sábado, 15 de setembro de 2018


15 DE SETEMBRO DE 2018

COM A PALAVRA

COM A PALAVRA


Em meio à radicalização do debate público no Brasil, Rosana Pinheiro-Machado é uma observadora dedicada a revelar a complexidade por trás da lógica simplista dos estereótipos. O apuro de seu pensamento não é só baseado em teorias, mas em vivências do dia a dia. Junto com a também antropóloga Lucia Scalco, ela pesquisou a população do Morro da Cruz, em Porto Alegre, e, na greve dos caminhoneiros, foi a campo entrevistar manifestantes. Assim, tornou-se uma intérprete em tempo real das mudanças na sociedade.


Professora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e fundadora da Escola Comum, instituição voltada para jovens da periferia de São Paulo, ela foi professora da Universidade Oxford e realizou pós-doutorado em Harvard. Hoje, finaliza o livro From Hope to Hate ("da esperança ao ódio"), em que ela e Lucia registram nove anos de pesquisa sobre a relação entre consumo, juventude e política nas camadas populares. Nesta entrevista, fala sobre a crise enfrentada pelo país e demonstra esperança em uma mudança de mentalidade nos jovens brasileiros.

É POSSÍVEL IDENTIFICAR UMA PROFUNDA FRUSTRAÇÃO DA POPULAÇÃO BRASILEIRA COM A POLÍTICA INSTITUCIONAL, COMO SE O PAÍS NÃO TIVESSE MAIS JEITO. POR QUE O BRASILEIRO ESTÁ DESCRENTE?

A questão mais evidente é a falta de tradição democrática da sociedade brasileira. Tivemos regimes militares, mandatos interrompidos, um processo eleitoral ainda muito baseado em uma república jovem e fragmentada. E, junto a isso, uma cultura clientelista que predomina especialmente nas camadas populares - a maior parte da população. O Morro da Cruz, onde eu e a (antropóloga) Lucia Scalco fazemos pesquisa, é dominado pela compra de votos.

O Brasil construiu bens públicos, como a universidade e o SUS, mas são serviços ainda deteriorados e que nunca atenderam plenamente a população. Para a grande maioria, a vida é deteriorada, com dificuldade de acesso aos bens públicos. Isso (o acesso a bens públicos) é uma forma de democracia também. A democracia se define de várias maneiras. Há a democracia representativa. E há a democracia da cidadania. Nessa última, o Brasil falha completamente. As elites são predominantemente oligárquicas, com as mesmas famílias no poder. O status quo muda muito pouco.

E, na base da população, serviços precários. Tivemos momentos de melhora, mas agora estamos enfrentando uma nova crise. As camadas populares sempre souberam que o dinheiro não chegava, sempre sentiram que os bens públicos não serviam a todos. Nunca viveram um processo democrático. Ao mesmo tempo, as elites podem comprar seu plano de saúde e uma boa educação. Nunca fui perseguida ao ir ao supermercado, mas quando meus colegas negros entram no supermercado comigo, aparecem dois seguranças. Essas pessoas são perseguidas, são mortas pela polícia. Dos meninos que pesquisamos no Morro da Cruz, 50% estão mortos. Foram mortos pelo tráfico e pela polícia.

PARECE HAVER DESCRENÇA NA PRÓPRIA DEMOCRACIA. ISSO OCORRE PORQUE O BRASILEIRO EXPERIMENTOU SÓ ESSA DEMOCRACIA FALHA OU HÁ PESSOAS QUE NÃO TÊM CLAREZA SOBRE O CONCEITO DE DEMOCRACIA, UMA VEZ QUE SEU CONTRÁRIO É A DITADURA?

A tendência é responder concordando com a hipótese de que as pessoas conhecem esse modelo, vivem esse modelo de democracia deteriorada. Algumas pessoas tendem a dizer que o brasileiro é autoritário, mas afirmar isso é praticar um culturalismo barato. Não acredito que sejamos uma sociedade autoritária por essência. O que temos é uma sociedade em que faltam muitas coisas, e as pessoas começam a querer ordem na casa, como dizem. Isso começa a se identificar, em determinado momento, com um pedido por intervenção militar, eventualmente por uma ditadura. Mas não acho que o brasileiro, de modo geral, tenha uma pulsão autoritária.

O que falta é a presença do Estado atuando. Por outro lado, também percebo que o Brasil pós-Junho de 2013 mudou completamente. Há hoje, nas escolas públicas, principalmente nos movimentos secundaristas, uma nova geração que pensa a democracia de forma radical. Digo radical no sentido de uma democracia do povo. Querem decidir os mecanismos de escolha, os próprios rumos da escola. Essa geração nova, de 16 ou 17 anos, rejeita a política institucional: faz política no dia a dia, luta pela sua escola, luta por questões identitárias, direitos humanos. O Brasil vai ter outra sociedade daqui a 10 anos, e vai ser uma sociedade muito melhor. Isso perpassa todas as classes sociais. Essa nova geração consegue dialogar, em um processo democrático mais horizontal, menos centralizado.

Retomando o outro ponto, do aspecto mais formal da democracia: assim como aconteceu nos EUA e na Inglaterra, quando vem a crise no Brasil, a primeira coisa que a pessoa culpa é a democracia. Dizem: "Esse sistema não funcionou". Mas o nosso problema não é a democracia; é esse tipo de democracia que temos e que serve a poucos. É uma democracia na qual o Estado dá dinheiro para as grandes empresas e não repassa para o povo. Isso é democracia só no nome.

SERÁ QUE ESSA GERAÇÃO NÃO VAI ENCONTRAR UM STATUS QUO MUITO PODEROSO E RESISTENTE A MUDANÇAS?

Sim, vai encontrar, e esse é o grande desafio do Brasil hoje. As pessoas não olham para a juventude, só olham para o caos que está o Brasil. Poucas pessoas estão olhando para os adolescentes. Os adolescentes de hoje no país são uma geração fantástica. Lido com vários grupos em São Paulo e Porto Alegre e também observo o trabalho de outras pessoas. Essa nova juventude não se adequa à política institucional masculina, dura, embrutecida, viciada.

O grande desafio do Brasil hoje é como essa geração vai se institucionalizar - ou vai mudar a política. Porque ela precisa se institucionalizar, não pode ser totalmente autonomista. Senão, o poder vai ficar sempre na mão dos mesmos. O que vemos hoje nas candidaturas coletivas de pessoas que têm um pouco esse espírito de Junho de 2013 é que estão tentando entrar na política institucional. Só que essas pessoas precisam vencer as eleições. Aí entra a máquina, o sistema político, o repasse da verba para os mesmos candidatos. É difícil. Não vai acontecer uma revolução. O que acredito que vai acontecer é essa geração ir empurrando o sistema aos poucos.

FALE UM POUCO SOBRE ESSA IDEIA DE CANDIDATURA COLETIVA, POR FAVOR.

À direta e à esquerda estão aparecendo novos modelos de candidatura, que vêm de movimentos. É o caso do Renova e do Agora. Esses movimentos procuram renovar a política, fornecendo apoio técnico a candidatos qualificados ou via movimentos sociais, formando outras lideranças, geralmente com pessoas que nunca estiveram no sistema político. Isso é uma coisa: novos movimentos, transversais a partidos, que têm uma proposta.

Outra coisa são as candidaturas coletivas propriamente ditas. Há mais delas no centro e na esquerda, embora seja difícil dizer o que é centro hoje. São candidaturas em que há um único número, representativo de um grupo - por exemplo, no caso da Bancada Ativista (de São Paulo), formada por nove pessoas. Todos declaram publicamente que você está votando nos nove. Os candidatos tradicionais sempre trabalharam em equipe, mas a partir da troca de cargo: o colaborador trabalhava na campanha e depois ganhava um cargo no gabinete. Agora, é um conjunto com outra lógica.

UMA PESQUISA DE 2017 DA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO, VINCULADA AO PT, CONSTATOU A PRESENÇA DE VALORES QUE PODERIAM SER CONSIDERADOS DE DIREITA OU LIBERAIS NA PERIFERIA DE SÃO PAULO. MOSTROU, POR EXEMPLO, QUE A POPULAÇÃO DESSA ÁREA ADMIRA FIGURAS DIFERENTES COMO LULA, SILVIO SANTOS E JOÃO DORIA POR SEREM PESSOAS QUE CRESCERAM POR MÉRITO PRÓPRIO. VOCÊ CONSTATA ISSO NO SEU TRABALHO?

