sábado, 20 de abril de 2019



20 DE ABRIL DE 2019
COM A PALAVRA

"É FÁCIL SER LIBERAL SÓ NA ECONOMIA. QUERO VER SER LIBERAL DE VERDADE"

A advogada e economista Elena Landau ficou conhecida, na década de 1990, como a musa das privatizações. À época, exerceu o cargo de diretora de desestatização do BNDES no governo Fernando Henrique Cardoso. Após 25 anos, deixou o PSDB em 2017 e passou a integrar o Livres, movimento multipartidário que hoje preside e que foi criado para defender o liberalismo - econômico e de costumes. Elena já trocou farpas com o ministro da Economia, Paulo Guedes, que diz ter sido um péssimo professor, mas avalia que ele é a esperança no governo Jair Bolsonaro, de quem é crítica ácida. Nesta entrevista, ela conta como o Livres deixou o PSL, onde o movimento foi incubado, avalia o desempenho do Planalto nestes primeiros meses após a posse de Bolsonaro, expõe seus conceitos de liberalismo, ataca o conservadorismo, repreende o seu ex-partido e a gestão petista, defende as privatizações e admite estar pessimista com o Brasil.

POR QUE A ECONOMIA ESTÁ DEMORANDO TANTO PARA ENGRENAR NO PAÍS?

Antes de começar o mandato de Bolsonaro, as pessoas tentavam interpretar essa estagnação com dados de emprego, informalidade, questões nesse sentido. Agora, há interpretação quase unânime de que os empresários são movidos a expectativas. E as expectativas de que as reformas que poderiam dar mais segurança aos investimentos não se confirmaram. Um pouco dessa estagnação e revisão tão rápida do PIB de 2019 para baixo de 2%, em alguns casos até próximo de 1% - o que é um desastre do ponto de vista do emprego -, é decorrência da frustração com a capacidade de o governo usar o cacife político natural que tem qualquer presidente eleito no primeiro mandato. As expectativas são ruins. Ninguém investe. Principalmente as expectativas sobre a Previdência, por ser questão de tornar o governo solúvel, pagar as próprias contas. Não é uma reforma qualquer. É fundamental. E o Bolsonaro gastou esse cacife muito rapidamente com essas trapalhadas no Twitter... As pessoas se deram conta de que o Bolsonaro é isso mesmo e estão na expectativa de ver como se sai desse imbróglio agora.

COMO A SENHORA AVALIA OS PRIMEIROS CEM DIAS DO PRESIDENTE?

Foram piores do que eu esperava. Apesar de Bolsonaro não estar fazendo nada diferente do prometido. A campanha foi esquizofrênica: tratava apenas de costumes e falava com um público de direita, tinha um posto Ipiranga para assuntos com os quais ele não tinha afinidade nem vontade de conhecer. Vamos falar claro: Bolsonaro nunca foi muito ligado em economia. O passado dele é o oposto do que se pregava na campanha. As pessoas quiseram acreditar que alguém com 30 anos com um tipo de atuação iria mudar rapidamente e delegar todos os poderes ao Paulo Guedes. De um lado, não é surpreendente, porque o que fez nos cem primeiros dias foi o que fez a vida inteira. Falar com um público que já é dele, restrito, de conservadores de direita. Como recusar a existência do golpe de 1964, exaltar ditadores e torturadores. Confirmou o que de pior se imaginava, como, mais recentemente, na mudança no Ministério da Educação (a substituição de Vélez Rodríguez por Abraham Weintraub). Teve a oportunidade de trazer um especialista na área, em gestão pública, e vai lá e confirma esse lado, quase que sendo administrado pelas redes. No meio disso, vem a economia. O que se esperava, dada a firmeza da opinião do Paulo Guedes na campanha e a qualidade da equipe que o Temer deixou e continuou com Guedes, era que apresentasse nos primeiros dias um pacote de reformas consolidado. Previdência, reforma tributária, abertura comercial, reforma do funcionalismo. Um pacote que mudasse a cara da economia brasileira. O que veio foi um atraso no envio da proposta da Previdência, apesar de ser de ótima qualidade, e principalmente uma posição de que "olha, essa é nossa reforma, se quiser, é essa ou não tem outra, é pegar ou largar". Não é assim que as coisas funcionam. Perdeu-se muito tempo. Está pior na área econômica do que se imaginava. Agora ficou tudo vinculado à Previdência. O país só vai discutir o resto depois. É um erro. Estamos em abril, parados em torno da Previdência.

OLHANDO TODOS OS FATORES QUE CIRCUNDAM O PLANALTO, COMPORTAMENTO NAS REDES SOCIAIS, RELAÇÃO COM O CONGRESSO, DÁ PARA ARRISCAR O QUE ACONTECERÁ COM O GOVERNO?

Engrenar, creio que não vai. É difícil fazer previsão em um governo que tem uma emoção negativa a cada dia. Um mês atrás, houve uma onda de pessimismo dizendo que ele não terminaria o governo, mas acho isso um exagero. Temos de parar com a mania de que tudo é impeachment. Parar de balizar algo grave como o afastamento de um presidente. Ele foi eleito legitimamente com a pauta que defende. Não há surpresa na atuação dele e dos filhos nas redes. Quem votou nele sabia disso. Algumas pessoas, em um voto anti-PT, criaram um autoengano de que teríamos na área econômica alguma possibilidade. Eu anulei o voto. Não tinha condições de votar no Bolsonaro e muito menos no PT. Podemos chegar (ao fim do governo) aos trancos e barrancos, porque a sociedade vai reagir. Vai pressionar pela reforma da Previdência. Já há reação do Paulo Guedes, conversando com Rodrigo Maia (presidente da Câmara). O governo, em sua área pensante de longo prazo, já lançou a ideia de abertura comercial, a ideia de privatizações, desburocratização. As concessões estão andando. Há um grupo que não vai deixar o caldo entornar. Vamos chegar lá. Mas como? Com crescimento de 1% ou 2%, com uma crise de desemprego gravíssima? Não dá para ter ideia do que vai acontecer com este país sem criar postos de trabalho. A população vai ficar muito descontente. Teremos um novo julho de 2013? Até quando teremos passividade frente a esse desafio? Esse grupo pensante inclui uma equipe da área econômica, que tem reputação e compromisso com o país, além de alguns militares de bom senso, como (o vice-presidente Hamilton) Mourão e o Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional, GSI). Mas não vejo nenhuma mudança positiva em áreas fundamentais como o Itamaraty, a Educação, a Saúde. O Brasil está paralisado à espera da reforma da Previdência, como se, depois dela, entrássemos no paraíso. Enquanto isso, há retrocessos ideológicos, nos costumes, na educação. Não se fala em saúde. Na verdade, ninguém sabe como vai acontecer a abertura comercial, e, sem ela, não há crescimento de produtividade.

COMO A SENHORA AVALIA O DESEMPENHO DO PAULO GUEDES?

Ele tinha uma ideia de que era muito fácil resolver as questões do país. Bastava vontade. Sempre criticava. Dizia ninguém sabia como fazer, só ele sabia, o PSDB tinha errado no Plano Real. E ele mantém esse discurso. Isso é muito ruim, porque é injusto com tudo o que foi feito desde a redemocratização. É injusto com o governo Temer, pela herança bendita em várias coisas. Tudo o que funcionou nos primeiros cem dias foi herança. Desburocratização, cadastro positivo, concessões, já estava tudo mais ou menos organizado. Até uma proposta de reforma tributária. Isso ele recebeu. Por outro lado, acho que ele reconheceu que a realidade é um pouco diferente. Que nem sempre o voluntarismo dá conta. Acho que vai melhorando. Para a Previdência, a proposta dele, na campanha, era de capitalização radical, imediata. Quando falávamos que havia um custo de transição, dizia que iria pagar com os ativos da privatização. Agora, já mudou a reforma. Ouviu opiniões, e a capitalização passou a ser questão menor, mesmo que ele mantenha essa paixão. O reconhecimento de que a realidade é mais complicada é importante. Com isso, podemos ter um desempenho melhor daqui para a frente. Continua com o discurso do R$ 1 trilhão de privatizações, mas não vai conseguir. Se chegar a R$ 80 bilhões neste ano, seria ótimo. Mas teria de ver se dentro dessa previsão está a cessão onerosa, se estão as concessões. Porque ele não está vendendo empresa nenhuma, mas, isso sim, subsidiárias de estatais. Nesse caso, o impacto não é no Tesouro, mas nas empresas que estão desalavancando. Então, é preciso um pouco de ajuste no discurso professoral. Mas está indo bem. É preparado, inteligente, tem pensado nos problemas do Brasil há anos e tem equipe muito boa. O Paulo Guedes é a nossa esperança no governo Bolsonaro. Torcemos para que ele dê certo.

COMO ELE ERA COMO PROFESSOR?

Péssimo. Foi meu professor em matemática. Eu não ia à aula. Foi uma péssima experiência. Fui aluna dele na PUC-Rio, no mestrado. Tem essa história que ele inventou que implico com ele por ter me reprovado. Ele nunca desfez essa mentira. Seria bom fazer isso. Porque é óbvio que ele não me reprovou.

E AQUELA BRINCADEIRA DE QUE O APELIDO DELE NA ÉPOCA DE ESTUDANTE SERIA TCHUTCHUCA E VOCÊ SABERIA A ORIGEM?

É piada. A geração jovem não sabe quem é o Tutty Vasques (humorista que publicou a brincadeira), equivalente ao que é hoje O Sensacionalista (publicação também de humor na internet). Os mais velhos entenderam que era piada. Não tenho nenhuma intimidade com o Paulo Guedes e nunca tive. É 10 anos mais velho que eu. Não tenho como saber nada da vida estudantil dele.

