sábado, 13 de abril de 2019


13 DE ABRIL DE 2019
LYA LUFT

Nós nos voltamos para trás

Parafraseio meu querido velho amigo Mario Quintana, que morreu mas - como os artistas em geral - permanece vivo, falando de tia Tula: "E ela nem se voltou pra trás".

Assim, me parece às vezes, embora não generalizando, que acontecem as relações familiares ou entre amigos, quando não entre amantes, casais. O tempo das separações extremamente dramáticas, e raras devido aos preconceitos, pode estar passando. Casais jovens juntam e separam com aparente facilidade. Um dia ou dois de lágrimas, cama, músicas que lembrem o outro, e depois, a linda resposta de uma filha de Fernando Sabino quando ele perguntou como a menina estava depois de um namoro desmanchado, vendo-a sair do quarto mais animada: "Eu vou me vingar sendo feliz".

Sempre achei isso genial, e recomendei, incluso para mim mesma, algumas vezes nesta vida. Falar é fácil, isso todos sabemos. Mas, talvez devido à fluidez geral das coisas e emoções, a coisa parece mais fácil.

Perdemos o emprego, arrumamos outro, ou ficamos com os pais, ou temos algum tipo de auxílio, bico, recurso qualquer (fora os casos dramáticos de pais ou mães desempregados com filhos na escola, na mesa, na vida). O namorado ou namorada foi apanhado em flagrante, ou confessa que tudo acabou? Nada que umas boas risadas na turma de amigos não melhore, e de preferência arruma-se logo outra parceria.

Estou exagerando, eu sei. Estou sendo pessimista ou irônica, eu sei. Mas de verdade vivemos com menos drama e tragédia no cotidiano. Quando eu era menina de escola, havia uma só de minhas coleguinhas cujos pais não eram "casados" de verdade.

Casaram no Uruguai, comentavam as maledicentes, mas aqui no Brasil não vale. Lembro de uma infinita compaixão pela amiguinha, e da ordem severa de minha mãe para nunca comentar isso com ninguém - eu, sempre enfiada entre os adultos, tinha ouvido sem que eles soubessem. De um tempo em que não havia antibióticos, geladeira elétrica, telefones fáceis e celulares nem como um distante mito, acho que a gente melhorou.

Morrem menos parturientes e bebês, mais crianças se criam saudáveis, as pessoas se comunicam como nunca antes, várias doenças fatais hoje têm cura. Estamos mais violentos? Mesmo em cidades pequenas não se deixa janela sem grade, casa sem cerca. Lembro da primeira vez em que, falando a universitários nos Estados Unidos, passei uns dias em casa de minha querida tradutora e amiga. Uma casa boa, dois andares, num daqueles bairros com bosquezinhos, até um riacho atrás.

À tardinha, quando começava a escurecer, admito meu medo absurdo sozinha em casa, pois ali nem cercas nem grades me protegiam. Quando comentei isso na hora do jantar, uma das filhas da casa, adolescente, se espantou: "Mas para que grades na janela? Eu morreria de medo, imaginando do que estava precisando me proteger".

Ao contrário da tia Tula de Quintana, a gente se vira para trás, ao andar numa rua mais deserta; ao sair do portão da garagem ou da porta do edifício; ao abrir a porta do carro; ou, simplesmente, ao dar um passo a mais neste nosso mundo onde estamos lançados.

LYA LUFT

13 DE ABRIL DE 2019
MARTHA MEDEIROS

Autorretrato


Xuxa, uma das artistas mais celebradas do país, já levou muito esculacho. Houve quem a acusasse de ser grosseira com as crianças e quem espalhasse boatos de que ela teria um caso com sua ex-empresária - se tivesse, e daí? Vinha chumbo de tudo que era lado. Eu mesma impliquei quando o nascimento de sua filha mereceu matéria de infinitos minutos no Jornal Nacional, achei que aquela exploração midiática não combinava com um fato tão íntimo e comentei a respeito, condenando.

O que eu tenho a ver com o que a Xuxa faz da sua vida? Pois é: nada. Uns oito anos atrás, estive em seu programa, a convite da produção, pois haveria uma homenagem a Cissa Guimarães e, devido à amizade que tenho com Cissa por causa da peça Doidas e Santas, eu seria uma espécie de convidada surpresa da gravação. 

Durante todo o programa, Xuxa foi educada comigo, mas me pareceu que ela não ia muito com minhas fuças, e teria razão pra isso. Ainda que eu tenha total liberdade de dar opinião em minhas colunas, quem é que gosta quando pisam em seu calo? Pode também ter sido apenas impressão minha e Xuxa jamais ter lido nada que eu tenha escrito, e nesse caso minha neura foi apenas um sintoma da minha culpa.

Todo esse preâmbulo é para voltar a falar dela. Poucos meses atrás, Xuxa postou nas redes uma selfie sem maquiagem, onde aparece com uma expressão envelhecida. Foi o que bastou para receber comentários maldosos, principalmente de mulheres que não se conformaram com sua ausência de vaidade. Mas quem decide onde devemos colocar nossa vaidade? Algumas mulheres a colocam no pescoço, outras na conta bancária, outras no cérebro, outras nos filhos, outras no trabalho, outras no conjunto da obra: cada uma se envaidece do que quiser.

Xuxa, agora com o cabelo raspado (e mais linda do que nunca), deu entrevista recente dizendo que as pessoas ainda desejam vê-la de chuquinha, como se o tempo não tivesse passado. Só que passou. E essa talvez seja a explicação para o bombardeio de críticas: ao assumir a passagem do tempo, Xuxa nos obriga a aceitar que passou para nós também. Sem querer, ela acaba "traindo" toda mulher que gasta fortunas em procedimentos estéticos a fim de parecer mais jovem. Ao abrir mão de ser um padrão juvenil de beleza, Xuxa dá uma situada no mulherio: a era do "ilarilarilariê" acabou. A vaidade agora está em ser madura e livre.

Continuo não tendo nada a ver com a vida da Xuxa, mas não quis perder esta oportunidade de, enfim, fazer-lhe justiça. Envelhecer não é fácil pra ninguém, e imagino que menos ainda pra quem sempre foi uma deusa, por isso é tão importante alguém como ela vir a público dizer que investir em autenticidade e na vida emocional traz resultados mais efetivos do que tentar agradar à plateia. Se ela continuar desagradando, azar da plateia. Amadurecer tem um custo, porém o retorno é sempre mais valioso.

MARTHA MEDEIROS

13 DE ABRIL DE 2019
PIANGERS

Com quem será?

Minha irmã se casa hoje, se você estiver lendo isto no sábado. Se estiver lendo o jornal no domingo, devo estar de ressaca agora. O fato é que este é um final de semana especial. A Débora descobriu, no final de 2017, um câncer de mama. Depois disso, teve alguns momentos difíceis durante o tratamento e ficamos todos muito preocupados. Mas, durante o processo, aconteceram coisas boas também. A família ficou mais unida. Ela fez uma viagem que sempre quis fazer. O namorado a pediu em casamento. E aqui estamos nós.

Minha irmã me falou uma frase que me marcou para sempre: "Tudo o que o câncer trouxe de ruim vai passar, mas tudo o que trouxe de bom vai ficar". Ver até mesmo os momentos difíceis com positividade, acredito, foi fundamental para que hoje ela estivesse curada do câncer. Olhar a vida com essa lente que mostra que tudo de ruim pode trazer algo bom não é sinal de ingenuidade, é sinal de coragem.

Gosto daquela parábola do homem em uma aldeia antiga que perdeu um lindo cavalo na floresta. Todos os amigos disseram: "Que azar! Você deve estar muito triste!". O homem respondeu: "Vamos ver o que acontece". Dias depois, o cavalo daquele homem voltou da floresta, trazendo também outros cinco cavalos. O homem se tornou dono de todos os cavalos e seus amigos comentaram: "Como você é sortudo! Agora está mais rico do que antes!". E ele respondeu: "É o que veremos".

Então o filho do homem começou a treinar montaria nos cavalos e, em um lance de azar, caiu e quebrou as duas pernas. Todos disseram: "Como você é azarado! Se não tivesse recuperado o cavalo, nada disso teria acontecido". O homem respondeu: "É o que veremos". Veio uma grande guerra e todos os jovens da aldeia foram chamados a lutar, menos o filho daquele homem, que por causa do acidente com o cavalo não podia se mover. Os amigos do homem vieram comentar: "Como você é sortudo! É o único de nós que ainda tem o filho em segurança!". O homem apenas respondeu: "É o que veremos".

