sábado, 13 de julho de 2019



13 DE JULHO DE 2019
PAULO GERMANO

COMO COMPRAR ALGUÉM

Escrevi esses tempos que dinheiro não compra ninguém. O dinheiro até pode atrair meia dúzia de aliados por algum tempo - mas jamais serão aliados confiáveis, porque bastará o dinheiro acabar para todos pularem fora. O que realmente compra as pessoas, o que faz delas eternamente leais e gratas, o que faz delas soldados incapazes de abandonar um companheiro é outra coisa.

No capítulo 13 da famosa Carta aos Coríntios, Paulo explica que coisa é essa. Ele diz o seguinte: "E ainda que eu tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria".

Quer dizer: não adianta ter poder, nem inteligência, nem toda a cultura do mundo, não adianta acreditar em Deus nem encontrar as respostas que a humanidade procura se, no fim das contas, não houver afeto. Sem amor, é o que Paulo prega, um homem não é nada. A vida se torna vazia - e não há quem queira lhe ser leal.

Se você dá afeto, se presta atenção no outro, se sorri para as pessoas e tenta ajudá-las, aí a dívida de gratidão se torna eterna. Foi nisso que pensei quando um estudante de Jornalismo, semanas atrás, me perguntou que conselho eu lhe daria na profissão.

- Talento é o de menos - foi o que eu disse. - Em qualquer profissão, talento é secundário.

Reconheço que exagerei - talento é importante, óbvio. Mas queria deixar claro que o talento é apenas um entre tantos pilares de um bom profissional. Outro pilar é a persistência - ou saber engolir sapos. Se o sujeito é incapaz de lidar com frustrações e fracassos, não admite bronca de chefe, já começa a carreira só querendo fazer "o que gosta", aí seu fabuloso talento não servirá de nada.

Mas não há pilar mais importante do que o do afeto. Consigo pensar em pelo menos 10 profissionais talentosíssimos da minha área que, por serem intratáveis ou geniosos demais, não conseguiram decolar. Por quê? Porque ninguém chega a lugar algum sem aliados. Ninguém decola sem pessoas que o ajudem a decolar.

Vale o mesmo para veteranos: eles duram mais em seus cargos e têm mais tempo de sucesso quando são afetuosos. Conheço o chefe de uma faculdade, por exemplo, que há anos sabota o próprio trabalho por conta do alcoolismo, mas durante décadas ele foi tão generoso com os colegas, que ninguém tem coragem de demiti-lo.

Alguém dirá que o correto seria, sim, mandá-lo embora, e talvez eu concorde, só que esse homem comprou as pessoas - e não foi com dinheiro: elas se sentem em dívida, não querem abandoná-lo, estão presas à teia de afeto que ele foi tecendo ao longo dos anos. E, como constatou Paulo na Carta aos Coríntios, o amor "tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta".

Quer dizer: as pessoas toleram o pior quando existe amor. Porque só ele pode fazê-las eternamente gratas, só ele consegue preenchê-las de verdade. Não haverá quantia alguma de dinheiro que um dia alcance tamanho poder.

PAULO GERMANO


13 DE JULHO DE 2019
COM A PALAVRA


"DEVE HAVER UMA REINVENÇÃO DA ESQUERDA"


Entrevista | Boaventura de Souza Santos, Sociólogo, 78 anos, um dos principais pensadores da esquerda global, o português esteve em Porto Alegre em junho.

Um dos principais nomes da esquerda mundial, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos acredita que os partidos progressistas perderam a conexão com a periferia. Crítico da Lava-Jato, amigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem visitou em Curitiba, no ano passado, o pesquisador e escritor acredita que as democracias estão em crise em razão da ação de forças conservadoras lideradas pelos Estados Unidos, como parte de sua guerra comercial e por hegemonia geopolítica com a China, potência em ascensão no sistema global.

 Em junho, Boaventura esteve no Rio Grande do Sul, quando participou de debate Ecologia dos Saberes, como parte da programação de combate ao trabalho infantil, evento com apoio do Ministério Público do Trabalho (MPT) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Na ocasião, concedeu a seguinte entrevista a ZH.

A HISTÓRIA COSTUMA SER PENDULAR, ORA COM PREDOMINÂNCIA DE GOVERNOS CONSERVADORES, ORA DE ESQUERDA. COMO SE DEU A GUINADA PRÓ-DIREITA ATUAL EM VÁRIOS PAÍSES?

A história é feita de pêndulo, nós é que pensamos que ela é um progresso contínuo e que as conquistas são irreversíveis na democracia e nos direitos sociais. Estamos em uma fase de retrocesso, e percebo isso particularmente no continente latino-americano, o único no qual, entre os anos 2000 e a metade dos 2010, reduziram-se a pobreza e a desigualdade. O freio nesse avanço se deve a vários fatores. O principal é que estamos em um contexto internacional com características adversas em relação a conquistas democráticas, aos direitos sociais, à saúde e à educação.

Domina, hoje, a fração mais antissocial do capital em nível internacional, que é o capital financeiro. O capital produtivo depende dos trabalhadores. Os produtores têm de cuidar de seus trabalhadores, que têm de ter direitos para produzir bem. Portanto, há uma dimensão social no capital produtivo. E isso não existe no capital financeiro, que produz riqueza a partir do dinheiro. O capital financeiro não se organiza a partir de fábricas e empresas. Ele basicamente é composto de telas de computador, diante das quais os CEOs podem ficar milionários de um dia para o outro e da maneira mais antissocial - porque eles não tratam com pessoas, mas com números e bolsas de valores.

As consequências sociais dos números estão ocultas nas telas dos computadores. O Estado se subordinou demais às regras do capital financeiro, deixando de financiar políticas públicas por impostos e, assim, tendo de recorrer à dívida pública. O problema é que, quando o Estado cobra impostos, trata-se de uma atitude soberana: ele pode cobrar ou não. Quando contrai uma dívida no mercado internacional, não está sendo soberano. Não é ele que determina as taxas ou fatores de risco. São as agências internacionais.

O ESTADO PERDEU SOBERANIA?

Sim. Porque se subordinou ao capital financeiro. Para dar a resposta às agências internacionais, o Estado tem de fazer cortes nas políticas sociais. Vem daí o empobrecimento da população. Os oito homens mais ricos do mundo têm tanta riqueza quanto a metade mais pobre da humanidade. É um desequilíbrio que nunca havia acontecido. E não há no horizonte nenhuma política que faça frente a isso.

ESSE MOMENTO HISTÓRICO É O QUE O SENHOR CHAMA DE INTERREGNO DA GLOBALIZAÇÃO, CERTO?

Exatamente. No interregno, dá-se o domínio do capital financeiro. Ocorre sobretudo nos momentos em que o capital produtivo entra em crise porque não há inovação tecnológica. Tivemos uma globalização, de 1989 até hoje, que foi assentada em inovações - os celulares, os computadores -, que prometeram rentabilidade enorme ao capital produtivo. Essa rentabilidade está diminuindo porque os objetos são cada vez mais baratos. Quando essa perda de rentabilidade do capital produtivo se dá, começa a rivalidade entre os países. Foi assim na Europa, provocando guerras mundiais. Neste momento, a crise se manifesta por meio de uma rivalidade entre EUA e China. Vem aí outra onda de globalização, assentada em inovação tecnológica e em inteligência artificial, robótica e automação. E a China está muito bem posicionada para dominar essa onda.

