertido, leve, mágico.

Por que precisamos ser sérios, rigorosos, aprumados e chatos? Um dos maiores elogios que recebi foi quando uma das netas, já com quase 16 anos, me disse que sou "uma avó muito divertida". Pois com as minhas amadas avós, há décadas, era tudo respeitoso, embora com muito afeto. Usavam roupas escuras, cabelos grisalhos, faziam bolos ou tricotavam roupinhas de bebê, cuidavam do jardim ou cuidavam de nós quando os pais viajavam. Nem havia televisão para nos divertirmos juntas. Mas, mesmo então, havia aqueles momentos em que contavam maravilhosas histórias de suas próprias infâncias, a gente boquiaberta - então um dia a vó tinha subido numa goiabeira, caindo e quebrando o braço? Hoje, ler e contar histórias ainda pode ser um privilégio, e, em lugar de reclamar porque a meninada usa iPhone ou iPad demais, quem sabe algumas coisas a gente divide com eles?

Também fomos inundados por uma sensação de alegria nos primeiros encontros com o novo namorado, desde que tenham sido delicados e românticos, não brutos e sob efeito de alguma droga. Relação de pessoa com pessoa, em qualquer idade, bonito demais.

Quem não sentiu a alma transbordando na primeira viagem, seja para a praia próxima ou para outro país? Lembro-me da primeira vez em que, a convite para trabalho sobre um livro meu, fui sozinha à Europa. Eu estava acordada, antes mesmo de o dia clarear, quando avistei ao longe, sobre uma enorme paisagem negra, uma fita vermelha que me espantou. Perguntei, ignorante que era, e a comissária me explicou sorrindo que era o amanhecer sobre a África. Até este momento recordo a emoção intensa.

Às vezes, a alegria é minúscula mesmo, como há instantes tomando café vendo a orquídea amarela que a zeladora de nossa casinha na Serra me entregou da última vez, e continua luminosa.

Fomos felizes muitas vezes. Isso ricocheta no nosso agora e nos possibilita abrir o coração para tantos momentos bons que se oferecem, mas estamos fechados demais para sentir: um simples acordar com o dia nascendo, uma voz ao telefone, nossa própria divertida perplexidade com alguma bobagem que cometemos - como eu, recentemente, ter deixado o talão de cheques embaixo das carteiras de vacinas de Melanie e Penélope e ficar atormentada até que alguém veio me dizer que tinha encontrado o talão naquele lugar improvável. E me senti, naquele instante, extraordinariamente feliz.

Como escrevi mil vezes - e repito porque gosto -, não é preciso ter experiências extraordinárias - em geral, inalcançáveis. Basta olhar, sentir e se permitir largar por uns instantes a medíocre lamúria que nos entorta o coração e o pensamento.

LYA LUFT

01 DE SETEMBRO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

Você, modo de usar


Quando caminho pelas ruas da cidade, ou mesmo quando circulo de carro, reparo em pequenos pontos comerciais em reforma e penso: tomara que seja uma livraria, tomara que seja uma papelaria, tomara que seja uma galeria de arte, tomara que seja um bistrô, tomara que seja uma floricultura. Vou acompanhando a obra com expectativa, até que um dia os tapumes são retirados e, lógico: é mais uma farmácia.

Os laboratórios movimentam fortunas e estimulam o consumo de medicamentos de forma impulsiva e muitas vezes desnecessária. Remédio não é sorvete, não é banana, não é pãozinho. Mas o povo se acostumou a ingerir goela abaixo o que é sugerido sem receita e sem critério, e a indústria farmacêutica prospera.

Conversava outro dia com uma amiga endocrinologista e falávamos justamente sobre como tantas doenças poderiam ser prevenidas através da simples mudança de hábitos. Ninguém nega a importância de uma campanha de prevenção contra o uso do drogas, por exemplo, mas há um número ainda maior de pessoas se viciando em gordura, evitando legumes, se entupindo de refrigerante, não investindo em produtos orgânicos, abusando do sal, do açúcar e das frituras.

Esse é só um exemplo de como a falta de qualidade de vida pode adoecer e até matar. A causa de óbitos geralmente é infarto, câncer, infecção generalizada, falência múltipla de órgãos, mas algumas dessas doenças tendem a iniciar décadas antes, por meio de uma rotina de muito stress, ansiedade, angústia emocional e neuroses não tratadas. Negativismo, raiva, frustração, nada disso colabora com nosso metabolismo. 

É aí que pequenas atitudes podem fazer diferença, como praticar atividades físicas, buscar recursos para relaxamento (ioga, meditação, massagem), cultivar amigos, dormir bastante, usar filtro solar, cuidar da postura, beber muita água, controlar o peso, não fumar, não beber em excesso, fazer check-ups periódicos - e não se drogar, lógico. Os médicos têm batido nessa tecla com insistência, mas ainda há quem considere esse blá-blá-blá improdutivo ou politicamente correto demais.

Tem nada a ver com politicamente correto, e sim com inteligência. E inteligência não se vende em frascos.

Farmácias comercializam produtos de primeira necessidade. Sem elas, não teríamos acesso a medicamentos fundamentais para nossa saúde mental e física, devidamente prescritos, mas precisamos de tantos? Creio que teríamos uma sociedade bem mais saudável se a população contasse com muito mais pontos de venda de livros, sucos, flores, livros, discos, bicicletas, livros, frutas, bolas de futebol, raquetes de frescobol, instrumentos musicais, gravuras, livros, livros e, claro, livros.

MARTHA MEDEIROS


01 DE SETEMBRO DE 2018
CARPINEJAR

Alguidar

Quando era miúdo, a minha mãe me convidava a ajudá-la no alguidar. Na realidade, não representava bem um convite, não vinha a ser exatamente o escolhido para a tarefa, mas o que correspondia ao seu grito pelos corredores.

No fim do dia, depois da escola e do trabalho, eu terminava sendo o que sobrava, o que atendia solitariamente ao seu chamado para a cozinha. Os meus irmãos não gostavam da obrigação e fingiam que estavam ocupados com os temas. O estudo representava o argumento invencível - e o único admissível - para não participar das lidas domésticas.

Interessavam-me as histórias que vinham com o entardecer. As verdades são feitas para o crepúsculo. Ninguém acorda sendo sincero, a sinceridade vem aos poucos, ao longo das horas, até a culminância da lua. A consciência demora para se acordar - desperta apenas de noite.

Enquanto o sol se punha no horizonte do Guaíba, eu e a mãe, debruçados numa vasilha grande, separávamos os feijões sadios dos doentes. Havia encantamento e cumplicidade na peneira, perguntava se o examinado estava em boas condições e se seria selecionado.

- Esse pode? -, conferia.

Entre pode e não pode, a mãe me concedia um afago no cabelo, admirada por um menino ceder o seu tempo de brincar.

