sábado, 12 de outubro de 2019



12 DE OUTUBRO DE 2019
LEANDRO KARNAL

ROTULO, LOGO EXISTO

PENSAR EM APROFUNDAR, DAR UMA SEGUNDA OLHADA, FUGIR DO RÓTULO: PARECEM SER ATITUDES QUE EXIGEM O DESAFIO DA VONTADE FÉRREA. DEIXAR QUE SENTIDOS MAIS AMPLOS INVADAM SUA PERCEPÇÃO SEM JULGAR E ENGAVETAR DE IMEDIATO É UM ATO DE RESISTÊNCIA. ABRIR ESPAÇO PARA COMPLEXIDADES É BOA META.

Nosso cérebro é uma complexa estrutura forjada por milhões de anos de evolução. Por outro lado, é também primitivo e foi lapidado para seres trogloditas que viveram há milhares de anos. É curioso pensar que o mais refinado, erudito e urbano dos moradores deste planeta tenha o mesmo hardware que um caçador coletor que passou a vida errando em uma pequena área de algum lugar em busca de comer, aquecer-se e garantir a reprodução.

Estou sendo injusto em minha descrição. Nosso primitivo ancestral era capaz de realizar pequenas cirurgias, tecer, fazer ferramentas de pedra. Tente criar algo assim em casa e você verá que somos menos autônomos do que um coletor do Paleolítico. Mas estou sendo preciso quando comparo nossos cérebros.

Desenvolvida para uma chave amigo-inimigo, nossa mente tende a rotular tudo o que vê, julgando a novidade de acordo com seu conhecimento prévio. Isso garantiu nossa vida por muitas gerações: se eu comer algo que me faz mal, toda vez que olhar para algo semelhante, sentirei repulsa. Nosso cérebro rotula de acordo com a percepção de nossos sentidos. Isso pode ser bom para evitar perigos, porém, cria problemas para nossa atualidade

Se eu tivesse que arriscar um esboço do que seria o pensamento médio das pessoas, hoje em dia, ele seria similar ao da mente primitiva dos antepassados paleolíticos. Formamos bandos com facilidade. Yuval Harari chama a atenção para como a detração é uma poderosa cola social. Fofocando, crio laços, forjo alianças, consigo favores, ganho poder. Desde sempre, nossa espécie previamente classifica o que vê antes mesmo de buscar compreender o que tem na sua frente. O pavor instintivo da novidade me faz rejeitá-la. Repetir o que é conhecido foi estratégia evolutiva para que o homem primitivo continuasse andando pelo planeta.

É claro que nós também somos conhecidos por sermos uma espécie que foge da natureza animal e que cria e modifica culturas. Portanto, há também um instinto inquisitivo, que gosta de descobrir coisas novas, explorá-las. No entanto, a sensação é que ele anda em baixa em nossos tempos. Nosso software quer novos programas; o hardware se apega à classificação empobrecedora de bom/ruim e desconhecido/conhecido.

Retorno ao ponto central: o que faz alguém ler uma manchete, ouvir um trecho de uma fala e, instantaneamente, apontar o dedo e dizer "Fulano é liberal", "Esse é comunista" etc.? No geral, quem afirma isso nem sequer tem clareza do que é liberalismo ou comunismo, tampouco consegue passar da superfície do que diz seu interlocutor, seja um texto, imagem, pessoa, vídeo ou áudio. Classificar, para o cérebro primitivo que se contenta em viver na caverna, é mais importante do que entender. Por quê?

Encerrar em caixas herméticas dá segurança. Começamos com a minha tribo e a do outro. Se é da minha, diminuem as chances de ataque. Classificar é a primeira forma de dominar e de se defender. O vício entrou em nós. Da tribo, passamos a gostos musicais e sexuais ou escolas artísticas. Será que a peça é rococó ou maneirista? Art Déco ou Nouveau? Primeira ou segunda fase do Romantismo? Naturalismo ou Realismo? Classificar não é ruim ou errado. Supor que algo esteja controlado mentalmente por estar etiquetado é, no fundo, estupidez.

Há pelo menos duas formas de entender o fenômeno. E elas não são excludentes. Talvez até se complementem. Vejamos. A primeira corrente vê na estupidez da rotulação imediata um traço humano. Sempre fomos estúpidos, violentos. A sociedade ficou mais complexa, criamos leis que dificultam ser assim, mas, em nossas essências, somos os mesmos de sempre: estúpidos. Por outro lado, há quem afirme que o tempo curto da internet, o imediatismo atual, produz superficialidades, impede o raciocínio profundo, pois este requer o questionamento de bolhas epistêmicas e, mercadoria cada vez mais rara e cara, tempo de reflexão, ponderação. 

Há idiotas que encontram eco em bandos de pessoas como eles e isso potencializa os danos. Não seria uma essência, necessariamente, todavia um feitiço, uma tentação oferecida por algoritmos do universo digital. O canto de sereia nos atrai para a morte. Ambas as teorias podem se juntar numa poderosa, mas talvez equivocada explicação: somos todos primitivos e temos tendência ao preconceito; quando nutrimos o oposto, escapamos da caverna; mas, quando sucumbimos ao tentador de grupos de redes sociais, o verniz vai embora e o troglodita volta a comandar nosso cotidiano.

Trata-se de um treinamento reverso. Tudo pede que você classifique continuamente. Resistir à tentação é um desafio. Pensar em aprofundar, dar uma segunda olhada, fugir do rótulo: parecem ser atitudes que exigem o desafio da vontade férrea. Deixar que sentidos mais amplos invadam sua percepção sem julgar e engavetar de imediato é um ato de resistência. Abrir espaço para complexidades é boa meta. O resto? O rema-rema de frases superficiais, senso comum e a celebração da boçalidade. Talvez, um dia, descubram que se trata de uma bactéria específica transmitida pela digitação. O remédio continua sendo ler com atenção, duvidar como método, analisar possibilidades fora do que está posto e nunca ser o representante da verdade na Terra. Ah, e ajuda abandonar as redes sociais por pelo menos uma hora por dia. É preciso ter esperança.

LEANDRO KARNAL


12 DE OUTUBRO DE 2019
FRANCISCO MARSHALL

A MORTE DE SÓCRATES

Em 399 a.C., Atenas cometeu um dos mais sórdidos crimes da História, a execução de Sócrates. Como pôde uma cidade democrática, em que há lugar precioso para a liberdade, a vida das ideias e as garantias judiciais, condenar um homem de pensamento, bom cidadão?

O evento foi examinado por Platão em quatro obras: Êutifron, Apologia de Sócrates, Crítias e Fédon. Na Apologia, Sócrates apresenta sua defesa diante do júri de cidadãos da Heliaia, o tribunal popular, acusado de perverter a juventude e de impiedade, por introduzir novas divindades. A Apologia é o primeiro monólogo da história da literatura, diverso do estilo que consagrou Platão, o diálogo. É um texto trágico, onde vemos o homem debater-se diante de destino incontornável. 

Em grande parte ficção composta por Platão, é nesse livro que apareceria a frase atribuída a Sócrates, "só sei que nada sei", paradoxo que põe em contradição saber e não saber, pois se nada sabe, não pode saber nem que não sabe. A sentença original, todavia, não contém paradoxo, apenas refere o principal argumento da defesa, de que ele se tornou antipatizado ao tentar encontrar, sem sucesso, algum ateniense que detivesse saber verdadeiro. Diz então que um de seus arguidos: "Sem saber nada, imagina que sabe, mas eu, sem saber, de fato, coisa alguma, não presumo saber algo" (Apologia, 21d).

Sócrates sabe, sim, que nada pode diante da opinião pública adversa, e que seu julgamento é uma farsa, em que triunfam alegações sem evidência, para saciar aos rancores de homens ultrajados por sua virtude. Para piorar, o réu provoca os jurados com sua insolência (hybris), dizendo que deveria ser, ao invés de condenado, sustentado pela cidade. O monólogo termina mostrando um filósofo que aceita o destino trágico e prepara-se para a morte, tema do diálogo Fédon, em que Sócrates bebe cicuta enquanto argumenta acerca da imortalidade da alma. Antes disso, no Críton, discute sobre a justiça e recusa a chance de sair da prisão indevidamente.