Fui muito crítica a essa pesquisa na época. Acho complicado olhar para uma realidade complexa como a brasileira e dizer que tem valores liberais. Claro que a questão da meritocracia é importante, principalmente nas periferias, onde as pessoas se constroem, pois não têm emprego. Então, tem toda uma cultura de se virar mesmo, de ser camelô, fazer biscate. É outra lógica de trabalho. Por outro lado, as periferias têm valores coletivistas mais fortes do que nas camadas médias. Jamais diria que a periferia tem uma tendência liberal. Tem traços que poderíamos associar ao liberalismo, assim como tem traços que poderíamos associar ao comunismo, como o compartilhamento das coisas. As periferias apresentam valores conservadores, por causa da Igreja, coletivistas e liberais. É uma combinação disso tudo.

QUAL É A REAL DIMENSÃO DA POLARIZAÇÃO NA SOCIEDADE BRASILEIRA ATUAL?

Há um movimento de polarização, mas a maioria da população está fora disso. A polarização não reflete a vida real das pessoas. A Lucia (Scalco) e eu conversamos com muitas pessoas que vão votar no Bolsonaro, mas, se o Lula concorresse, votariam nele. Isso sem falar na quantidade de pessoas que estão fora do jogo político, aquelas que estão na pobreza mesmo, que não usam internet.

Isso é importante: quem está integrado à polarização compra o pacote de que o outro é o demônio, mas as pessoas em geral não são esse conjunto demoníaco. Tem gente contra o Bolsonaro e, ao mesmo tempo, contra a imigração de refugiados. As pessoas vivem em contradições. Porque são complexas. Têm a sua trajetória de vida: se é vinculada à Igreja, se recebeu Bolsa Família... São muitos fatores que constituem as pessoas. Temos múltiplos pertencimentos, que a lógica da polarização não nos deixa perceber.

A CORRUPÇÃO É UM DOS MAIORES PROBLEMAS DO BRASIL NA PERCEPÇÃO DA POPULAÇÃO, O QUE É VERIFICADO EM PESQUISAS. A CORRUPÇÃO TEM SOLUÇÃO?

Sou esperançosa. Até porque esse modo de fazer política, que é essencialmente corrupto desde a militância juvenil, mudou. A militância que está vindo tem outras práticas, mais democráticas e menos de aparelhamento - do grêmio estudantil, do sindicato. Então, acho que a corrupção tem solução. Não sei se há como eliminá-la, mas há como amenizá-la.

O bem público é para ser público e do povo. Não é para ser nem da empresa, nem do político. Porque a corrupção no Brasil não é só pública, é privada também. É do Estado com as corporações. Tudo vai depender de como essas novas gerações, que estão entrando na política com outra mentalidade, vão se apropriar da política: se vão entrar no sistema ou se vão continuar resistindo. Às vezes, as pessoas ficam mais velhas e perdem aquela pulsão juvenil, adequando-se ao sistema. Mas são as novas gerações que revolucionam o processo.

PARA MUITOS, A CORRUPÇÃO NA POLÍTICA É UM REFLEXO DA CORRUPÇÃO NO DIA A DIA DA SOCIEDADE. VOCÊ CONCORDA?

Não. Acho injusto sugerir esse salto do jeitinho para um grande esquema de corrupção. O problema da corrupção é estrutural. É o Estado, enfraquecido, sendo mais um gestor do que algo que está aí para garantir o bem público. Um Estado administrador, e não político. Aí a privatização toma várias áreas da vida: você vai permitir grandes esquemas, que passam por uma relação que é macroestrutural, do funcionamento do capitalismo. Não tenho evidência empírica de que o brasileiro é corrupto. Tenho evidência de que existe clientelismo, que é promovido pelo dinheiro do mais forte contra o mais fraco.

Qual é a evidência que tenho do povo brasileiro? Trata-se de um povo criativo. Eu realmente deixo meu celular em qualquer lugar. Mas ser assaltada é outra coisa. É crime organizado. Se eu estiver em qualquer lugar e perder meu celular, eu confio nas pessoas para ajudar a encontrá-lo. Então, que evidência empírica temos de que o povo brasileiro é corrupto? É porque um cara furou a fila? Temos uma educação ruim, que tem de melhorar. Isso sim. Mas esse salto (entender a corrupção na política como reflexo da corrupção na sociedade) só serve para culpar o povo em vez de culpar quem tem de ser culpado.

DURANTE A GREVE DOS CAMINHONEIROS, VOCÊ E LUCIA FORAM A CAMPO ENTREVISTAR GREVISTAS. O QUE LHE CHAMOU A ATENÇÃO?

O que percebemos é que o Brasil entrou num limbo histórico nos últimos cinco anos. A maior demanda, na verdade, era por uma certa ordem, um estado de normalidade. Não era uma ordem necessariamente autoritária. Apesar de alguns pedirem intervenção militar, vejo muito mais um sentido de retorno à normalidade. Havia diversas demandas, como em todos os movimentos complexos - Junho de 2013 é outro exemplo.

Apareceu a questão do aumento do custo de vida no Brasil após a crise. As pessoas não vivem mais, não têm lazer. Nos diziam que tinham duas folgas por semana e não tinham dinheiro para comer uma fatia de pizza. De modo geral, a vida ficou embrutecida. A pessoa passa o tempo todo no caminhão. Sem lazer, fica raivosa. Aí vem essa questão da corrupção, para onde se canaliza a energia. As pessoas veem o posto de saúde cheio, com gente na fila e bebês chorando, e interpretam que o dinheiro não chegou. Elas não são burras. Algo não funciona.

JOVENS DE CLASSE MÉDIA TAMBÉM SÃO AFETADOS PELO AUMENTO DO CUSTO DE VIDA, MAS O IMPACTO É AMORTECIDO PELA AJUDA DOIS PAIS, QUE TÊM PATRIMÔNIO ACUMULADO?

Todos sentem a crise. O ponto é a capacidade de sonhar. Um dos aspectos que medem a mobilidade social é a capacidade de aspirar. Nas camadas médias, muitos filhos de 30 anos não terão o que os pais conseguiram. A desesperança atinge todo mundo. Mesmo que as camadas médias tenham patrimônio e sejam privilegiadas, e são, também sentem o impacto. Nas camadas populares, o impacto é maior. É por isso que o título do nosso livro será From Hope to Hate ("da esperança ao ódio"): houve um momento de esperança, via consumo, e agora há a sensação de cair, que derruba o sonho.

QUAL O CONTEXTO ESTUDADO NO LIVRO?

Vamos tentar publicar no Exterior e no Brasil. Essa pesquisa sobre o consumo como política começou em 2009. As pessoas consumiam para se incluir no sistema. É uma maneira que a gente avalia como insustentável. Tinha uma ideia de que o consumo trazia um brilho. "Me acho maravilhosa com meus óculos novos." Era esse tipo de narrativa de que se falava. E era a narrativa oficial do governo. As pessoas sonhavam que podiam sair da subalternidade, da humildade do pobre para alguém com mais valor. Mas também havia ódio na esperança, assim como hoje há esperança no ódio.

Ao mesmo tempo em que havia essa inclusão pelo consumo, a pessoa chegava no shopping, e o guarda a perseguia. E as pessoas continuavam morrendo. Era um processo contraditório. Era um tipo de inclusão que não veio amparada de um processo político democrático, pensando no coletivo. Foi um processo focado no indivíduo, no consumo, sem que outras coisas viessem junto. Quando vinham junto, como o Fies, eram mercantilizadas. Com a crise, até o brilho foi por água abaixo.

DEPOIS DE JUNHO DE 2013 E DAS MANIFESTAÇÕES DOS CAMISAS VERDE E AMARELA E DOS CAMISAS VERMELHA, AS GRANDES MOBILIZAÇÕES DIMINUÍRAM. SERIA UM SINAL DE DESESPERANÇA?

Muitos fatores servem de faísca para a movimentação de massa. São as janelas de oportunidades políticas. É difícil dizer que o brasileiro não está na rua porque está com desesperança. Pode ser porque está com esperança. Houve grandes mobilizações na história quando a sociedade estava bem, quando estava mal, quando estava em crise. Isso não é um indicador de desesperança. Acho que a sociedade brasileira está cansada. Passou por um ciclo grande de protestos. Acredito que virão outras formas de mobilização, menores. O ciclo dos grandes protestos se estendeu a outras formas. Ficou mais setorial - com os casos dos estudantes secundaristas e dos caminhoneiros, por exemplo.

