domingo, 5 de maio de 2019



04 DE MAIO DE 2019
LYA LUFT

Não gostar de poesia

Alguém joga xadrez com minha vida, alguém me borda do avesso, alguém maneja os cordéis. Mordo devagar o fruto da minha inquietação. Alguém me inventa e desinventa como quer: talvez seja esta a minha condição. Bastaria um momento de silêncio para eu ser feliz: mas do fundo do palco uma voz me chama. Serás tu, amor, ou é a Morte, apenas, que reclama?

Nada entendo de signos: se digo flor é flor, se digo água é água. (Mas pode ser disfarce de um segredo.) Se não podem sentir, não torçam a árvore-de-coral do meu silêncio: deixem que eu represente meu papel. Não me queiram prender como a um inseto no alfinete da interpretação: se não me podem amar, me esqueçam.

Sou uma mulher sozinha num palco, e já me pesa demais todo esse ofício. Basta que a torturada vida das palavras deite seu fogo ou mel na folha inerte, num texto qualquer com o meu nome embaixo.

Quando me mataram, meu lado não verteu água nem sangue: eu me verti de mim por essa fenda, escorri para a terra, debaixo do gelo, ausente. (Alguém sabia: ela está ali, e isso era a tua voz na noite.)

Se houver um tempo de retorno, eu volto. Subirei empurrando a alma com meu sangue, por labirintos e paradoxos, até inundar novamente o coração. (Terei o mesmo ardor de antigamente?)

E se me quiserem amar, terá de ser agora: depois, estarei cansada. Minha vida foi feita de parceria com a morte: pertenço um pouco a cada uma, para mim sobrou quase nada. Ponho a máscara do dia, um rosto cômodo e fixo: assim garanto a minha sobrevida.

(Se me quiserem amar, terá de ser hoje: amanhã, estarei mudada.)

Abro a gaveta e salta uma palavra: dança sedutora sobre o meu cansaço, veste-se de indefinições, retorce-se no labirinto das ambiguidades.

Tento uma geometria que a contenha no espaço entre dois silêncios quaisquer. Mas ela inventa o que faço: peso de fruta no sono da semente, assiste à minha luta, belo enigma. Eu, mediação incompetente.

Estes são os meus objetos. Este é o meu rosto: uns olhos que, de procurar demais, olham só para dentro. E se tudo desemboca na morte, esse é o meu destino. É para lá que vou, esperança e protesto, segurando o candelabro dos amores que me iluminaram na vida. (Resistirão, singularmente, ao meu último sopro?)

Com as perdas só há um jeito: perdê-las. Com os ganhos, o proveito é saborear cada um como uma fruta boa da estação. Mais nada. A vida corre à frente dos relógios. O ritmo das águas indica o roteiro e me oferece um papel: abrir o coração como uma vela ao vento, ou pagar até o fim as contas já vencidas.

(Esta é uma brincadeira com quem diz não gostar de poesia, não entender poesia: são antigos poemas meus postos em prosa.)

LYA LUFT

04 DE MAIO DE 2019
MARTHA MEDEIROS

25 anos diante da tela em branco

Minha primeira crônica para jornal foi publicada em julho de 1994. Naquela época, havia uma onda esquisita no ar: o retorno da virgindade como valor. Jovens atrizes declaravam que iriam se guardar para o casamento, etc, etc. Achei retrô demais e escrevi a respeito. Era uma tendência unissex? Não, né? Então que parassem com a bobajada. Ninguém me conhecia, mas meia-dúzia de leitores prestou atenção em meu atrevimento e assim iniciei minha carreira como colunista.

De lá pra cá, as mulheres não só mantiveram sua liberdade sexual como deram novo impulso ao movimento feminista a fim de denunciar o assédio, a violência doméstica e o feminicídio, palavra feiosa que entrou no dicionário, assim como empoderamento - adeus, mundo cor-de-rosa. Passamos a mostrar todas as tonalidades de um cotidiano de luta e a exigir respeito e segurança. Tenho feito minha parte escrevendo sobre a importância da autoestima, sobre a independência como nossa principal conquista e sobre o direito absoluto que temos ao nosso corpo - o que remete à legalização do aborto, questão séria de saúde pública que é discutida com maturidade nos países desenvolvidos, mas que no Brasil está retrocedendo em função do moralismo vigente.

É a parte sinistra destes últimos 25 anos. Chegamos a respirar novos ares, mas encaretamos e emburrecemos: o céu está encoberto, sujeito a trovoadas. Além de metáfora, é fato: o aquecimento global tem mandado notícias. A calota polar derrete, os mares avançam, a urbanização aumenta e a gente segue desmatando florestas e poluindo rios. Viajei muito neste quarto de século e reverenciei a natureza como a um Deus. Escrevi sobre vulcões, desertos, montanhas, oceanos, cordilheiras - e sobre a Amazônia, que acabo de visitar pela segunda vez, deslumbrada com sua essência primária. Preservação? Infelizmente, estamos nem aí.

Por outro lado, novos verbos surgiram nestes últimos anos (tuitar, blogar), novos estilos de empresas (startups), novas profissões (influenciadores), frutos de uma revolução tecnológica que trocou tudo de lugar e reinventou o conceito de distância e tempo - um feito nada modesto.

A tela do meu computador testemunhou muita coisa em 25 anos. Minhas filhas nasceram e cresceram enquanto eu escrevia, o mundo ficou mais inseguro e brutal enquanto eu escrevia, novas mídias foram criadas e outras sumiram enquanto eu escrevia, questões identitárias ganharam relevância e eu, enquanto escrevia, me tornei outra mulher, mais mulher, várias mulheres. Para celebrar, acabo de lançar pela editora Planeta O Meu Melhor, coletânea que traz cem crônicas de sucesso e mais quatro inéditas. Um livro que mostra que esses 25 anos não passaram voando. Foi um passo atrás do outro até chegar aqui, com o pé no chão.

MARTHA MEDEIROS

04 DE MAIO DE 2019

PIANGERS

Sogras maravilhosas


"Qual a diferença entre a cobra e sogra?", perguntou um piadista, para responder alguns segundos depois: "Nem toda cobra é venenosa". Dizem que toda piada tem um fundo de verdade, mas também acredito que todo senso comum tem um pouco de exagero. Percebo a dificuldade que uma mãe tem em lidar com a chegada de um ou uma concorrente, mas tenho a impressão de que é muito mais folclore do que realidade. Seguidamente, quando digo que moro na mesma cidade que minha sogra recebo olhar de pesar e um sorriso maroto do interlocutor.

Tenho sempre que dizer, como um alerta antes que venham piadas: "Eu adoro minha sogra".

Lamentavelmente, um homem que ama sua sogra tem sempre que estar se justificando. "Ela é ótima", ou "Dei sorte!". Acredito mesmo que as boas sogras são maioria. Quem tem sogra ruim é que deu azar. Por padrão, se você escolheu um bom cônjuge, provavelmente será agraciado com uma boa sogra, uma variação mais vivida e sábia da pessoa que escolheu para estar ao seu lado até o fim da vida. Uma sogra será sempre maravilhosa quando seu marido ou esposa é também maravilhoso. A fruta não cai longe do pé.

Faz dois anos que decidimos nos mudar e morar na cidade natal da Ana. Temos, aqui, uma família estendida. Tios, primos e avós que em um momento de aperto ficam com minhas filhas e abrem a porta do apartamento pra gente quando perdemos nossas chaves. Pela primeira vez na minha vida, depois de uma infância distante dos meus avós e de uma década em Porto Alegre longe de todos os familiares, tenho o que se pode chamar de uma família grande. E, claro, sempre por perto está ela: minha sogra.

Agora, avaliem se esta senhora não é maravilhosa: ela acaba de passar quatro meses costurando uma blusa de lã para me dar de presente; sempre que nos visita traz pão caseiro e sempre que a visitamos oferece bolos deliciosos; lembra da minha comida favorita e sempre que pode a prepara nos almoços de domingo; cuida das minhas filhas quando eu e minha esposa temos compromissos profissionais e ensina-as a cozinhar e fazer tricô.

As sogras, apesar das piadinhas, são um presente que a vida dá para todos os que encontraram uma alma gêmea. Quando temos uma mãe amorosa e inspiradora temos que agradecer. Quando ganhamos outra ao longo da vida temos que ser duplamente agradecidos.

