sábado, 10 de agosto de 2019


10 DE AGOSTO DE 2019
MARTHA MEDEIROS

18 cartas extraviadas

Já não tenho onde guardar meus livros. Mesmo fazendo doações, eles se acumulam nas prateleiras do quarto, na biblioteca da sala, até dentro da churrasqueira. No meu escritório, tinha um sofá tão coberto por livros que ninguém percebia que era um sofá, e como meu gato destruiu seu forro, resolvi trocá-lo por uma estante e só então organizei a montanha de publicações ali empilhadas. Enquanto meu gato perambulava pela casa em busca de outro alvo para afiar suas unhas, eu reencontrava títulos que julgava perdidos. 

De repente, ensanduichado entre um livro de poemas e um romance, deparei com um envelope pardo que nunca havia sido aberto. Devo tê-lo largado ali enquanto fui buscar um copo d?água, depois o telefone deve ter tocado, e o esqueci. O envelope havia afundado entre os entulhos. Vi a data do carimbo: 04/07/2017.

Era volumoso. Rasguei o lacre e, primeiro, puxei um bilhete manuscrito de uma professora. Aos poucos, minha memória foi voltando: ela havia trabalhado em sala de aula com o meu livro Tudo Que Eu Queria Te Dizer, que reúne 35 cartas fictícias, e agora seus alunos me enviavam respostas, também fictícias, para essas cartas. Maristela Lang, a professora, dizia que foram produzidos 68 textos pelos estudantes do terceiro ano do Ensino Médio, mas ela estava me enviando apenas 18, imaginando que eu não teria tempo para ler todos. Ah, Maristela.

Enquanto eu retirava os 18 impecáveis envelopes brancos que estavam dentro do grande envelope pardo, pensava: a essa altura a garotada já terminou o colégio, devem estar na faculdade. Oh, Deus, que sejam textos horríveis, para que eu me sinta menos culpada pelo meu silêncio.

Não havia nenhum texto menos do que ótimo. A criatividade era assombrosa. A cada carta que eu abria da Bruna, da Gabrieli, da Giovanna, do Luis, do Eduardo (queria citar todos), mais emocionada ficava. Eles deram continuidade aos meus enredos. Interagiram com meus personagens. Inventaram reações surpreendentes para meu padre, meu assassino, minha prostituta, até então limitados às minhas histórias. 

Eu tinha em mãos a prova da potência da literatura, do quanto ela é transformadora, eletrizante. Alguns alunos subverteram a tarefa dada pela professora e escreveram não para os personagens, e sim para eles mesmos, quando estivessem no futuro. Um futuro que já estava em andamento, mesmo paralisado por dois anos num sofá aos pedaços.

Maristela, só me resta uma desculpa pública. Perdão pelo atraso e parabéns pelo projeto que envolveu os alunos da turma de 2017 do Colégio Tiradentes, de Ijuí. Espero que você ainda esteja lecionando, que você siga inspirando os jovens a expressarem seus sentimentos, que sua sala de aula continue sendo um espaço livre para novas ideias, que você ainda os provoque e os encante. Obrigada. Foi um tesouro o que encontrei entre meus escombros.

MARTHA MEDEIROS


10 DE AGOSTO DE 2019
CARPINEJAR

Desaprendemos a conversar

Existe uma grande dificuldade para conversar com uma pessoa reservadamente. Para realmente entender o que o amigo está pensando. Uma das manifestações do desaprendizado do diálogo é a epidemia de grupos no WhatsApp. Criam-se grupos para qualquer iniciativa, especialmente quando não é necessária.

Você vai tomar café com colegas? Inventa-se um grupo para descrever a chegada no local do encontro. Só para não ter que avisar os dois amigos em privado de um eventual atraso. É preguiça de digitar duas vezes a mensagem.

No emprego, tem um trabalho importante pela frente, o primeiro gesto é abrir um grupo para marcar uma reunião. Mesmo que os incluídos estejam na mesma repartição, dividindo baias vizinhas.

A ânsia pelo registro é um dos males do trato corporativo que se espalhou pelos laços pessoais. Para qualquer ato, tem que provar que aconteceu. Você se previne de cobranças escrevendo. Depois é printar e mostrar. A paranoia vem matando as conversas faladas.

O grupo não vai durar nem 24 horas. É um entra e sai interminável de telefones em sua rede de contatos.

Qual a lógica de formar um trio no WhatsApp? Nenhuma. É o uso indevido de uma ferramenta apenas porque ela se mostra disponível.

Não queremos nos incomodar e incomodamos muito mais os nossos parceiros de rotina. Sabe aquela brincadeira: um elefante incomoda muita gente, dois elefantes incomodam muito mais? Somos elefantes na vida dos outros. Cada vez mais elefantes e menos elegantes. Cada vez mais ocupando espaço e perdendo cumplicidade.

A segmentação enlouqueceu as caixinhas de bate-papo. Surge o grupo da família e, no encalço, minigrupos derivados: dos irmãos, dos irmãos com os pais, dos avós com os netos, dos primos, dos primos com os tios. É balançar a árvore genealógica e caem sempre os mesmos vídeos e memes. Não se percebe originalidade na interação, é um ato de copiar e colar incessante, um encaminhamento automático de conteúdo engraçadinho. Quantas vezes recebe igual imagem por dia de grupos diferentes?

Em nosso cotidiano atarefado, fingimos que conversamos com o mundo inteiro e não conversamos com mais ninguém de verdade.

Tudo vira passeata e comício sem sair de casa. Resta a fachada das mensagens acumuladas e não lidas. Como se fôssemos importantes e famosos pela quantidade de panelinhas abertas em nosso perfil.

Fomentamos a praga de coletivos: da academia, do futebol, da escola dos filhos, da política, dos cachorreiros, dos adeptos do vinho... São canais infinitos de uma televisão de emojis no nosso celular.

WhatsApp tornou-se um museu de bonecos de cera em tamanho natural. Matamos o tempo, mas quem morre é a gente.

CARPINEJAR


10 DE AGOSTO DE 2019
LEANDRO KARNAL

A BORBOLETA E A CRISÁLIDA

A bela caixa da Tag trouxe-me três obras extraordinárias: Sonho de uma Noite de Verão (William Shakespeare), Amor e Amizade (Jane Austen) e, por fim, A Mão e a Luva (Machado de Assis). Todos os textos eram meus conhecidos, e aceitei o desafio de voltar a eles depois de tantos anos. São livros em formato pequeno, ideais para minhas horas de avião. Ida e volta de Natal (RN), ida e volta de São José do Rio Preto (SP), e a caixa estava lida e assimilada.

A obra com maior hiato entre a primeira vez e agora foi a de Machado. Li A Mão e a Luva no Ensino Fundamental, em 1975. Eis-me reencontrando Guiomar 44 anos depois. Percebi que algumas histórias curtas estavam misturadas na memória entre Alencar e Machado: A Pata da Gazela, Cinco Minutos, A Viuvinha... Tirando Senhora (a reviravolta de Aurélia me surpreendeu muito), todas me pareciam um pouco semelhantes. Mocinha e mocinho sofrem e, no final, o amor vence. Claro, muito mais maduro, estou mais apto a compreender sutilezas que eu não percebia antes.

A obra de um grande autor é sempre um signo aberto que permite releituras. Senti isso também com o Sonho de uma Noite de Verão, mas fazia apenas quatro anos da última leitura e eu tive acesso a duas encenações e a um filme sobre a história. Shakespeare é o oceano no qual vivo imerso, e Machado foi o continente que me convidou a uma nova visita após décadas. Aceitei com prazer.

Nas brumas da lembrança de um adolescente, Guiomar tinha dito sim ao parente da Baronesa para agradar à madrinha. Porém, de boa índole, a velha senhora entendeu que o coração da moça estava cativo de outro. Eu vi Guiomar dividida entre a gratidão à dama que a resgatara da pobreza e o amor que sentia... Em 1975, eu tinha 12 anos e Guiomar me encantou com sua divisão nascida de boa índole.

A água passa sob as pontes, acumulamos glórias e derrotas e, finalmente, algumas ingenuidades vão embora com o colágeno. Sim, Guiomar era fiel à boa madrinha. A aposta que a jovem e bela resgatada fizera era como a mão que procurou luva adequada e o encaixe foi determinado pela ambição da moça, não apenas pelas canduras afetivas. O final da obra mostra que havia ressentimento com a pobreza original de Guiomar e as mulheres com sedas e joias que entravam na chácara da benfeitora. Guiomar não era uma arrivista e jamais teria a objetividade fria de uma ambiciosa.