O CAPITAL INTERNACIONAL ESTÁ MIGRANDO PARA A CHINA.

Vai migrar para lá. E os EUA se deram conta muito tarde. Foi devido à miopia. Há 35 anos vivo metade do ano nos EUA e vejo essa miopia do governo norte-americano. Na década em que a América Latina teve significativa redução da pobreza, eles (os EUA) estiveram no pântano do Iraque.

OU SEJA, DESCUIDANDO DA AMÉRICA LATINA COMO REGIÃO PARA EXERCER SUA HEGEMONIA?

Deixando o continente de lado. Ao mesmo tempo, houve a penetração da China, que é hoje o grande investidor e também o maior parceiro comercial de Brasil e Argentina. Os EUA estão tentando controlar a situação à sua maneira - com controle de danos, com interferências no mercado. E isso na Europa, também. Estão fazendo pressão sobre a União Europeia (UE) para que a nova onda do 5G não seja dominada pela China.

É evidente que, em uma situação dessas, as leis de mercado não funcionam. Voltamos à ideia do protecionismo arrogante, das potências mais fortes. Há dois impérios, um ascendente, a China, e outro decadente, os EUA. Eles estão a digladiar-se de maneira brutal. E, naturalmente, o império ascendente é sempre o que entra de forma propositiva. Há uma nova rota da seda, com investimento massivo entrando em todo o mundo.

O SENHOR ESTÁ DIZENDO QUE O CAPITALISMO DOS EUA FICOU PARA TRÁS.

O capitalismo dependente dos EUA é mais violento, neste momento, porque não tem nada a oferecer. Perdeu a competição para a China, aliás, devido às próprias grandes empresas norte-americanas. Calcula-se que haja 1,2 milhão de pessoas na China trabalhando apenas para a Microsoft e a Apple. Veja a dificuldade que há em fazer qualquer protecionismo em relação à China, porque ela já avançou demais.

A luta dos dois gigantes é por alinhamento: eles querem que seus aliados estejam ao seu lado. Os EUA, particularmente, nessas duas zonas de influência: Europa e América Latina. O Brasil entra nesse jogo de forças. O que se passou no Brasil desde 2013 não se explica sem considerar o interesse dos EUA na região no sentido de controlar essa grande ameaça. Há outra ameaça, ainda: uma busca de autonomia dos países dos Brics (Rússia, China, Índia, Brasil e África do Sul), que demonstraram inclusive intenção em criar um banco mundial alternativo, eventualmente com as transações de petróleo não denominadas em dólar.

Como sabemos, o valor do dólar está desde 1971 absolutamente vinculado à família real saudita. Todas as transações de petróleo são feitas em dólar. No momento em que há a ameaça de que isso acabe... Estamos em uma fase de enfrentamento muito forte. E isso é hostil à vivência democrática. Porque, quer de um lado, quer de outro, estamos assistindo a pressões para que vigorem os interesses do capital e não da soberania popular, que constitui o princípio fundamental da democracia.

ESSA LÓGICA SE APLICA À VENEZUELA: OS EUA PRESSIONAM PELA QUEDA DE MADURO. POR OUTRO LADO, TRATA-SE DE UM GOVERNO AUTORITÁRIO. MADURO CONSTRANGE A ESQUERDA?

Nessa luta geoestratégica não há santos. E a Venezuela certamente tem os seus demônios, porque realmente conta com dois aliados e mais ninguém: a Rússia e a China. Internamente, houve um processo histórico na Venezuela, que era considerada a Arábia Saudita da América Latina, com grande concentração de riqueza e pouca vivência democrática. Chávez, embora fosse um militar, tentou fazer um governo submetido a eleições. Ele ganhou muitos pleitos, todos chancelados pelo Instituto Carter como livres e justas. Era um líder carismático, que, de certa forma, segurava a coesão social de uma sociedade fraturada.

A Venezuela era o único país do continente que não tinha movimentos sociais. Vivia da renda do petróleo, e o Estado distribuindo renda às vezes um pouco em favor dos mais pobres, mas normalmente contra. Chávez, sem alterar o sistema produtivo, fez com que a renda petrolífera fosse redistribuída. Só que, como qualquer líder carismático, não teve sucessor. A consequência é a fraqueza interna. A Venezuela foi quase um laboratório, como o Brasil tem sido neste momento.

COMO ASSIM?

Um laboratório de um governo que avançou na distribuição social. Mas são dois laboratórios distintos. A Venezuela avançou muito mais do que o Brasil, sobretudo criando quase uma estrutura de Estado paralelo, as chamadas "Missões", que eram formas de fazer distribuição social, de serviços e médicos, nos bairros pobres, por não se confiar que o Estado pudesse fazê-lo. Há uma tradição colonial, elitista lá: os médicos não querem trabalhar nas periferias. Houve a necessidade de se fazer uma política alternativa, financiada pela renda do petróleo. O país passou a ser, com Chávez, mais dependente do petróleo do que era antes.

Aliás, também aconteceu um pouco com o Brasil e com outros países em que o boom das comodities fez acontecer a desindustrialização. Como sociólogo, gosto de trazer complexidade às coisas e, imediatamente, sou rotulado de defensor da Venezuela. Não é o caso, porque fui muito crítico ao Chávez. Fui solidário com a distribuição social, mas alertei que não se pode criar movimentos sociais de cima para baixo. Ir para a periferia levando dinheiro e esperar que as pessoas se associem para recebê-lo sempre é uma forma perversa de democracia participativa.

O SENHOR AFIRMA QUE CHÁVEZ DISTRIBUIU MAIS RENDA DO QUE LULA E DILMA NO BRASIL. O SENHOR CHEGOU A CRITICAR A DISTRIBUIÇÃO DE RENDA DOS GOVERNOS DO PT, DIZENDO QUE SE PERDEU UMA OPORTUNIDADE HISTÓRICA. O QUE FALTOU?

Perdeu-se uma oportunidade histórica de se fazer uma reforma política e uma reforma das mídias, dois grandes problemas do continente. Liberdade de imprensa é também prometer que toda a opinião possa ser veiculada, e não apenas a opinião de pequenos grupos políticos. Não é cercear quem já tem opinião: é permitir que haja diversificação. A reforma política, basicamente, seria a limitação do poder do dinheiro nas eleições brasileiras. Isso faria com que o Congresso refletisse melhor as realidades demográficas. E, ao mesmo tempo, imunizaria o poder político em relação ao poder econômico, já que há uma contaminação muito forte. Essa contaminação atingiu o auge depois das eleições do ano passado.

Ou seja, chegou-se a uma situação que poderia ter sido evitada. As oportunidades são históricas, isto é, ou se fazia naquele momento, ou ficaria tarde demais. E não se faz. Houve redistribuição social, mas não houve alteração no padrão de desigualdade interna do Brasil. A riqueza criada, assim, continua a se acumular no topo da pirâmide. O ciclo das comodities dura 10 anos, 15 anos. Quando termina, é o caos. A partir de 2010, com a desaceleração da China, começaram as crises. O sistema político tinha de ser robusto o suficiente para que não fosse apropriado pelas elites que, no meu entender, sentiram-se em perigo.

O TEMPO PASSOU?

