sábado, 8 de setembro de 2018



08 DE SETEMBRO DE 2018
DRAUZIO VARELLA

A VOLTA DO HIV

Corria o ano de 1981. Num almoço na casa do cirurgião Fernando Gentil, em homenagem a Joseph Burchenal, um dos mais destacados oncologistas americanos da época, ouvi falar pela primeira vez de uma doença estranha que debilitava o sistema imunológico.

O doutor Burchenal contou que, num congresso realizado em Nova York, foram descritos casos de jovens com pneumonia por Pneumocystis, fungo que causa infecções pulmonares apenas em pessoas imunodeprimidas, como as transplantadas e as portadoras de leucemias e linfomas submetidas à quimioterapia.

Ao mesmo tempo, na Califórnia, apareceram pacientes com sarcoma de Kaposi, que apresentavam manchas espalhadas pelo corpo todo, inclusive em órgãos internos. A apresentação era raríssima, uma vez que esse tipo de tumor costumava acometer gente de idade, da região do Mediterrâneo, nas quais as manchas seguiam curso indolente, no decorrer de anos, geralmente limitadas aos membros inferiores. Para surpresa de todos, tanto os doentes com pneumonia por Pneumocystis quanto aqueles com as lesões disseminadas do sarcoma de Kaposi eram jovens e homossexuais.

Estava armado o cenário para a disseminação da aids, uma das pandemias mais devastadoras do século 20.

Por sorte da humanidade, no entanto, a aids emergiu nos anos 1980, época em que o laboratório do americano Robert Gallo, no Nacional Cancer Institute, já havia identificado os primeiros retrovírus causadores de doenças humanas. Tivesse surgido 20 anos antes, não existiria tecnologia para cultivar o vírus nem para caracterizá-lo como o agente etiológico da síndrome. A tragédia atingiria proporções catastróficas.

Enquanto epidemias de tuberculose, hanseníase, malária, sífilis, varíola, peste e outras assolaram o mundo por milênios sem que os germes responsáveis por elas fossem descobertos, no caso da aids, em dois anos o HIV foi isolado e já dispúnhamos de um teste sanguíneo para identificar os portadores. Dois anos mais tarde, surgia um medicamento para combater o vírus: o AZT.

Em 1995, foram publicados os resultados obtidos com a combinação de antivirais que ficaria conhecida como "coquetel". Foi uma revolução que os médicos da minha geração tiveram o privilégio de viver. Guardadas as proporções, é possível compará-la à descoberta dos antibióticos para tratamento das infecções bacterianas.

Doentes caquéticos, debilitados pelas sucessivas doenças oportunistas, ganhavam peso, voltavam a andar, retornavam ao trabalho e às atividades cotidianas; a maioria deles está viva e saudável até hoje.

Em seguida, o Brasil passou a distribuir os antivirais pelo SUS, estratégia que mudaria a história da epidemia no mundo.

Em 1995, a prevalência do HIV em nosso país era idêntica à da África do Sul, que não adotou a mesma política. Hoje, 10% da população adulta daquele país está infectada. Se o mesmo tivesse acontecido conosco, teríamos cerca de 18 milhões de brasileiros HIV positivos.

Hoje, além do tratamento precoce dos infectados, o SUS oferece medicamentos para prevenir a transmissão (PrEP) e para a profilaxia pós-exposição (PEP).

Paradoxalmente, entretanto, relaxamos na educação. As campanhas públicas pelos meios de comunicação de massa desapareceram, a educação sexual nas escolas enfrenta barreiras impostas por religiosos, pelos moralistas das horas vagas e por grupos de conservadores medievais.

O Brasil que inovou ao implementar medidas ousadas de combate à aids, que serviram de exemplo aos países da África, Ásia e Américas, agora cruza os braços diante da nova onda de infecções que atinge os mais jovens.

Estudo patrocinado pelo Ministério da Saúde em 12 capitais mostra que as prevalências do HIV em homens que fazem sexo com homens variam de 5,8% em Brasília a 24,8% em São Paulo. São números assustadores que exigem medidas drásticas para evitar que se forme uma legião de infectados, capaz de reviver os piores anos da epidemia.

Aids é uma doença crônica que exige exames laboratoriais, imagens radiológicas, internações hospitalares e tratamento medicamentoso pelo resto da vida. Na penúria em que vive o SUS, de onde virão os recursos necessários?

A influência dos que se arvoram como defensores da vontade divina é nefasta. Impedir que a informação e intervenções educativas cheguem aos mais jovens, em nome da moral e dos bons costumes, na vigência de uma epidemia por uma doença sexualmente transmissível, incurável, é crime.

DRAUZIO VARELLA


08 DE SETEMBRO DE 2018
JJ CAMARGO

VIVER É ENCHER O CALENDÁRIO DE ANIVERSÁRIOS

Nossa vida deveria ser avaliada pelo número de vezes em que geramos fatos inesquecíveis. E nem importa se foram coisas maravilhosas de que lembramos com encanto ou essas que esqueceríamos se pudéssemos. Viver, de verdade, é encher o calendário de aniversários.

Cinco de setembro de 1971 era um domingo. Aproveitei uma folga na residência médica e fui passar o fim de semana em Vacaria. Naquele dia, estava programado o desfile antecipado, comemorativo aos 149 anos da Independência do Brasil. Numa cidade pequena, a parada do 7 de Setembro sempre foi um acontecimento. Os colegiais desfilando orgulhosos com o uniforme colorido de suas escolas e as bandas enchendo as ruas dessa alegria esfuziante que o tempo, displicente e preguiçoso, só tem feito dissipar.

O desfile passava pela avenida principal que fazia esquina com a rua da casa do meu avô. Fui até lá com a certeza de que o encontraria, o que, pra mim, era uma dessas festas em que o afago dispensava a banda.

Com a família empenhada em buscar o melhor ângulo para assistir ao desfile que já rufava ao longe, descobri, frustrado, que meu vozinho não estava. Com a alegação de uma indisposição, ficara em casa. Decidi que a festa do ano seguinte, sesquicentenário e tal, deveria ser ainda mais bonita, de modo que perder a daquele ano para afofar meu avô justificava a minha saída sorrateira. Desci a rua e encontrei-o na poltrona preferida, com olhos recém chorados. Assustado, lembrei que, um dia, ao comentar, debochado, que ele era um chorão que chorava por qualquer coisa, ele me repreendeu, dizendo: "Nada disso, eu só choro por coisas importantes e não sou culpado da quantidade de coisas importantes que têm ocorrido na minha vida!"

Com cuidado, quis saber, então, o que tinha acontecido daquela vez.

"O Brasilino era um ano mais velho e o meu irmão mais querido. Não lembro de que tenhamos discutido uma única vez na vida. Foi meu melhor parceiro e compartilhamos muitas coisas. Foi assim que, juntos, compramos a primeira terra, ali no Passo do Carro e, quando nos preparávamos para cercá-la, decidimos que cada um começaria numa extremidade depois que percebemos que, se trabalhássemos no mesmo ritmo, nos encontraríamos no meio da colina, que seria o ponto ideal para se colocar a porteira de entrada da fazendola. Num 5 de setembro, como hoje, há 50 anos, a cerca tinha ficado pronta e termináramos de instalar o portão que marcava o meio do caminho e o fim do nosso desafio. Quando passei a tranca, vi o Brasilino de braços abertos, nos abraçamos e choramos o choro de que mais gosto de lembrar dos muitos que chorei antes e depois daquele dia. Agora, meio século passou, o Brás já não está mais aqui, eu sinto muito a falta dele e acabei recapitulando aquele choro. Achei que Dom Pedro perdoaria a minha ausência na avenida se soubesse dessa história."

Ficamos um longo tempo de mãos dadas, em silêncio, até que a família voltou para casa trazendo o alarido do fim de festa. Desde então, o 5 de setembro passou a integrar o meu calendário de afeto, quando homenageio meu avô e a sua saudade de um choro tão bom que ainda continuava vivo, 50 anos depois de ter sido chorado.

JJ CAMARGO


08 DE SETEMBRO DE 2018

DAVID COIMBRA


Aquele beijo que te dei, nunca, nunca mais esquecerei


As Silvias não beijavam na boca. Também, eram muito novinhas. Para ter uma ideia: quando pedi a Silvia Lemos em namoro, ela ponderou:

- Quem sabe faço nove anos primeiro?

