sábado, 3 de agosto de 2019



03 DE AGOSTO DE 2019
DAVID COIMBRA

Comidas bem fortes

Ela bebia uísque. Poucas mulheres bebem uísque. Menos ainda, caubói. Você sabe como é uísque caubói: puro e sem gelo, como o coração do Pedro Ernesto Denardin.

No Brasil, as pessoas têm mania de profanar o uísque. Houve tempo em que o tomavam com guaraná. Aldir Blanc deu charme a essa fórmula extravagante com uma das mais belas músicas da MPB. É a singela recordação de um bolero nos braços da amada:

"Eu hoje me embriagando. De uísque com guaraná. Ouvi tua voz murmurando: ?São dois pra lá, dois pra cá?".

A moça a quem me referia não conspurcava o uísque com guaraná ou quaisquer outros aditivos. E ia jantar lá em casa num sábado à noite. Já havíamos saído antes, mas junto com outras pessoas. Numa dessas, por algum motivo, a conversa deslizou para o tema de comidas e bebidas fortes. Ela estava bebendo (adivinhe) uísque. Porém, com gelo. Mexeu as pedrinhas com a ponta do dedo, num gesto que considerei provocativo. Ergueu o pequeno nariz. E sentenciou:

- Adoro comidas e bebidas fortes. Bem fortes. Meu uísque, inclusive, prefiro sem gelo.

Achei tão bonito aquilo. Foi então que me exibi, jurando que era exímio cozinheiro de comidas fortes, bem fortes, arrematando com um tiro no escuro:

- Um dia faço um prato especial pra ti.

Ela, sorrindo de lado, miou:

- É só marcar. Gol do Brasil. Arrisquei:

- Próximo sábado? - Feito.

A vida é boa! Eu tinha uma responsabilidade, portanto. Não podia decepcionar.

No sábado pela manhã, corri ao súper. Decidi comprar três garrafas de uísque, inclusive uma de Jack Daniels, o que poderia ser uma temeridade, se estivéssemos lidando com uma purista.

Lembrei que, certa vez, estava na Escócia, em Edimburgo, e fui a uma fábrica de uísque. O guia mostrava como a bebida era preparada, todo o cuidado que tomavam e tudo mais. De repente, ele se virou para mim e perguntou:

- Tens uísque em casa?

E eu, ingênuo:

- Sim: Jack Daniels.

- Não! - ele gritou, me assustando. - Não! Jack Daniels é bourbon!

Perguntei a diferença e ele passou os 15 minutos seguintes me explicando. Foi uma aula interessante, mas não me pergunte o que é uísque e o que é bourbon, continuo não sabendo.

Em todo caso, gosto de Jack Daniels e a moça poderia gostar também. Então, deitei um no carrinho. Antes de sair do setor de bebidas, parei diante dos champanhes. Mulheres adoram champanhe. Peguei uma garrafa. Já ia para o caixa, já estava indo mesmo, quando vi algo que há anos não via: absinto. "A Fada Verde!", murmurei para mim mesmo. "Por Baudelaire! Por Rimbaud! Levemos a Fada Verde para que ela nos encante!"

Levei.

E a comida? Bem, eu havia prometido algo forte. Bem forte. Que comida poderia ser re-al-men-te forte? Fiz o que qualquer homem adulto e maduro faria: liguei para a mãe. Indaguei acerca de comidas fortes. O que ela me disse soou como o bimbalhar do sino pequenino de Belém.

- Ontem fiz um feijão muito bom e está sobrando um monte.

Meu problema estava resolvido. Era óbvio que o próprio Todo-Poderoso e Seu exército de anjos e arcanjos queriam que me desse bem naquele fim de semana.

Fui até a casa da mãe, peguei um grande pote de feijão e voltei contente para casa. Era uma trapaça, sei, mas um valor mais alto se alevantava, como diria Camões. Para atenuar o engodo, resolvi fazer eu mesmo o arroz, mais uma farofinha de ovo com linguiça frita, mais uma salada de tomates e cebola. Tudo forte. Bem forte.

Aliás, você sabe como tem de ser feita a cebola numa salada? Escalde-a com água fervente. Em seguida, retire a água quente e cubra-a de água gelada. Depois, fervente de novo. E gelada outra vez. Aquela acidez da cebola desaparece. Fica uma delícia.

Constate, por essa dica, como não fui uma fraude completa naquele fim de semana.

Quando a moça chegou, eu fazia exatamente isso: esquentava e esfriava a cebola, enquanto a panela de feijão tremelicava sobre o fogo.

- O feijão, eu preciso de pelo menos 24 horas para fazê-lo! - exclamei.

Ela: - Oh!

Estava impressionada?

- Que uísque você quer, beibe? - perguntei, gentil, conduzindo-a pelo braço até o barzinho onde guardava as bebidas.

Foi nesse momento que tudo começou a desmoronar. Ela olhou para uma garrafa e apontou:

- O que é isso? - Absinto.

- A Fada Verde? - ela suspirou.

Ela conhecia a história da Fada Verde - era mesmo uma mulher especial.

- Nunca bebi absinto - ela contou. - Posso?

- Claro! Por Baudelaire! Por Rimbaud! Liberaríamos a Fada Verde!

Servi um cálice. Ela o tomou com aquela mãozinha e o engoliu rapidamente, fazendo mmm. Foi o primeiro de muitos. Quantos? Não sei. Só sei que ela nem sequer provou o meu feijão. Ou o feijão da mãe. Em coisa de, sei lá, 20 minutos, ela estava dançando e cantando em volta da mesinha da sala. Em 30, estava vomitando todo o meu apartamento. Em uma hora, estávamos os dois dentro de um táxi, em direção à casa dela, ela parecendo aquela jaqueta que tiraram da boca do cachorro, balbuciando que o mundo rodava, rodava mais que os casais.

Foi o fim das minhas aventuras com a moça que bebia uísque mas não podia beber absinto. Vida de solteiro pode ser frustrante.

DAVID COIMBRA

03 DE AGOSTO DE 2019
MÁRIO CORSO

Mulheres que não querem ter filhos

Não querer ter filhos é um assunto que nem deveria ser assunto. Afinal, por que não seria uma escolha de foro íntimo como outra qualquer? Mas não é assim que funciona. No caso dos homens, tampouco é bem-vindo, porém tolera-se que eles não queiram. Afinal, seriam menos afeitos à rotina doméstica, mais amantes da aventura e de horizontes mundanos. Mas as mulheres que podem ter filhos são vistas como traidoras do destino se ousam negar-se à missão reprodutiva.

Nem sempre é uma cobrança direta, mas uma conversa oblíqua em que o subtexto encerra a pergunta: qual é o teu problema? Afinal, a maternidade seria, além de um desejo óbvio, a prova da grandeza da alma e utilidade de uma mulher.

A lógica subjacente é de que existiria uma naturalidade no instinto materno. Portanto, quem opta por não ter iria contra o correto e até contra si mesmo. O refrão mais usado - "depois você vai se arrepender" - revela isso. A mulher que não quer estaria apenas momentaneamente errada, um dia vai se dar conta.

Faz parte da nossa herança histórica patriarcal restringir as mulheres à função materna. Mas convém lembrar que esse olhar reprovador provém com frequência de outras mulheres. A questão tem uma volta a mais. Para as mulheres que dizem sim, as que dizem não acendem questões que elas não querem admitir: primeiro, a maternidade não garante o sentimento de feminilidade autêntica que se esperava decorrer da experiência; segundo, talvez ter filhos não seja quintessência colorida das maravilhas. A recusa joga as outras no dilema: perguntar se realmente querem ter filhos, ou se gostaram de tê-los tido.

O porquê do não querer é múltiplo, caso a caso, muitas vezes decorre de ter outras metas na vida que seriam inviabilizadas ou prejudicadas pelos anos de devoção ao filho. Por vezes, passa apenas por não sentir vocação para o cargo e incumbência. São mulheres conscientes da gravidade da escolha, que não se acham talhadas para tal, ou mesmo sentem-se mais vocacionadas para outras missões. Portanto, não há uma falha, há uma escolha, uma maneira de encarar e levar a vida. Ter filhos não é o destino das mulheres, nem uma reclamação da sua natureza. Ter filhos é uma opção.