Sim, e penso que teria sido diferente se realmente se houvesse aproveitado esse boom das comodities para uma industrialização inovadora com grande investimento tecnológico. O Brasil tem uma capacidade de pesquisa extraordinária. O que mais me dói, agora, é a crítica não só contra a educação e a ciência, mas também o fato de que está havendo um processo de baixar o estatuto de um país semiperiférico para periférico no xadrez internacional. Um país em desenvolvimento intermediário precisa de ciência. Tivemos uma oportunidade histórica de consolidar todo esse movimento ascendente. O Brasil poderia ter sido um exemplo para o mundo. E, em uma década, passou a ser o contra-exemplo. Internacionalmente, está na rua da amargura. Qualquer lugar em que vou fazer palestra me perguntam: "O que houve no Brasil? Como foi possível?".

O SENHOR FOI VISITAR O PRESIDENTE LULA, EM CURITIBA. COMO FOI?

Sou amigo dele, mas é bom que se saiba que, quando Fernando Henrique Cardoso era presidente, almocei com ele várias vezes no Planalto. E nunca almocei ou jantei com Lula no Planalto (risos). Mantenho uma distância crítica a Lula. Acho que ele foi o melhor presidente da história brasileira. Mas creio ser necessária uma renovação. Ele é passado. Não se produzirá um novo ciclo nos mesmos termos. Falei para ele, e foi doloroso.

FOI DOLOROSO PARA LULA?

Sim. Ele está em um prédio da Polícia Federal que ele próprio havia inaugurado, 11 anos antes - tem lá uma placa, até tirei uma fotografia. Quando subi para o segundo andar, fui levado por dois policiais jovens. No caminho, um deles me disse: "Professor, nós devoramos os seus livros". Respondi: "Se a lição dos meus livros fosse bem entendida, eu talvez não estivesse aqui". Comecei a brincar um pouco. A prisão é obviamente uma solitária, embora seja uma sala arejada. Conversamos sobre a situação na América Latina. Ele está preocupado.

COMO O SENHOR AVALIA A CONDENAÇÃO DE LULA?

Sou jurista, além de sociólogo. Nunca me convenci de que foi uma condenação justa. E os dados que estão saindo (série de reportagens iniciadas pelo site The Intercept) confirmam isso. É isso que dói bastante. Hoje, minha preocupação é resgatar a credibilidade do sistema judiciário no Brasil. Esse é o grande problema político do Brasil neste momento, no meu entender: resgatar o princípio da legalidade, do Estado de direito, porque realmente a manipulação foi longe demais. E isso é curioso: tanto se falava do estado paralelo do Chávez, mas a Lava-Jato acabou sendo um estado paralelo.

MAS, PELA PRIMEIRA VEZ, SE COLOCOU NA CADEIA OS CORRUPTORES. O SENHOR NÃO ACHA QUE HÁ VALOR NISSO?

Sim, embora haja várias maneiras de se fazer isso. Acho que poderia ter uma luta contra corrupção atingindo também os corruptores, mas não envolvendo as empresas todas, levando-as à bancarrota. O parque industrial do Brasil foi destruído. Já vi isso em outros lugares: quem fez a reconstrução do Iraque? A Halliburton, empresa norte-americana. Quem vai fazer as grandes obras no Brasil nos próximos anos? Quais são as empresas de construção civil do Brasil que restam? Portanto, é importante lutar contra a corrupção, mas pode haver uma maneira de punição que não elimine completamente do mercado as forças produtivas, porque elas não são só corrupção, elas criaram emprego. Sempre tive impressão, e agora penso que se confirma cada vez mais, que há uma interferência dos EUA no sistema.

A UE está em crise de identidade por conta do Brexit, há o ressurgimento de nacionalismos e a extrema-direita crescendo no parlamento europeu. Para onde a esquerda caminha? Portugal, seu país, é uma exceção na Europa, com um governo socialista.

É, neste momento, a exceção. E Portugal funcionou bem nos últimos quatro anos. Provou que o neoliberalismo não é para promover economia, mas sim um sistema de transferência de riqueza dos pobres para os ricos. Porque Portugal, fazendo o contrário da receita neoliberal, diminuiu o desemprego. Quanto à UE como um todo, chama atenção ter se tornado um alvo dos EUA diante dessa guerra por alinhamento travada com a China. Parece-me clara a estratégia dos EUA de quebrarem a UE. Steve Bannon está ativo na Europa neste momento. Trump é a favor do Brexit e do candidato que quer um Brexit duro (Boris Johnson). Quer desmoralizar a UE.

Por uma razão simples: os países europeus individualmente são muito pequenos, não podem competir com os EUA. O único país de quem o governo norte-americano tem medo é a Alemanha - e essa já está sob suspeita: já grampearam Angela Merkel. Mas há outras questões. A esquerda cometeu muitos erros na Europa, sobretudo quando se enamorou pelas políticas neoliberais. Começou a fazer crítica ao Estado, às políticas públicas e sociais, aos sistemas de saúde e educação, abrindo espaço para as parcerias público-privadas, que são uma máquina de transferência de dinheiro para empresários.

A esquerda europeia foi perdendo agenda social, que era o que sustentava as socialdemocracias europeias. Isso provocou um vazio, que veio a ser ocupado pela extrema-direita. É curioso. Direita e extrema-direita têm duas versões diferentes: uma neoliberal, a que existe na Hungria e na Polônia, e outra social, mas não democrata, que aproveitou a agenda contra imigrantes. Se você olhar os programas, mesmo dos partidos da extrema-direita de Alemanha e Finlândia, vai ver que eles são adeptos das políticas sociais, só não querem os migrantes se beneficiando delas. Assim criaram o "nós" e o "eles".

AMBAS SÃO XENÓFOBAS.

Obviamente. Porque estamos em uma fase de protecionismo. O que o neoliberalismo fez foi tornar o poder invisível. Os mercados são a lei da natureza, e a gente, a cada eleição, não vai perguntar o que pensam: vai ver, nas primeiras páginas dos jornais, qual foi a reação dos mercados. Em 1970, em 1980, ninguém ia ver nos jornais as reações dos mercados.

Quando o poder se torna invisível e há desconforto porque há crise social, as vítimas se voltam contra elas próprias. A classe média que se sente em perigo na Europa pensa que o seu inimigo é o imigrante refugiado. O operário empobrecido dos EUA pensa que o seu inimigo é o latino. O negro sul-africano empobrecido pensa que seu inimigo é o imigrante moçambicano e zimbabuense. A vítima se volta contra a vítima. É a política do ressentimento. Está por todo o mundo.

 Mesmo quem está no poder se faz de vítima. É o que se vê quando Bolsonaro simpatiza ou simplesmente não é hostil a manifestações que questionam as instituições do país que ele dirige, como o Congresso e o STF. Quem ataca a democracia fala que está defendendo a democracia. É por isso que digo: as democracias morrem democraticamente.

ESSA TESE APARECE NO LIVRO COMO AS DEMOCRACIAS MORREM, DE STEVEN LEVITSKY E DANIEL ZIBLATT. O SENHOR COMPARTILHA DA IDEIA DE QUE LÍDERES AUTORITÁRIOS CORROEM O SISTEMA DEMOCRÁTICO POR DENTRO?

Sim. As democracias morrem democraticamente. Estamos em sistemas híbridos. É essa anomalia que se vê no Brasil, com a Lava-Jato - que não é democrática; é uma inscrição autoritária no sistema democrático. No sistema híbrido, há elementos ditatoriais e democráticos convivendo de modo inseguro, quase caótico. É o caso das fake news: muitos brasileiros têm como única fonte de informação o WhatsApp e confiam em só duas instituições, nenhuma democrática: família e igreja.