Vejo muitas pessoas que, em momento de sofrimento, gritam pro céu: "Por que eu?". Mas também vejo os que dizem: "Vou passar por isso e lá do outro lado vou estar melhor do que estou hoje". Os momentos difíceis têm esse poder de dar um chacoalhão nas coisas. Uma doença grave, a perda de uma pessoa querida, um divórcio. Esses acontecimentos podem nos transformar para algo melhor, trazer reflexões que não viriam de outra forma. Podem nos fazer evoluir. Podem apresentar um futuro diferente. São a parte boa das coisas ruins. Por isso, sempre que você estiver em um momento difícil, lembre-se disso. Daqui a um ano e meio, você poderá estar fazendo uma festa de casamento.

PIANGERS


13 DE ABRIL DE 2019

CARPINEJAR

Sem noção

Todo marido tem o dom de optar pela foto errada da esposa para postar. É uma vocação pelo pior. Justamente aquela imagem que ela nunca publicaria, o marido vai lá e torna pública. Talvez porque ele não seja capaz de reparar no melhor ângulo, não estuda a composição, não tem sensibilidade social para se demorar nos detalhes. Para ele, é tudo igual. Basta não estar desfocada que pensa que é válida.

O Instagram ou o Facebook do marido é sempre a conta fake de sua esposa, onde surgem as poses mais medonhas do cotidiano: a mulher de boca aberta comendo ou bocejando ou piscando ou vesga de bebida ou desequilibrada ou com pijama tomando café da manhã, sem maquiagem e remelenta.

Os seguidores devem aproveitar para printar rapidamente o feed, é certo que o instantâneo do terror será excluído por força maior (leia-se alguém ao lado fazendo chantagens e ameaças).

Ele não ajuda a divulgar a beleza de sua companhia. Nem é ciúme ou possessividade, receio de que os outros possam se apaixonar, é talento para o constrangimento.

Usa o mesmo bom senso para ela que aplica para si. O equivalente a coisa nenhuma.

Demonstra infindável competência para destruir o casamento, sem sombra de dúvida. É o antifotógrafo por excelência. Não respeita nem as regras básicas de preservação pessoal. Tira foto de baixo para cima, criando papadas e queixos proeminentes. Tira foto do braço dela em primeiro plano, deformando o bíceps dela em corcovas de halterofilista. Tira foto de frente, chapada, como se ela fosse uma baiana em escola de samba, dando mais cinco quilos de presente. Tira close dos pés - que alma feminina retrata os seus pés? Tira selfie com a sua esposa lá embaixo, como uma gabiru manca. Tira retratos em que ela aparece quase rindo, quase Dercy Gonçalves, na maior careta.

Mesmo com a fiscalização e a aprovação dela, ele não acertaria.

Até porque a mulher tem um Facetune baixado em seu cérebro, sempre muda de ideia quando a cena é postada. Coloca o zoom, analisa os cantinhos e encontra algum defeito letal.

Amor feliz é galeria vazia. Fotos autorizadas só o do casamento. E olhe lá.

CARPINEJAR


13 DE ABRIL DE 2019
COM A PALAVRA

"A EUROPA FECHOU BRUTALMENTE AS FRONTEIRAS"

Quando a guerra chega ao fim e a maioria dos jornalistas volta para casa, a francesa Anne Poiret faz as malas e ruma para o front. Ela não cobre o auge do conflito, prefere o depois, as feridas que as batalhas deixaram naqueles que mais sofrem: os civis. Vencedora do Prix Albert Londres, o principal prêmio do jornalismo francês, Anne é uma globetrotter. Perambula por alguns dos mais ensanguentados territórios do planeta para mostrar a vida de quem fugiu do horror. 

Esteve em Mossul, a última cidade a ser libertada do jugo do grupo terrorista Estado Islâmico no Iraque, visitou a Líbia e perambulou pelos maiores campos de refugiados do mundo para rodar um de seus mais novos documentários, exibido e debatido em Porto Alegre no dia 5 - ocasião em que conversou com ZH. O filme revela o modo como as Nações Unidas administram campos que abrigam milhões de refugiados em todo mundo, criando um país virtual do tamanho da Holanda.

BIENVENUE AU RÉFUGISTAN (BEM-VINDO À TERRA DOS REFUGIADOS, EM UMA TRADUÇÃO LIVRE) É UM DOCUMENTÁRIO RODADO EM VÁRIOS CAMPOS DE REFUGIADOS PELO MUNDO, NO QUÊNIA, NA TANZÂNIA, NA JORDÂNIA E NA FRONTEIRA DA GRÉCIA COM A MACEDÔNIA. QUE DIFERENÇAS VOCÊ ENCONTROU NESSES LUGARES NO TRATAMENTO ÀS PESSOAS QUE RECEBEM?

O objetivo era justamente mostrar a situação dos campos em países diferentes, alguns deles novos, outros já estabelecidos há mais tempo. No caso da Tanzânia, filmamos em um campo mais antigo. Mesmo assim, conseguimos registrar a chegada de refugiados vindos do Burundi (pequeno país africano que vive, desde 2015, uma crise humanitária em razão de problemas políticos, econômicos, fome e epidemia de malária). Foi um momento importante porque conseguimos observar o instante em que essas pessoas eram recebidas no campo. Por isso, filmamos na Tanzânia. Mas cada país tem uma história e graus diferentes de evolução desses territórios. 

A ideia era apresentar também imagens de outros campos nos quais as pessoas permanecem por longo tempo. São locais que se transformam e passam a não ter mais a função para a qual eles haviam sido criados. Por exemplo, Dadaab, que é conhecido como "Monstro", o maior de todos os campos de refugiados, na fronteira entre Quênia e Somália. Queríamos mostrar como esse território gigantesco se transformou em algo completamente diferente em um período de um ano (a intenção original era de que Dadaab abrigasse até 90 mil pessoas, mas atualmente vivem no complexo mais de 463 mil refugiados, incluindo cerca de 10 mil pessoas nascidas no local).

O FILME MOSTRA QUE ESSES LOCAIS NÃO SÃO NEM CIDADES, NEM PRISÕES. PARECE QUE O TEMPO PARA PARA ESSAS PESSOAS. COMO É A VIDA EM DADAAB? O MONSTRO É REALMENTE IMPRESSIONANTE?

O campo foi criado em 1991. O governo do Quênia tem dito que vai acabar com o local e que os refugiados poderão voltar para a Somália. Por isso, não há autorização para construir prédios de alvenaria. As únicas edificações assim são os postos policiais e das Nações Unidas. Os refugiados não podem construir, embora o campo tenha quase 20 anos. O que mais me impressionou foi o ambiente em geral. Porque há escolta da polícia queniana o tempo inteiro. 

E isso é meio assustador, aumenta o grau de violência possível. Eu estava mais impressionada com esse acompanhamento do que com o campo em si. Violência dentro do campo existe, pessoas foram raptadas, entre outros registros de criminalidade, mas o mais impressionante é a polícia do Quênia. É um negócio para eles. Eles precisam assustar. Você não consegue fazer o seu trabalho como documentarista porque, a cada dois minutos, alguém diz: "Não podemos ficar aqui, é muito perigoso!". Essa atitude deles aumenta e muito a sensação de insegurança.

LIDAR COM AS NECESSIDADES URGENTES DE MILHARES DE REFUGIADOS É UM DESAFIO PARA GOVERNOS, ORGANIZAÇÕES NÃO GOVERNAMENTAIS E TAMBÉM PARA AS NAÇÕES UNIDAS. APESAR DAS DIFERENTES REALIDADES, HÁ UM SISTEMA PADRÃO NO QUE DIZ RESPEITO A LOGÍSTICA, MANUTENÇÃO E COMIDA NOS CAMPOS AO REDOR DO MUNDO?

Sim. Todos os campos são diferentes, mas têm como denominador comum a presença do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur). A ideia de ter esse padrão também aparece no documentário desde a concepção da ideia, junto ao canal de TV Arte (da França, que exibe esse e outros documentários de Anne). Foi a emissora que pediu que fossem retratados sete campos diferentes.

VOCÊ TESTEMUNHOU EPISÓDIOS DE VIOLÊNCIA NOS CAMPOS?

