sábado, 5 de outubro de 2019


05 DE OUTUBRO DE 2019
CARPINEJAR

Não finjo o que não tenho

Eu só entro em lugares que posso pagar. Não invento de sofrer até a fatura chegar. Não banco o magnata de araque.

Não vale a pena economizar no seu pedido, solicitar ao garçom o item mais singelo, tomar água, dispensar a sobremesa, e, no final da noite, alguém ter a maldita ideia de dividir a conta de modo igual a todos presentes. Ou seja, arcará com vinho que não bebeu, com as benesses que não desfrutou, com os caprichos que apenas sentiu o cheiro ao lado.

Enrolou o máximo de tempo para não terminar rápido a sua porção comedida, contentou-se com uma salada que jamais comeria em casa, sufocou a fome, aguentou os vizinhos de cadeiras se servirem à vontade e repetirem as suas oferendas, nem quis o expresso para não sobrecarregar mentalmente a fatura, e caiu no conto da democracia financeira.

Aquele que poupa para si sempre é vítima preferida da mesa. Pelo medo de desagradar, afunda no especial e assume juros incontroláveis. Sustenta a gula alheia com a sua timidez. O que era para ser uma diversão torna-se um tormento.

Não tento exibir mais do que tenho. Acredito que as pessoas gastam fortunas para parecerem ricas.

É um princípio de vida. Sei o meu tamanho e não me perco na inveja. Não chego às raias da avareza, mas tampouco finjo generosidade. A falta de confiança traz constrangimentos letais. Nem sempre fui leal aos meus limites. O orgulho desconhece o fundo da conta.

Lembro que, ainda universitário, saí com a família para comemorar o aniversário da mãe em um restaurante chique italiano. No final, a minha irmã me provocou:

- Hoje é o Fabrício que vai pagar a conta. Óbvio que não podia abraçar a consumação aloprada de 10 convidados. Mas vá explicar isso para a raiva.

Em vez de me recolher a minha insignificância, aceitei a provocação como um desafio e assinei um cheque muito além das minhas economias. Pretendi calar a boca da família sobre a minha instabilidade de estudante de Jornalismo, esconder a penúria de preferir o xerox à aquisição de livros e afundei em uma série de vexames.

Para quê? O cheque voltou, corri atrás do restaurante e tive que renegociar a dívida em humilhantes cinco parcelas. A dona do lugar só faltou me contratar para lavar os pratos.

CARPINEJAR


05 DE OUTUBRO DE 2019
REPORTAGEM

INOVAÇÃO

Mais do que ajudar a modernizar a economia gaúcha, o estímulo à inovação pode evitar a fuga de jovens talentos do Estado, dizem especialistas. Na comparação com outras regiões do país, os gaúchos têm uma vantagem: a rede de universidades e parques tecnológicos vinculados a instituições de ensino.

O potencial do Rio Grande do Sul na área pode ser ilustrado em números. Segundo dados compilados até 18 de setembro, o Estado concentrava 971 startups, terceira maior marca do país. Nesse quesito, os gaúchos só ficam atrás de São Paulo (3,7 mil) e Minas Gerais (1,1 mil). As estatísticas integram pesquisa da Associação Brasileira de Startups (Abstartups).

- O ambiente das faculdades é um dos diferenciais do Rio Grande do Sul, que tem potencial para formar empreendedores. Os centros de inovação, representados pelos parques tecnológicos, geram uma oportunidade bárbara - salienta Ronald Krummenauer, CEO do Transforma RS, movimento de entidades empresariais que busca discutir com o governo estadual temas relacionados ao desenvolvimento gaúcho.

Recentes iniciativas que indicam preocupação em modernizar o ambiente de negócios têm chamado atenção de especialistas. Na Capital, Unisinos, PUCRS e UFRGS uniram-se, em 2018, à prefeitura e a entidades da sociedade civil por meio do movimento Aliança para Inovação, que busca evitar a fuga de talentos do município. Em seguida, a aproximação deu origem ao Pacto Alegre, que formalizou metas para tornar Porto Alegre uma referência em inovação no país.

Na Serra, há iniciativa similar. No ano passado, empresas, entidades representativas, poder público e instituições de ensino criaram o movimento Hélice. A intenção é compartilhar esforços para o desenvolvimento de práticas inovadoras na região.

- O Rio Grande do Sul tem potencial na área. A aliança entre universidades é um sintoma de que tem gente preocupada com inovação. Esses movimentos dependem do apoio do poder público, que tem o papel de ser um facilitador - analisa o economista Ely José de Mattos, professor da PUCRS.

Para Ely, um dos nichos com capacidade de crescimento em inovação, especialmente em Porto Alegre, é o da saúde. Segundo o economista, o potencial decorre do fato de a Capital ser um polo nessa área, reunindo hospitais de referência.

Secretário estadual de Inovação, Ciência e Tecnologia, Luís Lamb acrescenta que o Rio Grande do Sul também pode avançar em setores como o de desenvolvimento de softwares, já que concentra empresas que atuam nesse segmento. Apesar de demonstrar otimismo com o assunto, Lamb reforça que o Estado tem de superar desafios:

- A sociedade precisa enxergar que áreas como computação e robótica podem alavancar o Rio Grande do Sul. Nosso modelo de crescimento pode ser acelerado. As principais empresas do mundo são de tecnologia e inovação.

ENTREVISTA | Pedro Dutra Fonseca, Economista e professor da UFRGS

Um dos economistas mais respeitados no Estado, Pedro Dutra Fonseca avalia que o Rio Grande do Sul tem potencial de avanço em áreas intensivas em conhecimento e tecnologia. Apesar disso, frisa que setores tradicionais da economia gaúcha não podem ser deixados de lado. Nesta entrevista, o professor da UFRGS também sugere que o governo estadual atue como um "incentivador" de parcerias entre empresas e universidades.

QUAIS SÃO OS POTENCIAIS DA ECONOMIA GAÚCHA?

O Rio Grande do Sul tem potencialidades em áreas intensivas em conhecimento. Há uma rede de universidades muito boas na formação de pessoas. Temos áreas fortes, como o setor primário, com peso importante na economia do Estado, além de intensivas em tecnologia. Um diferencial é a rede de formação de pessoas espraiada pelo território. O que seria preciso? Investimento mais forte em ciência e tecnologia.

INVESTIMENTO QUE ENVOLVA PARCERIAS ENTRE OS SETORES PÚBLICO E PRIVADO?

Sim. É onde a parceria pode dar mais certo. Já há uma certa experiência. No setor primário, por exemplo, é muito forte a interação entre a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), as universidades do Interior e a própria UFRGS. Outra questão interessante é a dos investimentos na área de saúde. Há uma rede muito boa de hospitais públicos e privados no Rio Grande do Sul. Temos ótimas faculdades de Medicina, sempre muito bem cotadas em qualquer ranking federal. No Estado são feitos transplantes, cirurgias complexas. Também vejo que essa é uma área com vantagem comparativa. Além dos setores tradicionais, como agronegócio, de calçados, do vinho, as áreas de ponta seriam aquelas intensivas em conhecimento.

QUAIS OS DESAFIOS PARA UNIR A INOVAÇÃO TECNOLÓGICA AO CAPITAL HUMANO?

O Rio Grande do Sul tem universidades de qualidade. O convênio entre UFRGS, PUCRS e Unisinos (movimento batizado de Aliança para Inovação) é superimportante para fazer um trabalho conjunto. Também há iniciativas no Interior. Universidades comunitárias são muito voltadas para suas regiões. São potencialidades, mas o Rio Grande do Sul não pode descuidar daquilo em que já mostrou ter tradição. Por exemplo, fico muito chateado com a perda da indústria de calçados no Estado. É um setor muito importante. Temos, por exemplo, a parte do fumo em Santa Cruz do Sul, o vinho. São indústrias tradicionais. Não podemos ter o fetiche de só pensar no que é de ponta e descuidar daquilo em que historicamente já mostramos ter background. Essas indústrias empregam muita gente.