NOS EUA E NO BRASIL, MAS POSSIVELMENTE TAMBÉM EM OUTROS LUGARES, MUITA GENTE SE IDENTIFICA COM POLÍTICOS QUE DIZEM O QUE PENSAM, COMO SE TIVESSEM UMA AUTENTICIDADE QUE FALTA AOS POLÍTICOS TRADICIONAIS. COMO EXPLICAR ESSE FENÔMENO?

O mundo todo, a partir de 2011, com as Primaveras e o Occupy (Wall Street), demonstrou uma revolta antissistêmica. Mas quem capitalizou isso foi a direita, e não a esquerda. Então, não são só candidatos que falam o que querem. Essa é só uma característica deles. São candidatos antissistema. Falam mal da mídia, por exemplo.

Essa onda entendeu que o sistema democrático, de alguma maneira, faliu. Mas era justamente o que a esquerda estava denunciando: faliu o sistema segundo o qual é tudo para as empresas e nada para o povo. A direita conseguiu capitalizar essa frustração. Disse que "o sistema é comunista", que "as pessoas no poder são da geração de 1968, "a geração que ferrou sua vida, porque só se preocupou com pautas identitárias, e não com o trabalhador".

Então, é, sim, uma identificação com a ideia de falar tudo o que pensa, mas, em última instância, uma identificação antissistêmica. "Foi tudo para o pobre e para a mulher" e "não foi nada para o trabalhador". Como se a vida das mulheres e dos negros tivesse melhorado. É uma apropriação de um momento para emplacar um discurso, aproveitando o que a esquerda não soube aproveitar. E, no fundo, a culpa é do sistema neoliberal, que começou nos anos 1990 e levou à crise econômica na qual o Estado pode fazer muito pouco porque está comprometido com as grandes corporações.

FÁBIO PRIKLADNICKI


15 DE SETEMBRO DE 2018
DRAUZIO VARELLA

TESTOSTERONA: REPOR OU NÃO REPOR, ESSA É A QUESTÃO

Em um dos números do The New England Journal of Medicine, foi apresentado o caso de um paciente interessado na reposição de testosterona. Era um homem de 60 anos, saudável, mas com peso na faixa de obesidade (IMC = 31,5), que se queixava de falta de energia, disposição diminuída para a prática de esportes, redução do prazer sexual e da função erétil.

Os exames laboratoriais de rotina foram normais. Duas dosagens de testosterona medidas em dias diferentes, antes das 10h - conforme as recomendações atuais -, mostraram valores de 275 e 285 ng/dL, respectivamente (valores normais: de 300 a 950 ng/dL). A revista ouviu dois especialistas. Os argumentos do que opinou a favor da indicação foram os seguintes:

1) A primeira medida seria recomendar redução do peso; a obesidade reduz os níveis de testosterona.

2) Dosar os níveis de hormônio luteinizante e de folículo estimulante para definir se o hipogonadismo é primário ou causado por outros problemas hormonais.

3) Facilidade para acumular gordura, diminuição da libido, da densidade mineral óssea, da massa muscular e da vitalidade, aumento do risco de diabetes e de doenças cardiovasculares estão associados a níveis mais baixos de testosterona, mas não são específicos do hipogonadismo.

4) A reposição pode provocar aumentos do PSA que levam a biópsias desnecessárias.

5) Se mudanças no estilo de vida não conseguirem provocar perda de peso e melhora dos sintomas, estaria indicado o uso de adesivos de testosterona com o objetivo de elevar os níveis para valores acima de 500 ng/dL.

6) O tratamento exige acompanhamento laboratorial e reavaliação em seis meses. Se não houver resposta, deve ser interrompido.

A seguir, os argumentos do especialista que contraindicou a reposição:

1) O sintoma mais específico do hipogonadismo é a diminuição da libido. Fraqueza, redução da massa muscular e da vitalidade ocorrem quando os níveis de testosterona caem abaixo de 150 a 200. Não é o caso desse paciente.

2) A função erétil costuma ficar preservada até que as concentrações caiam para valores muito baixos.

3) A obesidade é causa importante da diminuição dos níveis de testosterona.

4) Embora sejam inegáveis as vantagens da reposição no hipogonadismo, elas são diretamente relacionadas com o grau de deficiência. No caso apresentado, em que os níveis estão pouco diminuídos, levá-los à faixa da normalidade dificilmente trará benefícios.

5) Apesar de ainda existir alguma controvérsia, os dados parecem mostrar que a reposição não aumenta o risco de câncer de próstata.

6) Para esse paciente, a redução do peso corpóreo seria suficiente para elevar os níveis de testosterona, sem os custos do tratamento e dos exames laboratoriais de controle.

Essa discussão deixa claro que o tema é controverso e que perder peso e aumentar a atividade física podem ser suficientes para normalizar os níveis de testosterona na maioria dos casos. Fica claro, ainda, que a reposição por seis meses parece ser segura.

DRAUZIO VARELLA


15 DE SETEMBRO DE 2018
DAVID COIMBRA

Bruna Marquezine ficou loira

Não é verdade que todas as mulheres gostariam de ser loiras. Não é. Fiquei pensando nisso ao ver as fotos da nova Bruna Marquezine. Ela pintou o cabelo de loiro-sueco. Ficou bem, embora seja preciso ressaltar que, no caso de Marquezine, se ela se vestir com uma sacola do Zaffari, também ficará bem.

Depois de tingir o cabelo de amarelo, Marquezine meteu-se em um vestido preto, tirou fotos e as postou no Instagram. Em uma delas, surge com um colar de algum metal branco. Prata, suponho. O cordão lhe enlaça delicadamente o pescoço comprido de garça e despeja uma península colo abaixo, apontando para o entresseios. Eles, os próprios, estão contidos pelo tecido do vestido e, devido à pressão, parecem tentar saltar para a liberdade, para a vida, para o mundo, para o povo. 

Marquezine aparece com a cabeça suavemente virada para a esquerda, como se estivesse em dúvida. Seu rosto está ruborizado, sugerindo maliciosa pudicícia. Seus lábios, da cor do morango maduro, estão entreabertos, sugerindo maliciosa malícia. No fim da manhã de sexta-feira, essa imagem havia sido curtida por 2,7 milhões de pessoas. Dois milhões e setecentas mil. Duas Porto Alegres admiraram a foto de Marquezine loira como uma Xuxa, e a reverenciaram.

Mas, repito, não é verdade que todas as mulheres queiram ser loiras.

Também não é verdade o que aquele clássico da Marilyn Monroe apregoava: Os Homens Preferem as Loiras.

Não, não é. Mas escrevi, certa feita, um conto curto que começava assim: "Ela se virou de lado. Assentou a orelha no travesseiro. E miou, sorridente: - Amanhã é seu aniversário...

Ele apenas sorriu de volta, modesto: era. Ela continuou, rouca: - Pode pedir o que quiser...

Ele arregalou os olhos. - O que eu quiser? Ela, lambendo os lábios, a malícia faiscando nas bordas das pupilas: - Arran...

Ele sentou na cama, apoiando-se nos cotovelos:

- Tudo mesmo? - Tudo. Tudinho... - disse: tudjinho, com dê e jota.

Ele olhou para o gesso do teto, sonhador:

- Quero que você seja loira!".

Um pedido desses, feito para uma morena convicta, uma morena raiz, é quase ofensivo. Conheço morenas que sentem infinito orgulho da sobriedade de seus cabelos. A loira entra em algum lugar debaixo de sua cabeleira fosforescente e de imediato chama a atenção de todos. A morena, não. A morena, a beleza dela é sorvida devagar, como um licor. É disso que muitas morenas se gabam, como se levantassem o queixo e desdenhassem: "Sou difícil".

A Marcinha, minha ilustríssima, é morena. Mas posso ver beleza em loiras, morenas, negras, ruivas, japonesas, altas ou baixas, com cabelos curtos ou longos, só não gosto de coque. Mesmo assim, intriga-me a origem dessa questão. Sim, porque existe uma questão. A Bruna Marquezine, inclusive, brincou: "Dizem que as loiras se divertem mais. Vou ver se é verdade".

Por que se divertiriam mais? Será que é porque as loiras parecem menos circunspectas? Seriam, por isso, mais extrovertidas e, sendo mais extrovertidas, mais se divertiriam?

Injustiça. Uma das mais belas loiras da história, Catherine Deneuve, é discretíssima, é a própria elegância. E, além disso, é dotada de inteligência afiada. Um dia, um repórter perguntou-lhe se havia alguma parte de seu corpo da qual ela não gostava. A resposta da Deneuve:

- Há, sim: minha orelha direita. Toma! Messalina era loira.