PARA ONDE CAMINHA A ESQUERDA, NA SUA OPINIÃO?

A esquerda tem de voltar às suas origens, aos grupos sociais excluídos, que ela esqueceu há muito tempo. A esquerda deixou de falar com as periferias. Quem fala com as periferias, hoje, são as igrejas evangélicas pentecostais. Hoje, fazer ativismo de esquerda no Brasil é ir a uma reunião de um partido fazer uma análise de conjuntura.

Não é viver nas periferias e participar das organizações sociais. Acredito em soluções de radicalização da democracia. A experiência da democracia é que cria oposição a uma lógica da culpa que existe nas periferias, que é promovida pela teologia da prosperidade das igrejas evangélicas. Isso é o fim da sociedade. Para mudar isso, deve haver uma reinvenção da esquerda, inclusive política.

Os partidos como existem hoje não são capazes de voltar a falar com as vozes silenciadas das periferias. É preciso criar formas a partir de movimentos. Uma ideia, que vem da Espanha, com o Podemos (partido socialista), é a de que um partido deve ter dentro de si uma democracia participativa. Assim evita corrupção, evita que o líder tenha todo o poder. Aplico aos partidos o que aprendi em Porto Alegre, com o Orçamento Participativo, que constituiu uma articulação virtuosa entre democracia representativa e participativa - que se perdeu com o tempo. Essa articulação segurava as bases, que ficaram à mercê de demagogos e de religiões conservadoras.

RODRIGO LOPES


13 DE JULHO DE 2019
DRAUZIO VARELLA

MACONHISTAS IMATUROS

A desinformação faz jovens acharem que se trata de uma erva natural, que não causa danos. Chamar de maconheiros os usuários é considerado depreciativo: maconhistas, preferem eles.

Com a Produtora Uzumaki, fizemos uma série sobre a maconha com o título de Drauzio Dichava, que já teve 4,5 milhões de acessos no YouTube, em dois meses.

Fiquei surpreso com a repercussão e com falta de informação dos entrevistados sobre o mecanismo de ação e os efeitos colaterais da droga. A maioria acha que se trata de uma erva natural, que traz relaxamento, sensação de paz e percepção aguda da realidade, sem causar danos.

Alguns não sabem que o THC, o componente ativo, é absorvido nos alvéolos pulmonares e cai na circulação. A dependência química é desconhecida ou negada mesmo por gente que faz uso diário, há décadas. A perda de memória ao fumar é menosprezada até pela jovem que esquece uma ponta no cinzeiro da sala dos pais. E, pior, ninguém ouviu falar que o consumo na adolescência pode ter consequências nocivas e duradouras.

Diversos estudos, no entanto, mostraram que o impacto repetitivo da maconha no cérebro ainda adolescente é deletério: interfere com a memória, a atenção, a velocidade de processamento das informações e a capacidade de concentração.

A explicação está na vulnerabilidade do tecido cerebral na infância e adolescência. O córtex pré-frontal, responsável por funções superiores como julgamento, tomada de decisões e controle da impulsividade, só completa a fase de amadurecimento ao redor dos 25 anos de idade, muito mais tarde do que as áreas encarregadas do processamento das emoções.

O THC distorce a troca de informações entre os neurônios. A exposição frequente a ele pode modificar de forma persistente a arquitetura das redes neuronais que coordenam a cognição, nelas incluído o aprendizado, a atenção e a resposta aos estímulos emocionais. Em alguns adolescentes predispostos, essas alterações levam à compulsão que está na base da dependência química.

Evidências sugerem que o uso diário ou semanal por adolescentes, durante anos consecutivos, pode causar alterações neuropsicológicas que persistem além do período de intoxicação aguda. Vários estudos revelaram de forma consistente, que os usuários crônicos têm resultados piores nos testes neuropsicológicos. Em alguns deles, a deficiência foi detectada mesmo depois de anos de abstinência.

A magnitude do déficit cognitivo será maior quanto maiores forem as quantidades consumidas, a frequência e a duração do consumo e a precocidade da iniciação. Fumar maconha aos 30 anos é bem menos problemático do que fazê-lo aos 15.

Para agravar, a maconha comercializada nas ruas tem concentração de THC quatro a cinco vezes mais alta do que a dos anos 1990. A diferença seria comparável à dos efeitos do álcool contido num copo de cerveja ou num copo de saquê.

A ignorância em relação a esses fatos é uma das consequências da clandestinidade. Que ajuda podemos prestar às crianças que começam a fumar, se elas o fazem às escondidas? Como lidar com o ímpeto de desafiar a proibição que lhes é imposta?

Veja o que aconteceu com o cigarro. Nos anos 1960, cerca de 60% dos brasileiros com mais de 15 anos fumavam. Entre outras medidas, anos de informações transmitidas pelos meios de comunicação de massa e educação nas escolas fizeram as crianças entender que fumar está ligado às piores doenças. Hoje, a prevalência entre nós caiu para cerca de 10%. Fosse mantido no silêncio da ilegalidade teríamos conseguido resultados tão contundentes?

A maconha faz parte do universo dos jovens de qualquer classe social; mesmo os abstêmios têm amigos que fumam. Em certas fases da juventude, o risco de uma filha ou filho experimentá-la é alto. Condená-los por ter curiosidade, necessidade de aceitação no grupo ou por cair em tentação vai ajudá-los?

Eles precisam de ensinamentos claros para entender que compostos psicoativos como o THC provocam efeitos colaterais, alterações neurobiológicas e podem causar dependência química.

Se ainda assim decidirem fumar, não é a repressão que os impedirá nem será uma tragédia familiar. A maioria dos que experimentam na adolescência abandona o uso por conta própria ou fuma com intervalos de semanas ou meses. Maconha não é droga compulsiva como cigarro ou cocaína.

Desesperar-se porque a filha ou o filho "caiu no mundo das drogas", só por fumar maconha ocasionalmente, é criar drama de novela mexicana.

DRAUZIO VARELLA

13 DE JULHO DE 2019
BRUNA LOMBARDI

O ANJO


Começo aqui uma conversa com você e isso me deixa feliz, porque este jornal e essa cidade fazem parte da minha história. Existe uma memória permanente de tantas tardes em Porto Alegre, do pôr do sol dourando o Guaíba, da extensão solitária dos pampas até o horizonte. Muitas pessoas queridas me ensinaram o significado da amizade dos gaúchos. E, é claro, uma delas em especial. Só posso começar assim, falando dele, porque ele é pra sempre.

Pro Mario Quintana (onde quer que ele esteja):

ANJO

Onde quer que você esteja

veja só o que acontece

a sua poesia continua

por aqui ninguém te esquece.

E agora você anda

por aí nesse universo

achando rima pra verso

perplexo feito criança

diante de cada mistério

brincando e às vezes sério

com humor e melancolia.

Sua sutil sabedoria

nota coisas tão pequenas

que outro não notaria.

E aqueles, os que ficaram

por aqui, nessa passagem

sentem no céu esse anjo

que você sempre escondia

olham com amor pras estrelas

e te desejam boa viagem.

Essa foi a última nota que escrevi para o meu querido amigo Mario que, por acaso, é um dos maiores poetas do Brasil. Talvez a pessoa mais simples e genuína que conheci. Uma lição de humanidade para quem teve a sorte de conversar com ele.