O QUE É NECESSÁRIO PARA QUE INDÚSTRIAS TRADICIONAIS NÃO PERCAM AINDA MAIS FÔLEGO?

Muitas indústrias tradicionais do Rio Grande do Sul são exportadoras. O Estado sofreu com o dólar baixo. Além disso, tem relação forte com a Argentina, que vive instabilidade. O país teve problema no governo de Cristina Kirchner (2007-2015), e Mauricio Macri (atual presidente) não resolveu. Pelo contrário, piorou. Isso afetou as indústrias do Estado, como a calçadista. O importante é o empresário aprofundar a interação com as universidades e os centros de pesquisa. O governo gaúcho não tem dinheiro. 

O que ele pode ser, por exemplo, é um aglutinador. Um provocador. O governo pode ajudar a promover isso. Há muitos setores da economia do Rio Grande do Sul com vínculos com instituições de pesquisa. Houve uma época em que se acreditava em um governo financiador, que oferecia juro subsidiado ou isentava impostos, criava incentivos fiscais. Hoje, é impossível pensar nessa situação. O Estado está quebrado. Não há mais espaço para fazer renúncia fiscal, nem para aprofundar os gastos públicos. Outra coisa que o Estado pode fazer, e tem gente para isso, é a realização de estudos.


05 DE OUTUBRO DE 2019
LEANDRO KARNAL

QUEM SEDUZ REDUZ?

Certas ideias são muito complexas mesmo e inúmeros autores não podem ser facilmente divulgados. Isso não impede que mostremos camadas, as mais claras possíveis, e que iniciados e iniciantes possam acessar algo que os conduza a um desejo de saber mais.

No ano 2000, houve a exposição celebrativa dos 500 anos do "descobrimento do Brasil" no Ibirapuera, em São Paulo. No módulo dedicado ao Barroco, Bia Lessa colocou 200 mil flores que chamavam atenção. As imagens estavam lá, belas, plantadas como imenso tapete de procissão com alegoria floral. Muitos condenaram o impacto cinematográfico que poderia desviar do objeto da exposição. Ainda não era a idade de ouro das selfies. As pessoas iam a museus sem postar nada, acreditem, jovem leitora e jovem leitor. A exposição foi um imenso sucesso. Os recursos "teatrais" funcionaram e muita gente que nunca tinha visitado algo similar esteve lá, especialmente pessoas sem o hábito de visitar mostras culturais.

O debate se repete e se amplia sempre. Um vídeo de 15 minutos sobre Nietzsche? Impossível captar todas as ideias do pensador, todavia, ele será visto por muita gente. Já fiz dezenas de palestras sobre temas complexos e, com frequência, ouvi que eram superficiais. Concordo inteiramente, pois o objetivo era a divulgação e não o debate acadêmico. Os temas universitários são de outra espécie. Já vivi a experiência contrária. Um curioso entra na sala da pós-graduação na Unicamp. 

O tema? A leitura lacaniana de Michel de Certeau sobre o transe místico. O curioso fica uma hora, mais ou menos. É visível que não está acompanhando o desenvolvimento da ideia que, entre outras coisas, implicava um texto complexo em francês como base da aula. Ele esperava o Leandro que via no YouTube; encontrou o acadêmico. Quase sempre desaparecem no intervalo, um pouco incomodados. Não podendo dizer de outra forma, um interessado outsider disse-me após uma aula sobre os processos de Loudun no século 17: "Por que o senhor não fala engraçado e fácil como nas palestras?".

Para seduzir o grande público, seria necessário reduzir a mensagem? Outro exemplo: fui contatado para ser curador de uma mostra que trataria de ícones em um museu de São Paulo. O evento acabou não ocorrendo, porém, quero destacar o debate inicial.

Tínhamos de escolher um título. Os ícones apresentam Jesus, Maria e os santos. Pensei em expressões como "Memória do sagrado"; "Imagens do divino"; "Deus visível" e coisas afins. O cenógrafo sugeriu "Sacrou?". O neologismo combinaria o sacro com a gíria "sacar", compreender. Atrairia muitos jovens e conteria um humor com conteúdo. O debate retoma o desafio: seduzir é reduzir?

Na universidade, o compromisso com o lúdico é menor. Ou melhor: imaginamos que a sedução esteja na beleza do tema, na precisão do recorte ou no uso exato dos conceitos. A mesma exposição "Sacrou" seria, em uma aula da pós: "Leituras iconográficas e iconológicas do imaginário bizantino isáurida". Promotores de megaexposições amam contabilizar números; acadêmicos admiram títulos complexos para um pequeno grupo de alunos.

Para vender, muitos livros recebem títulos atrativos. Sempre tem boa "pegada" coisas como "Os tiranos mais cruéis da história"; "As princesas mais loucas da Europa" ou "Os 10 homens mais ricos do planeta". Tais temas indicam algo claro, com um conhecimento fácil de ser repetido e com um tom anedótico informativo que nunca se esgota.

Estamos falando de dois processos distintos. Um seria um recurso de exposição, como o de Bia Lessa, que não deixa de exibir a riqueza do Barroco colonial, entretanto, adiciona estratégias visuais que podem fazer parte do encantamento. O impacto de Bia é parte da exposição, pois mostra um pouco do chamado "excesso" que alguns identificam no Barroco. Além de seduzir, ela ampliou a possibilidade, trazendo algo belo e até bem-humorado. Se a exposição voltasse hoje, seria trend topic e totalmente "instagramável".

Existe outra maneira, a que está em livros com títulos chamativos e conteúdos esquemáticos. No caso, o objetivo está no mercado apenas e não é um recurso, trata-se da obra em si.

Muitos intelectuais e formadores de opinião não gostam da ideia de divulgação. Preferem o eterno elitismo de iluminados que têm pleno domínio retórico e hermético. São os que amam catálogos de arte em que cada parágrafo necessita explicação de um especialista em semiótica. Certas ideias são muito complexas mesmo e inúmeros autores não podem ser facilmente divulgados. Isso não impede que mostremos camadas, as mais claras possíveis, e que iniciados e iniciantes possam acessar algo que os conduza a um desejo de saber mais.

Todo processo didático e de ampliação envolve incontáveis desafios. Escrevi isso pensando no mau humor de alguns doutos diante das filas para selfies no Abaporu, da exposição blockbuster de Tarsila do Amaral, no Masp. Tenho certeza de que alguns prefeririam meia dúzia de notáveis com gola rulê preta olhando para a imagem e pronunciando sentenças sobre as releituras da antropofagia como metáfora da nossa epistemologia associativa mestiça. Sempre imaginei que exista espaço para muitos apreciadores da arte ou do conhecimento. O comedor de homens não pertence ao intelectual ou ao adolescente segurando o celular. Aliás, o Abaporu é de um argentino. Uns reduzem bastante, outros aprofundam muito e há os que compram tudo... É preciso ter muita esperança e, talvez, algum dinheiro.

LEANDRO KARNAL


05 DE OUTUBRO DE 2019
COM A PALAVRA

NÓS, MULHERES, TEMOS PODER HOJE. PODEMOS LEVANTAR E MUDAR AS COISAS.
JESSICA WADE, Física, 30 anos Pesquisadora inglesa conhecida por difundir o trabalho de mulheres na ciência, ela esteve em Porto Alegre no fim de setembro para uma conferência.

Filha de um neurologista e de uma psiquiatra, a inglesa Jessica Wade, 30 anos, cresceu em uma família que sempre incentivou a curiosidade e valorizou as inovações tecnológicas. Uma resposta nunca está completa, aprendeu ela, e sempre há algo a mais que você pode estudar e descobrir.

Pós-graduada em Física, a jovem cientista do Blackett Laboratory do Imperial College de Londres esteve em Porto Alegre, no final de setembro, para falar sobre uma de suas principais bandeiras: a necessidade urgente de diversidade na ciência, com mais espaço e destaque para mulheres e negros.

Na véspera de sua conferência no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), ela concedeu a entrevista a seguir.

