sábado, 27 de julho de 2019



27 DE JULHO DE 2019
COM A PALAVRA

"SÓ NO BRASIL EXISTE PRISÃO EM CASA. É UM SISTEMA QUE FUNCIONA MAL."

Entrevista | FAUSTO DE SANCTIS - Desembargador, 55 anos, Hoje juiz do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3), em São Paulo, foi o responsável pelas operações Satiagraha e Castelo de Areia.
Juiz responsável pela Satiagraha e a Castelo de Areia, operações da Polícia Federal que antecederam a Lava-Jato, Fausto De Sanctis condena o vazamento das conversas entre integrantes da força-tarefa, publicadas pela imprensa há mais de um mês. Para ele, os diálogos só servem como "curiosidade" - acessados de modo ilegal, sequer podem ser periciados ou considerados provas, afirma.

Polêmico, Sanctis viu suas duas principais ações serem anuladas pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) e se indispôs com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Hoje desembargador no Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3), em São Paulo, concedeu entrevista por telefone a ZH de seu gabinete na Avenida Paulista.

- Não falo de casos concretos - alertou, no início da conversa.

Durante uma hora, defendeu os colegas da Lava-Jato e criticou o STF. No passado acusado de parcialidade (assim como Sergio Moro), diz que a influência política não se dá sobre o juiz de primeiro grau, mas sobre os ministros da mais alta corte do país.

A OPERAÇÃO CASTELO DE AREIA FOI UMA ESPÉCIE DE ESBOÇO DA LAVA-JATO, MAS QUE NÃO ATINGIU A MESMA REPERCUSSÃO. O HOUVE DE DIFERENTE?

A Castelo de Areia buscava a corrupção sistêmica, exatamente o que se descobriu na Lava-Jato - uma rede de grandes empreiteiras com conexões políticas que desvirtuavam os princípios das leis de licitações. Mas, na época, não existia esse apoio popular que a Lava-Jato obteve. Pouco a pouco, por conta das operações do passado, a população começou a tomar conhecimento da existência de uma corrupção sistêmica. E não existiam os mesmos instrumentos, como o uso das mídias sociais de forma livre, com críticas e questionamentos das decisões públicas. Esse uso permitiu a contestação pública de atos de autoridades políticas ou do Judiciário. Assim, quebrou-se o controle da informação, porque a mídia social não permite o filtro da informação dada à população. Na época, havia um certo controle por boa parte da imprensa. A Castelo de Areia enfrentou esse obstáculo, de não ter o apoio da população em ver o caso e considerá-lo grave, para dar uma resposta à altura da organização criminosa que havia no Brasil.

OS MÉRITOS DA LAVA-JATO PASSAM PELO APOIO POPULAR?

Há também a crise econômica, que notabilizou o momento da Lava-Jato e permitiu essa insatisfação popular. Na Castelo de Areia, havia crescimento econômico, as pessoas não estavam preocupadas com a corrupção porque estavam em um ambiente satisfatório. A corrupção dos agentes públicos, aliada à crise econômica decorrente dessa corrupção, provoca a manifestação pública, a insatisfação. Estudos mostram que a satisfação econômica faz com que as pessoas fiquem alheias ao combate à corrupção. Hoje, a população sabe que qualquer desvio de olhar para as instituições vai a favor do ambiente da corrupção. Esse combate é um trabalho permanente de vigilância social sobre as ações das autoridades públicas.

NESSES MOVIMENTOS, SURGIU A FIGURA DO EX-JUIZ SERGIO MORO COMO SUPER-HERÓI. O SENHOR CONSIDERA ESSE PROTAGONISMO POSITIVO?

Diante dos escândalos revelados pela Lava-Jato, a população ficou carente de líderes políticos. Aí, passou a eleger outros líderes. Todos aqueles que estão combatendo de maneira legítima o status quo acabaram sendo vistos como heróis. Eu também passei por isso e não acho correto. Quando a população identifica heróis, ela também identifica vilões. E esses vilões estão cada vez mais claros.

A SATIAGRAHA E A CASTELO DE AREIA ACABARAM ANULADAS. AO OLHAR PARA TRÁS, O QUE O SENHOR TERIA FEITO DIFERENTE?

Nenhuma decisão minha foi como hoje, quando as autoridades judiciais tomam uma decisão e, após dois meses, vem uma liminar contra a decisão colegiada, aí a decisão colegiada não vale mais, passa a valer outro entendimento... Essa insegurança jurídica propiciada pela alta cúpula tem desacreditado o Judiciário no Brasil e no Exterior. Para mim, que tenho dado palestras no Exterior, é constrangedor. Em termos de eficiência, a Lava-Jato é considerada o único exemplo institucional da Justiça brasileira. E é atacada por todos os lados.

MAS O SENHOR TERIA AGIDO DIFERENTE?

As decisões foram baseadas na minha experiência doutrinária e jurídica. Todas foram confirmadas pelo mensalão e pela Lava-Jato. Estive à frente de várias investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, quase nada foi anulado. Toda a Satiagraha, por exemplo, foi anulada porque a transcrição da interceptação telefônica, feita por agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), foi considerada irregular. A Castelo de Areia foi anulada porque a interceptação teria começado com uma denúncia anônima. Mas havia delação premiada, um procedimento que estava em curso em outra vara especializada e investigações preliminares da polícia. Anulações ocorreram, mas, hoje, acredito que não ocorreriam por causa da vigilância social e da comunicação entre o Judiciário e a população.

O SENHOR QUER DIZER QUE PROVAS OBTIDAS POR MEIO ILEGAL PODEM SER USADAS EM PROCESSOS?

Pela história da jurisprudência brasileira, não pode, de forma alguma. Recentemente, o ministro Gilmar Mendes, do STF, decidiu soltar uma pessoa acusada de tráfico de entorpecentes porque a polícia teria extraído o conteúdo de seu WhatsApp sem autorização judicial. A pessoa foi solta, e a prova, considerada nula. Pela jurisprudência do STF, toda prova originada de ilicitude está contaminada. É ilícita.

O SENHOR COSTUMA DIZER QUE, PELOS MÉTODOS TRADICIONAIS, UMA INVESTIGAÇÃO DE LAVAGEM DE DINHEIRO NÃO TEM RESULTADOS. QUAIS SÃO OS MÉTODOS EXCEPCIONAIS?

Os métodos tradicionais eram aqueles que todo mundo sabia que existiam na polícia - instauração de inquérito, chamamento de testemunhas, apreensão de documentos. O cenário mundial estimula os organismos a usarem métodos especiais de investigação, previstos em convenções contra corrupção da ONU. Sem eles, não se apuram esses crimes sofisticados. Esses só são descobertos quando passamos a usar interceptações telefônicas, captação ambiental, delação premiada, informante do bem e agente infiltrado.

O PAÍS ENFRENTA UM MOMENTO DE DESCRÉDITO NO JUDICIÁRIO. PEDIDOS DE UMA LAVA-TOGA, POR EXEMPLO, TÊM SIDO RECORRENTES EM MANIFESTAÇÕES. COMO RECUPERAR A CONFIANÇA?

As pessoas agem por incentivos ou desincentivos. Quando são incentivadas a agir de forma correta, assim o fazem. E a grande maioria da população é de pessoas corretas. Elas esperam das instituições a concretização da democracia, uma ação equitativa do Estado de direito. A lei tem de valer para todos, sem exceção, e o Judiciário está aí para afirmar que a igualdade de tratamento deve prevalecer. Quando existe tratamento dual pela Justiça, há descrédito nas ações da própria Justiça, a ponto de deslegitimá-la e causar risco à democracia. Muitos defendem posicionamentos em prol do princípio da inocência, da não culpabilidade, do contraditório e da ampla defesa. São argumentos muito bons, mas a arte de julgar é de direitos e deveres, não só de direitos. No Judiciário, a pretexto de defender a inocência, a não culpabilidade, a ampla defesa e o contraditório, muitos estão em defesa das suas tentações internas e do ganho de dinheiro fácil, indo contra a ideia de democracia. A democracia é reconhecida por aquilo que constrói, e não pela vitalidade das estruturas institucionais. O Brasil tem instituições há anos, mas que nunca fizeram face à corrupção. Pelo contrário, em nada a contiveram ou preveniram. Uma das funções do Judiciário é realinhar incentivos e desincentivos e, a meu ver, os incentivos para que as pessoas não se corrompam está quebrado. A população pode não entender uma decisão específica, mas entende o conjunto. Ela entende que, por detrás de decisões maravilhosas em defesa de princípios democráticos, está a mensagem de que a corrupção compensa, defendendo a elite política e econômica que sempre esteve no poder e criou essa mazela entre ricos e pobres do Brasil.

O SENHOR COSTUMA DIZER QUE A INFLUÊNCIA POLÍTICA ESTÁ NO STF, E NÃO NOS JUÍZES DE PRIMEIRA INSTÂNCIA.

O que se espera de uma corte constitucional de Justiça é tecnicismo. Quando se mistura técnica com política, é muito complicado. Nos EUA, discute-se o lobby no Executivo e Legislativo. Grupos se dirigem a políticos para conseguir leis vantajosas. Na teoria, o Judiciário, por não agir por agenda própria, mas por distribuição, seria menos vulnerável. Mas hoje há lobby também sobre o Judiciário, para que as interpretações favoreçam grupos econômicos que atuam com corrupção. Quando o Estado é substituído por poderes sociais e políticos paralelos, pode se criar uma situação insustentável da democracia formal. Há alto risco de o crime organizado tomar de vez o poder. Vimos isso nos anos recentes, com relação ao crime econômico, mas há a possibilidade de que o crime envolvendo tráfico de drogas, milícias, tome o poder aos poucos. Essas brechas de interpretações jurisdicionais têm permitido a impunidade, e, quando se fala em impunidade, se fala em estímulo. Estamos em um Estado institucionalmente falido, chegando à paralisação da luta contra a corrupção.

