sábado, 17 de agosto de 2019


17 DE AGOSTO DE 2019
LEANDRO KARNAL

BALADA DO LOUCO


É o mais sólido e tradicional clichê que somos todos, em algum grau, loucos. Como a maioria é algo estranha, ser louco conteria um certo charme. O glamour da insanidade aparece na belíssima Balada do Louco: Mais louco é quem me diz, e não é feliz..., dos Mutantes, que ganhou registros com Ney Matogrosso, Rita Lee e Cida Moreira. A normalidade é tediosa, opressiva e até pecaminosa, algo que ecoa Erasmo de Roterdã (O Elogio da Loucura) ou Paulo Apóstolo (I Coríntios 4,10).



O sonho da contracultura articula-se com a postura de considerar que a vida enquadrada é "careta", antiga, ultrapassada e você, cumprindo todo o trajeto da "normalidade", acaba apenas servindo de massa de manobra. A sinceridade dos loucos e outsiders sempre foi admirada como emanação de algum acesso a um conhecimento superior.


Não seja mais um tijolo no muro, não marche para a mesmice: é o tema recomendado do clássico The Wall, de Pink Floyd. Um jovem que não tenha sido seduzido em algum momento pela ideia da insanidade contestadora de um Hamlet a apontar coisas podres no reino da Dinamarca, provavelmente, não é um jovem de verdade. Hoje quase uma denúncia de idade, lembro de um livro clássico da minha juventude: O Louco, de Khalil Gibran.


Narrei a loucura poética. Ela é irmã da contestação, da rebeldia criativa, da insubordinação contra poderes. O louco manso e criativo ri, diz aquilo que está engasgado na garganta dos comuns racionais e infelizes. A poesia-hino do levante contra o tradicional é o famoso Cântico Negro, de José Régio. Sim, a plateia ralou no emprego para obter a soma do ingresso, seguiu ordenadamente até o lugar numerado, chegou no horário previsto, arrumou-se para isso e seguiu organizada e racional.


De repente, a genial artista recita o cântico e todos apoiam e gritam. Era o momento permitido de rebeldia. Depois, em ordem e pagando estacionamentos extorsivos, todos voltamos para nossas casas. Para ser muito louco, hoje, precisamos de renda sólida, diferentemente dos filósofos cínicos como Diógenes, que podiam ser pobres e perturbados.


Tenho temido o crescimento do outro tipo de loucura, aquela amparada na classificação psiquiátrica. Acompanho, com horror, cenas como o perigoso empurrão de uma senhora sobre o padre Marcelo ou o casal de mulheres que tortura e mata um menino: é uma lista infindável de pessoas que não apresentam a loucura risível, todavia a perigosa e assassina.


O mesmo Erasmo de Roterdã fazia questão de separar uma loucura espirituosa da fúria, proveniente dos infernos. Crescem as ações perpetradas por pessoas diagnosticadas em alguma página do catálogo médico. Por questões jurídicas, mesmo tendo realizado crimes hediondos ou executado atentados terríveis, por vezes os médicos concluem que são inimputáveis. Por definição, um grau de perturbação mental elevado pode justificar a inimputabilidade, pois a vítima deixa de ter consciência do que faz. Nós que, com sorte, só temos graus leves de insanidade somos perfeitamente passivos de todo o peso da lei, o que não deixa de causar uma injusta indignação em muitos.


Em vários sistemas jurídicos do passado, não existiam atenuantes como transtornos psíquicos. Na Idade Média, uma criança poderia ser perfeitamente julgada, torturada e condenada, pois ainda inexistia o conceito de inimputabilidade ou mesmo o conceito de criança. Em tradições como a inglesa, os juízes podem decidir que alguém de 10 anos, tendo cometido crime grave, pode ser julgado e até condenado.



O medo social existe sempre. E se um louco me atacar? O que eu posso fazer? Retomando o caso conhecido do padre Marcelo: como evitar o medo de que atos violentos se repitam? Em um ambiente em que tantas pessoas manifestam seus ódios de forma tão polarizada e evidente, em que o rancor aflora de todos os lados em redes sociais, como garantir que os leitores de discursos explosivos sejam pessoas sensatas que saibam que há algo profundamente retórico naquilo tudo?


A loucura dos grandes deve ser vigiada, reflete o rei Cláudio ao pensar nas estranhas ações do jovem Hamlet. E a loucura cotidiana dos pequenos? E o delírio diluído em milhares de pessoas que abastecem seu desvario nas redes? E os seres "normais", tranquilos, trabalhadores e pontuais que, dirigindo um automóvel privado, moto, táxi, ônibus ou patinete, agem como se fossem Átila e pisoteiam/rodam um solo sobre o qual nem a grama ou a civilização crescerá de novo? Que outros continentes de loucura no oceano da razão descobriremos como o Alienista criado por Machado de Assis?


Que tempos felizes eram aqueles nos quais os romanos identificavam em Calígula, Nero ou Heliogábalo a insanidade clara e passível de eliminação! Que época abençoada: havia um louco e ele morria e pronto, o mundo melhorava... Outra era. O rei George III da Inglaterra e D. Maria I de Portugal foram atacados de insanidade e tiveram o mesmo médico, por sinal. A loucura do governante britânico não impediu a decolagem do poder inglês no século 19. A demência da avó de D. Pedro I não deteve o declínio português.


Parafraseando o coveiro de Hamlet, enviaram D. Maria I, louca, para o Brasil. Aqui se curaria e, se tal não ocorresse, poucos notariam a diferença. D. Maria gritava dos janelões do convento do Carmo no Rio de Janeiro. Ninguém a ouvia. Os gritos dos loucos, no Brasil, raramente superam os da "gente de bem". É preciso ter esperança e, talvez, alguma sanidade. Enquanto for possível.


LEANDRO KARNAL


17 DE AGOSTO DE 2019
COM A PALAVRA

"O QUE AS PESSOAS QUEREM COM O CINEMA, HOJE, É SAIR DA REALIDADE"

Entrevista | RODRIGO TEIXEIRA, Produtor de cinema, 42 anos Brasileiro de maior destaque em Hollywood, já esteve por trás de filmes como "Frances Ha" e "Me Chame Pelo Seu Nome"
Aos 42 anos, o produtor carioca Rodrigo Teixeira é o brasileiro com maior prestígio em Hollywood. Com a sua produtora RT Features, ele consolidou uma trajetória regular com filmes como Frances Ha (2012), A Bruxa (2015) e Me Chame Pelo Seu Nome (2017). O produtor deixou o mercado financeiro e a faculdade de Administração para se dedicar ao entretenimento tendo estreado no Brasil, com O Casamento de Romeu e Julieta (2005). 

Apesar da carreira internacional, ele nunca deixou de produzir títulos nacionais - como Tim Maia (2014), O Silêncio do Céu (2016) e o premiado em Cannes A Vida Invisível de Eurídice Gusmão (ainda inédito no circuito).Nos próximos meses, lançará Ad Astra, com Brad Pitt, Wasp Network, com Penélope Cruz, Gael Garcia Bernal e Wagner Moura, e The Lighthouse, com Robert Pattinson e Willem Dafoe. Ele esteve em Porto Alegre no fim de julho para ministrar uma masterclass promovida pela Fundação Cinema RS (Fundacine), ocasião em que conversou com ZH.

VOCÊ COMEÇOU NO MERCADO FINANCEIRO E CURSOU ADMINISTRAÇÃO. COMO FOI A TRANSIÇÃO PARA O CINEMA?

Fiquei no mercado financeiro só um ano e pouco. Há 21 anos trabalho com mercado de entretenimento. Também atuava no mercado editorial. O cinema em si, assim como o audiovisual, passou a ser um foco exclusivo em 2004, quando produzi O Casamento de Romeu e Julieta.