Muitas mulheres ainda não têm acesso à educação. Oportunidades para homens e mulheres são diferentes. Qual a sua opinião a respeito disso?

Em algumas partes do mundo, vemos mulheres lutando para conseguir pelo menos o acesso à educação. Espero que, com movimentos progressistas liderados por meninas como Malala (ativista paquistanesa que milita pela educação, vencedora do Nobel da Paz) e Greta Thunberg (ativista sueca que defende o ambiente), as pessoas comecem a ver o impacto que as mulheres podem causar. Vemos mudanças no Oriente Médio, mulheres tendo acesso à educação e oportunidades como a de praticar esportes. Estereótipos impactam a maneira como as meninas se veem e as oportunidades que podem ter. A sociedade diz que as meninas podem conquistar outras coisas que não aquelas que os meninos conquistam, dita sobre o que elas devem se interessar. 

Professores e pais ainda aconselham as crianças orientados por gênero. Essa é a parte mais difícil a superar. Ou seja, uma questão é a igualdade de acesso à educação, e a outra é, em sociedades em que meninos e meninas têm chances iguais de acesso, mudar esses estereótipos que persistem há décadas. Prefiro dizer décadas em vez de séculos porque não acredito que venha acontecendo há centenas de anos. Acho que isso faz parte desse comércio de massa em que estamos comprando lixo todo o tempo. Essa é parte da razão pela qual tudo ficou tão baseado em gênero recentemente.

O que deveria ser feito de maneira diferente em relação às crianças?

Os pais devem manter a cabeça aberta quanto às profissões. Eles têm um pouco de responsabilidade de descobrir o que os pesquisadores estão fazendo em ciência e tecnologia, qual é o grande desafio da ciência, da economia e da sociedade e pensar de que forma as crianças podem contribuir para isso, independentemente de serem meninos ou meninas. Se os pais fizessem uma imersão no que a ciência está produzindo, seria benéfico para todos. Eles podem encontrar livros que falam de ciência. Talvez não sejam pesquisas que estejam sendo conduzidas aqui em Porto Alegre e no Brasil, mas na Suécia ou na Austrália. Descubram essas histórias, contem-nas para os seus filhos. Livros são incríveis, e a internet também é ótima para isso.

E quanto aos brinquedos?

Devemos pensar sobre o que compramos e damos às crianças e ter certeza de que oferecemos oportunidades iguais a meninos e meninas. Há brinquedos geniais que incentivam a pensar de forma lógica. Cresci - e acredito que isso não foi algo proposital de parte dos meus pais, apenas penso que há 25 anos não tínhamos essa dualidade azul/rosa dos departamentos de brinquedos de hoje - brincando com dois jogos de computadores em minha escola. Tínhamos que pensar logicamente para permitir que os personagens sobrevivessem. E hoje temos esses brinquedos orientados por gênero. Os meninos ganham jogos ridículos em que dão tiros - e não sabemos qual o impacto psicológico que representa eles "manejarem" um rifle semiautomático e fazerem coisas horríveis - e as meninas ganham bonecas. O primeiro passo é que estamos sabendo e falando disso. 

O próximo é comprarmos brinquedos diferentes. Falo sobre isso o tempo todo com minha mãe. Livros são para todos. Livros sobre cientistas. E não apenas sobre homens fantásticos ou mulheres fantásticas - mas, sim, livros sobre pessoas fantásticas que estão mudando o mundo. Compre Lego. Quando você conversar com um engenheiro, ele vai dizer que estudou engenharia porque brincou com Lego na infância. Mas até o Lego está sendo submetido a essa separação de gênero! Há Lego para meninos e para meninas. As crianças devem ganhar presentes interessantes, excitantes, inspiradores. E nem todos os meninos e meninas são iguais. Alguns meninos, como foi o caso do meu irmão, gostam de brincar com bonecas. E algumas meninas gostam de brincar com carrinhos. Temos que reconhecer e respeitar isso.

A ciência não é uma área onde existe muita diversidade, especialmente no seu ramo, o da física. Você diz que as jovens enfrentam preconceito, o que as desestimula de seguirem nessas carreiras.

As meninas, durante a infância, têm lido determinados livros, brincado com determinados brinquedos e têm ouvido que elas pensam diferentemente dos meninos - há um jeito de meninos pensarem e um jeito de meninas pensarem. E que meninos são mais propensos a assuntos mais técnicos, como matemática, ciência da computação e física, enquanto as meninas são encaminhadas para as áreas de cuidado, de contato com pessoas, de ensino - são áreas muito valorosas, mas não exatamente as que pagam melhor, e não quer dizer que o verdadeiro talento delas esteja ali. Em geral, as meninas superam o desempenho dos meninos em tudo até os 15 anos, há testes mostrando isso. 

Elas se sentem muito confiantes durante a puberdade e até depois, quando começam a se questionar a respeito do que podem e o que não podem fazer. Mas a imagem estereotipada da ciência, a maneira como os pais e os professores falam de ciência e os conselhos a respeito de carreira que damos aos jovens, tudo isso faz com que as meninas sintam que elas não pertencem a esse universo. Aos meninos, dizem que eles podem fazer praticamente tudo. Dizem muito que eles são melhores em ciências e matemática, ainda que, na prática, não sejam. E não dizemos isso às meninas. Quando elas têm de fazer suas escolhas, não há essa mesma rede de apoio dizendo que elas podem fazer qualquer coisa que queiram. É um grande desserviço. Qualquer pessoa deveria ter a oportunidade de estudar o que desejasse. A perpetuação da ideia de que físicos e matemáticos são gênios e que vivem isolados também faz com que as meninas sintam que não pertencem a esse mundo e que não podem obter sucesso nele.

Você experimentou esse tipo de preconceito? Sentiu-se estereotipada?

Frequentei uma escola apenas para meninas. Muitas das mulheres que são físicas frequentaram escolas só para meninas, onde essas práticas são muito menos frequentes. Também tive muita sorte no Ensino Médio. Tive uma ótima professora de Física, eu tinha muita admiração e respeito por ela, mas foi só no doutorado que me dei conta de que ela sabia bem mais do que o currículo da disciplina. Existiu essa pressão da sociedade dizendo que essa carreira não era para mim, mas minha família me apoiou muito. Você ouve que pode estudar o que quiser na universidade, mas por que escolheria um curso com 90% de meninos brancos de origem privilegiada? É muito difícil. Tive muita sorte e me motivei a fazer algo pelos outros. A física tem uma crise massiva de diversidade, entre homem e mulher, mas também, severamente, em relação a pessoas negras.

Quando e como você decidiu começar a promover o aumento da diversidade na ciência?

Quando entrei na universidade e me dei conta do quão não diversificada ela era. Havia uma sub-representação de mulheres e uma super-representação de brancos. No doutorado, fui a escolas para falar com jovens sobre a importância de eles pensarem em estudar física, de se pensar na carreira, das pessoas incríveis por trás da figura do cientista. Fiquei frustrada porque não é muita coisa que conseguimos mudar com rapidez. Você pode ir até uma escola e falar com uma classe de 50 alunos, mas você não saberá quem vai estudar física, quantos vão estudar engenharia. 

Então comecei a trabalhar em algo mais envolvente, que é como ajudar os professores a melhorar o ensino da disciplina. Também me dei conta de que não estávamos festejando o suficiente as cientistas mulheres e os cientistas negros que já trabalham na atualidade. Há muita gente ao redor do mundo que não é reconhecida. Precisamos não apenas mudar a maneira como pensamos a educação; precisamos mudar a maneira como promovemos as carreiras científicas. E realmente precisamos nos aprimorar como comunidade científica, nos protegendo e nos celebrando.

Adorei saber que você é uma escritora serial de perfis de mulheres cientistas na Wikipédia. Foram 270 em apenas um ano, é isso?