Eu era uma menina lançando meu primeiro livro de poesias, No Ritmo dessa Festa, ele, um poeta renomado e querido por todos. De repente, levei um susto: Mario Quintana comprou meu livro e estava na fila de autógrafos. Fiquei profundamente sensibilizada com seu gesto. Foi um caso de amizade à primeira vista.

Era um homem raro, único, como tudo o que ele escreveu, absolutamente encantador e profundamente pessoal. Morava sozinho num quarto de hotel em Porto Alegre, eu vivia no eixo SP-Rio, mas nos prometemos, desde então, que tomaríamos chá juntos pelo menos uma vez por ano.

E quase nunca quebramos essa promessa.

Ele disse que eu quebrei uma vez, quando estava grávida. Trocamos centenas de cartas. E acho que essas são coisas que ajudam a gente a viver. Um dia, me confessou que tinha dois pôsteres em seu quarto. Um da Greta Garbo e um meu. Honra maior do que essa não existe.

Ele gostava de coisas simples, cotidianas, rotineiras. E cheias de humor. Tinha ousadia no humor. Via comicidade nas cenas de rua, nas pessoas, nos fatos. Um homem capaz de rir de seus fantasmas.

Aprendi muito com Mario. Coisas pequenas, que não têm preço. Essas conversas tinham um valor incomensurável para mim.

Hoje, tenho certeza de que esse é o maior luxo de todos. O bem mais precioso, aquele que nenhum cartão de crédito pode comprar. Por isso, tenho uma afeição particular por Porto Alegre e por tudo o que a cidade me trouxe.

Mario Quintana continua presente andando devagar pelas ruas, sentado na mesa de um café. A poesia tem seus mistérios e um jeito sorrateiro de vencer o tempo e chegar às pessoas.

A poesia entra em quartos solitários e acompanha quem sente que não pertence, quem tem dúvidas, quem chora em travesseiros, quem erra, quem acerta, quem procura. A poesia é extraordinariamente generosa. Chega clandestina sempre que alguém precisa dela.

A cidade mudou, eu mudei, você com certeza também mudou. Mas os anjos, esses continuam, você não acha? 

Bruna Lombardi escreve a cada 15 dias neste espaço. Na próxima semana, leia a coluna de Monja Coen

BRUNA LOMBARDI

13 DE JULHO DE 2019
JJ CAMARGO

DOS AFETOS DISTANTES

QUE MARAVILHA SERIA NÃO SENTIRMOS SAUDADE DOS NOSSOS AMADOS PORQUE ELES ESTÃO O TEMPO TODO CONOSCO

Uma das grandes injustiças da vida é a imposição de convívio, não importa se por razões profissionais, familiares ou outras, com pessoas ou situações que não gerem prazer. Devia ser sempre possível decidir onde estar e com quem. Todos reconhecerão utopia na busca dessa pretensão. Que seja, mas essa capitulação à rotina imposta pelo cotidiano não impede que ao menos fantasiemos o objetivo. Imagine só, que maravilha seria não sentirmos saudade dos nossos amados porque eles nos acompanhariam o tempo todo. Como as nossas conversas seriam mais calorosas, sem nenhum espaço para indiretas sutis e desconfianças explícitas!

E, de guarda baixa, teríamos liberdade e tempo de sobra para suportar juntos os inevitáveis dias difíceis e planejar futuros amenos e repartir saudades. Nenhuma data significativa seria negligenciada porque sempre haveria alguém por perto, que, tendo sido testemunha daquele momento precioso, estaria de lembrança em punho para sacudir a memória. E relembraríamos cada evento importante, e todos poderiam depor sobre o que consideraram inesquecível. E riríamos muito, e com a maior naturalidade nos comoveríamos, e terminaríamos a conversa abraçados. Que a distância dos nossos amados conspire contra essa possibilidade de intercâmbio afetivo, ah, isso é uma grande injustiça.

Foi o que pensei quando recebi do Homero, "meu irmão de sangue e de afeto" (é assim que ele muitas vezes se despede em conversas no WhatsApp), uma mensagem cheia de saudade do nosso pai, 12 anos depois da sua morte. A intenção era reverenciá-lo para todos os que conviveram com a doçura do nosso velho, e também para os que não tiveram igual sorte porque nasceram depois, as atitudes que definiam a personalidade cordial e generosa do seu Deoclécio. Eram coisas simples, mas que marcavam sua fidalguia e caráter. E o Homero relembrou duas delas:

- O gesto respeitoso de retirar o chapéu ou boné, ao cumprimentar uma pessoa. Qualquer pessoa. E a rotina de sempre nos acompanhar até a porta de saída. Lembro da noite em que ele tentou levantar do sofá para acompanhar-me, mas as pernas falharam. E ele disse: "Zely, acompanhe o Homero!". Percebi mais tarde que ali, naquele momento, ele começara a partir.

Passados tantos anos, mas com esse choque de saudade estremecida, senti vontade de ao menos abraçar o Homero. E outra vez provei o desconforto de saber sempre longe quem devia estar mais perto.

E por um momento quis ter braços mais compridos.

JJ CAMARGO


13 DE JULHO DE 2019
DAVID COIMBRA

Nós sabemos qual é a verdade

Sempre digo, e repito, que sou a favor da hipocrisia. Só a hipocrisia salva casamentos e impede a guerra do fim do mundo. E o contrário da hipocrisia não é a pureza da verdade, é a sinceridade grosseira e, em geral, inconveniente.

A não ser que se use o bom humor. O filósofo e centromédio Vampeta foi quem proferiu a frase que talvez seja a mais honesta e genial a respeito da hipocrisia. Ao falar acerca dos atrasos de salário no clube em que jogava, o Flamengo, Vampeta asseverou:

- Eles fingem que me pagam e eu finjo que jogo. Brilhante. Coruscante. Faiscante.

***

A hipocrisia é muito mais útil em sociedades imperfeitas, como a nossa, brasileira, mas não me venham esses ricos do Primeiro Mundo se exibir com suas certezas, que sei muito bem como eles, às vezes, têm de sacar desse que é o mais humano dos predicados.

Os americanos, inclusive, logo eles, com suas raízes puritanas, que sentem tanta ojeriza à mentira, eles não raro precisam se socorrer do analgésico da hipocrisia. Lembro do caso de Bill Clinton com Monica Lewinsky, nos anos 1990. Para que Clinton pudesse continuar na presidência, teve de "provar" aos americanos que felação não é sexo. E os americanos, para aceitar a manutenção de Clinton na presidência, tiveram de dizer que acreditavam nisso. Foi um debate risível, que se deu apenas para fornecer sustentação moral à hipocrisia. No fim, todo mundo aceitou, mas todo mundo sabia o que aconteceu.

A hipocrisia, como sói acontecer, salvou as aparências.

***

No Brasil, o atual debate nacional também só se sustenta graças a nossa proverbial hipocrisia. Porque nós, como os americanos, sabemos qual é a verdade, mas preferimos a discussão parnasiana a fim de aproximar a realidade do desejo, o que é muito mais conveniente.

Nós sabemos, por exemplo, que Moro agiu em coordenação com o Ministério Público para colocar políticos poderosos e empresários bilionários na cadeia. Sempre soubemos disso. E sabemos, ainda, que não é ético. Mas não nos escandaliza, porque sabemos que, se ele não fizesse assim, não conseguiria prender ninguém e a corrupção continuaria grassando. Hipocritamente.