Bonita acima da média, elegante, leitora de romances em francês, Guiomar procurava um homem adequado ao salto econômico que a vida proporcionara. Seu esforço apagara a simplicidade de origem e agora, com botões de safira e fala esmerada, faltava-lhe um cúmplice para sua ambição. A transformação de Guiomar é anunciada no final do capítulo cinco. Em uma digressão sobre a infância de penúria com sua mãe viúva, comparando-a com a educada e desenvolta dama adulta, Machado afirma que "a borboleta fazia esquecer a crisálida". A personagem central lutara muito para chegar à metamorfose que a fizera desenvolver lindas asas. Sabia por intuição mais do que experiência (como Machado anuncia ao compará-la a uma preceptora inglesa da casa da madrinha) que precisava de um companheiro igualmente ambicioso. O final da obra (perdoem-me, não posso ser acusado de promover spoiler de algo publicado em... 1874) mostra o casal enlevado, apaixonado, especialmente porque o novo marido aspira à Câmara dos Deputados ou a um posto de ministro. A luva e a mão em perfeito encaixe!

A borboleta não era, entendi só agora, um ser natural em que a loteria genética e a bondade de caráter tinham se encontrado como dois afluentes cristalinos de um rio maior. Ser crisálida incomodava Guiomar. O tema é pouco desenvolvido, porém a dor impulsionou a moça a criar a cenografia ideal para continuar na jornada de ascensão? A borboleta era a máscara de um carnaval veneziano, cobertura urdida no pântano do ressentimento, um dos mais fortes traços humanos. A doce e branca figura da "heroína" faria de tudo para não voltar ao incômodo dos anos de pobreza. Guiomar respeitava a vontade da madrinha-baronesa, era ainda uma personagem romântica, mas o romantismo de Machado não se confunde com o sentido que o termo adquiriu em senso comum atual.

O romance não enfatiza a venalidade de Guiomar (haverá ainda uma menina que receba este nome no século 21?). Ela parecia honesta e sincera e integralmente devotada à benfeitora. Mas o que eu não vi naquela ocasião me saltou aos olhos agora. Guiomar pertence à categoria de personagens incapazes de cometer o erro de um crime ou um ato de renúncia absoluta. Ela não é malévola e, certamente, nunca seria uma romântica de devaneios vazios. Guiomar é uma honesta ambiciosa, uma romântica-realista que tem a ventura de colocar seu coração próximo à bolsa. O tempo correu tanto que essa combinação, hoje, já é própria de um espírito superior. É preciso ter esperança e, como Guiomar, um pouco de prudência para aguardar a luva adequada.



10 DE AGOSTO DE 2019

COM A PALAVRA

PARA DE FATO DESCOBRIR AS CRIANÇAS, É PRECISO OBSERVÁ-LAS.

ENTREVISTA | ALDO FORTUNATI - Pedagogo, 60 anos - Italiano, especialista em psicologia evolutiva e educação infantil, autor de "A Educação Infantil como Projeto da Comunidade"
O protagonismo das crianças na educação, a participação decisiva da comunidade no ensino infantil e a importância de manter um currículo aberto, não limitando as possibilidades de aprendizado, são algumas das ideias defendidas pelo pedagogo Aldo Fortunati.

Nos últimos 20 anos, ele, que também é docente da Universidade de Florença, coordenou projetos de pesquisa e atividades de monitoramento das políticas públicas da Itália, além de dirigir programas de cooperação internacional com a América Latina. No dia 14, Fortunati dará uma palestra na Escola de Pais do Instituto Ling, em Porto Alegre, às 19h, com o tema As Crianças e a Revolução da Diversidade. Nesta entrevista, concedida por e-mail (com tradução de Paula Baggio), ele fala sobre as revoluções no papel do educador, a necessidade de dar espaço à criatividade e curiosidade infantis e comenta exemplos inspiradores no ensino.

EM ALGUMAS OBRAS, A EXEMPLO DE A EDUCAÇÃO INFANTIL COMO PROJETO DA COMUNIDADE, O SENHOR DESTACA A IMPORTÂNCIA DO ENVOLVIMENTO DAS FAMÍLIAS NO AMBIENTE ESCOLAR. ATÉ QUE PONTO É PRODUTIVO O DIÁLOGO HORIZONTAL ENTRE PAIS, PROFESSORES E DIRETORES?

A relação entre escola e família representa geralmente uma questão primordial, inclusive quando falamos de Ensino Fundamental e Médio e, nesse ponto de vista, tanto a ideia de famílias como clientes quanto a de que elas precisam estar subordinadas às instituições educacionais estão erradas: devemos pensar em um relacionamento horizontal orientado para a troca, compartilhamento e coelaboração do projeto educacional. É óbvio que não devemos esquecer que os papéis dos pais e dos professores não podem ser confundidos, mas eles devem ser considerados no mesmo nível.

Ainda que essa ideia seja importante em todos os níveis escolares, quando falamos da educação nos três, ou até nos seis primeiros anos de vida, essa relação pode ser ainda mais próxima e construída com base na confiança que os pais devem ter em relação à escola de educação infantil: não uma confiança imposta, mas uma confiança conquistada por uma proposta de acolhimento da escola, que reconhece cada família e cada criança como um indivíduo único e não como um simples elemento a ser incluído em uma instituição.

Também é importante falar sobre a responsabilidade da comunidade no desenvolvimento do projeto educacional da primeira infância: somente o forte envolvimento de todos pode apoiar um projeto não burocrático e, mesmo que cheio de hierarquias, aberto ao reconhecimento e à valorização do potencial das crianças como pessoas e cidadãos que a escola pode e deve apoiar quando se torna parte positiva na comunidade.

COMO FAZER COM QUE A ESCOLA ESTEJA INSERIDA NESSE AMBIENTE FAMILIAR, CUMPRINDO UM PAPEL COMO ELEMENTO IMPORTANTE NA COMUNIDADE PARA ALÉM DAS AULAS DIÁRIAS?

Como eu estava dizendo, não há necessidade de confundir papéis - os pais precisam ser pais e os educadores precisam ser educadores -, mas a participação e o envolvimento das famílias não devem estar vinculados apenas a situações de avaliação periódica. Devem, em vez disso, ter diferentes ocasiões para acontecer - entrevistas individuais, encontros de grupo, festas, momentos de trabalho e oficinas, reuniões para compartilhar experiências educacionais e trazer novas ideias. Só assim a escola se transforma não somente em um ponto de referência para a comunidade, mas também em um recurso para ela.

O BOM ENSINO VAI MUITO ALÉM DA RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO. O QUE MAIS É FUNDAMENTAL TER À DISPOSIÇÃO EM SALA DE AULA E FORA DELA PARA QUE A EDUCAÇÃO SEJA TÃO BOA QUANTO POSSÍVEL? QUAL O PAPEL TAMBÉM DA INFRAESTRUTURA ESCOLAR?

O ambiente educacional sempre foi considerado apenas como espaço para realização de experiências, e não como elemento para elas poderem tomar força e se desenvolver. Essa é também a razão pela qual a escola em geral tem dificuldade em superar o esquema de classes e salas de aula, em que as crianças ouvem os professores e fazem o dever de casa. Felizmente, muitas escolas estão mudando, não apenas tornando os programas flexíveis, mas também criando espaços que acolhem e promovem um protagonismo mais ativo das crianças.

Esse aspecto - o espaço como um sistema de oportunidades organizadas - é uma base fundamental para uma escola de educação infantil. Devemos conceber os espaços disponíveis, na escola, como um sistema, uma rede, superando as segmentações rígidas. Claro que isso não significa perder referências ou entrar em confusão e, por essa razão, uma função como a de supervisor de educadores é importante. Esse papel de direção, no entanto, não deve ser realizado com um planejamento rígido e predeterminado de atividades, mas sim aumentando a flexibilidade, a cooperação entre crianças e o trabalho em pequenos grupos.