Éramos precoces. Mas se tratava de namorico de criança mesmo, a gente nem pegar na mão, pegava. Imagina beijo na boca.

Quando falo em Silvias, no plural, é que eram duas: a Lemos, que comecei a namorar quando ela tinha oito e eu 11, e a Coimbra, minha irmã, que, com a mesma idade, namorava o meu amigo Nick, irmão da Lemos.

Deu para entender? Eu e o Nick trocamos irmãs, pode-se dizer.

Estou lembrando essa trama antiga porque prometi, no Timeline, contar a história do meu primeiro beijo, tarefa meio juvenil, mas que está sendo cobrada pelos leitores e pela Kelly Matos, que, todas as manhãs, reclama:

- E a coluna sobre o primeiro beijo? Então, aí vai.

Desses nossos namoros cruzados com as Silvias, até já contei que eu e o Nick oferecemos a elas Na Rua, na Chuva, na Fazenda, clássico do Hyldon que pedimos para tocar em um programa de rádio. O Hyldon, inclusive, leu a coluna e me enviou correspondência dizendo que havia ficado muito feliz com a citação. Reproduziu a crônica no blog dele.

O Hyldon fazia umas músicas bem boas. Há outra, ótima, que você deve conhecer. O título é o mesmo de um livro de Schopenhauer, As Dores do Mundo. Mas ficam aí as semelhanças entre a canção de Hyldon e o livro de Schopenhauer, que, aliás, recomendo: é uma leitura fácil e, às vezes, divertida. Em um texto precioso, Schopenhauer desfia suas ideias deliciosamente pessimistas. Sobre o amor, que, de certa forma, é o tema desta crônica, ele diz que esse sentimento aparentemente nobre está apenas a serviço da reprodução da espécie.

Hyldon não concordaria. Ele, pelo amor, esquece tudo, até as dores do mundo. Nós, eu e o Nick mais as Silvias, também, pelo menos naquele tempo. Hoje, olhando para o quadro eleitoral, as dores do mundo me doem mais.

Mas o que importa é que as Silvias não beijavam. Já havíamos passado a barreira dos nove anos, dos 10, dos 11, chegamos aos 12, estávamos passando deles e não sabíamos nada desse negócio de beijo na boca. Não apenas eu e o Nick. Ninguém na turma sabia. Só que as gurias falavam muito disso. O beijo na boca, diziam, era eliminatório. E mais: elas se riam dos maus beijadores. Então, era uma responsabilidade. Tínhamos de beijar bem, quando chegasse a nossa hora. Mas como???

As gerações atuais têm a internet. Deve haver, no YouTube, algum tutorial de beijo na boca. Mas nós não podíamos nem sequer perguntar para a mãe, que ficava feio.

- Que que é isso, guri??? Pouca vergonha!

Outro problema: não havia Malhação. E as demais novelas não eram tão explícitas. Então, como dar um maldito beijo na boca de uma menina sem se tornar chacota no bairro?

Um drama.

É claro que fazíamos testes no antebraço, mas não era a mesma coisa. Antebraços não têm dentes e, mais grave, não têm língua. Ao que tudo indicava, a língua cumpria papel fundamental naquela atividade. O problema era saber como ela devia ser empregada. Línguas lambem. Deveríamos lamber a boca da eleita, queixo, lábios, base do nariz, tudo? Ou penetrá-la entre os dentes da dita cuja, explorando-lhe as obturações, deslocando-lhe as estrelas do céu da boca e alcançando a campainha, no escuro da garganta? Era isso que elas esperavam de nós? Uma língua sôfrega? Ou uma língua contida? Alguém, acho que o Jorge Barnabé, falou em "línguas trançadas". Devíamos enozá-las, portanto? Uma língua não é tão grande assim, a não ser a do Kiss?

Cavalgando em todas essas dúvidas, eu e o Nick decidimos, certo dia: amanhã, vamos beijar as Silvias. Foi um pacto firmado entre amigos e cunhados ao mesmo tempo. Mas sabíamos que não seria fácil, elas iriam resistir. Ah, iriam. Naquela época, as meninas eram muito mais pudicas. Assim, traçamos um plano. Mas me estendi. Terei de prosseguir na próxima coluna. Aguardem, leitores. Aguarde, Kelly.

DAVID COIMBRA


08 DE SETEMBRO DE 2018
CLÁUDIA LAITANO

Eles buscam black-tie

Tem o rico estilo toscão o cara que chegou ontem, e com fome, à ala VIP do destino. Para espantar o fantasma da pindaíba, faz questão de ostentar sinais externos de riqueza: carrão, roupas de grife, joias graúdas. Sua mansão, comprada à vista de um ricaço que empobreceu ou foi parar na prisão por sonegação de impostos, é cheia de espelhos (ele se ama) e de parças (eles o amam).

Tem o rico com ambição de status. Esse também não nasceu em berço de ouro, mas corre atrás do prejuízo. Não quer fazer feio no clube dos ricos mais antigos sendo confundido com o tipo de milionário deslumbrado que não sabe usar os talheres e tropeça no idioma. Busca estudar, ler, se informar. Ou contrata alguém que o ajude a escolher suas roupas, seus móveis e seu bom gosto - até encontrar o próprio.

Tem o rico vulgar por inclinação (e deformação) de caráter. Esse já nasceu com poupança na Suíça, mas nunca se interessou em ampliar seus horizontes para além da sua sacada em estilo neoclássico - cercado por puxa-sacos desde criancinha, cresceu acreditando que, por osmose, já sabia tudo que havia para saber. É o tipo "rei do camarote": prefere ostentar um determinado estilo de vida do que bens - embora, por capricho, seja capaz de instalar um carro de luxo no meio da sala apenas para deixar claro que é ele quem inventa as regras do seu bom gosto. 

Mais do que ser admirado pelo tino para os negócios ou invejado pelo que possui, gosta de ser paparicado. Depois de algum tempo, a fortuna e suas regalias já não são suficientes para motivá-lo. Como um menino mimado que nunca se contenta com o que tem, ele sonha em ser famoso na TV ou ser eleito presidente dos Estados Unidos. (Se possível, as duas coisas.) Mas mesmo quando está confortavelmente instalado no topo do mundo, nunca perde a cara de menino mimado que levou um drible do moleque bom de bola da vizinhança.

Tem o rico com espírito público, e esse é o que a gente gostaria de clonar e espalhar pelo mundo - principalmente pelos países emergentes, onde eles são mais raros. O rico com espírito público não acha graça em ostentar o que conquistou ou sempre teve nem em ser paparicado apenas porque tem dinheiro. (Nenhum adulto, rico ou pobre, deveria depender tanto da admiração ou da inveja alheia.) O que esse tipo de rico quer é fazer diferença - seja compartilhando conhecimento, seja investindo em projetos em que acredita. 

O rico com espírito público é o que investe em cultura, educação, ciência e em tudo aquilo que tem potencial para diminuir a desigualdade no país e no mundo. Ele sabe que é um desperdício perder gente talentosa para a miséria ou para a falta de oportunidades. Rico inteligente não gosta de desperdício - nem de dinheiro, nem de talentos. O rico com alma republicana é tão generoso que, pelas causas que defende, é capaz de sentar-se à mesa para negociar com políticos e fracos de espírito em geral. Pobre coitado.

Last, but not least, há os ricos Odete Roitman. Eles usam black-tie, vão à opera, falam francês e jamais confundem os talheres. Mas exibem conhecimento como se fosse uma bolsa de grife vazia: apenas para ostentar. O rico Odete Roitman odeia o Brasil, os pobres e até os outros ricos. Odetes só gostam deles mesmos.

Quando surgiu, nos anos 1980, como a vilã esnobe da novela Vale Tudo, Odete fez sucesso porque era a caricatura de uma elite arcaica e mesquinha que parecia estar em extinção. Ledo e ivo engano: Odete Roitman nunca morreu. No máximo, perdeu a vergonha e desaprendeu a usar os talheres.

CLÁUDIA LAITANO

08 DE SETEMBRO DE 2018
LEANDRO KARNAL

A arte da conversa

Há dois tipos de conversa muito bons. O primeiro é o franco e direto, diálogo vivo que inclua seu eu mais profundo com alguém que você ama e confia. Como é bom falar de temas densos, de questões biográficas e estruturais. É libertador abrir-se sem medo. As horas voam e você não percebe. Caso você tenha alguém assim, aproveite muito. Conversa íntima é uma vacina contra a insanidade.