Todos os campos têm violência sexual e de gênero. Isso é comum a todos porque esses lugares são formados por uma mistura de pessoas, às vezes procedentes de países diferentes: Congo, Burundi... Alguns refugiados são ex-combatentes, ex-militares. Suspeita-se de que o "Monstro", por exemplo, seja uma base utilizada pelo Al-Shabaab (grupo terrorista islâmico que atua principalmente no sul da Somália). Tudo isso compõe uma violência cotidiana nos campos. Supostamente é um lugar seguro, mas não é o que ocorre sempre.

COMO NASCEU A IDEIA DE DOCUMENTAR OS CAMPOS?

Não foi exatamente um pedido do canal Arte. Tenho trabalhado como documentarista há alguns anos, e isso acabou levando a esse projeto. Não trabalho em países em guerra, mas em nações que estão em período de pós-guerra, ou então com temas que cercam os conflitos. Isso foi ao encontro do que os produtores do canal estavam pensando como projeto.

UM DOS PROBLEMAS QUE VOCÊ TRAZ À TONA NO FILME É A INVISIBILIDADE DOS REFUGIADOS. MESMO NA IMPRENSA, ESSE TEMA SÓ VIRA NOTÍCIA DIANTE DE TRAGÉDIAS.

Como jornalista, também tenho essa sensação. Há alguns anos, fui ao Iêmen cobrir os campos de refugiados, mas não entrei neles. Depois do início desse projeto, comecei a ler toda uma literatura escrita por pesquisadores, sociólogos, antropólogos e historiadores que estudam essa realidade e a organização dos campos. Antes, como público que assistia a documentários e lia notícias, e mesmo como jornalista, eu sabia da existência dos campos, mas me perguntava sobre a permanência das pessoas neles. O que vai acontecer com o passar do tempo? Com esse filme, entrei para registrar os absurdos que ocorrem nos campos e como eles seguem existindo depois das guerras ao longo do tempo.

NO AUGE DA CRISE DE REFUGIADOS QUE INGRESSARAM NA EUROPA, EM 2015, VÁRIOS PAÍSES FECHARAM SUAS FRONTEIRAS. TEMOS OBSERVADO O CRESCIMENTO DE GOVERNOS E GRUPOS CONSERVADORES NO CONTINENTE, COM UMA AGENDA CONTRÁRIA À MIGRAÇÃO. VOCÊ É PESSIMISTA EM RELAÇÃO AO FUTURO DOS REFUGIADOS NA EUROPA?

Sou muito pessimista. A última parte do documentário foi rodada na fronteira entre a Grécia e a Macedônia, em dezembro de 2015, justamente alguns dias depois dos atentados em Paris (série de ataques ocorridos em 13 de novembro). A Europa fechou brutalmente as fronteiras desde então. Como jornalista, presenciei esse fechamento. E foi impactante para mim, porque anos antes eu havia gravado para a emissora France 5 uma reportagem sobre os mais de 20 anos desde a queda do Muro de Berlim. Essa memória da fronteira entre os blocos Leste e Oeste já não existia mais, porque se vivia esse sonho de uma Europa totalmente aberta. E, em 2015, pá: fechou. 

Foram dois dias e três noites de gravações. Presenciei fisicamente a constituição dessa nova fronteira novamente entre Macedônia e Grécia. A Grécia é União Europeia. Em dois dias, começaram a colocar arame farpado. Nossa geração que sonhou com uma Europa aberta criou de novo fronteiras físicas no continente.

UMA CRÍTICA QUE SE FAZ À SOCIEDADE EUROPEIA EM GERAL, E FRANCESA EM PARTICULAR, É A DIFICULDADE DE INTEGRAR OS MIGRANTES, QUE MUITAS VEZES VIVEM NAS PERIFERIAS E SÃO COOPTADOS POR GRUPOS EXTREMISTAS. NO CASO DOS ATENTADOS DE PARIS, OS TERRORISTAS SAÍRAM DE UM DESSES GUETOS, MOLLENBECK, LOCALIZADO NA BÉLGICA.

Nesse caso, há uma confusão. Não se tratava de refugiados. Esses terroristas que realizaram os ataques a Paris se aproveitaram do fluxo de refugiados. É o que acontece: há alguma confusão no uso dos termos "refugiados" e "terroristas". A temática maior das eleições europeias tem sido e vai continuar sendo a dos refugiados.

É QUE GRUPOS POLÍTICOS COLOCAM TUDO NA CONTA DE REFUGIADOS. DIZEM, POR EXEMPLO, QUE AS MOVIMENTAÇÕES DELES FACILITAM A ENTRADA DE TERRORISTAS.

No caso da França, nenhum dos terroristas que foram para a Síria e voltaram para atacar era refugiado. Todos nasceram na França ou na Bélgica, e vários deles nem eram muçulmanos. Eram católicos.

A EUROPA JÁ LIDA COM A QUESTÃO DE REFUGIADOS HÁ DÉCADAS. NA AMÉRICA LATINA, ESTAMOS COMEÇANDO A VIVENCIAR O PROBLEMA COM A CRISE NA VENEZUELA. ABRIR AS FRONTEIRAS É SOLUÇÃO? OU CRIAR CAMPOS DE REFUGIADOS NO BRASIL?

Não sou especialista em política latino-americana. Mas, se um governo quer promover a criação de um campo, isso significa dizer que não quer integrar. Um campo é uma coisa temporária. Se o Brasil for abrir um campo, por exemplo, para os venezuelanos, quer dizer que vai deixá-los ali e, depois que a crise passar, fazê-los voltar para o seu país. Não conheço bem a situação do Brasil, mas penso que o país tem uma sociedade civil forte porque está dando um jeito. Como na França. A França tem uma situação dupla: em nível político, sobretudo com o governo de Emmanuel Macron, há uma política dura, intransigente com os refugiados. Menos do que outros países, mas, ainda assim, com um discurso duro. E a sociedade civil é superorganizada, faz muitas coisas para os refugiados. Embora muitos estejam presos como criminosos. A sociedade civil francesa se organiza em campos no interior para apoiar. Quando não há campos, a sociedade civil se organiza para ajudar.

A FRANÇA TINHA A SELVA DE CALAIS, ACAMPAMENTO IMPROVISADO DE MIGRANTES E REFUGIADOS QUE TENTAVAM ATRAVESSAR O CANAL DA MANCHA PARA CHEGAR AO REINO UNIDO. O LOCAL FOI DESTRUÍDO PELO ATUAL GOVERNO. OS REFUGIADOS VOLTARAM?

Calais foi desmantelado, mas os refugiados voltaram. O maior impacto será a saída do Reino Unido da União Europeia. Vai haver uma divisão de fronteiras entre França e Inglaterra, caso o Brexit se confirme. O que vai acontecer agora? A França vai manter esse campo?

VOCÊ FEZ UM FILME SOBRE A VENDA DE ARMAS FRANCESAS PARA PAÍSES QUE VIOLAM DIREITOS HUMANOS. O BRASIL TAMBÉM JÁ TEVE ESSA POLÍTICA. POR UM LADO, OS PAÍSES ASSINAM TRATADOS QUE REGULAM O COMÉRCIO DE SEU ARSENAL, MAS, POR OUTRO, VENDEM PARA REGIMES QUESTIONÁVEIS, COMO O DA ARÁBIA SAUDITA. ISSO MOSTRA O CINISMO DA COMUNIDADE INTERNACIONAL?

Sim, enorme. O discurso é dúbio, cínico. Em nome dos direitos humanos, dos quais a França é porta-voz, ela diz: "Somos uma potência independente e devemos ter autonomia, o que inclui uma indústria de armamento forte, que nos dá a possibilidade de vender". A França discursa que, para garantir sua independência, tem de ter essa possibilidade de vender armas. 

E acaba vendendo para fora, de onde surgem grandes clientes. Só que alguns desses clientes, as únicas potências que realmente podem comprar, são Arábia Saudita, Egito, países que não respeitam os direitos humanos. Então, a França faz isso: fecha os olhos e o nariz e para poder arrecadar com o comércio. É um discurso contraditório. Estou lançando um livro na França justamente sobre o tema, uma versão do documentário Mon Pays Fabrique des Armes (2018) ("Meu país fabrica armas", em tradução literal).