VEMOS, NO RIO GRANDE DO SUL, EM UMA REALIDADE QUE PROVAVELMENTE SE APLICA A OUTROS ESTADOS E PAÍSES: AS PEQUENAS CIDADES ALCANÇANDO BONS RESULTADOS EM EDUCAÇÃO. HÁ EM COMUM ENTRE ELAS UMA PROXIMIDADE DE EDUCADORES, ESTUDANTES E FAMILIARES. QUE LIÇÕES SE PODE TOMAR DISSO PARA APLICAR NAS COMUNIDADES DAS MAIORES CIDADES?

Se analisarmos o comportamento das comunidades sociais ao redor do mundo, percebemos que a educação das crianças está presente em seu código genético, pois as comunidades - mesmo as mais pobres - se organizam de forma a assumir a responsabilidade pela educação das crianças como uma responsabilidade social, não apenas das famílias. Mas também é verdade que, nas comunidade maiores - como nos centros urbanos ou nos grandes projetos nacionais de educação -, emergem paradigmas de referência em que os conteúdos e programas são alinhados, e perde-se o valor que os recursos locais poderiam agregar para a qualidade dos projetos.

Mas a verdade - e as experiências muito positivas que existem nas pequenas cidades são testemunhas disso - é que a escola de educação infantil encontra nas cidades menores os seus melhores resultados, por isso é necessário manter viva na rotina das escolas de infância a relação com as famílias e com a comunidade. Nas realidades das grandes cidades, isso deve ser desenvolvido em relação aos recursos presentes nos bairros, pensando na escola não como uma instituição fechada que segue os programas predeterminados, mas um lugar de relação e troca com a comunidade.

MUITO SE FALA QUE A ESCOLA, COM PROFESSOR À FRENTE ESCREVENDO NO QUADRO E SEGUINDO UM CURRÍCULO PREDETERMINADO, ESTÁ DEFASADA. E TEM SE DIFUNDIDO A IDEIA DE UM EDUCADOR QUE TRABALHE MAIS COMO MEDIADOR, ORIENTANDO OS JOVENS EM SUAS ATIVIDADES ESCOLARES. COMO O SENHOR VÊ ISSO?

Não sei se "orientador" é a palavra certa quando falamos do educador em relação às crianças, porque, na ideia do orientador, pode haver a subestimação da contribuição das crianças. No entanto, "educar" significa "e-ducere", trazer para fora, e isso quer dizer dar valor às potencialidades e às competências das crianças. Por isso, prefiro dar ao educador um papel de "mentoria" no qual, a partir do que as crianças sabem e podem fazer - e, ainda, têm prazer em fazer - são incluídos os elementos que podem apoiar as crianças no desenvolvimento de seus processos de relacionamento e aprendizagem. Por essa razão, não é tão importante levar ao resultado que o adulto já tem em mente, mas sim oferecer oportunidades com as quais podem-se desenvolver as próprias potencialidades, de acordo com modalidades e tempos não do educador, mas, isso sim, da criança.

NA OBRA THE EDUCATION OF YOUNG CHILDREN AS A COMMUNITY PROJECT, O SENHOR DEFENDE QUE O EDUCADOR INFANTIL PRECISA DEIXAR DE LADO A IDEIA DE SER CUMPRIDOR DE METAS E ASSUMIR O PAPEL DE RESPONSÁVEL POR EXPERIMENTAR, DISCUTIR, OBSERVANDO AS OPORTUNIDADES EM VEZ DE SE CONCENTRAR EM OBJETIVOS PREDEFINIDOS. COMO FAZER ISSO?

Pode ser realizado exatamente como eu estava dizendo. Enquanto isso, confie nas habilidades e no potencial das crianças, dando oportunidades organizadas a elas. Já dissemos isso quando falamos sobre o papel fundamental de um ambiente que não é só um pano de fundo no qual as experiências acontecem, mas um elemento que impulsiona. E, finalmente, não ter pressa e deixar que o tempo necessário para a construção da aprendizagem seja o tempo da criança - e de cada criança individualmente.

A GRADUAÇÃO EM PEDAGOGIA, DA MANEIRA QUE TEM SIDO REALIZADA ATUALMENTE, CONTEMPLA A FORMAÇÃO NECESSÁRIA PARA TRANSFORMAR ESSE EDUCADOR? OU É PRECISO IR ALÉM? DE QUE MANEIRA?

Naturalmente, é essencial que um educador tenha uma educação universitária, pois assim poderemos contar com profissionais realmente competentes. A ideia de que o trabalho com a educação infantil não requer treinamento específico e de alto nível é muito antiquada e traz consigo o pensamento amador de que, para trabalhar com crianças pequenas, basta ter um dom e se relacionar de forma carinhosa. Ainda assim, precisamos esclarecer três questões. Em primeiro lugar, nem sempre as universidades estão prontas para a formação dos educadores da primeira infância. Acredito que devemos fazer maiores investimentos nos professores, que são responsáveis pela educação das crianças em seus primeiros anos de vida. Segundo: a formação de que precisamos não é apenas teórica, mas prática, e, por isso, na universidade, os estudantes devem realizar estágio em escolas infantis para entender a prática. Por fim, a formação nunca acaba e, por isso, devemos também investir na formação em serviço, cultivar essa perspectiva de reflexão e inovação das estratégias educativas que devem tornar-se um hábito permanente dos educadores.

EM UMA ABORDAGEM EDUCACIONAL QUE PREGA A CRIANÇA COMO PROTAGONISTA, CORRE-SE O RISCO DE TER UM JOVEM POUCO INTERESSADO, QUE NÃO QUESTIONA, NÃO DEMONSTRA CURIOSIDADE, NÃO QUER APRENDER SOBRE COISAS ALÉM DE SEUS INTERESSES IMEDIATOS? O SENHOR VÊ ESSE PROBLEMA?

Francamente, não. Quem conhece crianças conhece sua curiosidade espontânea e extraordinária em relação ao mundo das coisas e das pessoas e sua atitude natural de se envolver ativamente nas experiências. Se isso não acontecer, não será por causa das crianças, mas da pobreza das experiências e oportunidades oferecidas às crianças pelos adultos. Portanto, o ponto é sempre o mesmo: ter adultos menos ansiosos para preencher as experiências das crianças com seus significados e objetivos, o que efetivamente inibe o protagonismo delas. E ter adultos atentos para fornecer oportunidades organizadas ricas e diversificadas que possam oferecer às crianças ideias interessantes sobre as quais expressar sua curiosidade inteligente e construtiva.

COMO DEFINIR UM CURRÍCULO IDEAL PARA A INFÂNCIA UM CURRÍCULO ABERTO AO POSSÍVEL, COMO DIZ O TÍTULO DE UMA DE SUAS OBRAS? SE NÃO SE DEVE SEGUIR MODELOS, COMO CADA COMUNIDADE PODERÁ DEFINIR SUAS PRIORIDADES E, AINDA ASSIM, TORNAR O APRENDIZADO GLOBAL?

Ao afirmar que não deveremos seguir modelos, me refiro a abordagens burocráticas baseadas em programas escritos previamente. Isso não significa deixar de ter diretrizes claras. Quando falo do valor do espaço como um sistema de oportunidades, quando falo de um adulto menos diretivo e mais como um mentor, quando falo de valorizar a individualidade e o tempo individual de cada criança, quando falo da importância de cultivar o relacionamento com as famílias, quando abordo a questão da formação em serviço como uma atividade a ser executada com continuidade, em todos esses casos, estou dando indicações, pontos em torno dos quais podemos construir um currículo não baseado apenas nos objetivos que o adulto tem em mente, mas no reconhecimento concreto do protagonismo das crianças.

COM A REALIDADE, CADA VEZ MAIS COMUM, DE PAIS QUE TRABALHAM DURANTE O DIA E NÃO CONSEGUEM ACOMPANHAR A CRIANÇA POR MUITAS HORAS, O ENSINO EM TEMPO INTEGRAL TEM SURGIDO COMO OPÇÃO IMPORTANTE. O PERÍODO LONGE DA CONVIVÊNCIA FAMILIAR TAMBÉM PODE CAUSAR PREJUÍZO PARA OS MAIS NOVOS, ESPECIALMENTE NOS PRIMEIROS ANOS, EM SUAS RELAÇÕES FAMILIARES?