Lembro exatamente dos cotovelos maternos, plantados como um tripé do seu rosto na mesa. Lembro de seus comentários sobre a vida, intercalados com suspiros e longos silêncios, de como confiava nas pessoas pelo tamanho da esperança delas. Aquele que espera, escuta. Aquele que tem fé, muda de lugar na experiência para entender melhor.

Entre assuntos aleatórios, reservávamos as pedras bonitas, negras, redondas para despejar na panela.

Aprovávamos na triagem um exército de grãos, de couraça brilhante, para contentar a meia dúzia de pratos.

Mas a mãe não descartava, como de costume, os grãos abatidos, machucados, feinhos.

Ela colocava num saquinho para plantar.

- Todos têm direito a uma segunda chance.

Naquela peneira, eu me sentia eleito para a horta. Nunca fui posto fora. Havia outras fomes para saciar nesta vida.

CARPINEJAR

01 DE SETEMBRO DE 2018
PIANGERS

Nome de filho

Todas as Ana Paulas nasceram por volta dos anos 1980. As Marianas e as Brunas, um pouquinho depois. Depois vieram Matheus e Thiagos, e esses agás já demonstravam uma tendência ao experimentalismo. Nos anos 1990, a moda eram nomes italianos, como Enzo e Lorenzo. Os Luccas pipocaram nessa época. Todas as Sofias e Bernardos nasceram no começo dos anos 2000. Estávamos nostálgicos. Era o início de uma tendência que agora nos dão Benícios e Joaquins, Benjamins e Franciscos. Nomes antigos, homenagens aos avós. Anita e Aurora. Nomes com cara de anos 1940.

Não estou dizendo que vamos voltar no tempo e começar a batizar nossos bebês de Bartolomeu ou Zulmira. Quem sabe? Um bebê chamado Zulmira já nasce com 70 anos. Já nasce de óculos e manta, corcundinha. Apesar de serem nomes lindos, não me entenda mal. Mas acredito que a tendência nostálgica não vai tão longe. Atualmente, sinto uma vibe de Arthurs e Alices. Um amigo teve um filho chamado Otto. Duas conhecidas tiveram Isabellas, com dois eles.

E aí está o cuidado que devemos tomar. Junto com as tendências vêm os nomes repetidos. Inevitavelmente, você vai encontrar outras crianças com o mesmo nome do seu filho. Mesmo que seja um nome antigo. Mesmo que tenha agá e dois eles. Mesmo que seja uma homenagem pra sua avó. Mesmo que seja Zulmira.

Entre os pais, existe uma regra não declarada que é a regra do "peguei primeiro!". Ao decidir o nome da criança os pais devem anunciar alto e rapidamente para todos os chegados. Nenhuma mulher grávida nesta mesma época, no círculo de amigos e conhecidos, poderá usar o mesmo nome que você escolheu.

É importante que, quando anunciado o nome escolhido, seja sempre repetida a informação várias vezes. No trabalho, no condomínio, no churrasco de família, sempre de forma clara e em alto volume: "É João Pedro! João Pedro! Esse será o nome do meu garoto! Não coloquem este nome no filho de vocês, ouviram?". Os outros poderão pegar João Paulo, João Miguel, João Vitor, João Gabriel. Mas João Pedro, não. Seria uma falta de educação, uma deselegância terrível. De acabar amizade.

Pais ficam magoados com outros pais até se o nome for apenas parecido. Vizinhas que ficaram grávidas ao mesmo tempo e colocaram o nome de Vitor e Victor, terminarão falando mal uma da outra. "Mas o meu é sem cê!", dirá a vizinha mal-intencionada, se fazendo de inocente. "O golpe da letrinha diferente! Não me venha com essa!", dirá a mãe que anunciou primeiro. Vitor e Victor é a mesma coisa, me desculpe. Eloisa e Heloisa, também. Sofia e Sophia, também. Isabela já anula qualquer possibilidade de outra mãe escolher Isabella, por exemplo. E, eu diria, até Isabeli. Que nome de criança é coisa séria e pai e mãe são dois bichos enciumados.

PIANGERS

01 DE SETEMBRO DE 2018
DRAUZIO VARELLA

PASSOS DE CARANGUEJO

Depois de tantos anos de esforço para reduzir a mortalidade materno-infantil e organizar o maior programa de vacinações gratuitas do mundo, estamos ladeira abaixo. Pela primeira vez em 26 anos, a mortalidade infantil cresceu no ano de 2016 e, provavelmente, terá aumentado outra vez em 2017 (dados ainda indisponíveis).

A taxa de mortalidade infantil é calculada pelo número de mortes até um ano de idade, em cada 1 mil nascidos vivos. Representa uma medida indireta do desenvolvimento de um país. Japão, Suécia, Noruega, Cingapura e Finlândia têm taxas abaixo de três. Em Serra Leoa, Guiné Bissau, Somália e Afeganistão, elas são maiores do que cem.

No Brasil de 1960, em cada 1 mil nascimentos, morriam no primeiro ano de vida 124 bebês. Em 2016, a taxa foi de 14, número 5% mais alto do que o do ano anterior. O aumento da mortalidade foi documentado em 20 Estados. Os dados parciais mostram que em 2017 os números não serão melhores. Por exemplo, a taxa de desnutrição crônica nas crianças de até cinco anos foi de 13,1% contra 12,5% em 2015.

A desnutrição crônica deixa cicatrizes em diversos mecanismos biológicos ligados ao desenvolvimento. A sequela mais temível ocorre na formação de conexões entre os neurônios cerebrais, causando deficiências arquiteturais capazes de causar rebaixamento do QI.

Depois de ouvir vários especialistas, as jornalistas Claudia Collucci e Marina Merlo atribuíram a piora do índice ao desemprego, à queda da renda familiar, à epidemia de zika e ao corte de verbas na saúde.

Para piorar, em 2016, houve aumento da mortalidade materna, índice que considera qualquer morte durante a gravidez, parto ou até 42 dias depois dele, desde que decorrente de causa relacionada ou agravada pela gestação. A taxa de mortalidade materna (número de mortes para cada 100 mil nascidos vivos) já vinha mal: aumentou em 2013, caiu em 2015, para voltar a subir em 2016.

Enquanto nos países nórdicos, na Itália e no Japão, as taxas não ultrapassam quatro mortes maternas para cada 100 mil nascidos vivos, no Norte do Brasil atingem 84, no Nordeste, 78, no Sudeste, 55 e no Sul, 44.

Esses números são vergonhosos, porque estamos falando de mortes evitáveis em mais de 90% dos casos: hipertensão arterial, sangramentos uterinos, infecções e abortos provocados. Não podemos esquecer que em 21% dos partos realizados pelo SUS, a mãe tem de 11 a 20 anos, faixa etária em que aumenta a incidência de gestações de risco.