Cleópatra, apesar da tradição do cinema, não há certeza de que fosse morena. Afinal, Cleópatra era descendente dos Ptolomeus, mais grega do que egípcia, etnicamente falando. Podia ser loira e branca de leite.

A inglesa que enfrentou as legiões romanas e as humilhou, a rainha Boadicea, era ruiva, com uma cascata de cabelos vermelhos que lhe desciam até os joelhos, segundo o historiador Dião Cássio.

E a nossa espetacular Chica da Silva era negra como a noite que não tem luar.

Na verdade, você sabe que a cor dos cabelos só tem importância estética. A dúvida é: será que a morena transformada em loira também pensa assim? Como realmente se sente uma nova loira? O que aquilo que está acima de sua cabeça muda no que vem abaixo?

É algo que só Bruna Marquezine poderá responder.

DAVID COIMBRA

15 DE SETEMBRO DE 2018
J.J. CAMARGO

OS AMADORES FAZENDO MARKETING


Os tipos que investem na política sabem de seus defeitos ou suas características que serão malvistos pelo eleitorado. E, então, espontaneamente ou bem aconselhados, ensaiam posturas que despudoradamente contrariam o que se sabia deles.

Nos tempos remotos em que a memória, com a idade, se tornava cada vez menos confiável, se podia pretender que o nosso jeito desastrado pudesse ser esquecido pelos correligionários generosos. E aí chegou a internet e, com ela, todos os instrumentos de preservação das coisas que festejamos lembrar e dolorosamente daquelas que faríamos qualquer coisa para esquecer. A memória virtual eterna do que fizemos ou dissemos acabou com um dos instrumentos mais utilizados pelos politiqueiros oportunistas: o desmentido.

Se algum distraído não resistiu ao impulso de simplesmente negar com a cara mais inocente, pode contar que, no dia seguinte, alguém vai recuperar na rede aquele discurso, agressão ou chilique sempre revelador de que, na essência, não mudamos. Nos últimos tempos, a patrulha se tornou ainda mais implacável com a observação por olhos experientes de gestos e contraturas faciais capazes de flagrar a simulação lá no nascedouro. E tudo documentado com imagens ampliadas e em câmera lenta. Em resumo, nos encaminhamos para enterro da mentira, talvez com uma passagem rápida pelo corredor da morte.

Desses flagrantes delatores, servem-se os chefes de campanha na caça aos seus concorrentes e os humoristas, esses habilidosos garimpeiros das fragilidades humanas sempre mais evidentes quando se pretende fazer parecer que somos melhores do que supuseram que fôssemos.

A série de imitações dos principais candidatos à Presidência da República criada por Marcelo Adnet, disponível no YouTube, mostra todo o talento desse jovem humorista em captar os pontos mais vulneráveis de cada candidato, sempre expostos pelo contraditório. A fala mansa e surpreendentemente cordata de tipos beligerantes históricos é seguida de uma explosão de fúria e, logo, como por encanto, baixa novamente o espírito pacificador, porque, afinal, o chefe de marketing da campanha determinou que truculência gratuita não combina com a imagem de um futuro presidente.

Depois de poucas semanas de campanha, ficou evidente o esforço de vários candidatos respondendo a todas as perguntas não com o que eles pensam, mas com o que acreditam que os eleitores gostariam que eles pensassem. Como a maior distância do mundo é entre a realidade e o que se fantasia dela, todas as pessoas com os neurônicos livres da coação ideológica perceberam que, neste cenário de posturas robotizadas, todos os outros candidatos não se dão conta que estão fazendo campanha para o único concorrente que, de um jeito meio tosco, diz o que pensa, e o que pensa parece ser dele mesmo. Além disso, quando não sabe, ele não mostra constrangimento de dizer que não sabe, sem dissimulações. Neste contexto de convicções escassas, temos que admitir que a agressão física, além de primitiva, foi um exagero de generosidade marqueteira.

J.J. CAMARGO

15 DE SETEMBRO DE 2018
MÁRIO CORSO

O perigo das vassouras


Esses dias, o Eduardo Bueno reclamou injustamente do soprador de folhas. Classificou-o entre os inventos do medonho por produzir um barulho dos infernos.

O colunista esquece que o aparelho pertence ao universo do cortador de grama. Aquele que o pessoal da praia usa para quebrar o estresse de ficar longe da cidade. Soam o clarim do dever para romper a monotonia do silêncio e despertar-nos da modorra das férias.

Afinal, a praia amolece o espírito. Se não é uma roçadeira zunindo, a preguiça toma conta. Dá vontade de sestear, de ir para a rede. O pessoal até pensa em pegar um livro.

Mas não estou aqui para elogiar as trombetas de jardinagem e seu proselitismo laboral, mesmo aos domingos e feriados. Voltando ao difamado soprador. Na verdade, trata-se de um artefato utilíssimo, além do barulho, protege os homens de seu maior perigo: a vassoura.

Como vocês sabem, a vassoura feminiza o homem. Por isso os sopradores, por isso homem varre com mangueira mesmo durante época de seca. Torra litros de água para evitar ser flagrado com a vassoura na mão.

Sim, existem homens que varrem. São raros, uma casta superior da masculinidade, uma tropa de elite que não teme ser confundida com mulher. Por razões desconhecidas, talvez muito treinamento, eles são imunes ao contato deletério com o vil instrumento que empurra a sujeira e emascula os homens. Se você vir um homem varrendo, esse é macho mesmo.

Empunhar arma qualquer homem faz. Ficar dando tirinho de mentira para provar que é macho é o que as crianças fazem. Agora, pegar na vassoura é que são elas.

Mas, você que quer ser mais macho, como chegar a usar uma vassoura? Como perder o medo? Terapeutas recomendam aproximação por etapas. Use instrumentos menos perigosos no início. Para dessensibilizar, comece com o pano de prato e uma secada de louça. Depois, vá para a pia e tente esponja e detergente. Aos poucos, sem choques, descubra os mistérios da alquimia da espuma.

Domine a angústia e verá que você pode. O membro não encolhe, a voz não afina, a barba não cai, as mãos seguem bem comportadas. É uma experiência e tanto.

Quando passar dessa etapa, enfrente a vassoura. No primeiro dia, só segure. Sinta o peso, o ponto de equilíbrio, a ginga necessária. É quase como uma dança, você a conduz. No segundo dia, arrisque uma ciscada aqui e acolá. Sem exagero. Depois, vá paulatinamente aumentando a área. Por fim, use no pátio, que é notadamente mais difícil. Em algumas semanas, você terá domado a vassoura.

Não existem mais as amea- çadoras vassouras das bruxas. Tudo não passa de um antigo tabu de contágio, superstição, crenças arcaicas sobre medo de perder o pinto. Triunfando sobre a vassoura, você já não precisará mais portar instrumentos que jorrem, soprem ou atirem para afirmar metaforicamente seu gênero.

MÁRIO CORSO

15 DE SETEMBRO DE 2018
OPINIÃO DA RBS

UM VOTO DE CONFIANÇA

Ajulgar por seu discurso de posse na presidência da mais alta corte de Justiça brasileira, o ministro Dias Toffoli está empenhado em fazer com que o Supremo Tribunal Federal (STF) exerça um necessário papel moderador. A preocupação é procedente num país em que, não importa o resultado, sairá da eleição de outubro polarizado e com crescentes traços de extremismo. Mais do que em qualquer outro momento de sua história recente, o Brasil precisa da prudência ressaltada por Toffoli, dentro e fora do Supremo, que não pode se manter submetido a constantes duelos de ego entre seus ministros.

Como ressaltou o novo presidente, reconhecido pelo perfil conciliador, "é dever do Judiciário pacificar os conflitos em tempo socialmente tolerável". Isso porque, justificou, nas palavras do cantor e compositor Cazuza, "o tempo não para". O ministro ressaltou também como aspectos importantes "a harmonia e o respeito mútuo entre os poderes da República", lembrando que "é a hora e a vez da cultura da pacificação e da harmonização social, do estímulo às soluções consensuais, à mediação e à conciliação".

A ênfase a esses pontos ganha ainda mais relevância num momento em que, com o país dividido por disputas políticas, com o enfraquecimento do Congresso e do Executivo, o Supremo tende a reforçar seu protagonismo. O risco a ser evitado é o de um desequilíbrio ainda maior entre os poderes nos quais se assenta o sistema democrático.