Muitas vezes escuto sobre essa questão e - é claro - concordo que a qualidade do relacionamento das crianças com os pais e familiares em geral é importante. Mas, se esse relacionamento às vezes é fraco, não acho que isso depende de quanto tempo a escola funciona. Em geral, mesmo quando as crianças permanecem menos tempo na escola, em muitos casos elas não ficam com os pais, e sim são direcionadas a situações informais que nem sempre são de qualidade.

Assim, a escola com longos períodos de tempo e grande atenção às relações de qualidade com as famílias é bem-vinda. Quando esse problema se apresenta, ele é muito mais do mundo do trabalho, que privilegia os interesses da produção e não está atento para conciliar o trabalho de seus funcionários com sua família. Por essa razão, é necessário pressionar por contratos de trabalho que, especialmente quando as crianças são muito pequenas, limitam o horário de trabalho dos pais.

SUAS PESQUISAS COM CRIANÇAS JÁ O LEVARAM A REVER CONCEITOS QUE TINHA SOBRE A INFÂNCIA?

Lembro-me de dois momentos importantes. O primeiro, quando percebi as conexões entre o estudo ao qual me dediquei inicialmente como pesquisador e a observação direta das crianças: as teorias são um guia importante, mas para de fato descobrir as crianças, é preciso observá-las. O segundo, quando percebi que bons projetos nem sempre são aqueles em que há maiores recursos disponíveis. Obviamente, recursos são necessários, mas, antes deles, precisamos de cultura e inteligência para entender como organizar e usar com maestria os recursos de que dispomos.

QUAIS SÃO ALGUMAS DAS PRECONCEPÇÕES QUE AS PESSOAS COSTUMAM TER SOBRE A INFÂNCIA QUE NÃO SE MOSTRAM VERDADEIRAS NO MUNDO CONTEMPORÂNEO?

Ainda vejo muitas preconcepções difusas, sendo a principal delas a de subestimar a identidade das crianças e a extraordinária questão da diversidade e do potencial que elas carregam. Continuamos a ver as crianças como sujeitos fracos e não como pessoas com identidade própria. Temos a tendência de salientar aquilo que ainda não fazem ou conquistaram em detrimento daquilo que já têm e daquilo que poderão ter. Precisamente por isso, as experiências educativas que trazem ao centro o protagonismo das crianças são importantes, pois testemunham também através de fatos uma identidade de criança que precisamos conhecer e adotar para poder não apenas respeitá-las e reconhecê-las como pessoas, mas para imaginar e projetar nosso futuro também através de seus olhos.

ATÉ QUE PONTO O EXEMPLO DE PAÍSES COMO A FINLÂNDIA E AS NAÇÕES ASIÁTICAS MAIS DESENVOLVIDAS DEVE SER TOMADO COMO PARÂMETRO PARA PAÍSES COMO O BRASIL E SEUS VIZINHOS LATINO-AMERICANOS?

Não creio que precisamos de modelos educacionais para serem replicados desconsiderando o contexto. Os elementos a partilhar são pensamentos - a partir de reflexões sobre a identidade das crianças - e algumas orientações de projetos, como o espaço educativo, a flexibilidade do currículo, a participação da família, a formação permanente e a valorização da comunidade. Tendo dito isso, cada um tem que pensar os demais setores conforme sua própria realidade, construindo interpretações e projetos originais e diferentes.

O QUE SEUS PROJETOS E ATIVIDADES ENVOLVENDO DIÁLOGOS COM A AMÉRICA LATINA MOSTRARAM TAMBÉM DE BOAS PRÁTICAS SENDO FEITAS POR AQUI?

Tentando não ser filosófico demais, gostaria de dizer que a diversidade das experiências é muito importante para reforçar nosso olhar com novas reflexões. Mesmo que muitas vezes ainda se pense que educar se trata simplesmente de uma realocação de habilidades daqueles que as dominam para aqueles que ainda não as conhecem, se pensarmos bem, a essência da educação consiste em colocar em relação diferentes olhares para crescer e mudar.

Vale na relação das crianças entre si e com os educadores, na relação entre educadores e entre esses e pais, e vale muitíssimo também na possibilidade de conhecer outras experiências educacionais diferentes das nossas. Penso que esse é o ponto mais promissor das trocas internacionais. Trata-se de uma forma muito diferente da cooperação internacional tradicional, muito mais atenta ao respeito e à valorização das diferentes experiências na sua contribuição potencial para se incentivarem, através do intercâmbio, o desenvolvimento mútuo.

GUILHERME JUSTINO


10 DE AGOSTO DE 2019
DRAUZIO VARELLA

MARIA

Ela é assaltante. cumpre pena de 88 anos de detenção. foi vítima de abuso cometido pelo próprio pai, desde quando tinha 11 anos de idade. Semana passada, Maria se queixou de cólicas abdominais que iam e vinham. Está presa há 12 anos, para cumprir pena de 88.

Começou a assaltar aos 14 anos, três depois de fugir da casa em que vivia com a mãe, dois irmãos mais novos e o padrasto, protagonista da tragédia que corre solta na periferia das cidades brasileiras, sob o olhar complacente de uma sociedade insensível e covarde.

Maria tem o ar decidido das mulheres que não se subjugaram às adversidades do ambiente que as forjou. Encara o interlocutor com olhar duro, desconfiado, no entanto, frágil quando se emociona. Nas poucas ocasiões descontraídas, o sorriso ilumina o rosto inteiro.

O padrasto, pai dos irmãos mais novos, era trabalhador - zé povinho, segundo ela. A mãe, diarista em casas de famílias que moravam a duas horas de trem e ônibus na ida e a duas horas e meia na volta, deixava por conta dela a obrigação de levar e buscar as crianças na escola, dar banho e jantar e colocá-las na cama.

Quando completou 11 anos, Maria recebeu a primeira investida do padrasto. Veio sob o pretexto de uma massagem nas costas, procedimento que ela aceitou com estranheza.

- Nem conheci meu pai. Minha mãe não tinha o hábito nem tempo para agrados.

Na segunda vez, os carinhos chegaram ao sexo da menina. Assustada, ela pulou do sofá, mas foi agarrada junto à porta e violentada, com a boca tapada pela mão firme do agressor que quase a sufocou.

Dessa tarde em diante, virou outra criança. Perdeu seis quilos. Quando se aproximava a hora do padrasto chegar do trabalho: "Meu coração palpitava descompassado, as mãos congelavam, suava frio, achava que ia morrer de pânico. Me trancava para chorar no banheiro.

Ameaçada de morte caso contasse à mãe ou a qualquer pessoa, foi violentada ainda três vezes, até criar coragem de pedir ajuda:

- Quando acabei de falar, minha mãe me deu um tapa que tirou sangue da boca. Me chamou de mentirosa, que eu queria ver a desgraça dela.

Na manhã seguinte, Maria procurou Juci, uma prima de 17 anos, que fugira de casa para viver com Genivaldo, o Valdo, dono da biqueira mais concorrida do Jardim Bonfiglioli, zona sul de São Paulo.

O casal a recebeu em casa, como filha.

- Foi a fase mais feliz da minha vida. Voltei pra escola. O Valdo foi um pai, cozinhava, jantávamos juntos, víamos filmes na TV, fazia pipoca.

A felicidade foi interrompida pela execução de Valdo na esquina da biqueira, três anos depois.

Juci foi para a casa dos avós na Bahia. Maria se juntou a um grupo de amigos do traficante, especializados em roubo a bancos.

Perdeu a conta de quantas agências assaltaram. No início, sua função era vigiar a porta, para avisar a quadrilha pelo celular à primeira aproximação estranha. Com o tempo e a experiência, passou a ser a responsável pelo planejamento da fuga e a comandar a ação no interior da agência.

Não casou nem teve filhos. Desconfio que nunca namorou.

- Peguei bronca de homem. No assalto fico com pena das mulheres, tenho compaixão. Os homens? É sem piedade. Sinto prazer de humilhar, de meter a arma na cabeça e mandar ajoelhar nos meus pés.

Em 13 anos de trabalho médico na Penitenciária Feminina de São Paulo, atendi centenas de presidiárias com histórias de estupro na infância. Violência sexual contra crianças existe em todas as classes sociais, mas na periferia de nossas cidades é epidemia.

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), das 60 mil queixas de estupro apresentadas nas delegacias, em 2016, cerca de 50% ocorreram com crianças abaixo de 13 anos e 20%, com adolescentes de 14 a 17 anos.