Outra verdade que sabemos é que a correspondência de Moro com os promotores foi obtida por meios escusos. É óbvio que houve a ação de um hacker bastante habilidoso, ou não haveria 1 milhão de mensagens privadas no arquivo do site Intercept. É errado, mas vale para quem quer bater em Moro.

Ainda a propósito dessas mensagens, nós sabemos que nenhuma delas absolve alguém que foi condenado. Todos são culpados, inclusive o mais famoso deles, Lula.

A questão Lula, aliás, é especialíssima, quando o tema é hipocrisia. Porque quem ama Lula não se vale de uma hipocrisia cínica como a de Vampeta. Não. É uma hipocrisia amorosa, materna, quase religiosa.

Eu mesmo, em apreço aos meus amigos petistas, tento aceitar seus argumentos, mas chega um momento em que não dá mais. Como no caso do sítio de Atibaia. Nesse, Lula foi descuidado, o que não é próprio de sua conduta cautelosa. Porque você, que ama Lula, pode dizer que o sítio não é dele. Tudo bem, não existe escritura e tal. Mas terá de admitir que Lula frequentava o sítio como um proprietário zeloso. Há registros de que ele foi lá pelo menos 111 vezes e os seguranças da Presidência receberam mais de mil diárias para ficar 283 dias no local, à sua disposição. As coisinhas do Lula estão lá, suas roupas, suas bebidas, o barco dos netos, aquela coisa toda. Então, é certo que Lula FREQUENTAVA MUITO o tal sítio. Inteirado disso, me responda: como se explica que três empreiteiras tenham feito reformas de mais de R$ 1 milhão no lugar DE GRAÇA? Por que, meu Deus? Por quê?

Por mais hipócrita que eu queira ser, não há como explicar isso. Logo, até quem ama Lula sabe que ele pecou.

Já Bolsonaro, seus defensores vociferam que sua maior qualidade é não ser hipócrita. Nada mais equivocado. Bolsonaro é um campeão da hipocrisia. Critica o que chama de "velha política" da qual ele e os três filhos são produtos. Critica governos que privilegiavam apoiadores e quer nomear o próprio filho embaixador nos Estados Unidos. Jura que não é preconceituoso e governa por meio de preconceitos. Como diria Fernando Pessoa: "Arre!".

Bolsonaro. Moro. Lula. Intercept. Você pode ser a favor de qualquer um deles. Você pode ser contra qualquer um deles. Mas você sabe muito bem quem eles são.

DAVID COIMBRA

13 DE JULHO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

A AGENDA PARA O SEGUNDO SEMESTRE

A aprovação da reforma da Previdência não vai, em um passe de mágica, solucionar todos os problemas do país e disparar automaticamente um novo ciclo de crescimento econômico. Mas é a base sobre a qual o Brasil pode começar a construir um novo futuro. Um alicerce que evita o mergulho no caos fiscal e, com isso, cria as condições para que outras medidas possam ser lançadas e tenham eficácia para, enfim, o país se despedir da crise e ter condições de embarcar em uma era de desenvolvimento mais duradouro e sustentável.

A aproximação da vitória na mudança no sistema de aposentadorias, conforme angariava apoio popular e entre os deputados, já começou a mudar para melhor as expectativas. Sempre um termômetro do nervosismo, o dólar, que em maio era negociado acima de R$ 4, já estava abaixo de R$ 3,80 no final da semana. O mesmo aconteceu com o risco Brasil, uma espécie de seguro contra calote, que caiu para níveis de cinco anos atrás.

Mas nada disso cria um emprego sequer ou tem o poder de fazer com que prontamente as empresas comecem a produzir mais e a tirar da gaveta projetos de investimento guardados. É preciso avançar. Uma das prioridades, agora, passa a ser a reforma tributária. É imprescindível uma simplificação no intrincado sistema brasileiro de impostos, com a redução do incontável número de tributos. Outra é acelerar a abertura comercial, fazendo o Brasil exportar e importar mais.

O custo Brasil deve ser atacado frontalmente. Além da questão tributária, é urgente retomar a velocidade de novos leilões de concessões, principalmente na área de infraestrutura. Incentivar parcerias público-privadas (PPPs). Dar andamento às privatizações. Desburocratizar para melhorar o ambiente de negócios no país e eliminar amarras ao empreendedorismo, como pretende a chamada MP da Liberdade Econômica, relatada pelo deputado federal gaúcho Jerônimo Goergen, que foi aprovada na quinta-feira pela comissão mista do Congresso e agora aguarda a votação em plenário. Há ainda agendas de mais longo prazo, como a da educação, primordial para que o país dê um salto na produtividade, hoje estagnada.

A votação da Previdência, portanto, foi apenas uma batalha vencida na guerra a ser enfrentada para remover ao menos parte das barreiras que tornam o Brasil um dos lanternas do crescimento mundial nos últimos anos. Para vencê-las, será preciso organizar consensos. Os desafios não são pequenos diante de um país politicamente tensionado. Mas nada que uma democracia não possa resolver.



13 DE JULHO DE 2019
FLAVIO TAVARES

A LUA E NÓS

Julho é mês de júbilo. Há 230 anos, a 14 de julho de 1789, a Queda da Bastilha marcou a Revolução Francesa, derrubou o feudalismo e iniciou a era atual. Em 1969, a 20 de julho, 50 anos atrás, o homem foi à Lua pela primeira vez, no mais admirável feito da história humana.

Mas o cinquentenário nos obriga a uma reflexão crítica sobre nosso comportamento e o uso da ciência. O que aprendemos e de que nos serviu conhecer a desolada Lua?

A ciência conheceu ainda mais o universo, mas não valorizamos a vida na Terra. Seguimos tratando o planeta com desprezo, como se a natureza não nos protegesse e o ser humano fosse indesejável intruso.

Na madrugada de domingo, 20 de julho de 1969, assisti ao vivo, pela TV, o deslumbrar de um sonho fantástico, como bilhões de pessoas. Até então, só os telescópios iam à Lua. Ou ela era mera visão poética, um Sol noturno. "Levar-te-ei à Lua", exclamavam os namorados (em mesóclise) no êxtase da paixão?

A façanha mudou a correlação de forças na Guerra Fria e os Estados Unidos ultrapassaram a União Soviética. Em 1957, os russos tinham lançado o "Sputnik". Em 1961, Yuri Gagarin fez o primeiro voo espacial. As duas superpotências disputavam tudo e a repercussão política do feito superou a visão humana e científica.

Não aprendemos o significado de ir à Lua. Conhecemos a desolação lunar e a dimensão do sistema solar, mas (aqui) desdenhamos os efeitos da ação humana. Sem entender o sentido da vida, nossa pequenez todo dia destrói a Terra, obra suprema do processo da Criação, que nos aproxima da Divindade.

***

Em nome do "progresso", seduzidos pela cobiça, nos últimos 80 anos devastamos a Terra muito mais do que em todos os séculos. Sabemos que as mudanças climáticas nos levarão à desolação, como na Lua, mas continuamos a desmatar a Amazônia. Ou a degradar e poluir terras, águas e ar (e a matar) com a mineração, como em Brumadinho.

A ciência, a ONU e o Papa alertam para o horror à vista. Fixaram 2030 como ano final de uso do carvão e dos combustíveis fósseis para evitar o caos.

