sábado, 2 de novembro de 2019



02 DE NOVEMBRO DE 2019
DRAUZIO VARELLA

ALTA PRESSÃO

Todo mundo tem alguém com pressão alta na família. É uma epidemia. Não poupa ricos, pobres, velhos, moços, magros, gordos, negros ou brancos. Como em qualquer outra, sofre mais quem não tem dinheiro nem acesso a assistência médica de qualidade.

A doença é tão prevalente, que já perdemos o respeito por ela. Encontro o amigo, pergunto pela mãe, ele responde: "Está ótima, aquele jeitinho dela, pressão alta, meio chata de controlar...".

Sinto vontade de dizer: "Sua mãe está mal, eventualmente péssima". Pressão descontrolada traz complicações graves: infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, insuficiência renal crônica e insuficiência cardíaca, entre outras.

O desconhecimento faz menosprezar os riscos, conduta que não poupa os médicos, costumeiramente apegados aos diminutivos quando não querem preocupar seus pacientes: "Sua pressão está um pouquinho alta, vou receitar um remedinho".

Quem recebe o tal remedinho sem ter noção clara do mal que o aflige desconsidera a importância do tratamento e do controle sistemático dos níveis pressóricos. As consequências são:

1) Não é todos os dias que os hipertensos lembram de tomar os comprimidos. Quando viajam, esquecem de colocá-los na bagagem. Alguns tomam apenas quando sentem dor de cabeça ou tontura.

2) Abandono do tratamento por conta própria assim que surgem os primeiros efeitos colaterais, entre os quais a tosse seca associada a uma das classes de drogas e, especialmente, a dificuldade de ereção relacionada com outra. Sem contar aqueles prontos a jogar a culpa de qualquer mal-estar nas costas das medicações.

3) Como ninguém gosta de tomar remédio pelo resto da vida, ao constatar que a pressão caiu para 12 x 8, muitos se consideram curados e param com tudo.

Para agravar, existe a crença generalizada de que pressão alta provoca dores de cabeça, dor na nunca, pontos brilhantes na visão, tonturas e outros achaques. Quem não sente nada não vê razão para se tratar. A fama de matadora silenciosa fica restrita ao ambiente médico.

Baseados em aproximações estatísticas, foi criada a regra empírica dos 50%. Segundo ela, 50% dos hipertensos ignoram sua condição. Dos que receberam o diagnóstico, apenas 50% começam a tomar medicamentos. Destes, 50% não aderem a eles ou o fazem com irregularidade. Como a matemática nos ensina que 50% de 50% de 50% são 12,5%, concluímos que apenas a minoria segue o tratamento com disciplina.

Entre esses, no entanto, muitos não conseguirão manter a pressão controlada porque as drogas prescritas podem ser ineficientes ou perder a eficácia com o tempo.

Esse é o cenário responsável pelas complicações cardiovasculares e renais que superlotam as unidades de pronto-atendimento e os serviços de cardiologia, neurologia e nefrologia, drenando recursos do SUS e dos planos de saúde.

Nós, médicos, imaginamos que os hipertensos tomarão a medicação prescrita e farão medições periódicas da pressão para nos mostrar na consulta seguinte. De ilusão também se vive. Meses mais tarde, eles retornam - quando retornam - com informações tão imprecisas que acabamos sem dados para avaliar o resultado do tratamento.

Não somos nós os profissionais indicados para acompanhar a evolução dos hipertensos. As enfermeiras fazem esse trabalho com muito mais competência. Com um aparelho em casa e acesso ao WhatsApp, o paciente pode enviar a elas os controles semanais.

Tem cabimento uma pessoa hipertensa não ter o aparelho e passar semanas sem uma medição sequer? Os aparelhos estão cada vez mais baratos, o SUS tem condição de entregá-los aos mais pobres.