O país precisa que o novo presidente do STF e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) vá além das palavras e cultive no dia a dia as boas relações internas e externas. É uma forma de evitar desgaste ainda maior da Corte Suprema em razão de personalismos e da defesa do corporativismo, que colocam em xeque o papel do tribunal mais importante do país. Nesta linha, há muito o que fazer para recuperar a imagem do Judiciário.

Entre as iniciativas necessárias, está um freio nas despesas da área judicial, que, só com a folha de pagamento, cresceram 11% entre 2014 e 2017. No mesmo período, a economia brasileira registrou uma retração de 5,6%. Essa é uma das razões para o Brasil ter um custo judiciário que nem países ricos suportam. É inevitável que a renovação delineada no Poder Executivo exija sacrifícios de todos.

OPINIÃO DA RBS

sábado, 8 de setembro de 2018



08 DE SETEMBRO DE 2018
DRAUZIO VARELLA

A VOLTA DO HIV

Corria o ano de 1981. Num almoço na casa do cirurgião Fernando Gentil, em homenagem a Joseph Burchenal, um dos mais destacados oncologistas americanos da época, ouvi falar pela primeira vez de uma doença estranha que debilitava o sistema imunológico.

O doutor Burchenal contou que, num congresso realizado em Nova York, foram descritos casos de jovens com pneumonia por Pneumocystis, fungo que causa infecções pulmonares apenas em pessoas imunodeprimidas, como as transplantadas e as portadoras de leucemias e linfomas submetidas à quimioterapia.

Ao mesmo tempo, na Califórnia, apareceram pacientes com sarcoma de Kaposi, que apresentavam manchas espalhadas pelo corpo todo, inclusive em órgãos internos. A apresentação era raríssima, uma vez que esse tipo de tumor costumava acometer gente de idade, da região do Mediterrâneo, nas quais as manchas seguiam curso indolente, no decorrer de anos, geralmente limitadas aos membros inferiores. Para surpresa de todos, tanto os doentes com pneumonia por Pneumocystis quanto aqueles com as lesões disseminadas do sarcoma de Kaposi eram jovens e homossexuais.

Estava armado o cenário para a disseminação da aids, uma das pandemias mais devastadoras do século 20.

Por sorte da humanidade, no entanto, a aids emergiu nos anos 1980, época em que o laboratório do americano Robert Gallo, no Nacional Cancer Institute, já havia identificado os primeiros retrovírus causadores de doenças humanas. Tivesse surgido 20 anos antes, não existiria tecnologia para cultivar o vírus nem para caracterizá-lo como o agente etiológico da síndrome. A tragédia atingiria proporções catastróficas.

Enquanto epidemias de tuberculose, hanseníase, malária, sífilis, varíola, peste e outras assolaram o mundo por milênios sem que os germes responsáveis por elas fossem descobertos, no caso da aids, em dois anos o HIV foi isolado e já dispúnhamos de um teste sanguíneo para identificar os portadores. Dois anos mais tarde, surgia um medicamento para combater o vírus: o AZT.

Em 1995, foram publicados os resultados obtidos com a combinação de antivirais que ficaria conhecida como "coquetel". Foi uma revolução que os médicos da minha geração tiveram o privilégio de viver. Guardadas as proporções, é possível compará-la à descoberta dos antibióticos para tratamento das infecções bacterianas.

Doentes caquéticos, debilitados pelas sucessivas doenças oportunistas, ganhavam peso, voltavam a andar, retornavam ao trabalho e às atividades cotidianas; a maioria deles está viva e saudável até hoje.

Em seguida, o Brasil passou a distribuir os antivirais pelo SUS, estratégia que mudaria a história da epidemia no mundo.

Em 1995, a prevalência do HIV em nosso país era idêntica à da África do Sul, que não adotou a mesma política. Hoje, 10% da população adulta daquele país está infectada. Se o mesmo tivesse acontecido conosco, teríamos cerca de 18 milhões de brasileiros HIV positivos.

Hoje, além do tratamento precoce dos infectados, o SUS oferece medicamentos para prevenir a transmissão (PrEP) e para a profilaxia pós-exposição (PEP).

Paradoxalmente, entretanto, relaxamos na educação. As campanhas públicas pelos meios de comunicação de massa desapareceram, a educação sexual nas escolas enfrenta barreiras impostas por religiosos, pelos moralistas das horas vagas e por grupos de conservadores medievais.

O Brasil que inovou ao implementar medidas ousadas de combate à aids, que serviram de exemplo aos países da África, Ásia e Américas, agora cruza os braços diante da nova onda de infecções que atinge os mais jovens.

Estudo patrocinado pelo Ministério da Saúde em 12 capitais mostra que as prevalências do HIV em homens que fazem sexo com homens variam de 5,8% em Brasília a 24,8% em São Paulo. São números assustadores que exigem medidas drásticas para evitar que se forme uma legião de infectados, capaz de reviver os piores anos da epidemia.

Aids é uma doença crônica que exige exames laboratoriais, imagens radiológicas, internações hospitalares e tratamento medicamentoso pelo resto da vida. Na penúria em que vive o SUS, de onde virão os recursos necessários?

A influência dos que se arvoram como defensores da vontade divina é nefasta. Impedir que a informação e intervenções educativas cheguem aos mais jovens, em nome da moral e dos bons costumes, na vigência de uma epidemia por uma doença sexualmente transmissível, incurável, é crime.

DRAUZIO VARELLA


08 DE SETEMBRO DE 2018
JJ CAMARGO

VIVER É ENCHER O CALENDÁRIO DE ANIVERSÁRIOS

Nossa vida deveria ser avaliada pelo número de vezes em que geramos fatos inesquecíveis. E nem importa se foram coisas maravilhosas de que lembramos com encanto ou essas que esqueceríamos se pudéssemos. Viver, de verdade, é encher o calendário de aniversários.

Cinco de setembro de 1971 era um domingo. Aproveitei uma folga na residência médica e fui passar o fim de semana em Vacaria. Naquele dia, estava programado o desfile antecipado, comemorativo aos 149 anos da Independência do Brasil. Numa cidade pequena, a parada do 7 de Setembro sempre foi um acontecimento. Os colegiais desfilando orgulhosos com o uniforme colorido de suas escolas e as bandas enchendo as ruas dessa alegria esfuziante que o tempo, displicente e preguiçoso, só tem feito dissipar.

O desfile passava pela avenida principal que fazia esquina com a rua da casa do meu avô. Fui até lá com a certeza de que o encontraria, o que, pra mim, era uma dessas festas em que o afago dispensava a banda.

Com a família empenhada em buscar o melhor ângulo para assistir ao desfile que já rufava ao longe, descobri, frustrado, que meu vozinho não estava. Com a alegação de uma indisposição, ficara em casa. Decidi que a festa do ano seguinte, sesquicentenário e tal, deveria ser ainda mais bonita, de modo que perder a daquele ano para afofar meu avô justificava a minha saída sorrateira. Desci a rua e encontrei-o na poltrona preferida, com olhos recém chorados. Assustado, lembrei que, um dia, ao comentar, debochado, que ele era um chorão que chorava por qualquer coisa, ele me repreendeu, dizendo: "Nada disso, eu só choro por coisas importantes e não sou culpado da quantidade de coisas importantes que têm ocorrido na minha vida!"

Com cuidado, quis saber, então, o que tinha acontecido daquela vez.

"O Brasilino era um ano mais velho e o meu irmão mais querido. Não lembro de que tenhamos discutido uma única vez na vida. Foi meu melhor parceiro e compartilhamos muitas coisas. Foi assim que, juntos, compramos a primeira terra, ali no Passo do Carro e, quando nos preparávamos para cercá-la, decidimos que cada um começaria numa extremidade depois que percebemos que, se trabalhássemos no mesmo ritmo, nos encontraríamos no meio da colina, que seria o ponto ideal para se colocar a porteira de entrada da fazendola. Num 5 de setembro, como hoje, há 50 anos, a cerca tinha ficado pronta e termináramos de instalar o portão que marcava o meio do caminho e o fim do nosso desafio. Quando passei a tranca, vi o Brasilino de braços abertos, nos abraçamos e choramos o choro de que mais gosto de lembrar dos muitos que chorei antes e depois daquele dia. Agora, meio século passou, o Brás já não está mais aqui, eu sinto muito a falta dele e acabei recapitulando aquele choro. Achei que Dom Pedro perdoaria a minha ausência na avenida se soubesse dessa história."

Ficamos um longo tempo de mãos dadas, em silêncio, até que a família voltou para casa trazendo o alarido do fim de festa. Desde então, o 5 de setembro passou a integrar o meu calendário de afeto, quando homenageio meu avô e a sua saudade de um choro tão bom que ainda continuava vivo, 50 anos depois de ter sido chorado.