Até o programa de imunizações brasileiro mostra piora dos índices nos últimos anos. Embora as razões sejam múltiplas, descaso, ignorância, falta de motivação provocada pela queda na incidência das doenças que a vacinação previne, o desemprego e o empobrecimento geral da população nos últimos anos contribuem para afastar as famílias dos serviços de saúde.

O aumento da mortalidade materna e infantil e diminuição da adesão ao programa de vacinações são reflexos da nossa dificuldade crônica para organizar a atenção primária e financiar o SUS de modo razoável. Uma crise econômica grave como a atual torna esse quadro mais assustador.

DRAUZIO VARELLA

01 DE SETEMBRO DE 2018
VIVER MELHOR

A ESPIRITUALIDADE É MAIS VISÍVEL NOS MOMENTOS RADICAIS DA VIDA, SEJAM BONS OU RUINS

Como a espiritualidade pode se fazer presente no dia a dia mesmo de quem não é religioso?


Um dos rabinos que me inspiram a responder essa pergunta se chama Heschel, que fala justamente sobre a capacidade de o ser humano se espantar com a vida. De admirá-la todos os dias de novo. Ele costumava fazer palestras que, quando eram no final da tarde, começavam assim: "Acabou de acontecer um milagre!". E qual era? "O sol se pôs." A espiritualidade está nessa capacidade de ver na natureza, no ser humano, algo extraordinário. E isso extrapola a questão religiosa. Porque você não necessariamente precisa ter uma filiação religiosa específica para admirar a beleza que existe na vida. Quem, por exemplo, teve a oportunidade de ter filhos sabe que o nascimento é um momento de extrema espiritualidade. Mesmo que você não tenha uma religião, ou não acredite em Deus, é o momento em que você sente a vida chegando, com uma força extraordinária, e não tem como não se emocionar com isso. Acho que a espiritualidade está em poder reconhecer a maravilha que é a vida, a beleza que existe na natureza, e não se acomodar, não transformar isso em algo comum, porque não é. E o caminho da espiritualidade é você poder admirar o extraordinário que existe na vida.

A espiritualidade parece aflorar diante de problemas de saúde - envolvendo doença, velhice, luto. Por que isso acontece?

A impressão que tenho é que a espiritualidade é mais visível nos momentos radicais da vida. Sejam ruins ou bons. Acho que as pessoas, quando estão vivendo momentos extremos, de felicidade - como a constituição de uma nova família, a conquista de um novo trabalho, o nascimento de um filho ou uma filha -, se aproximam de Deus. E isso faz com que vivam uma busca por espiritualidade, porque dar conta da felicidade também não é algo simples. É desafiador. E, na outra ponta, estão os momentos duros, tristes - de uma doença grave, uma perda. Sem dúvida são momentos em que as pessoas se aproximam da espiritualidade, da religião. Então, nesses momentos radicais da vida, nesses momentos extremos, existe uma tendência maior de as pessoas buscarem espiritualidade. Talvez nas fases mais mornas isso fique um pouco mais latente, mais distante. E a vida é muito mais marcada por momentos comuns. Mas é nos momentos radicais em que a conexão pode nascer, e se ela é bem amarrada, permanece nos outros momentos da vida.

É importante, de alguma forma, praticar a religiosidade mesmo nas escolas?

Ainda são poucas as escolas que estão sensíveis a isso. Mas o caminho é esse. Porque o conteúdo, cada vez mais, estará disponível. Se eu quero saber de alguma coisa, eu posso, da minha casa, do meu celular, dar um Google, abrir a Wikipédia e descobrir a informação de que preciso. A escola cada vez menos vai ser um lugar de informação e cada vez mais vai ser um lugar de formação. E a formação passa por isso, pela capacidade de a gente desenvolver laços duradouros, profundos. De ter um permanente debate ético, algo que falta no nosso país. E as religiões têm muita coisa para contribuir. Porque a religião, no final das contas, é um conjunto de regramentos éticos milenares que ajuda as pessoas a enfrentarem os dilemas da vida. Então, acredito que, na medida em que nós pudermos, nas escolas, em casa, nas comunidades, fortalecer laços e debater ética, temos a possibilidade de trazer a sociedade para um patamar melhor, mais evoluído.

Espiritualidade tem idade?

Ao longo de toda vida isso é possível. O importante é a gente compreender que isso não é algo constante. Que vamos viver altos e baixos. E tudo bem. Lidar bem com isso é importante, porque a gente exigir ser a mesma coisa o tempo todo não é algo normal. Às vezes eu creio mais, às vezes eu creio menos. Ao longo da vida, as circunstâncias que a rodeiam levam a um momento de maior ou menor conexão, espiritualidade. Conviver com isso de uma forma mais tranquila deixa a vida mais fácil. Às vezes, a gente se cobra demais. Ninguém vive altamente espiritualizado o tempo todo. Isso não é real, não é humano: o normal é que a gente tenha fases. Às vezes estão acontecendo coisas à minha volta que me tornam um pouco mais descrente ou mais crente. Ser humano é lidar com ciclos, com fases, com momentos. A espiritualidade é mais acessível quando diminuímos nossa cobrança de nós mesmos.

RABINO MICHEL SCHLESINGE, REPRESENTANTE DA CONFEDERAÇÃO ISRAELITA DO BRASIL (CONIB) PARA O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO

01 DE SETEMBRO DE 2018
J.J. CAMARGO


MANTENHA SUA GRATIDÃO ATUALIZADA

Sempre gostei de autobiografias, por várias razões. A primeira é que, por elas, os medíocres não se arriscam, o que, convenhamos, já é uma triagem promissora. Desde algum tempo, conversando com amigos de diferentes idades e que tinham lido os mesmos livros, me dei conta que, com a idade passando, a valorização das virtudes vai, progressivamente, se modificando. Dê a um jovem a biografia do Steve Jobs e ele concentrará o encanto pelo espírito aventureiro, destemido e inovador deste grande ícone da modernidade líquida. Empreste-lhe Vivir para Contarla, e ele lhe devolverá no segundo dia, saturado do intimismo que te seduz na literatura de Gabriel García Márquez.

E por que é assim? Porque nós mudamos nossos gostos em relação ao que pensávamos na juventude (nem discuto se regredimos ou sofisticamos e nunca assumiria que sofisticamos porque quero que os jovens leiam a crônica até o fim), mas, se registrarmos o que pensávamos na juventude, nem nos reconheceremos na maturidade.

Outra diferença óbvia é a tendência que o biografado idoso tem de ser agradecido, como se idade corroesse as amarras da soberba, liberando a doçura do reconhecimento.

Essa necessidade de admitir gratidão transborda das biografias e derrama nos discursos de agradecimento dos velhinhos homenageados que, tendo ultrapassado a preocupação limitadora de serem populares, seduzem pela espontaneidade.

Quando recentemente sentei para rascunhar o discurso em agradecimento a uma homenagem que recebi de uma sociedade de cirurgia torácica, percebi o quanto e a quanta gente teria de agradecer, convencido que ninguém passa pela vida sem que, em algum momento, alguém tenha sido decisivo ao estender-lhe a mão.

