sábado, 19 de outubro de 2019


19 DE OUTUBRO DE 2019
MARTHA MEDEIROS

Joker

Que personagem adotar para que a sociedade preste atenção em nós? Nascemos carentes: precisamos de quem nos alimente e nos proteja, e dá-lhe biquinho, choro, mamãe, eu quero. Com sorte, receberemos amor e comida em troca, e aí será a hora de entrar para a escola: como ser benquisto em território desconhecido? Nossa adequação ajudará a fazer amigos, nossas estranhezas resultarão em bullying. Figurino, maquiagem e texto poderão facilitar nossa entrada na vida que sonhamos ter. "Seja você mesmo" é um conselho que só serve para aqueles que já sabem quem são, mas até aqui, estamos falando de quem ainda está tentando descobrir quem é - e como se fazer notar.

Arthur Fleck já está bem grandinho e ainda não sabe qual é a sua turma. Tenta fazer seu trabalho direito, mas é desprezado e humilhado. Os distúrbios mentais que traz da infância não ajudam nada. É um desajustado e tudo indica que continuará fantasiando que é popular e atraente, enquanto só apanha da vida. Até que entra em colapso: descobre que foi enganado pela única pessoa que o amava. Fim de linha. Só lhe resta virar o jogo da forma mais trágica que há. Estou falando dele, o Coringa que está em cartaz comovendo multidões.

Um bandido comovente? Muito prazer. Mais um ser humano que precisa de amor e atenção, como todos. Quem não tem uma coisa nem outra, busca alternativas patéticas e até mesmo radicais para consegui-las (inevitável pensar nas redes sociais, onde cada um pode abrir sua janelinha e dizer: "Olha eu aqui!". A internet é o picadeiro de todos nós, inclusive de malucos ávidos por se transformarem em super-heróis, mesmo que às avessas).

Coringa é um arrebatador filme de ficção sobre um personagem que todos conhecem, o arqui-inimigo do Batman. Só que o maniqueísmo recorrente dos quadrinhos deu lugar a uma inquietante indagação: de que lado, afinal, eu estou? Inevitável torcer por Arthur Fleck (interpretado pelo magistral Joaquin Phoenix), um pobre diabo que alguém muito "bonzinho" resolveu presentear com uma arma, a fim de que ele pudesse se proteger por conta própria, e o resto da história não é difícil de imaginar, Gotham City é aqui.

O mundo não é dividido entre bons x maus, e sim entre visíveis x invisíveis, acolhidos x desacolhidos, escutados x ignorados. "Seja você mesmo" é uma falácia para muitos, pois dificilmente saberemos quem somos se não tivermos uma certidão oficial de nascimento e o registro de um afeto e de um cuidado verdadeiro nos primeiros anos de vida. Sem isso, caímos

no mundo com uma bola vermelha no nariz, sendo ridículos para chamar a atenção, até que a nossa dor atinja em cheio o coração alheio: comova-se ou morra. Não é um conto de fadas, mas o filme, de forma meio cínica, termina com o lendário e romântico The End em letras cursivas - como se a busca pela nossa identidade terminasse um dia.

MARTHA MEDEIROS


19 DE OUTUBRO DE 2019
CARPINEJAR

Furtando de si mesmo

Sou o meu pior ladrão. Todas as vezes em que perdi a carteira, eu mesmo me furtei.

Tirei do lugar costumeiro para esconder em algum ponto remoto, para ninguém achar. Só que é tão bem escondido que nem eu me lembro. Tampouco há uma senha de lembrança para reconstituir as pistas.

Isso já aconteceu quando abri a minha casa para uma festa de 60 pessoas. Metade dos visitantes seria desconhecida. Enfiei a minha carteira dentro do sapato social, que não uso com frequência.

No dia seguinte, eu não sabia se limpava o apartamento ou pulava para São Longuinho. Eu guardava a certeza de que estava em casa, mas onde? Não havia jeito de puxar o carretel da memória. Restava-me a cena anterior promissora de ter localizado um ótimo esconderijo.

Bloqueei os meus cartões, recebi novos, dei o dinheiro por desaparecido, perdi tempo e gastei boletos refazendo a identidade e a carteira de motorista, foi uma maratona de burocracia, até que fui convidado a um casamento e reencontrei a carteira ao calçar os sapatos. Três meses depois, lá estava o couro gordinho dormindo na sola. Nada ali mais prestava. E jurava que havia três notas de R$ 100, quando sobraram apenas duas de R$ 50. Quando perdemos algo, juramos que havia mais grana - doce ilusão.

Se nenhum colega casasse, nunca reaveria os pertences. Botei na cabeça que não repetiria a tacanha ideia. Tinha aprendido a lição.

Mas voltando de uma feijoada na residência de amigo, em que emprestei meus cacarecos, não conseguia carregar o jogo de pratos e copos sozinho, estava de bermuda, os documentos caíam perigosamente do bolso e inventei de pôr a carteira dentro da panela. Para quê?

Eu não escondi, eu a enterrei com tampa e tudo na despensa.

Ela morreu na panela de feijão por um semestre. Quando a redescobri, passou tempo demais para manter viva a esperança. Experimentei a mesma custosa ressurreição de vida bancária e pessoal.

Não contei para a família o que aconteceu. Faltou coragem para admitir tamanha tolice. Não queria que eles pensassem que eu era burro. Esquecido sim, admito, mas burro, jamais.

CARPINEJAR


19 DE OUTUBRO DE 2019
DRAUZIO VARELLA

PAULÃO, O PATRIOTA

O inesquecível encontro de um brasileiro com uma loira americana em Nova York. Paulão diz que nunca sentiu tanto tesão por uma mulher.

Conheceram-se durante o estágio que ele fez no hospital da Universidade Cornell, no Estado de Nova York, num jantar oferecido pelo professor do departamento de cirurgia, para os médicos que participavam de um simpósio.

Estranhou o convite: - O professor mal percebia minha existência. Não era sempre que me cumprimentava nos corredores.

Uma vez, por ocasião de um congresso em Boston, o acaso colocou os dois sentados lado a lado, no avião. - Ele me disse good morning, com um meio sorriso, abriu a pasta, pegou uma revista científica e passou o resto da viagem lendo e grifando o texto. Na saída, murmurou goodbye.

Na véspera do jantar, Paulão comprou um terno azul-marinho e pagou US$ 120 por uma gravata de grife. As mangas do paletó ficaram compridas, inconveniente que a vendedora contornou com meia-dúzia de alfinetes de gancho.

Com medo de chegar atrasado, às cinco da tarde já tinha tomado banho, feito a barba pela segunda vez no dia, vestido o terno, conferido a posição dos alfinetes e acertado a simetria do laço da gravata, depois de seis tentativas.

Cinco para as oito, desceu do táxi em frente à porta art noveau do prédio da Park Avenue, no Upper East Side, reduto das famílias mais abastadas. O porteiro de luvas brancas que o recebeu verificou se o nome estava na lista e o acompanhou pelo saguão de mármore até a porta do elevador.

O papel que revestia as paredes da sala mostrava um campo coberto de relva com flores miúdas a perder de vista e um bando de pássaros no horizonte. Os sofás e as poltronas eram de veludo verde-escuro, num estilo que ele só tinha visto em museus. Todos os homens estavam de terno e gravata e as mulheres, de vestidos escuros.

Nascido e criado numa família de feirantes da Mooca, na zona leste de São Paulo, Paulão ficou pouco à vontade, com receio de que notassem os alfinetes do paletó naquele ambiente requintado.

Depois de cumprimentar os colegas do departamento e de ser apresentado às pessoas que não conhecia, parou numa rodinha de residentes do hospital, com os quais passava as visitas na enfermaria.

- O inglês do indonésio e do indiano não era fácil, o dos dois americanos seria, se falassem mais devagar. Eu concordava com tudo. Conforme a reação deles, ficava sério, sorria ou dava risada.

De frente para a porta, diz que foi o primeiro a vê-la entrar:

- Loiríssima, de cabelos soltos, vestido curto, vermelho-escarlate, agarrado no corpo, deu um sorriso na minha direção que iluminou a festa.