O outro tipo de boa conversa pode ou não estar contido no modelo anterior. Trata-se da conversa inteligente. Você enuncia uma ideia e sua companhia complementa, redargue, aprofunda, exemplifica, ouve e se faz ouvir com bons argumentos. Um diálogo inteligente é sedutor, quase erótico, um jogo gostoso como as gavinhas de uma hera que sobe pela parede do cérebro com elegância. Dois momentos intensos de felicidade dialógica: aquela que atrai a confiança e a que seduz o intelecto. Se você tem na mesma pessoa confiança e inteligência, entrega e criatividade, quase mais nada será sentido como falta na sua biografia.

Sejamos francos: a maioria das interações humanas foge dos tipos descritos. Nossa vida é dominada pela conversa de elevador, de consultório, de táxi, de avião, de festa. No geral, são falas sociais com o desconhecido ao seu lado com temática ampla e superficial. A ilha do diálogo denso, adaptando a metáfora do doutor Simão Bacamarte de Machado, é cercada pelo oceano do comum, do raso, do anódino e do placebo retórico.

No Brasil, domina a ideia de que não é educado ficar em silêncio com outro ser humano. Mesmo que você não o conheça, além da saudação formal, nossa cultura exalta o imperativo da fala. Na Terra de Santa Cruz, falar é educado, o calar é tomado por grosseria. Em grande parte da Europa, ficar em silêncio é bem-aceito.

Para enfrentar nossa sociabilidade tropical, urge aperfeiçoar o "papo-furado". O conceito não é para amadores ou para conversadores triviais. Os iniciantes na delicada arte de falar nada com sofisticação começam pelo tempo: "Que calor, hem?". O recurso meteorológico é técnica de debutante. Resolve o silêncio constrangedor, mas evidencia a falta de traquejo.

O erro oposto, também típico de inábeis, é tornar a conversa densa em demasia. A conversa-fiada não poderia incluir seu fluxo de consciência, suas angústias ou devaneios, nem sequer seus sonhos dourados. Tais temas assustam o ouvinte e constituem excesso de tempo e de abertura pessoal. Raso demais ou denso em exagero são arestas evitáveis.

Como na Teoria do Medalhão de Machado de Assis, há que se treinar a arte de nada dizer com certo requinte. Imagine a cena: você entra no elevador e há alguém. Impossível não notar. Um meneio de cabeça indica que houve percepção do outro.

Saudamos o ocupante do meio de transporte mais seguro do mundo. Nada de encarar ou exceder o volume. Algo discreto. O celular é ferramenta nova e boa: basta acessar e ficamos blindados e livres da interação. Papo-furado sim, mas jamais insultem a arte comentando que o elevador é lento ou rápido demais. Descrição fática derruba a arte.

Seja criativo. Na placa do elevador existe uma advertência legal: verificar se o mesmo está parado ali. Adoro o "mesmo". Imagino o "mesmo" em um canto, rosnando assustado. O comentário jocoso pega bem. O interlocutor fica satisfeito, ninguém invade ninguém e o constrangimento passa. Ao sair, ele dará um tchau feliz, quase arrependido de ter de abandonar aquele espaço compartilhado com você.

No avião não existe a proteção do celular. A viagem pode durar horas. De novo um sorriso, um pedido de licença, o tempo preparatório para você afivelar-se e pronto: de São Paulo até Fortaleza serão mais de três horas. Não convém excesso de informações do tipo: "Estamos na fila 18, boa escolha para o Judaísmo". Ou: "O lugar 8 é de bom augúrio na China". Por mais interessante que seja a numerologia histórica, pode irritar pelo pedantismo. Apresentar-se ajuda e a etimologia é caminho certeiro para a simpatia superficial. "Ah, você é Filipe, então você ama cavalos"; "Letícia? Você deve ser feliz"; "Cláudia, você manca?" Também existe pavonice erudita aqui, todavia, ao envolver o nome do interlocutor, o narciso dele atenuará a exibição do seu. A única coisa que perdoamos na vaidade alheia é se ela tiver por objeto a nossa. Como você vê, querida leitora e estimado leitor, há um mundo de técnica e talento na conversa rasa. Associar o nome da pessoa a uma personalidade ou santo é muito eficaz. Um homônimo de jogador de futebol famoso é terreno perigoso: pode sair do campo confortável do papo-furado para o da paixão.

Conversar é uma arte; calar é sabedoria pura. Em tempos que ninguém cala e jamais escuta o outro, conversar bem, calar e ouvir viram tripé inovador. Infelizmente, quem mais necessita não lerá a reflexão que você acompanhou. É preciso ter esperança.

LEANDRO KARNAL


08 DE SETEMBRO DE 2018
PIANGERS

Não tenha medo


Quando você tiver a minha idade, não tenha medo. O mundo é um lugar bom, apesar de tudo. Ainda não inventaram outro lugar onde as pessoas se abraçam assim. Ainda não inventaram outro lugar em que a gente pode andar de bicicleta conversando. Em que a gente pode deitar na grama. Em que a gente pode dizer "eu te amo".

Claro que há os que não acreditam na beleza do mundo. Há os que estão presos no trânsito. Há os que se molharam com a chuva. Há os que perderam o ônibus. Há os que reclamam do chefe. Há os que nunca têm tempo pra nada. Há os que sempre estão precisando de mais dinheiro.

Mas há os que estão ouvindo jazz. Há os que acham a chuva um milagre. Há os que decidiram caminhar. Há os que começaram o próprio negócio. Há os que tiraram um dia de folga. Há os que não precisam de mais nada pra serem felizes. Há os que olham ao redor e falam pra si mesmos: "Se isso aqui não é agradável, não sei o que é".

Tem coisas que a gente não controla, meu amor. O clima. Os outros. O tempo. Esta é a beleza do mundo. O improvável. O imprevisível. Quando tiver a minha idade, não tenha medo. Espero estar ao seu lado hoje, mas se não estiver não tenha medo. Há o que você controla. Há abraços e amigos e música e há crianças.

Faça coisas boas. Arrume o sofá e assista a um filme. Tome seu chá favorito. Faça algo inesperado. Diga o que sente. Abrace as pessoas. Me mande uma mensagem amorosa. O mundo é um lugar bom, meu amor. Apesar de tudo. Porque ainda não inventaram outro lugar que você existe.

PIANGERS

08 DE SETEMBRO DE 2018
CARPINEJAR

O sufoco dos terapeutas

Coitados dos terapeutas. Antes as pessoas chegavam ao consultório com um único problema. Se a relação amorosa não estava bem, tinha o trabalho. Se o trabalho não ia de vento em popa, havia a segurança dos amigos. Se o lar da infância evidenciava traumas e recalques, um romance mantinha o equilíbrio. Existia uma alternância saudável das crises. Não aconteciam ao mesmo tempo. Cada impasse esperava educadamente o outro acabar. Reinava a lógica, a capitulação da esperança, o desenvolvimento gradual das descobertas. O curativo apresentava um foco, um ponto de partida.

Hoje os pacientes aparecem com toda a personalidade fragmentada, abarcando a família desmoronada, a carreira desmoronada, os amores desmoronados.

O desabafo foi substituído pelo desmoronamento. É um caos generalizado. Não encontram sequer um apoio positivo para sustentar o olhar.

Consultas são surtos. Predomina um medo da violência que não é somente física (assalto, morte), mas emocional (perder casa, família, profissão).

O terapeuta enfrenta um redemoinho, um turbilhão, não mais um indivíduo. É um maremoto que transborda do divã.

Convertemo-nos em aparelhos, dependendo cada vez mais do backup e da reinicialização do sistema.

O desespero vem tomando conta das nossas fragilidades devido a uma mudança no código da vida. A estabilidade morreu. Nada é mais para sempre como antes. O emprego não é mais para sempre. O casamento não é mais para sempre. Nem os pais, os filhos e os amigos são para sempre. Desapareceu a sensação de infinito da condição humana, o poder da posteridade e da continuidade. Acorda-se sem saber se estaremos naquele relacionamento ou naquela empresa.