Como funciona sua escolha de trabalhos?

Minha primeira escolha é sobre aquilo que quero ver. Penso muito no que gosto de assistir. Me coloco no lugar do público e respondo para mim essa pergunta. Você gosta disso? É isso que você gostaria de ver? Tendo uma resposta positiva, vou para cima do projeto e tento realizá-lo. Também tenho uma intuição que considero relativamente boa e me faz saber selecionar os projetos.

Em um filme, É possível perceber o estilo do roteirista, do diretor, do fotógrafo etc. De que maneira o filme fala pelo produtor?

É só você analisar a obra do produtor, aí você consegue entender quem ele é e o que ele faz. No meu caso, admiro outros produtores e tento criar a minha linha editorial. Tento encontrar uma linha, buscando inspiração nos filmes que eu gostaria de assistir. Essa é minha grande busca.

você já comentou que sofreu preconceito no Brasil da própria classe de colegas. Que preconceito foi esse?

Dizia respeito a eu ter vindo de onde vim. Não comecei nessa indústria, não fui assistente de ninguém. Não estudei cinema. Sou cinéfilo por amor. Tive dificuldade de ser aceito não nessa indústria como um todo, mas em São Paulo especificamente. No Rio, sempre fui bem recebido.

era bairrismo?

Não exatamente. Era mais entender de onde vim. Como se a arte fosse para outra turma. Na verdade, ninguém nunca me perguntou, naquela época, qual era minha relação com o cinema. Sou apaixonado por filmes desde criança. Lembro de ir ao cinema aos seis anos e me relacionar com o que via na tela. Infelizmente, não me vejo com potencial para roteirista ou diretor, mas sim como produtor, e esse know-how e essa cinefilia me trouxeram muitos benefícios.

TEVE ALGUMA PRODUÇÃO EM ESPECIAL QUE TE DESPERTOU PARA TRABALHAR COM CINEMA?

Muitos. Os Bons Companheiros (1990), do Martin Scorsese, O Rei da Comédia (1982), também do Scorsese, O Poderoso Chefão (1972), do Coppola. Steven Spielberg sempre foi um diretor que mexeu comigo, assim como Terrence Malick e Clint Eastwood. Assistir ao John Ford adulto também mexeu comigo. Os filmes de samurai do Akira Kurosawa. Central do Brasil (1997), Bye Bye Brasil (1980) e Pixote, a Lei do Mais Fraco (1980) são exemplos nacionais que conversaram comigo. Depois que vi Cidade de Deus (2002), fiquei pensando na capacidade técnica que a gente tinha para fazer um filme desses. Teve tanta coisa que mexeu com a minha cabeça que uma hora acabei pensando: "Cara, como é que faço para entrar nisso?".

Nos países nos quais a indústria é mais estabelecida, como os eua, o produtor é mais valorizado. Falta valorização da classe no cinema nacional?

Luto por isso. O problema, no Brasil, não é que o produtor seja desvalorizado. É que normalmente o diretor se autoproduz. Então, a figura do diretor é confundida com a do produtor. O produtor é o cara que está no começo do projeto do filme. O Brasil tem muitos produtores importantes. A Casa de Cinema, em Porto Alegre. A Conspiração, no Rio. A Vania Catani, a Emilie Lesclaux, mulher do Kleber Mendonça, que é uma excelente produtora. Sara Silveira, também. Iafa Britz, Mariza Leão, olha a quantidade de mulheres que há no Brasil produzindo filmes comerciais, de arte, dos mais diversos.

Quais são os principais problemas para produzir um filme no Brasil?

Produzir um filme em qualquer lugar é difícil. O primeiro problema é o processo de análise: o projeto é bom ou é ruim? Depois, tem o financiamento. Terceiro: como a gente distribui esse filme que produzimos. Esses três são os principais problemas.

O que te motiva a seguir trabalhando no brasil, em paralelo aos projetos nos eua?

Primeiro é o fato de produzir na minha língua, na minha terra, com pessoas com as quais facilmente me relaciono. Só que é um processo mais difícil, porque você tem uma dependência de dinheiro público. Precisa passar por diversos processos para obter financiamento.

Como foi trabalhar em Ad Astra - Rumo às estrelas, um filme com orçamento de US$ 100 milhões (que estreia no brasil em 26 de setembro)?

Foi uma escola. Aprendi muito. Teve uma equipe brilhante, com vencedores de Oscar. É um filme de estúdio, no qual você lida com o estúdio. Há um profissionalismo naquelas pessoas, que estão lá pelo ofício, não somente pela arte. E é um filme de ficção científica, me ensinou sobre o espaço, sobre futuro.

e o trabalho com brad pitt? Como foi?

Nunca imaginei que trabalharia com ele. Foi um sonho, de certa forma. Qualquer ator desse porte que você tenha oportunidade de trabalhar e tenha a generosidade do Brad Pitt... Ele é assim. Foi muito legal com a equipe, muito profissional. Foi um filme difícil, pois era totalmente concentrado nele, estava presente em quase 100% do tempo. Esse tipo de ficção científica eu não conseguiria fazer no Brasil. Porque é muito irreal (trata-se da história de um homem que viaja aos limites do Sistema Solar para encontrar o pai desaparecido e desvendar um mistério que ameaça a vida humana). Os EUA têm a Nasa, isso faz diferença para fazer esse tipo de projeto acontecer.

Outro próximo lançamento é Wasp Network, de Olivier Assayas, estrelado por Wagner Moura e Penélope Cruz, a ser exibido no Festival de Veneza no mês que vem. Pode contar um pouco mais sobre a construção desse filme?

Nesse projeto tenho uma participação enorme. Paguei para o Fernando Morais escrever o livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria (sobre espiões cubanos em Miami tentando fazer conteúdo inteligente contra os anticastristas, que estavam tentando se infiltrar na infraestrutura turística de Cuba). Ele o fez, e eu fiquei com os direitos. Ofereci ao Assayas, que entrou no projeto. O filme se desenvolveu, levantou capital. Montamos uma estrutura em Cuba e outra na Espanha para as filmagens. Terminamos de rodar há quatro meses, só. E já está em Veneza. É uma maravilha. Um projeto do qual só tenho orgulho. Deve estrear em novembro no Brasil.

Para você, quais são os principais aspectos que um filme precisa ter hoje em dia para chamar atenção na indústria?

Depende muito. Há três tipos de cinema sendo feitos hoje em dia. O entretenimento escapista, que é o blockbuster que todo mundo vai assistir. Há também aquele cinema médio, com filmes que estávamos acostumados a ver nos anos 1980 e 1990 e, agora, estão aparecendo na Netflix. E o cinema independente, mais autoral, que se comunica com a sociedade sobre certos temas, traz reflexões. Acho que o cinema é uma grande ferramenta para contar uma história, tanto quanto as séries de TV. Creio que esse deveria ser o papel do cinema independente hoje: criar histórias para provocar reflexões.

Quais os exemplos desse último tipo de filmes?

Há muitos. A Hora Mais Escura (2012), da Kathryn Bigelow, é um relato da caçada a Osama Bin Laden. Era Uma Vez em Hollywood, do Tarantino (em cartaz nos cinemas), é um exemplo parecido com Shampoo (1975), do Hal Ashby, que falava sobre masculinidade em um ambiente republicano no poder, com Nixon. Houve, em Shampoo, um recurso ficcional que era um homem ter de mentir que era gay para poder montar sua estrutura como cabeleireiro, para onde ele levava mulheres além de fazer o seu trabalho. Foi como se mostrou a bobeira do machismo, do homem que está encaminhando para esse lado. O Warren Beatty, protagonista, era um protótipo daquele personagem, sofria as consequências disso. Esse longa filmado em 1974 seria uma obra-prima ainda hoje. É esse tipo de cinema que, para mim, é importante existir atualmente.