Quando serviram o jantar, não pôde crer: ela veio sentar a seu lado, na mesinha junto à janela.

- Quando ela chegou com o prato, meu inglês ficou melhor do que o do Brad Pitt.

Era sobrinha do professor, dava aula de artes plásticas na Universidade Columbia, viajava e falava de si mesma, com toda desenvoltura. Nenhum interesse pela vida dele, nem quis saber de onde era, mas Paulão não deu a mínima, tinha os olhos encantados pelo azul dos dela. No dia seguinte, o coração bateu forte quando o celular chamou.

O jantar foi num restaurante japonês, no decorrer do qual ela voltou ao tema da recepção na casa do tio: ela mesma.

- Quando pedimos a conta, perguntei onde seria o próximo encontro. Num hotel, ela respondeu. Só não caí de costas porque estava sentado. Nem tinha pegado na mão dela.

Foram os três dias mais longos da vida do nosso conterrâneo.

Ela o recebeu na porta do quarto. Vestia um négligé de seda vermelho como vestido da festa. Na mesa, uma garrafa de champanhe, um cesto de frutas, um prato de biscoitos e outro com queijos variados.

- Quando tenho orgasmos, fico morta de fome - explicou.

Advertido por um amigo que morava nos Estados Unidos de que as americanas contam a vida antes de ir para a cama, ao contrário das brasileiras, que o fazem na ordem inversa, ele conteve a ansiedade e fingiu estar diante das reflexões mais reveladoras da alma humana.

Até hoje Paulão não entende como tanto desejo pôde resultar num vexame tão retumbante. As justificativas para explicar a impotência só fizeram agravar a humilhação.

Ela foi magnânima. Em tom maternal, aconselhou-o a não ficar acabrunhado com um fato corriqueiro na vida dos homens. Foi pior, ele notou uma ponta de desprezo na fala.

Acabavam de se vestir, quando ela rompeu o silêncio constrangedor:

- Where are you from? - From Argentina - respondeu ele.

DRAUZIO VARELLA

19 DE OUTUBRO DE 2019
JJ CAMARGO

O QUE OFERECER QUANDO NÃO HÁ O QUÊ

Aquela conversa foi reveladora do quanto o jeito de sofrer é individual e intransferível

Tinha sido uma noite difícil, com os marcadores de infecção progressivamente piores, a frequência cardíaca alta, a pele pegajosa, e a dificuldade de obter-se um equilíbrio entre o nível de sedação do Luciano e o regime ventilatório proposto para a máquina. O cansaço físico é um mau conselheiro porque multiplica desânimos, e por mais que me esforçasse para encontrar uma notícia que prenunciasse alguma mudança de rumo, minimamente otimista, tudo dizia que não.

A mãe, viúva, uma mulher muito bonita, com uma elegância que desafiava a tristeza do momento, levantou-se quando saí da UTI e, com um neto em cada mão, preparou-se para ouvir. Metade pelo desespero de poupá-la, metade porque não conseguiria dizer o quanto o pai estava mal aos seus filhos adolescentes, escorreguei por uma esperança mentirosa.

Interpretando a mensagem positiva como uma frágil trégua na novidade assustadora do sofrimento, os garotos ganharam da avó o direito ao pátio ventoso.

Sem outras testemunhas, a mãe do Luciano me abraçou para agradecer:

- Obrigado, doutor, por me dar um tempo extra para preparar os meninos. Quando vi o seu ar de desânimo saindo da UTI, mais do que temer a verdade integral, eu entendi naquele instante que meus netos não suportariam o baque de perder o pai. Agora, vou ter de achar um jeito de administrar a revolta. Só me diga que tempo ainda terei para isso!

Para mim, aquela conversa foi reveladora do quanto o jeito de sofrer é individual e intransferível. Pensaria sempre numa mãe de único filho, como o ponto fraco da cadeia familiar do sofrimento, mas ela estava lá, impávida, choro por dentro e rocha por fora, porque alguém precisava manter o equilíbrio e preservar nos netos, pelo tempo que fosse possível, o que ela já perdera no filho: a esperança.

A verdade absoluta, que não pode ser omitida da família, ou de quem a represente, não pode ser imposta ao paciente sem que ele tenha manifestado o desejo explícito de conhecê-la. E ainda assim, não se pode esquecer que muitas vezes, no desamparo da situação, a pergunta direta, "Eu vou morrer, doutor?", tem apenas a pretensão desesperada de ouvir a negação confortadora.

A ideia recorrente de que o paciente precisa ser preparado para o pior é uma tolice. Nascemos para a felicidade, e portanto toda a tragédia sempre nos surpreenderá. Antecipar a amargura do futuro só significará sofrer mais, por começar antes.

Toda a informação infausta em um único pacote é, antes de tudo, crueldade. Ninguém tem todos os escudos de defesa disponíveis no primeiro instante de um enfrentamento que precisará ser amadurecido com a solidariedade dos amados, o ombro dos amigos, a confiança nos médicos, e qualquer outro recurso, mais subjetivo, incluindo fé e negação.

A sensibilidade médica é o maior requisito para transitar neste terreno movediço. E ela deve se expressar pela capacidade de filtrar informações desnecessárias, de evitar propostas falsas de tratamentos milagrosos, e de jamais abrir mão da oferta de parceria, porque não há nada mais generoso neste transe de dor do que o paciente saber, sem que ninguém lhe tenha dito, que mesmo quando não houver mais nada para fazer, o doutor que foi capaz de plantar nele esta confiança ainda estará ao seu lado. Porque isso é tudo o que se espera de um parceiro.

JJ CAMARGO


19 DE OUTUBRO DE 2019

DAVID COIMBRA

O mundo não terá mais brinquedos

Quando meu filho era pequeno, tinha um brinquedo que ele queria muito: a caverna do Batman, da Imaginext. Era um sistema complexo, com a caverna em si e mais o batmóvel, o batcóptero, o Robin e não sei mais o quê. Mas era um troço caro, acho que uns R$ 400. Então, demorei um pouco a comprar. Ao fazê-lo, foi em segredo, sem contar para ele. Fui à loja e voltei com a caverna. Abri o pacote e coloquei-a em cima de uma estante alta que havia lá em casa, sobre uma porta. Ele chegou e eu apontei para o presente:

- Olha ali: é teu. Mas só quando tu deixar de chupar bico!

Ele ficou num estado de excitação e de ansiedade do qual nunca esqueci. Abria a boca como se quisesse sorver todo o ar da sala, balançava os braços como se quisesse voar, não sabia se aquilo, afinal, era bom ou ruim. Claro que tirei a caverna da estante e dei para ele, sem esperar pela desistência do bico. Foi lindo ver sua emoção. Como era bom dar um brinquedo de presente para o meu filho.

Mais tarde, quando já morávamos nos Estados Unidos, fomos a uma famosa loja de brinquedos que há em Nova York. É a loja que aparece naquele filme que lançou o Tom Hanks para o sucesso, lembra? Quero Ser Grande. Entramos no lugar e fiquei encantado. Dava vontade de brincar com todas aquelas maravilhas, e era realmente o que eu fazia, experimentava um brinquedo e outro e mais outro, me divertindo muito, até que meu filho me puxou pelo braço e pediu:

- Vamos indo? Pisquei:

- Mas tu não vais escolher um brinquedo? Pode escolher?

- Não precisa, obrigado.

Foi aí que me dei conta: meu filho não brincava mais com brinquedos. Nenhum dos amigos dele brincava antes ou brinca agora, nenhum, nem nos Estados Unidos, nem no Brasil. Eles só querem saber de jogos eletrônicos.

Essa constatação me fez sentir certa melancolia. Lembrei-me com nostalgia do meu Forte Apache. Hoje, os guris não apenas não brincam com Forte Apache, eles nem fazem ideia do que seja, mas na minha infância havia até um prédio em Porto Alegre que chamavam por esse nome, inspirado no título de um filme do John Wayne.

O meu Forte Apache, de plástico, com caubóis, soldados e índios pequeninhos, não era inspirado no filme, era inspirado no Rin-Tin-Tin.