Tudo parece um retrocesso, um eterno recomeçar. É um passo para frente, dois para trás.

Aquela paixão que jurava que salvaria o seu destino só dura seis meses, o posto de trabalho que traria poupança não dura um ano.

Experimenta-se uma insegurança de posição e uma permanente troca de cenários. A cigania tornou-se a nossa derradeira constância. Formar patrimônio e proteger laços, objetivos de nossos pais, são quase impraticáveis diante da efemeridade líquida. O planejamento de uma década acabou reduzido a 30 dias.

O desafio é ser feliz sendo transitório, é possuir uma resiliência criativa e um desapego a ponto de não levar qualquer fim para o lado pessoal, como se fosse incompetência ou derrota.

As decepções estão interligadas na mesma incerteza: somos agora e nada mais.

CARPINEJAR


08 DE SETEMBRO DE 2018
CLAUDIA TAJES

Sobre apertos e feiuras

Duros e complicados têm sido os dias para boa parte das pessoas. Poucos estão conseguindo viver sem atrasar nenhuma prestação, sem empréstimos para pagar a juros de perder o sono, sem aquele consignado que, na hora, parece um bom negócio, mas que dói, como dói, quando o salário chega. Isso quando o salário chega. Com os malfadados parcelamentos, há quem sequer note que o salário entrou na conta, tantas são as dívidas comendo o pouco que cai ali. Não faz muito, um leitor me escreveu dizendo que é preciso compreender o parcelamento. E o banco, será que compreende?

Pausa para uma rápida digressão. Não tenho a menor simpatia por banco algum, mas adoro todas as minhas gerentes da era pré-atendimento digital. Samantha, Angélica, Bruna e tantas outras, que saudade de vocês. Antes de sumir com seus gerentes - e sobrecarregar os poucos mantidos nas agências -, os bancos costumavam trocá-los tão logo a gente desenvolvia com eles uma relação menos impessoal. Um belo dia, lá estava um funcionário desconhecido no lugar de quem te entendia tão bem. Por vezes, a sorte ainda ajuda os insistentes. 

Recentemente, conheci o Mirto, que se aposentou tão logo começou a me atender - talvez por desgosto. Também tive uma ótima experiência com a Eneida e o Diego. Na semana passada, depois de uma triste confusão que quase terminou com o banco tomando as minhas ceroulas, que eu nem uso, a Aline conseguiu resolver tudo da forma menos dolorosa possível. Não sem o meu sangue, mas seria muito pior sem ela. Nada como uma pessoa de verdade em lugar de um sotaque paulista ao telefone: enteeeeeindo, mas não posso ajudar. Às gerentes, bancárias e bancários que se viram nos trinta, cara a cara com o cliente, aquele abraço.

Voltando ao aperto. Quem trabalha sabe direitinho para onde vai cada pila gasto - e porque a conta não fecha no fim do mês. Uma amiga atira os boletos para cima e paga os que pegar. Os outros, depois ela vê. De certo mesmo é que ninguém serve lagosta no almoço se, com isso, não sobrar para vestir os filhos. Já em um país, cidadãos não têm hospital, crianças não têm escola, museus não têm manutenção, mas juízes e políticos têm aumentos e regalias que, melhor destinados, resolveriam muita coisa. Não há obviedade maior, mas não para quem decide os rumos do dinheiro. 

A gestão do vampiro morto-vivo, mais morto que vivo nesses meses que antecedem seu desaparecimento para sempre, investiu menos no museu incendiado (R$ 205.821,00) do que a Câmara dos Deputados prevê para lavar seus 83 veículos oficiais em 2018 (R$ 563 mil). Para manter o Palácio do Alvorada, onde ninguém mora desde que o vampiro & família não curtiram a decoração, são gastos R$ 500 mil. Por mês. Outro dado de cair os butiás: apenas um par de brincos da ex-primeira dama do Rio, o espeto de turmalinas, custou mais (R$ 612 mil) do que manter um museu de 13 mil metros quadrados por um ano.

Não que na nossa casa a situação seja muito diferente. Enquanto o Teatro Amazonas na distante e, dizem, menos civilizada Manaus, oferece visitas guiadas de quinze em quinze minutos, o nosso lindo São Pedro agora só abre em dias de espetáculo. O café, de longas filas de espera nos bons tempos, não existe mais. Não fosse a Associação dos Amigos dos Theatro São Pedro, tudo seria ainda pior. 

Por isso os valentes sucessores da dona Eva Sopher seguem na luta para aumentar o número de associados. Informações aqui: www.teatrosaopedro.com.br/aatsp. A cidade vê espaços tradicionais se deteriorarem até o fechamento, caso do Teatro de Câmara. A Usina do Gasômetro, que já foi um complexo de salas, aguarda uma prometida reforma. Os outros teatros públicos, ainda que em condições precárias, seguem resistindo. Até quando, eis a questão.

Na segunda-feira pós-comoção com a destruição do Museu Nacional, outra notícia chocou tanto quanto o incêndio. Nenhum estado brasileiro atingiu a meta do Ideb, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. Pior: entre os cinco que regrediram, está o Rio Grande do Sul. Mais um péssimo resultado para se juntar a outro, divulgado em agosto. Enquanto 5,7% das crianças e jovens entre 4 a 17 anos estão fora da escola no país, no nosso estado o índice pula para 16,8%. E mais não digo para não estragar o fim de semana dos meus queridos leitores. Mas que a coisa é feia e vem se debruçando, para usar uma expressão do clássico Dicionário de Porto-Alegrês do professor Fischer, ah, ela é.

CLAUDIA TAJES

08 DE SETEMBRO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

Uma árvore


Acompanhei de longe a história de uma árvore do bairro Jardim Botânico, no Rio. Uma amiga soube que ela iria ser derrubada por motivos fúteis (não estava ameaçando a vida de ninguém) e se empenhou em salvá-la. Primeiro ato: minha amiga subiu na árvore, que é como os ativistas ecológicos defendem seu território, e só desceu de lá depois de conseguir mobilizar a opinião pública - ou parte dela, representada por seus vizinhos e amigos. Estava tudo correndo bem, até marchinha de Carnaval a árvore ganhou em sua defesa e camisetas foram confeccionadas para angariar mais simpatizantes à causa, mas não foi suficiente. A bonita árvore foi cortada, veio abaixo.

Esta não é uma crônica sobre consciência ambiental, mas poderia ser. Não é uma crônica sobre os maus-tratos que a natureza sofre e seus efeitos sobre a vida no planeta, mas poderia ser. Não é uma crônica sobre a ideia canhestra de que só é válido se manifestar contra a devastação de uma floresta, mas uma arvorezinha só, uma arvorezinha de rua, essa não vai fazer falta a ninguém. Essa crônica poderia ser sobre a miopia de só darmos atenção às tragédias coletivas, às tragédias televisionadas, sem nos importarmos com os erros individuais e silenciosos que são cometidos embaixo do nosso nariz. Mas não é sobre isso a crônica.

É sobre paixão.

Uma mulher declara-se apaixonada por uma blusa. Ao comprá-la, resolve sua carência por 10 minutos. Logo se apaixonará por um sapato, e assim vai tentando preencher seu vazio. Muitos são apaixonados por chocolate. Outros são apaixonados por carro. Banalizamos o verbo, somos todos apaixonados pelo que podemos consumir. Quantos ainda são apaixonados pela vida?

Minha amiga me telefonou assim que cortaram a árvore. Chorava. Chorava sua impotência, chorava sua desolação. Era só uma árvore, e ela sentia como se fosse a morte de um parente. Ela havia defendido um bem público, não era dona da árvore, a árvore era de toda a cidade, mas alguém com uma motosserra embaixo do braço olhou para ela e disse: perdeu, moça.

A paixão pela vida se manifesta, hoje, através de alguns poucos Dom Quixotes urbanos. O cara que usa dinheiro do próprio bolso para montar uma peça de teatro, o atleta com deficiência física que compete nas paraolimpíadas, o motorista que dá carona no seu carro aos que percorrem o mesmo trajeto que ele, os que recusam propostas milionárias para ter mais tempo livre a fim de se dedicar ao que interessa de fato. E o que interessa de fato? Família, amigos, amor, arte, natureza e algum idealismo, mesmo que esteja fora de moda. É só pelo que vale brigar.