Hoje, os maiores blockbusters são os filmes de super-herói. Isso é um limitante para quem quer trabalhar com público maior?

Acho que limita um alcance mais amplo, mas não determina que não se possa trabalhar com grandes públicos. Temos de formar plateia. Creio que o maior problema que temos hoje é formar plateia. Aqueles que vão ver Vingadores deveriam ver também Kurosawa. É uma questão de educação, de como educamos o público para o que ele assiste. É obrigação dos canais de streaming mostrarem conteúdos distintos. Sou radical nesse ponto. Mas adoro filmes escapistas. Vejo filmes de heróis com os meus filhos. Adoro.

O público ficou mais infantil, mais adolescente? O que justifica tanto sucesso de filmes de super-herói?

Acho que o mundo passa por uma realidade dura. E o filme de super-herói te transporta para uma realidade mais lúdica, que é o que todo mundo está buscando. O que as pessoas querem com o cinema, hoje, é sair da realidade e acompanhar uma vida na qual a preocupação é outra: você lutar contra um monstro e vencer no final. O público procura isso: entretenimento, com efeitos especiais, som, esse tipo de coisa. Há filmes bons de super-heróis. Assim como há ruins.

O DOMÍNIO DESSES FILMES NÃO DIMINUI O ESPAÇO PARA O CINEMA DE AUTOR?

Acho que o cinema de autor encolheu. Você tem de encontrar soluções - circuito de festivais, cinemas alternativos, salas comerciais que exibem o cinema de autor. Há espaços mais restritos.

Como você tem acompanhado as críticas de bolsonaro à atuação da agência nacional do cinema (Ancine)?

Acho que é um processo que necessita de diálogo. Temos de apresentar ao governo quais são as intenções do mercado, e que nós temos um mercado, uma indústria, que zelamos pelo dinheiro público. Precisamos apresentar uma pauta econômica. Acho que a Ancine tem uma pauta econômica importante, sim, que precisa ser discutida. É necessário mostrar ao governo que existe um pensamento de negócio por trás do que a gente está fazendo, e não só um pensamento de financiamento público. Há um pensamento industrial e econômico nessa produção.

O que você acha que aconteceria se a Ancine fosse extinta?

Seria um retrocesso a tudo que foi criado nos últimos anos. Não estamos preparados para não ter uma agência de cinema nem para não ter incentivo público. Por isso sou muito a favor de um diálogo. Temos de sentar com o governo e mostrar com números que o audiovisual brasileiro é importante para a economia e que a Ancine, como agência reguladora, precisa existir.

Nos últimos tempos, alguns grupos têm demonstrado hostilidade aos artistas no Brasil, inclusive por conta das leis de incentivo. Como você vê esse fenômeno?

Ter hostilidade contra lei de incentivo é uma falta de conhecimento sobre o que é a lei de incentivo. Nada é feito ali de forma ilegal. Só estudar a lei e ver que ela existe para ser exercida de forma legal. É uma falta de inteligência, uma falta de educação criticar o incentivo. Quanto à hostilidade aos artistas, trata-se muito mais de uma confusão política do que qualquer coisa. Qualquer comentário hoje é levado para o lado político.

Você teme que a censura atinja a produção audiovisual no brasil?

Temer eu não temo, mas acho que qualquer ambiente de censura que exista teremos de combater. Censura não é algo cabível nos dias de hoje, em qualquer país do mundo.

E se o governo determinar que tipo de produção possa ser financiada com leis de incentivo?

Trata-se de uma linha tênue para que se estabeleça a censura. O governo não pode fazer isso. É preciso haver variedade de temas nos filmes.

o Brasil sempre teve ciclos de produção industrial, em geral com filmes cômicos: as chanchadas da Atlântida, as pornochanchadas, o cinema caipira com Mazzaroppi e, mais recentemente, as "globochanchadas". Há um caminho para se ter um cinema industrial mais estabelecido?

Acho que os ciclos existem de diversas formas. Esses ciclos terminam quando você forma o público. Se você forma público, esse ciclos vão mudar, não vão ser tão pontuais. Eles vão passar, mas terão deixado seu legado.

De alguma forma, com o financiamento via renúncia fiscal, os filmes ganharam um certo padrão, que acabou rompido com o uso das novas tecnologias (câmeras digitais mais baratas, internet para distribuir, streaming). Antes, o que predominava no Brasil era uma realidade de poucos recursos e poucas janelas de exibição. Agora, há as múltiplas formas de mostrar os filmes, porém, nem todas com grande alcance. Quais os ônus e bônus desse cenário com mais gente se lançando na produção audiovisual?

Acho que o ônus é um excesso de conteúdo sendo produzido de forma desregulada no mundo inteiro. Você não tem janela para exibir tudo que é produzido. E isso acaba criando bolhas de conteúdo. Essas bolhas são um problema mundial que vivenciamos atualmente. Já o bônus é que agora você tem uma série de plataformas que permitem que você, mesmo não tendo um histórico tão grande, consiga encontrar chances de exibir seu filme eventualmente.

Qual a consequência dessas bolhas?

Os financiamentos de projetos podem ser reduzidos. Não se tem capacidade de distribuir tudo. E aí me parece que essa bolha uma hora vai estourar. Ou a gente diminui e pensa de uma forma mais coerente, ou essa bolha vai estourar e uma série de financiamentos poderá ter fim.

Há uma guerra de bastidores que estúdios e distribuidoras travam com a Netflix. É uma briga por mercado, que tem como pano de fundo a mudança na experiência de ver filmes - antes na sala de cinema, agora também em casa. Como você vê o streaming no mercado de cinema?

Era uma entrada que ocorreria, evidentemente. Não havia como não acontecer isso. A Netflix é um player importante. Faz coisas interessantes em termos de financiamento, mas ao mesmo tempo faz coisas que não considero tão boas. Não me parece que a Netflix ajuda a formar plateia. Pelo contrário. Do jeito que os filmes são colocados na prateleira frontal do serviço, deseduca o público. Você não acessa os clássicos e não apresenta produções que são relevantes na formação de qualquer cinéfilo. Acho que a Netflix está para o cinema assim como o Walmart está para o mercado de supermercado no mundo. Tem um excesso de produto, e não necessariamente o bom está na frente.

A tendência agora é que o mercado de streaming seja diluído com novas plataformas da Disney, Apple, entre outras. Como você vislumbra esse cenário?

Acho que a competição é bem-vinda. Vai ter um que vai fazer o serviço premium, outro que vai fazer um serviço sem foco, outro mais nichado, outro mais popular. Sou totalmente a favor de competição.

Com a ascensão da figura do showrunner no audiovisual (responsável pelas séries de tv), você já pensou em enveredar para a televisão? Está nos seus planos?

Vou fazer a produção executiva para séries. Ou seja, já estou enveredando! Há um monte de coisas rolando. Está no meu radar, sim.

COM QUEM VOCÊ NÃO TRABALHOU E GOSTARIA DE TRABALHAR?

Adoraria trabalhar com o Spielberg. Quem sabe um dia...

E O QUE ACONTECEU COM O FILME SWEET VENGEANCE, QUE VOCÊ PRODUZIRIA COM O DIRETOR BRIAN DE PALMA?

Não conseguimos encontrar um casting para fazer o filme acontecer. Está engavetado. Por enquanto...

WILLIAM MANSQUE


17 DE AGOSTO DE 2019
DRAUZIO VARELLA

LUTO

O momento delicado exige, além de respeito, precaução em qualquer aproximação a quem está sofrendo
Lidar com pessoas que acabaram de perder entes queridos nos deixa inseguros. Que palavras usar para consolá-las? Como nos aproximarmos sem invadir-lhes a privacidade nem desrespeitar seus sentimentos?