As farmácias espalhadas pelos quatro cantos do Brasil são obrigadas a manter em suas dependências um farmacêutico diplomado. Muitas vezes, um profissional que passou quatro anos na universidade acaba relegado a formalidades burocráticas, quando poderia orientar os pacientes para anotar os valores da pressão, ensiná-los a usar o aparelho, aconselhá-los a aderir à medicação e a voltar ao médico quando houvesse picos hipertensivos. A farmácia é o lugar ideal para fazer esses controles, pela simples razão de que é lá que as pessoas compram os anti-hipertensivos todos os meses.

Nós, médicos, deveríamos deixar de lado o corporativismo antiquado, praga que infesta nossa profissão, e entregar para outros profissionais o trabalho que não temos condição de realizar ou que fazemos malfeito.

DRAUZIO VARELLA


02 DE NOVEMBRO DE 2019
DIA DE FINADOS

COMO FAZER A MORTE CABER NO PEITO

Cada um tem seu jeito de lidar com o luto. Não há certo ou errado. aqui, três mulheres contam como enfrentaram a perda do companheiro de meio século, a do pai e a das filhas pequenas

Os passeios dominicais da família Varela perderam sentido com a morte do patriarca Antônio Avelino, 80 anos, ferido por um tiro no pescoço enquanto lavava o carro na frente de casa, em Cachoeirinha. Desde aquele assalto, em 2016, sempre que a esposa, os filhos e os netos reuniram-se para pegar a estrada, um hábito cultivado há décadas, todos foram subitamente tomados pela tristeza. Compreenderam que seria melhor evitar algumas situações que lhes roubavam o riso.

Antônio era entusiasta dessa programação. Convidava Sueli Teresinha Varela, 70 anos, companheira de meio século - e quem mais estivesse em casa - para comer em restaurantes da Serra, do Litoral ou do bairro vizinho. Não gostava de ver a esposa enfurnada na cozinha depois de uma semana de trabalho. Agora, sem ele, Sueli prefere o sossego de casa. Neste 2 de novembro, irá a Cambará do Sul, na Serra, jogar pétalas de rosas sobre o campo onde as cinzas de Antônio foram deixadas.

- A gente fica triste no Dia de Finados, mas é uma maneira de homenageá-lo. Ele morou muitos anos na cidade e ter suas cinzas lá foi um pedido dele - conta.

O hábito cristão de dedicar um dia para rezar pelos mortos remonta ao século 5, mas foi no século 13 que a data passou a ser chamada de Dia de Finados. Cada parte do mundo celebra a seu modo. E cada pessoa também, diz a psicóloga especialista em luto Erika Pallottino, sócia-fundadora do Instituto Entrelaços, do Rio.

- É um dia que mexe na ferida. Não existe modo certo ou errado de agir. Não tem o menor problema ficar triste ou chorar. O luto nunca termina. Ele é acomodado internamente - observa.

Sueli cercou-se de artifícios para fazer a ausência do marido caber no peito. As fotos antigas, que ela costumava espalhar sobre a mesa da cozinha ou pelo sofá da sala nunca mais saíram dos álbuns empilhados no guarda-roupa. Não consegue folheá-los sem chorar. Manteve exposto sobre uma bancada, perto das fotos dos netos, apenas um retrato de Antônio na Europa. Nos últimos tempos, percebeu que falar sobre aquela segunda-feira, 14 de novembro de 2016, a faz sentir-se melhor. Passou a ver esses bate-papos como um desabafo. Ainda sente falta de Antônio, claro. Ainda chora, mas permite-se olhar para frente. Vendeu o carro que custou a vida do companheiro e está prestes a mudar de endereço. Vai morar em Gravataí, perto da filha e de um dos três netos.