Quem trabalha com saúde mental vai lhe dizer que muitas patologias são oriundas de crianças não desejadas, concebidas por pressão social ou moral, criadas a contragosto, às vezes até com zelo, mas sem coração.

A maternidade é linda e realizadora quando há um desejo claro e meios para tanto. Mas maternidade não resolve problemas de identidade feminina. Maternidade não preenche uma vida vazia. Maternidade não resolve uma vida sem norte.

Antes de sucumbir ao senso comum de que a vida só adquire sentido num filho, pense mais. Na dúvida não ultrapasse. Respeite a sua vida e a que virá ou viria.

MÁRIO CORSO


03 DE AGOSTO DE 2019

FLÁVIO TAVARES

OS SÍMBOLOS

A vida se traduz em símbolos. Cada ato humano é um símbolo, na alegria ou na dor. Nas catástrofes, incertezas ou desajustes, os símbolos veem, até, o invisível.

Vivemos um momento crítico, com o planeta e a obra divina da Criação ameaçados pela sanha destrutiva. No Brasil, o perigo pode virar horror pela incompreensão dos que detêm o poder político. Já escasso, o diálogo sumiu nestes sete meses.

Quando Jair Bolsonaro opina, não fala como presidente da República, mas como autoritário rei absolutista. Chega a negar dados da ciência. Nega o desmatamento da Amazônia, diz que as medições dos satélites do Instituto de Pesquisas Espaciais "estão erradas" e "mancham o Brasil no Exterior". Ataca veganos e vegetarianos, como se opção alimentar fosse crime.

Em fúria contra o presidente nacional da OAB, Felipe Santa Cruz, em linguagem vulgar agrediu o pai, Fernando Santa Cruz, morto em 1974 numa prisão da ditadura por integrar a Ação Popular, a esquerda cristã à qual pertenceram o atual senador José Serra e Herbert de Souza, o Betinho da luta contra a fome e a Aids.

Agora, o ápice: quer abrandar as regras que punem o trabalho escravo...

O símbolo disto (e de muito mais) apareceu dias atrás no corte de cabelo de Bolsonaro, mostrado por ele, no Twitter, como ato de governo, publicado e publicitado ao vivo e de viva voz.

Confortável na capa branca do barbeiro, cancelou a reunião com o ministro do Exterior da França. Trocou a respeitável poltrona presidencial pela cadeira do barbeiro. Terá sido uma caricatura de si mesmo?

Mas e os símbolos da resistência a essa cafona monarquia?

O tríplice pesadelo Lula-Dilma-Temer diluiu esperanças mas não nos cegou. Com a Constituição e a lei, há quem resista.

No Supremo Tribunal, a argúcia de Celso de Mello chamou de "inaceitável transgressão à Constituição" o ato de Bolsonaro mudando a demarcação das terras indígenas da Funai para o Ministério da Agricultura, que o Congresso já rejeitara. "É inadmissível e perigosa ameaça à separação dos poderes", lembrou. Outros, como os ministros Fachin, Barroso e Marco Aurélio compõem também a defesa da lei.

Mas, junto aos que detestam o ódio e a discriminação, o melhor símbolo da resistência pela liberdade solidária é a jornalista e escritora Miriam Leitão. Isenta e analítica nos livros, no jornal e na TV, sofreu a fúria verbal de Bolsonaro, que a tachou de "mentirosa" por resistir no passado e, hoje, por revelar verdades.

Nos ataques, o alvo foi a livre imprensa, por ser o grande símbolo.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

03 DE AGOSTO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

O RIO GRANDE DO SUL PODE CRESCER MAIS



Carregam evidências positivas os cálculos apresentados pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), na quinta-feira, mostrando que o nível de atividade do Rio Grande do Sul avançou 0,9% no primeiro trimestre e 1,4% no acumulado de 12 meses. Embora não seja exatamente a mesma metodologia utilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para apurar o PIB do país, os números indicam que o Estado vem saindo da crise em melhor ritmo do que a média nacional, puxado principalmente pela indústria e o comércio. É uma constatação a ser recebida com entusiasmo contido, dados os sintomas conhecidos de que a economia gaúcha, em um recorte mais longo de tempo, cresce aquém do seu potencial e em uma cadência abaixo da maioria das unidades da federação.

O Rio Grande do Sul tem um dos principais polos industriais do país, é um dos ponteiros do agronegócio nacional, vê seus parques tecnológicos cada vez mais pujantes, tem mão de obra reconhecidamente qualificada e um povo de diferenciado espírito empreendedor, mas não faltam obstáculos a reprimir a capacidade dos gaúchos de acelerar o desenvolvimento.

Por estar no garrão do país, o Rio Grande do Sul tem como um dos seus principais gargalos a logística. Enviar mercadorias para os principais centros consumidores nacionais custa mais caro aqui. E não só pela distância, mas pela infraestrutura precária na área de transportes - rodoviária, ferroviária e aeroportuária. Há casos que têm solução à vista, como o do Salgado Filho. Para os trilhos, não se pode dizer o mesmo. Como é grande a dependência do modal rodoviário, é primordial avançar no processo de concessões de estradas, diante da pura e simples falta de recursos do governo gaúcho para investir. Sem esquecer de privatizações e parcerias público-privadas (PPPs) em outras áreas, como energia e saneamento.

Não é possível depender apenas de surtos esporádicos de crescimento. O Rio Grande do Sul voltará a ser competitivo na atração de investimentos e deixará de assistir à fuga de talentos quando promover uma dura, mas necessária, reestruturação do Estado. Que passa pela resolução do nó previdenciário, pela redução do excesso de privilégios e benesses a categorias localizadas, por um ataque frontal à burocracia sem fim e por uma revolução educacional, caminho universal para ampliar a produtividade, ainda mais em tempos de uma transição demográfica que levará a uma menor participação relativa de jovens na força de trabalho. É o necessário para a economia rio-grandense voltar a ser uma das locomotivas do país, e não apenas um vagão pesado e inchado no fim da fila da composição.


03 DE AGOSTO DE 2019
+ ECONOMIA

O fim do BNDES

A decisão do governo federal de limitar a disponibilidade de crédito do BNDES a R$ 70 bilhões e retirar os recursos do FAT "é o fim do banco de 70 anos que conhecemos", na avaliação de um de seus ex-presidentes, Luiz Carlos Mendonça de Barros:

- Querem transformá-lo em uma butique financeira da Faria Lima (avenida de São Paulo que concentra instituições financeiras). Não vão conseguir, pois vão sentir a falta dele mais adiante - disse Mendonça à coluna.

R$ 18,9 bilhões foi o lucro da Petrobras no segundo trimetre. Recorde histórico, foi turbinado pela venda da TAG, por R$ 33,5 bilhões, para consórcio integrado pela Engie, empresa com negócios no Estado.

Especializada em moda jovem, a Gang abrirá sua 44ª loja, em Sapiranga, no dia 15. A próxima no plano de expansão da empresa é em Venâncio Aires, em setembro.

A rede Swan Hotéis teve alta de 40% na ocupação das quatro unidades em Portugal no primeiro semestre de 2019 ante igual período dos últimos três anos. Diante do resultado, a empresa gaúcha planeja outro hotel perto de Lisboa.

A slow fashion (moda sustentável) Was elevou em 70% sua receita no primeiro semestre. Ampliou presença em multimarcas de Ijuí, Santo Ângelo e Novo Hamburgo.

A SEMANA QUE EU VI

NOVA REFORMA

Surgiram na terça-feira as primeiras mudanças de nova reforma trabalhista: a revisão das normas regulamentadoras do trabalho (NRs). Duas foram alteradas e uma, extinta. O secretário da Previdência e do Trabalho, Rogério Marinho, e o ministro da Economia, Paulo Guedes, avisam que vai ter mais.

CORTE OUSADO

Depois de suspense, o Banco Central enfim começou a reduzir o juro básico, na quarta-feira, diante das evidências de estagnação. Foi um corte ousado, de 0,5 ponto percentual, com sinais de que haverá mais. Para ter efeito em consumo e emprego, porém, é preciso garantir que chegue à ponta.