Há fatos políticos graves por trás da condenação de Sócrates. O regime democrático enfrentou, desde sua origem, a oposição de parte da aristocracia ateniense, os eupátridas (bem nascidos). Sócrates vivia sustentado por esse grupo, que realizou o golpe de Estado de 411 a.C., instituindo um regime tirânico, liderado por Crítias, aluno de Sócrates, e que executou sem julgamento centenas de atenienses. Com a restauração da democracia, e após Atenas perder para Esparta a Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.), iniciou-se a caça às bruxas, e o mestre era visto como o guru do grupo antidemocrático. O clima era contra Sócrates, que já havia sido ridicularizado por Aristófanes como líder de alienados e promotores de cacoetes, na comédia As Nuvens (423 a.C.), origem do discurso antiacadêmico.

Anos depois, revoltado com o que Atenas fez com seu mestre, Platão escreveu seu célebre ataque à democracia, a República, em que defende o governo autocrático do rei filósofo, a resposta ao regime que matou pensador. Quem morreu com aquela condenação injusta, o réu ou a democracia?

FRANCISCO MARSHALL


12 DE OUTUBRO DE 2019
COM A PALAVRA - leonardo.vieceli@zerohora.com.br

SOMOS IGNORANTES EM RELAÇÃO À CHINA.


ENTREVISTA COM: RICARDO GEROMEL, Administrador, 32 anos Chama a atenção o fato de ele ser o irmão caçula do ídolo do Grêmio Pedro Geromel. Mas Ricardo, que hoje vive na China e acaba de lançar livro sobre o país asiático, é bem mais do que isso. Ele esteve em Porto Alegre no dia 1º para uma palestra.

Logo depois de pegar o microfone, o palestrante faz questão de reforçar:

- Me apresento como Ricardo Geromel. Sou o irmão do Pedro.

A declaração espalha sorrisos na plateia que o aguarda para o início de um evento cujo tema é a economia da China, durante um almoço em um restaurante de Porto Alegre. Ricardo, 32 anos, vive no país asiático desde 2018. Do outro lado do planeta, acompanha o sucesso de seu único irmão, Pedro Geromel, 34 anos, com a camisa do Grêmio.

Além do laço familiar com o ídolo do futebol, a trajetória profissional de Ricardo também chama atenção. Formado em Administração pela Farleigh Dickinson University (EUA), trabalhou no mercado financeiro, já investiu em dois clubes de futebol dos Estados Unidos, mapeia bilionários para o ranking da revista Forbes e atua como CEO da StartSe na China - a plataforma busca fomentar o empreendedorismo por meio de cursos, eventos e viagens ao Exterior.

Ao longo da faculdade, Ricardo jogou futebol universitário, na posição de meio-campo. Como não se destacou no esporte, deixou a bola de lado e concentrou seus esforços nos estudos. Fluente em cinco idiomas, acaba de apresentar seu novo livro, O Poder da China, lançado pela editora Gente. A publicação detalha os processos de inovação e a capacidade da economia chinesa, que representa cerca de 15% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial.

Após desembarcar em Porto Alegre, no dia 1º, véspera do jogo entre Grêmio e Flamengo pela Copa Libertadores, Ricardo conversou com ZH. A entrevista ocorreu entre uma garfada e outra de seu almoço e incontáveis paradas para atender ao público que assistiu a sua palestra. A agitação, diz ele, faz parte de seu dia a dia no mundo oriental.

- A imagem que os brasileiros têm da China é do passado. O país é uma potência tecnológica. O que está por trás disso é a formação de cérebros - explica Ricardo.

COMO É A RELAÇÃO COM SEU IRMÃO?

A gente se fala bastante. Antes de chegar aqui (no local da palestra), fui vê-lo no Centro de Treinamentos do Grêmio. É o meu melhor amigo. Meu irmão foi a primeira pessoa a ler meu novo livro. Ele me sacaneou (risos). Mandei para ele a primeira versão, para depois corrigir eventuais erros ortográficos. A parte que está como anexa é culpa dele. Antes, era o primeiro capítulo, e meu irmão pediu para confiar nele e mandar esse trecho para o final do livro. Achou erros e me ajudou muito.

COMO SURGIU A IDEIA DE ESCREVER O LIVRO SOBRE A ECONOMIA DA CHINA?

É fato: somos ignorantes em relação à China. Ponto. O livro traz um pouco, o mínimo, o básico, para pensarmos no país como superpotência inovadora. Serve de ponto de partida para conseguirmos mergulhar mais profundamente no assunto. Entendemos e compramos o sonho americano, mas nem sabemos qual é o chinês. O país asiático é o nosso principal parceiro comercial. Os brasileiros não pensam muito na China. Têm preconceito, ideias errôneas.

POR QUÊ?

Não chega muita informação de lá. Não temos jornalistas daqui trabalhando no país asiático. O que chega ao Brasil são informações regurgitadas de The Wall Street Journal, Financial Times. A China deveria fazer parte do currículo básico de estudos aqui no Brasil. Há um consenso entre economistas de que a economia chinesa será a maior do mundo, só não se sabe quando. O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que isso vá ocorrer em 2030.

VOCÊ DESTACA EM SEU LIVRO O POTENCIAL DE INOVAÇÃO DOS CHINESES. HÁ CHANCE DE O BRASIL ALCANÇAR NÍVEL SEMELHANTE NA ÁREA?

A gente pode desconhecer a China, só que a tecnologia chinesa está chegando aqui, está cada vez mais presente entre nós. O AliExpress, uma plataforma do Alibaba (gigante que atua no setor de vendas), já é um dos 30 sites mais visitados do Brasil. A Huawei (do setor de telecomunicações) tem grandes operações aqui no país. Faz a infraestrutura de vários bancos e empresas de telecom. A China é o maior parceiro comercial do Brasil. Há traders (investidores) do mercado financeiro que chamam o Brasil de derivativo da China. Ou seja, um ativo que tem seu preço atrelado a outro. O Brasil é dependente da China, mas ainda não entendemos isso.

O PRESIDENTE JAIR BOLSONARO AFIRMOU QUE OS CHINESES PODERIAM COMPRAR NO BRASIL, MAS NÃO O BRASIL. QUAIS FORAM OS IMPACTOS DESSA DECLARAÇÃO?

Acho que, na ocasião, os chineses deram uma esperada para ver se Bolsonaro se aliaria totalmente a Donald Trump. Quando o (vice-presidente) Hamilton Mourão foi para a China, Xi Jinping (presidente do país asiático) o recebeu. Ele foi muito bem recepcionado. Mas não há clareza ainda. É esperar para ver.

COMO VOCÊ ANALISA O CENÁRIO DE INOVAÇÃO NO RIO GRANDE DO SUL?

Não acompanho o tanto que gostaria, porque moro em Pequim. Mas pessoas daqui, como o José Renato Hopf (criador da GetNet e da plataforma 4all) são visionárias. Quando ele me explicou o que está querendo fazer com a 4all, fiquei de queixo caído, porque é uma visão de longo prazo impressionante. Acredito no potencial do Estado por conhecer pessoas daqui, como os sócios da StartSe. Acredito nas pessoas em primeiro lugar. Na primeira vez em que estive no Tecnopuc, achei que estava na Califórnia. É impressionante, maravilhoso. Um ecossistema empreendedor e maduro precisa de bons empreendedores, de empresas grandes, do governo, da academia. Não sei como todos esses papéis estão no Rio Grande do Sul. Mas pessoas que conheci daqui, como Pedro Englert (sócio da StartSe) e o José Renato, são de classe mundial.

TANTO O GOVERNO FEDERAL QUANTO O GAÚCHO ENFRENTAM DIFICULDADES FISCAIS. COMO O PODER PÚBLICO PODE ESTIMULAR A INOVAÇÃO?

No Brasil, temos de começar pelo básico. A educação é a base de tudo. Sem melhora em educação, não dá para ter esperança. Não dá. Nessa área, o que posso fazer é trazer um pouco da experiência na China, que não teria tirado mais de 800 milhões de pessoas da extrema miséria (desde a década de 1980).

VOCÊ DIRIGE AS OPERAÇÕES DA STARTSE NA CHINA. QUAL É O OBJETIVO DESSE PROJETO?

A StartSe é uma empresa de educação, focada em trazer a nova economia para o Brasil e os brasileiros. Já levamos mais de 400 pessoas à China para conhecer empresas, em busca de oportunidades de negócios e investimentos. É educação executiva. Organizamos isso. Temos base em Xangai e outra em Pequim.