QUAL É A SOLUÇÃO?

O reforço da sociedade civil. Atualmente, há um movimento de repensar o que funciona. Agora, para repensar o que não funciona não há movimento. O abuso de autoridade, incluído nas 10 medidas contra a corrupção, tolhe a independência dos juízes, essencial em qualquer país. Esse movimento foi visto com preocupação pelos organismos internacionais. É preciso reforçar os institutos que permitiram a descoberta da corrupção - a delação premiada, o juiz independente de primeiro grau. E não, por exemplo, estabelecer o juiz das garantias, que tem o poder de rever as decisões de primeiro grau. Vão sendo criados instrumentos que burocratizam aquilo que já é ruim para destruir aquilo que está funcionando. Também querem controlar as delações premiadas, sempre gerando escândalos: "Olha, fulano foi pressionado para fazer delação". Espera lá! Estamos falando com réus adultos, assessorados por advogados, acompanhados pelo Ministério Público e por um juiz. A palavra do delator não vale nada sem prova complementar. Tentam colocar isso como escândalo no país.

NA SUA AVALIAÇÃO, O PRÓPRIO SUPREMO TEM VALIDADO ESSE MOVIMENTO?

Isso gera descrédito na população. Não é possível um poder sem amadurecimento, com todas as vênias possíveis, ficar decidindo de modo diferente de tempos em tempos. E não porque houve um aperfeiçoamento, mas por movimentos do Judiciário. Isso é muito sentido pela população. No Exterior, é constrangedor falar sobre as decisões do Judiciário brasileiro. Quando se fala que, no Brasil, o réu não pode ser algemado, é motivo de risada, de escárnio. Só no Brasil existe prisão em casa. É um sistema que funciona mal. No final, a corrupção tem gerado prisões domiciliares, a pessoa mal sente o que fez, não há arrependimento. Na Lava-Jato, políticos não tiveram consequência nenhuma até o momento, a não ser um que foi condenado pelo STF (deputado Nelson Meurer). Fora isso, a Lava-Jato, que se iniciou em 2014, depois de cinco anos e meio, não tem nenhuma prisão após o recebimento de 193 denúncias pelo Supremo.

HÁ POUCO MAIS DE UM MÊS, DIÁLOGOS ENTRE SERGIO MORO E DELTAN DALLAGNOL VÊM SENDO DIVULGADOS PELA IMPRENSA. É COMUM ESSA COMUNICAÇÃO, FORA DOS AUTOS, ENTRE JUIZ E PROMOTOR?

Conversas sempre existem na Justiça. O estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) determina que é direito do advogado contatar diretamente o juiz. No Exterior, já ouvi que o Brasil é o país dos advogados. Tem de haver a paridade. Se o advogado tem acesso direto, o MP também tem. Conversas existem, o que não pode existir é antecipação de decisão judicial. Não estou falando desse caso concreto, mas, por vezes, há uma tentativa de sondagem do juiz, querem saber a probabilidade de um pedido. No caso do Intercept, trata- se de invasão de privacidade, que não é tolerada pela Constituição. Se você permitir invasão virtual, você também vai permitir invasão física. Imagina alguém invadir a casa de um juiz para tentar descobrir algum documento? É a mesma coisa. Se isso for permitido, vamos invadir a casa do juiz e extrair a confissão de que ele condenou um réu injustamente. Hoje, estamos falando de Lava-Jato. Depois, poderemos estar falando de crime organizado envolvendo PCC ou Comando Vermelho. Qual juiz vai decidir livremente se isso for respaldado por um Judiciário que sempre condenou a ilicitude da prova produzida quando obtida ilicitamente? É grave. Quando se investe contra o juiz ou o MP, está se investindo contra a democracia. A pretexto de defender valores democráticos, na verdade está se indo contra a democracia. Toda prova produzida é nula, porque não pode ser objeto sequer de perícia. Se essa violação absurda de conversas privadas for legitimada, vai se permitir uma ilegalidade brutal contra a democracia. O material do Intercept pode ser a título de curiosidade. Nada mais do que isso. As instituições, se derem vazão a isso, estarão dando um tiro no pé. Hoje, são Moro e Dallagnol. Amanhã, pode ser qualquer um.

ALGUNS JURISTAS TÊM DITO QUE ESSES DIÁLOGOS PODEM SER USADOS PARA ANULAR A SENTENÇA, SE COMPROVADA A SUA VERACIDADE E A PARCIALIDADE DO JUIZ.

Entendo totalmente diferente. No Brasil, as pessoas não aplicam a lei. Pela lei, o acesso ao conteúdo só pode ser por decisão judicial. Não sei nesse caso específico, mas, quando eu expedia buscas e apreensões, autorizava judicialmente o acesso ao conteúdo. Não faz sentido apreender um aparelho se você não pode autorizar o acesso ao seu conteúdo. Para evitar nulidades, eu permitia mediante decisão judicial. Agora, sem autorização judicial... Me desculpem esses juristas, mas estou reaprendendo o Direito Processual Penal.

EM TESE, UM JUIZ QUE SUGERE INVERSÃO DE ORDEM DE OPERAÇÃO, DÁ DICA DE TESTEMUNHA E PEDE INCLUSÃO DE PROVA EM UMA DENÚNCIA NÃO ESTÁ SENDO PARCIAL?

Isso que foi obtido pelo Intercept foi obtido por invasão, por hacker. Conversei com uma pessoa dentro do MPF. Ela revelou que uma conversa privada de duas pessoas, dois membros do MPF, que em nenhuma hipótese divulgaram a conversa, foi noticiada pela imprensa. Parece que houve hacker invadindo sistema. E o hacker é muito bom, tanto para invadir quanto para manipular prova. Então, não posso aceitar isso como prova, nem o teor, para saber se é real. Nem se pode fazer perícia numa prova obtida ilicitamente, então, não tem validade para nenhum efeito. Agora, nem tudo que o juiz Sergio Moro fez eu teria feito. Tenho outros entendimentos. Mesmo assim, você não pode tirar o mérito do Moro, que tem uma história de coragem e combate ao crime. Você não pode destruir um trabalho positivo porque discorda de algo pontual. Não é papel do Judiciário julgar juiz. Precisamos de uma jurisprudência que oriente o juiz, e não o desoriente. De nada adianta termos pessoas engajadas no combate ao crime se o Judiciário, com suas decisões, torna o sistema tímido e inoperante, desestimulando as ações dos demais órgãos.

MORO É CRITICADO PORQUE, SUPOSTAMENTE, AO SE TORNAR MINISTRO, TERIA SE BENEFICIADO DAS SUAS PRÓPRIAS DECISÕES. O SENHOR CONCORDA?

Não posso falar especificamente, mas acredito que são decisões pessoais, fruto de um acúmulo de circunstâncias. A Lava-Jato exige exclusividade, o que gera um cansaço absoluto, físico e mental. É um cansaço injusto, porque muitos inimigos do juiz de primeiro grau não são os réus, mas o próprio sistema, por conta de vaidades. Até hoje sofro com isso. As pessoas querem puxar para baixo quem fez um brilhante trabalho. Acredito que ações como a tomada pelo ministro são fruto de uma série de situações. Talvez, entre elas, esteja o cansaço e a vontade de ir para outras frentes. Cheguei a ser cogitado para sair do Judiciário e nunca aceitei. Nunca quis desacreditar o que fiz. Dou palestras há anos e não cobro. Até estou repensando, porque sei de autoridades judiciais de Brasília que cobram. Elas dão aula, algumas têm até institutos de Direito e ganham por isso. Agora, quando é revelado que uma pessoa da Lava-Jato teria ganhado... "Ó, que surpresa." Espera lá! Se vamos discutir ética, vamos discutir de baixo para cima e de cima para baixo, e não pontualmente, para destruir uma operação.

MESMO DENTRO DA LEI, O SENHOR CONSIDERA ÉTICO COBRAR POR PALESTRAS?

Juízes e promotores estão legitimados a dar aulas. É a única coisa que podem fazer: dar aula e ganhar por isso. Palestras também são consideradas atividades docentes. Isso não significa que a pessoa agiu incorretamente na sua função. Se as pessoas querem ouvir determinadas autoridades, de que adianta não cobrar? Quase todos cobram. Isso é legítimo, natural, e se discute como se fosse um escândalo.

MÉRITOS E CRÍTICAS À LAVA-JATO SURGIRAM EM MEIO À POLARIZAÇÃO DO PAÍS. O SENHOR CONCORDA QUE ESSA SITUAÇÃO INFLUENCIA A ANÁLISE DA OPERAÇÃO?

Agora, com tudo o que está acontecendo, não é momento de repensar o sistema em termos de aperfeiçoamento de legislatura. Temos boa parte do Congresso condenada pela Lava-Jato ou em vias de ser. Esse mesmo Congresso está julgando o juiz com essas mudanças legislativas, para a punição do magistrado independente e imparcial. O momento é único para o combate à corrupção. Não há abusos, não se verificou nenhum abuso relevante que justifique esse movimento. Está se aproveitando desse escândalo criado forjadamente para desacreditar todos, poupar pessoas que estão presas e evitar novas ações.