- Trocar de casa faz parte do tratamento. Tenho evoluído bem. Não tenho depressão, apenas tristeza. Nunca precisei de remédio. As idas à psiquiatra estão cada vez menos frequentes. Eu choro muito, mas desabafo também. Não dá para se fechar, ficar sozinha. Tenho que tentar entender o que faz bem e o que faz mal e me ajustar - diz.

u "Não há um tempo padronizado"

Antônio foi baleado uma semana antes das Bodas de Ouro, que seriam comemoradas com missa. A efeméride foi lembrada no hospital (onde ele ficou por oito dias em coma), sem qualquer cerimônia. Da aliança, Sueli fez três pingentes com a letra A, entregues para cada filho.

- No começo, foi desesperador. Eu só chorava. Ele era saudável, estava bem. Eu imaginava que ficaríamos juntos até bem velhinhos - afirma.

A psicóloga e professora da PUCRS Ângela Seger pondera:

- A morte abrupta é mais impactante. Quando a pessoa está doente, os familiares, embora sofram também, conseguem se preparar e até se despedir.

Ângela considera natural a adoção de estratégias que mantenham as pessoas emocionalmente equilibradas. Há quem continue com as rotinas anteriores para homenagear quem morreu. A psicóloga alerta que uma vida cheia de privações pode ser nociva. No luto prolongado, não se consegue retomar as atividades, o trabalho, o lazer. Os sintomas podem ser consumo excessivo de álcool, isolamento, reclusão, perda ou ganho de peso, insônia e sono demasiado por longo período.

- É como se a vida do enlutado também tivesse acabado. Manifestações assim são normais no início, mas, em algum momento, precisam diminuir. Quando não se supera esse estágio, há problema - diz a psicóloga.

Não há um tempo padronizado para acomodar a dor, mas Ângela diz que o primeiro ano tende a ser o mais difícil. É o primeiro Natal, o primeiro Dia das Mães, dos Pais, dos Namorados, o primeiro aniversário de casamento e de morte:

- Para muitos, o primeiro ano é o marco. Entendem, ao final dele, como se tivessem sobrevivido. Outras demoram mais. Dois, três anos. É importante que familiares e amigos estejam atentos e procurem ajuda se perceberem sintomas além do esperado.
Marcelo Kervalt


02 DE NOVEMBRO DE 2019
J.J. CAMARGO

A FALTA QUE A HUMILDADE FAZ

Depois da lambança que Richard Nixon protagonizou no inicio do segundo mandato que culminou com sua renúncia, em 1974, a única na história da democracia dos EUA, os três anos que restavam foram cumpridos por Gerald Ford que, ao fim desse tempo, concorreu como candidato natural do Partido Republicano, agora habilitado a disputar a presidência. O candidato da oposição, o democrata Jimmy Carter, filho de um plantador de amendoim da Geórgia, no sul, foi massacrado durante a campanha pela mídia política e elite cultural (calma, a história é americana!) e, num famoso debate de outubro de 1976, foi atropelado pela arrogância de Gerald Ford, porque Carter parecia menos adequado à estrutura de poder vigente em Washington.

A virada histórica foi atribuída a uma resposta no último debate, quando o moderador ofereceu quatro minutos a cada candidato para as considerações finais, usados por Ford para realçar as diferenças entre os postulantes: ele com uma sólida experiência como vice-presidente e finalmente três anos como presidente, inclusive com destacada atividade na sofisticação da CIA e do FBI, indispensáveis à soberania nacional, enquanto o seu concorrente tinha propostas de governo proporcionais à sua modesta experiência política como um agricultor que fora governador da Geórgia. 

Quando lhe foi passada a palavra para que, nos mesmos quatro minutos, deixasse sua mensagem, Jimmy Carter declarou que não usaria todo aquele tempo, porque simplesmente queria dizer que ficara impressionado com a quantidade de segredos que os republicanos tinham para guardar e que, quanto a ele, tudo o que podia prometer é que nunca mentiria ao povo americano. A vantagem de Ford nas pesquisas desmoronou, e Carter tornou-se o 39º presidente dos EUA. Mais uma vez o narcisismo tinha perdido para si mesmo.