Mas as pessoas brigam por uma geladeira em liquidação, brigam por uma vaga no estacionamento, brigam dentro da escola, brigam por miudezas e quando vencem, não ganham nada. Brigar por uma árvore é ao menos poético. Perdeu coisa nenhuma, minha amiga.

MARTHA MEDEIROS


08 DE SETEMBRO DE 2018
LYA LUFT

Metáfora e tragédia

Acordar numa segunda-feira de manhã e deparar com o belíssimo, importantíssimo Museu Nacional, da Quinta da Boa Vista no Rio, aniquilado pelas chamas foi uma das experiências que jamais esquecerei. Incredulidade, sensação de algo surreal e impossível, mágoa, dor, vergonha, raiva, indignação, e uma compaixão enorme por todos nós, pelo Brasil já tão espoliado, tão submetido, espezinhado e esvaziado.

Passo os dias seguintes ouvindo, compungida e aflita, os lamentos dos mais diretamente atingidos - funcionários, pesquisadores, alunos e frequentadores habituais do museu. Mas o pior, o grave, o mais constrangedor, têm sido as péssimas declarações dos realmente responsáveis, sejam ministérios, sejam outros responsáveis pelo museu. Um diretor chegou a dizer, e repetir, que os bombeiros tinham demorado no atendimento. 

Ora, eu mesma presenciei o desespero dos bombeiros quando a água secou depois de poucos minutos, e ficaram impotentes, no alto da grua (única, aliás, no começo) ou com as mangueiras no chão, cruelmente secas. Alguns choravam. Claro que demoraria para pegar água no lago ou outras providências, e, pela altura das chamas desde o começo, está bastante claro que nem toda a água do lago iria adiantar.

O que teria adiantado para evitar a vergonhosa desgraça teria sido atender aos apelos, alguns desesperados, de responsáveis, engenheiros, arquitetos, funcionários, pesquisadores, que há meses, até anos, imploravam alguma medida. Um arquiteto enviou um relatório um mês atrás, dizendo claramente que um incêndio parecia inevitável se não se tomassem providências. Não se tomaram medidas, nem foram autoridades ao aniversário de 200 anos do museu - tal a desatenção que por ele tinham.

Fios desencapados, fios enrolados, tomadas sobrecarregadas, infinidade de irregularidades que não dependiam de quem lá trabalhava, mas de quem, mesmo com dinheiro talvez disponível, não o encaminhava para essa pobre, linda, importantíssima instituição respeitada mundialmente. No Brasil e no Exterior, vários noticiários declararam, de maneira realista e trágica, que esse incêndio, por descaso, desinteresse, desvios e ganância ou irresponsabilidade - e sabe-se lá quantos motivos obscenos mais -, era uma metáfora do próprio Brasil em seu momento atual.

O que andamos fazendo de nós mesmos? Estamos como o sujeito que, ao fim da vida, sabendo que pouco tempo lhe resta, para suas correrias supérfluas e desejos inúteis e diz para si mesmo: "O que fiz da minha vida?".

Governos acusam outros governos, autoridades apontam o dedo umas para as outras, alguns fazem comentários cínicos e totalmente inapropriados, querendo diminuir, mais uma vez, o alcance nacional e internacional do ocorrido. Outros falam como se se tratasse apenas de reerguer paredes, pintar de branco, e tudo feito. A perda é incalculável e absolutamente irreparável. Nosso atraso geral aumenta em muitas décadas, mais uma vez.

Pobres de nós: sem pai, sem mãe, sem grandes esperanças. Rezemos para que o país não acabe literalmente uma metáfora dessa torturada ruína esvaziada de seu passado e impedida de um futuro sequer razoável.

LYA LUFT

sábado, 1 de setembro de 2018


01 DE SETEMBRO DE 2018
LYA LUFT

A felicidade

Contesto um pouco o "éramos felizes, e a gente não sabia".


Pois eu acho que em geral sabíamos, sim, se prestássemos um pouco de atenção. Quem não sentiu um reconfortante bem-estar em conversa com amigos leais, ou no sofá junto da pessoa amada, ou com as crianças ao lado, cobertor sobre as pernas se fizesse frio, assistindo com elas a todos os programas infantis que as deliciavam... e você, confesse, se deliciava também? Lembro-me de assistir, com netas e netos bem pequenos, aos Backyardigans: eu era sempre o pinguim Pablo. Era divertido, leve, mágico.

Por que precisamos ser sérios, rigorosos, aprumados e chatos? Um dos maiores elogios que recebi foi quando uma das netas, já com quase 16 anos, me disse que sou "uma avó muito divertida". Pois com as minhas amadas avós, há décadas, era tudo respeitoso, embora com muito afeto. Usavam roupas escuras, cabelos grisalhos, faziam bolos ou tricotavam roupinhas de bebê, cuidavam do jardim ou cuidavam de nós quando os pais viajavam. Nem havia televisão para nos divertirmos juntas. Mas, mesmo então, havia aqueles momentos em que contavam maravilhosas histórias de suas próprias infâncias, a gente boquiaberta - então um dia a vó tinha subido numa goiabeira, caindo e quebrando o braço? Hoje, ler e contar histórias ainda pode ser um privilégio, e, em lugar de reclamar porque a meninada usa iPhone ou iPad demais, quem sabe algumas coisas a gente divide com eles?

Também fomos inundados por uma sensação de alegria nos primeiros encontros com o novo namorado, desde que tenham sido delicados e românticos, não brutos e sob efeito de alguma droga. Relação de pessoa com pessoa, em qualquer idade, bonito demais.

Quem não sentiu a alma transbordando na primeira viagem, seja para a praia próxima ou para outro país? Lembro-me da primeira vez em que, a convite para trabalho sobre um livro meu, fui sozinha à Europa. Eu estava acordada, antes mesmo de o dia clarear, quando avistei ao longe, sobre uma enorme paisagem negra, uma fita vermelha que me espantou. Perguntei, ignorante que era, e a comissária me explicou sorrindo que era o amanhecer sobre a África. Até este momento recordo a emoção intensa.

Às vezes, a alegria é minúscula mesmo, como há instantes tomando café vendo a orquídea amarela que a zeladora de nossa casinha na Serra me entregou da última vez, e continua luminosa.

Fomos felizes muitas vezes. Isso ricocheta no nosso agora e nos possibilita abrir o coração para tantos momentos bons que se oferecem, mas estamos fechados demais para sentir: um simples acordar com o dia nascendo, uma voz ao telefone, nossa própria divertida perplexidade com alguma bobagem que cometemos - como eu, recentemente, ter deixado o talão de cheques embaixo das carteiras de vacinas de Melanie e Penélope e ficar atormentada até que alguém veio me dizer que tinha encontrado o talão naquele lugar improvável. E me senti, naquele instante, extraordinariamente feliz.

Como escrevi mil vezes - e repito porque gosto -, não é preciso ter experiências extraordinárias - em geral, inalcançáveis. Basta olhar, sentir e se permitir largar por uns instantes a medíocre lamúria que nos entorta o coração e o pensamento.

LYA LUFT

01 DE SETEMBRO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

Você, modo de usar


Quando caminho pelas ruas da cidade, ou mesmo quando circulo de carro, reparo em pequenos pontos comerciais em reforma e penso: tomara que seja uma livraria, tomara que seja uma papelaria, tomara que seja uma galeria de arte, tomara que seja um bistrô, tomara que seja uma floricultura. Vou acompanhando a obra com expectativa, até que um dia os tapumes são retirados e, lógico: é mais uma farmácia.

Os laboratórios movimentam fortunas e estimulam o consumo de medicamentos de forma impulsiva e muitas vezes desnecessária. Remédio não é sorvete, não é banana, não é pãozinho. Mas o povo se acostumou a ingerir goela abaixo o que é sugerido sem receita e sem critério, e a indústria farmacêutica prospera.

Conversava outro dia com uma amiga endocrinologista e falávamos justamente sobre como tantas doenças poderiam ser prevenidas através da simples mudança de hábitos. Ninguém nega a importância de uma campanha de prevenção contra o uso do drogas, por exemplo, mas há um número ainda maior de pessoas se viciando em gordura, evitando legumes, se entupindo de refrigerante, não investindo em produtos orgânicos, abusando do sal, do açúcar e das frituras.