O PRESIDENTE DO SUPREMO, DIAS TOFFOLI, SUSPENDEU INQUÉRITOS COM DADOS DO CONSELHO DE CONTROLE DE ATIVIDADES FINANCEIRAS (COAF). QUAL O IMPACTO DESSA DECISÃO NAS INVESTIGAÇÕES EM ANDAMENTO NO PAÍS?

Não posso falar do caso concreto, mas a comunicação de operações suspeitas é a espinha dorsal reconhecida mundialmente no combate à lavagem de dinheiro. A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) determina que não se pode invocar sigilo que inviabilize a rápida troca de informações para esclarecer o crime de lavagem de dinheiro. Se não seguir isso, o Brasil vai ter problemas. O Coaf tem uma função muito específica de filtrar e repassar comunicações suspeitas. Não pode virar um órgão inútil a partir de decisões que obrigam a autorização judicial.

DÉBORA ELY


27 DE JULHO DE 2019
DRAUZIO VARELLA

O RISCO DE DEMÊNCIA

Pesquisa britânica recém divulgada investigou associação entre genética e estilo de vida. Anos atrás, os poucos que chegavam aos 60 anos eram chamados de sexagenários. Hoje, quando morre alguém com 70, dizemos que morreu moço.

Uma pesquisa recente mostrou que, ao completar 50 anos, pessoas que não fumam, bebem com moderação, praticam atividade física com regularidade, adotam dietas com mais vegetais e menos gordura animal e mantém o peso corpóreo na faixa saudável terão expectativa de viver em média mais 38 anos se forem homens, e mais 43 no caso das mulheres.

O preço a pagar pelo privilégio da longevidade, no entanto, extrapola a questão da Previdência Social, uma vez que a prevalência de enfermidades crônico-degenerativas aumenta com a idade. Entre nós, o custo é mais alto, porque envelhecemos mal: cerca de 90% dos brasileiros chegam aos 60 anos com pelo menos uma doença crônica.

Nesse universo, as demências ocupam lugar de destaque. Nem tanto pela prevalência - hipertensão e diabetes são muito mais prevalentes -, mas pelas consequências devastadoras, pessoais, familiares e sociais.

Diversos pesquisadores avaliaram a influência do estilo de vida na instalação dos quadros demenciais que ocorrem ocasionalmente, em indivíduos sem antecedentes familiares. Aprendemos que existem vários fatores capazes de aumentar esse risco: fumo, sedentarismo, dieta pobre em vegetais e rica em gordura animal, abuso de álcool, falta de estímulos cognitivos, distúrbios do sono, dificuldade de engajamento social, traumatismos cranianos e até a poluição.

Por outro lado, os avanços da genética levaram à identificação de mais de 250 mil variantes de genes associadas ao risco de demências. A presença delas, explica o número de casos concentrados em determinadas famílias. Para os portadores desses genes, bem como para filhos, netos e sobrinhos de pessoas com Alzheimer e outras degenerações cognitivas é fundamental saber se a tendência genética pode ser contrabalançada, por meio de mudanças no estilo de vida.

Acaba de ser publicadA na revista JAMA uma pesquisa conduzida por D. Llewellyn no Reino Unido para responder A essa pergunta.

Os autores acompanharam durante 10 anos 196 mil pessoas com mais de 60 anos, inscritas no UKBiobank study, que procura identificar fatores causais de enfermidades que incluem câncer, doenças cardiovasculares, depressão, demências e outras.

No material estudado no UKBiobank, foram identificadas 250 mil variantes genéticas que podem aumentar o risco de patologias demenciais. De acordo com o número de genes alterados, os participantes foram divididos em três grupos: escore genético alto (risco maior), intermediário ou baixo.

Em relação aos hábitos de vida, os autores isolaram apenas quatro variáveis, consideradas protetoras em relação às demências: 1) não fumar; 2) adotar dieta saudável; 3) não beber mais de 14g de álcool diárias, se for mulher, ou mais de 28g diárias se for homem; 4) praticar 150 minutos semanais de atividade física de moderada intensidade ou 75 minutos semanais de atividade intensa.

De acordo com a obediência aos itens citados, os participantes também foram classificados em três grupos: favorável (três ou quatro itens), intermediário (dois itens) e desfavorável (nenhum ou um).

Entre os participantes com risco genético alto e estilo de vida desfavorável 1,78% desenvolveram quadros demenciais, no período de 10 anos, enquanto nos do extremo oposto - risco genético baixo e estilo de vida favorável - apenas 0,56% o fizeram, ou seja, três vezes menos. Mesmo no grupo de risco genético alto, a adoção das medidas favoráveis fez cair o número de casos de demência, de 1,78% para 1,13%.

Os resultados revelam que genética e estilo de vida estão independentemente associados ao risco de apresentar demência. A adoção de estilos de vida saudáveis reduz a probabilidade, tanto nas pessoas sem casos na família quanto naquelas com predisposição genética.

Este foi o primeiro estudo que investigou a associação entre risco genético e fatores modificáveis na rotina diária, na incidência de quadros demenciais.

O fatalismo dos que dizem "não vou escapar, meus pais tiveram Alzheimer, minha avó, também", deve ser substituído pela disciplina de praticar atividade física, adotar dietas com mais vegetais e menos gordura animal, não fumar de jeito nenhum, beber pouco e ler muito. Realizado com maiores de 60 anos, esse estudo deixa evidente que nunca é tarde para começar.

DRAUZIO VARELLA


27 DE JULHO DE 2019
JJ CAMARGO

UMA TRAGÉDIA BRASILEIRA

O tiroteio de Cristal provoca uma reflexão sobre a vida bandida. A solidariedade é um pré-requisito para a sobrevivência no mundo do crime, sempre em sobressalto pelos fantasmas do medo e da vingança. Um parceiro deixado para trás equivale à assinatura de um contrato de morte, que todos os envolvidos sabem que se cumprirá, não importa quanto tempo demore.

Muito se diz que essas pessoas deviam ser exterminadas do convívio social por serem irrecuperáveis, e que a pena de morte seria a única solução para interrompê-los. Os proponentes dessa estratégia de redução da criminalidade ignoram que a pena de morte só atemoriza quem dá valor à vida, o que não passa nem perto dos sentimentos de quem cresceu à margem dos elementos fundamentais para quem projeta ser feliz. Sem isso, só lhes resta a ânsia da autopreservação, nosso primeiro instinto. Quem banalizou a morte não tem nenhum apreço pela própria vida, muito menos pela dos outros.

Na vida bandida, a única lei vigente é tentar alongar a sobrevida, admitindo-se que o sonho de velhice é uma utopia. Quem presta atenção nas imagens dos nossos presídios percebe imediatamente que lá não moram velhos. E isso não decorre de progressão de regime. Nada disso. A maioria, aliás, tem grande chance de ser executada antes mesmo que a extensão da sentença tenha sido formalizada. O que significa que a nossa pena de morte já existe. O que devia encabular uma sociedade civilizada é que ela foi homologada de um jeito muito selvagem, que não segue os ritos legais dos países desenvolvidos.

Neste recente e trágico episódio de tentativa de resgate de parceiros do crime, cercados pela polícia, certamente muitas das loucuras que resultaram na morte de inocentes tiveram como objetivo demonstrar o quanto se deve valorizar a parceria no crime, pressupondo-se com isso igual fidelidade, se e quando, algum dia, os papéis se inverterem. A ideia de colocar familiares no carro para dar ao traslado um ar de respeitabilidade domiciliar teve um toque de criatividade cinematográfica, e que provavelmente teria funcionado se o intento de furar a barreira policial não tivesse sido à noite e o veículo não portasse vidros fumê tão densos que tornava seu interior indevassável.

Depois da identificação das placas monitoradas pela polícia, a partir da ultrapassagem da primeira barreira, o tiroteio subsequente, ao melhor estilo Bonnie & Clyde, era completamente previsível. O fato constrangedoramente inesperado foi a presença entre os alvos de um menino e duas mulheres, cujo maior crime foi, talvez, ignorar os sinais de sociopatia dos seus amados, que culminou com suas mortes, anunciadas desde o dia em que o destino os aproximou.

Nessa aventura surreal, nada comoveu mais do que a morte do garoto de quatro anos, atingido por três tiros, um dos quais implodiu-lhe a cabeça. E então, do meio do quase nada que sobrou daquela família, emergiu uma avó, que apesar de destroçada na sua essência, encontrou forças para um gesto de extrema generosidade: doou os órgãos do garotinho muito amado, e com isso evitou que famílias desconhecidas fossem poupadas da dor de também perderem as suas crianças. Velando o filho, que aparentemente no desespero pelo tamanho da desgraça não encontrou melhor saída do que o suicídio, e no limite do sofrimento, ela colocou uma única condição: que lhe devolvêssemos logo o corpo do netinho inocente, para que ela pudesse, ao menos, enterrá-los juntos.

JJ CAMARGO

27 DE JULHO DE 2019
DAVID COIMBRA

A russa do quinto andar

O alarme de incêndio tocou três vezes nessa madrugada aqui no prédio. É óbvio que está com defeito, não tem nada pegando fogo, mas você é obrigado a levantar e sair para a rua - normas de segurança e tal. Até porque ninguém conseguirá dormir. Em cinco minutos, sempre que soa o alarme, chegam dois caminhões de bombeiros, dois carros de polícia e uma ambulância, todos com as sirenes ligadas, fazendo grande alarde. Os bombeiros saltam dos carros e entram no edifício açodados, carregando mangueiras e machados e tudo mais. Naquele momento, eles são mais importantes do que o presidente da República. Agem com muita autoridade e são muito respeitados. Os moradores ficam esperando pacientemente que digam que o prédio está liberado e só então voltam para suas casas.