Escolhi um mestre da cirurgia para representar a legião dos indispensáveis: "Nunca vou esquecer, e todo inverno esta lembrança me machuca, da madrugada de 18 de agosto de 1977, quando entrei no quarto 201 do velho Pavilhão Pereira Filho e, por um instante, um sorriso encheu o rosto arfante e sudorético do mestre Ivan Faria Correa que, ao me ver, anunciou: ?Que bom que você chegou a tempo, agora eu não morro mais!?. A extensão do infarto era maior do que a esperança e, quando amanheceu, eu já tinha chorado tanto que não conseguia mais engolir a saliva com a dor física da perda.

Uma pena ter perdido meu primeiro mestre, justo quando ele confiava que eu seria capaz de evitar. Anos depois, entendi que a maior dor fora a extemporaneidade da morte ter-me roubado a chance de dizer o quanto eu lhe era grato pelo jeito paternal com que me ensinou e protegeu".

J.J. CAMARGO

01 DE SETEMBRO DE 2018
DAVID COIMBRA

Os sete pecados mortais de Porto Alegre

Os poderes Legislativo e Judiciário despenderam grande energia no debate acerca do nome da principal avenida de acesso a Porto Alegre. Era Castelo Branco, virou Legalidade, voltou a ser Castelo Branco e parece que disso não sai mais.

Esse é o problema de dar às ruas nomes de pessoas. Nunca haverá unanimidade a respeito das pessoas. Mesmo os caras mais legais, como eu, por exemplo, podem ser odiados. Sim, acredite, há quem queira me arrancar o rim, e esse rim me faria enorme falta.

Talvez os antigos fossem mais inteligentes nesse quesito: eles nomeavam as ruas de acordo com o costume popular. A Rua da Ladeira era chamada assim porque, bem, ela É uma ladeira. Só não entendo por que não lhe deram um nome genuinamente gaúcho: Rua da Lomba. Agora é General Câmara, e está muito bem, porque trata-se de um ilustre antepassado da Marcinha e do Bernardo.

Aliás, jamais chamei a Rua da Praia de Rua dos Andradas. Mesmo que não haja mais praia na rua, ainda há a sua história. Você leu o ótimo Anedotário da Rua da Praia, de Renato Maciel de Sá? Leia se quiser conhecer um pouco da história da cidade. Aí você concordará comigo que aquela rua tão vilipendiada pelo descaso do poder público, o coração de Porto Alegre, a rua mais importante do Rio Grande do Sul, só pode se chamar Rua da Praia.

Os nomes antigos tinham mais charme. A atual General Cipriano, uma lomba (vá lá, ladeira), que desce ingrememente da Duque para a Washington Luís, chamava-se Rua da Cova da Onça, porque, nos primeiros tempos da Leal e Valerosa, uma onça vivia nas imediações. À noite, os moradores ouviam o rugido do bicho e trancavam-se em casa, assustados. Imagine o absurdo: houve um tempo em que os porto-alegrenses tinham medo de sair às ruas. Para resolver aquele terrível problema de segurança pública, o governador mandou vir de Viamão dois valentes caçadores, que emboscaram a onça e a mataram a tiros de arcabuz. O couro pintalgado da bichana foi exposto em praça pública, e a população ficou aliviada.

Trocar Rua da Cova da Onça para General Cipriano é uma melancólica falta de imaginação. Mas é assim: basta o sujeito ser general para virar nome de rua. Um deles, Bento Martins, roubou o nome da Rua dos Sete Pecados Mortais, porque lá existiam sete casinhas em que mulheres generosas faziam sexo a soldo.

Por favor! Rua dos Sete Pecados Mortais titila a imaginação! General Bento Martins, francamente.

Porém, quero deixar claro que nada tenho contra os generais Cipriano e Bento Martins ou quaisquer outros que hoje sejam ruas e avenidas. Eles certamente exerceram com excelência o ofício de general. Ou seja: devem ter matado muita gente. A questão não é essa. A questão é que a tradição popular é mais rica do que a ânsia de bajulação das classes que eventualmente comandam a cidade.

A Praia de Belas já foi o Caminho de Belas. Há certa polêmica entre os historiadores a respeito, mas dizem que naquela região morava um homem com esse sobrenome. E ele, é claro, caminhava por lá. Assim, virou o Caminho de Belas. Semelhante ao que aconteceu na distante Alemanha, no também distante século 18, na velha cidade de Königsberg, onde vivia o filósofo Immanuel Kant. Ele era um homem metódico: passeava todos os dias pelo mesmo trajeto, no mesmo horário. Era tão pontual, que os moradores acertavam seus relógios ao vê-lo passar. Fez isso até o fim da vida e, por isso, a alameda por onde andava até hoje se chama O Passeio do Filósofo.

Não é bonito?

Gostaria de saber quem foi o Belas que caminhava por aquele local onde hoje se eleva um grande shopping center.

A cidade é um corpo vivo. Ela cresce, se desenvolve, se modifica, às vezes se degenera. Suas ruas têm histórias a contar. Quando o nome de uma rua ou de um logradouro qualquer conta uma história, reforça a sua identidade, torna-se real, torna-se importante. Disputas ideológicas entre vereadores não constroem a personalidade de um lugar. A tradição popular, sim. As lideranças da cidade têm de tornar oficial o que o povo consagrou. E só. O resto é política. Vã política.

DAVID COIMBRA

1 DE SETEMBRO DE 2018
MÁRIO CORSO

A função das máscaras

A ideia de ser um farsante, de estar representando para os outros, e não saber bem qual seria seu verdadeiro eu, é queixa recorrente em quem procura terapeutas. Na maioria das vezes, não aponta uma patologia, apenas são pessoas que intuem como funciona nossa psique. Afinal, somos uma coleção de identificações bem ou mal amarradas.

Por fora somos um, por dentro a pluralidade impera. Os restos amorosos deixam identificações parciais, temos um pouco de todos os que já amamos e admiramos. As primeiras paixões deixam marcas mais fortes, por isso nos parecemos com pais, avós e tios. Mas pode ser lateral, dos irmãos e amigos queridos, também roubamos traços de identidade para montar o mosaico que nos tornamos. Mas isso não esgota as divisões internas, também temos partes que não reconhecemos como nossas por seu conteúdo agressivo ou sexualmente desviante.

Viver em sociedade requer encarnar papéis, especialmente os profissionais pedem comportamentos padrões e roupas adequadas ao cargo. Como não teríamos a impressão de estarmos atuando, com uma máscara social para cada ocasião?

Dessa pluralidade de si resulta nosso fascínio por máscaras. Para representar partes negadas por assustadoras, sinistras, de uma comicidade constrangedora, ou fantasias de onipotência, todas as culturas desenvolveram máscaras para expressar nossas outras faces. Ainda existem máscaras para afastar o mal, assustar os inimigos - reais ou imaginários - ou encarnar espíritos.