PIANGERS

04 DE MAIO DE 2019
CARPINEJAR

O lado de lá



Os amantes casados são intransigentes. Não há como entender como alguém possa se submeter a eles. É uma tirania que nem o pior patrão ousaria.

É ter uma horinha livre que eles já desejam um encaixe e não admitem um não como resposta. Mesmo que o convite tenha partido em cima de hora.

Acreditam que o outro está sempre disponível. Agem com a urgência da mentira, para a esposa não descobrir. Passam os sinais vermelhos do respeito e da educação, como se fossem uma Samu da fantasia ou Corpo de Bombeiros do tesão.

Não se importam com as emoções do lado de lá, não enfeitam as palavras, muito menos disfarçam o interesse puramente carnal. Atropelam horários, afetos e compromissos alheios para que o encontro aconteça do jeito que querem e no momento que podem. Com o pretexto mentiroso de que não há como controlar a saudade, de que vêm sentindo muita falta, exigem que a companhia se adapte, falte ao trabalho, desmarque reuniões.

A gentileza só aparece na persuasão, como retórica, depois evapora. Apresentam pressa para entrar no motel, assim como sofrem da mesma pressa para sair e atender novamente as chamadas telefônicas da família sem correr riscos de questionamento do paradeiro.

Os amantes casados são egoístas e dissimulados. A versão mais desagradável dos homens. Prostitutas seriam mais respeitadas do que as suas parceiras.

Desmemoriados, não guardam recordação alguma daquilo que foi vivido a dois, até porque vivem apagando rastros e mensagens. Jamais lembrarão da data de aniversário da relação ou do próprio par. Sequer o número do telefone traz o verdadeiro nome de sua dona.

Desconhecem signos, predileções, medos. Separam sentimento do prazer, erotismo do casamento, sexo do amor. Não há passado ou futuro, ambos são negados com veemência.

Depois de dois anos de envolvimento, a amante solteira disse pela primeira vez que não poderia se encontrar com o seu amante casado. Afinal, a sua filha completava cinco anos. Sabe o que o sensível parceiro respondeu?

- Não tem como comemorar o aniversário em outro dia?

CARPINEJAR

04 DE MAIO DE 2019
ANA CARDOSO

Ninguém acredita na Cassandra

Cassandra é um personagem da mitologia grega, irmã da Helena de Troia. Ela não quis fazer sexo com Apolo, deus da juventude e da luz, e ele a amaldiçoou. Seu infortúnio seria falar sempre a verdade, fazer profecias corretas, mas não ser ouvida e ninguém acreditar nela. Sua beleza, sensibilidade e dons de nada lhe serviram numa sociedade onde foi desacreditada. Se ouvida, ela poderia ter salvado seu povo.

Louca, mentirosa, malévola, conspiratória e manipuladora. Assim a família a definia. Lá pelas tantas, foi roubada e doada a Agamenon, que a trancafiou e estuprou diversas vezes até morrer. Que mulher nunca foi acusada de estar querendo tirar vantagem de alguém quando faz uma acusação de assédio ou estupro? Quem nunca foi Cassandra?

Muitas vezes converso com amigas sobre traumas de infância. No começo me surpreendia com as histórias: uma em cada três mulheres foi abusada ou molestada na infância. Se não é o seu caso e isso lhe soa estranho, comece a conversar com as pessoas. Aviso de gatilho: essas conversas podem alterar drasticamente a forma como você vê o mundo.

Historicamente os abusadores (e eles são muitos, infelizmente) se valem de duas armas: o segredo e o silêncio. Fazem o que querem ou conseguem e instruem suas vítimas a se calarem. Tenho amigas que levaram 30 anos para falar sobre o assunto. Outras esperaram o agressor morrer para abrir a boca. Uma delas disse que mesmo que o tio abusador esteja morto, não tem coragem de falar sobre o assunto com a família para não chocar a tia e as primas. Outras ainda convivem com o abusador.

Conversar é importante porque existe uma chance bem grande de outras mulheres (e meninos também) terem sido abusados. E continuarem sendo. Uma grande amiga contou que, quando se deu conta e decidiu abrir o assunto na família, descobriu que o avô infeliz (que o diabo o carregue) havia abusado de suas irmãs, primas, mãe e tias. De todas elas.

Quando o silêncio é quebrado pelas vítimas, a reação imediata é desqualificar quem está fazendo a denúncia. Dizer que a pessoa, muitas vezes criança, é louca, mentirosa, está inventando, tem outros interesses. Exatamente como faziam com Cassandra em Troia. Até quando, hein?

ANA CARDOSO


04 DE MAIO DE 2019
PAULO GERMANO

O ROCK E O PRECONCEITO

"Não há como se levantar. Suas mãos estão atadas; suas pernas, amarradas

A luz brilha em seus olhos. Você enxerga o fio da navalha

E abre a boca para chorar. Não adianta: a lâmina vai entrar!"

Como você interpreta esses versos? Que cena você enxerga nessa meia dúzia de linhas?

Em 1985, uma associação de mães liderada por Tipper Gore, mulher do então senador Al Gore, sacudiu os Estados Unidos ao abrir uma guerra pública contra bandas de rock e suas gravadoras. Na avaliação dessas mães, letras como a reproduzida acima, do grupo de heavy metal Twisted Sister, exaltavam o estupro, a violência, as drogas, o álcool, o sexo e - que horror! - a masturbação na adolescência.

A ideia era proibir as rádios de tocar uma enorme lista de músicas. E também obrigar as gravadoras a inserir um selo de "alerta aos pais" em capas de discos malcriados - esse selo vingou, existe até hoje. Foi um rebuliço nacional: senadores apoiavam a iniciativa, fãs de rock protestavam nas ruas, a mídia repercutia o caso dia e noite, músicos se enfureciam em entrevistas.

Até que, no fim do ano, o Senado convocou uma audiência histórica com a presença dos astros John Denver, Frank Zappa e Dee Snider - o vocalista e compositor do Twisted Sister. As representantes da associação de mães compareceram indignadas, rugindo em defesa da família e dos valores cristãos.

Ao explicar a letra de Under the Blade (Embaixo da Lâmina), aquela reproduzida no início do texto, Dee Snider revelou que a música fora composta enquanto o guitarrista de sua banda estava no hospital, apavorado porque enfrentaria uma cirurgia na garganta. Não havia qualquer menção a estupro ou violência, como a líder das mães, Tipper Gore, insistia em alegar.

- Se você procurar na letra estupro e violência, pode encontrar. Mas, se procurar cirurgia, vai encontrar também. A única violência da música está na cabeça da senhora Gore - concluiu o metaleiro, antes de um sonoro "oooh" ribombar na plateia.

Snider foi certeiro porque, de fato, é possível enxergar praticamente qualquer coisa em qualquer situação - vai depender apenas da predisposição que houver para isso. Se, na sua cabeça, um cabeludão com cara de louco só pode ser má influência para os jovens, então você verá má influência em tudo o que Snider fizer.

Essa é a manifestação mais literal de preconceito - que nada mais é do que um conceito, ou ponto de vista, formado antes de se obter o conhecimento necessário sobre determinado assunto. Quando o preconceito nos controla, a tendência é sempre enxergarmos na situação um viés que confirme nossas crenças (ainda que elas estejam erradas). Porque estamos predispostos a isso.

Por exemplo:

Se você tem certeza de que todos os males da história da humanidade são culpa da esquerda, você achará uma forma de encontrar esquerda no nazismo. Se sua convicção é de que os empresários são vilões da sociedade, você verá terríveis privatizações na lei que concede à iniciativa privada a administração de praças. Se você se irrita com a ciência - porque ela prova, por exemplo, que transgêneros existem -, então você encontrará em Adão e Eva a explicação para a humanidade. E acreditará que vacina faz mal à saúde e também que a Terra é plana.

O preconceito é o maior inimigo da verdade, porque ele cega: não há o que alguém possa dizer, fazer ou mostrar para o preconceituoso rever suas certezas. E suas certezas são invioláveis não porque são verdadeiras, mas justamente porque, para o preconceito prosseguir, a verdade precisa ser ignorada.

Depois do levante daquelas mães americanas, as gravadoras toparam incluir nos discos o selo de alerta aos pais. "Conteúdo explícito", avisa a etiqueta, que ainda hoje acompanha as obras com linguagem desbocada. O curioso é que esses discos, para desespero da senhora Gore - e regozijo de Dee Snider - dispararam nas vendas. Esgotaram nas lojas, chegaram ao topo das paradas. Porque os jovens só queriam comprar "conteúdo explícito".