COMO O MOVIMENTO LIVRES TENTA INFLUENCIAR O DEBATE PÚBLICO E TRAZER MAIS PESSOAS PARA AS SUAS CAUSAS?

Aumentou a importância do Livres neste momento em que há um movimento liberal de verdade. Desmarcara essa ideia de que o governo Bolsonaro é liberal. Algo que até o ministro da Economia leva, por defender os ideais liberais na economia. Mas são todos conservadores. De liberal, não têm nada. O discurso de elogio do golpe de 1964, de elogio a torturador, de nazismo é de esquerda, de marxismo cultural: isso é um conservadorismo, que nem brasileiro é. Tudo importado. A questão dos costumes, Escola Sem Partido, nada disso é liberal. Não há no governo discurso sobre inclusão social, desigualdade, diversidade. É fácil ser liberal só na economia. Quero ver ser liberal de verdade. O Livres cresce nesse ambiente.

QUAL É O CONCEITO DE LIBERAL?

Há vários conceitos. É possível ter divergências, debates. Liberal não é um alguém defende a privatização, mas é contra o casamento homoafetivo. Não basta ser a favor de Estado mínimo e ter essa posição nos costumes completamente atrasada. Não existe isso. No nosso caso, usamos a imagem de liberal por inteiro. Defender a liberdade de expressão, de imprensa. Esse ataque do governo à imprensa não é ser liberal. É difícil definir, porque ser liberal é um sentimento, respeitar a opinião oposta, os desejos da outra pessoa, as opções sexual e religiosa.

COMO O LIVRES SE DEFINE? DIREITA PROGRESSISTA? CENTRO?

Tira a palavra "direita". É liberal progressista. Não tem direita ou esquerda no movimento liberal. Sou uma liberal do estilo inglês, e não norte-americano. Há muita distorção no uso da palavra "liberal", por culpa dos americanos. Nos EUA, até alguém como Olavo de Carvalho, que é a pessoa mais intolerante do mundo, pode ser considerado liberal. Isso é inadmissível. Deboche e agressão não fazem parte do mundo liberal. Podemos até brincar num debate, mas não aniquilar o adversário.

COMO FOI A SAÍDA DO LIVRES DO PSL?

Muita rápida e frustrante. Não havia nenhuma possibilidade de o Bolsonaro estar próximo do Livres. Havia uma construção do grupo, eu nem participava tanto nessa época, cheguei no final desse movimento, para ser do conselho acadêmico. O grupo do Livres já tinha assumido vários diretórios, estava formando uma nova executiva, conversando com o Luciano Bivar (presidente do PSL), porque um dos líderes do nosso movimento é o Sergio Bivar, filho do Luciano. De uma hora para outra, fomos traídos. Luciano dizia que não havia nenhum compromisso com o Bolsonaro e que tinha feito com ele uma conversa de amigos. Tínhamos até data de lançamento do Livres como partido. O PSL mudaria de nome. Mas aí fomos surpreendidos pela conversa com o Bolsonaro. Saímos imediatamente. Era evidente que era incompatível estar no mesmo partido de uma pessoa conservadora de direita. Naquela época, janeiro de 2018, sequer liberal na área econômica o Bolsonaro era, mas só um conservador, intervencionista, militarista, preconceituoso - aquilo que ele sempre foi. Na campanha é que ele tentou disfarçar. Foi frustrante, mas compensador. Foi com a nossa decisão e firmeza em não participar do PSL que consolidamos nossa ideia de liberalismo. Vários partidos passaram a procurar os associados. Fomos tomando uma dimensão maior e tivemos a certeza de que era para não desistir e crescer.

O LIVRES VAI SEGUIR UM MOVIMENTO SUPRAPARTIDÁRIO OU PODE EVOLUIR PARA UMA SIGLA?

A decisão é seguir suprapartidário. Quando saímos do PSL, os nossos associados se filiaram em outros partidos. A maior parte está no Novo e no Cidadania, o antigo PPS. O importante é a pauta que defendem.

COMO FOI O DESEMPENHO DOS CANDIDATOS DO LIVRES NA ELEIÇÃO DE 2018?

Me perdi nas contas, mas acho que temos 14 mandatários. Estão entrando novos, como o Caio Miranda (vereador em São Paulo pelo PSB). Vários eleitos têm procurado o Livres para nos entender melhor. Estamos sendo valorizados neste momento conservador. Elegemos vários deputados estaduais, com um dos fundadores, o (deputado estadual gaúcho pelo Novo) Fabio Ostermann, dois deputados federais, o Tiago Mitraud (Novo-MG) e o Marcelo Calero (Cidadania-RJ), o senador Rodrigo Cunha (PSDB-AL). Temos o prefeito de Teresópolis, Vinícius Claussen (Cidadania), que faz uma excelente administração. Agora, estamos focados em 2020.

POR MUITO TEMPO VOCÊ FOI DO PSDB. COMO VÊ A SITUAÇÃO DO PARTIDO?

Estou aliviada por não ser mais do PSDB. As razões que me fizeram sair permanecem, como a questão do Aécio (Neves, hoje deputado federal por Minas Gerais). Ele perdeu o protagonismo, mas está lá. O PSDB não respondeu diferente do PT, que tanto criticava. O partido envelheceu. Há pessoas que admiro, como o senador Tasso Jereissati (CE), um líder dentro do PSDB, que tem um espírito público espetacular. Ao redor dele, há pessoas da mesma qualidade. E há essa briga com o governador de São Paulo (João Dória), mais próximo do Bolsonaro do que deveria.

O QUE PRECISA SER PRIVATIZADO NO BRASIL?

Sou muito radical. Não acredito em melhoria de governança permanente. No Brasil, as pessoas não resistem a usar as estatais politicamente. Seria melhor para a sociedade como um todo se as empresas fossem administradas pelo setor privado. Sou favorável à privatização da Petrobras, da Caixa, do Banco do Brasil (BB), do BNDESPar, da Eletrobras. Não vejo nenhum sentido estarem na mão do Estado. O que esse governo está fazendo não é privatização, mas uma política de desalavancagem das estatais. A venda de subsidiárias entra no caixa das estatais. A única maneira de o dinheiro da venda de subsidiárias chegar ao Tesouro neste momento seria pagando empréstimos, como os que foram feitos pelo BNDES. Se privatiza o BB, a Caixa, vende todas as subsidiárias de uma vez só. Não há necessidade de aprovação do Tribunal de Contas da União (TCU). O BB, para mim, é um banco comercial como outro qualquer. Há outras soluções para o crédito agrícola. Nem as pequenas estão sendo privatizadas.

POR QUE NÃO ESTÁ SAINDO?

Primeiro, porque o presidente não quer. É algo que finalmente o Paulo Guedes entendeu. Se o presidente não quer, não sai. A nossa privatização do governo Fernando Henrique saiu porque ele queria, achava importante. O Bolsonaro não acha. O segundo ponto é que a governança não está concentrada no Paulo Guedes e no Salim (Mattar, secretário de desestatização do governo) - o que não é bom. O ministro da Ciência e Tecnologia segura a Ceitec, o da Infraestrutura, a Empresa de Planejamento e Logística (EPL), e o Santos Cruz (Secretaria de Governo), a EBC. Se o presidente não tem convicção, não vai arbitrar a discussão entre os ministros.

NA POPULAÇÃO, A SENHORA VÊ RESISTÊNCIA ÀS PRIVATIZAÇÕES?

A resistência vem de três pontos. Dos políticos, dos funcionários das empresas e dos fornecedores. Esses três criam um grupo forte contra a privatização e têm força de propaganda. Usam o imaginário da população de que se vai vender patrimônio público, que é entreguismo. O governo precisa mostrar à população que, dada a falta total de recursos, o que é preferível? Ser dono de uma estatal ou melhorar a capacidade de investimento em educação, saúde etc.? Falta explicar. Nunca houve uma campanha muito clara em defesa da privatização, como a atual da reforma da Previdência, que tem cada vez menos resistência - e espero que não se perca este momento. Mas a menor resistência é por motivos ruins, como a Lava-Jato e o Petrolão. Ficou claro que é perigoso deixar empresas na mão do Estado. A população ficou indignada. Infelizmente, foi a pauta negativa que deu essa possibilidade. Precisamos criar uma positiva, que existe, como no caso das telecomunicações.

NO QUE É POSSÍVEL SE AGARRAR PARA TER ESPERANÇA DE QUE O BRASIL VAI DAR CERTO?

(Risos.) Para ser o país do futuro? Só para o meu neto. A minha atuação politica, a minha indignação, é para ver se o Brasil do meu neto será, enfim, o país do futuro. O que estamos vendo com o Bolsonaro é um retrocesso tão grande... Depois de 13 anos do PT, é desesperador. Sempre fui otimista. Mas, neste momento, estou bem pessimista.

CAIO CIGANA


20 DE ABRIL DE 2019
DRAUZIO VARELLA

OS FILHOS DESTE SOLO

Anunciação cresceu ouvindo o pai dizer que o sobrenome era o bem mais precioso de uma família. O filho que o levasse para dentro de uma delegacia de polícia deixava de ter pai. Maria da Anunciação tem seis filhos e 23 irmãos. Não faz ideia de quantos sobrinhos vieram ao mundo, porque a família rompeu com ela ao vir presa.

Os pais desembarcaram do trem em São Paulo, na década de 1950, com seis crianças pequenas. Outras oito nasceriam na periferia da zona leste, nos anos que se seguiram.

- Se minha mãe não tivesse falecido no último parto, talvez fossem mais.