COMO É FEITO O MAPEAMENTO DOS BILIONÁRIOS PARA O RANKING DA REVISTA FORBES?

Trabalho ainda para a revista. Agora, como freelancer. Antes, como full-time. Cubro os bilionários para o ranking anual. Mapeio eles. Analiso, por exemplo, o valor de mercado de suas empresas. Tem a parte legal que você pode sentar e entrevistar os caras. Às vezes, fala com as ex-esposas (risos). Tem um cara sensacional, que é gremista, o Alexandre Grendene, presente na lista há muito tempo. O legal é a possibilidade de conviver com eles. Comecei a trabalhar na Forbes em 2011. Foi quando conheci minha esposa.

TEM IDEIA DE QUANTOS BILIONÁRIOS VOCÊ CONSEGUIU MAPEAR?

Não. Fiz alguns na Argentina, na França, na África, mas meu foco é o Brasil. Para aparecer na lista, a regra é ter US$ 1 bilhão ou mais de patrimônio. É uma tarefa engraçada. Já me peguei mandando vários e-mails para minha chefe dizendo que o cara "só tinha" US$ 500 milhões como fortuna pessoal. O país que mais cresce em bilionários hoje é a China. Se a Califórnia fosse um país, seria o terceiro da lista. No mundo, são 2,1 mil bilionários. No Brasil, há 66, segundo dados do ano passado.

VOCÊ JÁ INVESTIU EM DOIS TIMES DE FUTEBOL NOS ESTADOS UNIDOS, O FORT LAUDERDALE STRIKERS E O SAN FRANCISCO DELTAS. POR QUE RESOLVEU ATUAR NESSA ÁREA?

A liga à qual esses times pertenciam deixou de existir, e eles não tiveram onde jogar. Lembro que um amigo meu estava comprando um time em Phoenix. Quando eu trabalhava na Forbes, me mudei para lá para ver se valia a pena ter um clube. Fiz um plano para o país inteiro. Vi que o ideal seria montar um time em Fort Lauderdale, do ladinho de Miami. 

O número um seria San Francisco, mas era muito mais caro. Na equação de um novo time de futebol nos Estados Unidos, a principal variável é o estádio, que tem de ser confortável, com boa cobertura contra a chuva. As pessoas não vão a todos os jogos lá. Recomendei Fort Lauderdale e fui atrás de investidores. Depois que compramos o time, o Ronaldo Fenômeno entrou como sócio. Aprendi muito com essa experiência. Depois, pensei em tirar da gaveta o plano de San Francisco e encontrei investidores de Apple, Google, PayPal, Facebook e Yahoo!.

QUAL SUA ATIVIDADE PROFISSIONAL PREFERIDA?

Quando estou aprendendo, estou feliz. Tem o empreendedor. Na verdade, sou um "aprendedor" profissional. Meu negócio é aprender.

Qual é o seu time do coração?

O time do meu pai é o Corinthians. Até hoje, quando o Corinthians enfrenta o Grêmio, ele torce contra o filho. É uma coisa louca. Põe a camiseta do Corinthians. Meu irmão fica chateado, minha mãe fica chateada, eu dou risada (risos). Eu era são-paulino, mas, quando fui aos Estados Unidos, teve uma confusão no Campeonato Brasileiro com arbitragem (em 2005, quando reportagens da revista Veja denunciaram a chamada Máfia do Apito). Na época, perdi o tesão de torcer. Agora, torço para o Grêmio e para o Pedro Geromel. Peguei um carinho gigantesco pelo Grêmio. Gosto de futebol, não de times, tirando o Grêmio e a Seleção Brasileira.

TEM IDEIA DO QUANTO A TORCIDA GREMISTA IDOLATRA SEU IRMÃO?

A gente fica feliz. Realmente, ele atingiu um nível de excelência. No Brasil, geralmente o jogador fica por um ou dois anos em um clube e sai. Meu irmão teve várias propostas para deixar o Grêmio, mas não quis. Ele queria jogar a Copa do Mundo, gosta de Porto Alegre. É louco pelo Grêmio. É legal que o clube conseguiu mantê-lo por tanto tempo. Isso traz um retorno que é difícil tangibilizar.

LEONARDO VIECELI


12 DE OUTUBRO DE 2019
DRAUZIO VARELLA

MENARCA E MENOPAUSA

Meninas que começam a menstruar cedo correm risco mais alto de entrar na menopausa prematuramente. O risco é maior ainda naquelas que nunca tiveram filhos. Essa relação foi documentada num estudo do International Collaboration for a Life Course Approach to Reproductive Health and Chronic Disease Events (INterLACE consortium), que reuniu 50 mil participantes arregimentados no Reino Unido, na Escandinávia, na Austrália e no Japão.

O inquérito mostrou que mulheres sem filhos (nulíparas), que menstruaram pela primeira vez (menarca) antes dos 11 anos de idade, apresentam risco cinco vezes mais elevado (risco relativo = 5,64) de entrar em menopausa antes dos 40 anos (menopausa prematura), quando comparadas àquelas com menarca depois dos 12 anos e que deram à luz dois ou mais filhos.

Quando as que menstruaram antes dos 11 anos foram comparadas às que o fizeram depois dos 13, o aumento do risco de menopausa prematura foi de 80%. Na comparação de todos os grupos, a nuliparidade aumentou em 32% o risco de menopausa prematura, em relação às que tiveram dois ou mais filhos, independentemente da idade em que ocorreu a menarca.

Já sabíamos que a menarca precoce está associada a alterações da função reprodutiva, como irregularidade dos ciclos menstruais e incidências mais altas de endometriose e da síndrome do ovário policístico, mas havia dados contraditórios sobre a duração da fase fértil em função da idade na primeira menstruação.

Essas diferenças podem ser atribuídas ao emprego de metodologias diferentes e à variabilidade das análises estatísticas. No estudo australiano, foram avaliadas 50 mil mulheres, número capaz de detectar diferenças significantes.

A última menstruação ocorreu, em média, aos 50 anos. Menopausa antes dos 40 anos (prematura) foi documentada em 7% das mulheres; menopausas precoces (entre 40 e 44 anos), em 2%.

Esses achados não são mera curiosidade científica. Menopausa é fenômeno fisiológico acompanhado de sintomatologia característica (crises de calores, ressecamento vaginal, depressão, fadiga, perda de libido, labilidade emocional etc.), que predispõe e aumenta o risco de outras doenças (infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, osteoporose, fraturas ósseas, obesidade, infecções ginecológicas e urinárias, entre outras).

Saber que uma mulher de 30 anos teve a primeira menstruação antes dos 11 permite adotar medidas preventivas para contrabalançar os problemas de uma possível menopausa em idade prematura: planejamento familiar, aumentar os níveis de atividade física, evitar a obesidade, não fumar e reduzir o risco de doenças cardiovasculares.

No passado, as mulheres tinham um filho atrás do outro, a menarca acontecia aos 16 ou 17 anos, e a menopausa pouco depois dos 40.

Calcula-se que as mulheres do século 19 não menstruassem mais do que 40 a 50 vezes, na vida. Hoje, que as menstruações começam mais cedo, terminam mais tarde e o número de filhos não passa de um ou dois, a mulher menstrua 400 a 500 vezes.

DRAUZIO VARELLA


12 DE OUTUBRO DE 2019
J.J.CAMARGO

A RADICALIZAÇÃO ÉUM ATALHO PARA A INFELICIDADE. Mantenha uma distância saudável dos fanáticos, esses que sabem tudo que precisa ser feito para consertar o mundo

Os muitos conselhos de como viver melhor, que fazem a essência dos livros de autoajuda, usualmente traduzem apenas uma pretensão desmedida do autor. Por outro lado, muitas dessas recomendações são impraticáveis porque contrariam de tal forma hábitos e costumes do paciente que ele as perceberá como reservadas a outra pessoa, em outras circunstâncias. Como, por exemplo, comer brócolis e berinjela em todas as refeições. 

Ninguém merece submeter-se a essa punição. Portanto, seja razoável e não radicalize na alimentação. Coma o que sentir vontade, com moderação. O seu corpo saberá das suas necessidades. Quando sentir uma vontade incontrolável de comer laranja, pode apostar que seu nível de vitamina C está baixo. Não fantasie viver 100 anos comendo folhas. Pense na advertência de Ariano Suassuna: na Idade Média, homens e cavalos viviam 20 anos. Passados esses séculos todos, os homens estão ultrapassando os 80, e os cavalos, com sua dieta capim, seguem vivendo 20 anos.