Bandas que não precisavam do selo passaram a implorar às gravadoras que lhe dessem a etiqueta. Algumas enfiaram palavrões em suas letras só para ganhar o tal rótulo. E assim o rock?n?roll mostrou o destino justo para toda forma de preconceito: o descrédito e a indiferença que ainda sonho ver de novo.

PAULO GERMANO


04 DE MAIO DE 2019

LEANDRO KARNAL

Um modelo para as damas

Historiador, professor da Unicamp, autor de, entre outros, "Todos Contra Todos: o Ódio Nosso de Cada Dia".

A presidência de uma república, como concebemos hoje, foi reinventada no fim do século 18. Na esteira da revolução americana, o novo país adotou o modelo antes restrito a poucas cidades italianas e áreas menores. Era um fato notável e implicava adaptações. Uma delas foi como tratar o seu líder, o chefe do Executivo. Para evitar associação com monarquia ou concentração de poderes, usou-se, depois de muito debate, a fórmula Mr. President, Senhor Presidente. Era respeitoso, mas prosaico, lembrando a quem estivesse no cargo sua origem como cidadão comum.

Das muitas coisas que foram levantadas naquele debate, não passou pela cabeça dos pais-fundadores a ideia de mulheres na Presidência da República. Embora Abigail Adams tivesse escrito ao marido: remember the ladies, na hora de fazer leis inclusivas no novo país, ninguém sonhava com cidadania plena para elas, quanto mais colocá-las no topo do poder político. De fato, até hoje, os EUA nunca tiveram uma presidente.

Foi apenas no século 19 que movimentos sufragistas espocaram. Obtiveram ainda mais força no século 20. Mulheres ganharam direitos políticos, mas ainda nem sequer eram cogitadas à presidência pela maioria votante. A primeira mulher eleita para cargo executivo máximo foi na República de Tuva, em 1940 (Khertek Anchimaa-Toka). No nosso continente, tivemos mulheres presidentes na Argentina (duas vezes), Nicarágua, Panamá, Guiana, Costa Rica, Chile e Brasil. Houve interinas na Bolívia, Haiti e Equador. No cargo de primeira-ministra, alguns exemplos notáveis: Índia, Alemanha, Israel e, recentemente, Nova Zelândia.

Rainhas não contam, pois não foram eleitas e fogem ao nosso levantamento parcial. Ainda assim, soberanas foram notáveis na Rússia, Havaí e Inglaterra. Mesmo que a política não seja mais um lugar exclusivamente masculino, está bem longe de ser um campo do feminino. O debate que houve no Brasil recente sobre o gênero da palavra presidente mostra que o tema do empoderamento feminino é pouco usual para muitos.

Em um universo dominado por cargos masculinos, surge a figura republicana mais comum: a primeira-dama. É uma quase "instituição curiosa", pois seu pressuposto é o de uma mulher que não tenha carreira, apenas acompanhe o marido em eventos públicos. Espera-se que seja simpática, fale pouco, corte fitas e dê apoio ao eleito. Deve gerenciar instituições beneméritas, promover atividades caritativas e, acima de tudo, claro, ser e parecer honesta, como convém à mulher de César.

Os norte-americanos amaram Eleanor Roosevelt, Jackie Kennedy (enquanto foi Kennedy), Barbara Bush e Michelle Obama. Nem sempre tiveram relação simpática com Hillary Clinton. No mundo, há as internacionalmente atacadas: Imelda Marcos e Elena Ceausescu.

No Brasil, o título foi inaugurado pela esposa do Marechal Deodoro, Mariana Cecília de Sousa Meirelles da Fonseca. O mundo elitizado da capital da República se encantou com o casamento de Nair de Tefé com o presidente Hermes.

Ela era uma mulher talentosa, pioneira na arte da caricatura e pianista que escandalizava os palacianos tocando maxixe. A esposa de Getúlio, Dona Darcy, criou a Legião Brasileira de Assistência (LBA), que, no começo, era voltada aos familiares dos nossos expedicionários. Nos "anos dourados", dona Sara, esposa de JK, foi muito louvada. Os atritos do casal nunca chegaram à grande imprensa.

A mulher de Jango, Maria Teresa, era destacada pela beleza. A imagem de Costa e Silva no hospital com sua esposa ao lado (a curitibana Iolanda) comoveu muita gente. Era um modelo esperado de devoção matrimonial. Ruth Vilaça Correia Leite Cardoso (esposa de FHC, a única que de fato conheci, pois foi minha professora) era uma intelectual respeitada e detestava o título de primeira-dama. Talvez seja a preferida da classe média brasileira. Dona Marisa Letícia pouco falou em oito anos. Sua sucessora foi lembrada pela tatuagem com o nome do marido na nuca. A atual primeira-dama, Michelle Bolsonaro, causou excelente impressão inicial com seu discurso em Libras.

Houve esposas que "quase" alcançaram o título. Alice era mulher do presidente cuja posse o movimento de 1930 impediu: Júlio Prestes. Em 1969, Mariquita Aleixo seria primeira-dama, porém, os militares acharam melhor que o vice não seguisse a Constituição. Importante trazer à memória o nome de Risoleta Neves, mulher de grande equilíbrio em meio a crises. O tamanho da crônica não permite citar todas.

Tudo o que eu falei antes evidencia um mundo ainda precisando repensar valores. As mulheres dos presidentes são lembradas, dominantemente, por serem bonitas ou não, simpáticas ou não, tatuadas ou não e bem menos se foram pessoas autônomas. Ao lado dos fatos isolados que alcançaram a mídia, existem imensos silêncios sobre o feminino e o poder.

A própria memória de tudo já mostra opções de gênero a serem repensadas. Independente da beleza, simpatia ou discrição: ainda existe um mundo para uma primeira-dama? A opção política de um marido deve envolver a esposa necessariamente? Seriam funções cerimoniais inócuas ou seria o símbolo de perpetuação de um domínio já insustentável na prática? Uma primeira-dama seria um mau exemplo para as meninas que pensam em carreira e autonomia ou algo que devemos preservar?

A própria palavra "dama" implica o controle aveludado do cavalheirismo? Por fim, lembremos de Gauthier Destenay, casado com o primeiro-ministro de Luxemburgo, Xavier Bettel, que posou para fotos e participou de atividades ao lado de outras primeiras-damas em reuniões atendidas por seu marido. São boas questões para o debate. É preciso ter esperança.

LEANDRO KARNAL



04 DE MAIO DE 2019
COM A PALAVRA

COM A PALAVRA

Aos 72 anos, Paul Auster é um dos grandes autores norte-americanos em atividade. Escritor, roteirista e ele próprio diretor independente de filmes, já escreveu quase três dezenas de livros, entre memórias, romances, novelas e poemas. Algumas de suas obras são apontadas como essenciais na vertente pós-moderna da literatura, que brinca com gêneros narrativos subvertendo-os ao escrever histórias conscientes de seu caráter de ficção. Sua obra mais recente é o ambicioso calhamaço 4 3 2 1, lançado em 2017 (no Brasil, pela Companhia das Letras) e finalista do Man Booker Prize, no qual quatro versões do mesmo personagem vivem vidas diferentes de acordo com circunstâncias pontuais de sua existência. Auster estará em Porto Alegre em junho para participar do Fronteiras do Pensamento. Por telefone, de sua amada Nova York, ele concedeu a seguinte entrevista.

EM 4 3 2 1, O SENHOR CONTA QUATRO VARIAÇÕES DA HISTÓRIA DO MESMO PERSONAGEM, O JOVEM FERGUSON. SEUS RECENTES LIVROS DE MEMÓRIAS (DIÁRIO DE INVERNO E O AINDA INÉDITO NO BRASIL REPORT FROM THE INTERIOR) REPRESENTARIAM UMA QUINTA VARIAÇÃO DA HISTÓRIA DE FERGUSON, JÁ QUE MUITO DO PANO DE FUNDO É COMUM?