Continuo escrevendo. Já são 750! Gosto do desafio. Comecei, casualmente, em janeiro de 2018, depois me coloquei o objetivo de escrever um por semana, mas daí pensei no impacto que teria... São 1,5 milhão de páginas na Wikipédia em inglês. Demoraria muito para que eu conseguisse ajudar as cientistas mulheres a serem notadas (risos). Passei a escrever um por dia. Às vezes, redijo mais de um. A Wikipédia é uma ferramenta fenomenal de acesso à informação. É um dos sites mais populares do mundo. Você pode compartilhar informação com todas as pessoas do planeta sobre o mundo que o rodeia. Acho importante que brasileiros que conheçam temas importantes para o Brasil, especialmente agora, neste momento de grande inquietação política, comuniquem melhor as informações, de graça, em uma plataforma na qual as pessoas confiam.

Li que o livro Inferior, de Angela Saini, mudou sua vida, quando você se deu conta de que a maior parte da história foi escrita por homens, sobre homens, para homens.

Angela observa o tipo de dados e experimentos científicos que, historicamente, vêm sendo realizados para tentar provar que homens e mulheres são diferentes. Mulheres teriam diferentes interesses, hobbies, capacidades. Ela analisa os cientistas que fizeram isso, como fizeram esses experimentos, e identificou quando havia preconceito. Na verdade, homens e mulheres são incrivelmente parecidos. A variação entre os cérebros dos homens ou entre os hobbies e interesses dos homens é muito maior do que a variação verificada entre homem e mulher. E estamos em um mundo que tenta separar homem e mulher em duas coisas muito, muito diferentes. 

O livro me ensinou isso e muito mais, como sobre as mulheres que, ao longo da história, disseram que isso não estava certo. Como poderíamos ser consideradas intelectualmente inferiores se não tínhamos acesso a nada a que os homens tinham, como educação, propriedades? Nós, mulheres, temos poder hoje. Podemos nos levantar e mudar as coisas. As pessoas têm uma voz que nunca tiveram antes, provavelmente por causa das redes sociais e pelo quão conectados estamos. Sim, esse livro mudou tudo.

É mais difícil para uma pesquisadora conseguir financiamento para uma pesquisa pelo simples fato de ser mulher?

Sim, muito mais difícil. O grande preconceito que existe nessa área já foi mostrado em estudos. Há sistemas que avaliam propostas baseadas no currículo e há sistemas que avaliam a proposta científica. Em sistemas que avaliam unicamente a proposta científica, mulheres e homens têm uma performance semelhante - na verdade, as mulheres, em geral, saem-se melhor do que eles. Quando a análise é baseada no currículo, as mulheres não vão tão bem. Pode ser preconceito por causa do nome feminino, pode ser porque o currículo é de inferior qualidade, já que elas precisam de tempo para a família e os filhos. Isso impacta muito na probabilidade de uma mulher obter sucesso com sua inscrição. 

Então há o preconceito das pessoas que estão tomando a decisão sobre o financiamento, há o preconceito durante todo o processo, que julga os candidatos com base no número de artigos publicados, com base no feedback que eles recebem dos alunos. E sabemos que a revisão feita pelos pares é preconceituosa também se você não é um homem branco - é preconceituosa contra a população negra e contra a população do Hemisfério Sul. O feedback dos alunos, se você é professor, envolve muito preconceito dependendo da sua nacionalidade ou se você é homem ou mulher. E tudo isso influencia quando você vai receber uma promoção ou uma oportunidade. Além de não beneficiar as mulheres, isso é um grande desserviço à ciência, impactando quem recebe fundos e qualquer pesquisa que se faça. As pesquisas conduzidas por mulheres deixam de receber investimento.

Você acredita que temos a chance, todos os dias, de desafiar os estereótipos. De que maneira?

Contamos histórias quando estamos ministrando uma aula ou escrevendo um livro. As vozes que você escolhe para isso são superimportantes. Ao falar de pessoas que contribuíram para uma descoberta, pesquise sobre as mulheres e os negros que batalharam para isso. Em aula, se falar de história, fale de mulheres que se destacaram, mesmo em áreas superinacessíveis, como a astrofísica. As mulheres não podiam nem se graduar em muitas universidades até o século passado, mas, mesmo assim, sempre houve mulheres construindo telescópios que permitiram observações incríveis. Tente integrar esses personagens a sua narrativa. 

E todos podem começar com a Wikipédia, o que me deixaria muito feliz. Escreva sobre ícones. Há tantas maneiras! Algumas pessoas usam o Instagram, outras, o Twitter, algumas são jornalistas, outras usam o rádio. Todos têm oportunidade de dar voz às pessoas, e não acho que utilizemos essas plataformas o suficiente. Outra ação importante é indicar as pessoas para prêmios, seja na comunidade, seja na universidade, seja no jornalismo. Se houver alguém, especialmente uma mulher ou um negro, que realizou algo importante e não está recebendo reconhecimento por isso, coloque-o em evidência.

Quanto tempo você acha que vai levar até que alcancemos um ambiente com real diversidade e igualdade na ciência e na sociedade em geral?

Tem um estudo muito interessante, realizado por Luke Holman, sobre presença de gênero em diferentes disciplinas científicas. Ele diz estamos no caminho certo nas ciências biológicas e que estaríamos a 16 anos de atingir a igualdade. Mas, na física, vai levar 260 anos se mantivermos o ritmo atual. É muito tempo para esperar. Acredito que esteja havendo um pouco mais de investimento em empresas fundadas por mulheres, mas precisamos é de uma reforma estrutural na educação. Precisamos pensar na maneira como ensinamos as crianças na escola. No momento, nada disso está mudando e não vem mudando há décadas e décadas. Também precisamos que o universo acadêmico seja mais receptivo, independentemente de origem social ou etnia. Assim, a academia se tornará um lugar mais sustentável e diversificado.

Vamos fazer de conta que estamos 50 anos à frente. O que você gostaria que estivesse escrito em seu perfil na Wikipédia?

Em 50 anos, gostaria de ser professora e de continuar trabalhando com os materiais com que trabalho hoje. E gostaria que todo o esforço em prol de mulheres e da população negra na ciência resultasse em oportunidades. As pessoas continuariam lendo sobre isso e a ciência seria, de fato, mais diversificada. Faremos uma ciência melhor quando tivermos que falar menos sobre a necessidade de diversidade e quanto mais praticarmos isso. Isso é o que realmente importa. Então, gostaria que o meu perfil na Wikipédia dissesse: "Ela fez tudo isso, tudo ficou ótimo e ela não precisou fazer mais nada. Todos ficaram felizes e foram para o laboratório". Espero que seja algo assim.
LARISSA ROSSO


05 DE OUTUBRO DE 2019
DRAUZIO VARELLA

CRIMINOSOS IMPUNES

Passei 19 anos escravizado pela dependência de nicotina, uma droga maldita que vicia mais do que o crack. A coluna de hoje tem uma particularidade, escrevi para quem não lê jornal, gente com menos de 20 anos que se informa pela internet.

Quando tinha a idade de vocês, eu era tímido, envergonhado e inseguro. Me achava muito alto, magro, desengonçado, meio feio, meio ridículo. Quando entrava no cinema, num restaurante ou em espaços públicos com pessoas desconhecidas, achava um jeito de correr para a cadeira mais próxima que me escondesse dos olhares alheios. Era campeão de sentar junto à porta do banheiro de restaurante, na mesa que batia sol, atrás da coluna que encobria parte da tela.

Nas festas, era um inferno. O que fazer com as mãos?

Enfiava no bolso, retirava, cruzava os braços, descruzava, encostava na parede, desencostava, segurava o queixo. Sentia que todos percebiam meu desconforto.

Aos 17 anos, comecei a fumar. O cigarro trouxe alívio. Mal chegava na festa, tirava o isqueiro, pegava o maço, acendia um e dava uma tragada cinematográfica. Por alguns minutos, pelo menos, uma das mãos ficava entretida no ritual que a televisão e o cinema exibiam com mulheres de olhares lânguidos e lábios sensuais, e homens maduros que montavam cavalos afoitos e pilotavam conversíveis ao lado das mulheres de olhares lânguidos e lábios sensuais.