Esse é só um exemplo de como a falta de qualidade de vida pode adoecer e até matar. A causa de óbitos geralmente é infarto, câncer, infecção generalizada, falência múltipla de órgãos, mas algumas dessas doenças tendem a iniciar décadas antes, por meio de uma rotina de muito stress, ansiedade, angústia emocional e neuroses não tratadas. Negativismo, raiva, frustração, nada disso colabora com nosso metabolismo. 

É aí que pequenas atitudes podem fazer diferença, como praticar atividades físicas, buscar recursos para relaxamento (ioga, meditação, massagem), cultivar amigos, dormir bastante, usar filtro solar, cuidar da postura, beber muita água, controlar o peso, não fumar, não beber em excesso, fazer check-ups periódicos - e não se drogar, lógico. Os médicos têm batido nessa tecla com insistência, mas ainda há quem considere esse blá-blá-blá improdutivo ou politicamente correto demais.

Tem nada a ver com politicamente correto, e sim com inteligência. E inteligência não se vende em frascos.

Farmácias comercializam produtos de primeira necessidade. Sem elas, não teríamos acesso a medicamentos fundamentais para nossa saúde mental e física, devidamente prescritos, mas precisamos de tantos? Creio que teríamos uma sociedade bem mais saudável se a população contasse com muito mais pontos de venda de livros, sucos, flores, livros, discos, bicicletas, livros, frutas, bolas de futebol, raquetes de frescobol, instrumentos musicais, gravuras, livros, livros e, claro, livros.

MARTHA MEDEIROS


01 DE SETEMBRO DE 2018
CARPINEJAR

Alguidar

Quando era miúdo, a minha mãe me convidava a ajudá-la no alguidar. Na realidade, não representava bem um convite, não vinha a ser exatamente o escolhido para a tarefa, mas o que correspondia ao seu grito pelos corredores.

No fim do dia, depois da escola e do trabalho, eu terminava sendo o que sobrava, o que atendia solitariamente ao seu chamado para a cozinha. Os meus irmãos não gostavam da obrigação e fingiam que estavam ocupados com os temas. O estudo representava o argumento invencível - e o único admissível - para não participar das lidas domésticas.

Interessavam-me as histórias que vinham com o entardecer. As verdades são feitas para o crepúsculo. Ninguém acorda sendo sincero, a sinceridade vem aos poucos, ao longo das horas, até a culminância da lua. A consciência demora para se acordar - desperta apenas de noite.

Enquanto o sol se punha no horizonte do Guaíba, eu e a mãe, debruçados numa vasilha grande, separávamos os feijões sadios dos doentes. Havia encantamento e cumplicidade na peneira, perguntava se o examinado estava em boas condições e se seria selecionado.

- Esse pode? -, conferia.

Entre pode e não pode, a mãe me concedia um afago no cabelo, admirada por um menino ceder o seu tempo de brincar.

Lembro exatamente dos cotovelos maternos, plantados como um tripé do seu rosto na mesa. Lembro de seus comentários sobre a vida, intercalados com suspiros e longos silêncios, de como confiava nas pessoas pelo tamanho da esperança delas. Aquele que espera, escuta. Aquele que tem fé, muda de lugar na experiência para entender melhor.

Entre assuntos aleatórios, reservávamos as pedras bonitas, negras, redondas para despejar na panela.

Aprovávamos na triagem um exército de grãos, de couraça brilhante, para contentar a meia dúzia de pratos.

Mas a mãe não descartava, como de costume, os grãos abatidos, machucados, feinhos.

Ela colocava num saquinho para plantar.

- Todos têm direito a uma segunda chance.

Naquela peneira, eu me sentia eleito para a horta. Nunca fui posto fora. Havia outras fomes para saciar nesta vida.

CARPINEJAR

01 DE SETEMBRO DE 2018
PIANGERS

Nome de filho

Todas as Ana Paulas nasceram por volta dos anos 1980. As Marianas e as Brunas, um pouquinho depois. Depois vieram Matheus e Thiagos, e esses agás já demonstravam uma tendência ao experimentalismo. Nos anos 1990, a moda eram nomes italianos, como Enzo e Lorenzo. Os Luccas pipocaram nessa época. Todas as Sofias e Bernardos nasceram no começo dos anos 2000. Estávamos nostálgicos. Era o início de uma tendência que agora nos dão Benícios e Joaquins, Benjamins e Franciscos. Nomes antigos, homenagens aos avós. Anita e Aurora. Nomes com cara de anos 1940.

Não estou dizendo que vamos voltar no tempo e começar a batizar nossos bebês de Bartolomeu ou Zulmira. Quem sabe? Um bebê chamado Zulmira já nasce com 70 anos. Já nasce de óculos e manta, corcundinha. Apesar de serem nomes lindos, não me entenda mal. Mas acredito que a tendência nostálgica não vai tão longe. Atualmente, sinto uma vibe de Arthurs e Alices. Um amigo teve um filho chamado Otto. Duas conhecidas tiveram Isabellas, com dois eles.

E aí está o cuidado que devemos tomar. Junto com as tendências vêm os nomes repetidos. Inevitavelmente, você vai encontrar outras crianças com o mesmo nome do seu filho. Mesmo que seja um nome antigo. Mesmo que tenha agá e dois eles. Mesmo que seja uma homenagem pra sua avó. Mesmo que seja Zulmira.

Entre os pais, existe uma regra não declarada que é a regra do "peguei primeiro!". Ao decidir o nome da criança os pais devem anunciar alto e rapidamente para todos os chegados. Nenhuma mulher grávida nesta mesma época, no círculo de amigos e conhecidos, poderá usar o mesmo nome que você escolheu.

É importante que, quando anunciado o nome escolhido, seja sempre repetida a informação várias vezes. No trabalho, no condomínio, no churrasco de família, sempre de forma clara e em alto volume: "É João Pedro! João Pedro! Esse será o nome do meu garoto! Não coloquem este nome no filho de vocês, ouviram?". Os outros poderão pegar João Paulo, João Miguel, João Vitor, João Gabriel. Mas João Pedro, não. Seria uma falta de educação, uma deselegância terrível. De acabar amizade.

Pais ficam magoados com outros pais até se o nome for apenas parecido. Vizinhas que ficaram grávidas ao mesmo tempo e colocaram o nome de Vitor e Victor, terminarão falando mal uma da outra. "Mas o meu é sem cê!", dirá a vizinha mal-intencionada, se fazendo de inocente. "O golpe da letrinha diferente! Não me venha com essa!", dirá a mãe que anunciou primeiro. Vitor e Victor é a mesma coisa, me desculpe. Eloisa e Heloisa, também. Sofia e Sophia, também. Isabela já anula qualquer possibilidade de outra mãe escolher Isabella, por exemplo. E, eu diria, até Isabeli. Que nome de criança é coisa séria e pai e mãe são dois bichos enciumados.

PIANGERS

01 DE SETEMBRO DE 2018
DRAUZIO VARELLA

PASSOS DE CARANGUEJO

Depois de tantos anos de esforço para reduzir a mortalidade materno-infantil e organizar o maior programa de vacinações gratuitas do mundo, estamos ladeira abaixo. Pela primeira vez em 26 anos, a mortalidade infantil cresceu no ano de 2016 e, provavelmente, terá aumentado outra vez em 2017 (dados ainda indisponíveis).

A taxa de mortalidade infantil é calculada pelo número de mortes até um ano de idade, em cada 1 mil nascidos vivos. Representa uma medida indireta do desenvolvimento de um país. Japão, Suécia, Noruega, Cingapura e Finlândia têm taxas abaixo de três. Em Serra Leoa, Guiné Bissau, Somália e Afeganistão, elas são maiores do que cem.

No Brasil de 1960, em cada 1 mil nascimentos, morriam no primeiro ano de vida 124 bebês. Em 2016, a taxa foi de 14, número 5% mais alto do que o do ano anterior. O aumento da mortalidade foi documentado em 20 Estados. Os dados parciais mostram que em 2017 os números não serão melhores. Por exemplo, a taxa de desnutrição crônica nas crianças de até cinco anos foi de 13,1% contra 12,5% em 2015.

A desnutrição crônica deixa cicatrizes em diversos mecanismos biológicos ligados ao desenvolvimento. A sequela mais temível ocorre na formação de conexões entre os neurônios cerebrais, causando deficiências arquiteturais capazes de causar rebaixamento do QI.