COMO FOI O TRABALHO EM MOSSUL, A ÚLTIMA CIDADE DO IRAQUE A SER LIBERTADA DO GRUPO TERRORISTA DAESH? (OS FRANCESES USAM O TERMO DAESH PARA SE REFERIR AO ESTADO ISLÂMICO COMO FORMA DE DESAFIAR A LEGITIMIDADE DA ORGANIZAÇÃO DEVIDO ÀS CONOTAÇÕES NEGATIVAS DA PALAVRA, QUE SIGNIFICA PISAR OU ESMAGAR)

Fui três vezes a Mossul para acompanhar a pessoa que foi nomeada pelo governo do Iraque para coordenar a reconstrução da cidade. Nos últimos dois anos, nada aconteceu em Mossul em termos de reconstrução. Entrevistei várias pessoas que moram lá e sofreram os ataques da coalizão. Conheci vários meninos perseguidos pelo Daesh. Pessoas que fugiram e viveram em campos e, agora, voltaram a Mossul. Essas pessoas são como fantasmas, não têm direito a nada. As crianças dessas famílias não têm o direito de frequentar as escolas. Estão dentro da cidade, mas sem direito algum.

QUANTO TEMPO VOCÊ FICA EM CADA MISSÃO GRAVANDO?

O dinheiro é pouco, então, não fico muito tempo. Uns 15 dias em cada local. Para Bienvenue au Réfugistan, fiquei no máximo três semanas em cada país. No campo em si, não tenho permissão para ficar muito tempo - entre três e cinco dias. Na Jordânia, foi especialmente complicado: só dois dias, e com um agente do governo sempre nos acompanhando, andando atrás, dizendo que agradecia muito ao rei da Jordânia. Antes, ele conversou com todas as pessoas as quais eu ia entrevistar. Não estávamos preocupados em mostrar as práticas políticas; queríamos mostrar como funciona o campo. Nossa intenção não era criticar a Jordânia, e, isso sim, mostrar a dificuldade que é entrar, fazer essas entrevistas e como funcionam as autorizações para os campos. Mas ele ficou ali, fiscalizando.

RODRIGO LOPES


13 DE ABRIL DE 2019

DRAUZIO VARELLA


SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE


Poucos reconhecem que foi a maior revolução da história da medicina brasileira. O que seria dos mais pobres se ele não existisse?

Depois de 11 horas numa cadeira na sala de espera do hospital, o menino de cinco anos morreu. Os telejornais mostraram o desespero da mãe e as imagens de outras crianças na mesma situação.

O Hospital Materno Infantil (HMI), em Goiânia, é o único da região preparado para atender gestantes de alto risco e bebês prematuros. Recebe pacientes da capital, das cidades vizinhas, de outros estados do centro-oeste e até do norte do país.

A mãe e o menino haviam procurado um centro de saúde. Lá, ele recebeu tratamento e voltou para casa. Quando piorou, ela achou melhor levá-lo ao HMI, onde foi avaliado, recebeu medicamentos e aguardou vaga para internação, ao lado da mãe na sala de espera.

Em entrevista, a diretora do hospital, doutora Rita de Cassia Leal, disse que a superlotação a obrigava a atender as crianças naquelas acomodações improvisadas. Preferia assim do que recusar a admissão e deixar os pais baterem cabeça à procura de atendimento pela cidade.

A justificativa é de uma médica que entendeu a razão de existir de nossa profissão: aliviar o sofrimento humano. Quantos profissionais anônimos, com esse nível de espírito público, estão espalhados pelo país, cuidando de pessoas doentes em condições precárias?

Cerca de 80 a 90% dos problemas de saúde podem ser resolvidos em consultas ambulatoriais nas Unidades Básicas. Quando a atenção primária não funciona, as pessoas correm para o pronto-atendimento nos hospitais públicos. Os resultados são as imagens da TV: fila nas portas, salas de espera lotadas, gente sentada no chão. Aí, todos dizem que o SUS é uma vergonha. Ele apanha de todos os lados, é a Geni da música do Chico Buarque.

Poucos reconhecem que a criação do SUS foi a maior revolução da história da medicina brasileira. O que seria dos mais pobres se ele não existisse?

Nos 30 anos de vida, o Sistema Único de Saúde se transformou no maior programa de distribuição de renda do país. Comparado com ele, o Bolsa Família é tímido.

Além de recursos financeiros insuficientes, ao SUS falta gerenciamento. O Brasil não tem uma política pública de saúde digna desse nome.

Sabe quantos ministros da Saúde nós tivemos nos últimos 10 anos? Doze. Média de permanência no cargo: 10 meses.

Quando muda o ministro da Saúde da Alemanha ou da Inglaterra, saem com ele meia dúzia de assessores próximos, o corpo técnico é mantido para que os programas não sofram solução de continuidade. No Brasil, à cada troca mudam a equipe inteira, os diretores de hospitais e de autarquias, programas são cancelados e os técnicos entram em compasso de espera até entender as novas diretrizes, muitas vezes impostas por superiores ignorantes, escolhidos por critérios políticos, sem noção dos desafios da área.

Nos governos estaduais e nas prefeituras, as secretarias da Saúde convivem com os mesmos desmandos, com a agravante de que as paixões políticas estão mais próximas do cotidiano da administração. Como organizar a saúde pública no meio dessa confusão?

DRAUZIO VARELLA

13 DE ABRIL DE 2019
PAULO GLEICH

É PRECISO SAIR DA ZONA DE CONFORTO?

De tempos em tempos, alguma expressão cai no gosto popular e acaba sendo repetida à exaustão, adquirindo status de verdade inquestionável. Atualmente, boa parte dessas ideias provém do âmbito do empreendedorismo, que cada vez mais se funde com autoajuda; basta visitar uma livraria para constatar a proliferação de títulos relacionados ao assunto. Não é nenhuma surpresa que, em um mundo organizado em torno do mercado, sejam esses os ideais que organizam também a vida pessoal.

Uma ideia que ganhou força nos últimos anos é a de que é preciso "sair da zona de conforto". Escutamos (e usamos) em conversas cotidianas e, como não podia deixar de ser, acaba também surgindo na fala dos pacientes. Sair da zona de conforto tornou-se palavra de ordem, e quem não se sente convocado a responder a ela estaria estagnado, alienado, conformado.

O que seria a tal da zona de conforto? Em sua leitura mais banal, seria aquilo com que nos sentimos confortáveis, as gavetas e caixinhas com as quais organizamos os pensamentos e ações. Sair da zona de conforto seria ir além do conhecido, explorar novas possibilidades, transgredir as próprias limitações. Parece fazer todo sentido seguir essa ordem, pois a tal zona seria uma espécie de prisão.

Algo, porém, sempre me incomoda quando é essa obrigação que justifica atos e escolhas. Isso porque há, implícita nela, uma ideia de que o conforto deve ser evitado, e que a medida certa para avalizar as decisões é se elas implicam desconforto. Ao comandar a saída da tal zona, afirma-se que o conforto é algo intrinsicamente ruim, a ser evitado. Pelo avesso, sentindo-se desconfortável, se estaria em bom caminho.

Mas será que todo conforto implica em um estado de alienação, como faz pensar a expressão? Se alguém se sente confortável em seu trabalho, precisaria necessariamente fazer esforços para obter um cargo melhor, assumindo funções que não lhe trariam nenhum prazer - mesmo que com uma remuneração melhor? A lei da saída da zona de conforto diz que sim, porém desconsidera outros indicadores de satisfação pessoal, como a tranquilidade, o prazer, a disponibilidade de tempo para estar com quem se gosta.

A experiência clínica também mostra que a tal "zona de conforto", no sentido daquilo que é conhecido, nem sempre é tão confortável. Como já diz o ditado, há muitos que encontram mais conforto no mal conhecido do que no bem por conhecer. Guiando-se por essa ética do desconforto, é possível acreditar-se no caminho do crescimento, quando na verdade se está preso a uma necessidade neurótica de sofrer.

Obedecer cegamente à obrigação de sair da zona de conforto pode levar a um estado de ansiedade, por sempre ter de buscar novos desafios - mesmo que eles não reflitam algo que se deseja. É preciso também atentar para quem profere essa verdade inquestionável, pois ela pode ser usada para justificar atos que trazem sofrimento ao outro, sem o suposto benefício que estaria contido no desconforto.