Os guris também não conhecem o Rin-Tin-Tin. Era o pastor alemão do cabo Rusty, um menino que havia sido adotado pelo batalhão do exército americano que ficava sediado no?... no?... Forte Apache!

O cabo Rusty, quando estava em apuros, como em um ataque de índios ou de bandidos, gritava:

- Aiôôôô, Rintin!

E o Rin-Tin-Tin saltava sobre o agressor, feroz e cheio de dentes, e salvava o menino.

Rin-Tin-Tin, o cachorro, existiu mesmo. E era um pastor alemão MESMO. Um soldado americano trouxe-o da Alemanha para os Estados Unidos depois da Primeira Guerra Mundial. É por causa dele, Rin-Tin-Tin, que pretendo dar um pastor alemão para o meu filho. Ele vai ser grande e feroz e vai se chamar Murder.

O Forte Apache era o meu brinquedo preferido na primeira infância. Mais tarde, na idade do meu filho hoje, 12 anos, eu jogava botão TODOS os dias. Tinha mais de 10 times e ninguém me batia no campo de parquê da casa da minha mãe. Sim, eu era "David Coimbra, o invencível".

Meu time tinha dois zagueiros com três camadas, altos e fortes, e um puxador de duas camadas na meia-esquerda, o Rivellino, que era azul-escuro em cima e branco embaixo, que, nossa!, como fazia gol, o Rivellino. Ninguém me ganhava.

"O invencível".

Mas uma vez perdi um campeonato para o Diana e ainda não me perdoo por isso. Talvez eu tenha tremido na decisão, sei lá, foi um revés inexplicável. Ele hoje mora em Santa Catarina e ainda guarda a tacinha que ganhou de mim, o desgranido.

Era bom jogar botão, brincar de Forte Apache, de bolinha de gude, era bom puxar carrinho?

E agora as crianças não querem saber mais de brinquedos?

Será que isso produzirá algum efeito nesses meninos, quando eles se tornarem adultos? Como será o mundo dos homens que nunca brincaram com brinquedos? Terão mais imaginação do que nós? Menos? Ou não faz diferença?

Não sei qual é a resposta a essas perguntas, só sei que, às vezes, chego a sonhar que estou manejando o meu time de botão. Tenho a ficha de plástico na mão direita e a bolinha está no ataque. Aviso para o adversário:

- A gol!

Ele ajeita o goleiro. Eu me concentro. Olho para a goleira. Olho para o meu puxador. Apoio a ficha no botão. E: - Gooooool do Rivelliiiiiiiino! David Coimbra. O invencível.

DAVID COIMBRA


19 DE OUTUBRO DE 2019
VARIANDO

Quando a mentira é uma bênção

Nunca esquecerei o drama de uma amiga quando se deu conta de que algo muito ruim iniciava seu curso. Era um dia normal quando seu marido, repentinamente, lhe pediu para que voltassem à casa. A questão era que estavam em casa, no imóvel em que viviam fazia décadas. Que fazer nesses casos?

Todos ganhamos um bônus: a vida está prolongada, a medicina empurrou para todos a linha do inevitável. O problema é que corpo e cérebro não envelhecem na mesma medida. Tínhamos antes a demência senil, quadro genérico e vago, porém agora existe um leque de doenças neurodegenerativas para nomear o sofrimento pelo qual nossos idosos passam. Mas se o apuro diagnóstico avança, o mesmo não se dá com a terapêutica, de progresso ainda tímido.

A massiva presença de pessoas de idade produziu um novo momento, com duas perguntas: como é viver mais tempo e de que maneira isso vale a pena? O texto "A casa da memória", na revista Piauí número 156, de setembro passado, ajuda a pensar essa questão. O interessante do artigo é o relato de uma mudança de paradigma: enquanto antes relembrávamos a cada momento nossos desmemoriados de sua verdade, agora os poupamos de sua história.

Quem já teve uma experiência com eles sabe que, quando nos perguntam algo banal como "onde está fulano?", se dissermos a verdade - "ele morreu" -, os apunhalamos como se fosse a primeira vez que escutaram a notícia. A questão é que em seguida já esqueceram. E podem nos perguntar mais uma e incessantes vezes: "Onde está fulano?".

A informação para essas pessoas gira em falso. Escutam, sofrem, mas não assimilam. Então, vale a pena torturá-los mil vezes se a dor é para nada? Esse é o cerne do artigo e retrata o cotidiano de quem trabalha com pessoas cuja memória já não funciona.

A autora cita experiências de asilos onde, quando o hóspede pede para ir para casa, alguém o acompanha até uma parada de ônibus falsa. Depois de um tempo, cansado, ou esquecido do propósito, a mesma pessoa o leva de volta sem problemas. Esse voltar para casa, tão comumente demandado, é o lar paterno da infância, quando se sentia cuidado. Adianta dizer que esse lar já não existe?

A questão é ética: devemos mentir para os desmemoriados? Optamos por fazê-los felizes e os poupamos das más notícias, ou os confrontamos com sua história e seu estado? Sinceramente, creio que nesses casos de demência avançada, o melhor seja criar uma ficção que os mantenha confiantes. Essas pessoas recuam para um passado que os conforta. Por que as tiraríamos dali?

Mas as questões sem resposta são: quando alguém deixa de ser ele mesmo? Qual o estatuto desse novo ser que surgiu, em que pouco ou nada lembra o eu do passado? Quando começamos a fabular, que é a palavra justa nesses quadros, para nossos queridos?

Novos tempos, novas e duras questões...

MÁRIO CORSO

19 DE OUTUBRO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

AMEAÇA À GOVERNABILIDADE

A proporção tomada pela conflagração interna do PSL supera em muito o que poderia ser apenas uma crise partidária. A contenda aberta na legenda que abriga o presidente da República, recheada de acusações de traições, vazamentos e xingamentos, é extremamente grave por ser uma ameaça à governabilidade do país. Jair Bolsonaro chegou ao Planalto descartando as alianças típicas do presidencialismo de coalizão, que convencionou chamar de velha política, mas em nenhum momento conseguiu colocar uma alternativa viável em seu lugar e montar uma base sólida para aprovar matérias de interesse do governo. Aos 10 meses de mandato, parece que nem sequer pode contar com o PSL por inteiro, devido à implosão da legenda.

A barafunda eleva a instabilidade política em Brasília e torna ainda mais incerta a capacidade da gestão Bolsonaro de fazer passar, no Congresso Nacional, as reformas estruturais que o Brasil clama para ajustar as contas e se modernizar. Afinal, uma das marcas do atual governo é fabricar as próprias crises. O projeto da Previdência, por ilustração, andou mais pela compreensão dos parlamentares da sua importância do que por mérito palaciano. E, até agora, não teve a votação finalizada no Senado. Com a pancadaria solta, aumentam as interrogações sobre o destino das reformas tributária e administrativa. Se a interlocução com o Congresso já era amadora e errática antes do escancaramento do racha, fica difícil imaginar que a agenda legislativa governamental flua com mais naturalidade daqui para a frente. Um péssimo augúrio para o Brasil.

A erupção no PSL, dividido entre os bolsonaristas e os seguidores do presidente do partido, Luciano Bivar, está longe de ser uma surpresa. Assim como inflou artificialmente na onda conservadora que varreu o país nas eleições do ano passado, o partido murcha rapidamente em meio à beligerância intestina de seus membros, a denúncias envolvendo candidaturas de laranjas e às confusões do clã presidencial.

Há ainda o importante elemento desagregador e motivo de disputa encarniçada: o naco gordo dos fundos político e eleitoral a que o partido tem direito. A instalação da balbúrdia, alimentada pela briga por recursos públicos, deixa claro que o modelo atual é repleto de falhas, se não um desastre completo para o país. Toda essa desordem só reforça a convicção de que a mãe de todas as reformas deveria ser a política.



19 DE OUTUBRO DE 2019
CRISE POLÍTICA

Uma direita em busca de rumo

Após ascensão meteórica ao poder, grupo de oposição ao PT se divide e escancara publicamente as divergências de bandeiras.