Curta o seu vinho predileto, e aproveite o relaxamento prazeroso que um cálice nas refeições pode garantir. Ah, e tema os abstêmios que provavelmente têm segredos tenebrosos, que defendem no limite da sobriedade. Mantenha uma distância saudável dos fanáticos, esses que sabem tudo que precisa ser feito para consertar o mundo, que só está do jeito que está porque nunca lhes deram ouvidos. 

Não tente argumentar com os raivosos radicais, porque, como donos da verdade, eles habitam uma bolha, impermeável ao diálogo e à razão. Então seja esperto, e comece assumindo que sua parte é fazer o que fazes da melhor maneira possível. Portanto, fuja de heroísmos delirantes, esses que, irrealizados, só vão aumentar a produção de substâncias orgânicas que azedam o humor e aumentam a acidez gástrica.

Como se sabe bem, toda a forma de estresse é prejudicial. Então, vamos evitar o gratuito, concentrando-nos em conviver com o inevitável. Ouvir música clássica, por exemplo, é mais inteligente do que buzinar no engarrafamento. Evitar os pessimistas tem igual benefício, especialmente porque há evidências de que má sorte também se constrói.

Agora que está todo mundo empenhado em viver mais, priorize viver melhor. Talvez a regra mais importante nesta direção seja eliminar, na medida do possível, o convívio com pessoas ou circunstâncias que não lhe tragam prazer. Admito que isso é impossível na fase ascendente da vida, em que estamos criando o nosso espaço no mundo, e rompantes nesta fase podem ser contraproducentes. Mas guarde esta informação para a maturidade, e saberá que ela finalmente chegou quando levantar e ir embora, não mais será visto como insubordinação, mas como excentricidade saudável. E pode crer que os resignados com a chateação invejarão a tua coragem.

Tenha hábitos variados, preserve a musculatura, estimule a atividade cerebral, e durma bem. Não esqueça que o ronco significa má oxigenação, e não ajudará nada na velhice ter sacrificado um monte de neurônios em cada noite mal dormida. Eles farão falta no futuro, esse que todo mundo só pensa em alongar, sem atentar que a cabeça não pode ser a primeira a morrer, e que a longevidade só se justifica para quem for capaz de perceber a diferença entre viver e simplesmente durar.

J.J.CAMARGO

12 DE OUTUBRO DE 2019
DAVID COIMBRA

Um vale para tornar o fim de semana feliz

Quando entro em uma galeria que tem aqui perto de casa, parece que entrei no túnel do tempo. É uma galeria antiga, com escadarias de mármore, paredes de madeira e lojas saídas direto dos anos 1950.

Esse lugar me dá saudade do meu amigo Sérgio Lüdtke. Porque eu e o Sérgio passamos um bom período das nossas vidas em uma galeria semelhante, no prédio que era sede da Livraria Sulina, na esquina da Borges com a Demétrio.

Foi uma época divertida. Conheci pessoas interessantes. Além de escritores, editores e professores, muitos de nossos colegas eram personagens impagáveis. Na nossa sala trabalhava um jornalista veterano que, na verdade, não trabalhava. Ele ia lá às vezes, sentava-se atrás da máquina de escrever e, não raro, dormia na cadeira. Não era demitido porque tinha uma larga história na empresa e o dono, o Leopoldo Boeck, era um homem de lealdades. Mesmo assim, se o pegasse cochilando, o Leopoldo aproveitava para sacanear: enrolava um jornal e dava uma violenta pancada na mesa. O velho jornalista levava o maior susto, saltava da cadeira e o Leopoldo, gargalhando, convidava-o para tomar um café.

Eu e o Sérgio tomávamos vários cafés durante o dia, aliás. O mais importante era o clássico café da tarde: íamos à lanchonete da dona Maria e pedíamos uma média com pão que ela mesma preparava, uma delícia. O povo brasileiro perdeu muito ao abandonar o hábito do café da tarde - perdeu em nutrição, sim, mas bem mais em convivência. A pausa para o café da tarde servia para distensionar. Hoje, em vez de ir à lanchonete da dona Maria, as pessoas vão para o Twitter.

Uma vez, foi contratada para o nosso departamento uma moça, uma morena que, nossa!, ela porejava sexo. Não era uma beleza agressiva, era uma sensualidade macia, meio preguiçosa. Uma dessas morenas douradas, sabe como é? Seus olhos eram amendoados, com um brilho de malícia infantil que perturbava os homens. Ela sabia que exercia esse poder e gostava de se valer disso. Acabamos nos tornando amigos e ela me contava o que fazia com seus apaixonados. Foi então que aprendi que uma mulher muito bonita pode ser muito, muito cruel.

Uma vez, um importante editor do centro do país foi passar uma semana em Porto Alegre, a negócios. Ele chegou ao nosso departamento e viu a moça. Conversou com ela por cinco minutos, não mais. Foi o que bastou para ficar enfeitiçado. A partir daquele momento, começou a cercá-la. Mandava-lhe flores, presentes, doces, e ela só negaceando. Depois de dias de jogo, ela finalmente aceitou sair com ele. Jantaram em um restaurante caro e tal. De madrugada, ela topou ir até o cinco estrelas em que ele estava hospedado. Subiu ao quarto. Eles trocaram breves carícias. Ela levou a mão ao cinto dele. Abriu a fivela. Baixou-lhe as calças até os joelhos. E começou a rir. Apontava para o membro do coitado, ria e dizia:

- Desculpa, mas ele é tão pequeninho?

Claro que nada aconteceu naquela noite, nem jamais. O poderoso empresário voltou para casa sentindo-se nada poderoso.

Era má, a minha amiga.

Mas no final da galeria havia uma amiga boazinha. A dona Edith, ninguém menos do que a mãe do presidente, fundadora da empresa. Dona Edith era amada por todos. Eu às vezes ia à salinha dela e ficava fazendo perguntas sobre o passado da livraria. Ela, surpreendentemente, dava importância ao pirralho que eu era e respondia com paciência e doçura.

Dona Edith me salvou inúmeras vezes. É que, às sextas-feiras, a Sulina dava vales - nós podíamos pegar adiantado um determinado percentual do salário. Eu pegava todas as semanas. Gastava tudo em três dias e, na sexta seguinte, lá estava eu, no Departamento Pessoal, implorando por outro vale. Meus adiantamentos foram aumentando de valor, até que, um dia, recebi só uma moedinha de salário. Aí, o horror!, a direção da empresa me proibiu de tomar novos empréstimos. Só que a Dona Edith era A DONA e gostava de mim. Assim, eu escorregava até a salinha dela e miava:

- Dona Edith, será que a senhora me consegue um valezinho para tornar o meu fim de semana feliz?

Ela assinava o vale e eu ia vitorioso para o DP.

Depois que saí da Sulina, não vi mais a dona Edith. E agora, numa sexta-feira de 2019, entrei nessa galeria aqui dos Estados Unidos e, já ao passar pela primeira loja, lembrei-me do Sérgio Lüdtke. Continuei caminhando e, logo a seguir, parei em frente a uma sapataria e recordei de outra pessoa importante para mim, o meu avô, que era sapateiro. Mais um pouco e deparei com o relojoeiro, um chinês. Ele estava debruçado sobre um relógio no qual operava uma minúscula chave de fenda. Nunca vi esse chinês de cabeça levantada. Nunca. E, no fim da galeria, havia uma salinha de escritório meio escura. 

Olhei lá dentro e, atrás de uma mesa, vi uma senhora de cabelos brancos. Ela ergueu os olhos e me fitou. Abri a boca de espanto: era a dona Edith! Não a própria, óbvio, mas uma pessoa muito parecida. Ela, me vendo ali parado, sorriu, simpática. Sorri de volta. E segui meu caminho, pensando na coincidência: a dona Edith me socorria sempre às sextas e aquele dia era uma sexta? Estaquei. Tive vontade de voltar e conversar com ela. Mas não havia o que lhe dizer, ela não entenderia a abordagem. Em todo caso, fiquei contente. O sorriso daquela senhora americana, afinal, foi o valezinho que tornou o meu fim de semana feliz.