JJ CAMARGO


08 DE SETEMBRO DE 2018

DAVID COIMBRA


Aquele beijo que te dei, nunca, nunca mais esquecerei


As Silvias não beijavam na boca. Também, eram muito novinhas. Para ter uma ideia: quando pedi a Silvia Lemos em namoro, ela ponderou:

- Quem sabe faço nove anos primeiro?

Éramos precoces. Mas se tratava de namorico de criança mesmo, a gente nem pegar na mão, pegava. Imagina beijo na boca.

Quando falo em Silvias, no plural, é que eram duas: a Lemos, que comecei a namorar quando ela tinha oito e eu 11, e a Coimbra, minha irmã, que, com a mesma idade, namorava o meu amigo Nick, irmão da Lemos.

Deu para entender? Eu e o Nick trocamos irmãs, pode-se dizer.

Estou lembrando essa trama antiga porque prometi, no Timeline, contar a história do meu primeiro beijo, tarefa meio juvenil, mas que está sendo cobrada pelos leitores e pela Kelly Matos, que, todas as manhãs, reclama:

- E a coluna sobre o primeiro beijo? Então, aí vai.

Desses nossos namoros cruzados com as Silvias, até já contei que eu e o Nick oferecemos a elas Na Rua, na Chuva, na Fazenda, clássico do Hyldon que pedimos para tocar em um programa de rádio. O Hyldon, inclusive, leu a coluna e me enviou correspondência dizendo que havia ficado muito feliz com a citação. Reproduziu a crônica no blog dele.

O Hyldon fazia umas músicas bem boas. Há outra, ótima, que você deve conhecer. O título é o mesmo de um livro de Schopenhauer, As Dores do Mundo. Mas ficam aí as semelhanças entre a canção de Hyldon e o livro de Schopenhauer, que, aliás, recomendo: é uma leitura fácil e, às vezes, divertida. Em um texto precioso, Schopenhauer desfia suas ideias deliciosamente pessimistas. Sobre o amor, que, de certa forma, é o tema desta crônica, ele diz que esse sentimento aparentemente nobre está apenas a serviço da reprodução da espécie.

Hyldon não concordaria. Ele, pelo amor, esquece tudo, até as dores do mundo. Nós, eu e o Nick mais as Silvias, também, pelo menos naquele tempo. Hoje, olhando para o quadro eleitoral, as dores do mundo me doem mais.

Mas o que importa é que as Silvias não beijavam. Já havíamos passado a barreira dos nove anos, dos 10, dos 11, chegamos aos 12, estávamos passando deles e não sabíamos nada desse negócio de beijo na boca. Não apenas eu e o Nick. Ninguém na turma sabia. Só que as gurias falavam muito disso. O beijo na boca, diziam, era eliminatório. E mais: elas se riam dos maus beijadores. Então, era uma responsabilidade. Tínhamos de beijar bem, quando chegasse a nossa hora. Mas como???

As gerações atuais têm a internet. Deve haver, no YouTube, algum tutorial de beijo na boca. Mas nós não podíamos nem sequer perguntar para a mãe, que ficava feio.

- Que que é isso, guri??? Pouca vergonha!

Outro problema: não havia Malhação. E as demais novelas não eram tão explícitas. Então, como dar um maldito beijo na boca de uma menina sem se tornar chacota no bairro?

Um drama.

É claro que fazíamos testes no antebraço, mas não era a mesma coisa. Antebraços não têm dentes e, mais grave, não têm língua. Ao que tudo indicava, a língua cumpria papel fundamental naquela atividade. O problema era saber como ela devia ser empregada. Línguas lambem. Deveríamos lamber a boca da eleita, queixo, lábios, base do nariz, tudo? Ou penetrá-la entre os dentes da dita cuja, explorando-lhe as obturações, deslocando-lhe as estrelas do céu da boca e alcançando a campainha, no escuro da garganta? Era isso que elas esperavam de nós? Uma língua sôfrega? Ou uma língua contida? Alguém, acho que o Jorge Barnabé, falou em "línguas trançadas". Devíamos enozá-las, portanto? Uma língua não é tão grande assim, a não ser a do Kiss?

Cavalgando em todas essas dúvidas, eu e o Nick decidimos, certo dia: amanhã, vamos beijar as Silvias. Foi um pacto firmado entre amigos e cunhados ao mesmo tempo. Mas sabíamos que não seria fácil, elas iriam resistir. Ah, iriam. Naquela época, as meninas eram muito mais pudicas. Assim, traçamos um plano. Mas me estendi. Terei de prosseguir na próxima coluna. Aguardem, leitores. Aguarde, Kelly.

DAVID COIMBRA


08 DE SETEMBRO DE 2018
CLÁUDIA LAITANO

Eles buscam black-tie

Tem o rico estilo toscão o cara que chegou ontem, e com fome, à ala VIP do destino. Para espantar o fantasma da pindaíba, faz questão de ostentar sinais externos de riqueza: carrão, roupas de grife, joias graúdas. Sua mansão, comprada à vista de um ricaço que empobreceu ou foi parar na prisão por sonegação de impostos, é cheia de espelhos (ele se ama) e de parças (eles o amam).

Tem o rico com ambição de status. Esse também não nasceu em berço de ouro, mas corre atrás do prejuízo. Não quer fazer feio no clube dos ricos mais antigos sendo confundido com o tipo de milionário deslumbrado que não sabe usar os talheres e tropeça no idioma. Busca estudar, ler, se informar. Ou contrata alguém que o ajude a escolher suas roupas, seus móveis e seu bom gosto - até encontrar o próprio.

Tem o rico vulgar por inclinação (e deformação) de caráter. Esse já nasceu com poupança na Suíça, mas nunca se interessou em ampliar seus horizontes para além da sua sacada em estilo neoclássico - cercado por puxa-sacos desde criancinha, cresceu acreditando que, por osmose, já sabia tudo que havia para saber. É o tipo "rei do camarote": prefere ostentar um determinado estilo de vida do que bens - embora, por capricho, seja capaz de instalar um carro de luxo no meio da sala apenas para deixar claro que é ele quem inventa as regras do seu bom gosto. 

Mais do que ser admirado pelo tino para os negócios ou invejado pelo que possui, gosta de ser paparicado. Depois de algum tempo, a fortuna e suas regalias já não são suficientes para motivá-lo. Como um menino mimado que nunca se contenta com o que tem, ele sonha em ser famoso na TV ou ser eleito presidente dos Estados Unidos. (Se possível, as duas coisas.) Mas mesmo quando está confortavelmente instalado no topo do mundo, nunca perde a cara de menino mimado que levou um drible do moleque bom de bola da vizinhança.

Tem o rico com espírito público, e esse é o que a gente gostaria de clonar e espalhar pelo mundo - principalmente pelos países emergentes, onde eles são mais raros. O rico com espírito público não acha graça em ostentar o que conquistou ou sempre teve nem em ser paparicado apenas porque tem dinheiro. (Nenhum adulto, rico ou pobre, deveria depender tanto da admiração ou da inveja alheia.) O que esse tipo de rico quer é fazer diferença - seja compartilhando conhecimento, seja investindo em projetos em que acredita. 

O rico com espírito público é o que investe em cultura, educação, ciência e em tudo aquilo que tem potencial para diminuir a desigualdade no país e no mundo. Ele sabe que é um desperdício perder gente talentosa para a miséria ou para a falta de oportunidades. Rico inteligente não gosta de desperdício - nem de dinheiro, nem de talentos. O rico com alma republicana é tão generoso que, pelas causas que defende, é capaz de sentar-se à mesa para negociar com políticos e fracos de espírito em geral. Pobre coitado.

Last, but not least, há os ricos Odete Roitman. Eles usam black-tie, vão à opera, falam francês e jamais confundem os talheres. Mas exibem conhecimento como se fosse uma bolsa de grife vazia: apenas para ostentar. O rico Odete Roitman odeia o Brasil, os pobres e até os outros ricos. Odetes só gostam deles mesmos.

Quando surgiu, nos anos 1980, como a vilã esnobe da novela Vale Tudo, Odete fez sucesso porque era a caricatura de uma elite arcaica e mesquinha que parecia estar em extinção. Ledo e ivo engano: Odete Roitman nunca morreu. No máximo, perdeu a vergonha e desaprendeu a usar os talheres.