Depois de ouvir vários especialistas, as jornalistas Claudia Collucci e Marina Merlo atribuíram a piora do índice ao desemprego, à queda da renda familiar, à epidemia de zika e ao corte de verbas na saúde.

Para piorar, em 2016, houve aumento da mortalidade materna, índice que considera qualquer morte durante a gravidez, parto ou até 42 dias depois dele, desde que decorrente de causa relacionada ou agravada pela gestação. A taxa de mortalidade materna (número de mortes para cada 100 mil nascidos vivos) já vinha mal: aumentou em 2013, caiu em 2015, para voltar a subir em 2016.

Enquanto nos países nórdicos, na Itália e no Japão, as taxas não ultrapassam quatro mortes maternas para cada 100 mil nascidos vivos, no Norte do Brasil atingem 84, no Nordeste, 78, no Sudeste, 55 e no Sul, 44.

Esses números são vergonhosos, porque estamos falando de mortes evitáveis em mais de 90% dos casos: hipertensão arterial, sangramentos uterinos, infecções e abortos provocados. Não podemos esquecer que em 21% dos partos realizados pelo SUS, a mãe tem de 11 a 20 anos, faixa etária em que aumenta a incidência de gestações de risco.

Até o programa de imunizações brasileiro mostra piora dos índices nos últimos anos. Embora as razões sejam múltiplas, descaso, ignorância, falta de motivação provocada pela queda na incidência das doenças que a vacinação previne, o desemprego e o empobrecimento geral da população nos últimos anos contribuem para afastar as famílias dos serviços de saúde.

O aumento da mortalidade materna e infantil e diminuição da adesão ao programa de vacinações são reflexos da nossa dificuldade crônica para organizar a atenção primária e financiar o SUS de modo razoável. Uma crise econômica grave como a atual torna esse quadro mais assustador.

DRAUZIO VARELLA

01 DE SETEMBRO DE 2018
VIVER MELHOR

A ESPIRITUALIDADE É MAIS VISÍVEL NOS MOMENTOS RADICAIS DA VIDA, SEJAM BONS OU RUINS

Como a espiritualidade pode se fazer presente no dia a dia mesmo de quem não é religioso?


Um dos rabinos que me inspiram a responder essa pergunta se chama Heschel, que fala justamente sobre a capacidade de o ser humano se espantar com a vida. De admirá-la todos os dias de novo. Ele costumava fazer palestras que, quando eram no final da tarde, começavam assim: "Acabou de acontecer um milagre!". E qual era? "O sol se pôs." A espiritualidade está nessa capacidade de ver na natureza, no ser humano, algo extraordinário. E isso extrapola a questão religiosa. Porque você não necessariamente precisa ter uma filiação religiosa específica para admirar a beleza que existe na vida. Quem, por exemplo, teve a oportunidade de ter filhos sabe que o nascimento é um momento de extrema espiritualidade. Mesmo que você não tenha uma religião, ou não acredite em Deus, é o momento em que você sente a vida chegando, com uma força extraordinária, e não tem como não se emocionar com isso. Acho que a espiritualidade está em poder reconhecer a maravilha que é a vida, a beleza que existe na natureza, e não se acomodar, não transformar isso em algo comum, porque não é. E o caminho da espiritualidade é você poder admirar o extraordinário que existe na vida.

A espiritualidade parece aflorar diante de problemas de saúde - envolvendo doença, velhice, luto. Por que isso acontece?

A impressão que tenho é que a espiritualidade é mais visível nos momentos radicais da vida. Sejam ruins ou bons. Acho que as pessoas, quando estão vivendo momentos extremos, de felicidade - como a constituição de uma nova família, a conquista de um novo trabalho, o nascimento de um filho ou uma filha -, se aproximam de Deus. E isso faz com que vivam uma busca por espiritualidade, porque dar conta da felicidade também não é algo simples. É desafiador. E, na outra ponta, estão os momentos duros, tristes - de uma doença grave, uma perda. Sem dúvida são momentos em que as pessoas se aproximam da espiritualidade, da religião. Então, nesses momentos radicais da vida, nesses momentos extremos, existe uma tendência maior de as pessoas buscarem espiritualidade. Talvez nas fases mais mornas isso fique um pouco mais latente, mais distante. E a vida é muito mais marcada por momentos comuns. Mas é nos momentos radicais em que a conexão pode nascer, e se ela é bem amarrada, permanece nos outros momentos da vida.

É importante, de alguma forma, praticar a religiosidade mesmo nas escolas?

Ainda são poucas as escolas que estão sensíveis a isso. Mas o caminho é esse. Porque o conteúdo, cada vez mais, estará disponível. Se eu quero saber de alguma coisa, eu posso, da minha casa, do meu celular, dar um Google, abrir a Wikipédia e descobrir a informação de que preciso. A escola cada vez menos vai ser um lugar de informação e cada vez mais vai ser um lugar de formação. E a formação passa por isso, pela capacidade de a gente desenvolver laços duradouros, profundos. De ter um permanente debate ético, algo que falta no nosso país. E as religiões têm muita coisa para contribuir. Porque a religião, no final das contas, é um conjunto de regramentos éticos milenares que ajuda as pessoas a enfrentarem os dilemas da vida. Então, acredito que, na medida em que nós pudermos, nas escolas, em casa, nas comunidades, fortalecer laços e debater ética, temos a possibilidade de trazer a sociedade para um patamar melhor, mais evoluído.

Espiritualidade tem idade?

Ao longo de toda vida isso é possível. O importante é a gente compreender que isso não é algo constante. Que vamos viver altos e baixos. E tudo bem. Lidar bem com isso é importante, porque a gente exigir ser a mesma coisa o tempo todo não é algo normal. Às vezes eu creio mais, às vezes eu creio menos. Ao longo da vida, as circunstâncias que a rodeiam levam a um momento de maior ou menor conexão, espiritualidade. Conviver com isso de uma forma mais tranquila deixa a vida mais fácil. Às vezes, a gente se cobra demais. Ninguém vive altamente espiritualizado o tempo todo. Isso não é real, não é humano: o normal é que a gente tenha fases. Às vezes estão acontecendo coisas à minha volta que me tornam um pouco mais descrente ou mais crente. Ser humano é lidar com ciclos, com fases, com momentos. A espiritualidade é mais acessível quando diminuímos nossa cobrança de nós mesmos.

RABINO MICHEL SCHLESINGE, REPRESENTANTE DA CONFEDERAÇÃO ISRAELITA DO BRASIL (CONIB) PARA O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO

01 DE SETEMBRO DE 2018
J.J. CAMARGO


MANTENHA SUA GRATIDÃO ATUALIZADA

Sempre gostei de autobiografias, por várias razões. A primeira é que, por elas, os medíocres não se arriscam, o que, convenhamos, já é uma triagem promissora. Desde algum tempo, conversando com amigos de diferentes idades e que tinham lido os mesmos livros, me dei conta que, com a idade passando, a valorização das virtudes vai, progressivamente, se modificando. Dê a um jovem a biografia do Steve Jobs e ele concentrará o encanto pelo espírito aventureiro, destemido e inovador deste grande ícone da modernidade líquida. Empreste-lhe Vivir para Contarla, e ele lhe devolverá no segundo dia, saturado do intimismo que te seduz na literatura de Gabriel García Márquez.

E por que é assim? Porque nós mudamos nossos gostos em relação ao que pensávamos na juventude (nem discuto se regredimos ou sofisticamos e nunca assumiria que sofisticamos porque quero que os jovens leiam a crônica até o fim), mas, se registrarmos o que pensávamos na juventude, nem nos reconheceremos na maturidade.

Outra diferença óbvia é a tendência que o biografado idoso tem de ser agradecido, como se idade corroesse as amarras da soberba, liberando a doçura do reconhecimento.

Essa necessidade de admitir gratidão transborda das biografias e derrama nos discursos de agradecimento dos velhinhos homenageados que, tendo ultrapassado a preocupação limitadora de serem populares, seduzem pela espontaneidade.

Quando recentemente sentei para rascunhar o discurso em agradecimento a uma homenagem que recebi de uma sociedade de cirurgia torácica, percebi o quanto e a quanta gente teria de agradecer, convencido que ninguém passa pela vida sem que, em algum momento, alguém tenha sido decisivo ao estender-lhe a mão.