CHOQUE EM ITAIPU

A interminável polêmica da repartição da energia de Itaipu quase derruba o governo paraguaio. Foi uma tentativa tosca, supostamente secreta, de equilibrar as bases de um acordo que claramente beneficia o Paraguai. Lá, a energia barata é um dos incentivos para a atração de empresas brasileiras.

VENDA DE ESTATAL

Na quinta-feira, foi confirmada a privatização da Eletrobras. Era uma das estatais que o presidente Jair Bolsonaro resistia em vender. O comunicado oficial foi feito, agora ainda faz definir o modelo de oferta. Além de térmicas a carvão em Candiota, a Eletrobras tem um terço de outra empresa gaúcha, a CEEE.

MARTA SFREDO

03 DE AGOSTO DE 2019
INFORME ESPECIAL

Paixões, pressão e pautas explosivas no Supremo


É nitroglicerina pura a pauta que espera o Supremo Tribunal Federal (STF) no segundo semestre. A corte voltou do recesso na quinta-feira e, de bate-pronto, impôs uma derrota ao presidente Jair Bolsonaro, retirando do Ministério da Agricultura a atribuição de demarcar terras indígenas. A tarefa volta à Fundação Nacional do Índio (Funai).

Os temas que devem ter grande repercussão na política, na economia e nas ruas incluem assuntos de interesse de lulistas e bolsonaristas. Um dos julgamentos que mais desperta atenção - e pressão por todos os lados - diz respeito a investigações penais que tenham utilizado dados detalhados de órgãos como o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), sem autorização judicial. O presidente do STF, Dias Toffoli, suspendeu os processos do gênero, o que beneficiou o senador Flavio Bolsonaro (PSL-RJ), suspeito de desviar salários de funcionários de seu gabinete, quando era deputado estadual, no Rio. Está inicialmente previsto para novembro, mas devido ao furor em torno do assunto, tende a ser antecipado.

Na economia, o Supremo deve ainda se manifestar sobre a constitucionalidade da tabela do frete, após uma enxurrada de ações contestar o controle de preços para o transporte de mercadorias. O assunto mexe com os humores dos caminhoneiros, apoiadores do presidente e categoria que frequentemente ameaça nova paralisação, caso não tenha a sua demanda atendida.

Há ainda temas com contato com a Lava-Jato, que agora ganham um ingrediente extra de tensão, com a revelação de mensagens trocadas entre membros da operação indicando a intenção de Deltan Dallagnol, chefe da operação em Curitiba, de investigar Toffoli. Um deles é a discussão da constitucionalidade da prisão em segunda instância, que interessa ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não há certeza, mas a tendência é de o assunto ir a plenário.

Está também no radar a ação que questiona a imparcialidade do então juiz Sergio Moro nos julgamentos que envolvem Lula. O resultado ficou mais imprevisível após virem a público as mensagens privadas do hoje ministro da Justiça, publicadas pelo site The Intercept.

O semestre de matérias explosivas no STF reserva ainda pauta relativas à descriminalização de porte de drogas e relacionada à flexibilização do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), aumentando as possibilidades de apreensão de adolescentes que cometeram delitos, o que vai ao encontro do discurso bolsonarista de endurecimento de penas.

CAIO CIGANA - INTERINO

sexta-feira, 2 de agosto de 2019


Jaime Cimenti
Princesa, fauno, fantasia e realidade

Quando estreou nos cinemas em 2006, o filme Labirinto do Fauno, do consagrado escritor, diretor e roteirista mexicano Guillermo del Toro, encantou público e crítica com sua história mesclando sonho e realidade, trazendo para a fantasia o cruel universo do cotidiano da Espanha fascista de Franco. Treze anos depois, a produção segue conquistando fãs, mostrando que histórias são atemporais. O filme recebeu três Oscar e vários outros prêmios relevantes.

O labirinto do fauno (Intrínseca, 320 páginas, tradução de Bruna Beber) é o romance do qual se originou o filme - e tem autoria de Guillermo del Toro e da escritora e ilustradora alemã Cornelia Funke, best-seller no mundo inteiro com seus contos de fada modernos. As ilustrações da obra são Allen Williams.

A narrativa traz a jornada de uma menina de 13 anos pelo Reino dos Homens e pelo Reino Subterrâneo. No ano de 1944, era uma vez uma princesa perdida havia muito, muito tempo, numa floresta repleta de encantos e mistérios, e um Fauno disposto a ajudá-la a voltar para a casa.
Diante da brutalidade de seu cotidiano na Espanha fascista, a menina Ofélia, cujos melhores amigos são os livros, é conduzida a um universo mágico, que extrapola os limites entre o sonho e a realidade, beleza e horror.

Ofélia e a mãe grávida do Capitão, seu segundo marido e padrasto de Ofélia, cruzam uma estrada de terra que corta uma floresta longínqua ao Norte da Espanha, para chegar num lar estranho, um moinho de vento tomado pela escuridão e pela crueldade do Capitão Vidal e seus soldados, dispostos a tudo para exterminar os rebeldes que se escondem na mata.

O que não sabem é que a floresta abriga também criaturas mágicas e poderosas, habitantes de um mundo subterrâneo repleto de encantos e horrores, súditos em busca de sua princesa há muito tempo perdida, uma princesa, que, segundo os sussurros das árvores, finalmente retornou ao lar.

Intercalada com ilustrações e contos de fadas inéditos, baseados em elementos-chave de O labirinto do fauno, a obra é uma impactante ode ao poder das histórias, seja em imagens ou palavras, capazes de transformar a realidade a nossa volta.
O que é arte?

Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? São perguntas que estão aí desde sempre desafiando pensadores, cientistas, religiosos e os meros mortais. Há quem pense que nunca teremos respostas definitivas e que até é melhor assim: a vida com alguns mistérios insondáveis e com uma pergunta atrás da outra.

O que é arte? Essa é outra pergunta gigante, de tamanho oceânico e que há milênios vem obtendo respostas variadas, em diferentes cantos do planeta. Difícil definir o que é arte, na medida em que os conceitos vão mudando de época para época, de país para país e de pessoa para pessoa.

De mais a mais, a criatividade humana, as forças da natureza, os materiais e métodos utilizados pelos artistas e outros componentes, inclusive científicos, sempre podem trazer inovações e apresentar algo diferente. Pode surgir algo novo sob a luz do sol, contrariando o que diz o sábio livro bíblico Eclesiastes. Arte e artistas verdadeiros são os que trazem mudanças. "Mudei o tango porque um artista que não muda é um artista morto", disse Astor Piazzolla.

O que é arte? 

(Editora Nova Fronteira, 256 páginas), polêmico ensaio do genial escritor russo Leon Tolstói (1828-1910), publicado, originalmente, em 1898, que, agora, volta às livrarias com belas ilustrações, tradução de Bete Torii e ótima introdução do escritor e tradutor Marcelo Backes, doutor em Germanística e Romanística pela Universidade de Freibeurg, Alemanha, traz fatos e ideias interessantes para quem queira compreender os fenômenos artísticos.

Tolstói publicou Guerra e Paz entre 1857 e 1859, o romance considerado mais perfeito e tradicional de todos os tempos, e Ana Karenina em 1877. Ao escrever O que é arte?, Tolstói estava mergulhado no crepúsculo da vida e mergulhado na crise religiosa que o levou a viver isoladamente em sua propriedade em Iasnáia Poliana. O ensaio tomou-lhe 15 anos de trabalho.

O autor apresenta vários conceitos de arte, ao longo de autores e tempos, desde a Grécia até os teóricos alemães, ingleses e franceses, seus contemporâneos ou pouco anteriores.

Tolstói queixa-se das várias definições clássicas de arte, que acentuam o prazer vinculado à beleza em detrimento de uma missão fundamentada do bem. Tolstói acha que a arte não deve ser mero prazer, e sim um meio para realizar objetivos maiores da humanidade.

O autor apresenta suas próprias definições: "Arte é a atividade humana que consiste em um homem conscientemente transmitir a outros, por sinais exteriores, os sentimentos que ele vivenciou, e esses outros seres contagiados por esses sentimentos, experimentando-os também".