Portanto, 70% das vítimas são menores de idade, estupradas dentro de casa, em sua maioria, pelo padrasto, por pai, tios, avós e vizinhos, tragédias encobertas pelos familiares e pelas próprias vítimas indefesas e mortas de vergonha.

É o mais subnotificado dos crimes. Os especialistas calculam que chegam às delegacias no máximo 10% dos casos. Entre os meninos atacados na infância a subnotificação é ainda maior.

A certeza da impunidade e a incompetência da Justiça, reflexo do acovardamento da sociedade, estão por trás da perpetuação desses crimes hediondos.

Enquanto ignorantes autointitulados defensores da família se distraem discutindo conceitos abstratos como "ideologia de gênero", viramos as costas à violência sexual praticada todos os dias contra as nossas crianças.

DRAUZIO VARELLA

10 DE AGOSTO DE 2019
JJ CAMARGO


OS GUARDIÕES DA SAUDADE

Nada mais natural do que repetirmos o que nos dá prazer, e isso faz com que as nossas reminiscências mais carinhosas envolvam uma doce nostalgia, que marca as vivências que, tendo sido maravilhosas, mereciam ter se materializado e não ficarem reféns no recesso inseguro da memória, esse escaninho ora displicente, ora presunçoso e sempre vulnerável à traição ou ao esquecimento.

O retorno aos lugares onde fomos felizes, por significar uma viagem ao passado, tem esse efeito recapitulador das nossas lembranças mais ternas, quase sempre dependentes das coisas mais simples que precisam ser regadas de afeto para que não desidratem e morram. Menos mal que nossas exigências afetivas mais nobres estão atreladas às pequenas coisas, e essas sim temos de vigiar com muito cuidado, porque, como advertiu Tejada Gomes, "a las cosas simples las devora el tiempo".

Estou cada vez mais convencido de que nada é tão importante para a preservação da dignidade ao envelhecer do que a manutenção, intacta e incondicional, dos nossos afetos antigos. E eles precisam ser periodicamente sacudidos para varrer a poeira do tempo, estejam onde estiverem arquivados. Curiosamente, quando ficamos tristes ou saudosos, e quase sempre os dois juntos, ou um por conta do outro, acabamos nos lembrando das mesmas poucas pessoas que tiveram significados definitivos, em momentos determinantes das nossas vidas, e que precisam, obrigatoriamente e sempre, estar aos cuidados dos imprescindíveis guardiões da saudade.

O Professor Tarantino, sobre quem já escrevi, foi uma dessas marcas na minha vida. Um dia, recebi dele, no meio da tarde, um chamado surpreendente:

- JJ, me dei conta de que a notícia da minha morte, velho como estou, não surpreenderá mais ninguém. E resolvi tomar providências enquanto ainda estou no comando. Então anote aí: assim que minha filha lhe avisar que morri, tome o primeiro avião e venha para o Rio. Preciso de você aqui, falando no meu enterro, porque poucos sabem tanto da minha vida. E não esqueça: se o que fiz não lhe parecer bastante, exagere. E se ainda achar que é pouco, minta.

Como se a vida dele já não fosse um exagero! Impossível voltar à Academia Nacional de Medicina e não lembrar, a cada vez, da falta que me faz aquela figura inteligente, irônica, provocativa e muito, mas muito, amada.

Durante anos, mantive com meu pai uma tentativa frustrada de reduzir a distância geográfica, num ritual de conversas diárias, entre 18h30min e 19h, de segunda a sexta-feira, naquele curto intervalo em que saía do consultório e passava no hospital para a última revisada antes de ir para casa. Como a janela era de, no máximo, 15 minutos de conversa, não havia tempo a perder com introduções. E então, para demonstrar que ele se preparava para o telefonema, logo depois do alô, já desatava a me contar alguma coisa que - ele tinha decidido - seria o nosso papo daquele dia. E do que falávamos? 

De qualquer coisa em que não houvesse espaço para queixas. Viciei de tal maneira com o otimismo do meu pai que, várias vezes, depois que ele morreu, me vi de celular na mão, carente por uma palavra, qualquer palavra, que me ajudasse a acreditar. Hoje me parece fácil entender por que, 12 anos e cinco trocas de celular depois, ainda não consegui retirar o nome dele da minha agenda. Saudade do meu velho.
JJ CAMARGO


10 DE AGOSTO DE 2019
DAVID COIMBRA

Eu ganhava 300 por mês

Eu ganhava US$ 300 por mês para escrever o livro sobre a história dos Gre-Nais. Foi um acordo que fiz com a editora. Não é muito hoje em dia; não era muito na época. Na verdade, bem pouco. Tanto que, em geral, ia fazer as entrevistas a pé, a fim de economizar o dinheiro da passagem de ônibus. Foram mais de cem entrevistas. Ou seja: mais de cem caminhadas. Tudo bem, gosto de caminhar e achava que aquele livro tinha de ser escrito. Havia diversas histórias boas ansiosas para serem contadas, e não seria eu que as decepcionaria.

Aprendi coisas interessantes ao escrever aquele livro. Uma delas foi sobre a memória. É que quase todos os personagens que entrevistei eram pessoas em idade provecta. Conversando com elas, compreendi que a lembrança é uma construção pessoal, que, não raro, dispensa formalidades, como concordar com a realidade.

Às vezes, ao tentar contar como havia se dado determinado fato, encontrava versões diferentes de cada um dos personagens que tinham participado da história. E, ao consultar os jornais da época para confirmar o que ouvira, deparava com versões mais diferentes ainda. E agora? Quem estava com a razão? Quase sempre, todos estavam com uma parte da razão e nenhum com toda.

Outra: não foram poucas as oportunidades em que relatei para as pessoas coisas que elas mesmas haviam feito e das quais não recordavam mais. A memória, nesses casos, pode ser bastante condescendente.

Alguns velhinhos que entrevistei só lembravam de ocorrências antigas, outros só do que havia acontecido dias antes. Mas também encontrei uns com a memória intacta e límpida, atletas da memória.

Também me espantei com outra descoberta: a de que a história se move em círculos. Marx dizia que a história se repete a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa. Não tenho certeza disso. Mas tenho certeza de que ela, a História com agá maiúsculo, não anda para a frente, não evolui em linha reta, ela avança e volta, avança e volta, como uma onda no mar.

No caso da bela história do Gre-Nal, renasceu agora um célebre debate do fim dos anos 1960: braulistas versus antibraulistas. Bráulio, o centro daquela discussão antiga, era um jogador de alta técnica que surgiu de forma alvissareira no Inter. Ele era ainda um guri de 17 anos de idade quando foi escalado em um Gre-Nal dificílimo para o Inter, porque o Grêmio tinha time melhor. Mesmo assim, Bráulio foi o destaque do clássico e o narrador Mendes Ribeiro começou a chamá-lo de "Garoto de Ouro".

Ele não era, porém, um jogador atento às tarefas inglórias de marcação. Assim, o famoso grupo de dirigentes colorados chamado de "Mandarins" pregava a saída de Bráulio do clube e a escalação de outro meia, mais colaborativo, o Sérgio Galocha.

Os Mandarins se baseavam, exatamente, no arquirrival: o Grêmio construído por Foguinho nos anos 1950 conquistara 12 campeonatos em 13 por ter um futebol de intensidade, de solidariedade e de força.

Os Mandarins acabaram derrotando os braulistas. Nos anos 1970, o Inter adotou o futebol de preenchimento de espaços e sufocamento do adversário. Para os Mandarins, o jogador do clube tinha de ter duas de três qualidades: força, técnica e habilidade. Não podia ter uma só, deviam ser necessariamente duas. Melhor, claro, se fossem as três, como era o caso de Falcão. Assim, o Inter formou o melhor time da sua história, reconquistou o Rio Grande e conquistou o Brasil.

Hoje, essa discussão fermenta no lado do Grêmio. Teremos dois Gre-Nais na decisão da Copa do Brasil, guardo convicção disso. Então, de um lado veremos um meio-campo quase tosco, mas definitivamente forte: o Inter de Lindoso, Edenilson e Patrick. Nenhum deles é o que se chamaria de virtuose. Todos são dedicados e afanosos. Todos incomodam o adversário. Do outro lado, o futebol rivelinístico, ou, antes, braulista de Maicon, Jean Pyerre e Matheus. Se for assim, a história se repetirá. E já sei quem vai ser o vencedor.