Não advogo, com isso, pela permanência na zona de conforto, mas por uma interrogação sobre aquilo que nos move para longe dela. Crescer sempre implica algum desconforto, mas isso não faz com que qualquer desconforto seja índice de crescimento. É importante poder reconhecer os próprios limites não apenas para transgredi-los, quando nos engessam, mas também para às vezes aceitá-los, quando isso nos ajuda a melhor situar-nos na vida.

PAULO GLEICH



13 DE ABRIL DE 2019
DAVID COIMBRA

Aquelas pernas perfeitas

O nome dela é Cecilia. Não é uma mulher, é um champanhe italiano que eu levava no colo, no banco do trem. Custou-me só US$ 8 no Trader Joe's, mas, acredite, trata-se de ótimo champanhe. Uma vez, servi-o a um amigo francês que mora aqui, o Robert. Ele é muito exigente em matéria de comida e bebida. Francês, sabe como é. Pois, quando o Robert provou o primeiro gole de Cecilia, fez mmm e exclamou:

- Good! Pensei até que fosse sair um "ulalá!".

Então, estava feliz com minha Cecilia, quando ela entrou no trem. Não era uma bebida, era uma mulher e usava um vestido curtíssimo que deixava à mostra um par de pernas que, de relance, achei que fossem simplesmente per-fei-tas.

Pelo menos foi o que achei.

Devo ressaltar que as mulheres daqui gostam de expor as pernas logo que os dias se tornam um pouco mais quentes. Elas entram em minissaias sumárias e shortinhos minúsculos. Algumas, sobretudo as orientais, saem por aí com as pernas de fora mesmo quando está frio. A propósito: as orientais têm pernas realmente bonitas.

Essa que entrou no trem não era oriental, suponho que fosse americana. Ela se acomodou no banco exatamente em frente ao meu, um daqueles bancos que ficam virados para o corredor. Assim, podia ver suas pernas, agora cruzadas. Mas não olhei. Ficava chato olhar. Ela podia se sentir ofendida. Além disso, tinha um cara ao lado dela, talvez marido ou namorado.

Tem outra coisa: os americanos prezam muito sua privacidade. Ninguém olha para ninguém na rua. Se você vem caminhando e, por acaso, olha nos olhos da outra pessoa, ela sorri e cumprimenta. É uma maneira educada de dizer: "Eu vi que você está olhando para mim. Estou lhe dando a chance de tornar isso natural: você me cumprimenta, eu o cumprimento e nós vamos embora, cada um para o seu lado".

Claro, isso nas cidades pequenas, americanas de raiz, não numa capital do mundo, como Nova York. Em Nova York, eles ignoram olhares, e pronto. Em Londres é assim também. Você fica de pé, no metrô lotado, cercado de gente e ninguém encara ninguém. É um espanto: você está a um palmo do rosto da outra pessoa. Se você quisesse, poderia dar-lhe uma dentada no nariz. Mas ela consegue fitar o vazio como se você fosse transparente. Como eles conseguem?

Portanto, é feio encarar os outros nos Estados Unidos e mais feio ainda lamber as pernas de uma moça com o olhar. Além disso, pode ser perigoso. Vá que ela considere assédio.

Lembrei do caso de um brasileiro em Tóquio que viu uma linda japonesa na rua e resolveu ir atrás só para admirá-la um pouco mais. O problema é que ela percebeu e chamou um policial:

- Seu guarda, aquele homem está me seguindo.

O policial interpelou o brasileiro:

- O senhor está seguindo a moça?

- De jeito nenhum! Só estou procurando o trem.

- Trem? Para onde o senhor vai?

O brasileiro disse o nome de uma cidade qualquer e o policial, solícito, fez questão de levá-lo até a estação, ajudou-o a comprar a passagem e esperou até que ele entrasse no vagão.

Assim, nada de olhar para as pernas da americana, ainda que elas tivessem chance de ser simplesmente per-fei-tas. Mas, confesso, sentia uma ENORME vontade de olhar para aquelas pernas. Deu-me uma ânsia, uma aflição, como se eu PRECISASSE olhar. Por que isso? Por que o homem TEM de olhar para uma mulher linda quando ela passa? Um amigo meu diz que, quando a gente faz isso, "bota os olhos a pastar", e ele tem razão. É como se a olhada nos alimentasse. Eu ali, diante daquelas pernas nuas que se me ofereciam, eu ali sentia que ia morrer de fome, se não olhasse. Mas não olharia! Tinha de ser civilizado, afinal.

Lembrei do Chico: "Eu olho as pernas de louça da moça e não posso pegar?".

Feliz do Chico. Eu nem olhar podia.

Continuei mirando o nada pela janela. Fixei-me em um ponto neutro, acima das cabeças do casal. Aí o trem ingressou em um túnel e só o que havia para ver eram paredes. Virei a cabeça para os lados. Será que os outros passageiros tinham reparado nas pernas? Havia algumas pessoas de pé. Todos indiferentes. Americanos! Se houvesse um brasileiro entre nós, é claro que ele daria uma espiadela. Talvez até trocasse um olhar cúmplice comigo, como se dissesse:

- Você viu???

É bom quando acontece isso, porque partilhamos uma visão agradável, como quem divide uma comida deliciosa. Mas, ali, ninguém se solidarizaria comigo se, por acaso, desse UMA BOA OLHADA naquelas pernas. Não. NÃO! Eu não poderia olhar.

Mantive-me assim, casto, puro, um bispo, até que o trem saiu do túnel e fui mirar de novo o nada e notei que eles olhavam para mim. Sim. Eles. O casal. Aí olhei nos olhos dela e ela? Ela sorria!

Aquilo me perturbou. Por que ela sorria? Então, ela ergueu o braço e apontou o dedo para o meu colo.

- Cecilia? - perguntou.

O champanhe! Sorri de volta.

- Cecilia - confirmei, e estendi a garrafa em sua direção. - Quer ver?

Nesse momento lindo, como diria o Rei, deu-se o seguinte: enquanto meus braços se alongavam para ela, com a garrafa nas mãos, baixei a cabeça, como numa reverência, e estiquei o olhar para? para? PARA AQUELAS PERNAS!

Foi tudo muito rápido, um átimo de segundo, ela logo agradeceu e recusou a garrafa, mas foi o suficiente. Eu olhei. Olhei mesmo. Olhei com vontade. Podem me condenar, mas olhei. E, sem vergonha do crime, digo: fiquei feliz. Porque eram pernas simplesmente per-fei-tas.


13 DE ABRIL DE 2019
MÁRIO CORSO

Breve manual do burocrata

Instruções básicas do MBAH (Movimento Burocrático pelo Aperfeiçoamento Humano).

Das informações

Qualquer processo deve ser explicado em drágeas. Um pouco presencialmente, em um lugar remoto da cidade. Algo por telefone, em uma central. Deve-se digitar todos os números dos nossos documentos enquanto se percorre seu labirinto, até chegar a um humano que vai transferir a ligação para outro, que, se não cair, vai conferir os números anteriores. O restante das informações deve estar em um site governamental, desses confusos e que não carregam. Cada um gerando um número de protocolo de 15 dígitos, ditos rapidamente, para então proceder ao seguinte passo.

Dos itens requeridos.

Nunca peça todos os itens para um procedimento de uma só vez, logo, jamais faça uma lista. Oriente rapidamente, de modo que seja anotado ou entendido errado. Outra estratégia procrastinadora eficaz consiste em pedir a documentação em dois momentos. De maneira que só possa ser trazido o restante após a entrega da primeira leva. Invente um aceite inicial, para depois completar. Picotar a entrega pode também gerar uma justificativa para uma segunda taxa.

Das taxas

As taxas só poderão ser pagas com dinheiro vivo em uma agência remota. Não longe o suficiente para que se precise um transporte, nem tão perto que não canse e exponha o usuário. O importante é que seja uma boa caminhada em um território inseguro e desconhecido. A agência deve ser de um banco pouco usado, de modo que a maioria tenha que ir a um segundo estabelecimento para sacar em um caixa automático. Atenção: sempre que possível empurrar duas taxas, que sejam pagas em dois bancos distintos. Mas não é só pagar. Deve-se protocolar a entrega do recibo em um terceiro guichê.

Do protocolo de entrega

O protocolo deve ser em horários exíguos e em outro endereço. Isso potencializa o mal-entendido, pois quem recebe pode dizer que o cliente não foi corretamente orientado. Logo, não seria bem isso o que foi pedido, portanto ele deve voltar, desta vez com o documento correto.