A dificuldade de contato nos afasta e contribui para isolá-las do convívio social. O isolamento aumenta o risco de depressão, doença insidiosa que pode ter fim trágico.

A Harvard School of Medicine publicou um manual com o título Luto e Perda, no qual sugere medidas e gestos que podem trazer conforto a quem vive essa fase. Tomo a liberdade de resumi-lo:

1. Não tenha medo de mencionar a pessoa falecida

Embora a menção possa provocar choro, ela não deixará o amigo mais triste. Dizer como você também sente falta da pessoa que se foi é melhor de que o formal "sinto muito". É duro constatar que ninguém mais fala de quem você amou tanto.

2. Não pergunte "Como você está?"

Parece descaso. Como você acha que a pessoa vai responder uma pergunta tão impessoal? É melhor dizer "como você está se sentindo hoje?".

3. Dê esperança

É preciso cuidado para não parecer que você menospreza o sofrimento do outro. Dizer "seja forte" ou "não fique assim" ou "reaja", pode dar exatamente essa impressão e aumentar o isolamento. Procure palavras com o sentido da frase: "Você ainda ficará triste por um tempo que pode ser prolongado, mas você é forte e terá forças para encontrar o caminho". Dessa forma, estará afirmando que não existe solução fácil nem rápida, mas que a vida vai melhorar.

4. Procure a pessoa enlutada

Passados os primeiros dias ou semanas depois do funeral, os amigos geralmente se afastam. Entre em contato, telefone, visite, envie mensagens que expressem solidariedade e empatia. A pessoa pode dizer "foi a vontade de Deus", "foi melhor assim", "Deus escreve certo por linhas tortas". Você, jamais.

5. Ajude de verdade

Não basta dizer "se precisar de alguma coisa, conte comigo". Você estará transferindo para a pessoa a responsabilidade do pedido de auxílio que ela pode estar relutante em solicitar. Tome a iniciativa de ajudar com os procedimentos legais, a papelada, as compras e a manutenção da casa.

6. Leve refeições e lanches

Muitas vezes as viúvas e, especialmente, os viúvos encontram dificuldade em preparar as refeições nas primeiras semanas de viuvez. Levar comida, orientá-los e ajudá-los a fazer as compras de supermercado pode ser muito útil.

7. Escute com atenção em vez de aconselhar

Depois de uma grande perda, muita gente sente falta de falar sobre o acontecido, alguns chegam a contar a mesma história várias vezes. Seja paciente. Não tenha pressa em dar conselhos, aguarde até perceber que a pessoa deseja ouvi-los.

8. Evite julgamentos

É impossível avaliar no outro o sofrimento causado pela perda. A vida emocional da pessoa sofreu um impacto que poderá ser duradouro ou mesmo definitivo. Não considere fraqueza a demora na recuperação nem demonstre irritação diante da dificuldade dela em retomar a vida rotineira.

DRAUZIO VARELLA


17 DE AGOSTO DE 2019
JJ CAMARGO

A ESPERANÇA NUNCA DESISTE

Esperar é uma sina com a qual convivemos sempre - e que pode se transformar na nossa fortaleza
Fomos concebidos para esperar, e dependendo do nosso teor de credulidade, passamos a vida fazendo isso. E, alguns, apenas isso.

Esperamos que tudo dê certo, que a dor passe, que o amor volte, que o patrão valorize nosso trabalho, que o filho nasça sadio, depois cresça com boa cabeça e faça sucesso, que fale dos pais com orgulho, que aprenda a amar quem lhe ame, e nunca, mas nunca, morra antes da gente.

Esperamos que o nosso time seja campeão, que o país melhore, que os hipócritas se cansem e os dirigentes eleitos o façam por merecer. Que envelheçamos com saúde e que, quando não for possível evitar a biópsia, que a lesão seja sempre benigna.

Esperamos com angústia que o motor não apague na avenida alagada e que os dois tipos que se aproximam da janela quando estacionamos o carro no meio fio sejam apenas brasileiros honestos em busca de uma informação inocente.

Esperamos que Deus use critérios mais compreensíveis de seleção de quem mereça viver e nos poupe da perplexidade de ver pessoas maravilhosas morrendo de acidentes estúpidos e os canalhas envelhecendo com cabelos de uma cor que não existe na natureza e o sorriso assimétrico do botox.

Esperamos que o cinismo seja banido, que a sinceridade prospere e que as pessoas tenham sensibilidade de perceber que é preferível o tosco sincero do que o diplomata mentiroso. Esperamos que os nossos amigos sejam complacentes e relevem nossos rompantes e perdoem as nossas intransigências e grosserias, e em troca prometemos acreditar que eles também melhorarão, mesmo que isso signifique modificar o caráter, e saibamos, desde sempre, o quanto essa expectativa é fantasiosa.

No desespero, somos capazes de jurar generosidade no futuro, que convenientemente começará no instante dessa nossa última promessa. Ou seja, agora.

É difícil quantificar o significado da esperança na vida de alguém, mas, dependendo das circunstâncias, pode ser o mais poderoso dos nossos frágeis sustentáculos e que, quando todo o resto se esvai, se transforma apenas numa tênue fibra que mantém o alento balançando sobre o precipício, entre o improvável e o delirante, e que na doença grave, muitas vezes, se apoia no último baluarte do socorro: o milagre divino.

O João Afonso, um parceiro de toda a vida, era um ateu assumido, estava morrendo de câncer e sentia muita dor. Fui visitá-lo e, ao vê-lo sofrendo, com doença disseminada nos ossos, me dispus apenas a ouvi-lo, pela mais triste das razões: eu não sabia o que dizer. No fim, ele me consolou:

- Calma aí, seu chorão. Ainda não terminamos por aqui. Vou te contar uma novidade: ontem uma freirinha passou por aqui e me deu esta oração de Santo Expedito, e você não vai acreditar, mas quando acordei de madrugada, com muita dor, tomei dois comprimidos de morfina e vi que a oração tinha ficado embaixo do copo d?água. Como não sei rezar, resolvi lê-la, e juro que a dor passou muito antes do tempo que a morfina demora para funcionar. E sabe que me deu uma esperança? Desse tamanhinho, mas, ainda assim, minha esperança!

JJ CAMARGO


17 DE AGOSTO DE 2019
DAVID COIMBRA

Uma noite de boemia raiz

Se você vai a um bar da Zona Norte, você é boêmio raiz. Da Plínio para cima, eles se sofisticaram, em vez de cerveja eles bebem clericot, em vez de PF eles comem "tapas", eles são capazes até de falar "vintage". Na Zona Norte, não. Na Zona Norte, estão a crueza e a essência da noite nua.

Houve tempo em que o grande bar da Zona Norte era o Pipocas, na Assis Brasil, passando o antigo Cinema Real. Era tão famoso, o Pipocas, que ficava gente bebendo do lado de fora, na calçada, em ruidosa aglomeração.

Naquela época, o nosso amigo Careca tinha um Passat. Ele era o único que tinha carro, na verdade. Então, nós entrávamos todos dentro do Passat e o Fernando se metia no porta-malas, abraçado ao extintor de incêndio. Aí o Careca dirigia rumo ao Pipocas. Quando chegava em frente ao bar, quem estava no banco de trás batia nas paredes do carro. Era o sinal para o Fernando abrir o porta-malas e acionar o extintor. Todos que estavam na calçada ficavam cobertos por aquela espuma branca e o Careca acelerava. Era muito engraçado. Fazíamos tanto isso, que ficamos manjados. Sempre que o Passat se aproximava, alguém gritava:

- Lá vem eles! Lá vem eles!

E todo mundo corria para dentro do bar.