Escreveu Marcelo Backes sobre o livro: "Se, portanto, no final da vida, o moralista venceu o artista, o que salva Tolstói é, além do caráter curioso e, às vezes, extravagante de alguns de seus pontos de vista, a organicidade de sua obra, ou seja, o fato de o artista já ser moralista e de o moralista, em que pesem as vociferações contra sua própria arte, continuar sendo um pouco artista. E o que é arte? É uma obra importante para conhecer esse artista".

lançamentos

Das terras bárbaras (Tordesilhas, 334 páginas), caudaloso romance do economista e diplomata Ricardo da Costa Aguiar, estreia literária madura do autor, traz personagens movendo-se na barbárie das florestas, no Brasil de quatro séculos atrás. Pessoas cuspiam fogo, andavam nuas, escravizavam índios e traficavam negros. A narrativa se entrelaça com os dias atuais.

Até onde o amor alcança (Faro Editorial, 176 páginas) traz contos do gramadense Júlio Hermann, autor de Tudo que acontece aqui dentro - Cartas de amor nunca rasgadas (Faro Editorial), que apresenta contos que falam da vida, de jovens, de relacionamentos amorosos e muitas outras coisas que andam por aí.

Seja um líder de heróis - Como transformar sua equipe em um esquadrão imbatível em tudo o que faz (Gente Editora, 256 páginas), do empresário, escritor e palestrante Leandro Moreira, ajuda cada líder a inspirar, ensinar e transformar, apresentando técnicas de gestão de pessoas e negócios, com vistas a construir uma equipe extraordinária.

a propósito...

Seria interessante saber o que Tolstói diria sobre a arte depois que ele faleceu, em 1910, aos 82 anos, pouco depois de fugir de casa. O que diria o romancista maior sobre esses tempos pós-modernos, de "arte conceitual", de contornos indefinidos, de individualismos e egos amazônicos, de estranhas relações das artes com os críticos e os mercados?

O tempo e as pessoas "comuns" são, talvez, os melhores definidores e juízes do que venha a ser arte. Arte é mudança e novidade, para cada pessoa, cada artista e cada lugar. Neste momento brasileiro, é bom lembrar que arte é criação e expressão livres, e que o novo sempre vem. 

Jaime Cimenti

sábado, 27 de julho de 2019



27 DE JULHO DE 2019
LYA LUFT

Trocando sinais

Tenho falado e escrito sobre dramas ou alegrias no convívio humano, amigos, amores, família (que significa amor e amizade também).

A dificuldade de comunicação é uma realidade, por vezes pungente, outras até cômica, ou ainda dramática. O filho ou amigo que de repente se queixa: “Aquela vez você me disse isso, e me doeu tanto, que ainda não consegui esquecer”. Mas quando foi isso? Uns 10 anos. Cinco. Mais ainda. E a gente se espanta: “Mas que loucura! Eu jamais te diria isso! Aliás, nem uso essas palavras!”.

Um dos dois tem razão, jamais saberemos qual, pois memórias são muitas vezes fantasias, não só em crianças, em adultos também. Tudo se confunde um pouco nas névoas do tempo, análise e terapia podem mostrar isso. Quanto sofrimento por engano, quanta chateação vã.

E mesmo que a gente tenha dito aquilo, ou feito aquele gesto, ou virado as costas e ido embora, hoje já não somos aquela pessoa de anos atrás: podemos estar piores, mas muitas vezes mais mansos, mais amorosos, mais generosos, porque mais sofridos.

Mais experientes, o que em geral nos torna mais tolerantes, menos críticos. (Ou não.) Enfim, o que pretendo aqui é comentar, mais uma vez porque é sempre real e frequente, essa troca de sinais confusos, esse desencontro entre a intenção de quem dá ou faz, ou diz, e o que recebe, sente, sofre – com ou sem razão. Muito conflito assim se desenrola injustamente, tolamente, porque mal-entendidos, enganos, nos atropelam a cada hora neste labirinto numa floresta que é o dia a dia.

Além de tudo, há tantas visões do mundo, tantas interpretações dos fatos mais corriqueiros, quantos seres pensantes existem: cada um com sua disposição: cética, otimista, trágica ou indiferente. Feliz ou tristonha. No fundo, a vida é um teatro, e um cenário com muitas portas, que estavam ali – ou que nós desenhamos. Mas, aqui e ali, abrem-se para encontros que nos transformam, nos tranquilizam, ou nos servem e servirão de apoio, porto, acolhida e força. Além daqueles que nos destroem, nos fazem adoecer, nos rasgam ao meio, ou por alguns momentos nos sombreiam com surpresa e decepção.

Somos em parte vítimas, em parte autores, desse teatro simples e terno, ou louco e trágico, ou maravilhoso. Nos vestimos nos camarins, rimos ou choramos atrás das cortinas. Também vendemos entradas; às vezes, vendemos a alma.

Atropelos, tolices, dramas ou mal-entendidos, embora criados por nós, dificultam essa tarefa existencial, que precisa de resistência, calma, audácia e fervor – e de alegria, quando aprendemos a contornar as armadilhas e nos construímos, do jeito que dá, do jeito de cada um, muitas vezes com alguém.

Da mesma forma que entre amigos, família, amantes, ou meros conhecidos, todos trocamos sinais – também eu e meus amigos imaginários de agora: meus leitores. Por isso, escrevo.

LYA LUFT

27 DE JULHO DE 2019
MARTHA MEDEIROS

Um projeto de passado


Em 1970, eu tinha nove anos e a certeza de que vivia no melhor país do mundo: não havia violência, fome, desemprego, só paz e amor. Um general assumiu a presidência e dali por diante eu cantarolava pela casa uma música que dizia "Ninguém segura a juventude do Brasil". Nos adesivos dos carros, lia-se "Brasil, ame-o ou deixe-o". Se alguém não gostava daquele paraíso, tinha mesmo que sumir, pô, que ousadia se queixar de uma nação próspera e pacífica. Ganhamos a Copa do México, ninguém perdia um capítulo de Irmãos Coragem e eu rezava todas as noites, agradecida a Deus pela sorte de ser brasileira - aliás, o que Ele também era.

Em 1980, eu tinha 19. Fazia a faculdade de Comunicação e namorava um colega que não parecia em nada com um galã de novela. Assistia aos filmes do Godard, tinha Simone de Beauvoir na mesa de cabeceira e cantarolava Beatles e Rolling Stones. Colecionava uma revista chamada Pop e ainda estava impactada pela peça Trate-me Leão, do grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone. Pela TV, acompanhava a volta de exilados políticos (Gabeira, Brizola, Betinho), entendendo finalmente que aquele país da minha infância era um paraíso de fachada - não havia liberdade. Seguravam a juventude do Brasil, sim, com tortura e desaparecimentos súbitos. Já não rezava.

No curto espaço de 10 anos, deixei para trás a alienação e entrei na vida adulta, bem menos cor-de-rosa, porém mais verdadeira e interessante. E a partir de então, fui moldando minha mentalidade à medida que o mundo mudava, e como mudou. Se antes mulheres eram obrigadas a trocar de sobrenome ao casar, logo passaram a praticar livremente sua sexualidade e a ganhar seu próprio dinheiro. Depois da ditadura, vieram eleições diretas. Viajar ficou mais fácil. 

O cinema brasileiro se fortaleceu, escolas promoviam Feiras do Livro, veio a TV por assinatura e seus múltiplos canais. As alterações climáticas provocaram consciência ambiental, a internet revolucionou a forma de se trabalhar e se relacionar, o preconceito contra homossexuais diminuiu. O politicamente correto, mesmo chato, ajudou a civilizar as relações. Passamos a ter acesso ilimitado à informação, evoluções na ciência e na medicina, mais proteção aos animais, inúmeros movimentos pró-aceitação das diferenças. O mundo avançou, mesmo aos trancos, mesmo ainda com muita violência, mesmo ainda com desigualdade. Avançou porque todos nós - cidadãos, instituições, nações - temos um projeto de futuro.