Se a história dessa eleição americana tivesse sido entendida em toda a extensão e as suas lições, didáticas e universais, envolvendo soberba e subestimação da inteligência popular, tivessem sido aprendidas, provavelmente a oposição brasileira não estaria hoje tão desesperadamente raivosa, procurando os responsáveis pela ascensão ao poder de um presidente, que na opinião dela, não tinha condições de exercer a nobre função.

Se as incontestáveis denúncias de corrupção não tivessem sido simplesmente negadas, como se a população fosse demente e a ponto de aceitar que bilhões desapareceram por algum mal entendido, e tivesse havido a humildade de admitir os erros cometidos, talvez a implacável lei da natureza que determina que a toda ação corresponde igual reação não teria se aplicado com tanta contundência. Ninguém, com massa encefálica preservada, pode negar que o PT, convencido do seu irresistível poder, estirou a corda até o limite, e quando virou o fio da tolerância brasileira, se tornou o maior cabo eleitoral de Bolsonaro.

É pouco inteligente procurar alhures os culpados, quando todo mundo lembra que, durante quase duas décadas, eles compartilharam o mesmo endereço da desfaçatez. E nada de estranho nisso: a maioria prefere conviver com pessoas que comunguem das mesmas ideias, porque a unanimidade afasta a dúvida e traz a paz da certeza serena. Esta, que é indispensável na construção da paralisia cerebral do fanatismo.

P.s.: neste sábado, às 15h30min, autografarei Se Você Para, Você Cai no Pavilhão da Feira do Livro. Vai ser um prazer abraçá-los lá.

J.J. CAMARGO


02 DE NOVEMBRO DE 2019
DAVID COIMBRA

"Vou sentir saudade da nossa amizade"

Quem era o melhor? Camus ou Sartre? Houve época em que essa rivalidade empolgou o mundo. Ou, pelo menos, o mundo letrado. Isso é impensável hoje em dia. Imagine: as pessoas tomando partido sobre filosofia, discutindo qual de dois intelectuais estava certo.

Eu preferia Camus. Ele não era tão, digamos, "acadêmico" quanto Sartre, não era tão científico, mas escrevia melhor e tinha ideias mais compatíveis com a realidade humana.

Sartre tornou-se um stalinista convicto e, depois de Kruschev revelar os horrores da União Soviética, em vez de melhorar, piorou: virou maoista. Defendia a violência na tomada de poder, mas, na Segunda Guerra, quem participou ativamente da resistência francesa foi Camus, não ele. Quando era preciso, Sartre falava muito e agia pouco.

A razão do rompimento dos dois foi um livro de Camus que criticava as esquerdas da época, O Homem Revoltado. Sartre dirigia uma revista em Paris e determinou que um de seus articulistas escrevesse um texto sobre o livro. Quando Camus leu, ficou furioso - era uma crítica duríssima. Escreveu um artigo em resposta. E Sartre escreveu outro, como tréplica, que começava assim: "Vou sentir saudade da nossa amizade".

Camus passou mais de sete anos sem escrever nada, depois dessa discussão pública. Diziam que ele havia se deixado abalar pela briga. Quando voltou a publicar algo, veio com uma obra-prima, um livro curtinho, mas muito bom, intitulado A Queda. Sartre nunca conseguiu atingir o nível literário de Camus e reconheceu isso, definindo A Queda como o mais belo livro do ex-amigo.

Nós, na faculdade, líamos Camus e Sartre e discutíamos sobre eles como se estivéssemos nos anos 1950. Para mim, Camus ganhou o clássico.

Outra disputa, claro, era Chico versus Caetano. Chico começou como o certinho, o comportadinho, o namoradinho do Brasil, enquanto Caetano representava a rebeldia dos jovens dos anos 1960 e 1970. Depois, Chico se tornou o contestador político e Caetano o desbundado. Sempre achei a produção do Chico mais regular do que a do Caetano, mas, agora, parece que Chico desistiu da música e Caetano continua vibrante e produtivo. Caetano ganhou o clássico.