Viúvo, seu Raimundo, o pai, casou no civil e no religioso com uma moça com quem teve mais cinco meninas e cinco meninos, perfazendo o total de 24 filhos criados sob a autoridade do patriarca.

Homem trabalhador, trouxe para a cidade grande os princípios, os valores morais e os preconceitos do povoado em que vivia, no sertão da Paraíba. Ao atingir a idade de trabalhar, os mais velhos entregavam o salário em casa para ajudar nas despesas, compromisso que só terminava quando casavam.

Anunciação cresceu ouvindo o pai dizer que o sobrenome era o bem mais precioso de uma família. O filho que o levasse para dentro de uma delegacia de polícia deixava de ter pai.

Quando ela começou a namorar o homem com quem teria os seis filhos, seu Raimundo se opôs com firmeza: não respeitava rapazes que frequentavam bares. Hoje, ela lamenta a morte do pai naquela época:

- Se ele não tivesse morrido, eu não teria casado com aquele traste.

A inconstância do marido no trabalho obrigou-a a se desdobrar como diarista em casas de família, do outro lado da cidade, tarefa que incluía madrugar no ponto de ônibus e chegar de volta às oito da noite, para enfrentar a cozinha e demais afazeres que o folgado deixava por conta dela.

Num domingo, na saída da missa com uma vizinha mais velha, Anunciação se queixou que o marido estava desempregado havia seis meses, situação que a forçava a passar pela humilhação de pedir dinheiro aos irmãos. A senhora colocou a mão em seu ombro:

- Minha filha, só você não sabe que ele fuma crack.

No mesmo dia, colocou o traste para fora de casa:

- Se era para sustentar vagabundo, melhor ficar sozinha com meus filhos.

Nos meses seguintes, entretanto, a realidade se impôs. O que ganhava, somado à contribuição dos irmãos mal dava para pagar o supermercado e o aluguel. As contas da casa se acumulavam, não era raro comerem arroz com ovo, no almoço e jantar. No dia em que cortaram a luz, ela se revoltou:

- O senhor não sabe o que é chegar do trabalho e encontrar as crianças no escuro, os pequenos chorando de medo.

Uma semana mais tarde, procurou a dona de uma biqueira da vizinhança. Acabaram-se os problemas financeiros:

- Comprei tênis e roupas novas para todos, material escolar de primeira, televisão de tela plana, quatro vídeo games para eles não brigarem. Na geladeira tinha iogurte, todinho, frutas, do bom e do melhor. Ganhava R$ 1,8 mil por semana, e ainda sobrava tempo para cuidar deles.

A polícia a surpreendeu quando entregava 120 gramas de maconha e 15 papelotes de cocaína para o dono de uma lanchonete, que fizera a encomenda por telefone. Enquadrada no artigo 33 do Código Penal, foi condenada a quatro anos e oito meses.

Cada filho foi para a casa de um dos tios, que romperam relações com a irmã "ovelha negra", a única a conspurcar o nome honrado deixado pelo pai.

Anunciação veio para consulta com aparência doentia, seis meses depois de chegar na penitenciária. Pedia pelo amor de Deus para ajudá-la a ficar livre da cocaína, droga que experimentou para aplacar as saudades dos filhos, por sugestão de outra presa: "Chorar o dia inteiro não é vida, mulher. Cheira uma carreira que o sofrimento vai pro espaço".

Há 30 anos, vivo a frustração de receber pedidos como esse, sem ter como ajudar, além de dar conselhos gerais de utilidade para lá de duvidosa.

Passados dois anos, Anunciação retornou na semana passada. Só me lembrei dela quando falou dos 23 irmãos. Era outra pessoa. Tinha abandonado a cocaína e conseguido emprego numa firma que encapa botões, numa das oficinas da penitenciária. Estava de batom, com o cabelo bem cortado, curto, e com as unhas pintadas.

Perguntei dos filhos e dos irmãos. A única carta fora enviada pelo irmão mais velho: "Nunca mais nos procure. Para nós, você está morta".

Perguntei se tinha aprendido a conviver com a solidão. Respondeu com um sorriso que não consegui decifrar: - Estou apaixonada por uma companheira.

DRAUZIO VARELLA

20 DE ABRIL DE 2019
EM FAMÍLIA

VOCÊ É VOCÊ, SEU AMIGO É SEU AMIGO

Pais e mães, em algum momento, serão confrontados com argumentos do tipo "Ah, mas na casa do Fulano pode!". Ao reivindicar suas vontades, crianças e adolescentes costumam apelar para os exemplos que os rodeiam, vigentes nas famílias dos colegas e amigos: horário para dormir ou para sair da festa, tempo para jogar videogame, permissão para comer doces ou tomar refrigerante. Para a psicóloga e psicoterapeuta Gisleine Verlang Lourenço, professora da Universidade La Salle, é fundamental que existam regras em cada núcleo familiar para que os filhos se sintam seguros. As normas quanto ao comportamento doméstico, social e escolar devem ser claras: o que pode e o que não pode?

- As regras não podem variar de acordo com o humor dos pais. É importante dizer que as regras são para proteger, para amparar, e não por raiva ou como castigo. Regra é uma riqueza afetiva da infância e da adolescência com amor, é um cuidado - afirma Gisleine.

Existem famílias que enfrentam grande dificuldade para impor limites, mas não se pode abrir mão deles. O limite, frisa Gisleine, ensina a diferença entre fantasia e realidade, ajudando na construção do "si mesmo" e na diferenciação entre o "si mesmo" e o outro.

- "Você é você, seu amigo é seu amigo. Isso é o melhor para você." Aí entram as crenças e os valores. A criança a quem tudo é negado vai ser tão infeliz quanto aquela a quem tudo é permitido. Os excessos não vão dar uma direção. A criança precisa de norte e precisa aprender a fazer escolhas. Não temos tudo o que queremos nunca. Não se pode fazer tudo na vida - continua a psicoterapeuta.

Durante a infância, a criança aprende muito por meio das brincadeiras. Erguer um simples castelo de areia na beira da praia pode se mostrar uma bela lição sobre como encarar frustrações. Se o castelo não ficou tão alto e exuberante quanto ela queria e acabou desmoronando muito antes do previsto, o que se pode tirar dessa singela experiência? Como aprender com os erros? Faltou molhar e compactar mais a areia? A construção precisava de uma base maior?

- Ela tem que aprender a lidar com o fazer de novo - assevera Gisleine.

Com adolescentes, ensina a psicóloga, é importante não estabelecer uma relação autoritária e impositiva. Prefira a conversa, para o bem de todas as partes. Gisleine também reforça a importância de um investimento continuado na educação. Há pais, atesta, que dão muita atenção em determinada fase da vida e depois não se mantêm nessa mesma linha.

- É importante o investimento na primeira infância. O adolescente depende da riqueza afetiva de ter tido uma infância amorosa. Na adolescência, a angústia é maior, vêm as ansiedades referentes às mudanças, eles estão em um momento de transformação no corpo e na mente, é uma fase de mistério e mais ansiedade - constata a professora.



20 DE ABRIL DE 2019
JJ CAMARGO

AS MELHORES JUSTIFICATIVAS PARA SE VIVER

Não resisto a pensar na solidão e na escassez de propósitos de quem envelheceu sem filhos e sem a doçura dos netos

Cada vez mais a sociedade ocidental tem abdicado das tarefas da paternidade, confessando que considera irresponsável ficar jogando criaturinhas no mundo, sem saber o que este mundo fará com elas. Muitos homens alegam não ter condições de criar filhos nas décadas recomendáveis e, adiante, ao alcançarem a estabilidade econômica, trocam o discurso e assumem que, depois de tanto esforço, parece justo que pretendam aproveitar a vida sem o peso de uma prole que demora, em média, três anos, só para aprender que comer e dormir têm hora certa.

A emancipação feminina, em muito estimulada pela competitividade no mercado de trabalho, transferiu a iniciativa da maternidade para a etapa final da fertilidade, e então por razões biológicas, emocionais ou de simples inércia, muitas mulheres renunciam ao instinto mais antigo, o da procriação.

Não cabe nenhum julgamento, até porque cada um sabe de si, mas não resisto a pensar na solidão e na escassez de propósitos de quem envelheceu sem prole. E mais ainda, que essa desistência não envolve só a geração dos filhos, ela vai mais além, eliminando a camada seguinte de descendentes, que é a mais doce e espontânea, e que por ser maravilhosamente descomprometida da ideia cansativa de educação, não reconhece outra moeda de barganha que não seja o afeto. Dá pena pensar em quantas pessoas que disso nunca saberão.

Foi só no que pensava voltando de Vacaria, onde, durante três dias, acompanhei a iminência da morte da minha mãe. No pior momento, quando pareceu que o coração pararia a qualquer instante, saí do hospital acompanhado do João Pedro, meu neto mais velho, e conversamos sobre o quanto é doloroso perder uma mãe, e ainda ter que suportar as pessoas que acham que consolam alegando que tendo vivido tanto e sido bem amada, ela é um modelo de vida bem vivida, o que portanto imporia a aceitação da morte. Expliquei a ele que essa racionalização é uma exclusividade dos que não estão emocionalmente comprometidos. A perda dos amados, independentemente da idade e circunstância, é sempre cruel, dolorosa e extemporânea. Meu gurizinho amoroso, vendo meu sofrimento, me abraçou e choramos juntos. Ele não chorava a proximidade da morte da bisavó, com quem pouco conviveu. Ele repartia, em lágrimas, a dor do avô. Um desses choros tão bons de chorar, que nos deixam a sensação de que seria uma enorme gentileza da vida se ela pudesse dar um reset e se permitisse recomeçar daquele ponto.