Ninguém em sã consciência investe num projeto de passado. Não é natural, não é racional, não é inteligente. Portanto, que sigamos abrindo portas e janelas, arejando nossas cabeças, saudando o novo, aprimorando o que ainda não está bom, amadurecendo nossas escolhas - crescendo, enfim. Com alegria, liberdade e confiança. Enfrentemos as dificuldades inerentes a toda caminhada, em vez de apoiar um retrocesso piegas, simplório e mal-intencionado, que só visa nos iludir com um mundo que não existe mais.

MARTHA MEDEIROS


27 DE JULHO DE 2019
CARPINEJAR

Bicho de duas cabeças

Apaixonado esquece tudo. Como se a memória anterior não valesse mais, só porque a pessoa com quem vem saindo não estava nela antes.

Apaixonado perde celular, chaves, fones, carregador, cartão de crédito, identidade - é um caos ambulante. Tem grande chances de entrar no Serasa pela primeira vez, por atrasos em suas faturas.

Quanto maior o apagão, maior a paixão.

No momento em que conheci Beatriz, a minha esposa, eu permaneci com o olhar boiando, a ver navios, a ver aviões, a ver unicamente o próximo encontro com ela.

Cheguei ao extremo de esquecer uma mala na portaria do hotel. Estava em São Paulo para uma palestra. Na hora do check-in, peguei a minha mochila e segui embora, para Porto Alegre. Abstraí que estava com bagagem. A amnésia foi tão grave que percebi o lapso apenas quatro dias depois. Ou seja, embarquei sem nenhum sofrimento, sem sentir nenhuma pontada de remorso por estar deixando algo para trás. A fissura não tem passado. E não me desesperei para localizá-la, não queria mesmo perder a mulher de minha vida. O meu foco se destinava a um rosto, apagava todo o resto.

Resisti a uma época de vultuosa displicência. Não sei como não fui preso. Comprei roupas em uma loja e parti sem pagar, na maior cara-de-pau. O atendente correu em meu encalço pelo shopping para avisar que não havia acertado o valor. Tentei entrar em um carro que não era meu no estacionamento, disparei o alarme em minhas vãs tentativas de arrombamento e chamei o seguro por não estar conseguindo abrir a porta. Também faltei a reuniões de negócios, cabulei aniversários de amigos, não retornava as ligações para ninguém... Empilhei vexame em cima de vexame. E nenhum incidente estragava o meu bom humor. Tudo o que acontecia de errado tornava-se história para mostrar a Beatriz o quanto ela estava se envolvendo com um louco. Louco por ela.

Se paixão é desmemória, o amor é o contrário: excesso de memória. Não esquecemos mais nada e passamos a cobrar e fiscalizar o outro. Trocamos de extremos. Substituímos a leveza pela possessividade. Não aceitamos enganos com a mesma facilidade de antes. Não perdoamos a mínima mudança de hábitos. Ficamos em cima controlando o que cada um faz e deixa de fazer. É um estresse da intimidade, um excesso de visibilidade que beira à neurose. Temos ataques quando alguém perde algo. Já soltamos os cachorros: "Não presta atenção, não dá valor ao que tem, não se importa, onde anda com a cabeça". Armamos escândalo quando um dos dois deixa vencer a data de um boleto. Telefonamos para os amigos quando o celular anda desligado. Contamos os minutos, os trocos, numa completa avareza de viver.

Para quê? Deveríamos nos apaixonar de novo e sempre por quem a gente ama. Para perceber que objetos vão e vêm, desde que resista ao nosso lado aquele com quem escolhemos nos casar.

CARPINEJAR


27 DE JULHO DE 2019
CLAUDIA TAJES

A tinhosa

Tudo certo para uma noite muito esperada, nada de festa, sexo e loucuras, algo muito melhor do que tudo isso junto. Uma noite de sono. O banho deixou na pele aquele cheiro reconfortante de sabonete que se espalha pelas cobertas, a coluna vertebral enfim terá seu prêmio por segurar no osso - literalmente - mais uma jornada: o colchão. Não foi um dia fácil, os dias não têm sido fáceis. Nada que se compare ao perrengue que tantos vêm passando, mas o cansaço é forte. Você decide que não vai ler, nem espiar a vida excitante dos outros nas redes sociais. Então puxa o edredom até a cabeça, apaga a luz, fecha os olhos para antecipar a delícia de não existir por algumas horas. E continua acordado.

Por que ela aparece assim, do nada, sem aviso, sem convite? Sem ter dado uma pista de que surgiria no escuro do quarto, na beirada da cama? Insônia, sua bandida. Danada. Safada. Pulguenta. Filha do tinhoso. Sua coisa ruim.

Quanto mais você lembra que precisa acordar cedo, que não se beneficiará sequer da função soneca do despertador, a corda no pescoço no dia seguinte, mais espaço ela ocupa. No início, seu otimismo acredita que a visita será breve. Tão logo termine de se culpar pelo trabalho que não terminou, e sofrer pelos boletos que não pagou, vai fechar os olhos e entrar naquele estado maravilhoso do nada, a alma fora da tomada. 

Vã esperança. Você já pensou no trabalho, nos boletos, na discussão com a colega de escritório, nas provas da faculdade, na lição de casa que o seu pequeno não fez, na ração da gata que você não comprou e até na roupa que esqueceu dentro da máquina. Só lavando de novo para tirar o cheiro de cachorro molhado que, talvez seja paranoia sua, já dá para sentir no quarto.

Insônia, sua infeliz. Miserável. Medonha. Diabólica. Pérfida. Capeta. Sua biltre.

Agora ela já não é visita, chuta suas canelas, faz bololô nas cobertas. A você resta a bordinha da cama, como quando seu marido abre os braços na queen size. Ou quando a sua namorada executa, dormindo, o espacato que faria o cotovelo da Daiane dos Santos doer. Ficar insone ao lado de alguém que rapidamente passa para o estágio mais profundo do sono significa se adaptar ao que sobra, alguns centímetros de área, um pedaço de lençol. De pouco adianta cutucar aquele/aquela que, ao seu lado, ressona. O sono alheio é egoísta, é mertiolate na ferida.

Mequetrefe. Pulha. Sacripanta. Sórdida. Chata de galochas. Futre. Nóxia. Tóxica. Insônia, sua mistura de mal com atraso e pitadas de psicopatia.

Você faz o seu Esta é Sua Vida em looping e, a cada edição, entram mais personagens que o certo seria não lembrar. Vontade de processar uns e outros pelo sono perdido. Talvez a sua advogada encontre alguma brecha na lei para isso. Aos poucos você entra na fase dos planos mirabolantes. A exaustão é tamanha que as ideias mais estapafúrdias parecem saídas perfeitas. 

O Macedo acaba de dar bom dia para os ouvintes no rádio. Alguma claridade já atravessa as frestas da persiana. Justo agora que a cama parece abraçar e que vem um calor tão bom do corpo ao seu lado. Aliás, se não fossem os roncos, você diria que era um corpo mesmo, nenhum outro sinal vital há horas. Seus olhos pesam, pesam, pesam até fechar. Por alguns instantes, a cabeça vazia. Até que o despertador toca.

Insônia, sua desalmada. Sem serventia. Insensível. Perversa. Malévola. Moléstia da peste. Malvada. Se vier deitar comigo esta noite, vê se me traz um bom assunto para a coluna da semana que vem. Sua celerada.

CLAUDIA TAJES



27 DE JULHO DE 2019
LEANDRO KARNAL

O HUMANO E O DIVINO

Se sua religião não permite o riso, recomendo evitar esta crônica. Descrevo caso verídico e, quase sempre, a realidade é ofensiva para gente pudica. Siga por sua conta e risco. Perante todos os tribunais, posso garantir: tudo é expressão fiel dos fatos. Fora a tentativa de redação mais retórica, estamos diante da verdade.

Eu estava dando curso em uma pós-graduação no Sul. A instituição é católica e dispõe de uma capela no campus. Estudioso de arte religiosa e admirador de arquitetura sacra, dediquei o intervalo do almoço para conhecer o local.