Não sei. Você chamou esses dois livros de "memórias". Eu os chamo de "ensaios autobiográficos". Porque não sei o que são. Não são memórias, não são autobiografias; são livros. Livros sobre estar vivo, e que usam minha própria vida como pretexto para explorar coisas diferentes. E 4 3 2 1 não é um livro autobiográfico. Ferguson não sou eu, nenhum deles é. Ele se parece comigo em algumas coisas, vem do mesmo lugar que eu e vive no mesmo tempo que eu. Mas toda a história é imaginada. Há duas ou três coisas que tirei de minha experiência pessoal, como o episódio em que Ferguson e seu time de basquete de jovens brancos vai jogar contra uma equipe de garotos negros em outro bairro. O que acontece com Ferguson no romance é que ele, cada um deles, é muito precoce, e pode fazer coisas em uma tenra idade das quais muitas pessoas não são capazes. Eu não fui precoce. Levei muito mais anos para amadurecer ao ponto de qualquer um deles.

A ESTRUTURA DE 4 3 2 1 É ENGENHOSA. COMO O SENHOR CHEGOU À IDEIA DESSA FORMA, DE UM ROMANCE QUE É, NA VERDADE, QUATRO?

Acho que venho dando voltas em torno dessa ideia há muitos anos, mas não sabia bem o que estava pensando. Sempre fui fascinado pelas forças da contingência, pelas coisas que poderiam ter acontecido e não ocorreram. Penso muito nisso, não apenas nas circunstâncias de minha própria vida, mas nas dos outros, e mesmo na história. Por exemplo, as guerras que poderíamos ter travado mas não lutamos, por uma razão ou outra. A crise dos mísseis em Cuba, em 1962, é um bom exemplo. Todos pensavam que iríamos (os EUA) à guerra, e então não fomos e a crise foi evitada. De qualquer modo, me veio a ideia de como seria interessante fazer um livro sobre as vidas paralelas da mesma pessoa. Foi um pensamento aleatório, nem mesmo um esboço de nada, mas, tão logo ele apareceu, Ferguson surgiu em minha mente, ainda sem que eu soubesse muito bem quantas variações haveria ou por quanto tempo a história seguiria. 

Meu primeiro pensamento foi avançar bastante ao longo de suas vidas, mas, assim que comecei a escrever, percebi que esse livro precisaria ser sobre ser jovem, crescer. E os mais fascinantes anos da vida de uma pessoa são 20 e poucos. Depois disso, começamos a nos tornar quem somos. Nos 20 e poucos, estamos sempre mudando, evoluindo, experimentando, ainda não sabemos de verdade quem somos. Por isso decidi focar o livro nesses anos. E que bom que fiz isso, porque olhe como ele ficou longo só com eles. Se acompanhasse Ferguson até a velhice, estaria escrevendo até hoje (risos).

O SENHOR JÁ ESCREVEU SOBRE HOMENS VELHOS REFLETINDO SOBRE ESCOLHAS ERRADAS DA JUVENTUDE. É ALGO QUE SE VÊ EM TIMBUKTU, O LIVRO DAS ILUSÕES, NOITE DO ORÁCULO, DESVARIOS NO BROOKLYN. COMO O SENHOR DECIDIU SE VOLTAR PARA UM RETRATO MAIS URGENTE E MENOS MEDIADO DA JUVENTUDE EM LIVROS MAIS RECENTES?

Acho que, à medida que envelhecia, eu quis explorar a questão do envelhecimento. Foi algo que se tornou interessante para mim. Agora que me tornei velho de verdade, as coisas da juventude me parecem mais interessantes, e acho que meus últimos livros se dirigem a isso. Se você pensar, já Invisível é um livro em parte sobre personagens jovens. Sunset Park também. Diário de Inverno cobre um bocado do território de minha infância, e, depois dele, ainda veio Report from the Interior, que é todo sobre ser jovem. 

Escrever esses dois livros de não ficção biográfica preparou o terreno para 4 3 2 1, embora eu não tenha entendido isso na época. Especialmente em Report from the Interior, eu estava explorando coisas da minha infância. Pela primeira vez, de modo bem consciente, tentei buscar na escrita coisas que havia perdido. E não consegui recuperar todas elas, só umas poucas. Então, penso que, no final, estava pronto emocional e mentalmente para mergulhar na infância em uma obra de ficção.

EM TODAS AS VERSÕES, FERGUSON É, COMO O SENHOR COMENTOU, JOVEM INTELIGENTE E PRECOCE, COM UMA SENSIBILIDADE E UM PENDOR PARA A ARTE. POR QUE NÃO HÁ UMA VERSÃO BURRA DO PERSONAGEM?

Porque geneticamente eles ainda são a mesma pessoa. Seria muito fácil escrever um livro sobre as vidas de um mesmo personagem em que, em uma, ele vira um astronauta, em outra, vira um assaltante de banco e, em uma terceira, vira um padre. Mas isso seria absolutamente implausível. Então, meus Ferguson dividem muitas coisas. Eles têm o mesmo corpo, no fim das contas, o mesmo cérebro, o mesmo interesse em música, em livros, filmes, são todos do mesmo sexo. São muito parecidos. Mas, à medida que vão ficando mais velhos, devido às circunstâncias e ao ambiente que são um pouco diferentes em cada caso, evoluem de modo diverso, e, quando terminam seu crescimento, têm personalidades diferentes.

O PROTAGONISTA DE 4 3 2 1 VIVE MOMENTOS TURBULENTOS DOS ANOS 1960. O SENHOR, QUE TAMBÉM PASSOU POR AQUELA ÉPOCA MAIS OU MENOS NA MESMA IDADE DE SEU PERSONAGEM, VÊ ALGUM PARALELO ENTRE AQUELE MOMENTO E AGORA?

Há algumas coisas que ainda são as mesmas, e é singular o quão pouco as coisas mudaram nos últimos 50 anos. Meu título original para o livro deveria ter sido Ferguson, o nome do protagonista, como em David Copperfield. E, quando eu já vinha escrevendo o livro há um ano, um ano e meio, um policial baleou e matou um jovem negro em uma cidade no Missouri chamada Ferguson - uma cidade da qual eu nunca havia ouvido falar, que, de repente, estava em toda parte, em todos os noticiários, tornando-se parte da história da luta pelos direitos civis nos EUA, como Selma ou Montgomery. E aí eu não podia mais usar esse título. Então, o presente afetou o que eu estava fazendo em um livro sobre o passado.

MAS E COM RELAÇÃO AO ESPÍRITO DA ÉPOCA? HÁ VÁRIOS MOMENTOS QUE FERGUSON SENTE COMO TRAUMÁTICOS. QUE COMPARAÇÃO O SENHOR FAZ COM EVENTOS ATUAIS?

Estamos em outro momento de conflito, um tipo de conflito diferente. Acho que a principal diferença para mim, e talvez seja porque estou mais velho, é que, nos anos 1960, mesmo partidos como os EUA estavam, e mesmo envolvidos em uma guerra estúpida e terrível no Vietnã, havia esperança no futuro. Eu realmente achava que as coisas iriam melhorar. Hoje, por mais que eu tente trabalhar duro para dar minha contribuição, tenho medo. Acho que podemos melhorar, mas não tenho certeza. Estamos correndo um sério perigo, o maior desde a Guerra Civil de 1861. Estamos divididos e incapacitados de conversar uns com os outros. E, por causa do sistema eleitoral norte-americano, temos hoje no cargo um governo que não é da maioria, mas da minoria, e está se afastando tanto dos ideais do país que está se tornando irreconhecível. Isso é assustador. Os EUA têm de lutar arduamente para recuperar a sanidade e tentar ser um país de todos outra vez.

HÁ ALGUNS ANOS, O SENHOR DEU UMA DECLARAÇÃO POLÊMICA À REVISTA SALON COMPARANDO A EXTREMA-DIREITA DO PARTIDO REPUBLICANO A JIHADISTAS. COMO VÊ ESSA DECLARAÇÃO AGORA, COM DONALD TRUMP NA CASA BRANCA?

Agora está ficando pior. Quando Trump foi eleito, concedi uma entrevista ao Channel 4 da TV britânica e pensei ali numa metáfora que considero válida. Eu disse que, desde a Guerra Civil, nós, americanos, tivemos grande fé na solidez de nossas instituições, e por instituições eu digo a Constituição, o Estado de Direito e o sistema de governo. Acreditávamos que eram sólidas como um edifício de granito. 