Outro lugar em que íamos bastante era o Bar do Chico, perto da histórica churrascaria Espeto de Ouro, onde ainda vou, de vez em quando, para dar um abraço no também histórico garçom Marquinhos. Histórico mesmo - ele trabalha lá desde que eu pesava 64 quilos e usava guides. Sempre faço o mesmo pedido, na Espeto de Ouro: pão sujo, salada de batata, salsichão e, é claro, picanha ao ponto ou, se estou invocado, sangrando como outrora sangrava meu coração, devido à perfídia de algumas mulheres.

Mas a Espeto de Ouro funciona ao lado do já fechado Hospital Lazzarotto, enquanto o Bar do Chico brilhava e refulgia quase debaixo do viaduto Obirici. Foi nesse bar que meu amigo Ronaldo, gremista e brabo, irmão gêmeo do Renato, colorado e pacífico, transformou a cara de quatro incautos em xis bacon com ovo, de tanto socá-los, que o Ronaldo era exímio brigador de rua, brigava calmo e frio, calculando cada golpe como se estivesse dando uma tacada de sinuca.

Pois agora, dias atrás, eu e meus velhos amigos, alguns do IAPI, outros da Santa Cecília, agora nós fomos ao Amarelinho, que há 70 anos mata sedes e fomes na Brasiliano de Moraes, em frente à Foto Nick. Se você não sabe, devia saber: a Foto Nick registrou o IAPI em seu nascedouro, com imagens do próprio Getúlio Vargas inaugurando os prédios do bairro mais bonito da cidade.

O Amarelinho hoje é do Ênio Blumm, e ele mesmo vai à cozinha e prepara filés suculentos ou imensos sanduíches abertos ou até uma macarronada restauradora.

Nessa noite, sentamo-nos, em volta de uma mesa redonda, eu e mais cinco amigos. Enveredamos noite adentro contando histórias exatamente da boemia raiz. Por ali, pela Brasiliano de Moraes, caminhávamos de madrugada, depois das esbórnias de sábado, no tempo em que se podia caminhar de madrugada pelas ruas da cidade. Ríamos, caçoávamos uns dos outros, estava tudo bem, só havia um problema: o Amarelinho está muito bem decorado, parece um bar do Moinhos de Vento, não dava a sensação de ser, realmente, raiz. Continuamos com essa impressão, até que o Cabeça foi ao banheiro. Voltou de lá sorrindo e anunciando:

- Esse é mesmo um bar do IAPI!

Ficamos curiosos. O que podia ser? Descobrimos: é que os bares do mundo, isso é notório e sabido, costumam colocar avisos nas paredes dos banheiros. Nos botecos de praia é comum ler-se um pedido que é quase uma advertência: "Não jogue papel no vaso". Outros lembram normas de boa convivência e educação: "Não urine no chão". E, nos Estados Unidos, eles põem um anúncio tranquilizador: "Os empregados são obrigados a lavar as mãos". Mas, no bar do IAPI, não é nada disso. O cartaz do banheiro não pede nem aconselha, manda:

"Não suba no vaso!".

Sorrimos, contentes, ao ler essa ordem. Sabíamos onde estávamos e estávamos onde queríamos: na Zona Norte. Onde os bares são da boemia raiz.

DAVID COIMBRA


17 DE AGOSTO DE 2019
MÁRIO CORSO

Hienas

Não sou de aceitar texto de encomenda. Mas, sensibilizado pelo pedido do Sindicato das Hienas (Sindiena) quanto à denúncia de mais um ataque preconceituoso à espécie, aceitei o trabalho.

Não bastasse o primeiro filme Rei Leão, o atual segue o mesmo desprezo à figura das hienas. Elas são retratadas como más, covardes, aparvalhadas e sádicas. O filme aproveita-se do caudal de desinformação, que até alguns programas sobre o mundo animal reproduzem.

Infelizmente lembramos da hiena como carniceira e oportunista. Aproveitadora dos restos dos verdadeiros caçadores, viveria do esforço alheio. A hiena poderia ganhar o Nobel da infâmia.

Deixemos os mitos e vamos aos fatos: as hienas são os melhores caçadores da África. A cena clássica, que já deves ter visto, delas esperando os leões, geralmente é ao contrário: os leões vindo almoçar o animal abatido pelas hienas e só depois elas recolhem as sobras do real aproveitador.

As hienas não são carniceiras, apelam se não houver outra coisa. E se fossem, estranho raciocínio de achar vil quem come cadáveres e nobre quem mata animais. De qualquer forma, são pensadas como abutres de solo, portanto ligadas à gramática da morte e do vilipêndio ao cadáver.

Ao contrário do que se acredita, elas não riem, se comunicam. Conseguem chamar ajuda a 10 quilômetros de distância. Como possuem uma bocarra, um tubarão terrestre, seus dentes à mostra nos remetem a uma sinistra forma de escárnio. Portanto ligadas ao deboche, ao riso demoníaco.

A forma da hiena tampouco ajuda, não há harmonia entre os membros. As patas traseiras são mais curtas e grossas, criando uma arquitetura incomum para um quadrúpede. Parece um ser mal projetado, criado ao redor de uma mandíbula de aço e um pescoço. Não nos decidimos se são um canídeo ou um felino. Embora mais aparentadas aos últimos, são uma família à parte.

Seria uma reação machista? Afinal, as hienas vivem em sociedades matriarcais. E mais, o dimorfismo sexual é reverso: as fêmeas, além de mandarem no pedaço, são maiores do que os machos. "Hieno" pia fino na sociedade hienal.

Mas o crucial para a mitologia negativa que assombra a espécie vem de longe. O Physiologus, manuscrito anônimo grego, pai dos bestiários medievais, dizia que elas eram impuras por possuírem duas naturezas. Elas carregam a pecha de serem hermafroditas, ou trocarem de sexo durante a vida. Nada disso, apenas as fêmeas possuem um pseudopênis aparente que confunde os leigos.

Nas fábulas, usamos dos animais para projetar nossos sentimentos e, como podemos constatar, também nossos preconceitos. No mundo animal, como na sociedade, odiamos seres que embaralham nossas preciosas classificações.

P.S. - O meu pagamento em vísceras de zebra está disponibilizado para instituição de caridade que se habilite.

MÁRIO CORSO

17 DE AGOSTO DE 2019
CINEMA

Fantasia política aquece Festival de Gramado

Com a primeira exibição brasileira do badalado Bacurau, a 47ª edição do Festival de Cinema de Gramado teve início ontem no Palácio dos Festivais. Dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, o longa foi o vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Cannes em maio, arrancando elogios da crítica internacional.

Após discursos de autoridades e um pequeno concerto da Orquestra Sinfônica de Gramado, elenco e realizadores de Bacurau passaram pelo tapete vermelho situado na Rua Coberta. Entre os principais nomes do longa, está a atriz Sonia Braga, que foi a mais aclamada pelo público.

- Sonia, eu te amo! Sonia, eu te amo! - gritavam os fãs.

Em rápida conversa com a imprensa, ela comentou sobre seu retorno a Gramado com Bacurau:

- É maravilhoso voltar aqui com este filme, ainda mais uma produção que fala a língua do brasileiro - disse a atriz.

Para Sonia, Bacurau pode servir como uma inspiração:

- Este filme explica o Brasil do futuro, aquele que a gente não quer.

No festival que se estende até 24 de agosto, Kleber volta com um filme hors concours, que não integra a mostra competitiva. Em 2016, ele abriu o evento com Aquarius. Quatro anos antes, O Som Ao Redor deu ao cineasta o Kikito de melhor diretor. Nesses outros filmes, Juliano foi o diretor artístico. Os dois assinam o roteiro também.

No palco, como uma forma de protesto, Kleber fez questão que toda a equipe e atores presentes relatassem sua função no longa.