Um ano depois de vencer a disputa presidencial, a direita brasileira irrompeu em guerra. Enquanto Jair Bolsonaro se arma contra o PSL e apoiadores de primeira hora racharam com o presidente, seguidores e dissidentes do bolsonarismo se engalfinham na "twittosfera". Na última semana, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) admitiu que o campo político se encontra em momento de "debate".

- Estamos passando por uma fase de depuração, nos identificando. Só que, ao contrário da esquerda, que segura internamente qualquer desavença, a direita faz isso publicamente. Pode parecer um racha, e, por vezes, até é, mas acredito que, no final, se houvesse um segundo turno, todos da direita votariam contra o PT novamente - justificou o parlamentar.

Eduardo respondia a uma pergunta sobre a chance de vitória da esquerda em 2022 por conta dessa divisão na abertura da CPAC, sigla em inglês para Conferência da Ação Política Conservadora. Realizado no último final de semana em São Paulo, o encontro bolsonarista foi armado pela ala da direita que busca se organizar desde que chegou ao poder - ao menos outros quatro eventos semelhantes já ocorreram neste ano.

Para analistas políticos, a leitura do parlamentar está - em parte - acertada. Reunida no guarda- chuva anti-PT, a chamada nova direita chegou ao poder sem tempo de preparo suficiente, com pautas difusas e, em alguns momentos, dissonantes - em outros, sem agenda alguma. À desordem, ainda se acrescentam a dificuldade de articulação e o perfil pouco institucional do presidente, que contribuem para a ausência de liderança e o surgimento de crises.

- PSL e Bolsonaro se aproveitaram de um momento histórico favorável à direita, com um movimento basicamente antipetista, e conseguiram vencer a eleição. Mas muitas das dinâmicas internas, como organização e modo de governo, são problemáticas - avalia Glauco Peres, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP).

Líder dessa direita repaginada desde 2015, quando se destacou como articulador nacional dos protestos anti-PT, o deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP) aponta que "muita gente" se autointitulou direitista e foi eleita no tsunami antiesquerda. Mas o fundador do Movimento Brasil Livre (MBL), que costuma criticar a família presidencial, argumenta que uma parcela desse grupo defende ideias opostas ao que ele considera essencial ao campo político, como protecionismo e soberania nacional.

- Tem pessoas que se colocaram como antagonistas da esquerda, mas que, por princípio, não têm grandes convicções. Aí, é como se fosse um cachorro que só sabe correr atrás do carro. Quando o carro para, não sabe mais o que faz - ilustra Kataguiri.

Descoberta

Diferentemente do PT, que teve mais de duas décadas para se estruturar até alcançar o comando do país, a nova direita brotou das ruas, nas manifestações de junho de 2013, e atingiu o auge cinco anos depois, na figura de Bolsonaro.

- Há muita diversidade naquilo que se chama de direita. Num momento de tensão eleitoral, ocorre um fenômeno de aglutinação política e tudo fica mais simples. Depois, a vida segue o seu curso normal e surgem as divergências. Isso é acentuado pelo poder, que introduz elementos como a distribuição de prerrogativas e recursos e o acesso ao Estado. As disputas internas dentro do PSL, por exemplo, têm muito pouco de ideológico. São disputas pelo controle da máquina partidária - analisa o cientista político do Insper Fernando Schüler.

Hoje, gravitam à direita movimentos diversos: o liberal focado na economia, o conservador que dá ênfase aos costumes, o saudosista da ditadura militar, o lava-jatista e o bolsonarista "raiz", alinhado ao discurso agressivo do presidente e de seus filhos (ver quadro). Porém, de acordo com especialistas, nenhum desses campos está isolado. Vira e mexe, eles transitam entre si.

- Essa nova direita chegou ao poder muito rápido e, claramente, não discutiu o quanto queria ser institucional, democrata e liberal. Tem gente que achava que concordava com o colega e está descobrindo que, na realidade, discorda - pontua Celso Rocha de Barros, doutor em sociologia pela Universidade de Oxford.

DÉBORA ELY


19 DE OUTUBRO DE 2019
INFORME ESPECIAL

Nos palcos da vida

Durante a semana, fui convidado pelo Jair Kobe para participar do Programa do Guri, um show de auditório que faz sucesso às terças-feiras, no Teatro da Amrigs, em Porto Alegre. É um espetáculo divertido e tri família. Plateia lotada. Fiquei ainda mais feliz quando descobri que disputaria um concurso de perguntas com os queridíssimos Claus e Vanessa, dupla pop que voltou há pouco de uma temporada de dois anos nos EUA.

No camarim, além do melhor pastel integral de palmito que comi na vida, rolou aquela conversa gostosa, temperada a adrenalina que antecede a entrada no palco. E aí o Jair, antes de colar o bigodão e se transformar no Guri de Uruguaiana, quis saber por que eles voltaram para esse Brasil tumultuado e inseguro. Lembramos a frase de Tom Jobim: "Morar em Nova York é bom, mas é uma merda. Morar no Rio é uma merda, mas é bom."

Morar em Porto Alegre é mais merda ainda, mas também é mais bom.

Eu estava levemente nervoso, porque teria que responder a perguntas e também enfrentar algumas "provas gaudérias". Fiquei tentando descobrir quais seriam. Ouvido esticado, notei quando alguém do staff falou a um outro colega sobre uma tal prova de chula. Então era isso!!! Gelei. Eu, dançando chula no palco, sob as lentes de centenas de câmeras de celulares. Era o fim.

Tomado pelo pânico e sem que ninguém visse, enquanto o show rolava e ainda não era a minha hora de entrar, fui ao canto mais escuro dos bastidores e comecei a ensaiar: "tã rãn tan tan tarãn tarãn tãn tan"... e sapateava pra cá e pra lá, feito um ganso desajeitado, sobre uma lança imaginária no chão. O vexame era só questão de tempo.

Dez minutos depois, o Licurgo passou com a maldita lança na mão rumo ao palco. Me preparei mentalmente, mas... o desafio na chula era outro quadro, que nada tinha a ver comigo. Confesso que fiquei frustrado. Depois da quinta tentativa, a minha chula até que enganava bem.

Aproveito para dar os parabéns ao Claus e à Vanessa, que ganharam a disputa, apesar do empenho da minha equipe e da avassaladora vitória no desafio da velocidade de descascamento de bergamotas.

O desempate foi na prova musical. O Claus sacou, com cinco notas, que a música era Vento Negro. "Quero luta, guerra não". A prenda para os perdedores foi um mergulho de cabeça em uma travessa de sagu. Um dos integrantes da minha equipe, voluntário que veio da plateia, se adiantou. Deu tempo de eu enfiar o dedo no prato e provar. Tava muito, muito bom. Se um dia eu for de novo, vou perder de propósito. E dessa vez, não serei bonzinho. O banho de sagu será meu.

Mérito ao quadrado

A Brigada Militar criou oito patrulhas Maria da Penha, reforço importante ao projeto criado em 2012 para prevenir e combater a violência contra a mulher.

Cerca de 2 mil itens foram doados para a campanha Tudo Vira Brinquedo, da prefeitura, pelo Sindilojas Porto Alegre. A ação vai até 31 de outubro e já contabiliza 12,6 mil doações.

A primeira semana da Campanha Nacional contra o Sarampo vacinou mais de 3 mil pessoas de seis meses a 49 anos na Capital. Mais de 1,5 mil imunizações foram para crianças de seis meses a cinco anos, alvos prioritários da campanha.

As expectativas dos empresários são otimistas quanto à economia do país e das indústrias gaúchas. É o que revela o Índice de Confiança do Empresário Industrial. Mesmo tendo ficado estável em 59,2 pontos entre setembro e outubro, o índice - que varia de 0 a 100 pontos - segue bem acima da média histórica de 53,2.

O Instituto Ling oferece neste sábado, às 14h, mais uma oficina gratuita. Intitulado Diversidade Dançada, o projeto utiliza os movimentos para integrar pessoas, com ou sem deficiências, a partir dos 10 anos de idade.