Mas, aqui, querem extrair carvão em mina a céu aberto, junto ao Rio Jacuí (e nele lançar os resíduos), a 10 quilômetros em linha reta de Porto Alegre, em terras de banhados que produzem arroz orgânico e hortaliças ecológicas. Com "vida útil" entre 23 e 30 anos, se implantada, a mina pode degradar o Guaíba e deixar sem água a área metropolitana antes (e após) o prazo da ciência para impedir o horror.

Sem júbilo, estamos no mundo da Lua?

FLAVIO TAVARES

sábado, 6 de julho de 2019



06 DE JULHO DE 2019
LYA LUFT

Depende do olhar

(Hoje me permito uma segunda brincadeira afetuosa com os que me dizem que não entendem nem apreciam poesia...). A vida, como a ficção, é um teatro de desatino.

Meus personagens: amantes, suicidas, sonhadores, seres rastejantes, criaturas aladas, simples humanos - crianças e seus segredos. O bem, o mal, o riso, o esgar, a procurada morte, a sorte, a sombra. Na beira do palco, como estrelas, penduro palavras: esse talvez seja o meu destino.

A vida precisa de uma porta para espiar o que há dentro: um corredor, o espelho e suas criaturas, a sala da família e um claro quarto de criança; um porão de aflições que soluçam à noite (mas dizemos: é o vento); o pátio, simples, e o pequeno jardim com três árvores esguias que afinal são um bosque.

Num resto de muro, a escada de madeira parece não levar a nada. Pousado no último degrau, um pássaro de sombra nos observa: seu bico é curvo e afiado.

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Embaixo de toda casa, essa que pensamos conhecer, vive a Medusa com olhos de uma nostalgia mortal. Embaixo de toda casa serpenteiam labirintos que temos de achar, e dominar - ou nos sugam, nos absorvem, nos vomitam - quando sonhamos.

Além deles, ali existe um poço e temos de mergulhar: primeiro as mãos em ponta cheias de encontro e de adeus, depois o rosto marcado, o corpo exausto que se adia.

E por fim, muito mais calma, isso que nos sobrou de alma.

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A vida deve ter varandas para sonhar, cantos para chorar, quartos para os segredos, mais a ambivalência, onde se respira - e a portinha do porão, com sua velha chave.

A vida precisa espaço de voar, liberdade de partir ou de ficar, alegria e algum desassossego contra o tédio. Não se esqueçam os danos a cobrir, o medo de perder ou de partir, o dom de surpreender - e um jardim de amores sem adeuses.

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O tempo não existe: eu decreto assim. Esses vultos esquivos são rostos, são nomes, são as horas felizes (são o que foi embora?).

O tempo não existe: tudo continua aqui, como uma árvore carregada de máscaras, palavras, promessas, bocas ferozes. O tempo não existe: tudo se resume ao instante. O tempo é um rio que corre mas não passa: é sempre agora.

Porque vida e morte, e o claro e o escuro, e a realidade e a imaginação se entrelaçam, se fundem, se ocultam e se desvendam. Porque o grão de loucura ilumina a noite e fertiliza a terra. Porque somos melhores do que nos fazem crer que somos. Porque para nós, amadores, indagar é melhor do que entender.

Porque o consolo está em que nada faz muito sentido. Porque, se uma parte de viver são escolhas, a outra parte é o olhar compassivo, divertido ou cruel dos deuses - para nossa glória ou danação.

LYA LUFT


06 DE JULHO DE 2019
MARTHA MEDEIROS

Depois que ela se vai

Oba, amanhã é dia de faxina! Esse é o comentário entusiasmado de quem deixou 17 copos sujos na pia, de quem não se deu o trabalho de desvirar o vaso de terra que foi derrubado pelo gato no tapete da sala, de quem deixou marcas de dedos no vidro da janela e o pó acumulando no canto dos móveis.

Oba, amanhã é dia de faxina! É o brado dos que largam jornal velho na área de serviço, dos que varrem os farelos do pão pra baixo do balcão da cozinha e dos que não passam nem um papel toalha no fogão depois de um fim de semana de frituras.

Oba, amanhã é dia de faxina, diz o dono de um sobrado num domingo à noite, ao perceber a semelhança do seu pátio com uma avenida após a passagem de um bloco de Carnaval. Oba, amanhã é dia de faxina, exclamam duas preguiçosas que dividem um apê e que não largam o celular nem para recolher os fios de cabelo grudados no ralo do box ou para procurar a tarraxinha do brinco que escorregou para baixo da cama. Uma faxineira na segunda-feira equivale a uma fada madrinha, a uma visita de Nossa Senhora.

Medo! Amanhã é dia de faxina!

Medo? Também. A impecável faxineira deixará tudo brilhando, sem vestígios do churrasco que o patrão fez para 20 amigos e sem vestígio do desleixo das duas molengas que não levantaram da cama no domingo. A faxineira encontrará a tarraxinha e deixará o apartamento um brinco. Ficará tudo tinindo e fora de lugar. É esse o drama: depois que ela se vai, a casa parece outra.

Você retorna à tardinha, depois de um dia de trabalho, e está tudo quieto. O desengordurante com aroma de flores silvestres deixou um cheirinho de limpeza no ar, mas o caderno de anotações em cima da sua escrivaninha desapareceu. O porta-retratos com a foto da sua mãe estará na quinta prateleira da estante e não na terceira. Sua pedra espetacular trazida do Marrocos foi jogada no lixo. Os fios do seu equipamento de som foram desconectados - nem o cabo do seu roteador escapou, você está offline.

As fronhas foram colocadas do lado invertido, os copos foram guardados em algum lugar misterioso, os tapetes estão trocados e sua escultura do Buda foi parar no hall de entrada - ficou melhor ali, admita: sua funcionária tem tino para decoração.

Oba, faxina! Exclamação dos que ainda podem se dar ao luxo dessa ajuda. Mas o medo ronda aqueles que sofrem ao perceber que a caixa de fósforos não estará na gaveta habitual, que não suportam ver seus livros dispostos de outro jeito, que ficam fulos ao ver que o violão foi colocado no armário em vez de encostado na parede. Cadê o respeito pela nossa bagunça tão familiar? Quem somos nós sem nossos desarranjos? Quem pode compreender a ordem da nossa desordem? Não é hora de filosofar, e sim de descobrir onde a maluca enfiou o gato.

MARTHA MEDEIROS


06 DE JULHO DE 2019
CARPINEJAR

Cuidado com o que não vê

As pessoas estão revoltadas, passionais, imediatistas. Mesmo quando têm razão, perdem a razão pelo descontrole, por gritar, por destratar.

Elas já se sentem enganadas por antecipação. Como se todos, sem exceção, tivessem segundas intenções e ansiassem por obter vantagem.

Os olhos não enxergam mais, somente recebemos a realidade pela boca aberta, disparando insultos.

Uma senhora entrou em um ônibus na Capital, na parada da Igreja São Sebastião.

Percebeu que estava lotado, não havia lugar na frente ou nos fundos. Observou os assentos dianteiros e vermelhos reservados aos idosos, gestantes e deficientes físicos e direcionou o seu ódio a um jovem escorado na janela. Ele cochilava. Ela entendeu que, na verdade, dissimulava, fingia cansaço, disfarçava o roubo da cortesia.

Ela não foi nem um pouquinho educada e discreta:

- Ei, ei, pode levantar daí! Esse lugar não é seu!

- Como assim? - ele respondeu, assustado.

- É uma vergonha deixar uma velha como eu, com quatro netos, aposentada, de pé.