DAVID COIMBRA



12 DE OUTUBRO DE 2019
MÁRIO CORSO

Os carros do meu tio

Existem diferentes formas de amar os automóveis, a mais excêntrica é a do meu tio Jorge. Não pensem que ele é obsessivo, meticuloso. Ao contrário, acha que carro muito cuidado pega balda. Melhor é um tratamento rústico e impessoal, manutenção básica, lavar e faxina só no Natal.

Alguém desavisado pensa que o carro para ele é ferramenta. Só que não. Ele viaja muito, por necessidade de trabalho e por deleite. Não pode ver uma estrada, que se atira. Desenvolveu um gosto pelo asfalto, engole quilômetros com prazer. Seus carros são tanto testemunhas quanto companheiros dessas cotidianas travessias solitárias. Minha mãe, sua irmã, tem a tese de que ele, assim como meu pai, bebeu gasolina por acidente quando criança, tal o apego a essas máquinas e o gosto pelo volante.

O drama chega na troca de carro. Depois de tantas andanças, ele se apega como quem adota um animal de estimação. E, como bom gaúcho, não é porque o cavalo ficou idoso que pode virar salsicha. O que fazer quando o carro velho já não passa segurança para as lides de estrada? O tio reforma e passa para um filho usar na cidade, ou fica como carro reserva em Ijuí, ou, ainda, deixa na casa de praia em Garopaba. O fato é que ele não os descarta, os velhos camaradas não ficam longe de seus olhos e cuidados.

Em um acidente sério que teve, a camionete ficou irremediavelmente destruída. Acha que ele aceitou o diagnóstico? Arrumou um mecânico tão cabeça-dura como ele e a refez. Portanto, seus carros podem reclamar de que não tiveram os melhores carinhos, mas nunca faltou fidelidade.

Porém os anos passam e tudo vira sucata, por melhores que sejam os reparos. Enquanto isso, a família pressiona, pois as casas tornaram-se um estacionamento de supermercado.

Hoje desapego é chique. Livrar-se dos objetos com os quais tentamos impedir que nosso passado nos abandone é sinal de saúde. Fazer balanço da vida e descarte de excessos se equivalem. Sua outra irmã, que tem pares de sapato para as próximas cinco encarnações, o aconselha quanto ao desapego automotivo. A contragosto, meu tio se desfez dos mais acabados.

Será? Minha tia Zaia descobriu uma enigmática caixa com molhos de chaves e meu tio desconversou sobre um recibo de depósito alugado. Surgiu na família a suspeita de que ele de fato nunca vendera os carros. A hipótese é de que os teria levado para longe de nós, intrometidos, onde curtem sossegadamente a merecida aposentadoria.

Conhecendo meu tio, não duvido. Consigo imaginá-lo feliz frente a sua coleção de lembranças, encabeçada pelo seu primeiro fusca bege, lendo seu diário de vida inscrito em lata e pneus. Suas lembranças são maiores do que isso, mas que culpa tem se o afastamos de seus amuletos das outras épocas, de suas armaduras de guerras passadas, de seus velhos companheiros de aventura?

MÁRIO CORSO



12 DE OUTUBRO DE 2019
NO ATAQUE

PODER, SOLIDÃO E SAPOS

Presidente do Inter, Marcelos Medeiros me contou como foi especialmente triste para ele demitir Odair Hellmann. 

A quinta-feira foi um dos piores dias da vida de Marcelo Medeiros como dirigente, embora o lugar comum que forjou o apelido "cartola" para presidentes de clubes indique o oposto. Coube a ele demitir o técnico Odair Hellmann. Frente a frente. Olho no olho.

A derrota na Copa do Brasil também machucou, mas aí é do esporte. Duro estar tão perto e, de uma hora para outra, tão longe da conquista que mudaria sua vida para sempre, neste império do resultado chamado futebol brasileiro. Ser campeão a bordo de um timaço e dinheiro no cofre é obrigação. Na escassez, pagando dívidas dos outros e metido numa realidade espartana para contratar, esgrimando com elencos milionários, seria façanha - mesmo contra o Athletico-PR. Nem o contagiante otimismo do Mallenoti acreditaria em título lá atrás, vamos combinar.

O Inter não mandou Odair embora por entender que ele é fraco. Tanto Medeiros o considera promissor que não entregou sua cabeça em situações piores, ainda sem as boas campanhas de Libertadores e Copa do Brasil. Demitido antes, Odair teria problemas para se colocar no mercado. Agora, é barbada. Existe a certeza de que ele, um dia, voltará mais maduro e capaz de dar o salto que faltou na hora decisiva.

Quantos são campeões estreando em um grande clube? Renato ergueu taça só em sua terceira passagem pelo Grêmio como técnico. A avaliação foi de que o vestiário e o próprio Odair foram engolfados por uma nuvem de tristeza e insegurança pós-Copa do Brasil que afetou o desempenho coletivo e tisnou as decisões de todos.

O papo do intervalo, em vez de melhorar e incendiar, não surtia mais efeito. As soluções táticas se repetiam, sem resultado, sobretudo fora de casa, com uma postura inadequada para o tamanho do Inter. A direção entendeu que, com o G-4 sumindo faltando 14 rodadas e sinais de esgotamento, esperar tudo voltar ao normal era mais arriscado do que agir. Se for para trazer um técnico tampão, menor do que Odair, a demissão terá sido temeridade.

Aí era melhor ter exorcizado demônios em uma grande sessão de terapia com os jogadores, nos corredores do Beira-Rio. Todos sairiam unidos e fortes para encarar as críticas da torcida e da imprensa. Trocar de técnico após dois anos só se justifica por outro em patamar adiante na carreira, mirando 2020. Parece-me ser o caminho do Inter, ao menos por enquanto.

Voltemos ao instante da demissão, tema desta crônica. Todos gostam de Odair no Beira-Rio. Funcionários, jogadores. Todos. Trabalhava no seu time do coração desde 2009. Medeiros sabe que ele foi vítima de uma expectativa exagerada criada por seu próprio trabalho surpreendente, tirando de uma equipe média rendimento coletivo além do material humano à disposição. Como dizer-lhe, frente a frente, em outras palavras: seu trabalho bateu no teto?

Ameaças

Dirigentes carregam aquele estigma pejorativo do cartola ávido por ostentação e poder. Alguns são assim mesmo, com direito a negócios obtusos, conforme nos ensina a história recente, mas a maioria trabalha por abnegação. A partir do fenômeno das redes sociais e das fake news, lidam com ameaças pessoais e a familiares. Como envolve paixão, o universo web no futebol vira coquetel molotov.

Romildo Bolzan, por exemplo. Hoje, é semideus. Dá autógrafos parelho com Renato. Mas, em 2015, quando o Inter era semifinalista da Libertadores e o Grêmio seguia na fila, neófito e poste eram elogios, perto de outras pancadas impublicáveis que ele absorvia com paciência budista. Por tudo isso, acreditei quando Medeiros me disse como foi especialmente ruim dispensar Odair, em tese um ato de rotina. No futebol, técnicos caem como chuva de verão: a qualquer hora.

Entre glórias possíveis ou não, há uma dose de solidão no exercício do poder que eu dispenso. Prefiro ficar por aqui mesmo, sossegado, obedecendo a ordens dos meus muitos chefes, engolindo um ou outro sapo com sorriso de retrato no rosto.

DIOGO OLIVIER


12 DE OUTUBRO DE 2019
FLÁVIO TAVARES

FUTURO DO FUTURO

O dia 12 de outubro é de tríplice festa, mas nem sempre foi só assim. Não era ainda o Dia das Crianças nem o de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil, quando a data mudou a face do mundo numa mistura de espanto, alegria e medo.

Há 527 anos, a 12 de outubro de 1492, as caravelas de Cristóvão Colombo chegaram ao Caribe seguindo os mapas marítimos de Américo Vespúcio. E o que eles pensavam que fosse a Índia Ocidental chamou-se América.

Anos depois, em 1500, Pedro Álvares Cabral aportou mais ao Sul, em terras semelhantes e o medo se confirmou: haviam chegado ao Paraíso. Mas, por que medo, se ali a exuberante natureza convivia com gente sem maldade nem cobiça, que andava nua sem perversão e cheirava bem até sem sabão?