TULIO MILMAN

19 DE OUTUBRO DE 2019
RODRIGO CONSTANTINO

Feminismo é de esquerda

Na última coluna, falei do ambientalismo hipócrita e disse que, tal como o feminismo, que pouco tem a ver com a mulher atualmente, a causa ambiental tem muito mais elo com o esquerdismo do que com o clima. Despertei alguma fúria, e aproveito a ocasião para desenvolver o raciocínio.

Sei que muitas pessoas se dizem feministas e acham que isso significa defender "direitos iguais" para homens e mulheres. Nada mais falso. O feminismo, em sua terceira e mais radical geração, virou mesmo um movimento de ódio aos homens, à família, ao livre mercado. E a hipocrisia salta aos olhos!

Basta pensar em Thatcher, por exemplo. Mulher forte, líder de uma grande nação por uma década, e detestada pelas feministas. Mas não era o "empoderamento" que importava? O problema é que Thatcher era conservadora. Pecado mortal.

Podemos pensar ainda na juíza federal Gabriela Hardt, que interrogou o criminoso Lula. Num trecho que se tornou viral na época, Lula tenta enquadrar a juíza, invertendo os papéis. A juíza era uma mulher independente, num cargo de respeito, determinando a prisão de um homem branco poderoso e milionário. Qualquer feminista adoraria encaixar esse caso em sua narrativa de "mulher empoderada".

Curiosamente, não vimos lideranças feministas fazendo isso. Assim como não vimos reação quando o ex-presidente desrespeitou suas companheiras de partido, aquelas de "grelo duro". O motivo? Lula é de esquerda, e o feminismo tem muito mais a ver com o esquerdismo do que com a mulher.

Quando a ex-mulher de Marcelo Freixo o acusou de agressão, tivemos o mesmo silêncio ensurdecedor por parte das feministas. Freixo é do PSOL. Imaginem se fosse com Bolsonaro! O foco é mesmo a mulher, ou a ideologia?

Por fim, há a questão da "igualdade salarial". É simplesmente mentira que a mulher ganha menos do que o homem para a mesma função e produtividade. O que se faz é comparar laranja com banana. A estatística é torturada até confessar o que a ideologia quer: a discrepância de salários na média é tratada como prova de preconceito machista. O feminismo virou a porta de entrada para o socialismo, que prega igualdade de resultados, não importa o mérito individual.

RODRIGO CONSTANTINO

sábado, 12 de outubro de 2019



12 DE OUTUBRO DE 2019
LYA LUFT

Criancices

Não sei, em minhas tantas memórias que curto e com que me divirto, se gostava de ser criança. Gostava de nossa casa, do jardim imenso, do laguinho no fundo, do pomar (mas tinha de lavar a fruta antes de comer...), dos canteiros de flor, um deles só de rosas de minha mãe, gostava da casinha de meus avós paternos logo adiante, do casarão dos avós maternos no centro da cidade. Gostava da chuva no telhado ou nas lajes do pátio, de meus pais, meu irmãozinho, das empregadas, de todo mundo. Gostava de tudo, da vida, do mundo, embora nem soubesse o que era isso.

Então, fui uma criança feliz numa casa amorosa e alegre. Claro que havia meus medos, minhas imaginações, sempre a mil; havia eventuais impaciências de meu pai por eu desobedecer à mãe, e as implicâncias maternas por minha enorme dificuldade de ficar quieta na hora de ficar quieta, sobretudo parar de fazer tanta pergunta. Lembro de minha mãe, mãos nas têmporas, dizendo em alemão, pelo amor de Deus, menina, para de fazer tanta pergunta, já estou ficando tonta. Vai falar com seu pai.

Criança não pensa, e criança fica quieta, eram uns lemas tão distantes para mim quanto as nuvens, as estrelas. Criança fica quieta às vezes, e era maravilhoso: embalada na rede do terraço, olhando os morros azuis, deitada na grama imaginando figuras nas nuvens, ou vendo algum anjinho gorducho saltando de uma nuvem para outra.

Criança, eu acreditava em tudo, já escrevi várias vezes que, talvez vergonhosamente, acreditei em cegonha até quando num grupinho de amigas, então já com uns sete anos, tentaram me explicar qualquer coisa horrenda sobre um caninho de borracha em que um bebê minúsculo passava do pai pra mãe... achei a cegonha bem mais plausível.

O que eu não gostava nisso de ser criança eram regras, obediência, conselhos. Senta direito. Não fala com boca cheia. Apaga essa luz e dorme de uma vez, chega de ler. Vai lá fora brincar no sol, você vai ficar burra de tanto ler. Olha o jeito com que fez sua cama. Olha esse bordado todo repuxado. Para de rir por qualquer bobagem. Vem, vamos fazer umas visitas: me assustava visitar um tio-avô em cadeira de rodas, nariz adunco, olhos de pássaro, com quem todo mundo falava aos gritos. Levou tempo até me explicarem que o pobre era surdo, mas não perdi o medo dele.

O que eu queria mesmo, na infância, era crescer. Adolescente, adulta, dona de meu pobre nariz e de minha vida, minhas escolhas. Lá, naquele ponto ainda distante, ficava um quase-paraíso na minha fantasia tão ingênua. E as contas a pagar? E os trabalhos a realizar? E os filhos a educar (sendo essa de filhos sempre a melhor parte), e a profissão a escolher, e se a gente não der pra coisa nenhuma - como por muitos anos pensei sobre mim mesma, já adulta? 

Rio sozinha lembrando que, depois de por muitos anos ouvir de minha amorosa, preocupada mãe, que "criança não pensa", escrevi, ilustrado pela minha filha Susana e com colaboração de meu filho Eduardo, um livro infantil, Criança Pensa.

No fundo, como me disse um dia meu amado amigo e compadre Erico Verissimo, às vezes o humor é mais importante do que o amor.


LYA LUFT


12 DE OUTUBRO DE 2019
MARTHA MEDEIROS

Uma oração para os novos tempos

Que honremos o fato de ter nascido, e que saibamos desde cedo que não basta rezar um Pai-Nosso para quitar as falhas que cometemos diariamente. Essa é uma forma preguiçosa de ser bom. O sagrado está na nossa essência, e se manifesta em nossos atos de boa-fé e generosidade, frutos de uma percepção profunda do universo, e não de ocasião. Se não estamos focados no bem, nossa aclamada religiosidade perde o sentido.

Que se perceba que quando estamos dançando, festejando, namorando, brindando, abraçando, sorrindo e fazendo graça, estamos homenageando a vida, e não a maculando. Que sejam muitos esses momentos de comemoração e alegria compartilhados, pois atraem a melhor das energias. Sentir-se alegre não deveria causar desconfiança, o espírito leve só enriquece o ser humano, pois é condição primordial para fazer feliz a quem nos rodeia.

Que estejamos sempre abertos, se não escancaradamente, ao menos de forma a possibilitar uma entrada de luz pelas frestas. Que nunca estejamos lacrados para receber o que a vida traz. Novidade não é sinônimo de invasão, deturpação ou violência. Acreditemos que o novo é elemento de reflexão: merece ser avaliado sem preconceito ou censura prévia.

Que tenhamos com a morte uma relação amistosa, já que ela não é apenas portadora de más notícias. Ela também ensina que não vale a pena se desgastar com pequenas coisas, pois no período de mais alguns anos estaremos todos com o destino sacramentado, invariavelmente. Perder tempo com picuinhas é só isso, perder tempo.

Que valorizemos nossos amigos mais íntimos, as verdadeiras relações para sempre.

Que sejamos bem-humorados, porque o humor revela consciência da nossa insignificância - os que não sabem brincar se consideram superiores, porém não conquistam o respeito alheio que tanto almejam.

Que o mar esteja sempre azul, que o céu seja farto de estrelas, que o vinho nunca seja racionado, que o amor seja respeitado em todas as suas formas, que nossos sentimentos não sejam em vão, que saibamos apreciar o belo, que percebamos o ridículo das ideias estanques e inflexíveis, que leiamos muitos livros, que escutemos muita música, que amemos de corpo e alma, que sejamos mais práticos do que teóricos, mais fáceis do que difíceis, mais saudáveis do que neurastênicos, e que não tenhamos tanto medo da palavra felicidade, que designa apenas o conforto de estar onde se está, de ser o que se é e de não ter medo, já que o medo infecciona a mente.