DAVID COIMBRA


10 DE AGOSTO DE 2019
MÁRIO CORSO

Obesidade mórbida

No inverno de 1944, as rotas de abastecimento da Holanda foram fechadas pela guerra, isolando a população. Houve uma fome devastadora. Quase 20 mil morreram durante o Hongerwinter (inverno da fome).

Estudos sobre a saúde dos sobreviventes descobriram algo inesperado: as marcas do trauma famélico sobre o corpo se fizeram notar nas gerações seguintes. Involuntariamente, o episódio tornou-se um experimento de epigenética: a interação dos genes com o ambiente para gerar um fenótipo.

Além de inúmeros problemas clínicos, os sobreviventes e sua descendência são mais predispostos ao ganho de peso. A fome de ontem pode se transformar na obesidade de hoje, quando o corpo vem programado para estocar toda a energia possível.

Portanto, existe um traço genético nas questões que envolvem a massa corporal. Os obesos lidam contra algo diferente. Com uma oferta de alimentos ultraprocessados altamente calóricos e uma vida sedentária, abre-se uma rota temerária.

Acabou de sair um livro imperdível para quem luta deslealmente contra a balança: Duplo Eu, de Navie, ilustrado por Audrey Lainé, editora Nemo. Trata-se de uma novela gráfica autobiográfica, corajosa e bem-humorada, de uma francesa que conta sua batalha contra a obesidade mórbida.

O melhor da obra é a lista das mentiras que ela se contava para não admitir o problema. Até que ela se dá conta: o IMC (índice de massa corporal) não foi inventado por revistas femininas para fazer a gente se matar para entrar num biquíni que custa um salário mínimo, e sim pela OMS (Organização Mundial de Saúde) para avaliar os riscos ligados ao sobrepeso.

Arma-se uma confusão entre a luta contra o preconceito gordofóbico (produto de um ideal famélico) e a aceitação de si mesmo pelo sujeito, além da ideia de que, com isso conquistado, estaria tudo bem. Tomara que esteja - até porque odiar seu corpo não baixa o peso -, mas é preciso dizer que a manutenção da obesidade mórbida é uma conduta de altíssimo risco para a saúde.

A autora constata que os amigos parabenizam os que perdem peso e nada dizem aos que ganham. E ela engordou mais de 50 quilos. Hoje pensa que gostaria que lhe tivessem dito: "Você engordou, estamos preocupados, como podemos ajudar?".

Na verdade, uma pessoa a alertava, a mãe. Talvez não funcionasse porque vindo dela. Quando uma mãe enxerga na filha apenas o peso, uma armadilha se monta. Se a filha emagrece, fica como a mãe a quer, e ela se sente agradando à mãe e não a si. Seu corpo parece pertencer à mãe, como se lhe custasse terminar de nascer. Então engorda para desobedecer e fica como não quer, entrando num ciclo vicioso.

Mais do que a narrativa de uma dieta, dos ganhos e perdas de peso e amor próprio, o livro é a história de como o corpo é palco dos muitos que habitam dentro de cada um de nós.

MÁRIO CORSO


10 DE AGOSTO DE 2019
COMPORTAMENTO

O nascimento de um pai

Neste domingo, o comerciante Márcio Rodrigues, de Taquari, estreará no Dia dos Pais, ao lado do pequeno José, que veio ao mundo nesta semana. Ele conta como têm sido os primeiros momentos dessa experiência emocionante e transformadora
Envolto num macacão de ursinho, com as mãos e os pés cobertos por pequenas luvas e meias brancas de tricô na mesma cor da touca, José França Freitas Rodrigues mantinha os olhos fechados e a respiração tranquila enquanto era afagado pelo comerciante Márcio Rodrigues, 40 anos, na manhã de 6 de agosto, no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Nascido oito horas antes, o menino parecia já estar se acostumando ao colo meio desajeitado do pai de primeira viagem.

- O pai tá aqui, José. Papai tá aqui - dizia, baixinho, Rodrigues, próximo ao ouvido do pequeno, que retribuía com caretas e sons.

Ainda emocionado com a cena presenciada naquela madrugada, quando acompanhou o parto da mulher, a advogada Cândida França Freitas, 32 anos, Rodrigues garantiu que, ao ver o rosto do filho, a própria vida ganhou novo sentido. Admitia ter sido encantamento à primeira vista.

- Logo que nasceu, primeiro, foi para o colo da mãe. Em seguida, quando agarrei ele, veio uma alegria muito grande. Me apaixonei. Não tem nada igual ao amor a uma vida. É um sentimento maravilhoso - comentou à reportagem, horas depois do nascimento.

Embora a gravidez estivesse diretamente ligada ao corpo de Cândida, Rodrigues assegura que a experiência da gestação foi compartilhada. Casados há 10 anos, não tinham planejado ser pais. A notícia da vinda do primeiro filho, porém, fez o comerciante se acostumar aos poucos com a ideia de ter uma criança em casa. O nervosismo, confessa, foi contido para manter a tranquilidade da própria mulher. A rotina mudou à espera de José.

- A gente, marinheiros de primeira viagem, não entendia nada sobre bebês. Fui pesquisar no Google para ver como cuidar de uma criança. Também ouvi os parentes mais velhos - conta Rodrigues.

Envolvimento

Segundo o psiquiatra clínico e psicoterapeuta Alexandre Schmidt, pai de primeira viagem de Bernardo, de dois anos, quanto mais o homem estiver envolvido no processo de gestação, mais vivências e alterações emocionais ele poderá experienciar.

- Desde sentimentos de expectativa, ansiedade, insegurança, até sentimentos de abandono. Mas a principal mudança relacionada a esta experiência é um aumento da capacidade empática, de te colocar no lugar do outro, de viver a experiência sobre o prisma de outra pessoa. E o nascimento é o grande momento, o pai passa a ter o contato físico direto com o seu filho ou filha e, naturalmente, ali, ele pode experimentar a emoção de ter gerado um ser concretamente - afirma.

ALINE CUSTÓDIO

10 DE AGOSTO DE 2019
FLÁVIO TAVARES

MARISTAS E TALIBÃS

Ouvir e ter opiniões diferentes ou opostas só engrandece e soma. O progresso nasceu do ato de divergir e pôr em dúvida o presente. Caso contrário, estaríamos ainda nas primitivas cavernas, expostos ao frio e à intempérie, sem nada do nosso atual dia a dia. A ditadura da unanimidade é perversa - embota a criatividade e nos aprisiona no "pensamento único", como queriam Hitler e Stalin. Ou os talibãs.

Por isto, o protesto de um grupo de políticos e pais de alunos contra um professor do Colégio Rosário, em Porto Alegre, dias atrás, ecoou como estranho. O "crime" do professor foi mostrar em aula um vídeo do sociólogo Sérgio Adorno, do Núcleo de Estudos da Violência da USP, sobre as violentas raízes históricas do Brasil e que fez dois alunos brigarem a socos e pontapés.

Ao frisar que pobres, negros e mulheres foram, sempre, "as vítimas principais da violência" (tanto a da polícia quanto no lar), a análise foi vista como "doutrinação marxista". Os cartazes do protesto diziam "Maristas sim, marxistas não", como se o "X" da questão fosse uma letra a mais ou a menos.

A simplificação empobrece o raciocínio e temi que o grande Marcelino Champagnat, fundador dos maristas, acabasse arrolado como "vil marxista". Não importava sequer que, quando ele deixou este mundo, em 1840, Marx fosse um mocinho imberbe, sem a longa barba com que esmiuçou a economia no Das Kapital.

Sim, pois Champagnat, padroeiro dos professores e da educação (cuja veneração como santo celebra-se a 15 de agosto), foi defensor não só dos pobres, mas "dos mais pobres entre os pobres".

Primeiro na França, depois pela Europa, os maristas acolhiam os filhos dos operários e agricultores pobres, até então excluídos da educação e condenados a obedecer, nunca a decidir.

Até nas Américas, onde as classes média e alta cursaram sempre os maristas, os pobres eram o foco. Alguns de meus colegas de curso fundamental no Colégio São José, nos anos 1940 em Lajeado, iam às aulas descalços. No inverno ou chuva, de tamancos.

Em parte, já na infância recebi dos maristas o humanismo com que busco ver o mundo. Depois, consolidou-se na Faculdade de Direito da PUC, que, nos anos 1950, funcionava onde hoje é o Rosário.