Por sorte, está em exposição um sem-número de possibilidades do mascarar- se. Visite a Etnos - faces da diversidade, no Santander Cultural, a mostra vai até o dia 7 de outubro. Absolutamente imperdível.

Colocar uma máscara livra-nos, e aos outros também, da dúvida, da decifração. Por isso invejamos nas máscaras suas certezas e ficamos nos cobrando parecer-nos com elas. Cada um daqueles objetos da exposição serve para - pelo menos em uma festa, brincadeira, rito, ou cerimônia - viver a completude de ser uma coisa só.

A curadoria de Marcello Dantas foi feliz em colocar todas as peças no mesmo plano. Estão lado a lado amostras de várias sociedades tribais, passando por máscaras do Carnaval de Veneza, do dia dos mortos mexicano, até exemplares da cultura pop atual. Estão dispostas de tal forma, que não há hierarquias, não há linha do tempo, não há agrupamentos históricos muito claros, cada uma vale por seu impacto estético. O efeito é escancarar a universalidade do uso do mascarar-se, e mostrar como, apesar de sermos diferentes, compartilhamos comportamentos.

Saímos da exposição concernidos da unidade da humanidade dentro da diversidade. Coisa rara neste tempo que explora, marca e sublinha nossas diferenças, e não nossa alma comum.

MÁRIO CORSO

segunda-feira, 27 de agosto de 2018


J.J. CAMARGO

DE MÃOS ESTENDIDAS

Passada a perplexidade de descobrir-se doente, a reação diante da nova realidade, sempre angustiante, é completamente individual. Como cada paciente tem a sua maneira própria de sofrer, é natural que cada um, do seu jeito e com suas reservas emocionais, encontre uma fórmula que o mantenha apto à sobrevivência mais digna que consiga.

Alguns, tidos como rochedos de coragem e galhardia, desmoronam contra todos os prognósticos e, sem ter noção do dano que se impõem, liberam as pontes que introduzirão os fantasmas do medo, ao que devia ser o castelo inexpugnável da resistência imunológica. Aliás, quando se defende o valor da espiritualidade no enfrentamento da doença, cientificamente não se está falando do papel terapêutico da fé, mas do efeito dela na preservação da tal resistência imunológica. Não por acaso, na depressão de qualquer origem, é comum o surgimento de infecções virais que expressam debacle imunológica. A frequência com que viroses como herpes, por exemplo, acometem indivíduos em situação de luto, perda de emprego ou traição afetiva é uma prova inequívoca disso.

Outros, com uma força invejável, assumem o comando com disciplina de gestor e, habituados à administração de crises, tomam para si a responsabilidade de gerir a própria vida como a sua empresa mais valiosa, e em nenhum momento deixam transparecer ansiedade ou temor, ainda que, humanos que são, estejam morrendo disso. Conhecendo-os melhor, descobriremos que não importa o tamanho do medo, ele será reprimido simplesmente porque ninguém tem nada com isso.

Sempre gostei muito do Cezar Busatto, ele era especial, e que grande cara! Tempos atrás, o recebi no consultório e fiquei surpreso porque, ao lhe perguntar no que poderia ajudá-lo, ele anunciou: "Há uma semana, descobri que tenho um câncer de próstata." Antes que lhe dissesse da minha surpresa, ele completou: "Sei que esta não é a sua área oncológica e já consultei um urologista que me deixou muito tranquilo em relação ao tratamento. Marquei esta consulta porque gosto do seu jeito de ser médico e queria que me estendesse a mão, porque estou precisando muito de alguém com quem eu possa falar sobre estar doente!".

As perguntas que se seguiram eram o reflexo de muitas noites de vigília insone e silenciosa: "O quanto é justo compartilhar a angústia com a família? Guardar uma dor em segredo é desconsiderar os amigos? Do que as pessoas precisam como suporte para enfrentar uma doença que pode ser fatal? Quanto tempo um portador de câncer que foi operado precisa para saber que se curou ou não? É possível, um dia, parar de pensar nisso e tocar a vida como antes?".

Conversamos durante quase duas horas. De vez em quando, ele limpava e recolocava os óculos, como se precisasse ver melhor as respostas.

Na saída, ele parecia mais leve e anunciou que iria proximamente convidar a mim e ao Nélio Tombini, um querido de ambos, para um jantar que devia significar o desdobramento daquela conversa.

Não tenho certeza do quanto, de fato, o ajudei, mas reconheço que aprendi muito naquela interação com uma cabeça inteligente e extremamente sensível, capaz de se abrir ao debate das necessidades essenciais do ser humano no seu limite: a luta pela sobrevivência. E com que dignidade.

J.J. CAMARGO


INFORME ESPECIAL
TULIO MILMAN

O outro lado de tudo

Desde que me lembro, e lembro de coisas muito remotas, me despertava curiosidade e fascinação o outro lado das coisas. Por exemplo, o que havia atrás daquela porta sempre trancada, onde minha mãe guardava coisas tão triviais como vassouras, espanador, panos de limpeza e, eu acho, um aspirador de pó, só aberta na hora de arrumar a casa? Por que eu não podia abrir, me esconder naquele quase-quartinho minúsculo, onde aumentava minha curiosidade uma série de degraus de ferro presos na parede de fundo, por onde se subia sabe Deus para onde?

Subia-se para o sótão, diziam, que nós, crianças, chamávamos "sótio", e que para inveja minha só havia na casa das outras crianças. Lugar de tesouros, medos, encantamentos, como tudo o que "não era pra criança". Ali, na nossa, havia um vão assustador entre telhado e teto, me segredou alguém: lugar de morcegos e gambás, que eventualmente faziam barulho de noite, como de pessoas se arrastando. Eu, sempre medrosa, puxava os lençóis e cobertas sobre a cabeça - coisa que faço até hoje. Que espantalhos afugento inconscientemente, a esta altura de uma longa vida?

Outro lado de uma porta também me fascinava: portinha muito baixa, meu pai tinha de se curvar um pouco para passar. Levava ao porão e se abria com uma chave grande, velhíssima, de ferro preto, pendurada na cozinha, muito alto, para que pequenos não pudessem pegar.

Por quê? Isso sempre me atormentou: o proibido e inexplicado. No porão em si, havia velhas coisas com cheiro de velhas coisas, algumas ferramentas, cadeiras meio desconjuntadas, grandes tachos de cobre com que minha avó preparava geleias indizíveis no fundo do pátio.