Que nosso Deus, seja qual for, não nos condene, não nos exija penitências, seja um amigo para todas as horas, sem subtrair nossa inteligência, nosso prazer e nossa entrega às emoções que nos fazem sentir plenos.

A vida é um presente, e desfrutá-la com leveza, inteligência e tolerância é a melhor forma de agradecer - aliás, a única.

* Coluna publicada originalmente em 3 de novembro de 2013- MARTHA MEDEIROS

12 DE OUTUBRO DE 2019
CARPINEJAR

Alma antiga

Tenho hábitos de velho, extravagantes para os filhos e a esposa. Eu curo tristezas comprando material em tabacaria. Levo aqueles lápis muito apontados, que se assemelham a cavaleiros medievais, de armadura e lanças, prontos para o combate. Arrebato ainda caderninhos bonitos, portáteis, próprios ao tamanho dos bolsos, para me perder desenhando e escrevendo. 

O cheiro do grafite e do papel me dá novo ânimo. Ter folhas em branco é uma lição de esperança: como se estivesse adquirindo dias que nunca foram usados. Retorno à época em que era estudante e o ano letivo começava cheio de pressentimentos. Cadernos são calendários inéditos. Amplio a extensão de meu coração deixando algo a ser preenchido para depois.

Eu também encarno aquele tipo que escuta música clássica para boiar nas lembranças. Deito no sofá com Mozart, Beethoven e Olivier Messiaen tocando alto na vitrola. Fico pensando à toa, sem mexer em mais nada, sem sentir mais nada, a não ser a minha respiração soletrando os compassos. Quando a família me encontra assim, acredita que estou mal. Pelo contrário, a solidão só me faz bem. Reviso os meus atos, os últimos acontecimentos, cochilo e acordo em alguma fantasia, peço desculpa a alguém em segredo no passado, agradeço por ser sincero comigo.

Gosto igualmente de cuco, para me certificar de que está vivo e funcionando. Eu me divirto conferindo a corda dele ao longo da noite. Um relógio que tem uma estatura maior do que a minha passa a segurança de mais um parente dividindo o teto. O tempo não deixa de ser uma pessoa.

Não abro mão dos casaquinhos de lã ao entardecer. Mesmo que não combinem com o que venho vestindo, aprecio essas mantas de botões cobrindo os meus ombros. A brisa nunca me pega desprevenido.

Prefiro um brechó a uma grande loja de novidades, prefiro um museu a uma praça lotada. Sou cada vez menos filho de meus pais, cada vez mais irmão deles. Acredito que sempre fui uma alma antiga, a diferença é que me encontro mais parecido por fora com o que levo dentro.

Mas todo mundo de casa acha que exagerei em meu envelhecimento precoce quando comecei a pedir tônica com limão e gelo nos restaurantes.

- Não conheço gente com menos de 60 anos que tome tônica - reclamou Beatriz. Tentei explicar para a minha esposa que ela apenas tem a ganhar com o meu gosto amargo. Perto de mim, ela vive rejuvenescendo. Já é uma adolescente.

CARPINEJAR


12 DE OUTUBRO DE 2019
LEANDRO KARNAL

ROTULO, LOGO EXISTO

PENSAR EM APROFUNDAR, DAR UMA SEGUNDA OLHADA, FUGIR DO RÓTULO: PARECEM SER ATITUDES QUE EXIGEM O DESAFIO DA VONTADE FÉRREA. DEIXAR QUE SENTIDOS MAIS AMPLOS INVADAM SUA PERCEPÇÃO SEM JULGAR E ENGAVETAR DE IMEDIATO É UM ATO DE RESISTÊNCIA. ABRIR ESPAÇO PARA COMPLEXIDADES É BOA META.

Nosso cérebro é uma complexa estrutura forjada por milhões de anos de evolução. Por outro lado, é também primitivo e foi lapidado para seres trogloditas que viveram há milhares de anos. É curioso pensar que o mais refinado, erudito e urbano dos moradores deste planeta tenha o mesmo hardware que um caçador coletor que passou a vida errando em uma pequena área de algum lugar em busca de comer, aquecer-se e garantir a reprodução.

Estou sendo injusto em minha descrição. Nosso primitivo ancestral era capaz de realizar pequenas cirurgias, tecer, fazer ferramentas de pedra. Tente criar algo assim em casa e você verá que somos menos autônomos do que um coletor do Paleolítico. Mas estou sendo preciso quando comparo nossos cérebros.

Desenvolvida para uma chave amigo-inimigo, nossa mente tende a rotular tudo o que vê, julgando a novidade de acordo com seu conhecimento prévio. Isso garantiu nossa vida por muitas gerações: se eu comer algo que me faz mal, toda vez que olhar para algo semelhante, sentirei repulsa. Nosso cérebro rotula de acordo com a percepção de nossos sentidos. Isso pode ser bom para evitar perigos, porém, cria problemas para nossa atualidade

Se eu tivesse que arriscar um esboço do que seria o pensamento médio das pessoas, hoje em dia, ele seria similar ao da mente primitiva dos antepassados paleolíticos. Formamos bandos com facilidade. Yuval Harari chama a atenção para como a detração é uma poderosa cola social. Fofocando, crio laços, forjo alianças, consigo favores, ganho poder. Desde sempre, nossa espécie previamente classifica o que vê antes mesmo de buscar compreender o que tem na sua frente. O pavor instintivo da novidade me faz rejeitá-la. Repetir o que é conhecido foi estratégia evolutiva para que o homem primitivo continuasse andando pelo planeta.

É claro que nós também somos conhecidos por sermos uma espécie que foge da natureza animal e que cria e modifica culturas. Portanto, há também um instinto inquisitivo, que gosta de descobrir coisas novas, explorá-las. No entanto, a sensação é que ele anda em baixa em nossos tempos. Nosso software quer novos programas; o hardware se apega à classificação empobrecedora de bom/ruim e desconhecido/conhecido.

Retorno ao ponto central: o que faz alguém ler uma manchete, ouvir um trecho de uma fala e, instantaneamente, apontar o dedo e dizer "Fulano é liberal", "Esse é comunista" etc.? No geral, quem afirma isso nem sequer tem clareza do que é liberalismo ou comunismo, tampouco consegue passar da superfície do que diz seu interlocutor, seja um texto, imagem, pessoa, vídeo ou áudio. Classificar, para o cérebro primitivo que se contenta em viver na caverna, é mais importante do que entender. Por quê?

Encerrar em caixas herméticas dá segurança. Começamos com a minha tribo e a do outro. Se é da minha, diminuem as chances de ataque. Classificar é a primeira forma de dominar e de se defender. O vício entrou em nós. Da tribo, passamos a gostos musicais e sexuais ou escolas artísticas. Será que a peça é rococó ou maneirista? Art Déco ou Nouveau? Primeira ou segunda fase do Romantismo? Naturalismo ou Realismo? Classificar não é ruim ou errado. Supor que algo esteja controlado mentalmente por estar etiquetado é, no fundo, estupidez.

Há pelo menos duas formas de entender o fenômeno. E elas não são excludentes. Talvez até se complementem. Vejamos. A primeira corrente vê na estupidez da rotulação imediata um traço humano. Sempre fomos estúpidos, violentos. A sociedade ficou mais complexa, criamos leis que dificultam ser assim, mas, em nossas essências, somos os mesmos de sempre: estúpidos. Por outro lado, há quem afirme que o tempo curto da internet, o imediatismo atual, produz superficialidades, impede o raciocínio profundo, pois este requer o questionamento de bolhas epistêmicas e, mercadoria cada vez mais rara e cara, tempo de reflexão, ponderação. 