- Somos todos aqui profissionais da área da cultura e exigimos respeito - pontuou.

- Meu nome é Sonia Braga e sou atriz - iniciou a estrela, o que prosseguiu com os demais atores e integrantes técnicos do filme.

A estreia de Bacurau está prevista para o dia 29 de agosto. O filme se passa em um povoado do sertão de Pernambuco chamado Bacurau, em um futuro próximo. Fenômenos estranhos começam a assombrar o vilarejo: os celulares param de funcionar e Bacurau desaparece do mapa. Os pobres moradores ficam isolados. Contratados pelas autoridades locais, americanos surgem com a missão de eliminar a população do lugar. No entanto, o povo dali não pretende se entregar.

Antes da exibição de Bacurau, os curadores Eva Piwowarski e Rubens Ewald Filho, que morreram este ano, foram homenageados no palco do Festival de Cinema de Gramado. Duas placas foram entregues a familiares deles.

Leia mais no Caderno Fíndi

WILLIAM MANSQUE

17 DE AGOSTO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

A HORA DO SANEAMENTO

Na contramão da tradição de um Estado esgaçado por debates intermináveis, há muito a comemorar com o lançamento do edital da parceria público- privada da Companhia Rio-Grandense de Saneamento (Corsan). Com a devida cerimônia e justificado alívio, o governo Eduardo Leite finalmente tirou do papel uma PPP que prevê investimento de R$ 2,2 bilhões em obras, com a expectativa de coletar e tratar 87,3% do esgoto de nove cidades da Grande Porto Alegre, beneficiando diretamente 1,5 milhão de gaúchos.

Formatada no governo de José Ivo Sartori, a PPP foi abraçada e deslanchou no atual governo em uma saudável demonstração de que bons e relevantes projetos não podem depender de veleidades políticas, mas tão somente de sua viabilidade e impacto social. Neste caso, o projeto chegou a ser travado por mais de um ano, porque aguardava também a aprovação das Câmaras Municipais. Vencidas todas as barreiras ideológicas, chegou a hora de o Rio Grande do Sul fazer história com uma das mais grandiosas - e socialmente importantes - PPPs do país.

Ao quebrar o encantamento que amarra projetos e obras no Estado, o governo e as nove prefeituras da Região Metropolitana dão um exemplo de que é preciso planejar e executar o desenvolvimento de modo distinto das últimas décadas. Afinal, só quem ainda vislumbra interesses contrariados imagina que o modelo anterior, com o Estado absoluto em todas as frentes de serviços essenciais aos cidadãos, teria futuro. Com os cofres estaduais e municipais em petição de miséria, as PPPs são uma solução moderna para se garantirem investimentos privados em projetos de natureza pública, sem a abrir mão da fiscalização do Estado.

Poucos setores demandam tão desesperadamente uma reviravolta na forma de transformar sua triste realidade como o do saneamento, uma espécie de patinho feio das políticas públicas brasileiras. Costuma-se dizer que coletar e tratar esgotos, prática popularmente conhecida como "enterrar cano", não dá voto porque a obra não é visível. Nada mais anacrônico: saneamento é o primeiro pilar da qualidade de vida, pois dele deriva grande parte dos indicadores de saúde, a começar pela mortalidade infantil. 

E, em razão de erros históricos e pela escassez de investimentos, alguns dos municípios que serão beneficiados agora ostentam índices de saneamento reservados a países na escala mais baixa de desenvolvimento, como é o caso de Viamão, com 1,86% de domicílios ligados a redes de esgoto, ou Guaíba, Sapucaia do Sul e Esteio, todos com menos de 8% de ligações.

Pelo pioneirismo, dimensão e relevância histórica, a PPP da Corsan deve ser revestida de todos os cuidados e atenções, não só do governo, mas dos demais poderes e da sociedade civil, para que o processo de licitação transcorra com total transparência e para que as obras se desenvolvam sem maiores contratempos ou interrupções, tão frequentes em projetos de envergadura no Rio Grande do Sul. O 1,5 milhão de gaúchos que esperam ardentemente seu ingresso numa era de maior qualidade de vida só tem a agradecer.



17 DE AGOSTO DE 2019
DIÁRIOS DO MUNDO

Bolsonaro acerta sobre a Noruega

Em resposta à suspensão de repasses para a Amazônia pelo governo norueguês, o presidente Jair Bolsonaro ironizou:

- A Noruega não é aquela que mata baleia lá em cima, no Polo Norte, não? Que explora petróleo também lá? Não tem nada a oferecer para nós. Pega a grana e ajuda a Angela Merkel (chanceler alemã) a reflorestar a Alemanha.

Apesar de, do ponto de vista diplomático, a frase ser pouco adequada à tradição das boas relações exteriores brasileiras, a Noruega, sim, mata baleias.

Junto com Islândia e Japão, a nação da Escandinávia questiona a moratória estabelecida em 1986 pela International Whaling Commission, IWC (Comissão Baleeira Internacional), que proíbe a pesca comercial desses animais.

Em setembro do ano passado, a Noruega foi um dos países que votaram a favor do fim da proibição na reunião da comissão, em evento que trouxe, pela primeira vez, o tema para o Brasil, em Florianópolis. Acabou derrotada junto com as demais nações que defendiam a retomada da caça. O governo brasileiro votou com a maioria pela manutenção da moratória.

Mesmo assim, a Noruega aproveita-se de brechas legais do regime internacional, questionando-o, para continuar caçando baleias. O consumo da carne é uma tradição no país, embora tenha diminuído bastante a venda do prato em restaurantes.

No ano passado, o país anunciou o aumento de 28% de sua cota anual de caça, até 1.278 exemplares, na tentativa de estimular a indústria. As autoridades argumentam que, há anos, os baleeiros não atingem as cotas do governo.

A caça foi retomada em 1993. Além do hábito de consumo, um dos argumentos do governo é de que o país detém quantidades grandes de baleias em seus mares - mais de 100 mil exemplares da espécie minke.

Em 2017, um documentário exibido pela rede de TV pública da Noruega, a NRK, chocou boa parte da população e indignou ambientalistas. Intitulado Dag Myklebust, o trabalho revelou que 90% de todas as baleias minke mortas por ano são fêmeas e quase todas estavam grávidas.

Ficando na mesma frase, no mesmo assunto, ambiente, mas mudando de país. Alemanha precisa ser reflorestada?

Na quinta-feira, a embaixada do país europeu no Brasil publicou em sua página no Facebook um vídeo respondendo a Bolsonaro: "Você sabia que a Alemanha é um dos países mais florestados da Europa? As florestas alemãs são destinos turísticos imperdíveis", diz a chamada.

O país de Angela Merkel é conhecido pelo pioneirismo na política ambiental e se destaca internacionalmente na proteção do clima. Lidera as iniciativas globais de ampliação de energias alternativas e vem, há décadas, reduzindo emissões de gases poluentes. Basta se deslocar pela Alemanha para observar como o uso de energia limpa é popular, com painéis solares em fábricas e residências. Também são comuns os cenários com aerogeradores.

O país tem um plano de abandono sucessivo da energia nuclear até 2022. Em 2030, as emissões de gases do efeito estufa devem ser reduzidas em 55% em relação a 1990, com a intenção de alcançar no mínimo 70% até 2040.

"Sem sigilo da fonte, liberdade da imprensa será afetada"
ENTREVISTA: GUILHERME CANELA Conselheiro regional da Unesco para Comunicação e Informação

No 13º Congresso Estadual de Magistrados, da Associação dos Juízes do Rio Grande do Sul (Ajuris), o conselheiro regional da Unesco para Comunicação e Informação, Guilherme Canela (foto), alertou para os riscos à liberdade de imprensa e expressão.