CLÁUDIA LAITANO

08 DE SETEMBRO DE 2018
LEANDRO KARNAL

A arte da conversa

Há dois tipos de conversa muito bons. O primeiro é o franco e direto, diálogo vivo que inclua seu eu mais profundo com alguém que você ama e confia. Como é bom falar de temas densos, de questões biográficas e estruturais. É libertador abrir-se sem medo. As horas voam e você não percebe. Caso você tenha alguém assim, aproveite muito. Conversa íntima é uma vacina contra a insanidade.

O outro tipo de boa conversa pode ou não estar contido no modelo anterior. Trata-se da conversa inteligente. Você enuncia uma ideia e sua companhia complementa, redargue, aprofunda, exemplifica, ouve e se faz ouvir com bons argumentos. Um diálogo inteligente é sedutor, quase erótico, um jogo gostoso como as gavinhas de uma hera que sobe pela parede do cérebro com elegância. Dois momentos intensos de felicidade dialógica: aquela que atrai a confiança e a que seduz o intelecto. Se você tem na mesma pessoa confiança e inteligência, entrega e criatividade, quase mais nada será sentido como falta na sua biografia.

Sejamos francos: a maioria das interações humanas foge dos tipos descritos. Nossa vida é dominada pela conversa de elevador, de consultório, de táxi, de avião, de festa. No geral, são falas sociais com o desconhecido ao seu lado com temática ampla e superficial. A ilha do diálogo denso, adaptando a metáfora do doutor Simão Bacamarte de Machado, é cercada pelo oceano do comum, do raso, do anódino e do placebo retórico.

No Brasil, domina a ideia de que não é educado ficar em silêncio com outro ser humano. Mesmo que você não o conheça, além da saudação formal, nossa cultura exalta o imperativo da fala. Na Terra de Santa Cruz, falar é educado, o calar é tomado por grosseria. Em grande parte da Europa, ficar em silêncio é bem-aceito.

Para enfrentar nossa sociabilidade tropical, urge aperfeiçoar o "papo-furado". O conceito não é para amadores ou para conversadores triviais. Os iniciantes na delicada arte de falar nada com sofisticação começam pelo tempo: "Que calor, hem?". O recurso meteorológico é técnica de debutante. Resolve o silêncio constrangedor, mas evidencia a falta de traquejo.

O erro oposto, também típico de inábeis, é tornar a conversa densa em demasia. A conversa-fiada não poderia incluir seu fluxo de consciência, suas angústias ou devaneios, nem sequer seus sonhos dourados. Tais temas assustam o ouvinte e constituem excesso de tempo e de abertura pessoal. Raso demais ou denso em exagero são arestas evitáveis.

Como na Teoria do Medalhão de Machado de Assis, há que se treinar a arte de nada dizer com certo requinte. Imagine a cena: você entra no elevador e há alguém. Impossível não notar. Um meneio de cabeça indica que houve percepção do outro.

Saudamos o ocupante do meio de transporte mais seguro do mundo. Nada de encarar ou exceder o volume. Algo discreto. O celular é ferramenta nova e boa: basta acessar e ficamos blindados e livres da interação. Papo-furado sim, mas jamais insultem a arte comentando que o elevador é lento ou rápido demais. Descrição fática derruba a arte.

Seja criativo. Na placa do elevador existe uma advertência legal: verificar se o mesmo está parado ali. Adoro o "mesmo". Imagino o "mesmo" em um canto, rosnando assustado. O comentário jocoso pega bem. O interlocutor fica satisfeito, ninguém invade ninguém e o constrangimento passa. Ao sair, ele dará um tchau feliz, quase arrependido de ter de abandonar aquele espaço compartilhado com você.

No avião não existe a proteção do celular. A viagem pode durar horas. De novo um sorriso, um pedido de licença, o tempo preparatório para você afivelar-se e pronto: de São Paulo até Fortaleza serão mais de três horas. Não convém excesso de informações do tipo: "Estamos na fila 18, boa escolha para o Judaísmo". Ou: "O lugar 8 é de bom augúrio na China". Por mais interessante que seja a numerologia histórica, pode irritar pelo pedantismo. Apresentar-se ajuda e a etimologia é caminho certeiro para a simpatia superficial. "Ah, você é Filipe, então você ama cavalos"; "Letícia? Você deve ser feliz"; "Cláudia, você manca?" Também existe pavonice erudita aqui, todavia, ao envolver o nome do interlocutor, o narciso dele atenuará a exibição do seu. A única coisa que perdoamos na vaidade alheia é se ela tiver por objeto a nossa. Como você vê, querida leitora e estimado leitor, há um mundo de técnica e talento na conversa rasa. Associar o nome da pessoa a uma personalidade ou santo é muito eficaz. Um homônimo de jogador de futebol famoso é terreno perigoso: pode sair do campo confortável do papo-furado para o da paixão.

Conversar é uma arte; calar é sabedoria pura. Em tempos que ninguém cala e jamais escuta o outro, conversar bem, calar e ouvir viram tripé inovador. Infelizmente, quem mais necessita não lerá a reflexão que você acompanhou. É preciso ter esperança.

LEANDRO KARNAL


08 DE SETEMBRO DE 2018
PIANGERS

Não tenha medo


Quando você tiver a minha idade, não tenha medo. O mundo é um lugar bom, apesar de tudo. Ainda não inventaram outro lugar onde as pessoas se abraçam assim. Ainda não inventaram outro lugar em que a gente pode andar de bicicleta conversando. Em que a gente pode deitar na grama. Em que a gente pode dizer "eu te amo".

Claro que há os que não acreditam na beleza do mundo. Há os que estão presos no trânsito. Há os que se molharam com a chuva. Há os que perderam o ônibus. Há os que reclamam do chefe. Há os que nunca têm tempo pra nada. Há os que sempre estão precisando de mais dinheiro.

Mas há os que estão ouvindo jazz. Há os que acham a chuva um milagre. Há os que decidiram caminhar. Há os que começaram o próprio negócio. Há os que tiraram um dia de folga. Há os que não precisam de mais nada pra serem felizes. Há os que olham ao redor e falam pra si mesmos: "Se isso aqui não é agradável, não sei o que é".

Tem coisas que a gente não controla, meu amor. O clima. Os outros. O tempo. Esta é a beleza do mundo. O improvável. O imprevisível. Quando tiver a minha idade, não tenha medo. Espero estar ao seu lado hoje, mas se não estiver não tenha medo. Há o que você controla. Há abraços e amigos e música e há crianças.

Faça coisas boas. Arrume o sofá e assista a um filme. Tome seu chá favorito. Faça algo inesperado. Diga o que sente. Abrace as pessoas. Me mande uma mensagem amorosa. O mundo é um lugar bom, meu amor. Apesar de tudo. Porque ainda não inventaram outro lugar que você existe.

PIANGERS

08 DE SETEMBRO DE 2018
CARPINEJAR

O sufoco dos terapeutas

Coitados dos terapeutas. Antes as pessoas chegavam ao consultório com um único problema. Se a relação amorosa não estava bem, tinha o trabalho. Se o trabalho não ia de vento em popa, havia a segurança dos amigos. Se o lar da infância evidenciava traumas e recalques, um romance mantinha o equilíbrio. Existia uma alternância saudável das crises. Não aconteciam ao mesmo tempo. Cada impasse esperava educadamente o outro acabar. Reinava a lógica, a capitulação da esperança, o desenvolvimento gradual das descobertas. O curativo apresentava um foco, um ponto de partida.

Hoje os pacientes aparecem com toda a personalidade fragmentada, abarcando a família desmoronada, a carreira desmoronada, os amores desmoronados.

O desabafo foi substituído pelo desmoronamento. É um caos generalizado. Não encontram sequer um apoio positivo para sustentar o olhar.

Consultas são surtos. Predomina um medo da violência que não é somente física (assalto, morte), mas emocional (perder casa, família, profissão).

O terapeuta enfrenta um redemoinho, um turbilhão, não mais um indivíduo. É um maremoto que transborda do divã.

Convertemo-nos em aparelhos, dependendo cada vez mais do backup e da reinicialização do sistema.

O desespero vem tomando conta das nossas fragilidades devido a uma mudança no código da vida. A estabilidade morreu. Nada é mais para sempre como antes. O emprego não é mais para sempre. O casamento não é mais para sempre. Nem os pais, os filhos e os amigos são para sempre. Desapareceu a sensação de infinito da condição humana, o poder da posteridade e da continuidade. Acorda-se sem saber se estaremos naquele relacionamento ou naquela empresa.

Tudo parece um retrocesso, um eterno recomeçar. É um passo para frente, dois para trás.