Há idiotas que encontram eco em bandos de pessoas como eles e isso potencializa os danos. Não seria uma essência, necessariamente, todavia um feitiço, uma tentação oferecida por algoritmos do universo digital. O canto de sereia nos atrai para a morte. Ambas as teorias podem se juntar numa poderosa, mas talvez equivocada explicação: somos todos primitivos e temos tendência ao preconceito; quando nutrimos o oposto, escapamos da caverna; mas, quando sucumbimos ao tentador de grupos de redes sociais, o verniz vai embora e o troglodita volta a comandar nosso cotidiano.

Trata-se de um treinamento reverso. Tudo pede que você classifique continuamente. Resistir à tentação é um desafio. Pensar em aprofundar, dar uma segunda olhada, fugir do rótulo: parecem ser atitudes que exigem o desafio da vontade férrea. Deixar que sentidos mais amplos invadam sua percepção sem julgar e engavetar de imediato é um ato de resistência. Abrir espaço para complexidades é boa meta. O resto? O rema-rema de frases superficiais, senso comum e a celebração da boçalidade. Talvez, um dia, descubram que se trata de uma bactéria específica transmitida pela digitação. O remédio continua sendo ler com atenção, duvidar como método, analisar possibilidades fora do que está posto e nunca ser o representante da verdade na Terra. Ah, e ajuda abandonar as redes sociais por pelo menos uma hora por dia. É preciso ter esperança.

LEANDRO KARNAL


12 DE OUTUBRO DE 2019
FRANCISCO MARSHALL

A MORTE DE SÓCRATES

Em 399 a.C., Atenas cometeu um dos mais sórdidos crimes da História, a execução de Sócrates. Como pôde uma cidade democrática, em que há lugar precioso para a liberdade, a vida das ideias e as garantias judiciais, condenar um homem de pensamento, bom cidadão?

O evento foi examinado por Platão em quatro obras: Êutifron, Apologia de Sócrates, Crítias e Fédon. Na Apologia, Sócrates apresenta sua defesa diante do júri de cidadãos da Heliaia, o tribunal popular, acusado de perverter a juventude e de impiedade, por introduzir novas divindades. A Apologia é o primeiro monólogo da história da literatura, diverso do estilo que consagrou Platão, o diálogo. É um texto trágico, onde vemos o homem debater-se diante de destino incontornável. 

Em grande parte ficção composta por Platão, é nesse livro que apareceria a frase atribuída a Sócrates, "só sei que nada sei", paradoxo que põe em contradição saber e não saber, pois se nada sabe, não pode saber nem que não sabe. A sentença original, todavia, não contém paradoxo, apenas refere o principal argumento da defesa, de que ele se tornou antipatizado ao tentar encontrar, sem sucesso, algum ateniense que detivesse saber verdadeiro. Diz então que um de seus arguidos: "Sem saber nada, imagina que sabe, mas eu, sem saber, de fato, coisa alguma, não presumo saber algo" (Apologia, 21d).

Sócrates sabe, sim, que nada pode diante da opinião pública adversa, e que seu julgamento é uma farsa, em que triunfam alegações sem evidência, para saciar aos rancores de homens ultrajados por sua virtude. Para piorar, o réu provoca os jurados com sua insolência (hybris), dizendo que deveria ser, ao invés de condenado, sustentado pela cidade. O monólogo termina mostrando um filósofo que aceita o destino trágico e prepara-se para a morte, tema do diálogo Fédon, em que Sócrates bebe cicuta enquanto argumenta acerca da imortalidade da alma. Antes disso, no Críton, discute sobre a justiça e recusa a chance de sair da prisão indevidamente.

Há fatos políticos graves por trás da condenação de Sócrates. O regime democrático enfrentou, desde sua origem, a oposição de parte da aristocracia ateniense, os eupátridas (bem nascidos). Sócrates vivia sustentado por esse grupo, que realizou o golpe de Estado de 411 a.C., instituindo um regime tirânico, liderado por Crítias, aluno de Sócrates, e que executou sem julgamento centenas de atenienses. Com a restauração da democracia, e após Atenas perder para Esparta a Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.), iniciou-se a caça às bruxas, e o mestre era visto como o guru do grupo antidemocrático. O clima era contra Sócrates, que já havia sido ridicularizado por Aristófanes como líder de alienados e promotores de cacoetes, na comédia As Nuvens (423 a.C.), origem do discurso antiacadêmico.

Anos depois, revoltado com o que Atenas fez com seu mestre, Platão escreveu seu célebre ataque à democracia, a República, em que defende o governo autocrático do rei filósofo, a resposta ao regime que matou pensador. Quem morreu com aquela condenação injusta, o réu ou a democracia?

FRANCISCO MARSHALL


12 DE OUTUBRO DE 2019
COM A PALAVRA - leonardo.vieceli@zerohora.com.br

SOMOS IGNORANTES EM RELAÇÃO À CHINA.


ENTREVISTA COM: RICARDO GEROMEL, Administrador, 32 anos Chama a atenção o fato de ele ser o irmão caçula do ídolo do Grêmio Pedro Geromel. Mas Ricardo, que hoje vive na China e acaba de lançar livro sobre o país asiático, é bem mais do que isso. Ele esteve em Porto Alegre no dia 1º para uma palestra.

Logo depois de pegar o microfone, o palestrante faz questão de reforçar:

- Me apresento como Ricardo Geromel. Sou o irmão do Pedro.

A declaração espalha sorrisos na plateia que o aguarda para o início de um evento cujo tema é a economia da China, durante um almoço em um restaurante de Porto Alegre. Ricardo, 32 anos, vive no país asiático desde 2018. Do outro lado do planeta, acompanha o sucesso de seu único irmão, Pedro Geromel, 34 anos, com a camisa do Grêmio.

Além do laço familiar com o ídolo do futebol, a trajetória profissional de Ricardo também chama atenção. Formado em Administração pela Farleigh Dickinson University (EUA), trabalhou no mercado financeiro, já investiu em dois clubes de futebol dos Estados Unidos, mapeia bilionários para o ranking da revista Forbes e atua como CEO da StartSe na China - a plataforma busca fomentar o empreendedorismo por meio de cursos, eventos e viagens ao Exterior.

Ao longo da faculdade, Ricardo jogou futebol universitário, na posição de meio-campo. Como não se destacou no esporte, deixou a bola de lado e concentrou seus esforços nos estudos. Fluente em cinco idiomas, acaba de apresentar seu novo livro, O Poder da China, lançado pela editora Gente. A publicação detalha os processos de inovação e a capacidade da economia chinesa, que representa cerca de 15% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial.

Após desembarcar em Porto Alegre, no dia 1º, véspera do jogo entre Grêmio e Flamengo pela Copa Libertadores, Ricardo conversou com ZH. A entrevista ocorreu entre uma garfada e outra de seu almoço e incontáveis paradas para atender ao público que assistiu a sua palestra. A agitação, diz ele, faz parte de seu dia a dia no mundo oriental.

- A imagem que os brasileiros têm da China é do passado. O país é uma potência tecnológica. O que está por trás disso é a formação de cérebros - explica Ricardo.

COMO É A RELAÇÃO COM SEU IRMÃO?

A gente se fala bastante. Antes de chegar aqui (no local da palestra), fui vê-lo no Centro de Treinamentos do Grêmio. É o meu melhor amigo. Meu irmão foi a primeira pessoa a ler meu novo livro. Ele me sacaneou (risos). Mandei para ele a primeira versão, para depois corrigir eventuais erros ortográficos. A parte que está como anexa é culpa dele. Antes, era o primeiro capítulo, e meu irmão pediu para confiar nele e mandar esse trecho para o final do livro. Achou erros e me ajudou muito.

COMO SURGIU A IDEIA DE ESCREVER O LIVRO SOBRE A ECONOMIA DA CHINA?

É fato: somos ignorantes em relação à China. Ponto. O livro traz um pouco, o mínimo, o básico, para pensarmos no país como superpotência inovadora. Serve de ponto de partida para conseguirmos mergulhar mais profundamente no assunto. Entendemos e compramos o sonho americano, mas nem sabemos qual é o chinês. O país asiático é o nosso principal parceiro comercial. Os brasileiros não pensam muito na China. Têm preconceito, ideias errôneas.