Da postura

Nunca perca a paciência com o destempero do cliente. O louco deve sempre ser ele, não o sistema. Nunca ria dos descontroles do pobre coitado. Nosso regozijo deve ser em privado, posterior à cena. Saiba adiar o prazer.

Do objetivo

Terminar o dia com a satisfação do dever cumprido. Certos de que contribuímos para o aperfeiçoamento espiritual e moral de alguém. Quem sobrevive à nossa via- crúcis jamais será o mesmo: seu autocontrole e resiliência passaram a outro nível. Ao transformar o banal em uma conquista épica, oferecemos ao cliente, após o sofrimento de uma humilhação redentora, a justa sensação de ter triunfado sobre o impossível. O cidadão comum se sentirá como Hércules após os 12 trabalhos.

MÁRIO CORSO

13 DE ABRIL DE 2019
EDUCAÇÃO


Ministra polemiza em fala sobre ensino domiciliar


ESPECIALISTAS REPERCUTEM DECLARAÇÕES de Damares Alves sobre pais de crianças autistas ou com deficiência preferirem educar os filhos em casa

As declarações da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, defendendo o ensino domiciliar para crianças autistas ou com deficiência reacendeu o debate sobre esse método educacional. Em entrevista ao programa Gaúcha Atualidade, na sexta-feira, Damares afirmou que muitos pais entendem que os filhos não estão se adaptando às escolas, e que a melhor solução seria estudar em casa. Ela citou dados de que, hoje no Brasil, mais de 20 mil famílias aplicam a modalidade, mas de maneira irregular.

- Pais das crianças com deficiência, pais de crianças com autismo... É um grupo muito grande que tem conversado com esse ministério. Eles gostariam de educar os filhos em casa. Muitos entendem que os filhos não estão se adaptando na escola. Tem criança com autismo que sofre mais indo para a escola do que ficando em casa - disse.

A educação domiciliar foi definida como uma das prioridades do governo Bolsonaro nos cem primeiros dias de gestão. O entendimento é de que é preciso regulamentar o chamado homeschooling depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) barrou a prática por não haver legislação específica.

Na avaliação da assistente social Patrícia Bittencourt dos Santos, gestora do serviço social da Associação Canoense de Deficientes Físicos (Acadef), a presença das crianças com deficiência em escolas é uma conquista histórica em prol da inclusão, e elaborar políticas que as afastem dessas instituições poderá ser um retrocesso:

- Não podemos olhar a questão educacional apenas sob o ponto de vista da saúde, de que haverá dificuldade para deslocamento ou permanência na escola. As pessoas com deficiência têm direito ao aprendizado, ao lazer e à convivência, no que o ambiente escolar é essencial.

SOCIALIZAÇÃO X FALTA DE ESTRUTURA DAS ESCOLAS

Na entrevista à Rádio Gaúcha, a ministra criticou o argumento de que a falta de socialização é um dos maiores problemas do ensino domiciliar. Para ela, essa socialização não ocorre apenas na escola, pode ser feita em cursinhos de inglês, em igrejas ou na rua onde a família mora, por exemplo.

Especialista em Educação Inclusiva e doutoranda em Educação pela Unisinos, Deise Andréia Enzweiler discorda:

- O ponto de vista da ministra tem alguns equívocos de compreensão da teoria educacional. É na escola onde a criança avança em sua formação humana. Se a convivência for feita apenas na família, na vizinhança ou na igreja, ela não vai aprender a lidar com as diferenças de opinião, raça e religião.

Deise concorda que as escolas carecem de melhor estrutura para atender pessoas com deficiência e avalia que faltam profissionais com qualificação para lidar com autistas. Mas, em comparação com o ensino em casa, ainda é a melhor alternativa, em razão da falta de tempo e preparo dos pais para repassarem o conteúdo escolar e pedagógico aos filhos.

Mãe de um menino autista de 10 anos, Sandra dos Santos Andrade, pós-doutora em educação e professora da Faculdade de Educação da UFRGS, avalia que o ensino domiciliar pode ser, sim, uma alternativa para casos de autismo. Menos por desejo dos pais e mais por necessidade. O filho dela hoje recebe educação domiciliar, com o suporte de profissionais de diversas áreas, como psicopedagogo, psiquiatra, neurologista, psicomotricista e professora.

- Nosso desejo é que ele estivesse no ambiente escolar, até porque isso entraria na ordem da normalidade e da inclusão. Mas, de modo geral, não temos escolas efetivamente preparadas para darem conta do atendimento a jovens com autismo ou síndrome de Down, por exemplo, e isso agrava sua dificuldade de aprendizagem.

A favor de um caminho legal para o ensino domiciliar, ela pondera que uma mudança nessa direção precisaria ser muito bem estruturada. Caso contrário, só estaria ao alcance do público elitizado.

ERIK FARINA E MARCEL HARTMANN

13 DE ABRIL DE 2019
OPINIÃO DA RBS

UMA CHANCE PARA A EDUCAÇÃO

Essa é uma área que precisa de resultados mensuráveis com rigor técnico, não de debates ideológicos intermináveis que servem apenas para acirrar divisões

O novo ministro da Educação, Abraham Weintraub, tem a oportunidade de demonstrar que aprendeu a evitar os erros cometidos por seu antecessor, Ricardo Vélez Rodríguez. O currículo do novo integrante do primeiro escalão demonstra um perfil pouco afinado com os desafios gigantescos da educação brasileira. A expectativa de que esse aspecto poderia ser compensado com a indicação de uma equipe familiarizada com as necessidades do setor acabou não se confirmando na prática. Ainda assim, só o fato de o presidente Jair Bolsonaro ter finalmente se desvencilhado de um ministro que criava uma polêmica por dia e não deu um passo concreto sequer na direção de solucionar o drama educacional brasileiro já é um alento.

O desafio que o novo ministro assume depois de cem dias de inoperância de um Ministério da Educação (MEC) perdido em inúteis batalhas ideológicas chama atenção pelas dimensões. Por isso, é importante que, para compensar a falta de experiência em gestão pública e na formulação de políticas educacionais, o responsável pelo setor tenha pelo menos a clareza necessária para vislumbrar que caminhos o país deve trilhar para conquistar um aprendizado de qualidade. Essa é uma área que precisa de resultados mensuráveis com rigor técnico, não de debates ideológicos intermináveis, que servem apenas para acirrar divisões.

É preciso que o MEC retome logo o seu dever de dialogar com Estados e municípios, exercendo seu papel de indutor de políticas específicas. O Brasil, que recém havia alcançado um consenso mínimo para o setor, não pode desperdiçar essa conquista, pois é fundamental para a continuidade de avanços tanto no aspecto econômico quanto no social.

A particularidade de o novo ministro ser economista pode favorecer a definição de metas. O país precisa avançar em ganhos de produtividade, o que depende não apenas de crescimento sustentável do Produto Interno Bruto (PIB), mas também de capital humano, baseado em mão de obra qualificada. Esse aspecto só reforça a importância de o país contar sempre com políticas realmente conectadas com a urgência de avanços educacionais.

O país deveria aproveitar o período de mudança de rumos para definir de vez um norte na área de ensino. Não é mais possível permitir que tantos jovens continuem deixando a escola antes do tempo sem as habilidades básicas para lidar com tarefas que exigem um mínimo de aprendizado.


13 DE ABRIL DE 2019
INDICADORES

Nossa última chance

O Rio Grande do Sul já fez inúmeros planos estratégicos e cartas de intenção, contratou consultorias e montou estruturas de todo tipo para sair do buraco e recuperar a capacidade de desenvolvimento. Mas pouco adiantou. Quase todas as iniciativas mal saíram do papel, apesar de incontáveis reuniões, acordos, protocolos. Já usamos, inclusive, o argumento de que somos o meio do caminho entre Buenos Aires e São Paulo para atrair investimentos.

Agora, com o Pacto Alegre, temos a última chance de mudar esse quadro e acabar com a crença de que aqui nada dá certo e que o melhor caminho é o do aeroporto. Com isso, já perdemos incontáveis talentos. Uma das nossas dificuldades maiores foi superada. Unimos esforços de muitos players, a começar pela inédita união de três grandes universidades - UFRGS, PUC e Unisinos. Junto à prefeitura de Porto Alegre e dezenas de empreendedores, o cenário está montado.