Aqueles europeus que não se banhavam mas conheciam o crime, sentiram-se no Éden, o paraíso do livro sagrado. E a rígida teologia da época entrou em transe e em crise. A tradição religiosa ocidental tremeu.

A Torah judaica e a Bíblia cristã seriam inexatas ou mentiam? O "pecado original" que extinguiu o Paraíso e nos fez "amassar o pão com o suor do rosto" era invenção? O Éden ainda existia e só havia mudado de lugar?

Na época, a teologia dominava o mundo. Era como os economistas que hoje assessoram os políticos e preveem o passado com exatidão sem apontar qualquer trilha do futuro. Atônitos com a ideia de que o Éden ainda existisse, os teólogos deixaram o dia a dia assimilar o que eles não explicavam.

E cada vez mais nos distanciamos da sacralidade da vida, destruindo o planeta, como se tivéssemos raiva de habitá-lo.

Agora, a tríplice data quase só se festeja pelo trivial - o Dia das Crianças, criado para presentear, nunca para fazer a criança brincar, dialogar e entender o mundo. Esquecemos até o dia de 1717 em que um pescador encontrou a imagem de Maria no Rio Paraíba do Sul e surgiu, então, Nossa Senhora Aparecida. Hoje, como outros, o rio envereda rumo à poluição.

Se, alheios a tudo, não avaliamos sequer o passado, por que iremos nos preocupar com o futuro?

Ou com "o futuro do futuro", majestoso título do debate que juízes estaduais e federais, membros do Ministério Público (através de suas associações) e a OAB promovem no dia 14, sobre as leis de proteção ambiental. O painel das 14h, presidido pela juíza Patrícia Laydner, avaliará as mudanças ao Código Estadual do Meio Ambiente propostas pelo governo de forma impositiva, a serem votadas "em urgência", praticamente sem debates. Será correto que nosso código (hoje modelo no país) facilite destruir a natureza?

Em nota aos deputados, o Sindicato dos Engenheiros repudiou (sim, repudiou) que as mudanças se votem sem ampla discussão e apelou ao governador para que modifique a proposta. De fato, além do presente, está em jogo o futuro do futuro.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

12 DE OUTUBRO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

O RALO DAS ESTATAIS


A entrevista do presidente da CEEE, Marco Soligo, ao Gaúcha Atualidade, da Rádio Gaúcha, na quarta-feira, é reveladora não apenas por expor a situação dramática da companhia. O quadro explicitado pelo executivo também retrata a situação de dezenas de outras estatais país afora, que ao longo dos anos, mal geridas e usadas como cabide de empregos, acumularam dívidas substanciais enquanto, em regra, deixam de prestar o melhor serviço aos cidadãos. É uma conta que, com juros, retorna à população quando os rombos têm de ser tapados com dinheiro do Tesouro - ou seja, recursos tirados do próprio contribuinte.

Um argumento recorrente de quem é contrário às privatizações é o de que estatais são patrimônio público e, por isso, vendê-las seria uma espécie de crime de lesa-pátria. Um engodo, uma vez que quase invariavelmente acabam sendo usadas para proveito próprio de grupos que as tomam de assalto. O caso da CEEE mostra a história de uma empresa que cumpriu sua missão histórica à época, mas depois foi paulatinamente dilapidada, inclusive de dentro para fora, em um processo de autofagia. Descontrole de questões trabalhistas e benesses inimagináveis em uma companhia que preza pela eficiência levaram ao acúmulo de passivos bilionários de todo tipo.

Revelou o presidente da CEEE que, se corrigido o valor pago em reclamatórias laborais nos últimos oito anos, o montante chegaria a R$ 3,5 bilhões, fruto da ação de círculos que se adonaram da estatal e extraíram dela tudo o que foi possível, dentro da elasticidade de legislações e interpretações feitas sob medida para privilegiar corporações e feudos políticos. A CEEE, que paga bilhões em ações a seus empregados, sequer consegue quitar suas obrigações com ICMS. A dívida apenas neste ano chega a R$ 500 milhões, dinheiro que falta para pagar salários e alcançar mínimos recursos para as necessidades mais básicas da população.

Estima-se que, em 2019, a União desembolsará R$ 20 bilhões para manter estatais que não sobrevivem com os recursos que geram. Em 10 anos, foram R$ 190 bilhões, de acordo com o Ministério da Economia. Um capital vultoso - sem falar nos desvios por casos de corrupção -, que seria melhor aplicado se fosse destinado a áreas à míngua, como saúde e educação. Entre controladas diretas e subsidiárias, a União tinha 159 empresas no início do ano, excluindo coligadas e outros tipos de participações. Um excesso que o Planalto tenta corrigir ao colocar em prática um acertado plano de privatizações. Registre-se apenas que, apesar de arrojado, anda em ritmo aquém do prometido.

São números que mostram a obesidade do Estado e reforçam a inevitabilidade de acelerar as desestatizações no país, como no caso da CEEE. Apesar da crise da empresa, há áreas de excelência e colaboradores de alta qualificação na companhia, ressaltou o seu presidente. Um atrativo a mais para os interessados na aquisição. Agora, é esperar que o processo seja conduzido de acordo com uma modelagem que atenda às necessidades do Estado e aos interesses dos seus milhões de clientes, com um serviço melhor.



12 DE OUTUBRO DE 2019
+ ECONOMIA

Na porta de casa

O prato feito é a aposta de um delivery que está prestes a sair do forno. Na segunda-feira, o PF Por Favor! começará a operação em Porto Alegre. Inicialmente, o cardápio terá duas opções: uma com carne e outra vegetariana. Após o primeiro mês de operação, a estimativa dos empreendedores é de entregar cem PFs por dia.

O próximo município que receberá a marca já está definido. Trata-se de Canoas, onde as atividades deverão começar em novembro. Inicialmente, o delivery aceitará pedidos em Porto Alegre por meio dos aplicativos iFood, Rappi e Uber Eats.

A SEMANA QUE EU VI

FÔLEGO MAIOR COM PRÉ-SAL

O Rio Grande do Sul deve ser um dos principais beneficiados pela nova divisão dos recursos do pré-sal. Com o acordo costurado na Câmara e no Senado, a estimativa é de que o Estado receba R$ 450 milhões a partir do leilão de petróleo marcado para novembro. Pelo cálculo anterior, a quantia ficaria perto de R$ 130 milhões.

DESAFIOS À REAÇÃO NO RS

A semana foi marcada pela divulgação de números do IBGE que indicam mais dificuldades à retomada da economia gaúcha. Em agosto, o Estado amargou desempenho negativo na indústria (foto), nos serviços e no varejo. A Fecomércio-RS ainda apontou que a inadimplência voltou a subir em setembro no Rio Grande do Sul.

TENSÃO COM RUMO DE GUEDES

O ministro da Economia foi personagem de turbulência no mercado financeiro. Especulações sobre uma suposta decisão de Paulo Guedes de abandonar o governo Jair Bolsonaro no início de 2020 espalharam nervosismo entre analistas e investidores. Até o momento, o presidente garante não ter "plano B" para a pasta.

À ESPERA DA ENTRADA NA OCDE

Depois de fazer concessões em troca de apoio à entrada na OCDE, o Brasil viu os Estados Unidos indicarem a Argentina e a Romênia ao "clube dos ricos". Apesar da decisão, Donald Trump voltou a afirmar que segue na defesa do ingresso brasileiro. Por enquanto, tudo continua como promessa.

LEONARDO VIECELI - INTERINO


12 DE OUTUBRO DE 2019
AQUELA DÍVIDA

Débito de órgãos públicos com a Corsan chega a R$ 49 milhões

Trinta e nove órgãos públicos das esferas federal, estadual e municipal devem R$ 49,2 milhões para a Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan). O valor se refere à inadimplência de contas de consumo da água distribuída pela estatal gaúcha.

Os maiores não pagadores são órgãos estaduais, com R$ 28,4 milhões na administração direta. Na prática, é o Estado deixando de pagar a si próprio, gerando folga de caixa em um lado e desfalque de outro. A principal devedora é a Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe), que está com R$ 14,8 milhões em dívida devido ao não pagamento do consumo de água nos presídios. Com R$ 10,8 milhões, vem a Secretaria da Educação, a qual está deixando de quitar os compromissos das escolas.