Três dias depois, a mãe iniciou uma melhora meio surpreendente e, depois que estabilizou, anunciei que voltaria para Porto Alegre, para operar dois casos graves, que me angustiava transferir. Foi então que o Zé Eduardo, meu neto menor, na inocência dos seus 10 anos, protestou:

- Mas então, o que adianta a gente torcer para a bisa melhorar, se daí o meu vô vai embora?

Estes presentes são a mais generosa compensação de quem arriscou espalhar genes pelo mundo e não teve medo de plantar incertezas, confiando que um dia, através deles, a vida justificaria termos existido.

JJ CAMARGO


20 DE ABRIL DE 2019
DAVID COIMBRA

A mais importante mensagem de um pai para um filho

Tem uma mensagem que, se conseguir passar para o meu filho, considero cumprida minha principal missão de pai. Esforço-me todos os dias para transmitir-lhe isso e o faço menos com palavras e mais com ações, porque o que ensina, de verdade, é o exemplo.

Você observa uma criança se desenvolvendo e aprende com ela também. Ela atravessa diversas etapas críticas durante o crescimento, e você precisa ter sensibilidade para lidar com cada uma.

Um dos momentos mais decisivos, o momento sobre o qual venho escrevendo toda a semana, é aquele em que a criança descobre que não é imortal.

É um choque.

Não existe idade certa em que essa descoberta é feita. Às vezes, isso só acontece na vida adulta, e aí sobrevém o trauma inevitável. Ontem, contei a respeito do repórter fotográfico que foi torturado pela milícia no Rio de Janeiro. Ele amava o perigo, só se sentia vivo quando enfrentava uma situação-limite. Mas, no dia em que o perigo se concretizou, ele percebeu o tamanho de sua fragilidade. E se deprimiu tanto, que agora diz estar meio morto. De fato, foi uma morte, porque ele compreendeu que não é imortal.

Em geral, as pessoas vão absorvendo essa verdade lentamente. As mulheres, mais rápido, porque as mulheres menstruam. Quer dizer: elas levam o ciclo da vida dentro delas. A cada mês, as mulheres são informadas de que tudo que vive cumpre idêntica sina: nasce, amadurece, definha e morre. Isso, claro, se o ser vivo obteve êxito em sua trajetória. Alguns morrem antes de definhar ou antes mesmo de amadurecer, um fracasso biológico.

Então, chega o tempo em que a pessoa conclui, ou simplesmente intui, que ela morrerá, o que significa que coisas ruins também podem lhe acontecer. Aí ela se vê só e desamparada. E pode se tornar vítima da depressão.

Se a pessoa é religiosa, ela tem um pequeno antídoto contra isso - ela acredita na vida eterna, na recompensa no Além. Ou seja: ela recupera a noção de imortalidade e se sente mais segura. Se ela não for religiosa, necessitará de outra ferramenta. A filosofia, talvez.

Sêneca dizia que, para perder o medo paralisante de que alguma coisa horrível pode acontecer com você, você tem de fazer o seguinte: tem de TER CERTEZA de que alguma coisa horrível irá acontecer com você. Uma vez que você tenha assimilado que a morte é inevitável, que, ao envelhecer, o corpo padece, que acidentes são possibilidades e que o ser humano não é confiável, uma vez que você tenha entendido que, no fim, estará sozinho, você relaxará e poderá viver com leveza os dias que lhe restam.

É o que tento mostrar sempre para o meu filho: que o futuro não importa; que nós devemos planejá-lo, mas não nos preocupar com ele; que um dia vivido com alegria, em que você tenha feito boas coisas, é um dia vitorioso. É o que tento mostrar. Tento mostrar que sei que os problemas virão, mas não é isso que interessa; o que interessa é como vamos reagir quando eles vierem. Tento mostrar que o fim de um ciclo não é um revés, é um sucesso, ainda que seja o fim do ciclo da existência. Tento mostrar, mais do que tudo, que a vida é boa. É essa a mensagem que quero lhe passar, que insisto e repito: a vida é boa. A vida é boa.

DAVID COIMBRA


20 DE ABRIL DE 2019
MÁRIO CORSO

O consumidor imortal

Estava em Erechim na primeira semana após o falecimento do meu pai. Ajudava minha mãe com as minúcias do novo cotidiano e com a dificuldade radical: como ela teria que inventar um outro modo de viver. Não existe verdadeira elaboração do luto. A perda deixa um vazio irremediável. O que conseguimos é aprender a contornar o buraco que se abriu. Muitas vezes readquirindo o gosto pela existência, mas nunca sem muito sofrimento.

Toca o telefone. Atendo e perguntam: poderia falar com o senhor Luiz Corso? Infelizmente não, respondo. Com a voz embargada, digo que sou o filho e que meu pai faleceu recentemente. Do outro lado volta a pergunta: e quem ficou responsável pela linha telefônica? Desliguei. Não fui educado, mas fiquei sem palavras.

Escrevo para me desculpar e explicar algo aos jovens que trabalham em serviços de telefonia. Talvez, pela juventude, eles ainda não saibam, e a companhia para a qual trabalham ainda não lhes ensinou: a morte é para sempre. Inclusive, é por isso que só se morre uma vez. E, por só se morrer uma vez, é um incidente grave, solene, dramático. E, quando este fato sucede, o mundo prático torna-se irrelevante. Portanto, a última coisa que alguém da família pensa é: quem ficará responsável pela linha telefônica.

Resumindo, dada a irreversibilidade do ato de morrer, os que ficaram estão tristíssimos, e aquele que partiu está sem possibilidade de aproveitar vossas maravilhosas ofertas de novos planos. Dado isso, o correto seria dizer: meus sentimentos, ou meus pêsames, ou, ainda, devem ser dias duros para vocês, falaremos em outra ocasião.

Um ano depois, visitando minha mãe, atendo ao telefone. A mesma conversa ressurge. Agora calmo, digo que não é polido ligar para os mortos. Explico que quem perdeu alguém é constantemente lembrado pelos objetos partilhados juntos, pelas memórias que voltam, da ausência do falecido. Portanto, o telefonema perguntando pelo finado é uma crueldade, um adicional de melancolia.

Comento o fato com minha mãe e ela responde que isso acontece a cada tanto. Ela me conta que já fez o que eles sugeriram para que parasse. Inclusive presencialmente, em uma loja da companhia, mas que nada surte efeito. Seguem ligando para o fixo oferecendo planos de celular ao meu pai.

Começo a ficar indignado, mas minha mãe me desarma com sua estratégia: "Como não acreditam em mim, depois de explicar mil vezes, resolvi dizer que ele está viajando e que não sei quando retorna". Ela ri enquanto fala, como se brincasse ao mentir para o telemarketing.

E neste pé estamos, quase 15 anos depois, minha mãe ainda recebe ofertas. A companhia talvez tenha criado o conceito de consumidor imortal e não nos avisou.

O que não consigo responder é quem ficou com a linha. Sei que fiquei com o silêncio de meu pai.

MÁRIO CORSO

20 DE ABRIL DE 2019
OPINIÃO DA RBS

OS DANOS DO POPULISMO


Intervencionismos na área econômica podem até gerar algum resultado imediatista, mas o custo costuma ser sempre elevado, quando não impagável
A decisão do presidente argentino, Mauricio Macri, de ignorar o discurso de defesa do livre mercado com o qual foi eleito e ressuscitar práticas danosas, como acordo de preços e congelamento, serve de alerta para os riscos do populismo que rondam países da América Latina. Independentemente de sua ideologia, governantes tendem a se achar no direito de recorrer a práticas intervencionistas quando se sentem enfraquecidos ou ameaçados. O objetivo é sempre alcançar resultados rápidos, sem levar em conta que o custo dessas medidas costuma ser elevado a médio e longo prazos.

Foi esse tipo de preocupação que levou o presidente Jair Bolsonaro a tentar interferir na política de preços da Petrobras. O temor de uma nova greve dos caminhoneiros, porém, acabou provocando, na prática, uma queda considerável no valor da empresa estatal, que precisa seguir regras do mercado. O presidente argentino também foi levado ao equívoco de ressuscitar práticas econômicas heterodoxas devido a preocupações semelhantes. O fato concreto, no caso, é a proximidade das eleições de outubro. O insucesso das políticas econômicas ameaça inclusive dar margem à volta do kirchnerismo, do qual o atual governo herdou uma inflação em descontrole que não conseguiu debelar.

A Argentina entrou no século 20 entre os países mais ricos do mundo. Hoje, é vítima de uma perversa combinação de inflação em alta, perdas salariais e desemprego devido justamente à ineficácia de medidas populistas, cujas consequências não conseguiram ser enfrentadas pelo programa de Mauricio Macri. O mesmo ocorreu com a Venezuela, vítima de receituários populistas no outro espectro ideológico. Mesmo sendo dono das maiores reservas de petróleo do mundo, o país se encontra às voltas com uma hiperinflação e falta de itens básicos de consumo, sem solução à vista. Como receitas demagógicas costumam sempre fracassar, a população acaba sendo a maior prejudicada, mas os efeitos vão além.

Parceiro comercial importante do Brasil, a Argentina já impõe prejuízos inclusive à economia gaúcha, que viu as suas receitas de exportações para o país vizinho despencarem. Intervencionismos na área econômica podem até gerar algum resultado imediatista, mas o custo costuma ser sempre elevado, quando não impagável. O Brasil é um triste exemplo, pois paga até hoje o preço de tentativas frustradas de alcançar um crescimento sustentado.

OPINIÃO DA RBS

20 DE ABRIL DE 2019
+ ECONOMIA

CRISE? QUE CRISE?