Mas e se todo esse tempo esse edifício não era feito de pedra, e sim de sabão? E se Trump e sua equipe viessem e ligassem suas mangueiras e esse edifício começasse a derreter, virar espuma e a escorrer pelas sarjetas? O que aconteceria? Bom, posso dizer, dois anos e meio depois, que o edifício está derretendo, e Trump está desmontando o governo pedaço por pedaço. É uma coisa horrível de se ver. Rezo para que ele seja derrotado em 2020 e esteja fora da Casa Branca, bem como os republicanos de extrema-direita. 

Chamei-os de jihadistas, em primeiro lugar, porque estavam matando o governo, mas também porque estavam matando pessoas. Eles recusam até a ideia de saúde pública, o que é literalmente matar as pessoas, e não assumem responsabilidade por isso. São assassinos silenciosos de inocentes que precisam de ajuda mas não a recebem porque esses políticos são tão gananciosos e mesquinhos e cruéis que não se importam com essas mortes.

ISSO ECOA DE FORMA DIVERSA EM ALGUÉM COMO O SENHOR, QUE SEMPRE FEZ O ELOGIO DA MAIOR CIDADE NORTE-AMERICANA, NOVA YORK, COMO UMA EXPERIÊNCIA DE DIVERSIDADE E INCLUSÃO QUE SE DIFERENCIAVA MUITO DO ASPECTO ALGO INSULAR DA MENTALIDADE AMERICANA?

Eu ainda acredito nisso. Nova York claramente não é um lugar perfeito, eu jamais argumentaria que vivo em um paraíso. É um lugar maluco, difícil e, em certos aspectos, muito agressivo, mas o fator fundamental de Nova York é que o mundo todo vive nessa cidade, pessoas do mundo todo. Provavelmente há mais brasileiros em Nova York do que em algumas cidades do Brasil. E, mesmo com todo o mundo na cidade, as pessoas não estão constantemente matando-se umas às outras como em Sarajevo, Belfast, Jerusalém. Para viver em Nova York, você precisa aceitar a alteridade. E essa é uma tarefa fundamental, creio, em qualquer democracia: reconhecer os direitos de pessoas que não são iguais a nós, reconhecer a humanidade comum de todos. Você quer cultuar seu Deus e eu quero cultuar o meu, tudo bem, mas eu não posso te matar porque o seu Deus não é o meu. Não é a forma democrática de agir.

COMO VIU A ELEIÇÃO DE TRUMP, UM HOMEM A SEU MODO TAMBÉM LIGADO A NOVA YORK, E QUE, NO ENTANTO, SE ELEGEU APELANDO PARA O OPOSTO DESSA IDEIA?

Sim, Trump cresceu em Nova York, no Queens. E se mudou para Manhattan como um jovem empresário. Sempre quis ser aceito pelos ricos de Manhattan, mas nunca foi. Porque desde o princípio ele sempre foi uma pessoa desagradável, feia, estúpida e egoísta. Além de maluco. Ele provavelmente é a pessoa mais maligna e narcisista que eu já vi na vida pública deste país. Ele é odiado em Nova York. Nós, os nova-iorquinos, não o reconhecemos como um dos nossos. Na eleição de 2016, ele teve apenas 18% dos votos de Nova York, a maioria deles em Staten Island, que é um reduto republicano. Não volta à cidade há anos, porque sabe que, se mostrar a cara, haverá multidões nas ruas protestando contra ele.

HÁ UMA ONDA DE EXTREMA-DIREITA QUE PARECE ESTAR SE ALASTRANDO NA POLÍTICA MUNDIAL. UMA DERROTA DE TRUMP EM 2020, COMO O SENHOR DIZ ESPERAR, MUDARIA ISSO?

Trump tem sido muito perigoso também para o resto do mundo. Seu exemplo encorajou outros políticos do mesmo tipo - inclusive no Brasil. Trump encoraja seus partidários a declararem furiosamente coisas que antes eles teriam apresentado com mais cautela. Acho que, se ele for derrotado, será bom para todo o planeta. Mas estou evitando a sua questão, eu sei. O que quero dizer é que, sim, há uma crise em marcha no mundo que tem a ver com algo muito maior do que qualquer um de nossos países isoladamente. 

É uma questão global, e penso que o problema é que as pessoas entenderam hoje que o sistema no qual vivemos não está funcionando de modo justo para a maioria das pessoas. Os 400 homens mais ricos dos EUA possuem mais do que os 100 milhões de pobres do país. Quando vivemos em um mundo tão desigual, algo está muito errado, e penso que muito do que vem acontecendo são manifestações de raiva e frustração. 

Mas o problema é que isso não ajuda a compreender o sistema ou a apresentar uma ideia de mudança, então estamos caindo em ideias velhas e perigosas. As pessoas estão com medo, então, quando aparece um homem forte prometendo matar todos os bandidos, fazer uma faxina, "me ouçam e vocês ficarão bem", as pessoas aceitam isso e embarcam na ideia. Mas é uma coisa muito perigosa. No século 19, quando o capitalismo e a industrialização estavam surgindo, o socialismo também surgiu, trazendo uma forma oposta de pensar as grandes questões, com Marx e outros. Não temos um Karl Marx hoje. Não emergiu ninguém tentando compreender a situação e propor uma alternativa. Por isso parecemos estar emperrados.

O SENHOR EXERCEU UMA PARCERIA COM WAYNE WANG NO CINEMA, EM CORTINA DE FUMAÇA E SEM FÔLEGO, FILMES COM HISTÓRIAS COTIDIANAS EM UMA TABACARIA QUE REPRESENTAVA UM PONTO DE ENCONTRO PARA UMA COMUNIDADE. COMO VÊ O ATUAL ESTADO DO CINEMA, EM QUE ESSE TIPO DE FILME TEM DIFICULDADE PARA CAVAR ESPAÇO NUM MERCADO DOMINADO POR BLOCKBUSTERS DE SUPER-HERÓIS?

Esses dois filmes e mais os dois que eu dirigi (O Mistério de Lulu, de 1998, e Kimera: Estranha Sedução, de 2007) também precisaram lutar por seu espaço. Mas estão voltando: acabaram de ser relançados em DVD e Blu-ray (nos EUA). Minha sensação é que a indústria do cinema, o negócio, matou o cinema como forma. Esses blockbusters... Eu não os assisto, não consigo. Eles são para crianças. Ainda há um bom número de grandes cineastas em atividade, mas, nos EUA, eles estão marginalizados. Ainda há excelentes diretores ao redor do mundo, na América do Sul, na Ásia. E há bons filmes sendo feitos. Mas eles são cada vez menos populares, não são muito vistos. E é por isso, penso, que os festivais de cinema se tornaram tão populares. Há cada vez mais deles - e é onde o cinema independente está sendo visto, porque eles não estão mais ocupando as salas comerciais de cinema. Há um grande mundo e um pequeno mundo. Eu gosto mais do pequeno.

MESMO NO GRANDE MUNDO, TÊM SIDO LOUVADAS NOS ÚLTIMOS TEMPOS AS NOVAS POSSIBILIDADES E A DIVERSIDADE DE CANAIS DE STREAMING, EMBORA SEJA UM NEGÓCIO QUE PARECE MOVIDO PELA NOVIDADE. O QUE O SENHOR PENSA?

O streaming é errático. Você nunca sabe o que tem lá e não consegue ver o que quer quando quer, o que é uma frustração. Mas ainda temos, ao menos nos EUA, a alternativa dos DVDs, por exemplo. E também algo muito bom chamado Turner Movie Classics, uma estação de TV que exibe, 24 horas por dia, sem comerciais, filmes clássicos. A maioria deles são norte-americanos, mas há muitos estrangeiros, e há programações especiais para filmes mudos muito antigos. Minha esposa (a também escritora Siri Hustvedt) e eu vemos esse canal o tempo todo. Nos tornamos grandes conhecedores do que foi feito no cinema norte-americano dos anos 1930, uma era maravilhosa, exuberante. Temos também cinematecas, museus, mas ainda é um ramo marginal, não faz mais parte da cultura popular de massa. Não posso fazer nada sobre isso a não ser ficar triste.

EU GOSTARIA DE VOLTAR A UM PONTO QUE O SENHOR COMENTOU, O DE QUE A INDÚSTRIA DO CINEMA MATOU OS FILMES. O QUE O SENHOR QUER DIZER COM ISSO?