E ali estava o mistério maior de todos: outra porta, menor ainda, portinha. Ali só consegui entrar poucas vezes, porque insisti demais e meu pai perdeu a paciência, ou porque me comportei tanto, que ele teve paciência. Era absolutamente apavorante: um porãozinho dentro do porão, muito pequeno, talvez adega, palavra que eu desconhecia. Prateleiras com muitas garrafas empoeiradas, vinhos que meu pai apreciava, me disse a mãe, e eu não podia nem tocar. Mas havia muito mais: um bercinho de madeira com ar de velhice irremediável, caixas de papelão contendo sabe-se lá que sustos. Restos de duas bonecas feito bebês decapitados, as cabecinhas ao lado. E num canto, meio escondido atrás de uns panos enormes e puídos, cortinas ou lençóis de um tempo perdido, a coisa mais preciosa: um cavalinho de madeira, cores empalidecidas, faltando uma orelha. Suas patas ficavam sobre apoios de cadeira de balanço. Que criança teria se embalado ali, aquela que ninguém queria mencionar se eu indagasse, mas viravam o rosto mudando de assunto?

Em todos os romances que escrevi depois de adulta, há sótãos e porões, guardando aquilo que o rio da vida esqueceu - ele que leva quase tudo, o ruim e o bom, os amores e as dores, nós, náufragos ou sobreviventes sem muita glória.

Tudo carregado de roldão para um outro lado que intuímos mal, tememos quase sempre, nutrimos como ilusão, ou com este ardente desejo de que seja eterno, que continue real, vivo, e presente, como foi em vida, do lado de cá.
TULIO MILMAN


27 DE AGOSTO DE 2018
DAVID COIMBRA

A nossa extinção

Tenho cá uma biografia de Beethoven escrita por Emil Ludwig em 1945, traduzida por Vinicius de Moraes. Devido a sua antiguidade, o livro está com as páginas coladas. Venho tentando abrir com uma régua e até com uma espátula, mas volta e meio mutilo uma página. O que é que faço? Ajude-me, sábio leitor.

A propósito, Beethoven. Talvez sua composição mais popular seja Sonata ao Luar, belíssima, tema de filmes, executada no mundo inteiro. Mas ele não lhe dava tanta importância. Não que a desdenhasse, apenas dizia que havia feito coisa melhor.

Suspeito que Beethoven menoscabasse sua sonata imortal exatamente por ela ser popular. Porque, de fato, o que é do gosto da massa em geral é de baixa qualidade. É muito difícil alguém produzir uma obra ao mesmo tempo simples e direta, como exige o homem do povo, e profunda e bela, como exige a posteridade.

A Sonata ao Luar se inscreve nessa categoria. Beatles também. Na música brasileira, Tom Jobim e Pixinguinha. Literatura? O Tempo e o Vento, de Erico. Grande parte de Jorge Amado. Machado de Assis. As crônicas de Rubem Braga.

Há um autor que me deixa em dúvida, quando faço essa reflexão: Paulo Coelho. Li dois livros dele, O Alquimista e Diário de um Mago. Um é ótimo, não lembro qual. Seria o suficiente para classificá-lo como Grande Arte. Só não classifico exatamente porque não recordo qual dos dois é o bom. Pois, afinal, um livro inesquecível não pode ser esquecido.

Aliás, acerca desse tema, vem-me agora à memória o caso de um amigo meu que ficou absoluta e fatalmente enfeitiçado pela beleza de uma morena clara que conheceu, certa feita. Eles haviam se encontrado casualmente um dia. Então, para sua sorte, reencontraram-se, também casualmente, uma semana depois. Aí, para seu azar, ele errou o nome dela. Ela fechou a cara, cortou a conversa e foi-se embora. Mais tarde, lamentando-se com uma amiga comum, meu amigo ouviu a corruptela da frase que escrevi acima:

- Você não pode esquecer uma mulher que se julga inesquecível.

Suprema verdade.

Feita essa digressão, voltemos ao assunto da crônica. A superficialidade da popularidade. Marx dizia que a quantidade gera qualidade. Foi outro dos erros do velho. A quantidade, quase sempre, abrutalha. Nós mesmos, eu e você, eu que escrevo, você que lê, nós mesmos estamos em processo de extinção. Nós somos tigres-de-dentes-de-sabre, valorosos, mas impotentes frente à mudança dos dias. Logo, a voracidade da internet acabará conosco. Sobrará tão somente o texto breve e raso sobre o jogo, sobre a atriz, sobre o político populista.

Eis o drama da democracia: você tem de se submeter às escolhas da maioria. Por isso, não espere muito desta eleição. Nem de outras, sejam quais forem. O futuro não é de Beethoven. O futuro é de Wesley Safadão.

DAVID COIMBRA



27 DE AGOSTO DE 2018
EDUCAÇÃO

Com criatividade e suspense, professora estimula a leitura

FINALISTA DO PRÊMIO RBS DE EDUCAÇÃO, educadora transmite aos alunos o amor pelos livros

Luzes apagadas, cortinas fechadas, turma reunida em um círculo em torno de um baú onde se lê o conto Histórias de Assombração. É assim que a professora Cíntia Nunes, 34 anos, titular do 4° ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Professor Anísio Teixeira, no bairro Hípica, na Capital, inicia a atividade de leitura com a sua turma. O clima combina com a história que será lida pela mestra: um dos nove contos do livro Contos de Morte Morrida, de Ernani Ssó.

Nos olhos dos alunos, que têm, em média, nove anos, nenhum sinal de medo diante da narrativa sobre um pescador que faz uma amizade um pouco suspeita com a morte. Todos prestam atenção e mostram interesse após a leitura, na hora do debate.

A atividade, que ainda inclui leitura individual e escrita de textos, é similar às do projeto Histórias de Arrepiar Para Criar, que foi um dos finalistas do Prêmio RBS de Educação em 2015, desenvolvido também em uma turma do 4° ano.

- Montei o projeto após fazer o curso de mediação de leitura do Prêmio. Os alunos já adoravam ir à biblioteca. Escolhi obras de suspense por ser um tema pelo qual eles se interessam - conta Cíntia.

Naquele ano, por sugestão dos alunos da turma, o projeto incluiu a produção de um telejornal. Por votação, Matheo Braga Menezes, hoje com 13 anos, foi o âncora.

- No vídeo, fui um jornalista. Antes, já gostava de ler. Agora, gosto ainda mais - conta o hoje aluno do 7° ano da mesma escola.

A atividade acabou por aumentar o interesse pela leitura, como destaca Lorenzzo Correa Alves, outro aluno da turma:

- Hoje, eu gosto mais de aventura. Venho bastante (na biblioteca).

TEXTOS PRODUZIDOS EM AULA VIRARAM LIVRO

Na fase seguinte, Cíntia propôs que os estudantes escrevessem seus próprios contos de suspense. O resultado foi tão bom que as obras viraram um livro, com direito a sessão de autógrafos.

- Eu criei uma história com bruxas. Foi legal fazer o livro. Adoro ler! Faço parte do Clube do Gibi da escola e até escrevo algumas coisas em casa - diz Samantha Bacelar Schawarts, 12 anos.