No início, fumava apenas nas festas, depois, ocasionalmente, quando um amigo me oferecia, mais por exibicionismo, para mostrar que era adulto. Quando dei por mim, já tinha caído na mão do fornecedor: um maço por dia, todos os dias.

Passei 19 anos escravizado pela dependência de nicotina, droga maldita que vicia mais do que o crack. É a única que provoca crises de abstinência que se sucedem em minutos. Só quem passou por uma delas sabe o desespero que dá. A ansiedade e a irritação tomam conta da gente, você não consegue se concentrar, estudar, ler, conversar ou namorar, a única forma de fugir daquele suplício é fumar.

Crises de abstinência de maconha, cocaína ou anfetamina são brincadeiras de criança, perto das que a nicotina dispara 10, 20, 30 vezes por dia. Resistir a elas é tão desumano que menos de 10% dos que tomam coragem para enfrentá-las com determinação continuam abstinentes 12 meses mais tarde.

Larguei do cigarro muito antes de vocês nascerem. Hoje, a fumaça me incomoda, mas se eu der uma tragada por brincadeira, vou para a padaria comprar um maço. Você deixa de ser fumante, mas carrega a dependência pela vida toda.

Felizmente, a geração de vocês foi informada dos malefícios do fumo. Um trabalho persistente da sociedade brasileira conseguiu desmascarar a publicidade criminosa que associava o cigarro ao estilo de vida das mulheres maravilhosas e dos homens sedutores, para reduzi-lo ao que realmente é: um vício chinfrim que deixa você com mau cheiro, hálito repulsivo, pele doentia e, mais tarde, com as piores doenças que conheci na medicina.

Valeu o esforço educativo. Hoje, menos de 10% dos brasileiros com mais de 15 anos são fumantes. Éramos 60% na minha adolescência. Agora, fumamos menos do que os americanos e do que em todos os países da Europa.

Há anos repito que a indústria do fumo é a mais criminosa da história do capitalismo ocidental. Inconformada com a diminuição das vendas, desenvolveu uma estratégia demoníaca para assegurar seus lucros imorais: o assim chamado cigarro eletrônico, na verdade mero dispositivo para administrar nicotina. O objetivo: arregimentar multidões de crianças e adolescentes, dando-lhes a ilusão de que consomem um produto que não faz mal à saúde.

Olha o que aconteceu com os americanos. Mais de 25% dos estudantes com menos de 15 anos fumam eletrônicos, vendidos em cerca de 20 mil lojas, que rendem anualmente aos criminosos U$ 2,6 bilhões, arrecadados às custas de uma legião de 10 milhões de dependentes de nicotina.

Até o final de setembro, apenas nos Estados Unidos, o dispositivo apregoado como inofensivo havia causado 530 internações e oito mortes por insuficiência respiratória aguda.

No Brasil, a venda dessa invenção diabólica está proibida, mas cada vez mais adolescentes fumam dispositivos contrabandeados ou vendidos pela internet. Muitos têm 11 ou 12 anos de idade. São meninas e meninos ingênuos, que perderão a liberdade de viver longe da nicotina.

Não caia nessa. Ser jovem, inexperiente, tudo bem; trouxa, não.

DRAUZIO VARELLA

05 DE OUTUBRO DE 2019
JJ CAMARGO

O DESENCANTO DE NÃO MAIS ACREDITAR


A Justiça encolheu aos olhos do seu povo quando abandonou, em causa própria, a nobre missão de defender os dignos e jamais acobertar os canalhas

Pessoas que trabalham com as palavras podem usá-las de maneira dúbia, de modo a confundir o incauto leitor, que pode ouvir opiniões diversas e achar que é tudo a mesma coisa. O jornalista isento é aquele que leva a informação mais completa e sem contaminação, para que o receptor formule a sua opinião, amparado nas ideias prévias que ele tenha sobre o assunto. 

Enquanto isso, o jornalista comprometido com uma causa não resiste à tentação de aproveitar a oportunidade (a tal que faz o criminoso) de plantar nos espíritos ingênuos as sementes das suas próprias crenças. Com este tipo de autor, em geral, antes de terminar o primeiro parágrafo, já é possível perceber o seu viés ideológico, que, independentemente de ser de direita ou esquerda, conta para prosperar com a baixa capacidade intelectual do leitor. Com a grande imprensa ignorando o rumor crescente das redes sociais, resta a impressão de que o mundo real está dividido entre o que convém acreditar e o que é mais prudente chamar de fake.

Pois é nesse caldeirão que se cozinha a esperança do homem do povo, que deve pinçar o que acha que é verdadeiro para construir a sua própria convicção. O problema é que ele está exposto a uma doutrinação subliminar contínua, e assim, depois de um tempo, em que frases de efeito ficaram reverberando no seu cérebro adestrável, sem perceber, ele passa da apática posição de espectador à condição de militante convicto. 

Para melhor alcançar o objetivo deste patrulhamento mental, esses arautos da realidade questionável apelam à tática consagrada da repetição de chavões eivados de hipocrisia, e sempre aos gritos, como se a verdade definitiva estivesse dentro do casulo da surdez absoluta. E assim chega-se ao absurdo de devolver ao acusador, que encarcerou tantos ladrões defendidos pelos melhores advogados, a pecha de corrupto execrável. E tudo sem encabular, em nome de pretensa moralidade, como se a ética fosse um joguete que pudesse trocar de mãos, pela simples vontade dos que, sem ter argumentos inteligíveis, devolvem as acusações que não conseguiram refutar.

Sem artifícios novos, porque até a criatividade da safadeza tem limite, repete-se a estratégia utilizada por Collor que, numa desfaçatez histórica, festejou quando o STF o "inocentou" - porque as provas tinham sido obtidas sem mandado judicial, lembram? Aliás, as acusações, todas irrefutáveis, continuam lá, intactas, arquivadas, à espera de um historiador isento que, ao lê-las no futuro remoto, sentirá vergonha da humilhação a que se submeteu um povo tolerante, que de tanto ser ignorado há muito se despira da reserva moral da indignação. Ou há algo mais constrangedor do que, não podendo negar as acusações, apegar-se à pobreza de argumentar que as provas foram tecnicamente contaminadas e esperar que alguém possa supor que isto é sinônimo de inocência?

Para aumentar o desencanto, a Justiça, pretendida como última esperança, encolheu aos olhos do seu povo quando abandonou, em causa própria, a nobre missão de defender os dignos e jamais acobertar os canalhas. Pois este séquito de iniquidade é acompanhado com desvelo mentiroso por uma legião de formadores de opinião, que se dividem entre os cegos por conveniência e os muitos que estão interessados apenas em assegurar seus futuros individuais. E assim se constrói a nação dos cada um por si, onde nem Deus aguentará ser por todos.

JJ CAMARGO



05 DE OUTUBRO DE 2019

DAVID COIMBRA

Como enfrentar um valentão

Antes, as pessoas diziam: - Aquele lá é um baita dum "provalecido"! O certo é "prevalecido", mas acredito que o provalecido se popularizou por ter mais força. Um provalecido, afinal, precisa ser forte. Porque (vamos empregar a forma correta) o prevalecido é nada menos do que o antigo valentão, o atual bully - aquele que pratica bullying.

Todo lugar tem um desses seres abjetos. A grande questão é: como enfrentá-los?