Mesmo sob o regime do antigo sistema dos estúdios de Hollywood, horrível e cruel como ele era, em muitos aspectos, as pessoas no comando desses estúdios eram as responsáveis pelas decisões sobre os filmes. O problema hoje em dia é que os estúdios são parte de grandes corporações, e aqueles no comando são apenas empregados, todos com medo de serem demitidos se fizerem uma escolha errada com um filme. E eles tendem a fazer o que a maioria faria nessa situação: apostar no que parece mais seguro, perpetuando assim a mediocridade que temos - aliás, é pior do que mediocridade, é ruindade mesmo - porque estão assustados demais para correr riscos. É sempre uma situação ruim quando os responsáveis pelas decisões não têm o controle do que estão fazendo.

SEU BREVE ROMANCE VIAGENS NO SCRIPTORIUM ABORDA UM HOMEM DESMEMORIADO SENDO CUIDADO POR ANTIGOS AGENTES QUE ENVIOU EM MISSÕES VARIADAS. E HÁ UMA SUGESTÃO DE QUE ESSE HOMEM TALVEZ SEJA O SENHOR, E OS AGENTES, SEUS PRÓPRIOS PERSONAGENS. O SENHOR SE CONSIDERA ESSA ESPÉCIE DE M DE JAMES BOND. MANDANDO SEUS PERSONAGENS A MISSÕES DE VIDA OU MORTE?

Não, não. O fato é que, como romancista, quando você vive com seus personagens por tanto tempo, eles realmente se tornam vivos para você. Tão vivos como pessoas reais. Quando você termina o livro, eles não convivem mais com você, mas - e é essa a coisa engraçada - os personagens parecem ter continuado com suas próprias vidas. E você se pega pensando no que estariam fazendo. Eu não penso muito nos meus livros já escritos, mas penso muito nos meus antigos personagens. Viagens no Scriptorium é um livrinho estranho. O protagonista, Mr. Blank, é um homem velho, e sua mente não está mais funcionando muito bem. Além disso, estão dando a ele muitas drogas, então ele não está pensando com clareza. 

O livro tem muito a ver com reminiscências em idade avançada, mas também pode ser o conto de um sequestro. Ele pode ser lido de muitas formas, então eu não gostaria de dizer que uma é mais importante do que a outra. Sabe, romancistas são pessoas estranhas. Criamos seres imaginários que parecem estar vivos e saem pela vida. E seus livros são obras que vão viver mais do que você. Você escreve um livro e, mesmo anos depois de sua morte, enquanto estiver sendo lido, aqueles personagens viverão outra vez.

CARLOS ANDRÉ MOREIRA


04 DE MAIO DE 2019
DRAUZIO VARELLA

FOI BOM TE ENCONTRAR

Médicos dão consultas onde quer que estejam. Por causa da exposição na TV, meu caso é mais grave. Sou abordado na rua, na padaria, na fila do cinema, em elevadores lotados e banheiros de aeroportos.

Evito dar moleza em espaços públicos, porque haverá de aparecer alguém com dúvidas urgentes que exigirão respostas complexas: "Minha médica disse que preciso fazer reposição hormonal, o que você acha?"; "Estou tomando anabolizante na academia. Faz mal?"; "Quem fuma maconha perde a memória?"; "Você é a favor da dieta vegana ou da paleolítica?"; "Já tentei de tudo. Como eu faço para parar de fumar?".

Pouco vou a festas, a probabilidade de conversar com alguém interessante é pequena, comparada à de escutar ladainhas de achaques crônicos, descrições de dores nos mais insignificantes detalhes, pedidos de opinião a respeito de doenças que desconheço e histórias mórbidas que ocorreram em familiares do interlocutor.

Muitos descrevem com riqueza de pormenores e visível prazer as agruras enfrentadas em hospitalizações - se forem internações em UTI, então! Outros se vangloriam de peripécias fisiológicas que os tornam únicos: "Meu médico disse que nunca viu responder a um antibiótico como eu"; "Eu não gripo"; "Não faço febre"; "Tenho alergia a tudo". E, com o maior orgulho: "Eu cicatrizo que é uma maravilha".

Na correria em que vivo, quando cruzo com alguém que mal conheço e ouço a frase "Foi bom te encontrar", preciso conter o ímpeto de perguntar: "Bom para quem?". É certeza de que virão pedidos de condutas médicas que não terei condições de dar, a partir dos dados imprecisos que serão fornecidos.

Antes de entrar num táxi, tomo a precaução de me preparar psicologicamente para fazer diagnósticos, receitar medicamentos, sugerir exames laboratoriais, escutar histórias de mortes e de sofrimentos de amigos e vizinhos.

Geralmente, começa assim: "O senhor não é aquele doutor da televisão?". Quando respondo que sim, o motorista se esforça para acertar meu nome: Claudio? Grauço? Braulio? Drazo? E por aí vai. Às vezes, a confusão chega mais longe. Entendo que por causa da calvície me confundam com o Marcos Caruso e com o saudoso Raul Cortez, mas achar que sou Pedro Bial ou o Caco Barcellos, proprietário de uma vasta cabeleira?

A segunda frase costuma ser de gratidão, não a mim, claro, mas à Providência. "Foi Deus quem fez o senhor entrar no meu táxi".

Em seguida, vem uma enxurrada de questões: "Minha avó descobriu que está com câncer de intestino. Quanto tempo de vida?"; "O senhor tem um remédio bom para deixar um hipertenso com 12 por 8?"; "Como faço para perder essa barriga?"; "Posso tomar Viagra e beber cerveja?".

Meses atrás, um deles se queixou de uma lesão no pênis. A descrição foi de pouca valia: "É uma feridinha bolhosa que não é pequena nem grande, não dói nem coça, mas arde". Perguntei se ardia muito. "Parece que caiu uma gota de pimenta malagueta". Difícil imaginar a sensação para quem jamais derrubaria pimenta num lugar desses.

Fiquei em situação delicada. De um lado, a vontade de ajudar o rapaz e a convicção de que se visse a lesão faria o diagnóstico; de outro, o inconveniente: ele precisaria parar o carro em plena rua Maria Antônia, no centro de São Paulo, abrir a calça e expor o pênis, cena fatalmente mal interpretada pelos alunos do Mackenzie, àquela hora aglomerados nas imediações da faculdade. Uma reputação de 70 anos corria risco de cair por terra num piscar de olhos.

Pensei em sugerir que encontraríamos privacidade um pouco mais à frente, numa das ruas do Pacaembu, mas abandonei a ideia. Seria pior se alguém nos surpreendesse numa rua deserta. Como convencer o bisbilhoteiro de que se tratava de um exame médico?

Seja o que Deus quiser, pensei. Pedi que estacionasse logo no início da Avenida Higienópolis, apesar do vaivém de transeuntes na calçada.

A lesão era formada por bolhas pequenas no prepúcio, a pele que recobre a glande: "Isso é ´herpes simples". O diagnóstico não teve o dom de tranquilizá-lo, pelo contrário, despertou uma ponta de revolta:

- O senhor diz simples porque não sabe como incomoda.

Expliquei que Herpes simples era o nome do vírus que lhe fora transmitido por contato sexual, informação que o deixou ainda mais irritado:

- De quem eu peguei isso? - Agora, você me fez uma pergunta difícil.

DRAUZIO VARELLA


04 DE MAIO DE 2019

CHRISTIAN DUNKER

PARA QUE SERVE A FILOSOFIA?

Durante alguns anos, dei aulas de filosofia em um curso noturno, com classes de mais de 120 alunos. No primeiro dia, fazia esta declaração: "Aqueles que acham que a filosofia serve para alguma coisa podem sair por aquela porta". A filosofia é justamente uma forma de olhar para a vida e para o mundo suspendendo esta pergunta obscena: para que serve? Hoje, percorro as escolas de São Paulo tentando ajudar a entender porque nossos alunos se cortam, se deprimem, consomem álcool e drogas além da conta (nota técnica: sou a favor da descriminalização de drogas) ou por que as taxas de solidão e suicídio sobem ano a ano no Brasil (2,3% no último caso, no ano passado).

Uma vida feita de utilidade e serventia é uma vida vazia. Volte ao último velório, a última pessoa querida que te deixou, e tente se lembrar se sua pergunta naquela ocasião foi: para que serve? Provavelmente sua inquietação te fez pensar em por que devotamos nossa vida a tanta serventia, utilidade e preocupação, esquecendo-se da colocação de Jesus: "Marta, por que te preocupas? Só há uma coisa com que se preocupar e Maria escolheu a melhor delas e que não lhe será tirada".