Freud e Jung também foram amigos que se tornaram ex-amigos. Freud era austríaco e Jung suíço, mas os dois escreviam em alemão. Heidegger dizia que só é possível filosofar em alemão e grego, devido à flexibilidade das duas línguas, e Freud e Jung usaram muito dessas possibilidades. Eles inventaram uma série de termos que acabaram se popularizando, como "arquétipo", no caso de Jung, e "superego", no de Freud. Foram, portanto, homens importantes, autores de obras importantes. Separaram-se porque Jung não concordava com a teoria sexual de Freud. Para Freud, tudo tem a ver com sexo.

Sexo, sexo, sexo. Para Jung, nem tudo.

Jung se preocupava também com questões transcendentais e até exotéricas, e Freud considerava isso uma distração imperdoável para o seu movimento psicanalítico.

Gosto mais de Freud, porque aprecio a graça de seu texto e a genialidade de suas descobertas acerca das nossas motivações subjacentes, mas reconheço que Jung tem uma compreensão mais abrangente do ser humano. Jung é kantiano: ele vê além da razão, ele entende o homem como uma reunião indissociável de corpo, mente e espírito, ele sabe que há outras camadas de inteligência dentro e fora de nós.

Esse clássico terminou empatado.

E o clássico deste domingo, o Gre-Nal, como terminará? Bem, pense que, se Grêmio e Inter fossem pessoas, o Grêmio seria Freud e o Inter seria Jung; o Grêmio seria Sartre e o Inter seria Camus; o Grêmio seria Caetano e o Inter Chico. Compreendeu? Se você compreendeu, já sabe qual será o resultado do jogo.

DAVID COIMBRA


02 DE NOVEMBRO DE 2019
MÁRIO CORSO

Quem tem medo do Coringa?

A Ancol - Associação Nacional dos Colunistas - me advertiu por não falar do filme. Então...

Gostei do Coringa pela extraordinária performance da loucura. Quem já trabalhou com psicose o reconhece: o corpo magro, irrequieto, falsamente frágil, e rústico, parecendo ser feito de madeira.

Na psicose, o centro gravitacional tende à mulher, pois eles estão mais vulneráveis a uma identificação exclusivamente materna. E no começo do filme, antes da virada, ele é de uma delicadeza quase feminina, espelhando a mãe que cuida com desvelo.

Uma das fobias clássicas é a do palhaço, porque o maior medo de uma criança é ver seus progenitores, nesse caso o pai, sendo zombado. O palhaço é signo de um pai decaído e é nessa gramática que gira a identidade inicial do personagem.

O Coringa sonha com um pai que desesperadamente lhe falta, mas ele segura a onda. Porém, quando descobre que seu esteio afetivo materno é uma farsa, soltam-se os poucos fios que parcamente o conectavam à sanidade e abre-se a porta do inferno. Faz sentido que nesse momento ele mude de nome, afinal, Coringa é uma carta avulsa, sem filiação de naipe.

O filme é uma de tantas obras que buscam uma resposta e uma face para o mal. Nosso racionalismo se recusa a aceitar que o crime, algo tão grave, possa não ter uma origem lógica ou justificável. Porém, o crime muitas vezes está ligado a uma banalidade, em outras palavras, à estupidez. Apesar de tantos progressos em tantas áreas, seguimos sendo um macaco que aprendeu a falar; logo, sujeitos a momentos em que a ação não faz sentido.

Entenda estupidez quando se age causando dano sem proveito para si e não raro, trazendo prejuízo para nós mesmos. Embora os exemplos sejam evidentes e múltiplos, seguimos buscando uma racionalidade de todo agir criminoso, quando só alguns fazem sentido. O Coringa, portanto, é mais uma teoria do que acreditamos ser a gênese da psicopatia e da maldade, do que realmente ela é.