Meu avô me contava que a fábrica em que ele trabalhava quando guri tinha um sujeito assim. Escrevi "quando guri" e não exagerei - já aos 10 anos de idade meu avô esmigalhou o dedo indicador da mão esquerda no torno de uma fábrica de sapatos de Hamburgo Velho. Num tempo sem proteções trabalhistas, como sonham os liberais extremos de hoje, o gerente simplesmente enrolou o dedo dele em um pano e o mandou para casa. Para toda a vida, meu avô ficou com o dedo torto, em gancho. Eu gostava daquele dedo, achava até uma distinção e pensava que meu avô não se importava com ele. Mas, um dia, eu o ouvi falar que acalentava o sonho de usar um anel. Estranhei:

- E por que tu não compra um anel, vô? Ele estendeu os braços, abriu os dedos e perguntou:

- Como é que vou usar um anel nessas mãos? Mas o que interessa é que havia um valentão na fábrica em que ele trabalhava. O rapaz, mais velho e maior, vivia provocando-o. Todas as manhãs, ele o empurrava, ele o ameaçava, ele tornava um inferno a sua vida, que já não era fácil. Até que um dia meu avô traçou um plano. Deixou ao alcance da mão uma fôrma de sapato. Você sabe como é uma fôrma de sapato? É uma barra de ferro com uma espécie de pé de madeira na extremidade, pesada, quase uma maça medieval. Foi essa arma que meu avô empunhou, disfarçadamente, enquanto o valentão se aproximava no começo daquele dia, quase cem anos atrás.

Meu avô fez de conta que não via que ele vinha, fez de conta que estava concentrado no trabalho. Permaneceu de cabeça baixa, simulando distração, mas monitorando a chegada do valentão. E, no instante em que o bully tocou em seu ombro para caçoar dele, ele não vacilou: girou o corpo, soltou o braço e acertou o outro BEM NO MEIO DA CARA com o pé de madeira da fôrma. O grandão grunhiu, rodopiou e desabou com o golpe. Meu avô ia finalizar o trabalho, mas viu que o rosto dele havia se transformado em um xisbúrguer e desistiu.

Nem preciso dizer que nunca mais o rapaz o incomodou, mas digo mesmo assim.

É como tem de ser: se o seu inimigo for mais forte, não o enfrente com as mãos limpas, não vá para campo aberto, nem para o meio do ringue. Planeje. Faça uma estratégia. Proteja-se. E ataque de inopino, com decisão e violência. Surpreenda o biltre!

É o que o Grêmio tem de fazer para bater o Flamengo no dia 23. Precisa dissimular, precisa se fechar, precisa atacar só na hora certa. Ou vai levar uma surra.

DAVID COIMBRA


05 DE OUTUBRO DE 2019

MÁRIO CORSO

Derrubando o síndico

Uma vizinha nova chegou com um carro elétrico zero-quilômetro. Os vizinhos consideraram, modelo importado, elegante. Não só chique como ecologicamente correto. Ultratecnologia brilhando na garagem. Move-se sem ruído, feito um felino de lata.

Se no primeiro momento houve euforia, no segundo momento nem tanto. Foi o do 406 que notou a conexão junto à tomada na parede da garagem e comentou:

- Pois é, mas no fim nós é que pagamos os passeios. - disse apontando para a fonte de energia que recarregava o carro.O do 501 já subiu o tom:

- Que absurdo, o condomínio arcando com a eletricidade dela. O quanto isso impacta na nossa conta?

O do 603 emendou: - Não importa o que custa, mesmo que mínimo, é dinheiro nosso. Eu sou contra.

A do 502 vinha passando e engrossou o coro: - Nós estamos sendo roubados, você percebem? A do 403 raciocinou: - Dando golpes, até eu compro um carro desses!

O do 401, quando se inteirou do assunto, fez um grupo de WhatsApp entre eles para divulgar o fato. Decidiram não incluir o síndico para pegá-lo de surpresa. Poucas horas depois, o prédio fervia com o caso de desvio de energia do condomínio.

Acreditavam que essa era a deixa para mudar de direção. Era um ultraje a situação. Piorou quando souberam pelo porteiro que o síndico não só permitiu a instalação da tomada especial como fiscalizou o trabalho do eletricista.

Foi o do 303 quem insinuou que o síndico e a vizinha... Bom, vocês entendem. O que mais poderia justificar uma corrupção dessas? As mensagens não paravam durante o dia todo.

Foi o do 403 quem pediu ao síndico, em nome de todos, uma assembleia urgente sem revelar os motivos. O síndico estranhou, a principio relutou, mas terminou aceitando.

Enquanto isso chapas de oposição eram montadas. Difícil o consenso sobre quem seria síndico, já que ninguém topava nem ao menos ser do conselho. Isso seria assunto para depois da derrubada. O importante era parar o descalabro. O essencial era que corrupções como essa não ficassem sem resposta.

No outro dia, no começo da reunião, o síndico tomou a palavra:

- Enquanto os outros chegam, relato pessoalmente o que está na última correspondência, já que poucos leem. A nova vizinha precisava de uma tomada para seu carro elétrico. Por isso chamou um eletricista para puxar a energia do seu painel principal até a garagem. Já que era a única beneficiada pagou do seu bolso. Mas como acredita que essa é uma tendência, fez o eletroduto - que é o mais caro - mais largo, para passar os próximos cabos de quem vier a optar por carros elétricos. Portanto, queria agradecer em meu nome a generosidade dela, que beneficiará a todos no futuro.

A do 301 pergunta: - Então a energia da tomada é dela?

O síndico responde: - Óbvio, de que outra forma seria? Mas, já que estamos todos, por que pediram a assembleia?

MÁRIO CORSO

05 DE OUTUBRO DE 2019
ARTIGOS

LIÇÃO DE ONODA

Um dia, lá pelo final dos anos 1980, passando por Terenos encontrei em uma loja de produtos agrícolas um japonês que "papeava" após fazer algumas compras. Conversa boa. Ele já falava um português "entendível". Quem o visse assim tranquilo pensaria tratar-se de pessoa comum.

Todavia, era Hiroo Onoda, uma celebridade, o penúltimo soldado a combater na Segunda Guerra Mundial. Localizado nas selvas filipinas, só aceitou render-se, em 1974, depois de autorizado pelo seu comandante dos tempos da guerra, que teve que ir até lá para isto. Após a rendição, não se adaptou ao Japão moderno. Alguns parentes haviam emigrado para Mato Grosso do Sul e ele conheceu e gostou do lugar. Escolheu uma mulher como esposa e Terenos para viver. Recebeu os salários atrasados e comprou uma fazenda por lá. E naquele momento estava ali, papeando e tomando tereré...

Durante anos, Onoda lutou a sua própria guerra, caçando e matando os filipinos (mais de 30) que cruzassem o seu caminho. Até que, informado do fim das hostilidades, voltou a uma vida normal. O que isto tem a ver com a Lava-Jato? Como Onoda, o Brasil tem que voltar a ter vida normal. Só que, ao contrário do soldado, a operação não consegue se convencer disto. O país viveu uma convulsão, mas na sequência veio uma eleição limpa e pacífica. Agora é preciso voltar à normalidade, com a corrupção e os outros crimes sendo combatidos com vigor, mas dentro da legalidade.

No Japão, muitos queriam que Onoda continuasse matando gente nas Filipinas. A mesma coisa acontece por aqui com os lava-jatistas fanáticos que insistem na guerra eterna. Há alguns dias, nestas páginas meu amigo Luiz Coronel empunhou seu fuzil. Não é um fanático, mas pensa como tal ao relativizar a necessidade de a Lava-Jato se adequar à legalidade.

A fase dos tiros acabou e a operação, que prestou serviços relevantes ao país, tem que aceitar respeitar a lei, o devido processo legal, a presunção de inocência, o sigilo dos processos, os direitos individuais, a ampla defesa, a voluntariedade das delações e a honra e a reputação das pessoas. Essas coisas simples, mas que definem o Estado democrático de direito.

Resumindo: ou a Lava-Jato aceita, como Onoda aceitou, voltar à normalidade e passar a combater o crime sem praticar crimes, ou então tem que realmente acabar.

É o que penso!

Advogado, engenheiro, ex-ministro-chefe da Segov/PR marunadv@gmail.com
CARLOS MARUN

05 DE OUTUBRO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

OS GUARDIÕES DA INFÂNCIA

Serão escolhidos neste domingo, em todo o país, os conselheiros tutelares que, pelos próximos quatro anos, ficarão responsáveis pela proteção das crianças e adolescentes brasileiros, principalmente os que estão em situação de vulnerabilidade. Seja qual for a classe social da família. Qualquer eleitor pode e deve participar do processo. Basta estar com o título em dia e comparecer, portando documento com foto, nos locais de votação, que são informados pelas prefeituras e conselhos municipais dos direitos da criança e do adolescente.