Na mesma semana em que o presidente Bolsonaro anunciou a redução de verbas para o ensino de Filosofia e Sociologia, dando continuidade ao plano de redução de investimentos em ciência, cultura e universidades, escrevi uma coluna sobre Marxismo Cultural e Sustentabilidade, aqui na Zero Hora. Tentei mostrar como a obsessão com o que serve para você agora, em termos de aquecimento ambiental, uso de agrotóxicos ou concentração de renda, pode ser desastroso para seu neto no futuro próximo. Mas disse isso de modo irônico, o que atraiu a ira de gregos e troianos. Alguns repostando por causa do título, em paródia involuntária de si mesmos.

Outros criticando o uso da ironia. O leitor Sergio Lewin me escreve perguntando: "Não lhe ocorre, nem por um momento, que o senhor possa ser um agente perfeito deste marxismo cultural, tema de sua coluna?". Ora, a ironia consistiu em mostrar que bons argumentos e fatos podem ser facilmente destruídos pela designação crítica de quem é a pessoa que está falando. Uma demonstração prática de como "marxista cultural" funcionou como expressão vazia, usada para privar você de cultura e ciência. Veja como é fácil fazer você mesmo bater palmas, agradecido por ser mantido em sua soberba ignorância.

Mas onde vamos aprender a criar e nos defender de ironias? Quem vai ensinar que a vida pode ser mais do que uma corrida entre coisas e pessoas, úteis e inúteis? Quem vai ensinar que às vezes as palavras têm dois sentidos? ...Led Zeppelin? Nessa mesma semana, a editora Boitempo, que edita autores como Karl Marx, foi impedida de expor seus livros na Universidade Mackenzie, em São Paulo. As bobagens inconsequentes que o presidente diz e desdiz vão e voltam, mas o uso que os antifilósofos fazem disso tem um efeito real na burrice dos seus netos.

Quando seu filho te falar que a escola está insuportável, que a vida tornou-se uma miséria ou perdeu todo o seu sentido, antes de levá-lo ao psicólogo, pergunte a si mesmo: quantas aulas de Filosofia esta escola oferece por semana?

CHRISTIAN DUNKER


04 DE MAIO DE 2019
J.J.CAMARGO

DAS NOSSAS CARÊNCIAS

Nunca, em qualquer época, foi tão fácil a interação das pessoas. Certo? Completamente errado. A multiplicidade de formas de comunicação pode até ter criado a sensação, que cada vez mais se percebe como falsa, de que estamos juntos. Na verdade, jamais estivemos tão separados e solitários. Os seguidores das redes sociais, incorporados aos borbotões, podem criar a ilusão confortadora do quanto somos populares, mas isso não tem nada a ver com a disponibilidade de parceria, de alguém que nos ouça e, no máximo de fantasia, que nos afague e console. Esta solidão epidêmica certamente tem múltiplas causas, mas nada impressiona mais do que o nível de angústia das pessoas, recendendo a abandono, implorando por uma conversa. Se não for pedir demais.

A revisão das fichas de ambulatórios do SUS e de convênios mostra um percentual altíssimo de consultas sem patologias orgânicas evidentes, em que os pacientes, com dificuldades variáveis de expressar suas premências, acabam admitindo que estão carentes de quem as ouça. E então o médico é visto como um ouvinte, que além de gratuito nestas circunstâncias, ainda é potencialmente qualificado, ainda que, muitas vezes, não tenha treinamento nem vocação para terapias emocionais. Comove o grau de abandono, especialmente entre os mais velhos, de escassos vínculos afetivos, e consumidos de solidão, esta doença cruel que, há algum tempo, foi incluída como entidade nosológica no Código Internacional de Doenças (CID) como Z 60.2.

Os solitários, na comparação com os beneficiados por relações numerosas e afetivas, envelhecem mais cedo, perdem mais precocemente a capacidade cognitiva, adoecem mais e, quando isso acontece, sofrem mais porque misturam a angústia da doença com a tragédia da solidão. Não por acaso, há um índice crescente das taxas de suicídio, entre velhos desiludidos e, quase inexplicavelmente, entre jovens sem motivação para envelhecer.

Então, não surpreende que, neste mundo de carências tão explícitas, qualquer gesto de afago, seja visto como uma declaração de amor, numa hipervalorização que só confirma o quanto estamos desesperados na busca de quem restaure a nossa combalida autoestima.

Um dia desses, saía da UTI e parei para segurar a porta por onde passava uma maca empurrada por duas jovens sorridentes, levando uma paciente idosa. Impressionado com o sorriso lindo da paciente e a serenidade do seu par de olhos muito verdes, comentei com uma das moças:

- Tu viste a beleza do olho dela?

Uma semana depois, uma senhora de 78 anos sentou na minha frente para uma consulta, encaixada na agenda por grande insistência. Elegantemente vestida, com uma peruca castanha substituindo a touca da quimioterapia e sobriamente maquiada, parecia outra pessoa, exceto pelo olhar inconfundível. Pediu desculpa por ter insistido no agendamento e foi sucinta:

- Estou aqui só pra lhe dizer que naquele dia em que nos cruzamos na saída do bloco cirúrgico, eu estava saindo de uma punção e sentia muita dor para respirar, até que o senhor foi carinhoso comigo e a minha dor foi embora. Então, tendo que voltar para a minha terra e aproveitar o pouco tempo que me resta, eu não podia ir embora sem lhe dizer que seu elogio tem poder analgésico e lhe pedir que siga espalhando-o por aí!

E saiu, disfarçando uma lágrima que conseguiu deixar o verde daquele olhar ainda mais bonito.

J.J.CAMARGO


04 DE MAIO DE 2019
DAVID COIMBRA

O melhor e a mais bela

O Guga Chacra anda dizendo que o Messi é melhor do que Pelé e muita gente tem concordado com isso. Me irrita. O Guga Chacra, se você não sabe, é comentarista de política internacional da Globo News. Ele aparece sempre descabelado, como se tivesse vindo para a TV de moto e sem capacete. Um estilo. Corre a lenda de que a graciosa atriz Natalie Portman, certa feita, abordou o Guga Chacra em uma festa com uma conversinha do tipo:

- Frequentas a casa?

E ele só levantou uma sobrancelha, disse "sorry" e explicou:

- Já tenho namorada?

No IAPI o chamariam de galo cinza.

O Guga Chacra conhece muito de política internacional. Se você quiser saber de Oriente Médio, fale com ele. Se quiser saber de quem é melhor do que Pelé, fale comigo.

Direi quem foi melhor do que Pelé.

Se bem que essa história de "o" melhor é relativa. Quem foi melhor: Leonardo da Vinci ou Michelângelo? Sexta, no Timeline, lembrei-me desses dois gênios, a propósito dos 500 anos da morte de Leonardo. Eles eram rivais, embora Michelângelo fosse bem mais jovem. Na verdade, suspeito que Michelângelo invejasse Leonardo. Ambos eram homossexuais, mas Leonardo elevava-se a 1m90cm de altura, era tão forte que vergava uma ferradura com as mãos nuas e tão bonito que enfeitiçava homens e mulheres, enquanto Michelângelo era baixo, meio corcunda e tinha o nariz quebrado por um soco que levara em uma briga juvenil. Leonardo estava sempre alegre e vivia cercado de pessoas, e Michelângelo, casmurro e misantropo, afastava-se delas.

Se fosse escolher um dos dois como parceiro de bar, para com ele partilhar chopes cremosos, gelados e dourados, não tenho dúvida de que preferiria Leonardo, mas, como artista, sou mais Michelângelo. O David, o Moisés, a Pietà e o teto da Capela Sistina são talvez as maiores obras da arte humana de todos os tempos, amém.

Mas é claro que você pode ficar com a Monalisa e a Última Ceia, tudo bem. Não fica ruim para você.

Recordo-me agora de outra rivalidade célebre, duas grandes atrizes do cinema antigo: Joan Crawford e Bette Davis. Elas se odiavam de uma forma que só mulheres conseguem odiar. Bette era sofisticada e vinha de uma família rica. Joan era belíssima e vinha de uma família pobre.