Na primeira vez que o alarme soou, eram 2h40min da madrugada. Escorreguei para fora da cama e me dirigi sem pressa para a escada de incêndio. Imaginava que devia ser uma panela esquecida no fogo, como da última vez que o alarme tocou. Quando saí do prédio, quase todos os vizinhos já estavam na calçada, inclusive a morena do quinto andar.

Ela é nova no prédio, e acho que veio da Rússia. Se não for da Rússia, veio da Moldávia. Ou da Ucrânia. Um desses lugares. Deve ter uns 35 anos, talvez um pouco mais. Calçava chinelos e uma camisola que escondeu debaixo de uma camiseta comprida. Seus cabelos estavam presos por um coque que deve ter improvisado ao saltar da cama. Atrás dela, um menino de uns 12 anos de idade a observava de olhos arregalados e boca aberta.

Entenda: vivemos o verão no Hemisfério Norte. As mulheres saem às ruas vestindo roupas sumárias, shorts mínimos, minissaias realmente mínis. Logo, é mais do que natural ver pernas de louça de mulher expostas por aí. Ou seja: a russa do quinto andar não mostrava nada que o garoto de 12 anos não visse todos os dias, em toda parte. Mas ele estava visivelmente emocionado.

Sorri. Lembrei-me de quando também tinha meus 12 anos. É uma idade decisiva para o menino, porque ele está deixando de ser criança e ainda não é adolescente. Está transitando entre a inocência e a malícia, sabe que algo de importante está prestes a lhe acontecer, mas ainda não aconteceu. Nessa idade, a diferença que existe entre os meninos e as meninas não faz mais com que queiram se afastar; faz com que queiram se aproximar.

Mas isso não é assim tão simples. Porque elas têm algo estranho, que os deixa inseguros. Olhe o que elas fazem. Quando vão cruzar as pernas, elas não cruzam, elas enroscam uma na outra de um jeito só delas e ficam equilibradas naquelas duas serpentes, bem eretas, como se estivessem prestando atenção em algo muito interessante que se passa logo ali. Algumas, se estão distraídas, enrolam uma mecha de cabelo no indicador e deitam a cabeça de lado, com suavidade. E, quando vão experimentar um perfume, borrifam o próprio pulso e levam-no à ponta do nariz, para sentir o cheiro. Como é bonito ver uma mulher aspirando o aroma que lhe vem do pulso. Mas é claro que, para um guri de 12 anos, o evento clássico se dá quando ele está na praia e vê uma mulher puxando a alça do biquíni para melhor encaixá-lo nas ilhargas. Esse é um acontecimento que ele quererá partilhar com os amigos: "Nem imagina o que eu vi hoje à tarde?".

Ah, uma mulher, mesmo que seja só uma menina, ela às vezes faz silêncios ou sorri de uma forma que é enigmática para um menino de 12 anos. Dependendo do silêncio e do sorriso, será enigmático até para meninos de 40, 50, 60 anos. Por isso, compreendi a fascinação daquele garoto com a russa do quinto andar. As rendinhas da camisola, que surgiam por baixo da camiseta larga, o chinelo rasteiro que ficou equilibrado entre os dedos do seu pé direito quando ela acomodou-se numa mureta e cruzou as pernas, aquela intimidade inesperada era o suficiente para deixá-lo sem respiração.

Fiquei olhando para a cena por alguns minutos. Agora, o alarme já havia sido desligado, o chefe dos bombeiros fez sinal de que estava tudo sob controle. Então, a russa se levantou, levou a mão para a parte de trás da cabeça e de lá puxou a vareta que lhe prendia o coque. Seus cabelos desabaram, macios, até os ombros. E o menino, a dois passos de distância, ergueu a mão ao peito e suspirou. Continuou ali parado, enquanto a morena sumia no saguão do edifício. Foi para casa sem nem desconfiar que, naquela noite, ela entrou para a história de uma vida.

DAVID COIMBRA


27 DE JULHO DE 2019
MÁRIO CORSO

A depressão traduzida em monstro

Você já sentiu uma pontada de frio na alma, uma sensação estranha de que nada vale a pena? Ou, repentinamente, o mundo fica sem cor e nada faz diferença? Ou, ainda, algo vago que começa com um aperto no peito, uma sensação de falta que, embora aguda, não se sabe do que é, acompanhada de uma desesperança absoluta e uma ideia de que está tudo errado com você?

Se essa sensação for eventual, tudo bem, de quando em quando a experimentamos e isso é incontornável da dimensão humana. Mas, se isso se instalar e vier com a certeza de que não valemos nada, nunca, para ninguém, temos uma depressão. Isso é muito sério, vá procurar ajuda.

O calvário da depressão ganhou um monstro à altura para representá-lo com a chegada do Dementador, uma das mais geniais criações da escritora J. K. Rowling. Esse monstro nos induz a um estado deplorável pela sua simples presença. Basta fazer sua aparição para que toda nossa esperança se esvaia e sejamos inundados pelo nada. Sentimo-nos sem valor, sem força para seguir lutando. Se sobrevivermos, será só por falta de energia até para nos tirar a vida. Ficamos inertes, hipnotizados por essa negatividade. Depois de encontrar um deles, acreditamos que nunca mais seremos felizes. No mundo de Harry Potter, eles são os guardas da prisão de Azkaban.

Até então os monstros machucavam, decepavam, engoliam e matavam, muito distintos destes, cuja arma é a tristeza. O Dementador é o terror em estado puro: uma aniquilação que prescinde de tocar no corpo. Ele age sugando nossas boas lembranças. Sem elas, seríamos reduzidos a nada. Como também inocula a desesperança, não resta a expectativa de conseguir valer algo no futuro.

Em síntese, a depressão é uma tristeza que nos engolfa quando os laços afetivos (nossas boas lembranças) que nos seguram como numa teia se desfazem. Então alcançamos o vazio e afundamos numa bolha egoica que não ama nada, nem a si mesmo.

Os psicanalistas não teriam muito a objetar a Rowling. É claro que nós acreditamos que em geral o Dementador está na nossa trincheira, ou seja, que a maior fonte de dor provém de nós mesmos quando nos desencaixamos dos trilhos dos afetos e das relações. Quando ficamos nus e sem defesa frente às exigências sociais.

Só quem já teve depressão de fato a entende. Sabe que não se trata de falta moral, de preguiça, de covardia. Sabe que o amor dos seus queridos lhe é importante, mas não é suficiente para dissolver a paralisia.

A arte é uma forma prévia de sabedoria, chega como literatura aquilo que sabemos de forma intuitiva. O fato é que temos uma excelente imagem da depressão, principalmente para um público jovem, pois nem as crianças ignoram ou estão a salvo dos perigos da depressão. Melhor assim, conhecendo os contornos do monstro, nomeando suas artimanhas, fica mais fácil combatê-lo.

MÁRIO CORSO

27 DE JULHO DE 2019
OPINIÃO DA RBS


UM ERRO AMAZÔNICO

Ainda há tempo para Jair Bolsonaro entender que, hoje, nada prejudica mais a imagem do Brasil no Exterior do que a questão ambiental. A controvérsia alimentada pelo presidente em relação aos dados de desmatamento da Amazônia, com ataques à credibilidade do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), só agrava a percepção. Para o mundo, passa a impressão de que o mandatário brasileiro está mais preocupado em esconder a estatística, e não com o problema da destruição da floresta em si.

Talvez por demonstrar certa aversão a dados científicos e preferir dar mais crédito a informações duvidosas e teorias conspiratórias que absorve na bolha ideológica de suas redes sociais, Bolsonaro emite sinais de não ter alcançado a compreensão exata de quanto o país pode ser prejudicado caso teime na postura de desdenhar da proteção do ambiente. É uma ameaça, por exemplo, ao acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia. E quem tem mais a perder, no fim das contas, é o próprio agronegócio. Sim, é o setor em que o Brasil é mais competitivo, mas o consumidor internacional, especialmente dos países desenvolvidos, está cada vez mais atento à forma como são produzidos os alimentos que leva à mesa. As entidades mais modernas ligadas à indústria agropecuária têm esta consciência e agem para frear os arroubos inconsequentes do governo.

Pessoalmente, o presidente já não goza de grande prestígio no Exterior por conta de suas declarações homofóbicas e misóginas e, ao demonstrar que considera o ambiente um entrave a atividades econômicas, está entrando no rol dos vilões internacionais, sendo apontado como uma espécie de incentivador da exploração desregrada e a qualquer custo da Amazônia pela agricultura e a pecuária. Desprezar a importância de salvaguardas a povos indígenas, minimizar a relevância de áreas de proteção ambiental e enfraquecer órgãos como o Ibama - espécie de salvo-conduto tácito a agressores da natureza - apenas fortalecem esta visão.

Não adianta colocar a culpa da imagem arranhada do país na imprensa internacional ou na suposta inação de embaixadores. Só há uma forma de começar a reverter o péssimo retrato do Brasil lá fora: mudar drasticamente o discurso, evitar rompantes e dar uma guinada na política ambiental, hoje vista como, no mínimo, leniente. Pouco importa, agora, se as nações ricas do Hemisfério Norte destruíram as suas florestas no passado. Preservar as matas, mantendo o delicado equilíbrio do ecossistema amazônico e colaborando para mitigar os efeitos das mudanças climáticas, é uma tarefa que só trará benefícios ao Brasil. E esta também é a responsabilidade do país com as próximas gerações de todo o mundo.