Sua palestra abordou o tema redes sociais e proteção de dados. Que aprendizados se pode tirar dos vazamentos das mensagens da Lava-Jato?

Não posso comentar casos específicos porque a Unesco comenta situações nas quais fez avaliação independente. Não quer dizer que, no futuro, a Unesco não venha a fazer uma avaliação específica, sendo solicitada pelo Estado brasileiro. Mas um elemento que está nos preocupando em vários países é o crescimento, nos últimos anos, de solicitações que jornalistas revelem suas fontes. A mensagem é muito clara: a fonte jornalística tem de ser protegida. Se há um crime no que se refere a como a informação original foi gerada, a perseguição a esse crime tem de ser feita pelos poderes competentes em relação à fonte original, mas não exigindo que o jornalista revele como obteve os dados e quem é a fonte. Como padrão internacional, a questão do sigilo da fonte é fundamental.

Observa-se o crescimento de uma tendência de acabar com garantias do trabalho jornalístico em outros países?

Há muitas decisões judiciais, exigindo que o jornalista informe qual é a sua fonte. A proteção do sigilo da fonte no exercício do jornalismo é parte integrante dos indicadores internacionais de liberdade de expressão. Quando a gente olha os documentos internacionais sobre o que significa ter uma imprensa livre, você vê que mencionam três categorias: defesa de imprensa livre, independente e plural. Para que esse trinômio seja alcançado há elementos fundamentais. Um deles é o sigilo da fonte. Se você não garante o sigilo da fonte, liberdade, pluralidade e independência da imprensa vão estar diminuídas ou seriamente afetadas. Outra questão que tem a ver com vazamentos é a necessidade de que os países desenvolvam princípios legais e políticas públicas de proteção de denunciantes. Alguns vazamentos que são considerados ilegais pelas legislações nacionais, mas que expõem casos de corrupção ou violações de direitos humanos, se encaixariam na qualificação de proteção aos denunciantes.

A Unesco se preocupa com o fenômeno das fake news e campanhas de desinformação?

Entendemos que o termo fake news é incorreto e desvaloriza a ideia de notícia como elemento central do jogo democrático. Mas evidentemente acabou pegando essa expressão. A Unesco, em seus documentos, utiliza a expressão desinformação. Porque se é notícia não é fake. Se é fake não é notícia. Em nosso último informe sobre tendências mundiais de liberdade de expressão, fizemos um alerta de que há uma crescente animosidade do discurso de líderes políticos contra a imprensa e inclui esse discurso de dizer que o conteúdo jornalístico é fake news. Mas não só, alguns governantes usam expressões como imprensa corrupta.

Alguns líderes, como Donald Trump, a chamam de inimiga do povo.

A Unesco alertou que esse discurso depreciativo, em alguns contextos, pode gerar violência real, física, não só online, o que já é um problema, contra jornalistas. No caso online, estamos verificando que alguns desses discursos intensificam a violência contra mulheres jornalistas, que acabam recebendo conteúdo de cunho sexista e misógino.

A SEMANA QUE EU VI

ONDA KIRCHNER

A semana começou com a América Latina surpresa com a vitória, no domingo, de Alberto Fernández e a vice, a ex-presidente Cristina Kirchner, sobre Mauricio Macri e Miguel Angel Pichetto nas prévias às eleições argetinas. A possível volta do kirchnerismo à Casa Rosada acendeu o alerta entre os governos de direita.

SUSPEITO DE TERRORISMO

Um egípcio suspeito de ter ligação com a rede terrorista Al-Qaeda e procurado pelo governo dos EUA está vivendo no Brasil. A informação veio a público na segunda-feira por meio do FBI (polícia federal americana). Mohamed Ahmed Elsayed Ahmed Ibrahim ingressou no Brasil em 2018.

TENSÃO EM HONG KONG

Militantes pró-democracia ocuparam por dois dias, segunda e terça-feira, o aeroporto de Hong Kong (foto), obrigando o oitavo terminal mais movimentado do mundo a cancelar voos. A China ameaça sufocar a revolta e reúne tropas.

TRUMP E A GROENLÂNDIA

Donald Trump teria consultado seus assessores sobre a possibilidade de os EUA comprarem a Groenlândia, segundo o Wall Street Journal divulgou na sexta-feira. O presidente teria curiosidade sobre os recursos naturais e a relevância geopolítica da área. Não é o primeiro mandatário americano a se interessar pela área. O território pertence à Dinamarca.

RODRIGO LOPES

17 DE AGOSTO DE 2019
CARTA DO EDITOR

Um vazio na sala de aula

As redações têm reservas em lidar com notícias sobre suicídio. Não há uma regra, mas entende-se que a descrição dos motivos que conduziram ao gesto extremo pode detonar o gatilho suicida em pessoas em condições semelhantes.

É neste contexto que a reportagem "Cadeiras vazias", que ilustra a capa de Zero Hora e ocupa oito páginas do caderno DOC, ganha relevância.

Há cerca de um ano, quando apurava o impacto da presença de estudantes de fora do Estado em universidades do Interior, o repórter especial Itamar Melo ficou surpreso com o fato de eles relatarem sofrimento psíquico. Na Redação, Itamar compartilhou suas percepções com os principais editores e recebeu sinal verde para continuar na apuração.

Em campo, o repórter conversou com cerca de duas dezenas de alunos, que relataram histórias de sofrimento psíquico, e com mais de uma dezena de professores, especialistas e psicólogos de diferentes universidades e instituições. O fenômeno já preocupa as instituições, que multiplicaram programas de suporte aos universitários. A reportagem segue recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), que têm manuais orientando jornalistas a cobrir o assunto.

- Os cuidados que tivemos são fruto do aprendizado que fomos construindo em ZH, que inclui regras básicas, como não falar em métodos, escolher uma linguagem adequada, apontar caminhos para buscar ajuda - conta Itamar.

O texto, antes da publicação, foi submetido a um pesquisador do tema, o psiquiatra Rafael Moreno Ferro de Araújo, que coordenou o comitê de prevenção ao suicídio da Associação de Psiquiatria do RS e tem sido um parceiro em várias reportagens sobre o assunto.

A matéria de Itamar é a quinta grande reportagem que ZH produz sobre o tema nos últimos 13 anos - a série Tragédia Silenciosa, publicada em 2008, integra uma cartilha da Associação Brasileira de Psiquiatria dedicada a jornalistas como um exemplo na abordagem do tema.

A morte autoinfligida é tão frequente no Estado quanto assassinatos e óbitos nas estradas, com o agravante de que, diferentemente de acidentes e homicídios, não há políticas nem discussão públicas para conter o fenômeno. No meio universitário, como nos conta Itamar, a comunidade acadêmica começa a enfrentar o problema.

CARLOS ETCHICHURY


17 DE AGOSTO DE 2019
INFORME ESPECIAL

Em mouth fechada não entra fly

Gafe em inglês é coisa chique. Nas férias, me aventurei a jogar na República Dominicana. No segundo buraco, me perdi. Fui parar em lugar onde não deveria estar, em um outro campo. Dei de cara com dois ingleses. Obedecendo à etiqueta do golfe, parei perto do ponto da tacada inicial, esperando a minha vez.

O primeiro jogador se aprumou e fez o movimento aparentemente perfeito. Só que praticamente errou na bolinha, que saiu quicando e parou poucos metros à frente. O segundo jogador também deu uma tacada torta. Foi quando resolvi exercer todo o meu poder de simpatia. Fazer amigos é a minha especialidade.

Ao passar por eles, me dirigi ao mais velho: "não se preocupe, sou tão iniciante quando você, compreendo perfeitamente o que aconteceu". Jurei que eu tinha agradado. O britânico sorriu. Não havia hostilidade ou reprovação no seu olhar. "Eu jogo há 20 anos", me disse.