A solução do espaço é de rara felicidade. Nem repetia algum neogótico estranho nem se aventurava em uma modernidade além do plausível. O espaço fora concebido em forma de tenda com um belíssimo mosaico junto ao altar. Vitrais modernos, claridade, luz e nosso olhar dirigido com habilidade para um vórtice ao alto. Tudo me agradou no ambiente cercado de verde. Fiquei ali por quase uma hora decifrando as imagens e lendo sobre o projeto na internet. O frio intenso da rua não chegava ao interior. Era um espaço silencioso e que convidava à reflexão.

Minha descoberta parecia ter outros adeptos. Jovens universitários entravam, persignavam-se, faziam genuflexões variadas (os códigos católicos têm menor padronização do que outros credos) e passavam alguns minutos imersos em oração.

Havia um suave entra e sai da sacra e silenciosa atmosfera. Um rapaz chamou minha atenção, pois entrou e ficou alguns metros à minha frente. Ajoelhou-se no chão de pedra fria e lá se quedou, extático. Era um asceta moderno, um penitente talvez, certamente um ser sem artrite ou problemas nas articulações.

"A graça supõe a natureza", dizia o grande Tomás de Aquino, outro afeito a ambientes universitários e piedade. Já tendo tomado notas para uma futura escrita sobre arte sacra, eu apenas admirava a capacidade daquele fiel em permanecer tanto tempo com as patelas (as antigas rótulas) pespegadas à dura pedra.

Como diria um sábio confessor na minha juventude, "o inimigo é ardiloso". Quando eu já me preparava para sair do mundo diáfano e transcendente, o orante cometeu sonoríssimo flato. Foram sons prolongados e com variações de timbre e intensidade quase musicais, seguido de repiques menores à guisa de contratema aos estampidos iniciais. A duração foi inacreditável, e, graças à acústica do lugar, de efeito redobrado. Aquele som tão humano, seguido de acre e sulfúrica exalação pestilenta, surpreendeu-me muito. Era algo que não combinava com a cena, ou, usando o verbo que aprendi em São Paulo, não "ornava".

E o autor do "atentado"? Como ele reagiu à, digamos, "involuntária" confissão de humanidade? Nada parecia denunciar que aquela alma se perturbara com a interferência do corpo. Talvez sua mente flanasse entre coros de querubins, indiferente aos males da Terra, inclusive aos danos causados. Nenhuma reação, abismada leitora e estupefato leitor. Nada! Ele continuava de joelhos, mãos postas em oração e olhos cerrados. Nem sequer um discreto risinho, uma tosse ou um rubor, tão comum em autores dessas infrações, denunciaria ser ele o réu incontestável do delito de lesa-sociabilidade. Estivesse lotado o ambiente e nunca se diria que partiu daquele místico tão pútrida emanação.

Saí às gargalhadas e rindo segui para a sala. Contei o caso a um amigo que levantou hipótese inaudita. E se a graça pedida com tal fervor tivesse sido, exatamente, essa? E se o foco da dedicação mística tivesse relação com o incômodo de um intestino preso e, tendo demonstrado a capacidade de sacrifício corporal, ele tivesse obtido aquilo que anelava? Não imaginaria tal dado, porém, se fosse verdade, eu teria presenciado uma ação direta do divino, ou, se preferirem, um milagre. O que meu olhar incrédulo supunha ser uma profanação poderia ser o atendimento de um sincero e justo desejo. Supus delito, poderia ser prece ouvida.

Nunca saberei se eu estive diante de alguém com incontinência gasosa ou uma pessoa agraciada por forças superiores. A capela continua lá, linda na sua singeleza. Alunos e professores passam rapidamente pelo local. Somente eu, aquele devoto e Deus fomos testemunhas do ocorrido. Sendo cético, em um processo de canonização futuro, meu depoimento teria um valor enorme. Como o poeta Gonçalves Dias, "meninos, eu vi". Aliás, vi, ouvi, cheirei, fugi e ri.

O humano se insinua em tudo. Na Teologia, o plano de Deus tece urdiduras complexas com a percepção dos homens. Sob "a espécie da eternidade", o que presenciei foi um sopro passageiro, com o caráter duvidoso da expressão para o caso. A religião é maior do que um cronista irônico ou até do que um orante flatulento. A piedade sempre superou as falhas individuais. Seria o caso de evitar o cacófato e deplorar "fé demais"? Deveríamos recriminar o rapaz pela conduta inadequada no local? Melhor perdoar com misericórdia o caráter humano que, afinal, nos irmana e iguala. Ainda que nem sempre em locais sagrados, todos já imitaram o devoto. É preciso manter a esperança e, provavelmente, um pouco de humor.

LEANDRO KARNAL


27 DE JULHO DE 2019
COM A PALAVRA

"SÓ NO BRASIL EXISTE PRISÃO EM CASA. É UM SISTEMA QUE FUNCIONA MAL."

Entrevista | FAUSTO DE SANCTIS - Desembargador, 55 anos, Hoje juiz do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3), em São Paulo, foi o responsável pelas operações Satiagraha e Castelo de Areia.
Juiz responsável pela Satiagraha e a Castelo de Areia, operações da Polícia Federal que antecederam a Lava-Jato, Fausto De Sanctis condena o vazamento das conversas entre integrantes da força-tarefa, publicadas pela imprensa há mais de um mês. Para ele, os diálogos só servem como "curiosidade" - acessados de modo ilegal, sequer podem ser periciados ou considerados provas, afirma.

Polêmico, Sanctis viu suas duas principais ações serem anuladas pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) e se indispôs com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Hoje desembargador no Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3), em São Paulo, concedeu entrevista por telefone a ZH de seu gabinete na Avenida Paulista.

- Não falo de casos concretos - alertou, no início da conversa.

Durante uma hora, defendeu os colegas da Lava-Jato e criticou o STF. No passado acusado de parcialidade (assim como Sergio Moro), diz que a influência política não se dá sobre o juiz de primeiro grau, mas sobre os ministros da mais alta corte do país.

A OPERAÇÃO CASTELO DE AREIA FOI UMA ESPÉCIE DE ESBOÇO DA LAVA-JATO, MAS QUE NÃO ATINGIU A MESMA REPERCUSSÃO. O HOUVE DE DIFERENTE?

A Castelo de Areia buscava a corrupção sistêmica, exatamente o que se descobriu na Lava-Jato - uma rede de grandes empreiteiras com conexões políticas que desvirtuavam os princípios das leis de licitações. Mas, na época, não existia esse apoio popular que a Lava-Jato obteve. Pouco a pouco, por conta das operações do passado, a população começou a tomar conhecimento da existência de uma corrupção sistêmica. E não existiam os mesmos instrumentos, como o uso das mídias sociais de forma livre, com críticas e questionamentos das decisões públicas. Esse uso permitiu a contestação pública de atos de autoridades políticas ou do Judiciário. Assim, quebrou-se o controle da informação, porque a mídia social não permite o filtro da informação dada à população. Na época, havia um certo controle por boa parte da imprensa. A Castelo de Areia enfrentou esse obstáculo, de não ter o apoio da população em ver o caso e considerá-lo grave, para dar uma resposta à altura da organização criminosa que havia no Brasil.

OS MÉRITOS DA LAVA-JATO PASSAM PELO APOIO POPULAR?

Há também a crise econômica, que notabilizou o momento da Lava-Jato e permitiu essa insatisfação popular. Na Castelo de Areia, havia crescimento econômico, as pessoas não estavam preocupadas com a corrupção porque estavam em um ambiente satisfatório. A corrupção dos agentes públicos, aliada à crise econômica decorrente dessa corrupção, provoca a manifestação pública, a insatisfação. Estudos mostram que a satisfação econômica faz com que as pessoas fiquem alheias ao combate à corrupção. Hoje, a população sabe que qualquer desvio de olhar para as instituições vai a favor do ambiente da corrupção. Esse combate é um trabalho permanente de vigilância social sobre as ações das autoridades públicas.

NESSES MOVIMENTOS, SURGIU A FIGURA DO EX-JUIZ SERGIO MORO COMO SUPER-HERÓI. O SENHOR CONSIDERA ESSE PROTAGONISMO POSITIVO?