Em um ano, o Kit Inéditos da TAG - Experiências Literárias é enviado a 22 mil assinantes e representa 35% do faturamento do clube de livros, que fechou 2018 em R$ 26 milhões. Com best-sellers internacionais inéditos no Brasil, a categoria chegou a 10 assinantes em um mês, marca que o primeiro produto da TAG levou dois anos para alcançar.

A Leffa Estofados constrói unidade fabril que será anexada à existente no bairro Cristo Redentor, em Porto Alegre, ainda neste ano. O projeto, de R$ 200 mil, prevê ampliação de 50% da marcenaria, o que permitirá ampliação em 30% da demanda atendida. A estimativa é de que serão gerados 15 empregos diretos.

Porto Alegre voltará a ser sede do Congresso Brasileiro da Indústria Gráfica depois de 23 anos. Com o mote "Pensar e fazer diferente", a oportunidade de aprendizado e desenvolvimento técnico será no dia 18 de maio, no Teatro do Sesi.

A SEMANA QUE EU VI

Água gelada

O Indicador de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) de fevereiro (-0,73%) foi um banho de água gelada. O negativo era esperado, mas veio quase duas vezes pior do que as projeções.

Na banguela

Na tentativa de frear ameaças de greve de caminhoneiros, o governo anunciou crédito de R$ 30 mil no BNDES e obras em estradas. Foi acusado pelos motoristas de dar "esmola", e causou irritação.

Doa a quem doer

Uma semana depois de segurar alta média de 5,74% no diesel, a Petrobras confirmou reajuste de 4,8%. Ganharam a estatal e a imagem do Brasil, aumentou o suspense nas estradas.

Mega para gigas

O governo anunciou leilão de áreas para exploração de petróleo com previsão de arrecadar R$ 106 bilhões em bônus de assinatura. Será só para as gigantes do petróleo - Exxon, Shell, BP. Um dos lotes é de R$ 65 bi.

MARTA SFREDO


20 DE ABRIL DE 2019
RBS BRASÍLIA

O LADO BOM DO ERRO BRUTAL DE DIAS TOFFOLI

A crise que toma conta do Supremo Tribunal Federal (STF), provocada pelo erro brutal do presidente Dias Toffoli e do ministro Alexandre de Moraes, pode até ter um lado bom, por mais difícil que isso possa parecer. A censura à divulgação de reportagem pela revista Crusoé, que traz delações da Odebrecht e cita o nome de Toffoli, foi derrubada diante de intensa pressão nacional, inclusive dos próprios ministros do Supremo. Ninguém, em sã consciência, pode suportar ou aceitar a volta de censura. E não há como negar a importância da imprensa livre para a manutenção da democracia. Essa foi a frase mais ouvida no país nos últimos dias, inclusive apropriada pelo presidente da República, Jair Bolsonaro, que tem longo histórico de desavenças com a imprensa.

- A sociedade mais consciente e mais exigente consegue vocalizar seus sentimentos e as instituições devem saber interpretar isso - comentou o ministro Luís Roberto Barroso sobre o recuo de seus colegas.

É claro que não há espaço para ingenuidade neste cenário. A revolta contra os ministros do STF ocorre em um momento em que a Suprema Corte já está sendo questionada. Senadores defendem a abertura de uma CPI do Judiciário e de processos de impeachment contra ministros. Há parlamentares participando desses movimentos por convicção. Mas há políticos e grupos organizados nas redes sociais que querem mais é ver o circo pegar fogo. A fragilidade do STF interessa a quem não tem apreço pela democracia. Consciente disso, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), trata o assunto da CPI com parcimônia. Se depender somente dele, a comissão jamais será instalada.

Se houver coerência, portanto, a mesma voz que reclamou da censura à reportagem contra Dias Toffoli precisa aplaudir a decisão de permitir que um jornal possa entrevistar o ex-presidente Lula. Você pode não concordar com o entrevistado, com as respostas, com as perguntas, mas a liberdade de publicação não pode ser cerceada. Os novos tempos não suportam esse tipo de tirania, comum nas ditaduras. O que era uma informação restrita a assinantes de uma revista eletrônica, caiu nas redes. A tecnologia rompeu a mordaça. Que sirva de lição para os déspotas modernos.

A Suprema Corte voltará do longo feriado de Páscoa com a missão de juntar os caquinhos e com um presidente desmoralizado.

CHOQUE DE REALIDADE

A bancada ruralista quer que o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo (à esquerda na foto), deixe de lado delírios contra o chamado "globalismo" e passe a trabalhar em sintonia com os interesses do agronegócio, sem atrapalhar a manutenção de mercados estratégicos como a China ou os países árabes.

Impossível? O presidente da Frente Parlamentar do Agronegócio, Alceu Moreira (MDB-RS), acha que não. No próximo mês, o Itamaraty deve abrir os salões para uma reunião de trabalho com setores organizados do agronegócio.

- O Itamaraty sempre foi distante. A aproximação gera cumplicidade - explica o deputado.

Alceu levou a proposta ao ministro em uma reunião prévia. À coluna, o deputado afirmou que a ideia foi muito bem recebida. Com acesso a todas informações, o ministro não poderá alegar desconhecimento ao se posicionar com relação aos mercados. Representantes do agronegócio não negam a preocupação com algumas atitudes que podem gerar milhões de prejuízos com as exportações, como a ideia de transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. A ministra Tereza Cristina (Agricultura) também vem acompanhando essas movimentações de perto.

COMEÇA UMA CORRIDA ENTRE LÍDERES NO CONGRESSO INTERESSADOS EM ATRAIR O GENERAL HAMILTON MOURÃO PARA OS SEUS PARTIDOS. OFICIALMENTE, O VICE-PRESIDENTE NÃO CONFIRMA, MAS ELE ESTARIA INSATISFEITO COM O PRTB E DISPOSTO A INGRESSAR EM UMA LEGENDA COM MAIOR CAPILARIDADE. ALGUNS PARTIDOS SONHAM COM O NOME DE MOURÃO PARA AS ELEIÇÕES DE 2022.

CAROLINA BAHIA


20 DE ABRIL DE 2019
INFRAESTRUTURA

OS PRÓS E CONTRAS DE UM PORTO NO LITORAL NORTE

MARINHA REALIZOU ESTUDO entre Torres e Arroio do Sal a pedido do senador Luis Carlos Heinze, mas projeto já recebe críticas
Entre 7 e 12 de abril, o navio oceanográfico Antares, da Marinha do Brasil, palmilhou a costa do Rio Grande do Sul medindo, em detalhes, a profundidade da plataforma continental (batimetria), enquanto marinheiros em terra instalaram, entre os rios Mampituba e Tramandaí, equipamentos para mensurar marés durante um ciclo lunar. A operação, executada enquanto a embarcação estava a caminho de Buenos Aires, foi uma encomenda do senador gaúcho Luis Carlos Heinze (PP-RS). Trata-se de tentativa do parlamentar de embasar um estudo técnico para confirmar um dado fundamental para sustentar uma ideia abraçada por ele ainda em 2018: construir um porto marítimo privado entre Torres e Arroio do Sal para facilitar o escoamento da produção da metade norte do Rio Grande do Sul.

O estudo da Marinha é uma das primeiras ações concretas para viabilizar a construção de um Terminal de Uso Privado (TUP) no Estado. Hoje, o Rio Grande do Sul, que tem uma costa de cerca de 620 quilômetros de extensão, conta com um porto, em Rio Grande.

CUSTO DE FRETE SERIA UMA DAS MOTIVAÇÕES

Defensores da ideia afirmam que o terminal no Litoral Norte baratearia custos com frete. Hoje, empresários da serra gaúcha estimam que o deslocamento de uma carga de aço de Caxias do Sul custa, em média, entre R$ 4 mil a R$ 5 mil até Rio Grande. Em direção a portos de Santa Catarina, o frete sairia por entre R$ 3 mil a R$ 4 mil. Até Torres, segundo levantamento, custaria cerca de R$ 1,5 mil.

A ideia de um porto no Litoral Norte remonta ao tempo do Império Brasileiro. À época, dom Pedro II encomendou a engenheiros ingleses um estudo sobre a viabilidade. Impressionados com a profundidade do mar gaúcho, pesquisadores teriam orientado a construção de um terminal na altura de onde hoje fica Torres. Entretanto, o porto acabou sendo construído em Rio Grande. Cartas náuticas eletrônicas como Navionics, utilizadas por navegadores atuais, apontam que, na altura do Litoral Norte, a profundidade da plataforma continental atinge até 22 metros a 1,8 quilômetro da praia. O que possibilitaria a entrada de navios gigantescos sem a necessidade de construção de estrutura mais adiante da areia. Em Rio Grande, essa profundidade só seria alcançada, segundo pesquisadores, a cerca de 6 quilômetros da praia.

Com calado atual de 12,8 metros, o porto do sul do Estado sofre com assoreamento. O processo de dragagem em andamento no complexo, que deve ser concluído em três meses, permitirá se chegar a profundidade de 15 a 16 metros, aumentando a competitividade.

- Nada contra Rio Grande, mas o transporte no Rio Grande do Sul é dos mais caros do Brasil. Um empreendedor tem 18% de custo logístico. Imagina trazer aço de Minas Gerais para Caxias. Posso trazer para Torres e largar ali, a 200 quilômetros da cidade (detalhes no infográfico ao lado) - explica Heinze.

Um dos idealizadores do projeto é o engenheiro Fernando Carrion, ex-prefeito de Passo Fundo e ex-deputado federal. Ele apresentou a ideia a Heinze em 2017, na época em que o hoje senador postulava concorrer ao cargo de governador. Carrion defende que a profundidade da plataforma continental em Torres é favorecida pela geografia da região, em efeito contrário aos Aparados da Serra, que projetariam no mar uma fundura maior. Ele compara o litoral local a áreas de portos internacionais como Valparaíso, no Chile, e Callao, no Peru. E mexe com os brios dos gaúchos, ao afirmar que, enquanto o RS tem apenas um porto, Santa Cataria, dispõe de cinco terminais.