Para a professora, o reconhecimento é um incentivo a continuar:

- Para mim, como professora, é importante ver meus alunos se sentindo valorizados, ver que uma atividade faz sentido pra eles. E a indicação para o prêmio trouxe isso.

ELANA MAZON

27 DE AGOSTO DE 2018
INDICADORES - Daniel R. Randon

E aí, candidato?


Vice-presidente de Administração e Finanças da Randon S.A Implementos e Participações e Presidente do Conselho Diretor do PGQP

Considerando que a dívida total do Estado (incluindo os precatórios e depósitos judiciais) está na casa dos R$ 100 bilhões, o que o senhor pretende fazer no seu governo?

Esta é apenas uma das perguntas muito procedente, originada de um grupo de lideranças que querem, imediatamente, respostas pontuais para um problema grave. Trata-se de uma questão a ser respondida pelos candidatos ao governo do Rio Grande do Sul - e vale também para prefeituras e Presidência da República. De maneira séria e comprometida com os fatos, os candidatos precisam encontrar respaldo em ações efetivas para garantir uma real condição de implementação. Somente assim, o Rio Grande terá a chance de vislumbrar um futuro mais promissor para esta e as próximas gerações.

Sem ações de peso na ponta da redução de despesas, a dívida pública só tende a crescer, deixando ainda mais distante uma possível amortização do valor principal e dos juros. E com isso, o questionamento que nos assombra é: de que terá servido o acordo de recuperação fiscal com o governo federal, se o que se assiste é uma sucessão de déficits num Estado que sequer consegue manter em dia a folha de pagamento dos servidores?

Sem uma postura inovadora dos administradores públicos, não há luz no final deste túnel e tudo indica que é iminente a ingovernabilidade. O Estado há muito convive com o sistemático descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal, que limita em 60% as despesas de pessoal e que já beira os 80%. Sem falar no déficit da previdência, que compromete em torno de 1/3 da Receita Corrente Líquida.

Enquanto as despesas continuarem crescendo mais do que as receitas, onde as atribuições dos governos são cada vez mais crescentes e tornam-se "direitos" garantidos por constituições, e como num repetido e desgastado filme, os cidadãos serão submetidos à saída paliativa e mais cômoda aos gestores: poucas mudanças no modelo atual do executivo, legislativo, judiciário e outras corporações e o habitual aumento de impostos. Reforço a frase célebre da Margaret Thatcher "o socialismo dura até acabar o dinheiro dos outros".

E aí, candidatos?

Daniel R. Randon escreve às segundas-feiras, mensalmente.

domingo, 26 de agosto de 2018



25 DE AGOSTO DE 2018
LEANDRO KARNAL

O rio da minha aldeia


Historiador, professor da Unicamp, autor de, entre outros, "Todos Contra Todos: o Ódio Nosso de Cada Dia".

Fernando Pessoa expressou uma identidade local poética. O rio da sua aldeia não era o Tejo, porém era o anônimo e pequeno curso dágua que ele conhecia e amava. Como diz com a voz de Alberto Caeiro: O rio da minha aldeia não faz pensar em nada, quem está ao pé dele está só ao pé dele.

É quase um "cacoete" regional. Sim, o Estado mais rico é importante, sim, a metrópole tem mais luzes do que o centro urbano do meu vale, porém... não são minha aldeia ou meu local de identidade.

Nasci e cresci no Rio Grande do Sul. A identidade gaúcha é forte e fornece amplo material de humor para muitos brasileiros mais ao norte. Eu diria até que meu Estado natal tem hipertrofia de identidade. Muitas unidades da Federação têm uma identidade em torno das suas virtudes reais ou imaginadas. Há orgulho imenso em ser mineiro, pernambucano, paulista, baiano ou paraense. As piadas criam tipos ideais a partir das idiossincrasias regionais: "Um gaúcho encontra um mineiro na estrada e...". Parece haver menos anedotas sobre o povo do Amapá ou de Rondônia

Na infância, eu pensava coisas como: "Nossa, como os cearenses têm sotaque", incapaz de perceber o meu. Há dados mais curiosos. O tomate é uma fruta domesticada no México. Desde criança, aprendi o que me parecia óbvio: o tomate grande (tipo caqui) é conhecido no Rio Grande do Sul como "tomate gaúcho". Surgiu no pampa? Foi criado no Rio Jacuí? Não, mas é gaúcho. O pequeno (tipo italiano) é comprado nos supermercados meridionais como "tomate paulista". Chamar o pão pequeno de "cacetinho", o doce pastoso para passar no pão de "schimmier", "pardal" para radares na estrada e identificar uma colisão de carros como "pechada" era, para mim, o mais normal e tradicional dado da natureza. Voltamos à hipertrofia da identidade. Funciona como o brasileiro que estranha que um português chame a fruta caqui de dióspiro e se pergunta o motivo de usarem palavra tão estranha. Aliás, como os gaúchos sabem e os paulistas não imaginam, no Rio Grande o caqui é comprado como cáqui e o kiwi (pronunciado em todo o país como "quiuí" oxítono) é, nos pagos do Sul, "quívi", paroxítono e com um V bem sonoro.

Veja, querida leitora e estimado leitor: não se trata de identificar apenas o regionalismo - come-se aipim em Porto Alegre e no Rio de Janeiro, mandioca em grande parte do Sul e do Sudeste e macaxeira em quase todo o Nordeste. Não temos apenas a constatação de que a mandioquinha vire batata-baroa ou batata-salsa a depender da região. A hipertrofia da identidade ocorre quando você acha errado ou estranho que o outro tenha um nome "incorreto" para algo que você conheça de outra forma.

A identidade regional é, muitas vezes, positiva. Em um mundo cada vez mais globalizado e uniforme, é motivo de um lucrativo turismo a presença da diferença como fator atrativo. Ter orgulho da sua terra é importante para que não se vire um macaco de grandes centros ou imite modas externas apenas por conferir maior valor ao que é, simplesmente, de fora. As diferenças, dentro dos limites da lei e da ética, são saudáveis e estimulam o pensamento, impedindo que eu funda meu ser ao universal ou que, dizendo de forma mais técnica, combine o significado com o significante. Uma rosa continua sendo uma rosa, mesmo que tivesse outro nome, pondera a sábia Julieta na peça de Shakespeare. Um sinal, semáforo ou sinaleira continua sendo uma peça com eletricidade e três cores para fins de organização do fluxo no trânsito.

A riqueza da língua é parte da história e sua variedade local precisa ser mantida. Reconheço os regionalismos brasileiros por viajar muito, inclusive seus desvios da norma culta. Sei que cheguei a um lugar específico quando se usa o tu sem concordar com o verbo. O mesmo ocorre quando encontro expressões da laia de "com nós" ou "a janta está servida": são bússolas que indicam em qual local aterrissei. Apenas o "mim fazer" é fator de união nacional. O mim fulgura soberano, sem preferência específica por uma capital. Língua também é identidade.