OPINIÃO DA RBS

27 DE JULHO DE 2019
RODRIGO CONSTANTINO

Tecido social

As liberdades individuais não sobrevivem num vácuo de valores morais. Os liberais clássicos e conservadores sempre foram simpáticos a essa crença, daí a importância que dão ao tecido social, mantido justamente por associações voluntárias que fortalecem o sentido de comunidade, tais como as igrejas. Atualmente, com o recrudescimento do tribalismo, esse tecido está bastante esgarçado.

Ao frequentar com a família esses locais que buscam um propósito comum, o indivíduo encontra um ambiente de tolerância e igualdade. Não importa tanto a classe, o  sexo ou a “raça” ali, pois não é isso que une aquelas pessoas. O enfraquecimento dessas instituições tem colaborado para o clima de polarização exacerbada na sociedade, o que é alimentado pelas redes sociais. Os radicais ganharam mais voz, eis o fato.

E fazem um barulho ensurdecedor, que intimida a maioria silenciosa e mais moderada. De ambos os lados do espectro ideológico, há mais intolerância e desrespeito. São vários casos que ilustram essa tendência. Podemos pensar em palestrantes conservadores impedidos de falar em universidades americanas por conta de protestos agressivos de “justiceiros sociais” que dizem combater o fascismo, mas agem como fascistas.

Ao mesmo tempo, simpatizantes de Trump gritam num evento pedindo que o presidente mande uma congressista de volta ao seu país de origem, sendo que ela é americana. Por mais abomináveis que sejam as ideias racistas de Ilhan Omar, o coro é inaceitável e ao menos deixou Trump constrangido.

No Brasil, a jornalista Miriam Leitão foi alvo de pressão bolsonarista e teve sua participação cortada numa feira de livro. Ela já foi atacada por petistas também. Já o ministro da Educação foi cercado e humilhado por manifestantes de esquerda, mesmo com sua pequena filha no colo.

Existem inúmeros outros exemplos, mas o ponto está claro: há um ambiente tóxico de intolerância e falta de respeito ao contraditório. Disputas ideológicas têm ficado acima da decência humana. Ou resgatamos o tecido social que nos une, ou o tribalismo vai destruir as liberdades individuais.

RODRIGO CONSTANTINO

sábado, 20 de julho de 2019



20 DE JULHO DE 2019
LYA LUFT

Medo, os medos

Recentemente, depois de uma palestra, uma simpática psiquiatra de crianças e adolescentes me sugeriu um artigo, aqui, sobre medo. Prometi, estou cumprindo, até porque o assunto repassa quase toda a minha obra.

De que temos medo, por que temos medo, desde quando temos medo? Penso que desde o comecinho de tudo, quando ainda nem éramos bem humanos. Pois animais têm medo, muitas vezes mais e melhor do que nós, humanos, meio cegos, distraídos, surdos, com as tantas turbulências, boas e más, desta nossa vida. Perdemos o refinamento de alguns sentidos e muitas vezes acabamos nos expondo a perigos evitáveis, porque já nem os percebemos, mergulhados nos iPods e iPhones e nas redes sociais (nada contra, também tenho e uso).

Imagino, desde pequena, o terror dos primeiros humanos com coisas naturais como tempestade, trovão e relâmpago, dia e noite, outros serzinhos humanos saindo das barrigas das mulheres, e tanta coisa, maravilhosa, louca, perigosa, a que estavam expostos sem conhecimento.

Todos temos medo, e precisamos dele como prevenção de desastres evitáveis. Alguns de nós têm mais medos do que outros: sempre fui uma criança medrosa, possivelmente por esse excesso de imaginação, com o qual trabalho e que, afinal, paga minhas contas. Eu tinha sobretudo medo do escuro, de vultos imaginados atrás das cortinas, da mão que sairia de baixo da cama pra me arrastar para algum reino de sombras horríveis, só para dar alguns exemplos.

Naqueles tempos contavam-se muitas histórias, começando pelos belíssimos contos de fadas, belos e sinistros aliás, porque as personagens, coitadinhas, geralmente sofrem para conseguir o que desejam: um príncipe enamorado, pernas pra andar com ele, comida em casa para não ser largado na floresta, um beijo de príncipe para despertar do sono causado pela maldição de alguma bruxa... 

além do mais, sendo por alguns anos filha única, no meio de adultos, eu espetava as orelhas até onde dava para ouvir conversas de adultos, na sala, na cozinha, na lavanderia, no pátio quando se penduravam no varal os lençóis que me acolhiam de noite, perfumados de sol. Histórias terríveis como a da amiga da cozinheira, com um verme imenso na barriga, que saía se pusessem um pires de leite diante da boca da infeliz: à noite eu sentia o verme subindo pela minha garganta. Muito tempo depois eu o exorcizei no meu romance A Asa Esquerda do Anjo.

De modo que medo é saudável, medo demais causa angústia, medo de menos nos expõe. Hoje temos medos que antigamente nem se conhecia, sobretudo na doce cidadezinha onde nasci: crianças brincavam na calçada nas noites de verão, e ninguém imaginava perigo algum. Por outro lado, hoje talvez haja medo de menos: com facilidade brincamos de nos drogar, de beber, de fumar, de nos aventurar em encontros perigosos, porque vivemos num tempo de ilusão de liberdade fácil.

Muitos não vão concordar, e talvez se escandalizem, mas hoje, quem sabe, as grades na janela da casa, as recomendações dos pais, os avisos do médico, sejam bem mais positivos do que aventurar-se no mato onde nem todas as bruxas são boas.

LYA LUFT

20 DE JULHO DE 2019
MARTHA MEDEIROS

Bom dia pra você também

Faz bastante tempo. Estava na fila da bilheteria de um museu em Paris e, quando chegou minha vez de ser atendida, a primeira coisa que eu disse foi "one ticket, please". A atendente olhou fundo nos meus olhos e, fazendo uma mesura com a cabeça, respondeu com um sorriso cínico: "Bon jour, mademoiselle".

Eu era uma menina e não sabia nada. Aquele "bon jour" significava muito mais do que "bom dia". Significava: "Não te ensinaram em casa que se deve cumprimentar as pessoas antes de falar com elas?" Significava: "Não passa pela sua cabeça que talvez eu não fale inglês e que seria mais educado você pedir licença antes de se dirigir a mim em outro idioma?". Significava: "Mesmo que você saia daqui blasfemando contra a arrogância dos franceses, aprendeu a lição?"

Oui, madame. Sou grata até hoje, mesmo a senhora tendo me humilhado na frente de todo mundo - a humilhação é didática. Mas, cá entre nós, não precisava tanta frescura, era só receber meu dinheiro, entregar meu ingresso e sorriríamos uma para a outra com a simpatia de quem nunca mais se veria na vida, e eu continuaria sendo um doce de garota, apenas um pouco distraída, só isso.

Minha defesa é boa (somos sempre os melhores advogados de nós mesmos), mas não me inocenta. Essa coisa de chegar atropelando, fazendo pedidos como se fôssemos os reis do universo, indo direto ao assunto sem antes um olá, um tudo bem, um como vai, faz parte do manual de péssimas maneiras. Vale para qualquer contato: com o porteiro, com o garçom e até com os nossos íntimos - intimidade não é álibi para grosserias. 

Tenho um amigo que, quando me telefona, não se identifica nem pergunta se estou ocupada, sai falando como se eu tivesse obrigação de reconhecer sua voz e como se nossa última conversa não tivesse ocorrido três meses atrás e sim há três minutos (é, você mesmo, estou dando uma de francesa aqui e puxando suas orelhas em público, mas não deixe de me ligar, vamos rir disso tudo, talkey?).

Acabei de voltar de Paris e espalhei por lá uns 5.890 bon jour e outros tantos milhares de bon soir e mais uma tonelada de merci, s´il vous plait e excuse moi, que são os passes livres para um atendimento cordial e para ter a sensação de que alguma coisa decente ainda resta nestes tempos em que ser agressivo parece a única forma de se comunicar - o diálogo, o bom humor e a ponderação sumiram do mapa. 

Eu não preciso pensar como você, nem você como eu, posso te cumprimentar e logo em seguida discordar de suas ideias, e você das minhas, e isso não faz de mim uma ignorante, nem de você. Somos bilhões de diferentes, e o assunto aqui nem era sobre diferenças, e sim sobre os simples gestos que tornam a vida ligeiramente mais agradável para todos. Era isso. Obrigada. Bom dia.

MARTHA MEDEIROS


20 DE JULHO DE 2019

CARPINEJAR


Complexo desapego


Há cada vez mais grupos de desapego de roupas. Só que o risco de entrar em um WhatsApp com dezenas de pessoas abrindo o seu espólio por preços módicos é dobrar o seu armário em vez de diminuí-lo.

Você entra pela resolução feliz e equilibrada de viver com menos, de arejar as gavetas e tirar o peso dos cabides, de dar uma ordem nas quatro estações de seu figurino. Sua motivação é autêntica, genuína e madura: libertar-se do consumismo desenfreado, reprimir o hábito de adquirir algo involuntário, que não prevê quando vai usar e como vai usar.

Dispõe-se a oferecer tudo o que não está vestindo há tempo, mas os efeitos são contrários. Acaba sendo sugada por uma lojinha virtual com ofertas indescritíveis. Vestidos de festa por gorjetas, conjuntos por esmolas, sapatos por migalhas.

É como ir para uma reunião dos alcoólatras anônimos e descobrir, logo na entrada, uma vernissage com bebida liberada para a recepção dos novos integrantes.

Aquela calça que você tem e gosta mas que não botava mais as pernas porque sentia falta não sabia do quê, encontra uma segunda vida nos balaios. Vê logo de cara uma camisa adequada de cor igual. Ou seja, a alma gêmea de seda que tanto ansiava por uma pechincha no grupo. Você compra e não vende mais a calça. Aquele casaco que não desejava mais por estar enjoada parece que faz novo sentido com uma blusa rifada ali. Você compra e não vende mais o casaco.