- Nós, com 620 quilômetros de costa, 50% a mais do que Santa Catarina, vamos ficar com um porto? - provoca.

Dados do estudo da Marinha feito no Estado devem ser publicados em meados de maio.

RODRIGO LOPES


20 DE ABRIL DE 2019
ECONOMIA

Um olho na Previdência e outro nos caminhoneiros

A paralisia da economia aumenta a atenção de economistas para dois assuntos. O primeiro, considerado essencial para começar o reequilíbrio fiscal do país no longo prazo, é a reforma da Previdência. O segundo é a ameaça de nova paralisação dos caminhoneiros.

Mesmo tendo seus efeitos práticos sentidos apenas nos próximos anos, a mudança das regras das aposentadorias é considerada um gatilho para a retomada da confiança e a liberação dos investimentos.

- A estabilidade macroeconômica do país depende da reforma da Previdência. É necessária para termos crescimento neste ano e nos próximos. Em 2019, seria mais pelo impacto na confiança e pelo destravamento de investimentos - afirma Luana Miranda, pesquisadora da área de economia aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Economista-chefe da Tendências Consultoria, Alessandra Ribeiro observa que, apesar de a Previdência ser a prioridade, o governo também deveria encaminhar outras pautas de forma paralela, como uma reforma tributária e avanços nas concessões.

- Mas, sem a reforma da Previdência, não se garante uma coisa básica, que é o pilar fiscal. Então, não adianta ter uma agenda microeconômica um pouco melhor sem mudar a Previdência - destaca Alessandra.

O governo federal encerrou 2018 com déficit primário (sem contar os juros) de R$ 120,2 bilhões. Foi o quinto ano consecutivo de resultado negativo. Apenas a Previdência teve rombo R$ 195,2 bilhões. O parecer da reforma seria votado na semana passada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, mas a sessão teve de ser encerrada devido ao tumulto e à falta de acordo na sessão, em mais um episódio considerado uma derrota do Planalto no parlamento.

UMA NOVA GREVE JOGARIA TUDO FORA

Em meio à espera por melhor articulação do governo para tentar aprovar a reforma, uma preocupação de mais curto prazo voltou a assombrar: a possibilidade de nova paralisação dos caminhoneiros. A greve, em maio de 2018, foi considerada fator essencial para abortar o início de recuperação da economia observada nos primeiros meses daquele ano. No mês, a atividade teve retração de 3,34%, de acordo com o IBC-Br, espécie de prévia do PIB, apurado pelo Banco Central.

- Uma nova greve dos caminhoneiros jogaria tudo fora - diz o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fabio Bentes, referindo-se às expectativas ainda existentes de expansão do PIB mais forte do que o ano passado, de 1,1%.

Para Alessandra, da Tendências, apesar de a principal razão da insatisfação dos caminhoneiros ser o preço do diesel, a causa do desequilíbrio é mais profunda.

- O pano de fundo é um excesso de oferta, muitos caminhoneiros, e de outro lado a demanda fraca. Isso joga o preço (do frete). E eles têm pouca margem para absorver o aumento do diesel. Soluções artificiais não adiantam. As empresas acabam internalizando esta função também - resume a economista, aludindo à busca das companhias por formar uma frota própria para driblar exigências como preços mínimos do frete.

"A questão é que agora as pessoas estão com dúvidas sobre a capacidade de articulação do governo para aprovar as reformas e ter uma agenda mais liberal da economia, prometida no período eleitoral."

Luana Miranda, Pesquisadora da área de economia aplicada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV

"O mercado de trabalho está muito lento, fraco, com níveis recorde de subutilização da mão de obra e desalento. Isso afeta setores que precisam do consumo para se recuperar."

Fabio Bentes, Economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC)

"O contexto da atividade econômica global não é favorável, mas olhando para a nossa realidade, acho que há frustração com o início do governo."

Alessandra Ribeiro, Economista-chefe da Tendências Consultoria

Fontes: IBGE, BC e FGV

sexta-feira, 19 de abril de 2019



19 DE ABRIL DE 2019
DAVID COIMBRA

O homem torturado pela milícia

Fiquei tão impressionado, que sonhei a noite inteira com uma entrevista que o Pedro Bial fez na terça passada. Ele conversou com Nilton Claudino, ex-repórter fotográfico do jornal O Dia, do Rio. Em 2008, Claudino foi torturado pelas milícias cariocas, e isso mudou-lhe a vida para sempre. Claudino diz que, depois da tortura, tornou-se um morto-vivo. Não é exagero, e já conto por quê.

A desventura de Claudino começou quando ele decidiu fazer uma reportagem investigativa em uma das regiões dominadas pela milícia. Ele escolheu a repórter que o acompanharia e os dois se infiltraram na favela dizendo que eram casados e que vinham de fora do Estado. Passaram duas semanas em uma casinha alugada, convivendo com a comunidade, até que foram descobertos. Então, policiais fardados e à paisana os levaram para o que Claudino chamou de "casa da tortura". Lá, eles foram seviciados brutalmente durante sete horas e meia.

Claudino contou que, durante a tortura, seus algozes repetiam que ele nunca mais seria o mesmo.

- E era verdade - reconheceu.

Foi precisamente isso que me espantou. Vi, na entrevista com o Bial, um homem de espírito fraturado. Claudino hoje é um farrapo emocional. Ele chorou várias vezes em meio à conversa e, a certa altura, admitiu que todos os dias pensa em cometer suicídio. Só não o faz por causa dos filhos.

A tortura ocorreu há 11 anos, fisicamente Claudino parece recuperado e é improvável que seus verdugos o capturem outra vez, até porque ele abandonou a profissão, não representa mais uma ameaça. O que leva à questão: por que Claudino não conseguiu reintegrar a alma? Por que os torturadores estavam certos quando previram que ele nunca mais seria o mesmo?

Respondo: porque, agora, Claudino sente medo. Agora, ele sabe que coisas horríveis podem acontecer.

Ele próprio relatou que, antes, adorava fazer matérias de risco por ser "viciado no perigo". Não é o único. Mas quem é viciado no perigo obviamente só o é porque o perigo não se realiza. Ou seja: a pessoa passa pelo perigo e sai intacta, como se estivesse numa montanha-russa ou num trem-fantasma. Desta forma, o perigo produz sensação oposta à ameaça que representa: produz sensação de fortaleza, de imortalidade. A pessoa se sente mais confiante. Foi essa confiança que Claudino perdeu para sempre. A sensação de desamparo é o que o desespera e o faz se sentir meio morto.

A experiência de Claudino foi traumática, abalaria qualquer um. Mas não é preciso tanto para acionar a chave que dá o sinal de alerta na cabeça das pessoas. Pode ser algo de aparência trivial: um chefe que persegue o funcionário, uma separação, uma perda de emprego, um acidente, uma desilusão. É algo que leva a pessoa a concluir que nem a fama nem o dinheiro nem a beleza e nem uma vida correta são capazes de proteger quem quer que seja dos males da existência ou da maldade humana.

O mundo de hoje tem ainda outra característica que aumenta essa terrível impressão de abandono: no mundo de hoje, falta Deus. Não estou falando do aspecto transcendental, estou falando do aspecto psicológico. A religião, que Freud dizia ser uma ilusão, por envolver fé e desejo, a religião dá consolo ao crente. O homem religioso tem certeza de que o Bem vencerá o Mal, nem que seja depois da morte. Hoje, porém, as pessoas são mais céticas. Em nome da razão, muitos não acreditam em Deus. E a vida sem Deus é solitária.

O espaço se foi e ainda não cheguei ao ponto que queria. Ainda vou dizer o que é importante: que há saída. Não desanime, crente ou ateu. Há saída.

DAVID COIMBRA

sábado, 13 de abril de 2019


DEPRESSÃO E SUICÍDIO

Sabe-se que a luz solar ativa a produção de serotonina e dopamina, neurotransmissores relacionados à felicidade e ao bem-estar. Dias escuros, assim como chuvosos, não acionam esse mecanismo. Há até mesmo problemas mentais que surgem em função das estações: o transtorno afetivo sazonal, por exemplo, é um quadro que apresenta sintomas de depressão no inverno e melhoras no verão. No entanto, mais uma vez, o clima não bate o martelo: em um livro clássico sobre suicídio, o sociólogo francês Émile Durkheim, ao analisar as taxas de mortes autoinduzidas em países da Europa do século 19, descobriu que os casos costumam ocorrer no verão, e não no inverno.

Estatisticamente, não é na Europa nem na América do Norte que estão concentrados o maior número de casos de suicídio: segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 79% deles ocorrem em países de baixa e média renda - o Brasil está em oitavo lugar. Os mais afetados são populações vulneráveis, como imigrantes, LGBT+, indígenas e presos, o que confirma que, sozinho, o inverno não é responsável pela depressão. A doença mental da modernidade, ao lado da ansiedade, é uma mistura de fatores genéticos, traumas do passado e outras causas.

O sul do Brasil registrou 23% de todos os casos de suicídio de 2017 no país, apesar de concentrar 14% da população brasileira, segundo boletim do Ministério da Saúde. E o Rio Grande do Sul tem as maiores taxas entre os Estados: 10,3 mortes por suicídio a cada 100 mil habitantes, quase duas vezes maior do que a taxa nacional, de 5,5. A Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul (SES) trata o tema como problema de saúde pública. A zona de maior risco é o Vale do Rio Pardo, região de plantio de fumo. Há estudos apontando que agricultores responsáveis por essa atividade têm maiores taxas de suicídio - os riscos seriam desde o uso do agrotóxico, aplicado de forma manual, até uma autoestima mais baixa, afetada pelos maus olhos que grande parte da sociedade destina a quem trabalha na cadeia do cigarro.