Ainda falta deixar de lado o excessivo espírito crítico destruidor, que vê problema em tudo, botar a mão na massa e estimular a criação de empresas, desobstruindo o caminho da regulamentação excessiva e lenta, para atrair novas empresas e reacender a antiga capacidade empreendedora dos nossos antepassados. Perdemos muito tempo e deixamos muitas cidades e Estados passar a nossa frente.

Precisamos nos abrir para receber profissionais de fora e parar de exportar talentos. Precisamos simplificar leis, diminuir prazos, estimular que se formem mais engenheiros e cientistas da computação (a Inteligência Artificial vai dominar o mundo). No Brasil, 41% dos universitários se formam em Ciências Sociais, Negócios e Direito, 13% em Engenharia e 6% em Ciências da Computação. Temos 42 instituições de Ensino Superior somente em Porto Alegre. É necessário aproximá-las do mundo empresarial e buscar referências nas melhores universidades do mundo em cada área.

Precisamos de mais pluralidade no ecossistema educacional, o que a prefeitura de Porto Alegre já está estimulando. Empresas e espaços inovadores estão surgindo, dos parques tecnológicos, até a Fábrica do Futuro, u.Move.me, Perestroika e os inúmeros eventos focados em inovação. O ambiente está efervescente e favorável (Rio Grande do Sul é o Estado onde surgiram mais startups no Brasil: 915, enquanto São Paulo ficou com 890, segundo trabalho recente da McKinsey). O que falta é gente disposta a investir, arriscar a inovar e apostar em fazer diferente.

ALFREDO FEDRIZZI


13 DE ABRIL DE 2019

+ ECONOMIA

BOLSONARO PISCOU NO PRIMEIRO IMPASSE

No mercado financeiro, o comportamento errático e as declarações desastradas de Jair Bolsonaro sobre a reforma da Previdência, fizeram surgir o apelido Dilma de calças. Na sexta-feira, depois da confirmação de que veio do chefe do Executivo a decisão de frear o reajuste de 5,7% nos preços do óleo diesel anunciado pela Petrobras, a alcunha voltou à cena. Na primeira oportunidade crucial entre o passado intervencionista e a recente conversão ao liberalismo econômico, os antecedentes de Bolsonaro pesaram mais.

O resultado foi queda de 8,5% no preço das ações ordinárias da estatal. O mercado entendeu que se trata de reprise da política de fixação de preços do governo Dilma Rousseff. Não bastasse interferir na Petrobras, Bolsonaro decidiu mandar ao Congresso projeto que anistia dívidas de empresas do agronegócio com o Funrural. No ano passado, o custo era estimado em R$ 30 bilhões. Advocacia-Geral da União (AGU) e Receita Federal apontam risco de crime de responsabilidade na medida.

O vice-presidente Hamilton Mourão, tentou tranquilizar mercado e empresários, assegurando que foi uma intervenção "pontual", diante do risco de atiçar uma greve nos caminhoneiros que começava a ser cogitada. É um impasse, mas Bolsonaro piscou no primeiro enfrentamento. Embora a política de repasses automáticos seja discutível em um país como o Brasil - nos Estados Unidos, funciona assim, mas os demais preços não flutuam tanto -, a decisão provoca ruídos na recente aliança entre o presidente e os liberais. O empresário Winston Ling, que aproximou o presidente do ministro da Economia, Paulo Guedes, manifestou-se nas redes sociais, considerando o movimento "desastroso".

Roberto Castello Branco, presidente da Petrobras, fez pós-doutorado na Universidade de Chicago, onde intervenções como essa são consideradas tabu. Há suspense sobre como vai se comportar diante do episódio. O congelamento de preços e o tabelamento do frete depois da greve de maio provocaram a saída do então presidente da estatal, Pedro Parente.

o mal-estar do mercado ante a intervenção na petrobras não afetou apenas as ações da petroleira. também despencaram papéis de duas outras estatais na bolsa, Eletrobras (4,97%) e banco do Brasil (3,17%). somadas a perdas de duas estatais estaduais, cemig e sabesp, houve redução de cerca de R$ 40 bilhões em valor de mercado (valor das ações multiplicado pelo número).

UM UFO NO CENTRO

Esqueça a referência que o Plaza São Rafael representou por décadas em Porto Alegre. O hotel passa por uma transformação que inclui novos negócios. Uma associação entre os donos do hotel, um fundo de investimento internacional e Walker Massa, primeiro empreendedor de coworking em Porto Alegre, faz um UFO pousar no centro da Capital.

É o nome do novo projeto de Walker, que inclui destinação corporativa. Nos dois prédios ocupados pelo Plaza, um está dedicado a empresas e áreas de residência compartilhada. Dois andares estão ocupados. Faltam cinco. O prédio de 16 andares vai se tornar hotel butique para negócios, com 213 apartamentos decorados por artistas locais.

- Temos esse piloto em Porto Alegre, que vamos replicar. Temos oito capitais na linha da ampliação - diz Massa.

Ele admite que, depois do excesso de oferta de hospedagegm provocado pela Copa do Mundo no Brasil, em 2014, seguido pela crise, hotéis precisam encontrar novas vocações. O UFO do Park Shopping Canoas, que ganhou prêmio de melhor projeto de design em Amsterdã é a referência visual.

A abundância de projetos de coworking - no Brasil, havia 12 em 2010, até 2014 eram 1,2 mil, segundo o censo do Coworking Brasil - é uma realidade reconhecida por Massa.

O empreendedor pondera que, se o modelo "tradicional" pode enfrentar ociosidade, os conectados a projetos com propósito e destinação segmentada atrairão ocupantes.

- Coworking não é mais um espaço, é uma metodologia - sustenta.

A mudança envolve investimento ao redor de R$ 20 milhões, dividido entre os três empreendedores - hotel, Walker e fundo - , mais os próprios ocupantes de espaços no local. Já estão instalados por lá Escola Livre de Arquitetura (ELA), OSF Global, ZIS PoA e a Associação de Microcervejeiros. Um andar inteiro é da Unirede, que monitora dados de grandes empresas gaúchas. O lobby do hotel vai se transformar em área para pequenas lojas, desde que "façam sentido" para o projeto, reforça Massa.

MARTA SFREDO

13 DE ABRIL DE 2019
INFORME ESPECIAL

PRIVATIZAR DEIXA O ESTADO MAIS FORTE

Ser público ou privado não é uma questão de princípios, mas de fins. O único fator que realmente importa é o menos levado em conta: as pessoas. Quando uma família entra em um parque, por exemplo, tanto faz para ela se o dono é o governo, uma empresa, uma ONG ou a vó do Badanha. Se o espaço for organizado e limpo, tiver segurança e opções de lazer, será um lugar bom. A família irá aproveitar e voltar várias vezes. E poderá, caso queira, lanchar em um bar honesto, comprar um souvenir e se vincular a uma marca inteligente o suficiente para conversar com o público sem poluir visualmente a paisagem.

A mesma matriz de pensamento vem sendo usada para debater a essência do nazismo. É de direita ou de esquerda? Tanto faz. O que importa é o nazismo, não seu rótulo. No Fórum da Liberdade, durante a semana, Olavo de Carvalho definiu socialismo como a concentração do poder político e econômico nas mesmas mãos. Mas não lembrou que isso aconteceu na Alemanha dos anos 30 e 40. Mas depois disse, em um momento de lucidez, que o regime de Hitler tinha aspectos tanto de esquerda quanto de direita.

Toda vez que um debate se polariza, emburrece. No Brasil, quem foge dessa imbecilidade fala sozinho. Na primeira linha ou na primeira frase, alguém já aponta o dedo e grita: "Comunista!" ou "fascista!". Geralmente nós, os centristas, ouvimos ambas palavras ao mesmo tempo. O centro é o lugar mais difícil do mundo.

Privatização não é um debate relevante. O que importa é que funcione, com padrões legais e éticos definidos. Enquanto guerreamos usando rótulos como únicas armas, a essência se perde. Conceder serviços a empresas privadas não enfraquece o Estado. Ao contrário, o fortalece naquilo que ele deve fazer. Difícil explicar para quem, empacado no extremo, enxerga de um lado apenas inimigos e, do outro, uma parede.