O medo de que pessoas se identifiquem com esse Coringa humanizado pelo martírio e saiam matando é improcedente. Não que não possa acontecer, a loucura é imprevisível, mas apenas tomaria emprestada uma fantasia que, se não fosse essa, seria outra. Nem que barrássemos toda a produção ficcional estaríamos a salvo dos estúpidos, dos que enlouquecem, e de seus atos insensatos.

Se achamos que seriam tão tentadoras as atitudes violentas e grotescas do personagem, é porque ele nos traduz na tendência ao ressentimento. Quem não flertou com a ideia de que o mundo lhe deve mais reconhecimento, oportunidades e recompensas?

O filme é pesado, brutal mas catártico. Melhor que as fantasias de ressentimento ganhem a luz do que nos espreitem na sombra, onde namoraríamos com o prazer secreto de realizá-las. O horror na ficção pode ser a vacina que barra o horror real.

MÁRIO CORSO


02 DE NOVEMBRO DE 2019
TE MOSTRA RIO GRANDE

Fábrica produz revestimentos sustentáveis com garrafas PET

Exportados para todos os países da América Latina, produtos da reciclagem são utilizados em portas, móveis e paredes

Quem chega na pequena Montauri, cidade no norte do Rio Grande do Sul, logo percebe um grande prédio que se destaca das demais estruturas da cidade de 1,5 mil habitantes. É a sede da empresa Lamiecco, fábrica que transforma, por mês, 8 milhões de unidades de garrafas PET em lâminas que viram revestimentos sustentáveis para portas, chapas, móveis e paredes.

Fundada em 2007 pelo empresário Alexandre Figueiró, 44 anos, com dois sócios, a fábrica hoje exporta peças para todos os países da América Latina. A ideia surgiu com a motivação típica de empreendedores - deixar de ser empregado - somada à vontade de se manter no ramo da conservação ambiental. Figueiró trabalhava em uma empresa de reciclagem.

Para realizar o sonho, optou por começar pela especialização. Estudou administração de empresas, juntou dinheiro e projetou a fábrica durante 10 anos. Quando decidiu abrir o negócio, ainda precisou encarar mais desafios para que pudesse ficar no Rio Grande do Sul.

- Na época de montagem da empresa, tínhamos em outros lugares incentivos até melhores do que os do Rio Grande do Sul. Mas batalhamos muito para permanecer aqui, fazer nosso empreendimento na terra onde a gente nasceu, ajudar no desenvolvimento das pessoas, da comunidade e do Estado - relata Figueiró, administrador de empresas e CEO da companhia.

A persistência deu tão certo que chamou a atenção das maiores indústrias moveleiras e da construção civil. A fábrica compra, mensalmente, 350 toneladas de garrafas PET de fornecedores do sul do Brasil. Figueiró acredita que o valor gerado por um produto ecologicamente correto, acompanhado da dedicação dos 51 colaboradores, são alguns dos segredos para que o capital investido já tenha rendido 13 vezes.

- O propósito da nossa empresa não é apenas dos sócios, é de cada uma das pessoas que faz parte da nossa equipe. Destaco também outro ponto: trabalho duro. A persistência faz superar as adversidades - salienta o empresário.

Talentos

Colaborar para desenvolver a região é outra conquista, aponta Figueiró. Cerca de 51% do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) arrecadados no pequeno município, distante cerca de 70 km de Passo Fundo, vêm da Lamiecco. Além do desenvolvimento econômico, a iniciativa aposta no crescimento pessoal e profissional de quem vive na região. A analista de qualidade Tamires Tonial, 26 anos, comemora o fato de não precisar ter que ir embora da cidade para trabalhar na área em que se formou:

- Na comunidade, todos têm um carinho muito grande pela empresa, por ela estar aqui e por propiciar empregos. Então, poder ficar na cidade é realmente muito legal. Não precisei me adaptar a um processo novo e a uma cidade nova.