- São vários os fatores que influenciam o ser humano. Países escandinavos, com clima predominantemente frio e noites prolongadas, têm grandes taxas de depressão e de suicídio. O Rio Grande do Sul, onde o inverno é acentuado em comparação ao resto do Brasil, tem as maiores taxas de suicídio do Brasil - ressalta Cláudio Meneghello Martins, diretor da Sociedade Brasileira de Psiquiatria (SBP). - O frio proporciona um isolamento social maior, mas entram também a predisposição genética e o estresse ambiental, como violência urbana, pobreza ou maus-tratos emocionais - salienta o psiquiatra.

Ainda que o escuro seja naturalmente associado ao perigo e ao que não é visível, o psiquiatra Luiz Carlos Mabilde, da Sociedade de Psicanálise de Porto Alegre (SPPA), destaca que nenhum clima é essencialmente melancólico ou inspirador: o indivíduo é responsável por conceber significados a eventos. Se para um morador da cidade a chuva pode suscitar tristeza, para um fazendeiro pode ser sinal de alegria e de prosperidade na plantação.

- O dia ensolarado é um dia como qualquer outro. E o dia cinzento também. Projetamos no sol e no cinza questões que já existem dentro de nós. Se estamos bem, não é o dia acinzentado que vai nos deprimir, nem o sol irá nos deixar eufóricos - reflete Mabilde.



13 DE ABRIL DE 2019
LEANDRO KARNAL

Pensamento cetáceo

Convivendo muito com minha orientadora de doutorado na Universidade de São Paulo (USP), criei a expressão pensamento cetáceo. Se a querida leitora e o estimado leitor tiverem um pouco de paciência, creio ter identificado uma tribo específica da espécie humana que pode conter gente da sua família em seu seio.

Eu falava da professora titular Janice Theodoro. Ela pensa muito, discute ideias com habilidade e colaborou imensamente para questionar minhas zonas de conforto. O rico universo interior (somado à tradição psicanalítica) fazia com que ela debatesse um tema denso com maestria e leveza em um jantar. Com o andar da carruagem gastronômica, íamos vendo diversos tópicos. Havia em Janice um universo interior distinto: ela continuava pensando na conversa que a movera naquele dia, mesmo horas depois do assunto, aparentemente, ter se extinguido.

Exemplo prático: falávamos no conceito de barroco colonial mexicano, chegávamos à obra de Heinrich Wölfflin e à desconstrução de alguns pressupostos de Jacob Burckhardt e, com alguma probabilidade, terminaríamos pensando no vinho a nossa frente. Porém, pasmem queridas leitoras e estimados leitores: Janice prosseguia internamente no conceito de barroco enquanto o assunto já se transformara em vinho, comida ou outra amenidade. Em alguma sala do Palácio da Memória, o conceito ainda pulsava, fluía e, sem aviso prévio, voltava como um gêiser inesperado. Eu estava pegando o carro e ela soltava frase forte e com ênfase gestual: "A Capela do Rosário em Puebla!". 

O que a belíssima peça do barroco colonial mexicano poderia iluminar o momento com o manobrista? Nada, aparentemente, se eu pensasse na minha tradição linear cartesiana e na minha noção agostiniana de tempo Porém, o primeiro debate da noite tinha voltado à tona de forma abrupta, como uma baleia que, após longo mergulho, ergue-se imperial em busca de ar, alçando seu corpanzil ao sol, acima das águas, para, em seguida, cair estrondosa na água cristalina. Eis a descrição do meu conceito: "Pensamento cetáceo".

As baleias são mamíferos que podem mergulhar a profundidades abissais. Porém, o apelo da respiração acaba chegando. Como os golfinhos, podem morrer afogadas nas águas em que nasceram. Boas nadadoras e exímias mergulhadoras, no entanto, continuam mamíferas e dependentes dos pulmões. Na superfície, só as vemos quando respiram. 

A superfície é a conversa audível. Ali, estamos nos vendo, baleias, golfinhos, navegadores e flutuadores em geral. O tema submerge na vastidão dos oceanos. Em graciosos movimentos ondulatórios, o tópico volta mais adiante, quando, para quem está na superfície, ninguém mais pensa nele. Efeito cetáceo seria o costume de voltar a um foco já largado em oceano passado e sem nenhuma introdução.

Defendo o grupo de animais marinhos que englobei no título da crônica. Vivem, como Janice, imersos em solilóquios. Os cetáceos costumam pertencer a uma família expressiva marcada pela inteligência e um diálogo consigo muito forte. Não se confundem com os meros distraídos ou com os indivíduos fechados em sua casmurrice. 

O cetáceo clássico é dotado de uma imensa lógica narrativa. Ele pode ser uma dificuldade para o resto do mundo porque não exibe todo o fio narrativo e apenas surge, quase uma epifania, com uma nova conclusão e, depois, volta ao mundo hídrico invisível.

O pensamento cetáceo parece indicar uma capacidade de autocentramento muito sólida. Seriam partes soltas de uma corrente: algo pode ser engatado ali, mas não é da natureza do elo estar associado. Imagino que a sociabilidade mais vaga ou superficial seja um sofrimento.

Aprendi muito com Janice e declaro, com plena consciência de verdade, ser um devedor intelectual eterno. Nem sempre consegui seguir o canto profundo quando o corpo desaparecia das marolas oxigenadas da casca do mundo. 

Percebendo apenas os espasmos espaçados e recortados do mundo dos vivos não aquáticos, não identificava a linearidade humanística de tudo que era enunciado. Talvez seja o erro de comunicação mais comum: eu interpreto que o total do dito coincide com o total do pensado e que a palavra enunciada seja o único e derradeiro significado do significante.

Viver tende a diminuir nosso olhar duro e vaidoso. Quando encontrei pela primeira vez minha futura orientadora, em 1987, eu era mais preocupado com o rigor da tradução de um termo teológico do que capaz de admirar a sutileza cetácea. Aprendi tanto, especialmente sobre comunicação e a diferença entre saber dados e interpretar culturas. A passagem da erudição ao conhecimento necessita de um passaporte especial. 

O papel de formador é mais sofisticado do que o de informador. Há uma boa tradição acadêmica de conversas, debates, de ouvir e de falar que constitui uma riqueza insubstituível. Janice, até hoje, reclama do declínio do que ela, com razão, chama de filia acadêmica. Tive esse privilégio em salas da USP, na casa dela, em pizzarias e em viagens. Crescia, inclusive, quando tocávamos Summertime, de Gershwin, eu ao piano e ela ao contrabaixo, em memoráveis noites na Rua Joaquim Antunes. Minha formação clássica esbarrava na "blue note" do balanço do jazz. 

Trinta anos depois, tropeço ainda, mas agora sei que Bach é uma pedra na estrada da vida e não o universo. Talvez seja isso que uma boa pós-graduação possa nos trazer: amplitude, diversidade, questionamento e descoberta de outras alvenarias. Agradeço sempre aos cetáceos em geral e à Janice em particular. É preciso ter esperança. 

LEANDRO KARNAL


13 DE ABRIL DE 2019
JJ CAMARGO

O ORGULHO DO PIETRO

Parabéns, Beto, pela capacidade de sublimar o peso avassalador da tragédia de perder um filho

Entre os muitos eventos essenciais positivos na vida de uma pessoa, nada supera em intensidade a de se ter um filho. Pela mesma razão, nada é mais devastador do que perdê-lo, não só pela incompreensível inversão da ordem natural da vida, mas pela extinção aguda e definitiva, dessa usina propulsora de toda a energia que nos move e nos impulsiona a partir do momento em que cheiramos o pescoço das nossas crias pela primeira vez, e iniciamos a obstinada missão de dar a elas, uma vida melhor do que a nossa.

José Saramago, magistral como sempre, definiu filho como "um ser que nos foi emprestado para um curso intensivo de como amar alguém além de nós mesmos, de como mudar nossos piores defeitos para darmos os melhores exemplos e de aprendermos a ter coragem". Ainda que ele conclua que, como emprestados, não poderemos perdê-los, na verdade sentimo-nos, o tempo todo, não como locatários, mas como os legítimos posseiros de suas vidas, sonhos e destinos. E da morte deles nunca nos recuperaremos, passe o tempo que passar.

A atitude diante da perda é que pode ser diferente. Ainda que a maioria transporte a dor da ausência para a tristeza amarga da solidão, e envelheça inconsolável, alguns conseguem arregimentar forças para a preservação da memória viva, através da prevenção de novas tragédias.

Quando o normal seria afogar as mágoas na aspereza da revolta e na aridez da incompreensão, alguns tipos emergem da catástrofe com a clara determinação de impedir que outras famílias sejam atingidas pela mesma dor que as mutilou.

De onde retiram essa energia? Não tenho ideia, mas sei que eles são especiais.

Ouçam o Beto Albuquerque contando da sua batalha para multiplicar por mil o Banco de Medula Óssea através da lei que recebeu o nome do seu filho, para evitar que morram outros Pietros, como o seu amado, que ele não conseguiu salvar.

Quando depararem com a energia que ele tem no olhar, saberão porque ele é um ser superior. E entenderão a comoção que marcou o lançamento do Instituto Pietro, em homenagem àquele garoto de cara linda que sorria no painel, justo no dia em completaria 30 anos.

Parabéns, Beto, pela capacidade de sublimar o peso avassalador da tragédia, para evitar que famílias desconhecidas sofram dessa dor que basta ser pai para saber que continuará latejando no peito para sempre.