Já está gastando no lugar de economizar ao reencontrar coleções que não estão mais em circulação. Experimenta um túnel no tempo, acessando todos as épocas de suas grifes preferidas.

Nem se importa com o valor do frete, enlouquece com a possibilidade de estrear as combinações. Sonha em sair com elas no fim de semana.

É uma situação contraditória e ambígua: precisa conviver e socializar o material para dar cabo de seu guarda-roupa, porém, simultaneamente, começa a se envolver com as tentações de pessoas com o mesmo propósito.

Não consegue mais pensar. As entradas são maiores do que a saída. O cartão de crédito vai perdendo o contorno de seus números confidenciais.

É ter ao alcance das mãos, sem sair de casa, na impunidade do seu sofá, os closets abertos de colegas para pegar o que quiser e ressignificar as suas peças usadas. Nem sofrerá escondendo as sacolas do shopping da família.

Não está mais em condições de mandar em si. Engoliu o armário-cápsula nas primeiras horas respondendo às meninas.

Tem no celular um shopping condensado no bolso, um provador 24 horas, uma liquidação portátil, e passa a brigar para arrematar o que está sendo comercializado e esquece de postar fotos do que pretendia se desvencilhar. O desapego é possível. O problema são os outros desapegando junto.

CARPINEJAR


20 DE JULHO DE 2019
CLAUDIA TAJES

Ao infinito e além

Tanta coisa acontecendo aqui na Terra que tomei um susto com os 50 anos da chegada do homem à Lua. Já faz tudo isso? 20 de julho de 1969. Minha mãe contava que os televizinhos de então, com seus banquinhos dobráveis, chegaram em peso para assistir ao feito na TV da nossa sala. Eu, que já estava operante, não lembro de nada, uma imagenzinha sequer. Em compensação, apesar da tenríssima idade, nunca esqueci do vestido de uma candidata a Miss Universo, sei lá de que época, qualquer ano bem para o fim dos 60. Não deixa de ser um evento da galáxia.

Muito mais tarde, revendo os vídeos com os passos cautelosos de Armstrong e a festa de Aldrin flutuando na lua - melhor lição para se entender a gravidade -, pensei na tristeza de Collins, o astronauta que não desceu da Apollo 11. Um aparte: é meio estranho chamar a tripulação só pelos sobrenomes, mas pode ler nas reportagens, todo astronauta é sempre um sobrenome no espaço.

Para Collins, o que ficou no módulo, sobrou a tarefa de recolher os dois companheiros. Foi comparado a um pai que fica na porta da festa esperando pelos filhos. Só pode ter perdido no palitinho a chance de passear pelas dunas lunares. Não que a função dele, estar a postos, não fosse crucial para a missão. Nas 24 horas em que os companheiros borboletearam, Collins fez voltas e voltas em torno da Lua. 

Se algo desse errado, a Nasa queria que ele abandonasse Armstrong e Aldrin e voltasse para casa sem olhar para trás. Em uma rara entrevista - Collins não virou celebridade, nem foi muito procurado para fazer o relato do cockpit -, disse que suava frio dentro do seu macacão pressurizado com essa hipótese. Outra curiosidade é que, a cada vez que passava pelo lado escuro da Lua, Collins perdia contato com seus dois parceiros e com a Terra. Goleiro algum jamais foi tão solitário. Distante 400 mil quilômetros do resto da humanidade, Collins foi o homem mais sozinho que já existiu.

Vendo as fotos e as imagens de 1969 em que a Terra surge redondinha e sua luz azul reflete na Lua, é de se perguntar como alguns podem afirmar que ela é plana. Não é uma plataforma que aparece no espaço, é uma bola perfeitamente confortável e reconfortante. Mas daí a gente lembra que esses mesmos iluminados duvidam de que alguém tenha pisado na Lua e entende que não adianta argumentar. A ignorância pode ser do tamanho do espaço. Infinita.

Para que serviu o homem ir à Lua - além de ser mais um capítulo da Guerra Fria? Para a ciência, para a pesquisa, para o progresso, essas coisas todas que andam meio em desuso nos nossos dias. E, com certeza, para a humanidade sonhar mais. Um querido amigo que mora há muitos anos nos Estados Unidos colocou os gatos todos no carro e se mandou para o Kennedy Space Center para acompanhar, no dia 16 de julho, a contagem regressiva em tempo real do lançamento da Apollo 11.

 Meu amigo, que em 1969 estava de férias em Itanhaém, no interior de São Paulo, assistiu Armstrong e Aldrin (Collins mandou lembranças da nave) na casa de uma prima. O bolo do seu próximo aniversário teve em cima uma réplica da Apollo 11. Cinquenta anos depois, ele é um executivo de TV responsável por algumas das séries que nos deixam com o coração na mão a cada semana. É que sonhar faz isso com a gente: leva longe. Sempre, claro, com um pezinho no solo. De perdidos no espaço, já bastam os terraplanistas.

CLAUDIA TAJES


20 DE JULHO DE 2019
LEANDRO KARNAL

O FARDO DO HOMEM BRANCO

O SENTIMENTO DE SUPERIORIDADE DE BRANCOS MARCOU O SÉCULO 19. FOI O AUGE DA ESCRAVIDÃO DE NEGROS AFRICANOS. NO MUNDO CONTEMPORÂNEO, O MESMO DISCURSO PRODUZIU A EUGENIA, O HIGIENISMO, O HOLOCAUSTO. A CIVILIZAÇÃO E A BARBÁRIE CLÁSSICAS FORAM REDEFINIDAS COM EXTREMA VIOLÊNCIA.

Na Antiga Grécia, cunhou-se o termo bárbaro. Servia para um grego descrever alguém que não partilhava de sua cultura e seus valores. Aquele que não falava a língua, balbuciava, soltava sons estranhos que lembravam um bar-bar-bar, etimologia do termo. Não era algo necessariamente pejorativo, mas, ao fazerem uso da palavra, os velhos helenos se punham como o centro do mundo. Seu universo era o próprio umbigo. Mascaravam, com isso, o quanto tomaram dos bárbaros: do formato das colunas de seus templos ao papiro de seus textos; da iconografia de seus vasos ao fato de terem sido mercenários em exércitos persas e assírios em várias ocasiões, aprendendo técnicas bélicas. É interessante pensar a Grécia como uma problemática e periférica fronteira ocidental do imenso império persa e não como o centro do mundo.

Os romanos, povos barbáricos do ponto de vista original, tomaram o termo para si e o aplicaram a seu próprio mundo. Os outros eram gauleses, germanos, cartagineses. Ao mesmo tempo em que desenvolveram o orgulho de se sentirem o centro do mundo, construíram um império que era uma imensa rede multicultural, de reis e senhores de diversas origens pleiteando alianças ou provocando embates. Uma das maiores heranças romanas é a adaptação de uma vertente minoritária do judaísmo, uma religião barbárica, no cristianismo.

A Europa medieval assistiu a um lento espalhar da fé católica, em diversas leituras religiosas, pelos seus mais distantes confins. No processo de catequese, a crença que se tornou a maior do mundo, intolerante com outros deuses, se apropriou de festivais de solstícios, árvores de Natal, coelhos e ovos da Páscoa. Tornou-se pura justamente por ser uma esponja.

Quando a Europa rompeu a bolha de seu isolamento por meio das Navegações, todos os povos americanos, africanos e asiáticos encontrados, mesmo que mais ricos e complexos do que os europeus, foram descritos como bárbaros, ou ainda pior, selvagens. Os astecas tinham cidades maiores do que as espanholas. Os incas tinham estradas continentais. Os chineses eram a principal economia do globo. Reinos africanos tinham acesso a ouro e sal, escassos na Europa. Milhares de europeus morreram tentando pôr a mão em tais riquezas. Milhões pereceram em decorrência de doenças espalhadas pelos brancos e pela escravidão moderna.

Ainda assim, o mundo todo era menos do que os civilizados europeus. A tecnologia e o know-how das navegações eram, em grande parte, ciências árabes e judaicas, dos povos "infiéis". Para não morrerem de escorbuto e compreenderem correntes náuticas no Índico, se valeram de cítricos e mestres africanos e indianos, povos "menores".

No século 19, a Revolução Industrial, pela primeira vez na História, desbancou a China de seu trono de rainha do mundo e pôs a Inglaterra no lugar. O imperialismo e a ciência moderna navegaram juntos. Conhecimentos de plantas medicinais e outros saberes, por séculos explorados por povos em todo o globo, agora eram estudados e publicados como descobertas europeias. Quando os Estados Unidos lideraram guerras pela independência das Filipinas e de Cuba, um poeta inglês, nascido numa colônia, a Índia, encantado com o desprendimento e engenhosidade da "raça branca" diante dos bárbaros povos morenos e negros, escreveu um laudatório poema sobre isso: o fardo do homem branco (The White Man?s Burden). Rudyard Kipling descrevia como os brancos, de forma abnegada, davam suas vidas para o progresso dos "povos atrasados". Os povos não europeus "serviriam" aos cativos como uma missão civilizadora. Os africanos, asiáticos e não brancos em geral, eram indolentes, ou seja, preguiçosos e deveriam ser ensinados com insistência, repetição e visão missionária. Kipling é um bom poeta e um homem terrivelmente racista.