POR QUÊ?

Não chega muita informação de lá. Não temos jornalistas daqui trabalhando no país asiático. O que chega ao Brasil são informações regurgitadas de The Wall Street Journal, Financial Times. A China deveria fazer parte do currículo básico de estudos aqui no Brasil. Há um consenso entre economistas de que a economia chinesa será a maior do mundo, só não se sabe quando. O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que isso vá ocorrer em 2030.

VOCÊ DESTACA EM SEU LIVRO O POTENCIAL DE INOVAÇÃO DOS CHINESES. HÁ CHANCE DE O BRASIL ALCANÇAR NÍVEL SEMELHANTE NA ÁREA?

A gente pode desconhecer a China, só que a tecnologia chinesa está chegando aqui, está cada vez mais presente entre nós. O AliExpress, uma plataforma do Alibaba (gigante que atua no setor de vendas), já é um dos 30 sites mais visitados do Brasil. A Huawei (do setor de telecomunicações) tem grandes operações aqui no país. Faz a infraestrutura de vários bancos e empresas de telecom. A China é o maior parceiro comercial do Brasil. Há traders (investidores) do mercado financeiro que chamam o Brasil de derivativo da China. Ou seja, um ativo que tem seu preço atrelado a outro. O Brasil é dependente da China, mas ainda não entendemos isso.

O PRESIDENTE JAIR BOLSONARO AFIRMOU QUE OS CHINESES PODERIAM COMPRAR NO BRASIL, MAS NÃO O BRASIL. QUAIS FORAM OS IMPACTOS DESSA DECLARAÇÃO?

Acho que, na ocasião, os chineses deram uma esperada para ver se Bolsonaro se aliaria totalmente a Donald Trump. Quando o (vice-presidente) Hamilton Mourão foi para a China, Xi Jinping (presidente do país asiático) o recebeu. Ele foi muito bem recepcionado. Mas não há clareza ainda. É esperar para ver.

COMO VOCÊ ANALISA O CENÁRIO DE INOVAÇÃO NO RIO GRANDE DO SUL?

Não acompanho o tanto que gostaria, porque moro em Pequim. Mas pessoas daqui, como o José Renato Hopf (criador da GetNet e da plataforma 4all) são visionárias. Quando ele me explicou o que está querendo fazer com a 4all, fiquei de queixo caído, porque é uma visão de longo prazo impressionante. Acredito no potencial do Estado por conhecer pessoas daqui, como os sócios da StartSe. Acredito nas pessoas em primeiro lugar. Na primeira vez em que estive no Tecnopuc, achei que estava na Califórnia. É impressionante, maravilhoso. Um ecossistema empreendedor e maduro precisa de bons empreendedores, de empresas grandes, do governo, da academia. Não sei como todos esses papéis estão no Rio Grande do Sul. Mas pessoas que conheci daqui, como Pedro Englert (sócio da StartSe) e o José Renato, são de classe mundial.

TANTO O GOVERNO FEDERAL QUANTO O GAÚCHO ENFRENTAM DIFICULDADES FISCAIS. COMO O PODER PÚBLICO PODE ESTIMULAR A INOVAÇÃO?

No Brasil, temos de começar pelo básico. A educação é a base de tudo. Sem melhora em educação, não dá para ter esperança. Não dá. Nessa área, o que posso fazer é trazer um pouco da experiência na China, que não teria tirado mais de 800 milhões de pessoas da extrema miséria (desde a década de 1980).

VOCÊ DIRIGE AS OPERAÇÕES DA STARTSE NA CHINA. QUAL É O OBJETIVO DESSE PROJETO?

A StartSe é uma empresa de educação, focada em trazer a nova economia para o Brasil e os brasileiros. Já levamos mais de 400 pessoas à China para conhecer empresas, em busca de oportunidades de negócios e investimentos. É educação executiva. Organizamos isso. Temos base em Xangai e outra em Pequim.

COMO É FEITO O MAPEAMENTO DOS BILIONÁRIOS PARA O RANKING DA REVISTA FORBES?

Trabalho ainda para a revista. Agora, como freelancer. Antes, como full-time. Cubro os bilionários para o ranking anual. Mapeio eles. Analiso, por exemplo, o valor de mercado de suas empresas. Tem a parte legal que você pode sentar e entrevistar os caras. Às vezes, fala com as ex-esposas (risos). Tem um cara sensacional, que é gremista, o Alexandre Grendene, presente na lista há muito tempo. O legal é a possibilidade de conviver com eles. Comecei a trabalhar na Forbes em 2011. Foi quando conheci minha esposa.

TEM IDEIA DE QUANTOS BILIONÁRIOS VOCÊ CONSEGUIU MAPEAR?

Não. Fiz alguns na Argentina, na França, na África, mas meu foco é o Brasil. Para aparecer na lista, a regra é ter US$ 1 bilhão ou mais de patrimônio. É uma tarefa engraçada. Já me peguei mandando vários e-mails para minha chefe dizendo que o cara "só tinha" US$ 500 milhões como fortuna pessoal. O país que mais cresce em bilionários hoje é a China. Se a Califórnia fosse um país, seria o terceiro da lista. No mundo, são 2,1 mil bilionários. No Brasil, há 66, segundo dados do ano passado.

VOCÊ JÁ INVESTIU EM DOIS TIMES DE FUTEBOL NOS ESTADOS UNIDOS, O FORT LAUDERDALE STRIKERS E O SAN FRANCISCO DELTAS. POR QUE RESOLVEU ATUAR NESSA ÁREA?

A liga à qual esses times pertenciam deixou de existir, e eles não tiveram onde jogar. Lembro que um amigo meu estava comprando um time em Phoenix. Quando eu trabalhava na Forbes, me mudei para lá para ver se valia a pena ter um clube. Fiz um plano para o país inteiro. Vi que o ideal seria montar um time em Fort Lauderdale, do ladinho de Miami. 

O número um seria San Francisco, mas era muito mais caro. Na equação de um novo time de futebol nos Estados Unidos, a principal variável é o estádio, que tem de ser confortável, com boa cobertura contra a chuva. As pessoas não vão a todos os jogos lá. Recomendei Fort Lauderdale e fui atrás de investidores. Depois que compramos o time, o Ronaldo Fenômeno entrou como sócio. Aprendi muito com essa experiência. Depois, pensei em tirar da gaveta o plano de San Francisco e encontrei investidores de Apple, Google, PayPal, Facebook e Yahoo!.

QUAL SUA ATIVIDADE PROFISSIONAL PREFERIDA?

Quando estou aprendendo, estou feliz. Tem o empreendedor. Na verdade, sou um "aprendedor" profissional. Meu negócio é aprender.

Qual é o seu time do coração?

O time do meu pai é o Corinthians. Até hoje, quando o Corinthians enfrenta o Grêmio, ele torce contra o filho. É uma coisa louca. Põe a camiseta do Corinthians. Meu irmão fica chateado, minha mãe fica chateada, eu dou risada (risos). Eu era são-paulino, mas, quando fui aos Estados Unidos, teve uma confusão no Campeonato Brasileiro com arbitragem (em 2005, quando reportagens da revista Veja denunciaram a chamada Máfia do Apito). Na época, perdi o tesão de torcer. Agora, torço para o Grêmio e para o Pedro Geromel. Peguei um carinho gigantesco pelo Grêmio. Gosto de futebol, não de times, tirando o Grêmio e a Seleção Brasileira.

TEM IDEIA DO QUANTO A TORCIDA GREMISTA IDOLATRA SEU IRMÃO?

A gente fica feliz. Realmente, ele atingiu um nível de excelência. No Brasil, geralmente o jogador fica por um ou dois anos em um clube e sai. Meu irmão teve várias propostas para deixar o Grêmio, mas não quis. Ele queria jogar a Copa do Mundo, gosta de Porto Alegre. É louco pelo Grêmio. É legal que o clube conseguiu mantê-lo por tanto tempo. Isso traz um retorno que é difícil tangibilizar.

LEONARDO VIECELI