A reportagem de ZH foi inspirada a partir de dados obtidos pela agência independente Fiquem Sabendo. As informações também foram recebidas por ZH via pedido pela Lei de Acesso à Informação e são uma radiografia do quadro de dívidas do dia 2 de outubro de 2019 (os números sofrem alterações periódicas devido a renegociações).

O segundo montante em volume é o da dívida dos municípios. Os 10 maiores devedores somam R$ 19 milhões em aberto, sendo os valores mais significativos os das prefeituras de Novo Hamburgo, Uruguaiana, Sapucaia do Sul, Cachoeira do Sul e Jaguarão. A Corsan destaca que, no caso deste cinco municípios, as cifras estão em discussão judicial. A companhia ainda informou que, quando a inadimplência de uma prefeitura atinge 60 dias, sendo a dívida maior do que R$ 2 mil, é feita a inscrição no Cadin.

Órgãos federais têm saldo negativo menor: R$ 1,3 milhão, considerando valores atrasados de 19 empresas e entidades ligadas à União.

- Toda inadimplência afeta o resultado da companhia e, por conseguinte, os dividendos distribuídos ao Estado e a tarifa cobrada dos usuários. Abrimos expediente para verificar as medidas de cobrança adotadas pela Corsan - comenta o procurador-geral do Ministério Público de Contas (MPC), Geraldo da Camino.

Diretor financeiro da Corsan, Jorge Melo ressalta o fato de a companhia ser superavitária, tendo gerado lucro de R$ 292 milhões em 2018. A inadimplência geral da empresa, incluindo no cálculo os clientes dos setores público e privado dos 317 municípios em que atua, é de 2,5% em média, índice considerado "satisfatório" por Melo. Ele assegura que a Corsan tem um mecanismo eficiente para cobrar as dívidas: o encontro de contas. Periodicamente, a companhia se reúne com a Secretaria da Fazenda para negociar.

- A Corsan dá lucro e, como o Estado é o acionista, ele precisa receber dividendos. Nos encontros de contas, abatemos dos dividendos os valores dos passivos dos órgãos públicos. Poderemos zerar essa pendência de R$ 28,4 milhões de instituições estaduais em um encontro de contas até o final do ano - explicou Melo.

No setor privado e na sociedade civil, a Corsan é credora de R$ 70 milhões. A diferença é que, nas 175 mil ligações particulares responsáveis por essas pendências, o fornecimento de água, em regra, está cortado, e os titulares, inscritos no SPC.

Melo reconhece que há certa diferença no tratamento entre os setores, mas minimiza os efeitos ao ressaltar que, por meio do encontro de contas, os passivos acabam quitados.

- Jamais poderíamos cortar a água de uma escola, de um hospital ou de um presídio, seria rebelião na certa. É complicado. A própria Justiça nos mandaria religar. Já fizemos alguns cortes em órgãos públicos, mas é raro. Prevalece a opção do encontro de contas - argumenta o diretor.

CARLOS ROLLSING


PRÓXIMO
12 DE OUTUBRO DE 2019

MUDANÇAS NA GESTÃO

Uma reforma para balançar tabus do servidor federal. Proposta para o funcionalismo deve prever medidas como avaliação de desempenho, fim da estabilidade e redução de salários

Vista como peça prioritária no quebra-cabeça federal para o equilíbrio das contas, a reforma administrativa preparada pelo governo de Jair Bolsonaro vai propor alterações na relação da União com o funcionalismo. O fim da estabilidade e a demissão por baixo desempenho são os principais pontos da proposta em análise pela equipe econômica, que deverá chegar ao Congresso após aprovação da reforma da Previdência no Senado.

O pacote com as mudanças, que ainda passará pelo crivo do ministro da Economia, Paulo Guedes, terá proposta de emenda à Constituição (PEC), leis complementares e ordinárias. Além da aproximação dos salários pagos pelo setor público aos oferecidos no setor privado, técnicos querem rever o número de carreiras vinculadas ao Poder Executivo, alterar matrizes salariais e acabar com progressões automáticas que utilizam o critério de antiguidade.

Abrangência

As mudanças mais radicais atingiriam apenas quem fosse admitido após eventual aprovação. Servidores que já atuam na União poderiam ser afetados, com revisão de benefícios, necessidade de participar de programas de qualificação e potenciais demissões. A proposta ainda prevê a alteração das regras do estágio probatório, hoje de três anos. A intenção é que o período complemente a seleção feita em concurso. A efetivação só ocorreria após análise de desempenho e comprometimento, o que, na prática, não ocorre atualmente.

Critérios mais rígidos e transparentes deverão ser adotados também para analisar o desempenho de setores do serviço público e de carreiras específicas. A ampliação do ponto eletrônico em setores da administração federal, incluindo postos nos Estados, também está nos planos.

O conjunto de mudanças não seria aplicado a todas as carreiras. Profissionais que atuam em funções mais suscetíveis a pressões externas e influência política, como auditores da Receita e diplomatas, devem ser preservados de parte das medidas. Judiciário e Legislativo ficam de fora.

Na quinta-feira, Guedes disse que o governo também estuda a adoção de trava nos reajustes de servidores em entes federativos que gastem mais de 80% com folha de pagamento. Na prática, a medida atingiria municípios, Estados e União.

Concursos

A linha seguida pelo ministério é corroborada por um estudo feito pelo Banco Mundial, a pedido do governo brasileiro. Para a entidade, há "janela de oportunidade" para o país equalizar os gastos com pessoal a partir de reformas estruturais. Entre as recomendações, estão redução dos vencimentos de entrada dos servidores, aproximação dos rendimentos pagos pelo setor privado e avaliação de desempenho para avanços salariais e na carreira. A estimativa de economia com as ações, até 2030, chegaria a R$ 389 bilhões.

Sem previsão para a abertura de concursos públicos, o governo projeta a redução gradual do número de servidores nos próximos anos. Atualmente, dos 705 mil trabalhadores do Executivo - sendo 35 mil no Rio Grande do Sul -, 127 mil reúnem condições para aposentadoria nos próximos cinco anos. O objetivo é fazer análises individuais para que contratações sejam realizadas somente em casos essenciais.

Uma das alternativas para a reposição é a movimentação interna. Para isso, há a intenção de modificar leis e elaborar editais genéricos, quando houver a abertura de novas seleções. A ação evitaria que transferências entre órgãos acabem na Justiça. A redução nas carreiras facilitaria o trânsito entre setores.

O custo mensal médio de um servidor federal é de R$ 12,4 mil. O orçamento para o próximo ano, que ainda não foi aprovado pelo Congresso, não inclui previsão de aumento nas remunerações.

MATEUS FERRAZ | RBS BRASÍLIA

12 DE OUTUBRO DE 2019
RODRIGO CONSTANTINO

Ambientalismo hipócrita

Da mesma forma que o movimento feminista tem mais a ver com o esquerdismo do que com a mulher, e o movimento racial tem mais ligação com a esquerda do que com o negro, o movimento ambientalista sofre da mesma mazela: o que deveria ser uma preocupação legítima com o meio ambiente acabou se transformando num pretexto para a defesa da ideologia socialista.

O leitor duvida? Acha que exagero? Então vejamos: a menina Greta Thunberg, aquela que mata aula para fazer discursos na ONU e virou símbolo da causa ambiental aos 16 aninhos, ataca muito o "sistema capitalista" e os Estados Unidos, mas praticamente nada fala sobre o modelo chinês, dominado pelo PCC. A China é o maior poluente do planeta, mas isso não parece incomodar tanto os fanáticos ambientalistas.

Quer outro exemplo? Vimos a tragédia do óleo que vazou em nossas praias nordestinas, o que, de fato, levantou imediatas críticas ao governo Bolsonaro. Mas tão logo ficou claro se tratar de algo fora do controle do governo, provavelmente um ato criminoso da ditadura socialista venezuelana, o silêncio se abateu sobre o assunto. Os ecoterroristas, que estavam em polvorosa com as queimadas na Amazônia, acharam melhor mudar de assunto, para não detonar o regime "amigo" de Maduro, aliado do PT e do PSOL.

Não é por acaso que muitos chamam essa turma de "melancias", verdes por fora, mas vermelhos por dentro. Antes os socialistas condenavam o capitalismo por não produzir riqueza suficiente para todos; agora alegam que ele produz riqueza demais, o que ameaçaria o planeta. Com esse discurso anticientífico, o movimento ambientalista virou refúgio para as viúvas de Lênin, uma capela onde ainda se encontra pretexto para criticar o capitalismo - do conforto capitalista, naturalmente, já que ninguém é de ferro.