O sentimento de superioridade de brancos marcou o século 19 de diversas formas. Foi o auge da escravidão de negros africanos, aprisionados e explorados de forma industrial. No mundo contemporâneo, o mesmo discurso produziu a eugenia, o higienismo, o Holocausto. Milhões morreram para que essa superioridade se afirmasse. A civilização e a barbárie clássicas foram redefinidas com extrema violência, sempre, claro, com as mais cristalinas e piedosas intenções. Afinal, em decorrência perversa nunca enunciada por Darwin, era uma mostra de que a espécie mais forte se imporia à mais fraca.

Esforcei-me para ampliar um raciocínio de Jack Goody, no livro O Roubo da História (Contexto, 2008). O falecido antropólogo britânico narra como os europeus criaram sua própria versão da História do mundo e deles mesmos, o eurocentrismo. Eles seriam a mola propulsora do mundo, com seus valores como democracia, liberdade, igualdade de direitos, cristianismo, universidades, individualismo e a idealização do amor romântico. Goody demonstra como essas invenções são, na realidade, apropriações de valores orientais. Claro, tentando desentortar o prumo europocêntrico, o autor decide que tudo veio de fora da Europa. Isso não é verdade, porém, já é o momento de descobrirmos um mundo fora das narrativas europeias do século 19, já que nem mesmo o Velho Mundo acredita mais na sua superioridade mundial. É preciso ter esperança.


20 DE JULHO DE 2019
REPORTAGEM

FRUSTRAÇÃO EM PORTUGAL

A avalanche de brasileiros tentando a sorte na pátria mãe inclui alguns bem-sucedidos e muitos que, após um período de decepções, têm de fazer as malas para voltar. um ano após percorrer o país conversando com gaúchos que se instalaram por lá, ZH ouve quem foi mas se viu forçado a retornar
"Aluguéis caríssimos, subempregos, xenofobia. Sim, brasileiros sofrem muito com xenofobia aqui em Lisboa! Portugal é lindo, maravilhoso para quem tem dinheiro e para quem vem turistar, mas para trabalhar... Está cada vez mais escravidão!", lamenta uma mulher. "Estou indo embora na próxima semana. 

Motivos? Muitos! Salário mínimo muito baixo, aluguel superalto, impostos nas alturas. Só gastei dinheiro com a minha cidadania portuguesa para nada. Uma grande ilusão! Muitos brasileiros têm vergonha de dizer a verdade... Vergonha de falar que a vida não é fácil", comenta outra. "A maioria das pessoas pinta o quadro mais bonito do que ele realmente é. Portugal é um país tranquilo para se viver, mas não é fácil como todos dizem, escrevem e postam", define um terceiro participante da discussão.

Os comentários constam da página Portugal que Ninguém Conta, grupo com quase 65 mil membros que são convidados a compartilhar suas histórias e impressões sobre o país que virou moda entre brasileiros nos últimos anos, atraindo uma multidão de aspirantes a uma nova vida na Europa - porta pela qual, atualmente, parece ser mais fácil entrar. "A intenção, em momento nenhum, é desmoralizar Portugal, e sim mostrar que emigrar não é tão fácil como dizem", lê-se na descrição da comunidade virtual.

Números comprovam o que facilmente se percebe no dia a dia: não é preciso procurar muito para localizar alguém que conhece alguém que desistiu da vida no Brasil e resolveu tentar a sorte, com mais ou menos recursos e planejamento, do outro lado do Oceano Atlântico. Os brasileiros continuavam compondo, em 2018, a maior comunidade estrangeira residente no pequeno país ibérico, com um total de 105.423 pessoas, número que representa um salto de 23,4% em relação a 2017, de acordo com o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF). Trata-se do índice mais elevado desde 2012. Não entram nessa soma cidadãos com dupla cidadania ou em situação irregular.

O Programa de Apoio ao Retorno Voluntário e à Reintegração (ARVoRe) da Organização Internacional para as Migrações (OIM), ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), informa que 353 brasileiros - de 616 inscritos - receberam auxílio em dinheiro para voltar ao Brasil no ano passado, o que corresponde a 93% do total de indivíduos amparados pela agência no período. 

É o maior número de migrantes do Brasil ajudados desde 2013. Em 2019, até o final de maio, a OIM contabilizou 282 migrantes interessados, sendo 254 deles (90%) brasileiros. Em junho, 13 brasileiros regressaram. As estatísticas também mostram que a expectativa pode se transformar em inesperado pesadelo logo no desembarque: em 2018, 76,3% dos viajantes barrados (2.866) na tentativa de entrar em Portugal eram brasileiros, mais do que o dobro (114,5%) dos rejeitados no ano anterior, segundo o SEF.

Em julho de 2018, depois de percorrer 1,2 mil quilômetros do território lusitano, visitando cidades de Norte a Sul, ZH publicou reportagem com histórias de gaúchos que se arriscaram a encarar o desafio da mudança, narrando dificuldades, sucessos e aprendizados em uma nação que assistia à quarta grande onda migratória contemporânea de brasileiros, motivada pela acentuação da crise econômica e política do lado de cá e pela melhora das perspectivas por lá. Um ano depois, procuramos pessoas que desistiram do idílio português ou que, frente a enormes obstáculos, quase começaram a preparar as malas para o regresso ao Rio Grande do Sul.

Fabiano Luis Knopp, 43 anos, de Caxias do Sul, viveu em Lisboa entre abril e outubro do ano passado. Realizava, na maturidade, o sonho juvenil de morar no Exterior, adiado quando se tornou pai aos 25 anos. Fotógrafo, Knopp sabia do grande número de colegas brasileiros que exerciam a profissão em Portugal. Com a oferta de auxílio de um conhecido, resolveu se aventurar.

- Fui com a intenção de não voltar tão cedo, ou melhor, voltar apenas para visitar - recorda.

O começo pareceu promissor. Knopp se hospedou na casa de amigos brasileiros. Ao pé do Cais do Sodré, na margem sul da capital, admirava uma vista incrível do Rio Tejo e da Ponte 25 de Abril, com diminutos barcos de pesca misturados a gigantescos cruzeiros. Passadas duas semanas, abraçou o primeiro trabalho, fotografando um casamento. Pesquisou preços e apresentou, na ânsia de ser aceito, um orçamento de 250 euros, baixo para os padrões locais, que foi aprovado pelos noivos. "Nossa! Comecei muito, mas muito bem", pensou. A realidade logo se provaria bem mais árdua. Knopp teve de procurar outro endereço, além de uma colocação na área de restauração, que é como os portugueses se referem ao ramo de restaurantes e alimentação, uma vez que os trabalhos de foto sumiram. Encontrou emprego em um ponto tradicional da Praça das Flores. No início do verão, época repleta de turistas, preparava sanduíches, sucos e cafés, lavava a louça, limpava o chão e os banheiros, pela manhã e à tarde.

- Tinha que ser tudo muito rápido, pois português não tem muita paciência. Falamos o mesmo idioma, mas as diferenças são grandes no vocabulário, na cultura e nos costumes. Não foi nada fácil.

Quando passou para o turno da noite, a correria aumentou. Seu horário, oficialmente, era das 14h à meia-noite, mas, em geral, deixava o serviço de madrugada, chegando em casa somente às 2h30min. Dependia de ônibus - ou caminhava 40 minutos - e barco. Dispunha de apenas uma folga semanal, e os intervalos para o jantar eram de 30 minutos. No restante do tempo, Knopp ficava de pé. O ritmo era frenético.

- Eu estava me acabando - resume.

Decidiu largar o posto e começou na telentrega de comida. Não pagava pelo aluguel da moto, mas deixava 50% do que ganhava com o dono do veículo. Sobrava quase nada. A situação foi piorando. O caxiense dividiu moradia com outras quatro pessoas, dormindo em um sofá na sala. Trabalhou também em uma churrascaria, onde, com o fogo a pleno, a temperatura sufocava aos 47ºC no verão. Cumpriu turnos de até 16 horas de trabalho. O fotógrafo lembra de um dia em que, durante o almoço, o assunto da mesa eram o Brasil e os brasileiros.

- E tu, zuca (diminutivo de "brasuca"), o que acha dos brasileiros? - questionou um português.

Até então comendo em silêncio, Knopp, cansado das comparações, despejou:

- Há brasileiros e brasileiros, assim como portugueses e portugueses. É uma questão de cultura, é o sujo falando do mal lavado. Não podemos nunca generalizar.

Em 12 de agosto, domingo em que era celebrado o Dia dos Pais na terra natal, Knopp foi dispensado. Por mais esgotado que se sentisse, o fotógrafo lamentou perder o mínimo de estabilidade que conseguira até então, focando na promessa de que lhe seria dado um contrato de trabalho, o que o auxiliaria a permanecer legalmente em Portugal. Do pouco dinheiro que recebeu, emprestou uma quantia para um conhecido, que até hoje lhe deve. Ao retomar a função como motoboy, decidiu voltar para o Brasil.

- Pesei muito, falei com minha família e fiz uma coisa da qual talvez hoje me arrependa, mas, no meio do furacão, sozinho e sem ninguém, cabeça cheia, preocupado, nervoso, pois os dias foram passando... Minha última saída foi vender meu equipamento de fotografia para voltar - narra, ainda pesaroso por ter tido de abrir mão da câmera e das lentes.

Knopp ainda teve uma última experiência, considerada a melhor delas, em um pequeno restaurante com cardápio típico da Ilha da Madeira. Conseguiu dar risadas e aprender, mas a passagem aérea já estava comprada. Ao fazer um balanço, ele dá medidas iguais a reveses e boas experiências.