Tão importante quanto o sufrágio é acompanhar, depois, a atividade dos conselheiros eleitos pelo voto direto, assim como cobrar dos Executivos locais que assegurem meios materiais e humanos para que o órgão desempenhe bem suas atribuições. Sua função primordial é a de ser os olhos da sociedade na luta pela garantia de que os menores não terão seus direitos violados, por ação ou omissão do poder público ou de seus responsáveis legais. Violência, exploração, abuso, discriminação, opressão ou casos de crueldade são algumas das situações que demandam a intervenção dos conselhos tutelares e, muitas vezes, acabam gerando medidas protetivas.

Mesmo que não seja uma eleição com a mesma visibilidade e as paixões dos pleitos que elegem presidentes, governadores e parlamentares, também é tarefa da cidadania zelar pelo desenvolvimento sadio, harmonioso e digno dos futuros adultos do país. Esta delegação é conferida aos conselhos tutelares, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), implantado há quase três décadas no país.

Além da idoneidade, um bom candidato tem de conhecer o ECA, ser da comunidade onde vai atuar e demonstrar compreensão de suas responsabilidades e da relevância do cargo. Uma parte dos postulantes, demonstrando transparência, disponibiliza pequenos currículos, auxiliando o eleitor interessado na hora de definir o voto. Por parte das prefeituras, também há muito o que evoluir para ampliar a divulgação das informações relacionadas ao processo eleitoral e, por consequência, engajar mais a população. Ao menos nos municípios maiores do Estado, a relação dos candidatos e orientações gerais estão disponíveis nos sites do Poder Executivo.

Se a pouca atenção da sociedade, nos últimos anos, abriu espaço para que pessoas se candidatassem apenas pelo interesse na remuneração ou por vislumbrarem a chance de um impulso para carreira política, chegou a hora de contribuir e aumentar as chances de que os escolhidos tenham verdadeira vocação para a tarefa. Participar de forma consciente da escolha dos novos conselheiros, portanto, é colaborar para a construção de um país melhor.

OPINIÃO DA RBS


05 DE OUTUBRO DE 2019
DUAS VISÕES

Desenvolver para proteger

O que é sustentabilidade? A própria palavra nos dá uma direção: é a capacidade de se sustentar, de se manter, de garantir a permanência. Pois o novo Código do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul, recentemente encaminhado pelo governo do Estado à Assembleia, leva esse conceito em sua essência. O projeto, que moderniza a legislação sobre a matéria, é um marco que une preservação da natureza e desenvolvimento socioeconômico.

Foi-se o tempo em que esses dois temas eram vistos de forma antagônica. A vida real nos mostra que é impossível assegurar a proteção ecológica sem que se gerem riquezas e haja recursos à disposição. Da mesma forma, a prosperidade econômica só resiste com um profundo respeito ao meio ambiente. É como uma construção amparada por dois pilares - e, se um deles quebra, tudo desmorona. Sustentabilidade é isso.

Com o novo Código, o governador Eduardo Leite busca oferecer um processo menos burocrático a quem quer empreender aqui, sem descuidar da natureza. Conferindo maior participação da sociedade no processo, a liberação de negócios de baixo impacto ganhará agilidade - enquanto os técnicos terão mais atenção e rigor aos de alto impacto. No projeto que estamos propondo, com todo o embasamento técnico e segurança jurídica, alinharemos as normas estaduais às federais. Na prática, isso garantirá mais competitividade às nossas empresas.

Os gaúchos estão, enfim, compreendendo o papel do setor privado na preservação. Atualizaremos as leis vigentes, em um código que já dura 19 anos e poucas vezes foi modificado. Quase duas décadas se passaram e a vida mudou muito: novas tecnologias e a revolução digital transformaram a sociedade. E o Rio Grande do Sul não pode ficar para trás justamente em um ponto tão primordial como o meio ambiente.

O documento é resultado de um relatório produzido por uma subcomissão parlamentar ainda em 2016. Naquele ano, foram quatro meses de debates sobre o assunto - seguidos de quase 500 alterações baseadas em considerações e recomendações de diversos segmentos. Todo esse trâmite permitiu que os deputados e a população compreendessem do que estamos falando.

Agora, é chegado o momento de um processo legislativo mais célere, mas não menos cuidadoso, para que os representantes no parlamento tomem a decisão que dê voz à sociedade gaúcha. E a dinâmica da sustentabilidade sugere o caminho: é preciso desenvolver para proteger.

Secretário estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura gabinete@sema.rs.gov.br
ARTUR LEMOS JÚNIOR

05 DE OUTUBRO DE 2019
DUAS VISÕES

Toda a atenção será necessária

Em tempos de distúrbios ambientais que obrigam a migração de populações, desequilíbrio social, instabilidade das grandes economias, ruído entre gigantes, vemo-nos obrigados a lidar com questões decisivas, que dizem respeito à ordem ambiental do Estado e à própria qualidade de vida. A hora nos chama e é preciso colaborar para que a proa da embarcação aponte para nossas necessidades, pois as mudanças também ocorrem a partir das realidades locais. Refiro-me, nesse aspecto, ao projeto de novo Código Estadual Ambiental, em trâmite na Assembleia Legislativa. É nesse contexto que estamos diante da iminência de uma decisão com potencial de alterar significativamente o sistema normativo que imprime proteção sistêmica ao ambiente local, capaz de afetar as condições naturais hoje resguardadas.

Dentre os pontos que nos despertam atenção está a LAC - Licença Ambiental por Compromisso, modalidade pela qual o interessado produz sua própria licença baseado, inicialmente, em suas declarações inseridas em plataforma eletrônica e com critérios preestabelecidos. Não há dúvida de que isso nos preocupa, sobretudo porque não há uma limitação ao uso desse instrumento no PL 431/2019, permitindo alcançar atividades mais impactantes, como, por exemplo, as de médio e grande potencial poluidor. Por outro lado, a agilidade nos licenciamentos ambientais de forma responsável é um dever do Estado, e não haverá impedimento pelo Ministério Público.

O objetivo da instituição, porém, é somar esforços pela nossa expertise agregada ao longo do tempo. Com o compromisso de ser proativo e propositivo para oferecer ao parlamento - espaço legítimo de debate e deliberação - alternativas agregadoras compatíveis com os novos tempos e com as necessidades da sociedade de crescimento e de proteção do meio. Assim, não será o MP um óbice ao desenvolvimento econômico de modo sustentável.

Creio seja este o papel do Ministério Público neste momento de intensa transição de modelos, que pretende formatar uma nova gestão ambiental para o Estado do RS. Estamos cercados por novos tempos, em que inovações de alto nível tecnológico nos beneficiam, mas também nos encaminham rumo ao desconhecido. Toda a atenção será necessária! 

Promotor de Justiça, coordenador do Centro de Apoio Operacional de Defesa do Meio Ambiente do MPRS caoma@mprs.mp.br
DANIEL MARTINI


05 DE OUTUBRO DE 2019
ACERTO DE CONTAS

"No dia em que resolver comprar, o cliente quer o produto na hora"

ENTREVISTA: JOÃO APPOLINÁRIO, Presidente da Polishop

Nascida no canal de televendas em 1999 e agora um império do varejo, a Polishop começou a implementar também em Porto Alegre o formato de "entrega expressa". A modalidade faz com que produtos cheguem na casa do cliente em, no máximo, duas horas. Em parceria com a empresa de logística Loggi, o formato já funciona em São Paulo e Santa Catarina. O serviço expresso custa R$ 20 para um raio de três quilômetros da loja. Depois, cada quilômetro extra custa R$ 1. Em Porto Alegre, a Polishop tem operações em três shoppings. Presidente da rede de varejo, João Appolinário conversou com a coluna para falar da nova aposta da empresa.

Como a Polishop identificou a necessidade de uma entrega expressa?