Tenha certeza de que enquanto viver uma só pessoa salva pelo transplante de medula teu empenho, coragem, resiliência e determinação serão reverenciados, e enquanto viveres serás a imagem irretocável da gratidão, sempre o melhor antídoto do esquecimento.

Obrigado, amigo, e eu te garanto que o Pietro está muito orgulhoso do pai que ele amava tanto e que deixou para trás com a incumbência de representá-lo.

JJ CAMARGO


13 DE ABRIL DE 2019
LYA LUFT

Nós nos voltamos para trás

Parafraseio meu querido velho amigo Mario Quintana, que morreu mas - como os artistas em geral - permanece vivo, falando de tia Tula: "E ela nem se voltou pra trás".

Assim, me parece às vezes, embora não generalizando, que acontecem as relações familiares ou entre amigos, quando não entre amantes, casais. O tempo das separações extremamente dramáticas, e raras devido aos preconceitos, pode estar passando. Casais jovens juntam e separam com aparente facilidade. Um dia ou dois de lágrimas, cama, músicas que lembrem o outro, e depois, a linda resposta de uma filha de Fernando Sabino quando ele perguntou como a menina estava depois de um namoro desmanchado, vendo-a sair do quarto mais animada: "Eu vou me vingar sendo feliz".

Sempre achei isso genial, e recomendei, incluso para mim mesma, algumas vezes nesta vida. Falar é fácil, isso todos sabemos. Mas, talvez devido à fluidez geral das coisas e emoções, a coisa parece mais fácil.

Perdemos o emprego, arrumamos outro, ou ficamos com os pais, ou temos algum tipo de auxílio, bico, recurso qualquer (fora os casos dramáticos de pais ou mães desempregados com filhos na escola, na mesa, na vida). O namorado ou namorada foi apanhado em flagrante, ou confessa que tudo acabou? Nada que umas boas risadas na turma de amigos não melhore, e de preferência arruma-se logo outra parceria.

Estou exagerando, eu sei. Estou sendo pessimista ou irônica, eu sei. Mas de verdade vivemos com menos drama e tragédia no cotidiano. Quando eu era menina de escola, havia uma só de minhas coleguinhas cujos pais não eram "casados" de verdade.

Casaram no Uruguai, comentavam as maledicentes, mas aqui no Brasil não vale. Lembro de uma infinita compaixão pela amiguinha, e da ordem severa de minha mãe para nunca comentar isso com ninguém - eu, sempre enfiada entre os adultos, tinha ouvido sem que eles soubessem. De um tempo em que não havia antibióticos, geladeira elétrica, telefones fáceis e celulares nem como um distante mito, acho que a gente melhorou.

Morrem menos parturientes e bebês, mais crianças se criam saudáveis, as pessoas se comunicam como nunca antes, várias doenças fatais hoje têm cura. Estamos mais violentos? Mesmo em cidades pequenas não se deixa janela sem grade, casa sem cerca. Lembro da primeira vez em que, falando a universitários nos Estados Unidos, passei uns dias em casa de minha querida tradutora e amiga. Uma casa boa, dois andares, num daqueles bairros com bosquezinhos, até um riacho atrás.

À tardinha, quando começava a escurecer, admito meu medo absurdo sozinha em casa, pois ali nem cercas nem grades me protegiam. Quando comentei isso na hora do jantar, uma das filhas da casa, adolescente, se espantou: "Mas para que grades na janela? Eu morreria de medo, imaginando do que estava precisando me proteger".

Ao contrário da tia Tula de Quintana, a gente se vira para trás, ao andar numa rua mais deserta; ao sair do portão da garagem ou da porta do edifício; ao abrir a porta do carro; ou, simplesmente, ao dar um passo a mais neste nosso mundo onde estamos lançados.

LYA LUFT

13 DE ABRIL DE 2019
MARTHA MEDEIROS

Autorretrato


Xuxa, uma das artistas mais celebradas do país, já levou muito esculacho. Houve quem a acusasse de ser grosseira com as crianças e quem espalhasse boatos de que ela teria um caso com sua ex-empresária - se tivesse, e daí? Vinha chumbo de tudo que era lado. Eu mesma impliquei quando o nascimento de sua filha mereceu matéria de infinitos minutos no Jornal Nacional, achei que aquela exploração midiática não combinava com um fato tão íntimo e comentei a respeito, condenando.

O que eu tenho a ver com o que a Xuxa faz da sua vida? Pois é: nada. Uns oito anos atrás, estive em seu programa, a convite da produção, pois haveria uma homenagem a Cissa Guimarães e, devido à amizade que tenho com Cissa por causa da peça Doidas e Santas, eu seria uma espécie de convidada surpresa da gravação. 

Durante todo o programa, Xuxa foi educada comigo, mas me pareceu que ela não ia muito com minhas fuças, e teria razão pra isso. Ainda que eu tenha total liberdade de dar opinião em minhas colunas, quem é que gosta quando pisam em seu calo? Pode também ter sido apenas impressão minha e Xuxa jamais ter lido nada que eu tenha escrito, e nesse caso minha neura foi apenas um sintoma da minha culpa.

Todo esse preâmbulo é para voltar a falar dela. Poucos meses atrás, Xuxa postou nas redes uma selfie sem maquiagem, onde aparece com uma expressão envelhecida. Foi o que bastou para receber comentários maldosos, principalmente de mulheres que não se conformaram com sua ausência de vaidade. Mas quem decide onde devemos colocar nossa vaidade? Algumas mulheres a colocam no pescoço, outras na conta bancária, outras no cérebro, outras nos filhos, outras no trabalho, outras no conjunto da obra: cada uma se envaidece do que quiser.

Xuxa, agora com o cabelo raspado (e mais linda do que nunca), deu entrevista recente dizendo que as pessoas ainda desejam vê-la de chuquinha, como se o tempo não tivesse passado. Só que passou. E essa talvez seja a explicação para o bombardeio de críticas: ao assumir a passagem do tempo, Xuxa nos obriga a aceitar que passou para nós também. Sem querer, ela acaba "traindo" toda mulher que gasta fortunas em procedimentos estéticos a fim de parecer mais jovem. Ao abrir mão de ser um padrão juvenil de beleza, Xuxa dá uma situada no mulherio: a era do "ilarilarilariê" acabou. A vaidade agora está em ser madura e livre.

Continuo não tendo nada a ver com a vida da Xuxa, mas não quis perder esta oportunidade de, enfim, fazer-lhe justiça. Envelhecer não é fácil pra ninguém, e imagino que menos ainda pra quem sempre foi uma deusa, por isso é tão importante alguém como ela vir a público dizer que investir em autenticidade e na vida emocional traz resultados mais efetivos do que tentar agradar à plateia. Se ela continuar desagradando, azar da plateia. Amadurecer tem um custo, porém o retorno é sempre mais valioso.

MARTHA MEDEIROS

13 DE ABRIL DE 2019
PIANGERS

Com quem será?

Minha irmã se casa hoje, se você estiver lendo isto no sábado. Se estiver lendo o jornal no domingo, devo estar de ressaca agora. O fato é que este é um final de semana especial. A Débora descobriu, no final de 2017, um câncer de mama. Depois disso, teve alguns momentos difíceis durante o tratamento e ficamos todos muito preocupados. Mas, durante o processo, aconteceram coisas boas também. A família ficou mais unida. Ela fez uma viagem que sempre quis fazer. O namorado a pediu em casamento. E aqui estamos nós.

Minha irmã me falou uma frase que me marcou para sempre: "Tudo o que o câncer trouxe de ruim vai passar, mas tudo o que trouxe de bom vai ficar". Ver até mesmo os momentos difíceis com positividade, acredito, foi fundamental para que hoje ela estivesse curada do câncer. Olhar a vida com essa lente que mostra que tudo de ruim pode trazer algo bom não é sinal de ingenuidade, é sinal de coragem.

Gosto daquela parábola do homem em uma aldeia antiga que perdeu um lindo cavalo na floresta. Todos os amigos disseram: "Que azar! Você deve estar muito triste!". O homem respondeu: "Vamos ver o que acontece". Dias depois, o cavalo daquele homem voltou da floresta, trazendo também outros cinco cavalos. O homem se tornou dono de todos os cavalos e seus amigos comentaram: "Como você é sortudo! Agora está mais rico do que antes!". E ele respondeu: "É o que veremos".

Então o filho do homem começou a treinar montaria nos cavalos e, em um lance de azar, caiu e quebrou as duas pernas. Todos disseram: "Como você é azarado! Se não tivesse recuperado o cavalo, nada disso teria acontecido". O homem respondeu: "É o que veremos". Veio uma grande guerra e todos os jovens da aldeia foram chamados a lutar, menos o filho daquele homem, que por causa do acidente com o cavalo não podia se mover. Os amigos do homem vieram comentar: "Como você é sortudo! É o único de nós que ainda tem o filho em segurança!". O homem apenas respondeu: "É o que veremos".

Vejo muitas pessoas que, em momento de sofrimento, gritam pro céu: "Por que eu?". Mas também vejo os que dizem: "Vou passar por isso e lá do outro lado vou estar melhor do que estou hoje". Os momentos difíceis têm esse poder de dar um chacoalhão nas coisas. Uma doença grave, a perda de uma pessoa querida, um divórcio. Esses acontecimentos podem nos transformar para algo melhor, trazer reflexões que não viriam de outra forma. Podem nos fazer evoluir. Podem apresentar um futuro diferente. São a parte boa das coisas ruins. Por isso, sempre que você estiver em um momento difícil, lembre-se disso. Daqui a um ano e meio, você poderá estar fazendo uma festa de casamento.

PIANGERS