Educar não é, apenas, ensinar o que o outro desconhece. Isto é aprendizado, até necessário mas nunca suficiente. Educar é formar pessoas sem deformar a condição humana que nos diferencia dos outros bichos do planeta. É ato de amor, destituído de ódio e intolerância.

Só os talibãs não pensam assim.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES


10 DE AGOSTO DE 2019

ARTIGOS

DOMINGO DE ORGULHO

Qual o valor de uma história? Como medir o sucesso de um propósito? São questões difíceis de responder, mas simples de serem relacionadas: um propósito dá relevância a uma existência e resulta em uma história tão edificante quanto as forças que o movem.

Essas duas palavras - história e propósito - são especiais neste domingo para a Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul (Ajuris). Nossa entidade, uma das mais antigas do Brasil a atuar pelas prerrogativas da magistratura e a se envolver em causas importantes para a sociedade, completa 75 anos de existência.

Do passado ao futuro, um sentimento sempre nos une como propósito de nossa existência: a busca pelo justo e pela garantia da liberdade, irmãos siameses na construção de um Estado democrático de Direito que deve servir a todos.

Em 11 de agosto de 1944, quando um grupo de magistrados deu início à Ajuris, a Europa começava a ser ocupada pelas tropas aliadas, levando a liberdade a um continente que havia vivido os últimos anos subjugado pelas forças totalitárias. Esse ideário da liberdade também moveu nossos fundadores.

Agora, em agosto de 2019, 75 anos depois, a magistratura gaúcha se reúne nos próximos dias em seu 13º Congresso Estadual para discutir as liberdades proporcionadas pelo mundo digital: como promover a Justiça em um mundo sem fronteiras, onde as leis não conseguem mais acompanhar o ritmo frenético das mudanças de comportamento e das transformações sociais? Eis a questão que move o que chamamos de "o congresso da magistratura digital".

Garantir a justiça e assegurar a liberdade sempre impulsionou o trabalho da magistratura gaúcha, que, embora com a menor remuneração nacional e sobrecarregada pela falta de recursos humanos, atingida por reformas previdenciárias e tentativas de desvalorização, é a mais produtiva do Brasil nos últimos 10 anos, conforme informações do Conselho Nacional de Justiça. O que nos remete às duas questões iniciais.

Qual o valor de uma história e de um propósito? Pois eles podem ser medidos pelo orgulho que geram: o orgulho da Ajuris em representar uma magistratura que há 75 anos, dia e noite, serve à sociedade do Rio Grande do Sul.

VERA LÚCIA DEBONI

10 DE AGOSTO DE 2019
NILSON VARGAS

Vem aí mais um Primeira Pauta

Todos os anos, desde 2009, esta Redação repete um ritual que muito nos alegra. Começa em maio, quando profissionais de nossa equipe visitam os 26 cursos de Jornalismo do Rio Grande do Sul para conversar com os alunos e os professores sobre desafios do mercado de trabalho, da formação de jornalistas e das transformações no nosso ofício. Neste ano, por exemplo, estive na Univates, em Lajeado, o Carlos Etchichury, titular desta coluna, visitou a UFSM e a Universidade Franciscana, em Santa Maria, a Kelly Mattos foi até a ESPM e assim por diante.

No final das conversas, outra etapa do ritual: uma imagem no telão anuncia o calendário do Programa Primeira Pauta ZH, iniciativa que convida os estudantes de Jornalismo do 3º ao 6º semestre a produzirem um conteúdo jornalístico indicado por nós e, com isso, habilitarem-se a uma das 15 vagas para um dia de visitas e palestras aqui na Redação. Destes 15, cinco retornam para uma semana de imersão também na Redação, de onde saem com muitas histórias para contar, uma reportagem multimídia publicada e mais informações sobre a profissão que estão abraçando.

Sempre que me perguntam sobre o Primeira Pauta, a resposta não chega a ser original e inclui expressões como troca de experiências, chance de ensinar e aprender, um gás novo trazido pela turma de jovens estudantes que convive com a gente por alguns dias. Tudo verdade. Aos 53 anos, com mais de 32 anos de profissão, algumas dezenas de palestras para universitários, um filho formado em Jornalismo há três anos e outro pensando em seguir o mesmo caminho, não me canso de aprender com alunos que recebemos todos os anos, curiosos, perguntadores, equilibrando-se entre a vontade de mergulhar no mercado e as incertezas de todos que estão se preparando para começar.

As inscrições do Primeira Pauta 2019 só serão abertas na segunda-feira, ainda não temos nenhum inscrito, mas já me antecipo: sejam todos bem-vindos, futuros jornalistas. Esta profissão reserva muitas emoções e zero monotonia.

NILSON VARGAS - INTERINO

sábado, 3 de agosto de 2019



03 DE AGOSTO DE 2019
LYA LUFT

Quando éramos pequenos

Não sei dos outros, mas quando éramos pequenos, na década de 1940, não existia um monte de coisas hoje banais.

Não havia antibiótico, pelo menos não onde a gente vivia. Febre era combatida por um líquido vermelho, espesso, com gosto de cereja, "misturada a urina de camelo", dizia meu pai, achando graça das nossas caretas. Chamava-se Fiberlin e era feito pelo tio farmacêutico. Além disso, para combater infecções, havia sulfadiazina, uns comprimidos retangulares, cor-de-rosa. De alguma forma, a gente sobrevivia.

Eu era dada a febres altas, com delírios, pai correndo, mãe preocupada, médico, tio Arthur, chegando. "Essa menina tem febre de noite até quando anda descalça nas lajes de dia, em dia quente", reclamava minha mãe vagamente irritada. Lembro de calafrios, tremores, febres, abajur aceso a noite toda, pijaminha molhado de suor, mãe chegando pra trocar às vezes até roupa de cama.

Quando eu era pequena, não havia televisão, nem em preto e branco. A gente brincava no pátio ou na calçada até escurecer quando não fazia frio, depois - nos dias gelados, que eram muitos, e geladíssimos - tomava banho e era levada, enrolada na toalha, para se secar e botar pijaminha na frente da lareira. Aí conversava, desenhava, lia, junto do fogo com pai e mãe em suas poltronas. Os lençóis pareciam cobertos de geada, e lembro de um aquecedor elétrico com suas listras de brasa, que logo a mãe apagava com medo de incêndio.

Quando eu era pequena, não havia nenhum inseticida a não ser aquele labirinto verde ("Boa Noite"?), com uma brasinha na ponta, um cheiro inesquecível, e os mosquitos nos deixavam em paz. Ou mosquiteiro, esquisito, bonito, e meio assustador - e se aparecesse um rosto estranho ali atrás dos véus? Mas essa era eu, pequena, cheia de medos bobos que só eu tinha e nunca entendi por quê.

Quando eu era pequena, ir a Torres no verão era um sonho do ano inteiro. Lá por outubro, meu irmãozinho e eu começávamos a sentir cheiro do mar nos dias quentes, porque pra criança quase tudo era possível. Depois, a fileira de noites em que ao ir para a cama a gente perguntava quantas noites ainda tinha de dormir até chegar O DIA.

Finalmente chegava. Acordávamos de madrugada, o mundo com um cheiro diferente àquela hora. Antes do amanhecer, a gente pegava a estrada para uma viagem interminável até a praia, onde se entrava na areia costeando o mar, o pai e outros motoristas indagando "a areia está muito mole, perigo de atolar?". Quando nós, crianças, quase chorávamos de cansaço, de longe se avistavam as Três Torres e seus penhascos. Apartamento alugado, areia fininha até na alma, adormecer com o mar logo ali fora, pele ardendo porque quando eu era pequena não havia protetor solar, mas creme Nivea, que minha mãe chamava "Nivêa Crem" com "r" acentuado, bolhas nos ombros como parte da nossa felicidade.

Quando eu era pequena, o melhor do ano era o mar de Torres com suas conchas e estrelas, seus murmúrios, ou suspiros, as vozes dos afogados... inesquecível mar, que hoje estou traindo com a casa da Bruxa Boa, na Serra... mas que está sempre comigo.