Diante dos escândalos revelados pela Lava-Jato, a população ficou carente de líderes políticos. Aí, passou a eleger outros líderes. Todos aqueles que estão combatendo de maneira legítima o status quo acabaram sendo vistos como heróis. Eu também passei por isso e não acho correto. Quando a população identifica heróis, ela também identifica vilões. E esses vilões estão cada vez mais claros.

A SATIAGRAHA E A CASTELO DE AREIA ACABARAM ANULADAS. AO OLHAR PARA TRÁS, O QUE O SENHOR TERIA FEITO DIFERENTE?

Nenhuma decisão minha foi como hoje, quando as autoridades judiciais tomam uma decisão e, após dois meses, vem uma liminar contra a decisão colegiada, aí a decisão colegiada não vale mais, passa a valer outro entendimento... Essa insegurança jurídica propiciada pela alta cúpula tem desacreditado o Judiciário no Brasil e no Exterior. Para mim, que tenho dado palestras no Exterior, é constrangedor. Em termos de eficiência, a Lava-Jato é considerada o único exemplo institucional da Justiça brasileira. E é atacada por todos os lados.

MAS O SENHOR TERIA AGIDO DIFERENTE?

As decisões foram baseadas na minha experiência doutrinária e jurídica. Todas foram confirmadas pelo mensalão e pela Lava-Jato. Estive à frente de várias investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, quase nada foi anulado. Toda a Satiagraha, por exemplo, foi anulada porque a transcrição da interceptação telefônica, feita por agentes da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), foi considerada irregular. A Castelo de Areia foi anulada porque a interceptação teria começado com uma denúncia anônima. Mas havia delação premiada, um procedimento que estava em curso em outra vara especializada e investigações preliminares da polícia. Anulações ocorreram, mas, hoje, acredito que não ocorreriam por causa da vigilância social e da comunicação entre o Judiciário e a população.

O SENHOR QUER DIZER QUE PROVAS OBTIDAS POR MEIO ILEGAL PODEM SER USADAS EM PROCESSOS?

Pela história da jurisprudência brasileira, não pode, de forma alguma. Recentemente, o ministro Gilmar Mendes, do STF, decidiu soltar uma pessoa acusada de tráfico de entorpecentes porque a polícia teria extraído o conteúdo de seu WhatsApp sem autorização judicial. A pessoa foi solta, e a prova, considerada nula. Pela jurisprudência do STF, toda prova originada de ilicitude está contaminada. É ilícita.

O SENHOR COSTUMA DIZER QUE, PELOS MÉTODOS TRADICIONAIS, UMA INVESTIGAÇÃO DE LAVAGEM DE DINHEIRO NÃO TEM RESULTADOS. QUAIS SÃO OS MÉTODOS EXCEPCIONAIS?

Os métodos tradicionais eram aqueles que todo mundo sabia que existiam na polícia - instauração de inquérito, chamamento de testemunhas, apreensão de documentos. O cenário mundial estimula os organismos a usarem métodos especiais de investigação, previstos em convenções contra corrupção da ONU. Sem eles, não se apuram esses crimes sofisticados. Esses só são descobertos quando passamos a usar interceptações telefônicas, captação ambiental, delação premiada, informante do bem e agente infiltrado.

O PAÍS ENFRENTA UM MOMENTO DE DESCRÉDITO NO JUDICIÁRIO. PEDIDOS DE UMA LAVA-TOGA, POR EXEMPLO, TÊM SIDO RECORRENTES EM MANIFESTAÇÕES. COMO RECUPERAR A CONFIANÇA?

As pessoas agem por incentivos ou desincentivos. Quando são incentivadas a agir de forma correta, assim o fazem. E a grande maioria da população é de pessoas corretas. Elas esperam das instituições a concretização da democracia, uma ação equitativa do Estado de direito. A lei tem de valer para todos, sem exceção, e o Judiciário está aí para afirmar que a igualdade de tratamento deve prevalecer. Quando existe tratamento dual pela Justiça, há descrédito nas ações da própria Justiça, a ponto de deslegitimá-la e causar risco à democracia. Muitos defendem posicionamentos em prol do princípio da inocência, da não culpabilidade, do contraditório e da ampla defesa. São argumentos muito bons, mas a arte de julgar é de direitos e deveres, não só de direitos. No Judiciário, a pretexto de defender a inocência, a não culpabilidade, a ampla defesa e o contraditório, muitos estão em defesa das suas tentações internas e do ganho de dinheiro fácil, indo contra a ideia de democracia. A democracia é reconhecida por aquilo que constrói, e não pela vitalidade das estruturas institucionais. O Brasil tem instituições há anos, mas que nunca fizeram face à corrupção. Pelo contrário, em nada a contiveram ou preveniram. Uma das funções do Judiciário é realinhar incentivos e desincentivos e, a meu ver, os incentivos para que as pessoas não se corrompam está quebrado. A população pode não entender uma decisão específica, mas entende o conjunto. Ela entende que, por detrás de decisões maravilhosas em defesa de princípios democráticos, está a mensagem de que a corrupção compensa, defendendo a elite política e econômica que sempre esteve no poder e criou essa mazela entre ricos e pobres do Brasil.

O SENHOR COSTUMA DIZER QUE A INFLUÊNCIA POLÍTICA ESTÁ NO STF, E NÃO NOS JUÍZES DE PRIMEIRA INSTÂNCIA.

O que se espera de uma corte constitucional de Justiça é tecnicismo. Quando se mistura técnica com política, é muito complicado. Nos EUA, discute-se o lobby no Executivo e Legislativo. Grupos se dirigem a políticos para conseguir leis vantajosas. Na teoria, o Judiciário, por não agir por agenda própria, mas por distribuição, seria menos vulnerável. Mas hoje há lobby também sobre o Judiciário, para que as interpretações favoreçam grupos econômicos que atuam com corrupção. Quando o Estado é substituído por poderes sociais e políticos paralelos, pode se criar uma situação insustentável da democracia formal. Há alto risco de o crime organizado tomar de vez o poder. Vimos isso nos anos recentes, com relação ao crime econômico, mas há a possibilidade de que o crime envolvendo tráfico de drogas, milícias, tome o poder aos poucos. Essas brechas de interpretações jurisdicionais têm permitido a impunidade, e, quando se fala em impunidade, se fala em estímulo. Estamos em um Estado institucionalmente falido, chegando à paralisação da luta contra a corrupção.

QUAL É A SOLUÇÃO?

O reforço da sociedade civil. Atualmente, há um movimento de repensar o que funciona. Agora, para repensar o que não funciona não há movimento. O abuso de autoridade, incluído nas 10 medidas contra a corrupção, tolhe a independência dos juízes, essencial em qualquer país. Esse movimento foi visto com preocupação pelos organismos internacionais. É preciso reforçar os institutos que permitiram a descoberta da corrupção - a delação premiada, o juiz independente de primeiro grau. E não, por exemplo, estabelecer o juiz das garantias, que tem o poder de rever as decisões de primeiro grau. Vão sendo criados instrumentos que burocratizam aquilo que já é ruim para destruir aquilo que está funcionando. Também querem controlar as delações premiadas, sempre gerando escândalos: "Olha, fulano foi pressionado para fazer delação". Espera lá! Estamos falando com réus adultos, assessorados por advogados, acompanhados pelo Ministério Público e por um juiz. A palavra do delator não vale nada sem prova complementar. Tentam colocar isso como escândalo no país.

NA SUA AVALIAÇÃO, O PRÓPRIO SUPREMO TEM VALIDADO ESSE MOVIMENTO?

Isso gera descrédito na população. Não é possível um poder sem amadurecimento, com todas as vênias possíveis, ficar decidindo de modo diferente de tempos em tempos. E não porque houve um aperfeiçoamento, mas por movimentos do Judiciário. Isso é muito sentido pela população. No Exterior, é constrangedor falar sobre as decisões do Judiciário brasileiro. Quando se fala que, no Brasil, o réu não pode ser algemado, é motivo de risada, de escárnio. Só no Brasil existe prisão em casa. É um sistema que funciona mal. No final, a corrupção tem gerado prisões domiciliares, a pessoa mal sente o que fez, não há arrependimento. Na Lava-Jato, políticos não tiveram consequência nenhuma até o momento, a não ser um que foi condenado pelo STF (deputado Nelson Meurer). Fora isso, a Lava-Jato, que se iniciou em 2014, depois de cinco anos e meio, não tem nenhuma prisão após o recebimento de 193 denúncias pelo Supremo.