A identidade regional é faca de dois gumes afiados. Positiva, como já identifiquei, atrai turistas e marca uma fronteira para que eu seja mais autêntico e não um papagaio do que imagino ser o correto dos grandes centros. Negativa, ela protege preconceitos graves, inventa glórias e importâncias inexistentes e pode até oprimir terceiros. Identidade une e pode conter ódios para serem projetados na diferença.

Curiosamente, foi um gaúcho de São Borja que proibiu o orgulho de identidades locais e eliminou bandeiras estaduais, hinos e até impostos regionais. Getúlio Vargas queria enfatizar o nacional e a unidade durante a ditadura do Estado Novo. Afastado o ditador, voltaram a florescer a celebração de datas locais, sendo todas derrotas diante do nacional. Assim, celebramos Guerra dos Farrapos no Sul, o Movimento Paulista de 1932, a Cabanagem no Pará ou a Balaiada no Maranhão. Todos eram separatismos que foram sufocados pelo poder central. A linda bandeira de Pernambuco remete a uma sedição esmagada e vencida pelo Império. Todos celebramos a independência da parte que não continuou.

O rio da minha aldeia é tributário do Tejo, dissolve-se nele e tem destino óbvio dos regatos: perder-se nos grandes caudais. O equilíbrio pode estar aí: perceber o caráter único do meu rio e não supor que ele mova o mundo todo ou seja o ponto mais importante da grande bacia hidrográfica universal. Tudo flui, como desejava o bom Heráclito. O que fica parado apodrece, seja o Guaíba, o Amazonas ou o Tietê. O rio da minha aldeia é sempre lindo, basta eu entender o possessivo "minha" sem confundir a parte e o todo. É preciso ter esperança.

LEANDRO KARNAL

25 DE AGOSTO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

Amazônia parte 2: meu Deus do céu

Aconteceu no Rio de Janeiro. Meu namorado e eu chamamos um táxi na rua. A corrida deu R$ 36. Na hora de pagarmos, o motorista nos surpreendeu: ele disse que havia alcançado uma graça e, em retribuição, não estava cobrando de nenhum passageiro naquele dia.

Eis uma promessa razoável. Por que fazer sacrifícios, como subir uma escadaria de joelhos? Antes, prometer visitar internos em um hospital, fazer as pazes com um parente, trabalhar para os outros sem cobrar. Há muitas maneiras de ser grato, de devolver as gentilezas do destino, de "pagar" de forma positiva, e não dramática.

Tive formação católica, mas, ao entrar na adolescência, passei a questionar conceitos como pecado, culpa e vida eterna, essa subjugação que mais me afastava do que aproximava do sublime. Acredito que não precisamos de religião para sermos pessoas boas, justas, amorosas e solidárias - ateus podem ser tudo isso também. Religião atende, basicamente, a uma necessidade de conforto, de busca por um sentido diante da finitude da vida. Legítimo, mas há outras maneiras de preencher vazios existenciais: através do amor, através da arte, através de atitudes mundanas. Coisas que também despertam a fé e a humildade sem precisar recorrer ao sobrenatural.

No entanto, continuo em busca do sublime.

Estava com um pequeno grupo viajando de barco pelo Rio Negro, na Amazônia. Depois do jantar, saímos em dois barcos menores para fazer a focagem de jacarés acompanhados de um guia local, o brilhante Samuel, que deveria estar dando palestras na ONU sobre consciência ambiental, mas isso é outro assunto. 

Navegávamos pela noite escura, até que um dos barcos sofreu pane no motor. Ok, o outro barco poderia rebocá-lo, mas aquela súbita pausa de um motor inspirou o desligamento voluntário do outro. Por um tempo, mantivemos ambos os barcos à deriva. Não se enxergava nada, apenas a sombra distante da floresta. Um sapo coaxava ao longe. Ficamos todos quietos como quem reza. Então, olhamos para cima e lá estava ele: meu Deus do céu.

Fui menina de cidade, não tive o privilégio do céu do campo. Minha primeira experiência de encantamento sideral se deu no Planetário de Porto Alegre, aos 12 anos. Décadas depois, contemplei noites belas no deserto do Saara e no do Atacama, mas o que vimos no céu amazônico foi único. A incrível quantidade de estrelas cadentes, seu reflexo na imensidão da água escura, a profundidade do silêncio, o compartilhamento do indizível: a galáxia estampada por milhões de pontinhos luminosos em uma noite quente em que não se sabia se era terça, se era quinta, se era sábado e que hora marcavam os relógios que ninguém usava - o tempo não existe na floresta, só a eternidade.

Ali confirmei que a natureza é minha igreja e que Todo Poderoso, mesmo, é este universo deslumbrante que também preenche a vida de sentido.

MARTHA MEDEIROS


25 DE AGOSTO DE 2018
CARPINEJAR

Vodu dos documentos


Em todas as vezes em que eu fui tirar a foto para um documento, o mundo desabou, o carro estragou, passei a noite em claro.

É uma sina. No passaporte, a minha cara é de traficante. Na identidade, a minha lata é de terrorista. Nunca dou sorte. Ainda mais agora que não há mais como levar fotinho 3x4 e encomendar um layout mais simpático. As fotografias são feitas nas repartições na hora e baixadas imediatamente sem compaixão e repescagem.

Perdemos o romantismo do banquinho e do fundo branco dos estúdios. Minhas melhores fotinhos são da infância, quando os pais me levavam, todo arrumado, para os cliques do lambe-lambe da avenida Protásio Alves.

Mobilizei esforços para caprichar na carteira de motorista. Mas, para variar, a escrita torta do destino usou novamente o seu garrancho comigo. Não dormi preso no banheiro, com dores de barriga, depois de um churrasco exagerado de madrugada com amigos do futebol. Juro que a minha feição é de febre amarela, cadavérica, olhos sugados pelas olheiras, pele de iogurte vencido. É retrato adequado para aposentadoria por invalidez na Previdência, não para mostrar que sou capaz ao volante. Talvez, numa blitz, os guardas tenham pena de mim e chamem o Samu.

Serão cinco anos tendo que lidar com essa imagem fúnebre e hospitalar. O triste de renovar documentos é que eles duram muito tempo e não existe como intervir com filtros e Photoshop.

Pode reparar, na identidade, ninguém é bonito como no Instagram.

Acabei por produzir provas contra mim.

Quando estava cadastrando as minhas digitais e posto no paredão da câmera, na cabine ao meu lado uma mulher pediu para ver como ficou a sua foto. Nem esperou o atendente responder, virou o monitor do computador para si e gritou:

- Nunca será! Estou uma bruxa. Só ex vai gostar disso.

Pegou a sua bolsa e explicou para o funcionário:

- Vou para a casa me maquiar e já volto.

E saiu para colorir o livro dos seus traços. Pena que não partilhei da mesma coragem.

CARPINEJAR