LYA LUFT

03 DE AGOSTO DE 2019
MARTHA MEDEIROS

Artista é tudo porra-louca

Não estranhe o termo, é de uso corrente, como "esporro", "porrada", essas coisas que qualquer criança fala. Aliás, principalmente elas. Outro dia escutei de uma criança grande (uns 37 anos) a frase que deu origem ao título desta crônica, e convido a ele, e aos que concordam com ele, a refletir: cantores, dançarinos, coreógrafos, cineastas, músicos, atores, escritores, pintores, escultores, artesãos, estilistas, fotógrafos, designers, serão mesmo todos doidos? Poderia acrescentar outras profissões em que a criatividade é a tônica, mas entendi que ele se referia ao artista notório, aquele que tem fã clube e dá entrevista na tevê. Como o porra-louca do Luis Fernando Verissimo ou a porra-louca da Adriana Calcanhoto.

O mundo anda tão careta que um pouco de porra-louquice virou virtude, mas acredito, mesmo, que "mais louco é quem me diz e não é feliz", verso iluminado dos Mutantes, que talvez tenham tomado uns uísques antes de compô-lo, ou fumado alguma erva ilícita, mas também podem tê-lo escrito às 16h diante de um copo de leite.

Médicos atendem em postos e hospitais, e quando sobra um tempo, consomem arte. Economistas estudam finanças, e quando sobra um tempo, consomem arte. Artistas exercem a arte, estudam sobre arte e, quando sobra um tempo, consomem arte: eis sua overdose. Criam roteiros, aquarelas ou o que for, e no resto do tempo leem livros, visitam exposições, vão ao teatro, escrevem poemas, veem filmes, convivem com os colegas, pesquisam tendências, buscam inspiração 24 horas. Não é entretenimento, e sim voracidade, alimento para o espírito. 

Aí acontece: sendo arte a expressão das dores do mundo, o artista refina ainda mais sua sensibilidade, expande sua consciência, transcende os costumes. Compreende o que faz o outro sofrer, por isso é menos preconceituoso, mais tolerante, defende quem não tem a representatividade que ele tem. O artista cede seus olhos, seu corpo, suas palavras para que o mundo enxergue a dor universal, que não é só dele, é de todos.

Janis Joplin morreu aos 27 anos, mesma idade em que morreram Hendrix, Amy e Kurt, e também Sonia, Miguel, Tereza, Fátima, que não conhecíamos. Charles Bukowski era despudorado, assim como Flavio, Marcos, Beth, Inês, que nunca narraram seus porres. Artistas trocam muito de parceiros sexuais? Será? Tão mais que Valéria, Gastão, Ricardo, Zilda? O que o artista tem de excessivo é seu compromisso com a linguagem. 

Sua intimidade é sua argila, seu passo de dança, seu close. O público e o privado, para ele, são uma só matéria-prima. Enquanto uma balconista, um bancário, um garçom ou uma engenheira costumam expor suas angústias e êxtases só depois do horário comercial, o artista faz uso dessas emoções em seu horário de expediente, que é largo, infinito. Impossível retê-las, ou não existiria a arte. Não é porra-louquice. É liberdade.

MARTHA MEDEIROS

03 DE AGOSTO DE 2019
CARPINEJAR

O misterioso poço do elevador


Nunca me preocupei com o poço do elevador. Só que vi que sou uma exceção. Não é o medo de cair ou o receio da segurança da estrutura. Não tenho fobias de espaços fechados.

É a moda de perder objetos na fresta entre a porta e o interior. Fui conversando com amigos e todo mundo já deixou cair alguma coisa no minúsculo abismo. Mesmo que seja uma barrinha de cereal.

Eu me senti excluído dos acidentes da natureza. Dependendo do tamanho da abertura, que fica em leve desnível da entrada, é possível até extraviar óculos.

As mulheres são as mais prejudicadas, com brincos, colares e elásticos soltos em uma estabanada viagem ao térreo ou à garagem. Ao se distrair um pouco, corre-se o risco da queda de um pertence pelo túnel dos andares.

Tanto que, em alguns edifícios, é natural o zelador ter uma chave para atualizar o estado do secreto esconderijo. Eu descobri o costume na prática, como testemunha privilegiada.

Minha esposa Beatriz organizava a chegada do rancho, segurando a porta do elevador. Não é que a chave do carro terminou sugada pelo vão, entre o ir e o vir das sacolas de compras? Eu estava em pânico, querendo chamar o seguro do carro, achando que seria uma operação demorada da assistência técnica do elevador. Ela, por sua vez, pedia para ter calma, que logo resolveria. Piscianos são tão zen que chegam a dar raiva.

Em menos de uma hora, apertou o interfone o responsável pela manutenção. Acompanhei a expedição pela chave, que havia quebrado, e do chip, grão minúsculo que fora lançado para algum canto sujo do subsolo.

Com as lanternas dos celulares, ajudamos a revistar aquele improvisado Achados e Perdidos. Havia balas, chicletes, isqueiros, botões, coisinhas que ninguém se incomodou em recuperar ou prestar queixa. O que me impressionou foi o fato de encontrar uma aliança fincada na terra. Uma aliança de verdade. Pesado aro de uma relação.

Nem olhei o nome inscrito por dentro da peça. Deixei lá. Não iria avisar de sua existência aos vizinhos no grupo do condomínio do WhatsApp. Nunca se sabe onde estamos nos metendo e o que podemos gerar de divórcio, indiscrição e constrangimento. Vá que tenha sido intencional.

CARPINEJAR

03 DE AGOSTO DE 2019
CLAUDIA TAJES

Cenas brasileiras


Foi no aeroporto lotado, em um daqueles momentos em que tudo podia dar errado. Acontece muito, a gente vai para a frente do portão de embarque anunciado nos monitores do saguão e fica lá, a vida passando na cabeça, a atenção abduzida pelo livro, o WhatsApp chamando. Fica, mas não fica, o corpo a postos e os pensamentos, a alma, o espírito, o que quer que movimente a carcaça, mais distante do que a rota mais distante oferecida para os viajantes ricos de tempo e dinheiro. Corpos e pensamentos não ocupam o mesmo lugar no espaço, é assim desde que a professora tentava nos fazer decorar as capitanias hereditárias, desde as cerimônias das quais não se escapa, desde as ocasiões solenes a que não se pode faltar, desde sempre.

Quando percebi que o portão de embarque havia mudado, estávamos eu e a solidão no recinto. Cadê os tiozinhos que andam bem devagar, alguns apoiados em bengalas? E as senhoras que caminham em ritmo próprio, as mães com bebês no sling, as criancinhas que param a todo instante para se encantar com uma lixeira ou uma mala? Como sumiram todos se eu estava ali com eles, de frente para o portão, na boca do túnel, na cara do gol?

Estava, mas não estava. É que abri os jornais no celular e não deu outra, um portal me sugou. Mais não sei quantos agrotóxicos - por que não dizer venenos? - liberados na nossa comida. Uma aldeia indígena invadida e um índio morto por quem não acha que eles têm direito à terra. Garimpeiros e madeireiros babando, é nois, Queiroz. (Falando em Queiroz, alguém sabe, alguém viu?) Deportação sumária de estrangeiros considerados suspeitos ou perigosos. Hackers no novo polo tecnológico nacional, Araraquara. 

Conteúdos cabeludos desconsiderados porque, né, crime é a forma como se obtém uma prova, não a prova em si. Magistrados e procuradores agindo como se a Justiça fosse o churrasco da firma. A claque rindo de grosserias e impropérios disparados contra jornalistas no exercício de suas malpagas funções. Senhores de cabeça branca, ou de cabelos lustrosos de tanto Grecin 2000, dando chilique em eventos oficiais. Conotações sexuais em pronunciamentos à nação. A agressão totalmente sem sentido ao presidente da OAB. E foi aí que olhei em volta.

O portão havia mudado. Os tiozinhos, as senhoras, as mães, as crianças, todos já ocupavam seus apertados lugares no avião. Disparei aeroporto afora, destino: piso inferior. O que significava voar pelos corredores, descer as escadas e ainda rezar para um último ônibus me levar até os pés da aeronave. Falando em pés, foi nessa hora que os meus tropeçaram em sei lá qual obstáculo e fui-me, os dois joelhos no chão. Uma mais delicada nem levantaria, mas não é meu caso. Levantei e segui a carreira. Para onde mesmo?

Última chamada, portão 17. Não, tudo menos isso. 17, não!

CLAUDIA TAJES