Percebendo o meu constrangimento, meu novo ex-friend desferiu seu golpe de misericórdia. Da maneira mais simpática do mundo, emendou: "É que estou acostumado a jogar na Inglaterra, com chuva, e esse sol aqui me atrapalha". Rimos os dois. E pra terminar de me afundar, a única coisa que me ocorreu dizer foi: "o que importa mesmo é estar aqui se divertindo". Não me causaria surpresa se ele continuasse: "se divertindo, de preferência, de boca fechada". Nada disso. Ele sorriu, concordou.

Eu entrei no meu carrinho e dei um jeito de me perder de novo.

Dessa vez, pro outro lado. Mérito ao quadrado.

Três novos restaurantes populares começam a funcionar em setembro, em Porto Alegre. Os chamados Prato Alegre - agora são quatro - irão servir, de segunda a sexta-feira, um total de 400 refeições ao dia, de forma gratuita.

Construída e inaugurada em tempo recorde pela PUCRS, a nova ponte sobre o Arroio Dilúvio, em Porto Alegre, vai melhorar a vida de milhares de porto-alegrenses.

Armandinho movimentou o Araújo Vianna na noite de sexta. O cantor e compositor venceu a luta contra as drogas. É um exemplo de talento e superação.

O Tribunal de Justiça gaúcho vai acelerar a digitalização dos processos nas varas da fazenda pública. Com isso, o Estado poderá cobrar mais rapidamente os seus devedores.

A prefeitura de Pelotas dá relevância e visibilidade a uma campanha de descarte de resíduos sólidos com os Ecopontos Municipais, que recebem móveis, plásticos, restos de obras, papelão, vidro e metal.

TULIO MILMAN

sábado, 10 de agosto de 2019




10 DE AGOSTO DE 2019
LYA LUFT

Os padrastos

Estamos habituados a celebrar Dia das Mães, dos Pais, e várias outras datas que eu, contrariando muita gente, gosto de celebrar.


Pois assim ao menos nesses dias, quem sabe, mais gente recebe flor, abraço, recado no whats, e-mail, telefonema, qualquer coisa. Presença, seja como for, virtual ou concreta (sempre a melhor de todas). Nesses dias a gente pode sair da banalidade torturante do dia a dia e reavivar alguma emoção boa, porque das ruins estamos já cansados. Então lembrei dos padrastos: para madrastas queridas, já se usa, meio na brincadeira, o termo “boadrasta”.

Pois eu hoje me solidarizo com os padrastos que vivem com mulheres que já tinham filhos.


Ser pai pode ser mais complicado do que ser mãe, porque ainda, apesar de todas as psicologias e psicologismos, muitas vezes deixamos o pai de fora. A mãe abre a porta para a união filhos e pai, a mãe deixa o pai entrar no mundo da criança, e se isso não for espontâneo, leve, feliz, amoroso, podem permanecer limites melancólicos pela vida afora.

Mães realmente maternais, que não querem ser exclusivas na vida dos filhos, mas generosamente querem que eles participem de um mundo além do seu colo, em geral constroem famílias mais felizes, ou menos infelizes. (Sinto muito, a responsabilidade da mãe é grande.)


O pai natural às vezes se porta como um padrasto de livro de história (em geral, lá só temos madrastas e bruxas más), sendo frio, distante, exigente demais ou omisso, cruel ou indiferente, crítico ou negligente demais. Mas há padrastos realmente paternais, bondosos, amigos, camaradas, que exercem a necessária autoridade amorosa (quem ama cuida), mas não procura ocupar o lugar do pai, se é que este existe, se é que este comparece afetivamente.

Existem adolescentes e crianças que não permitem que nem madrasta nem padrasto entrem na família: com arrogância, malcriação, às vezes agressividade, os mantêm “de fora”. Não invejo a posição dessas pessoas, que podem chegar muito bemintencionadas, coração aberto, mente preparada.


Sei de histórias longas, penosas, constrangedoras, em que aquele que desejaria participar, ser amigo, estar presente, forçadamente fica alijado, ainda que no emocional, enfrentando caras feias, comportamentos péssimos, e mães aflitas que não sabem como agir – e quereriam agradar a todos. 


Então hoje, de alguma forma, eu celebro aqui o dia dos padrastos, que não consta nos calendários, pois deveria ser incluído nos dias de pai, desde que assim se apresentem e comportem, e sejam bem-vindos.

Se a essência do mundo e da humanidade é a família, qualquer membro hostilizado ou alijado é uma ferida que pode e deve ser tratada, desde que haja maturidade, compreensão, coração. 

Sim: o amor é difícil.
LYA LUFT

10 DE AGOSTO DE 2019
MARTHA MEDEIROS

18 cartas extraviadas

Já não tenho onde guardar meus livros. Mesmo fazendo doações, eles se acumulam nas prateleiras do quarto, na biblioteca da sala, até dentro da churrasqueira. No meu escritório, tinha um sofá tão coberto por livros que ninguém percebia que era um sofá, e como meu gato destruiu seu forro, resolvi trocá-lo por uma estante e só então organizei a montanha de publicações ali empilhadas. Enquanto meu gato perambulava pela casa em busca de outro alvo para afiar suas unhas, eu reencontrava títulos que julgava perdidos. 

De repente, ensanduichado entre um livro de poemas e um romance, deparei com um envelope pardo que nunca havia sido aberto. Devo tê-lo largado ali enquanto fui buscar um copo d?água, depois o telefone deve ter tocado, e o esqueci. O envelope havia afundado entre os entulhos. Vi a data do carimbo: 04/07/2017.

Era volumoso. Rasguei o lacre e, primeiro, puxei um bilhete manuscrito de uma professora. Aos poucos, minha memória foi voltando: ela havia trabalhado em sala de aula com o meu livro Tudo Que Eu Queria Te Dizer, que reúne 35 cartas fictícias, e agora seus alunos me enviavam respostas, também fictícias, para essas cartas. Maristela Lang, a professora, dizia que foram produzidos 68 textos pelos estudantes do terceiro ano do Ensino Médio, mas ela estava me enviando apenas 18, imaginando que eu não teria tempo para ler todos. Ah, Maristela.

Enquanto eu retirava os 18 impecáveis envelopes brancos que estavam dentro do grande envelope pardo, pensava: a essa altura a garotada já terminou o colégio, devem estar na faculdade. Oh, Deus, que sejam textos horríveis, para que eu me sinta menos culpada pelo meu silêncio.

Não havia nenhum texto menos do que ótimo. A criatividade era assombrosa. A cada carta que eu abria da Bruna, da Gabrieli, da Giovanna, do Luis, do Eduardo (queria citar todos), mais emocionada ficava. Eles deram continuidade aos meus enredos. Interagiram com meus personagens. Inventaram reações surpreendentes para meu padre, meu assassino, minha prostituta, até então limitados às minhas histórias. 

Eu tinha em mãos a prova da potência da literatura, do quanto ela é transformadora, eletrizante. Alguns alunos subverteram a tarefa dada pela professora e escreveram não para os personagens, e sim para eles mesmos, quando estivessem no futuro. Um futuro que já estava em andamento, mesmo paralisado por dois anos num sofá aos pedaços.

Maristela, só me resta uma desculpa pública. Perdão pelo atraso e parabéns pelo projeto que envolveu os alunos da turma de 2017 do Colégio Tiradentes, de Ijuí. Espero que você ainda esteja lecionando, que você siga inspirando os jovens a expressarem seus sentimentos, que sua sala de aula continue sendo um espaço livre para novas ideias, que você ainda os provoque e os encante. Obrigada. Foi um tesouro o que encontrei entre meus escombros.

MARTHA MEDEIROS