- A senhora acabou de entrar. Não a tinha visto.

- Não importa quando entrei, importa que você não deveria estar sentado aí. Mais respeito com quem merece. É uma roubalheira. Ninguém respeita nada. Tudo é malandragem. Tudo é safadeza.

- A senhora não pode me ofender. Calma, sem escândalo! Vou sair já, um minutinho.

- Escândalo? Lutar pelos nossos direitos é escândalo? Não fica nem vermelho. Um minutinho nada, sai agora seu moleque, sai!

- Não precisa ser grossa.

- Grossa? Agradeça por não ser linchado, por não ser posto para fora do ônibus, por não receber um pontapé na bunda.

O bate-boca foi crescendo de modo assustador. Ela ameaçou bater nele com a sua bolsa, segurando a alça como um chicote.

Os passageiros levantavam os seus celulares filmando e sonhando com os milhões de acessos no YouTube.

O rapaz, então, levantou-se com muito esforço, pedindo licença, pedindo ajuda, pedindo passagem. Estava amparado em muletas, havia perdido a sua perna esquerda.

Houve um silêncio constrangedor. Diante das freadas súbitas do transporte, ele se segurava na barra de cima com uma mão e com a outra buscava manter o frágil equilíbrio da perna inexistente.

A idosa buscou consertar a sua injustiça, e piorou o soneto:

- Não vi que era um aleijado.

O jovem, que ia fazer avaliação no Hospital de Clínicas, na Avenida Ramiro Barcelos, apenas corrigiu: - Aleijado é quem não tem alma.

CARPINEJAR

06 DE JULHO DE 2019
PIANGERS

Desejar o que já temos

O bigodudo escritor americano Mark Twain dizia que "a comparação é a morte da alegria". Sem dúvida, não importa o quão feliz você esteja com seu emprego, seu casamento ou a criação de seus filhos, no momento em que comparar com a vida dos outros irá murchar. Existirá sempre um emprego melhor, um relacionamento melhor, um método melhor do que o seu para uma vida plena. Exceto que não existe.

A comparação acontecerá sempre com a vida que os outros querem que você veja. Por trás daquele profissional bem-sucedido existe um pai ausente. Por trás daquela mãe impecável está alguma solidão. Por trás daquele casamento perfeito existem antidepressivos. Por trás de cada sorriso em uma rede social existirá um esforço falso para registrar a foto perfeita. E a gente cai.

A comparação acontece com aquilo que imaginamos que os outros vivem. Outras tantas vezes a comparação existe com aquilo que acreditamos que poderíamos ter vivido. "Se eu tivesse casado com aquele" ou "se eu tivesse escolhido outra profissão". E nós lamentamos por nossa vida, sempre pior do que a dos outros. Esses dias li: "O Instagram do vizinho é sempre mais verde". Todos estão felizes, viajando, comendo sushi, com empregos perfeitos e almas gêmeas. Exceto que não estão.

Estamos todos meio perdidos, tentando equilibrar pratos profissionais, amorosos, financeiros. Tentando imitar aqueles que nos parecem brilhantes. Esquecendo de sermos nós mesmos, amarmos a nós mesmos, desejarmos ardentemente aquilo que já possuímos. Como diz aquele poema do Pessoa: "Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és no mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda brilha, porque alta vive".

PIANGERS


06 DE JULHO DE 2019
PAULO GERMANO

Concordar é tão inútil

O homem mais sábiode Atenas, quiçá do mundo, era um mendigo.E dormia num barril. Pelo menos era o que todos comentavam e, quando o rei Alexandre, o Grande, soube da história, quis conhecero pensador maltrapilho.

Alexandre gostava dos sábios, julgava importante tê-los por perto - não à toa, Aristóteles era seu principal conselheiro. Se o tal mendigo fosse assim tão sabido, talvez pudesse trabalhar para a coroa.

Diógenes era o nome dele.

Sua filosofia pregava que tudo o que é natural não pode estar errado. Ele usava essa premissa para peidar, urinar e se masturbar em público, mas isso nunca impediu a população de admirá-lo. Os atenienses respeitavam sua postura contestadora, sempre denunciando as convenções sociais e a forma como o homem complicava "os mais simples presentes dos deuses". O casamento, dizia Diógenes, era uma forma de complicar o presente natural do sexo.

Ideias meio doidas para a Grécia da época - talvez até mais doidas para o mundo moralista de hoje -, mas carregadas de boas intenções: o velho insistia que, para alcançar a felicidade, ninguém precisaria depender de qualquer coisa externa à própria existência. Bastaria usufruir dos "presentes naturais" e libertar-se das imposições de uma sociedade que mais reprime do que acolhe. Praticamente um hippie, só que 24 séculos antes dos hippies.

Já vou falar de seu encontro com Alexandre, o Grande, até porque estou há cinco parágrafos divulgando uma filosofia da qual discordo de cabo a rabo. Diógenes era um ingênuo, um utopista. E é evidente que grande parte dos atenienses também discordava dele. A questão é que ninguém se recusava a escutá-lo, pelo contrário: todos queriam saber o que Diógenes tinha a dizer simplesmente porque ele tinha, de fato, algo a dizer.

Ainda que fosse um mendigo peidorreiro.

Eu, por exemplo, nem sempre tenho algo a dizer, mas, na semana passada, acho até que tinha. Expus minha interpretação sobre como Jesus veria os homossexuais hoje em dia - tudo com base em trechos da Bíblia e em algumas leituras sobre hermenêutica. Mas, bastava as pessoas lerem o título - e muitas só liam o título -, para escreverem comentários e e-mails sugerindo coisas como me pendurar de ponta-cabeça e arrancar meus olhos com pinça, o que Jesus provavelmente acharia ruim.

As pessoas se enfurecem, espumam de ódio quando esbarram com um ponto de vista diferente. Por que concordar virou tão necessário? Não há nada mais monótono, cômodo e inútil do que concordar em qualquer debate. Aliás, só a divergência pode produzir um debate, só ela tira da inércia, só ela expõe outro ângulo, só ela provoca e nos faz crescer. Como Diógenes provocava.

Então o rei Alexandre, o Grande, chegou a Atenas sobre um cavalo negro. Alguém apontou-lhe a lateral de uma escadaria, e lá estava um barril deitado, com o velho molambo escorado à frente, tomando sol depois do almoço.

- Que queres que faça por ti? - perguntou Alexandre, em pé, mirando o homem no chão.

O problema é que o rei se metera bem na frente do sol. Diógenes ficou brabo com aquela sombra; cara chato, esse rei.

- Não quero nada. Só não me tires o que não podes dar! - e fez sinal para Alexandre cair fora.

O povo gritou "oh!", e um general sacou a espada berrando "como ousas, mendigo insolente?". Diógenes mal ergueu a sobrancelha, só faltou bocejar. E Alexandre, com um gesto de mão, mandou o oficial recuar, despediu-se em voz baixa e foi embora calado, pensando no que ouvira.

- Só não me tires o que não podes dar... - repetia o rei, já retornando.

Diógenes se referia à luz do sol? Ou à sua própria forma de enxergar o mundo? Porque Alexandre, se obrigasse Diógenes a trabalhar para a coroa, mudaria a forma como o velho se relacionava com o mundo. O rei refletiu, então, sobre o que aquele homem pensava do mundo e, bem, talvez nem tenha concordado. E daí? Que diferença faria?

PAULO GERMANO