A propósito de Joan: uma vez, fui entrevistar o ex-técnico, ex-jogador, ex-juiz e ex-comentarista Oswaldo Rolla, o Foguinho, em seu apartamento na Senhor dos Passos. A folhas tantas, Foguinho decidiu me mostrar imagens do seu passado. Colheu uma caixa de papelão do fundo de um armário e de lá foi tirando recortes de jornais e fotos de revistas que guardara por décadas. Uma delas era de Joan Crawford. Foguinho olhou para a foto por algum tempo, suspirou e disse:

- Minha namorada?

Joan exercia tal poder sobre os homens e, provavelmente por isso, Bette a detestava. Um dia, Bette disse sobre Joan:

- Ela dormiu com todos os astros da MGM, menos a Lassie.

Em certo momento, as duas se interessaram pelo mesmo homem. Quem ele escolheria? A mais bonita ou a mais requintada? Joan, a mais bonita, ganhou. Mais tarde, ambas acabaram participando de um mesmo filme. Numa cena em que Bette tinha de esbofetear Joan, ela não perdeu a chance e mandou-lhe A MAIOR BOMBA na cara. A outra teve de ir para o hospital.

Joan acabou morrendo antes de Bette. Entrevistada a respeito, Bette declarou:

- Nós não devemos falar coisas ruins sobre os mortos. Por isso, digo: Joan Crawford está morta, que bom.

Bette Davis era A Malvada.

Mas claro que essas duas não foram as maiores atrizes da história do cinema, nem as mais belas. Apenas alimentavam a maior rivalidade. Pelé experimentou inúmeras rivalidades, embora não as alimentasse. Antes de ele jogar, diziam que Friedenreich, Zizinho ou Di Stéfano podiam ser melhores. Enquanto jogava, a comparação era com Garrincha. Ele, Pelé, a objetividade, o profissionalismo, a fortuna, o sucesso em tudo o que fazia. Garrincha, a alegria irresponsável, o talento inato sem esforço, a ingenuidade, o triste fim.

Uma vez, Garrincha, então jogador do Botafogo, foi visitar a concentração do Cruzeiro de Minas, entrou no quarto de Dirceu Lopes e afirmou:

- Vim ver o maior jogador do Brasil.

Não era. Dirceu Lopes era bom, mas nunca chegou perto de Pelé, nem do próprio Garrincha e nem de outros tantos da época, como Gérson e Rivellino.

Depois que Pelé parou, os argentinos ousaram dizer que Maradona era melhor. Também não era. Como não o é Messi.

Melhor do que Pelé? Só um: Laerte, o Urso. Craque do Próspera, de Criciúma, goleador irresistível, driblador imparável, velocista inalcançável, Laerte, o Urso, só não refulgiu na Seleção Brasileira porque não conseguia jogar fora da sua cidade natal. Era uma coisa que tinha. Uma limitação. Um trauma, talvez. Laerte, o Urso: dentro de Criciúma, melhor do que Pelé, muito melhor do que Messi. Toma essa, Guga Chacra!

DAVID COIMBRA

04 DE MAIO DE 2019
MÁRIO CORSO

As raízes do ódio

Semana passada, no caderno Vida, J.J. Camargo dedicou-se a entender os odiadores. Esses personagens que enchem as redes sociais, e as caixas de comentários dos sites, com esgoto. Segundo ele, essa praga sempre existiu, porém hoje ganha visibilidade graças à internet. A tese dele é que o ódio seria a pauta de quem não tem inserção real no mundo: pela falta de protagonismo, passam a agredir quem a consegue. Sentem-se injustiçados, incompreendidos, e atacam quem surge ao acaso na sua mira. Seriam medíocres e incompetentes a ladrar para a caravana que passa.

Pego carona no tema pela importância do assunto. Acrescentaria: a raiz do ódio está na sensação de impotência do odiador. Hannah Arendt dizia que, na política, quanto mais isolado, desenraizado e ilegítimo um grupo for, mais seus métodos serão violentos. Quando um partido passa a ter legitimidade, raízes sólidas na comunidade e autoridade moral reconhecida, seu discurso é pacífico.

Na micropolítica bravateira da internet, vale a mesma lógica. Quanto mais alguém é, ou sente-se, um ninguém, mais violento será seu discurso. Só assim ele pensa que será ouvido. Os sábios podem falar baixo, pois os outros param para escutá- los. Ao colérico restam os gritos, os palavrões, as ofensas e as ameaças. Sem estes ingredientes baixos, seu raciocínio, ou melhor, a falta dele, não comove.

Acredito que o odiador típico é alguém sem plausibilidade e sem público, uivando desde seu beco periférico. Busca nas redes sociais um canal para ser ouvido, e faz o que todos fazemos: procura reconhecimento. Se não conseguiu por vias construtivas, tenta o avesso, pela destruição. Engaja outros companheiros, igualmente isolados, para juntos e unidos pelo ressentimento serem profetas de causa nenhuma.

Existem odiadores com canais abertos, bem conhecidos e com seguidores. Agora não se trata de falta de ouvidos, a impotência neste caso está nas teses. Tomem o exemplo do feminismo: como não há argumentos racionais contra a demanda de paridade social entre homens e mulheres, só resta ofender quem a reivindica. Os arrazoados contra as mulheres que teimam em não ser recatadas e do lar chegam encharcados de fel.

Os odiadores não têm o que dizer fora ofensas, não possuem pautas propositivas. Seu universo é o negativo, é destruir o que não entendem e o que os desacomoda. Basta lhes dar espaço para ver que de lá não sai nada, a não ser mais agressões, pois é só o que sabem fazer.

Quanto às atitudes práticas: jamais discuta com um raivoso. É perda de tempo. Lembre-se: não existe um idiota discutindo, são sempre dois. Se você mordeu a isca, já perdeu. Enquanto não envolver crime, como por exemplo ofensas raciais, melhor deixá-los falando sozinhos. Tente perdoar e ter paciência, afinal, não sabem o que dizem...

MÁRIO CORSO

sábado, 27 de abril de 2019


27 DE ABRIL DE 2019
LYA LUFT

Do tempo


Faz alguns anos, tive, num sonho, um vislumbre de uma escultura interminável de corpos humanos entrelaçados emergindo muito abaixo de mim e perdendo-se no infinito acima de minha cabeça. Talvez seja um dos significados da existência nossa: encadeamento e continuação. Como um novelo desenrolando-se incessantemente, todos nascendo uns dos outros, uns por cima dos outros, cada um estendendo as mãos para o alto um milímetro mais e mais e mais: somos novelo e fio ao mesmo tempo.

Meu gesto repete o de uma de minhas antepassadas; meu riso será o de algum descendente meu, que jamais conhecerei, o fio primeiro de minhas ideias nasce de outro pensamento milênios atrás, e continuará se desenrolando depois que eu tiver deixado de existir há séculos, num tempo que não flui como o imaginamos, esse tempo medido e calculado. Ele é pulsação, surpresa.

Às vezes, suspiramos pelo conforto que, vista de longe, parecia ser a vida quando tudo era mais limitado e certo: menos opções, menos possibilidade de erro. Temos de aprender a conviver com essas novas engrenagens de tanta surpresa e perplexidade, mas tanta maravilha. Temos de estar mais alertas do que décadas atrás, quando a vida era - ou hoje nos parece - tão mais simples: precisamos estar mais preparados, para que ela não nos dilacere. Temos de ser múltiplos, e incansáveis.

Que cansaço.

Pois a vida não anda para trás: o preço da liberdade são as escolhas com seu cortejo de esperança, entusiasmo, hesitação e angústia - para que se criem novos contextos e se realizem novas adaptações, que podem não ser estáveis. Pois as inovações, a corrida do tempo e as possibilidades aparentemente infinitas já nos puxam pela manga e nos convidam para outra ciranda de mil receitas: vamos ser inventivos, vamos ser produtivos e competentes, felizes a qualquer preço na companhia de todos os deuses e demônios nessa sarabanda. Fora dela, nos dizem, restam o tédio, a paralisia e a morte.

Será mesmo assim? Ou ainda existem, e podemos descobrir, lugares ou momentos de tranquilidade onde se realiza a verdadeira criatividade, onde podemos expandir a alma, onde podemos amar as pessoas, onde podemos contemplar a natureza, a arte, e os rostos amados, e construir alguma paz interior? Creio que sim.

Para que as emoções e inquietações positivas não entrem em coma antes que termine de definhar o corpo.

LYA LUFT