TULIO MILMAN

terça-feira, 2 de abril de 2019


02 DE ABRIL DE 2019
CARPINEJAR

Cinderelo

Ficar de braços cruzados é abraçar a si mesmo.

Eu ficava assim nas festas da escola. Abraçado a mim mesmo. Tinha tanto receio de ser feliz, que não abandonava o meu lugar, a minha continência, encostado na parede, enquanto os demais sacolejavam e gritavam na pista. Às vezes, só me mexia para ir ao banheiro ou alternava a posição com um copo na mão.

Permanecia como um poste durante três horas. Uma estátua de cera. Nem piscava. Nem ria. Nem dublava a música.

As reuniões dançantes com os colegas da escola significavam um martírio para mim. Porque era tímido. Porque me enxergava esquisito. Porque não sabia o que falar que não fosse assunto de aula. Consultava o relógio, esperando que chegasse a 1h para poder ir embora e não fazer feio saindo cedo.

Lembro claramente o quanto não conseguia tomar iniciativa. Talvez para não incomodar os outros. Talvez para não ser recusado. Talvez pela novidade nervosa da situação.

Meu desejo secreto era de que alguma menina se aproximasse de repente, que me tirasse para dançar, que me estendesse a mão espalmada do convite, que falasse para segui-la, que me acalmasse explicando alguns passos, que depois me incentivasse no momento em que eu não parecesse tão desengonçado, que eu esquecesse os meus medos e me descobrisse parte de uma turma. Eu imaginava bailando uma canção calma depois, colado nos ombros dela, enredado no perfume feminino, de olhos fechados, mastigando sem querer os cabelos por afoiteza, com esperança de sentir algo diferente.

Sonhava acordado, de pé, que alguém me resgatasse da solidão e me ensinasse a ser gente como toda gente.

Mas nunca aconteceu, jamais aconteceu. Estive em festas e festas com as fantasias movimentando a minha cabeça e a total imobilidade por fora dela. Não deixava de comparecer aos encontros para os pais não pensarem que não contava com amigos - e realmente vivi isolado grande parte da infância e da adolescência, não conseguia transformar os colegas em amigos.

Passei o Ensino Fundamental abraçado a mim mesmo, de braços cruzados, encostado na parede.

Por mais que não se acredite, há homens borralheiros no mundo, homens princesos, homens cinderelos, homens brancos de neve, homens retraídos, homens casulos e educados, homens contos de fada, ansiosos por um pouco de atenção para conhecer, enfim, a confiança e o amor-próprio.

CARPINEJAR

sábado, 30 de março de 2019



30 DE MARÇO DE 2019
LYA LUFT

Nada é banal (com um sopro de poesia)

Os deuses estavam de bom humor: abriram as mãos e deixaram cair no mundo os oceanos e as sereias, os campos onde corre o vento, as árvores com mil vozes, as manadas, as revoadas - e, para atrapalhar, as pessoas, que roubaram o espetáculo, misturaram as falas, rasgaram os cenários e mataram os atores.

O coração bate com força, querendo bombear sangue para as almas anêmicas. Mas onde está todo mundo? Correndo atrás da bolsa de grife, do iPod, do iPad, do corpo perfeito, do prazer máximo, da eternidade... ou de coisa nenhuma.

Tudo menos parar, pensar, contemplar. "Se eu paro pra pensar, desmorono."

Enquanto isso, a Morte enrola e desenrola seu rabo curvo atrás da porta, estreita os olhos, espreita, palita os dentes e... espera.

A menina complicada, lunática, enluarada, olhava atentamente os rostos adultos na grande mesa onde se lançavam de um lado para outro palavras e gestos como facas ou plumas. Ah, e os olhares... Amar para ela era natural como as cores e perfumes no jardim da mãe. Era assim para todos?

Ela consigo resolvia: claro que todos se amam. Ninguém vive de restos. Ninguém mente tão bem, com esses sorrisos e frases delicadas. E saía para brincar. Quando a vida não foi mais brincadeira, ela ainda queria adivinhar: esses se amam, seu silêncio é cumplicidade ou tédio? Querem estar longe ou gostam de estar perto? As amigas a chamavam de romântica: quem ainda se interessa por isso? Curte o momento! E riam.

Mas ela haveria de morrer achando que sem amor não valia a pena nem o primeiro passo na ponte que levava ao castelo.

Porque nada era banal: o lixo na praia, a mulher parindo no corredor de ladrilhos, as multidões iludidas, as ilhas dos amantes. Tudo era imenso, essencial, e terrível.

Por um instante, a gente desliga os aparelhos e vive um pouco. E percebe, como com um novo olhar, a luz que se filtra na mata, poeirinhas, polens, saliva de fada que ri à toa, ou caspa de duende armando suas artes.

A ventania chega atropelando tudo: recolhem-se crianças e coisas, e se aprecia a tempestade atrás da janela, como se espia a vida, sem ver direito, atrás da máscara de cada dia. Logo ali, o grande mundo mói a vida com suas engrenagens cruéis: mas naquele momento, naquela redoma de vidro simples na chuva cotidiana, no bosque encantado, fica o castelo da Bela Adormecida, ou a casa dos sete anões, ou de uma bruxa quase boa?

É assim o tempo: devora tudo pelas beiradinhas, roendo, corroendo, recortando e consumindo. E nada nem ninguém lhe escapará, a não ser que faça dele seu bicho de estimação.

Como acontece com as perdas: o jeito é perdê-las. E a vida? Há que vivê-la para saber.

(Nada é banal: a gente é que esquece.)

LYA LUFT


30 DE MARÇO DE 2019
MARTHA MEDEIROS

Se Deus fosse consultado


Falam tanto em nome dele, que até parece que carregam uma procuração no bolso. Não há pronunciamento do governo em que Deus não seja invocado, como se fizesse parte da equipe ministerial, como se tivesse sido o patrocinador da campanha, como se houvesse aberto o voto. Até onde sei, Deus não vota. Votar é tomar partido e, se bem me lembro, estamos falando de um pai que tem uma família numerosa de filhos, não só 01, 02 e 03. Não que religião seja um assunto que eu domine ou particularmente me interesse, mas tenho certeza de que ele não tem sido consultado por essa turma que age como porta-voz de Sua Santidade.

Deus acima de todos? Verticalidade é um conceito obsoleto que não promove laços, e sim obediência e rendição. Esta visão imperativa de Deus gera pensamentos fechados e coloca a nação de joelhos. E, se por um lado isso dá alívio e segurança a muitos, a mim parece que incentiva a submissão e a ignorância. Precisamos, ao contrário, ser incentivados a pensar por conta própria, a ter dúvidas, a aprender com nossos erros e a exercer nossa própria autoridade moral perante os fatos. Precisamos nos responsabilizar pelo que decidimos e pelo que nos acontece. Precisamos ser um povo que defende a sua vontade e luta por seus direitos.

Cada um tem seu Deus e isso deve ser respeitado. O meu é horizontal. Não está acima de todos, e sim ao lado. É expandido. No modo particular como lido com este assunto, nada combina menos com o simbolismo de Deus do que a imposição do maniqueísmo, da violência e das verdades únicas. Deus não governa. Deus inspira.

Se fomos criados a sua imagem e semelhança, então somos todos feitos de empatia e solidariedade. Esse é o nosso espírito comum, que, infelizmente, em muitos casos se desagrega e se corrompe. Cada um nasceu com uma espécie de Deus dentro, que ao longo da vida vai tendo representações diversas, não só dogmáticas, mas espirituais em outros sentidos - reverência à natureza e dedicação à arte, por exemplo. Somos irmãos em espécie, em humanidade. Cada um de nós, incluindo os ateus, é o Deus do outro. O que equivale a dizer que não existe hierarquia, e sim troca.

O Estado é laico. Não é uma igreja. Não tem fiéis, e sim cidadãos que pensam e vivem de forma diferente entre si. O Estado tem de promover a justiça, a paz e a igualdade social sem interferir nas crenças da população. Somos livres para alimentar nossa alma do jeito que desejarmos, e ninguém deve impor sua escolha aos outros. Se Deus fosse consultado, creio que pediria para prestarmos mais atenção no que diz o papa Francisco, que é quem realmente consegue traduzir Deus em sua essência. Mas Deus não tem sido consultado e a bravata em seu nome corre solta, como se ele não passasse de um reles cabo eleitoral.

MARTHA MEDEIROS