- Não tenho vergonha de falar que passei fome, que por semanas almoçava somente feijão ou massa. À noite, comia torta de maçã do McDonald?s porque eram duas por um euro (cerca de R$ 4,50). Fui ajudado por pessoas incríveis. Me perguntam se não deu certo. Para mim, deu. Acredito muito no tempo e na intensidade das coisas. Acho que esse era o meu tempo naquele momento. Não me arrependo. Perguntam se volto... quem sabe, né? Porém, desta vez, faria um pouco diferente e já sabendo como as coisas funcionam - diz Knopp, ainda se readaptando à Serra (está vivendo em Farroupilha) e sem câmera própria.

Bons e maus brasileiros

Em 2017, Juliana Cramer, 42 anos, estudante de Gestão Comercial de Porto Alegre, acompanhou o então companheiro na empreitada da emigração. Antes de chegarem a Lisboa, passaram dias inesquecíveis, em clima de lua de mel, em Madrid, na Espanha. Mal havia desembarcado do ônibus que os levara até a capital portuguesa e Juliana já tinha opinião formada: detestou o lugar, achou tudo feio. O casal alugou um quarto em uma residência de brasileiras, e não demorou para que o homem conseguisse um emprego como cuidador de idosos. Sob o forte calor de agosto, ela sentia "um aperto no peito inexplicável".

- Eu odiei tudo lá, aquela água do mar congelante, as pessoas fumando na minha cara. Até os brasileiros que estavam há algum tempo lá já tinham jeito de relaxados e pegavam aquele sotaque horrível muito rápido - conta Juliana.

Em sua única tentativa de trabalhar, ela ficou apenas um dia em uma cafeteria. Ao final do expediente, o dono a dispensou, argumentando que ela não era rápida o suficiente. A universitária não teve mais disposição de seguir em busca de um emprego. Deprimida, pensava nos cães que havia deixado para trás e também na madrinha, que adoecera.

- Virei um zumbi. Só chorava, lavava roupas, limpava o banheiro e via novelas no celular.

Em pouco mais de um mês, comprou o bilhete aéreo da volta. Lamentava abandonar o relacionamento, mas se enxergava como se fosse um peso extra para o parceiro carregar. Os dois choraram juntos.

- Não vai - pedia ele.

A decisão estava tomada. Na condição de imigrante ilegal, conta Juliana, "morreria do coração". Já estava dependendo de tranquilizantes para conseguir tocar os dias.

- Foi realmente uma das maiores mancadas que fiz na vida: não ter me acostumado, não ter dado a chance de me acostumar ao lugar.

Um episódio ocorrido na Universidade de Lisboa ganhou destaque internacional em abril. Estudantes brasileiros da Faculdade de Direito se enfureceram ao encontrar, no hall do prédio, uma caixa contendo pedras e os dizeres "grátis se for para atirar a um zuca (que passou à frente no mestrado)". Uma associação de alunos da instituição assumiu a autoria do protesto, afirmando se tratar de uma mensagem satírica, e não xenofóbica, expondo a insatisfação com o número cada vez maior de brasileiros - tirando vaga de portugueses - na pós-graduação. Juliana não sentiu tanto na própria pele a discriminação, mas relata que a aversão e o rechaço são percebidos com frequência:

- Te exploram. Acham que as brasileiras são putas e que os homens são ladrões ou falcatruas. Eles te tratam muito bem na Europa se você é turista. No momento em que você pede trabalho, começa a discriminação.

Um advogado brasileiro que emigrou em condições favoráveis (tem cidadania italiana) e prefere não se identificar confirma parte do discurso de Juliana:

- Tem muitos bons brasileiros, mas também tem muitos maus brasileiros.

A má fama é real e encarada como sinal de alerta por alguns empresários portugueses. Morador do Porto, um empresário de 62 anos é proprietário de um restaurante. No geral, ele diz que sua impressão dos brasileiros é "a pior possível".

- Há uma vaga (parcela) que é desqualificada por demais. Não respeitam as nossas regras e querem impor as suas. Não há respeito. São muito cheios de si, não gostam de receber ordens e sempre acham que têm razão em tudo e sabem mais do que os portugueses. Causam-me sempre confusão. São indisciplinados e demoram para aprender. Quando aprendem, vão a um sítio melhor e deixam-nos de um dia para o outro - relata o empresário, que solicitou anonimato.

Ele também é dono de dois apartamentos, alugados para turistas. Os interessados brasileiros são rejeitados de antemão:

- Já tive problemas por não pagarem-me as contas de luz e gás. E não foi uma nem duas vezes. Quando decidem voltar ao Brasil, deixam-nos em sarilhos (situação difícil). Fogem e não pagam o que devem.

A esperança renovada

José Henrique Dias, 25 anos, técnico de metrologia, e Taiana Schumacher, 24 anos, analista de recursos humanos de São Leopoldo, passaram um ano em Braga, entre 2017 e 2018. Decidiram o destino com base em pesquisas na internet, comparando preços para descobrir a cidade mais viável. Com uma reserva de dinheiro levada do Brasil, alugaram um apartamento. O primeiro emprego de José Henrique, como vendedor de filtros d?água, apareceu após três meses. Na sequência, trabalhou em uma padaria, ramo em que a companheira também encontrou ocupação. Achou os expedientes puxados, de carga horária mais elevada. Com renda de um salário mínimo cada um, conseguiam se manter, mas a saudade da família e de casa acabou motivando a decisão de regressar.

- Também pesou a questão de não podermos trabalhar na nossa área - justifica ele. - Não nos arrependemos nem de ter ido, nem de ter voltado. Vemos como uma experiência. Na volta, passamos a dar valor a coisas simples, que antes nem percebíamos.

Uma segunda tentativa não é cogitada pelo casal.

- Gostaríamos de voltar para Portugal ou para a Europa para passear, mas não para morar - esclarece o técnico em metrologia.

A família da administradora de empresas Cristiane Gomes, 43 anos, de Porto Alegre, também se preparou com antecedência antes de deixar o Rio Grande do Sul. Foi uma resolução e tanto: ficariam para trás a estabilidade financeira, bons salários, casa e automóveis próprios, uma carreira artística consolidada - Cristiane e o marido, o empresário Sandro Morais Pimentel, 45 anos, cantavam no CTG Aldeia dos Anjos, de Gravataí, e viajavam para shows. A caçula, Luiza, 11, estudava em escola particular, e Rafhaella, 20, cursava Agronomia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

- Tínhamos quase tudo, mas não tínhamos segurança para andar na rua - sintetiza Cristiane.

Depois de dois anos de planejamento e uma viagem inicial a turismo, para reconhecimento do terreno, os quatro partiram em definitivo em outubro de 2018, rumo a Setúbal, a cerca de 50 quilômetros de Lisboa. Sandro solicitou um visto que lhe permitisse dar continuidade aos negócios no setor da construção civil. Os primeiros meses foram difíceis. Quando conversou pela primeira vez com a reportagem, em maio, Cristiane estimava já ter se submetido a mais de uma centena de entrevistas, sem ter conseguido emprego. Faltava-lhe o título de residência, cujo processo tramitava com morosidade no SEF, e só lhe restavam as vagas em cafés e restaurantes, além de outras similares, com remuneração igualmente baixa. A empresa do marido engatinhava, tentando criar raízes em um mercado de grande concorrência.

- Já estamos há algum tempo com a "faca no pescoço". Sem essa (autorização de) residência, muitas portas ainda estão fechadas e não conseguimos buscar melhor remuneração para sair do sufoco. Portugal não é tão disponível assim para os imigrantes, como se diz. Há de se ter muita resiliência para ouvir tanto "não", para se reconstruir e reorganizar a vida, que era de certa forma estável, para jornadas de 12 horas e subempregos, a partir do zero. Como se o que fizemos valesse nada. E realmente não vale. A não ser que você seja um profissional de atividade bem específica ou altamente qualificado, está fadado a apertar o reset e restaurar as configurações originais de fábrica - reflete a administradora, que, na Europa, modificou o repertório das apresentações musicais, trocando as canções tradicionalistas por sertanejas, almejando mais público. - Mas somos gaúchos! Não é qualquer marola que nos desestabiliza - completou.

Aprovada na Universidade de Lisboa, Rafhaella começou a trabalhar para contribuir com o orçamento doméstico. Cristiane, angustiada, sabia que a família não teria como custear a graduação da primogênita se os documentos não fossem liberados antes do início das aulas e se não surgisse melhor fonte de renda. Ao mesmo tempo em que estavam cientes das dificuldades, os quatro aproveitavam o que a nova realidade lhes oferecia, como caminhar pelas ruas sem receio de assaltos ou ocorrências até mais graves. Todas as esperanças estavam concentradas em uma consulta no SEF agendada para 22 de maio. A depender da resposta das autoridades, duas opções estariam postas: desistir e voltar a Porto Alegre ou permanecer em Portugal e batalhar por melhores condições. Em muitas entrevistas para recolocação profissional pelas quais passou, Cristiane obteve promessas de que poderia telefonar de volta tão logo obtivesse seu título de residência.

Dias depois de irem ao SEF, e com a remessa dos cartões pelo correio, a família obteve a certeza: estava aprovada a permanência em Portugal.

- Foi muito tenso, mas passamos no crivo! - comemorou Cristiane, que até então economizava todo euro possível no supermercado e resolveu comprar um creme de amendoim de 2,99 como um mimo a si própria pela conquista.

A administradora começou, neste mês, um treinamento para trabalhar no setor de apoio ao cliente em uma empresa de telecomunicações.

- Conseguimos vencer um grande desafio, mas ainda falta um "eito", como se diz, para que tenhamos estabilidade e possamos dizer que encontramos o equilíbrio - avalia Cristiane.

LARISSA ROSO