Foi um processo natural. Nascemos como uma empresa multicanal, na televisão, internet e call center. Em 2001, fomos para o catálogo. Em 2003, abrimos nossas primeiras 10 lojas. Nosso objetivo é atender o cliente onde ele estiver. Estou preocupado é em prestar um bom serviço, independente se é para 2%, 10%, 50% dos meus consumidores.

Como é a presença no RS?

Estamos presentes nos principais shoppings e costumamos olhar sempre para cidades maiores. Normalmente, não fazemos uma pesquisa de qual seria uma cidade ideal.

Você acha que alguns produtos serão mais procurados na entrega expressa?

Não vejo uma categoria específica de produtos. O que vejo é que, muitas vezes, e isso é normal do ser humano, a pessoa passou uma vida inteira sem ter aquela mercadoria e, no dia em que resolve comprar, quer receber o produto na hora. Me coloco como consumidor e é isso que gostaria. A taxa de entrega é muito pequena.

De onde vem o produto encomendado?

Se você compra pela internet ou pelo call center, o próprio sistema identifica pelo geolocalizador onde você está e indica em qual loja mais próxima tem aquele produto. Se você optar por ir buscar na loja, ele já separa esse produto, emite a nota fiscal e fica durante dois dias a sua disposição. Na expressa, é entregue dentro das duas horas.

Como você vê a revolução que ocorre no varejo?

A Polishop se orgulha de ter nascido multicanal, e a grande revolução que está acontecendo no varejo é exatamente essa: a integração dos canais. São diferentes canais sendo integrados para atender melhor o consumidor. Todos os canais com o mesmo produto, a mesma oferta e mesmo preço. E o consumidor, de uma forma muito simples, pode usar qualquer um desses canais.

GIANE GUERRA

05 DE OUTUBRO DE 2019
CARTA DO EDITOR

O Rio Grande mais grisalho

A reportagem assinada pelo jornalista Caio Cigana que ilustra a capa desta edição e ocupa quatro páginas do caderno Vida revela uma data simbólica para os gaúchos.

A partir da próxima segunda-feira, dia 7, o Rio Grande do Sul se tornará mais grisalho. É quando se estima que o número de pessoas com 60 anos ou mais será superior ao de crianças e adolescentes até 14 anos. A projeção é da SeniorLab, consultoria de mercado voltada ao público maduro, com base nos dados do último Censo do IBGE.

O novo cenário no mais meridional Estado da federação inquieta Tulio Milman, editor de Opinião do Grupo RBS, idealizador do projeto A Era 60+ Ideias para o Futuro, que se inicia neste final de semana e terá conteúdo em Zero Hora, GaúchaZH, Rádio Gaúcha e Atlântida pelos próximos quatro meses:

- Como estamos nos preparando e o que podemos fazer para não sermos surpreendidos? Serviço público, serviços, turismo, enfim, todo mundo precisará se adaptar a essa realidade.

Uma sociedade amadurecida é resultado da queda do número de filhos por mulher no país combinada com a longevidade cada vez maior da população. É um fenômeno que, no Estado, avança com velocidade maior do que a média nacional. A pretensão de A Era 60+ Ideias para o Futuro é jogar luz sobre um assunto de alta relevância. Vamos discutir até janeiro o envelhecimento sob a perspectiva da sociedade e do poder público, com foco em mobilidade urbana, mercado de trabalho, lazer, consumo, saúde pública. O tema é tão amplo quanto complexo.

Como tudo o que fazemos na Redação Integrada, o projeto será multiplataforma:

Teremos 15 artigos em ZH e GaúchaZH dedicados ao tema (o primeiro, na segunda-feira, de Martin Henkel, fundador da SeniorLab).

Três podcasts (programas em áudio) em GaúchaZH.

Entrevistas e reportagens na Rádio Gaúcha e na Atlântida.

O assunto envelhecimento é caro para a família Milman, que há décadas se relaciona com o tema. O advogado Gildo Milman, pai do Tulio, um voluntário de causas sociais, presidiu o centenário Asilo Padre Cacique, na Capital, por 16 anos.

- Uma das lembranças que eu tenho do tempo em que o meu pai era presidente é a de um cego conduzindo a cadeira de rodas de um homem sem as duas pernas. Foi um exemplo de solidariedade - recorda Tulio.

É também sob a inspiração de Gildo, hoje com 87 anos, que A Era 60+ foi desenvolvido. Bem-vindos a um tema tão amplo quanto complexo que, cada vez mais, vai impactar direta ou indiretamente as nossas vidas.

CARLOS ETCHICHURY

sábado, 28 de setembro de 2019


28 DE SETEMBRO DE 2019
LYA LUFT

Pode ser mais simples

Almas aflitas, inseguros no turbilhão de informações corretas ou tresloucadas que nos confundem, em que até altas figuras fazem e refazem, decidem e se enrolam, vivemos vulneráveis a toda sorte de famigeradas "receitas" baseadas na futilidade geral: seja bem-sucedido, segure seu marido, enlouqueça sua mulher, tenha pelo menos dois orgasmos a cada relação, jamais envelheça etc. Como tudo está cada vez mais complicado, e andamos desgovernados, encalhados ou jogados por marés imprevistas, desistindo de prever qualquer coisa porque tudo se levanta e desmorona em questão de horas, acabamos nos aferrando a algum desses preceitos espalhados por toda parte.

É a era das receitas, das frases feitas e clichês, adaptados a milhares de desiguais como se assim carimbados não tivessem individualidades. Somos uma manada, o que oferece conforto, mas aniquila o espírito. Rouba a liberdade, mata a originalidade. É essencial - nos aconselham - fazer como todo mundo, frequentar o restaurante da hora, o cabeleireiro idem, ler aquele best-seller sem saber do que trata, conhecer as Bahamas, dar uma passadinha em Paris. Transpirando e lutando para pagar as reles contas do dia a dia, corremos ofegantes em busca disso que não podemos avaliar nem alcançar, eternamente frustrados.

Se prestarmos atenção a muitas mutantes e loucas recomendações, havemos de nos divertir: Não beba muito café; café faz bem. Não tome aspirina demais; tome uma por dia (a infantil, claro). Vitaminas não ajudam; tome esse moderno complemento de vitaminas. Faça exames a cada poucos meses; não faça exames demais. Álcool faz mal; uma taça de vinho faz bem. Exercite-se diariamente; não se esforce demais. Coma só carboidratos, evite carboidratos; fuja das gorduras, coma bacon e ovo frito todo dia no café da manhã... além dos grotescos conselhos sobre sucesso profissional, sexual, e ser linda(o), "ser famoso".

Mesmo em assuntos mais sérios, há declarações duvidosas, como "Quem não lê é uma pessoa triste". Desculpem, amigos, leitores, ex-alunos e colegas escritores, mas isso é mais uma empulhação. Quem não lê sabe menos, se diverte menos, tem menos bagagem interior, visão bem mais estreita de mundo, talvez fique mais solitário (livro é um belo companheiro) - mas não precisa ser "triste". Os mais ignorantes, quem sabe, andam mais alegrinhos por não fazerem ideia do festival de enganos e desfaçatez em que nos enredam.

Atenção: não estou dizendo que a gente não siga ao menos essa receita, de ler mais. Mas não reside nisso nossa tristeza: apenas, lendo, nossa alma se expande, cria varandas como dizia um amigo meu; aprendemos história, arqueologia, psicologia, saboreamos beleza, nos intrigamos, nos conhecemos melhor, curtimos "as franjas das palavras", seus muitos sentidos - se soubermos ver. Tudo pode ser mais simples do que nossa aflição com receituários financeiros, psicológicos, sexuais.

Numa palestra, me perguntaram por que alunos deveriam estudar. Não precisei refletir. Do fundo dos meus tantos anos e experiências, fracassos e tolices cometidas, respondi o que julgo ser a verdade mais simples: "Devem estudar para não ficarem burros".

De modo geral, em quase tudo a simplicidade nos salva. Coluna publicada na edição de 10 e 11 de dezembro de 2016

LYA LUFT