Claro que nem todos os ambientalistas são socialistas hipócritas. Há gente séria genuinamente preocupada com a qualidade de vida na Terra. Mas eis o ponto: esses não precisam apelar para o monopólio das virtudes, acusando todos aqueles que não defendem os mesmos meios - um governo mundial controlando as economias e abolindo o livre mercado - de insensíveis que não se importam com o planeta.

RODRIGO CONSTANTINO

12 DE OUTUBRO DE 2019
INFORME ESPECIAL

Caindo de maduro

O envelhecimento da população do Rio Grande do Sul pode ser uma boa ou uma má notícia. Depende do que a gente fizer com ela. Entre todas as transformações impulsionadas pela mudança do perfil de idade dos gaúchos, uma é especialmente intrigante: os efeitos no mercado de trabalho.

A edição de sexta-feira de Zero Hora publicou um artigo da diretora de uma rede global de universidades amigas dos 60+, a irlandesa Christine O?Kelly. Ela alerta para as imensas oportunidades que as equipes multigeracionais produzem para as empresas. O desfio é formar gestores preparados para liderar grupos plurais, não apenas nos aspectos mais debatidos nos últimos anos - gênero e raça -, mas também em idades.

Os mais jovens trazem energia e rebeldia. Os mais experientes, ponderação, memória e sabedoria. Seria a mistura ideal, não fossem preconceitos e antigas verdades já caducas, mas ainda presentes. Hoje, dar emprego para alguém com mais de 60 anos é confundido com ato de bondade. Em breve, não contar com grisalhos nas equipes será burrice.

Na verdade, já é.

TULIO MILMAN

sábado, 5 de outubro de 2019


05 DE OUTUBRO DE 2019
LYA LUFT

A casa da vida

Leitores e Zero Hora hão de me perdoar se, na primeira vez em que me sento diante do computador depois que a Senhora Morte não me quis, eu reproduzir aqui trechos de meu livro A Casa Inventada, de dois anos atrás.

A vida precisa de uma porta para espiar o que há dentro: um corredor, o espelho e suas criaturas, a sala da família e um claro quarto, de criança; um porão de aflições que soluçam à noite (mas dizemos: é o vento); um pequeno jardim com três árvores esguias. Num resto de muro, a escada de madeira parece não levar a nada. (Pousado no último degrau, um pássaro de sombra me observa: seu bico é curvo e afiado.)

A porta da frente nos atrai como alguém chamando vem, vem, vem. Curiosidade: o que haverá atrás daquela porta entreaberta mesmo em tempos inseguros e violentos: quem a esqueceu assim? Quem a abriu e vai sair agora? Ou está entreaberta para receber minhas ansiedades? Mas, se eu a criei, como posso não saber?

Invento a secreta casa: beleza e crueldade, o belo sinistro, a vida. Uma casa pode ser um labirinto, porque a gente anda em círculos, procurando a saída, que saída, onde, quando, como? À noite, vendo as luzes da cidade, nunca deixo de imaginar aquelas vidas. O que fazem, dizem, pensam, saboreiam ou sofrem? Quanto deliram, quanto desistem? Uma casa se oferece diante de nós como a alma de alguém: o poeta Rilke, na minha cabeceira, diz: "A alma do outro é uma floresta escura".

Uma casa se projeta com ciência e fantasia; e deve se erguer sobre um fundamento firme. Uma boa casa, que durasse anos ou eternidades. Que perdurasse na memória até depois de desabar. Até se fechar a pálpebra da vida - e tudo ficar tranquilo. Construímos com nossa carne e pensamento cotidiano. Êxtases ou tragédias são tijolos frágeis, cuidado.

Sangue, lágrimas, risadas, esperanças, punhais enterrados no peito, tiros nas costas, carícias maternas ou sensuais, e a necessária alegria. Com sorte superamos as fatalidades: o solo arenoso, o terremoto, o raio, a inundação, a enorme pedra no caminho, as falhas dos operários, nossos próprios erros e desesperos, e pequenas glórias.

Se a casa se completar, a vida terá vencido, ainda que a gente só perceba isso no último instante - pois nunca sabemos se está terminada. Como ninguém conhece os prazos de validade ou de esperança, tudo é muito secreto. Melhor para nós, amadores.

Atravessei todos os aposentos, e cansei dessa andança no esforço de continuar viva. Desço para o minúsculo jardim. Chego junto da escada encostada no muro, e que parece levar a lugar nenhum: quando levanto os olhos, lá em cima está aquele pássaro esquisito, entortando a cabeça como fazem os pássaros, afiando seu bico contra a madeira. E me espia.

Então, já de pé no primeiro degrau, desisto de subir, de saber o que existe por lá. Ainda posso celebrar, com lágrimas ou com espumante, o movimento dessa engrenagem de que somos parte, e que, apesar dos adeuses, se chama - mais do que morte - vida.

LYA LUFT


05 DE OUTUBRO DE 2019
CLAUDIA TAJES

Pode vir quente

Começou a escurecer mais tarde e, ainda mais do que uma prova de que a terra gira, redonda como só ela, esse singelo fato também é uma declaração de vitória: sim, nós vencemos mais um inverno úmido e com temperaturas tanto de bater queixo quanto de suar no casaco de pele falsa - ambas no mesmo dia. Não admira que o estado de saúde do gaúcho seja eternamente gripado. E que a vacina tetravalente tenha desbancado o fondue como grande sucesso da estação.

Nós, que temos casas e cobertas, vencemos o inverno. E, agora, quem não tem poderá dormir pelas ruas de Porto Alegre com um pouco menos de sofrimento, se é que isso é possível. Já que vai levar quase um ano até que os termômetros congelem novamente, bem que a prefeitura e seus órgãos podiam ir pensando desde já em soluções para abrigar as pessoas. A gente ouve cada coisa, se está na rua é por ser drogado e vagabundo, quem mandou não trabalhar etc. Aí passa pelo abrigo Dias da Cruz às 9h e já vê ali, começando a formar uma fila, os que não querem correr o risco de ficar sem uma cama no fim do dia. Como é triste não ter para onde ir.

Mas é fato que os dias estão mais longos e que a vida vai mostrando as caras depois do expediente. São muitos correndo e caminhando nos parques depois de bater o ponto. É a época em que as academias recebem de volta os alunos engolidos pelo frio. Tempo de deixar para trás o vinho tinto, o chocolate, a feijoada e o mocotó que acalentaram não só os corpos, mas os espíritos. Para os que esperam por temperaturas mais amenas para fazer ginástica, a vida é um eterno dia da marmota, começar de novo a cada primavera.

O calor também promove o reencontro com roupas estimadas que passaram meses no fundo da gaveta. E com a sempre presente ameaça de não entrar nelas com tanta facilidade assim. Aperta, te encolhe, força um pouco, que fecha. De todos os white people problems que acometem as gurias, talvez um dos mais bobos, e nem por isso menos chatos, seja o momento de vestir o biquíni do ano passado. Por sorte, o conceito de "ter um corpo para usar biquíni" mudou bastante nos últimos tempos. Hoje, basta ter um corpo e usar biquíni. Agora é botar isso na cabeça e mandar um beijinho no ombro para quem ainda insiste em ser inimigo da autoestima alheia.

E vêm aí as atrações aquelas que todo mundo gosta. A Feira do Livro com seus lançamentos para acompanhar os banhos de sol no clube, na laje, na praia. É bem melhor ler um livro do que mexer no celular, a claridade atrapalhando a visão da tela. As feiras de todos os tipos que se multiplicam quando o sereno se vai. 

As mesas na rua, tão bom sentar ao ar livre enquanto não esquenta demais. Sim, porque em breve estaremos todos reclamando do calor, os mais exóticos suspirando pelo inverno. Desse mal eu não morro. Mil vezes a canícula que a friaca. E isso que ainda nem citei o maravilhoso horário de verão, com o bônus da claridade extra para borboletear por aí. Opa, pera. Não tem horário de verão em 2019. Acabaram com a alegria do pobre. Não há de ser nada. Combateremos, literalmente, à sombra.

Que venham os dias quentes.

CLAUDIA TAJES