Aquela paixão que jurava que salvaria o seu destino só dura seis meses, o posto de trabalho que traria poupança não dura um ano.

Experimenta-se uma insegurança de posição e uma permanente troca de cenários. A cigania tornou-se a nossa derradeira constância. Formar patrimônio e proteger laços, objetivos de nossos pais, são quase impraticáveis diante da efemeridade líquida. O planejamento de uma década acabou reduzido a 30 dias.

O desafio é ser feliz sendo transitório, é possuir uma resiliência criativa e um desapego a ponto de não levar qualquer fim para o lado pessoal, como se fosse incompetência ou derrota.

As decepções estão interligadas na mesma incerteza: somos agora e nada mais.

CARPINEJAR


08 DE SETEMBRO DE 2018
CLAUDIA TAJES

Sobre apertos e feiuras

Duros e complicados têm sido os dias para boa parte das pessoas. Poucos estão conseguindo viver sem atrasar nenhuma prestação, sem empréstimos para pagar a juros de perder o sono, sem aquele consignado que, na hora, parece um bom negócio, mas que dói, como dói, quando o salário chega. Isso quando o salário chega. Com os malfadados parcelamentos, há quem sequer note que o salário entrou na conta, tantas são as dívidas comendo o pouco que cai ali. Não faz muito, um leitor me escreveu dizendo que é preciso compreender o parcelamento. E o banco, será que compreende?

Pausa para uma rápida digressão. Não tenho a menor simpatia por banco algum, mas adoro todas as minhas gerentes da era pré-atendimento digital. Samantha, Angélica, Bruna e tantas outras, que saudade de vocês. Antes de sumir com seus gerentes - e sobrecarregar os poucos mantidos nas agências -, os bancos costumavam trocá-los tão logo a gente desenvolvia com eles uma relação menos impessoal. Um belo dia, lá estava um funcionário desconhecido no lugar de quem te entendia tão bem. Por vezes, a sorte ainda ajuda os insistentes. 

Recentemente, conheci o Mirto, que se aposentou tão logo começou a me atender - talvez por desgosto. Também tive uma ótima experiência com a Eneida e o Diego. Na semana passada, depois de uma triste confusão que quase terminou com o banco tomando as minhas ceroulas, que eu nem uso, a Aline conseguiu resolver tudo da forma menos dolorosa possível. Não sem o meu sangue, mas seria muito pior sem ela. Nada como uma pessoa de verdade em lugar de um sotaque paulista ao telefone: enteeeeeindo, mas não posso ajudar. Às gerentes, bancárias e bancários que se viram nos trinta, cara a cara com o cliente, aquele abraço.

Voltando ao aperto. Quem trabalha sabe direitinho para onde vai cada pila gasto - e porque a conta não fecha no fim do mês. Uma amiga atira os boletos para cima e paga os que pegar. Os outros, depois ela vê. De certo mesmo é que ninguém serve lagosta no almoço se, com isso, não sobrar para vestir os filhos. Já em um país, cidadãos não têm hospital, crianças não têm escola, museus não têm manutenção, mas juízes e políticos têm aumentos e regalias que, melhor destinados, resolveriam muita coisa. Não há obviedade maior, mas não para quem decide os rumos do dinheiro. 

A gestão do vampiro morto-vivo, mais morto que vivo nesses meses que antecedem seu desaparecimento para sempre, investiu menos no museu incendiado (R$ 205.821,00) do que a Câmara dos Deputados prevê para lavar seus 83 veículos oficiais em 2018 (R$ 563 mil). Para manter o Palácio do Alvorada, onde ninguém mora desde que o vampiro & família não curtiram a decoração, são gastos R$ 500 mil. Por mês. Outro dado de cair os butiás: apenas um par de brincos da ex-primeira dama do Rio, o espeto de turmalinas, custou mais (R$ 612 mil) do que manter um museu de 13 mil metros quadrados por um ano.

Não que na nossa casa a situação seja muito diferente. Enquanto o Teatro Amazonas na distante e, dizem, menos civilizada Manaus, oferece visitas guiadas de quinze em quinze minutos, o nosso lindo São Pedro agora só abre em dias de espetáculo. O café, de longas filas de espera nos bons tempos, não existe mais. Não fosse a Associação dos Amigos dos Theatro São Pedro, tudo seria ainda pior. 

Por isso os valentes sucessores da dona Eva Sopher seguem na luta para aumentar o número de associados. Informações aqui: www.teatrosaopedro.com.br/aatsp. A cidade vê espaços tradicionais se deteriorarem até o fechamento, caso do Teatro de Câmara. A Usina do Gasômetro, que já foi um complexo de salas, aguarda uma prometida reforma. Os outros teatros públicos, ainda que em condições precárias, seguem resistindo. Até quando, eis a questão.

Na segunda-feira pós-comoção com a destruição do Museu Nacional, outra notícia chocou tanto quanto o incêndio. Nenhum estado brasileiro atingiu a meta do Ideb, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica. Pior: entre os cinco que regrediram, está o Rio Grande do Sul. Mais um péssimo resultado para se juntar a outro, divulgado em agosto. Enquanto 5,7% das crianças e jovens entre 4 a 17 anos estão fora da escola no país, no nosso estado o índice pula para 16,8%. E mais não digo para não estragar o fim de semana dos meus queridos leitores. Mas que a coisa é feia e vem se debruçando, para usar uma expressão do clássico Dicionário de Porto-Alegrês do professor Fischer, ah, ela é.

CLAUDIA TAJES

08 DE SETEMBRO DE 2018
MARTHA MEDEIROS

Uma árvore


Acompanhei de longe a história de uma árvore do bairro Jardim Botânico, no Rio. Uma amiga soube que ela iria ser derrubada por motivos fúteis (não estava ameaçando a vida de ninguém) e se empenhou em salvá-la. Primeiro ato: minha amiga subiu na árvore, que é como os ativistas ecológicos defendem seu território, e só desceu de lá depois de conseguir mobilizar a opinião pública - ou parte dela, representada por seus vizinhos e amigos. Estava tudo correndo bem, até marchinha de Carnaval a árvore ganhou em sua defesa e camisetas foram confeccionadas para angariar mais simpatizantes à causa, mas não foi suficiente. A bonita árvore foi cortada, veio abaixo.

Esta não é uma crônica sobre consciência ambiental, mas poderia ser. Não é uma crônica sobre os maus-tratos que a natureza sofre e seus efeitos sobre a vida no planeta, mas poderia ser. Não é uma crônica sobre a ideia canhestra de que só é válido se manifestar contra a devastação de uma floresta, mas uma arvorezinha só, uma arvorezinha de rua, essa não vai fazer falta a ninguém. Essa crônica poderia ser sobre a miopia de só darmos atenção às tragédias coletivas, às tragédias televisionadas, sem nos importarmos com os erros individuais e silenciosos que são cometidos embaixo do nosso nariz. Mas não é sobre isso a crônica.

É sobre paixão.

Uma mulher declara-se apaixonada por uma blusa. Ao comprá-la, resolve sua carência por 10 minutos. Logo se apaixonará por um sapato, e assim vai tentando preencher seu vazio. Muitos são apaixonados por chocolate. Outros são apaixonados por carro. Banalizamos o verbo, somos todos apaixonados pelo que podemos consumir. Quantos ainda são apaixonados pela vida?

Minha amiga me telefonou assim que cortaram a árvore. Chorava. Chorava sua impotência, chorava sua desolação. Era só uma árvore, e ela sentia como se fosse a morte de um parente. Ela havia defendido um bem público, não era dona da árvore, a árvore era de toda a cidade, mas alguém com uma motosserra embaixo do braço olhou para ela e disse: perdeu, moça.

A paixão pela vida se manifesta, hoje, através de alguns poucos Dom Quixotes urbanos. O cara que usa dinheiro do próprio bolso para montar uma peça de teatro, o atleta com deficiência física que compete nas paraolimpíadas, o motorista que dá carona no seu carro aos que percorrem o mesmo trajeto que ele, os que recusam propostas milionárias para ter mais tempo livre a fim de se dedicar ao que interessa de fato. E o que interessa de fato? Família, amigos, amor, arte, natureza e algum idealismo, mesmo que esteja fora de moda. É só pelo que vale brigar.

Mas as pessoas brigam por uma geladeira em liquidação, brigam por uma vaga no estacionamento, brigam dentro da escola, brigam por miudezas e quando vencem, não ganham nada. Brigar por uma árvore é ao menos poético. Perdeu coisa nenhuma, minha amiga.

MARTHA MEDEIROS