HÁ POUCO MAIS DE UM MÊS, DIÁLOGOS ENTRE SERGIO MORO E DELTAN DALLAGNOL VÊM SENDO DIVULGADOS PELA IMPRENSA. É COMUM ESSA COMUNICAÇÃO, FORA DOS AUTOS, ENTRE JUIZ E PROMOTOR?

Conversas sempre existem na Justiça. O estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) determina que é direito do advogado contatar diretamente o juiz. No Exterior, já ouvi que o Brasil é o país dos advogados. Tem de haver a paridade. Se o advogado tem acesso direto, o MP também tem. Conversas existem, o que não pode existir é antecipação de decisão judicial. Não estou falando desse caso concreto, mas, por vezes, há uma tentativa de sondagem do juiz, querem saber a probabilidade de um pedido. No caso do Intercept, trata- se de invasão de privacidade, que não é tolerada pela Constituição. Se você permitir invasão virtual, você também vai permitir invasão física. Imagina alguém invadir a casa de um juiz para tentar descobrir algum documento? É a mesma coisa. Se isso for permitido, vamos invadir a casa do juiz e extrair a confissão de que ele condenou um réu injustamente. Hoje, estamos falando de Lava-Jato. Depois, poderemos estar falando de crime organizado envolvendo PCC ou Comando Vermelho. Qual juiz vai decidir livremente se isso for respaldado por um Judiciário que sempre condenou a ilicitude da prova produzida quando obtida ilicitamente? É grave. Quando se investe contra o juiz ou o MP, está se investindo contra a democracia. A pretexto de defender valores democráticos, na verdade está se indo contra a democracia. Toda prova produzida é nula, porque não pode ser objeto sequer de perícia. Se essa violação absurda de conversas privadas for legitimada, vai se permitir uma ilegalidade brutal contra a democracia. O material do Intercept pode ser a título de curiosidade. Nada mais do que isso. As instituições, se derem vazão a isso, estarão dando um tiro no pé. Hoje, são Moro e Dallagnol. Amanhã, pode ser qualquer um.

ALGUNS JURISTAS TÊM DITO QUE ESSES DIÁLOGOS PODEM SER USADOS PARA ANULAR A SENTENÇA, SE COMPROVADA A SUA VERACIDADE E A PARCIALIDADE DO JUIZ.

Entendo totalmente diferente. No Brasil, as pessoas não aplicam a lei. Pela lei, o acesso ao conteúdo só pode ser por decisão judicial. Não sei nesse caso específico, mas, quando eu expedia buscas e apreensões, autorizava judicialmente o acesso ao conteúdo. Não faz sentido apreender um aparelho se você não pode autorizar o acesso ao seu conteúdo. Para evitar nulidades, eu permitia mediante decisão judicial. Agora, sem autorização judicial... Me desculpem esses juristas, mas estou reaprendendo o Direito Processual Penal.

EM TESE, UM JUIZ QUE SUGERE INVERSÃO DE ORDEM DE OPERAÇÃO, DÁ DICA DE TESTEMUNHA E PEDE INCLUSÃO DE PROVA EM UMA DENÚNCIA NÃO ESTÁ SENDO PARCIAL?

Isso que foi obtido pelo Intercept foi obtido por invasão, por hacker. Conversei com uma pessoa dentro do MPF. Ela revelou que uma conversa privada de duas pessoas, dois membros do MPF, que em nenhuma hipótese divulgaram a conversa, foi noticiada pela imprensa. Parece que houve hacker invadindo sistema. E o hacker é muito bom, tanto para invadir quanto para manipular prova. Então, não posso aceitar isso como prova, nem o teor, para saber se é real. Nem se pode fazer perícia numa prova obtida ilicitamente, então, não tem validade para nenhum efeito. Agora, nem tudo que o juiz Sergio Moro fez eu teria feito. Tenho outros entendimentos. Mesmo assim, você não pode tirar o mérito do Moro, que tem uma história de coragem e combate ao crime. Você não pode destruir um trabalho positivo porque discorda de algo pontual. Não é papel do Judiciário julgar juiz. Precisamos de uma jurisprudência que oriente o juiz, e não o desoriente. De nada adianta termos pessoas engajadas no combate ao crime se o Judiciário, com suas decisões, torna o sistema tímido e inoperante, desestimulando as ações dos demais órgãos.

MORO É CRITICADO PORQUE, SUPOSTAMENTE, AO SE TORNAR MINISTRO, TERIA SE BENEFICIADO DAS SUAS PRÓPRIAS DECISÕES. O SENHOR CONCORDA?

Não posso falar especificamente, mas acredito que são decisões pessoais, fruto de um acúmulo de circunstâncias. A Lava-Jato exige exclusividade, o que gera um cansaço absoluto, físico e mental. É um cansaço injusto, porque muitos inimigos do juiz de primeiro grau não são os réus, mas o próprio sistema, por conta de vaidades. Até hoje sofro com isso. As pessoas querem puxar para baixo quem fez um brilhante trabalho. Acredito que ações como a tomada pelo ministro são fruto de uma série de situações. Talvez, entre elas, esteja o cansaço e a vontade de ir para outras frentes. Cheguei a ser cogitado para sair do Judiciário e nunca aceitei. Nunca quis desacreditar o que fiz. Dou palestras há anos e não cobro. Até estou repensando, porque sei de autoridades judiciais de Brasília que cobram. Elas dão aula, algumas têm até institutos de Direito e ganham por isso. Agora, quando é revelado que uma pessoa da Lava-Jato teria ganhado... "Ó, que surpresa." Espera lá! Se vamos discutir ética, vamos discutir de baixo para cima e de cima para baixo, e não pontualmente, para destruir uma operação.

MESMO DENTRO DA LEI, O SENHOR CONSIDERA ÉTICO COBRAR POR PALESTRAS?

Juízes e promotores estão legitimados a dar aulas. É a única coisa que podem fazer: dar aula e ganhar por isso. Palestras também são consideradas atividades docentes. Isso não significa que a pessoa agiu incorretamente na sua função. Se as pessoas querem ouvir determinadas autoridades, de que adianta não cobrar? Quase todos cobram. Isso é legítimo, natural, e se discute como se fosse um escândalo.

MÉRITOS E CRÍTICAS À LAVA-JATO SURGIRAM EM MEIO À POLARIZAÇÃO DO PAÍS. O SENHOR CONCORDA QUE ESSA SITUAÇÃO INFLUENCIA A ANÁLISE DA OPERAÇÃO?

Agora, com tudo o que está acontecendo, não é momento de repensar o sistema em termos de aperfeiçoamento de legislatura. Temos boa parte do Congresso condenada pela Lava-Jato ou em vias de ser. Esse mesmo Congresso está julgando o juiz com essas mudanças legislativas, para a punição do magistrado independente e imparcial. O momento é único para o combate à corrupção. Não há abusos, não se verificou nenhum abuso relevante que justifique esse movimento. Está se aproveitando desse escândalo criado forjadamente para desacreditar todos, poupar pessoas que estão presas e evitar novas ações.

O PRESIDENTE DO SUPREMO, DIAS TOFFOLI, SUSPENDEU INQUÉRITOS COM DADOS DO CONSELHO DE CONTROLE DE ATIVIDADES FINANCEIRAS (COAF). QUAL O IMPACTO DESSA DECISÃO NAS INVESTIGAÇÕES EM ANDAMENTO NO PAÍS?

Não posso falar do caso concreto, mas a comunicação de operações suspeitas é a espinha dorsal reconhecida mundialmente no combate à lavagem de dinheiro. A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) determina que não se pode invocar sigilo que inviabilize a rápida troca de informações para esclarecer o crime de lavagem de dinheiro. Se não seguir isso, o Brasil vai ter problemas. O Coaf tem uma função muito específica de filtrar e repassar comunicações suspeitas. Não pode virar um órgão inútil a partir de decisões que obrigam a autorização judicial.

DÉBORA ELY