Escolhi um mestre da cirurgia para representar a legião dos indispensáveis: "Nunca vou esquecer, e todo inverno esta lembrança me machuca, da madrugada de 18 de agosto de 1977, quando entrei no quarto 201 do velho Pavilhão Pereira Filho e, por um instante, um sorriso encheu o rosto arfante e sudorético do mestre Ivan Faria Correa que, ao me ver, anunciou: ?Que bom que você chegou a tempo, agora eu não morro mais!?. A extensão do infarto era maior do que a esperança e, quando amanheceu, eu já tinha chorado tanto que não conseguia mais engolir a saliva com a dor física da perda.

Uma pena ter perdido meu primeiro mestre, justo quando ele confiava que eu seria capaz de evitar. Anos depois, entendi que a maior dor fora a extemporaneidade da morte ter-me roubado a chance de dizer o quanto eu lhe era grato pelo jeito paternal com que me ensinou e protegeu".

J.J. CAMARGO

01 DE SETEMBRO DE 2018
DAVID COIMBRA

Os sete pecados mortais de Porto Alegre

Os poderes Legislativo e Judiciário despenderam grande energia no debate acerca do nome da principal avenida de acesso a Porto Alegre. Era Castelo Branco, virou Legalidade, voltou a ser Castelo Branco e parece que disso não sai mais.

Esse é o problema de dar às ruas nomes de pessoas. Nunca haverá unanimidade a respeito das pessoas. Mesmo os caras mais legais, como eu, por exemplo, podem ser odiados. Sim, acredite, há quem queira me arrancar o rim, e esse rim me faria enorme falta.

Talvez os antigos fossem mais inteligentes nesse quesito: eles nomeavam as ruas de acordo com o costume popular. A Rua da Ladeira era chamada assim porque, bem, ela É uma ladeira. Só não entendo por que não lhe deram um nome genuinamente gaúcho: Rua da Lomba. Agora é General Câmara, e está muito bem, porque trata-se de um ilustre antepassado da Marcinha e do Bernardo.

Aliás, jamais chamei a Rua da Praia de Rua dos Andradas. Mesmo que não haja mais praia na rua, ainda há a sua história. Você leu o ótimo Anedotário da Rua da Praia, de Renato Maciel de Sá? Leia se quiser conhecer um pouco da história da cidade. Aí você concordará comigo que aquela rua tão vilipendiada pelo descaso do poder público, o coração de Porto Alegre, a rua mais importante do Rio Grande do Sul, só pode se chamar Rua da Praia.

Os nomes antigos tinham mais charme. A atual General Cipriano, uma lomba (vá lá, ladeira), que desce ingrememente da Duque para a Washington Luís, chamava-se Rua da Cova da Onça, porque, nos primeiros tempos da Leal e Valerosa, uma onça vivia nas imediações. À noite, os moradores ouviam o rugido do bicho e trancavam-se em casa, assustados. Imagine o absurdo: houve um tempo em que os porto-alegrenses tinham medo de sair às ruas. Para resolver aquele terrível problema de segurança pública, o governador mandou vir de Viamão dois valentes caçadores, que emboscaram a onça e a mataram a tiros de arcabuz. O couro pintalgado da bichana foi exposto em praça pública, e a população ficou aliviada.

Trocar Rua da Cova da Onça para General Cipriano é uma melancólica falta de imaginação. Mas é assim: basta o sujeito ser general para virar nome de rua. Um deles, Bento Martins, roubou o nome da Rua dos Sete Pecados Mortais, porque lá existiam sete casinhas em que mulheres generosas faziam sexo a soldo.

Por favor! Rua dos Sete Pecados Mortais titila a imaginação! General Bento Martins, francamente.

Porém, quero deixar claro que nada tenho contra os generais Cipriano e Bento Martins ou quaisquer outros que hoje sejam ruas e avenidas. Eles certamente exerceram com excelência o ofício de general. Ou seja: devem ter matado muita gente. A questão não é essa. A questão é que a tradição popular é mais rica do que a ânsia de bajulação das classes que eventualmente comandam a cidade.

A Praia de Belas já foi o Caminho de Belas. Há certa polêmica entre os historiadores a respeito, mas dizem que naquela região morava um homem com esse sobrenome. E ele, é claro, caminhava por lá. Assim, virou o Caminho de Belas. Semelhante ao que aconteceu na distante Alemanha, no também distante século 18, na velha cidade de Königsberg, onde vivia o filósofo Immanuel Kant. Ele era um homem metódico: passeava todos os dias pelo mesmo trajeto, no mesmo horário. Era tão pontual, que os moradores acertavam seus relógios ao vê-lo passar. Fez isso até o fim da vida e, por isso, a alameda por onde andava até hoje se chama O Passeio do Filósofo.

Não é bonito?

Gostaria de saber quem foi o Belas que caminhava por aquele local onde hoje se eleva um grande shopping center.

A cidade é um corpo vivo. Ela cresce, se desenvolve, se modifica, às vezes se degenera. Suas ruas têm histórias a contar. Quando o nome de uma rua ou de um logradouro qualquer conta uma história, reforça a sua identidade, torna-se real, torna-se importante. Disputas ideológicas entre vereadores não constroem a personalidade de um lugar. A tradição popular, sim. As lideranças da cidade têm de tornar oficial o que o povo consagrou. E só. O resto é política. Vã política.

DAVID COIMBRA

1 DE SETEMBRO DE 2018
MÁRIO CORSO

A função das máscaras

A ideia de ser um farsante, de estar representando para os outros, e não saber bem qual seria seu verdadeiro eu, é queixa recorrente em quem procura terapeutas. Na maioria das vezes, não aponta uma patologia, apenas são pessoas que intuem como funciona nossa psique. Afinal, somos uma coleção de identificações bem ou mal amarradas.

Por fora somos um, por dentro a pluralidade impera. Os restos amorosos deixam identificações parciais, temos um pouco de todos os que já amamos e admiramos. As primeiras paixões deixam marcas mais fortes, por isso nos parecemos com pais, avós e tios. Mas pode ser lateral, dos irmãos e amigos queridos, também roubamos traços de identidade para montar o mosaico que nos tornamos. Mas isso não esgota as divisões internas, também temos partes que não reconhecemos como nossas por seu conteúdo agressivo ou sexualmente desviante.

Viver em sociedade requer encarnar papéis, especialmente os profissionais pedem comportamentos padrões e roupas adequadas ao cargo. Como não teríamos a impressão de estarmos atuando, com uma máscara social para cada ocasião?

Dessa pluralidade de si resulta nosso fascínio por máscaras. Para representar partes negadas por assustadoras, sinistras, de uma comicidade constrangedora, ou fantasias de onipotência, todas as culturas desenvolveram máscaras para expressar nossas outras faces. Ainda existem máscaras para afastar o mal, assustar os inimigos - reais ou imaginários - ou encarnar espíritos.

Por sorte, está em exposição um sem-número de possibilidades do mascarar- se. Visite a Etnos - faces da diversidade, no Santander Cultural, a mostra vai até o dia 7 de outubro. Absolutamente imperdível.

Colocar uma máscara livra-nos, e aos outros também, da dúvida, da decifração. Por isso invejamos nas máscaras suas certezas e ficamos nos cobrando parecer-nos com elas. Cada um daqueles objetos da exposição serve para - pelo menos em uma festa, brincadeira, rito, ou cerimônia - viver a completude de ser uma coisa só.

A curadoria de Marcello Dantas foi feliz em colocar todas as peças no mesmo plano. Estão lado a lado amostras de várias sociedades tribais, passando por máscaras do Carnaval de Veneza, do dia dos mortos mexicano, até exemplares da cultura pop atual. Estão dispostas de tal forma, que não há hierarquias, não há linha do tempo, não há agrupamentos históricos muito claros, cada uma vale por seu impacto estético. O efeito é escancarar a universalidade do uso do mascarar-se, e mostrar como, apesar de sermos diferentes, compartilhamos comportamentos.

Saímos da exposição concernidos da unidade da humanidade dentro da diversidade. Coisa rara neste tempo que explora, marca e sublinha nossas diferenças, e não nossa alma comum.

MÁRIO CORSO