Os produtos e trabalhos desenvolvidos pela Lamiecco renderam prêmios de destaque no Estado e no país - como méritos por sua atuação sustentável. A fábrica aposta no reconhecimento que já tem do mercado e nas atitudes tomadas na época da fundação para crescer ainda mais nos próximos anos. Com o pensamento no futuro, Alexandre Figueiró prefere manter as atitudes:

- Acho que a coisa mais importante é a gente levantar da cama e ter um porquê fazer aquilo que a gente faz. Nosso propósito, muito claramente, é gerar impacto positivo para todos os envolvidos. Sejam sócios, colaboradores, sociedade ou governo.

JULIANO CASTRO


02 DE NOVEMBRO DE 2019

ARTIGOS

SOBRE A MORTE E O MORRER

Falar da morte é falar da vida. Falar da vida é falar da morte. E, mesmo além de preceitos religiosos, o mistério da nossa finitude excede qualquer especulação. Na minha fé católica, irei neste dia 2 ao cemitério para minha oração cristã pelos fiéis defuntos, termo que vem do latim de- functus, aquele que realizou, levou a termo, cumpriu sua vida.

O gesto de visitar os túmulos reforça laços, rememora a história e nos eleva aos sentimentos mais sublimes de esperança e fé. No entanto, não é tão simples falar da morte ultimamente. Morto, defunto, cadáver, sepultamento e outros muitos termos tornaram-se tabus. O morrer entrou nos extremos, nas polarizações, e só é tratado como fantasia, nos filmes de terror. Precisamos reaprender a nos defrontarmos com nossa finitude, não como inimiga, mas como processo vital que define quem somos. Nem sequer damos tempo para o luto. De tão ocupados que estamos, a doença e a morte chegam para atrapalhar a nossa agenda.

Na semana passada, no nosso Observatório de Bioética da CNBB no Rio Grande do Sul, que reúne especialistas das Instituições de Ensino Superior e da área da saúde com o foco no início da vida, final da vida e políticas públicas, discutiu-se o tema dos cuidados paliativos com a assessoria de especialistas. Ao falarmos sobre o fim da vida, precisamos considerar nossa cultura narcisista, materialista, secularizada, que desviou o sentido da vida negando o seu processo último.

Essa mesma cultura, agora, impõe uma faceta desvirtuada da morte que é tanocrática e tabuística. Tanocrática porque a morte se tornou sinônimo de ordem de descarte e extermínio. Os mais fracos e vulneráveis se tornaram vítimas quotidianas dessa sociedade armada, violenta e injusta que se acostumou com a eliminação social. Tabuística porque ela é símbolo da fraqueza e aniquilação do próprio homem, que se vê ameaçado e não aceita seu limite e finitude, tornando o morrer seu maior inimigo, do qual não ousa nem falar.

Ao negarmos a morte, comprometemos nossa maneira de enfrentar o último instante da vida, perdendo a dimensão humana e espiritual dessa experiência, delegando cada vez mais à tecnologia o controle e a programação do nosso processo de morrer.

Bispo de Rio Grande, diretor do Instituto Superior de Formação Humanística da UCPel e presidente da Comissão Especial de Bioética da CNBB ricardoepiscopus@gmail.com
DOM RICARDO HOEPERS


02 DE NOVEMBRO DE 2019
FLÁVIO TAVARES

NOVOS PECADOS

A lucidez e o disparate jogaram carreira nesta semana, mostrando o claro-escuro do dia a dia.

No Vaticano, em defesa da vida e do belo que é viver em harmonia, o Sínodo da Amazônia nos fez ver um novo pecado, mais devastador do que os demais - o pecado ecológico. "O desrespeito à natureza afronta a Deus e agride a Criação", frisou o papa Francisco, pedindo a urgente "conversão ecológica" de todos nós para se evitar a morte do planeta.

Em Brasília, o deputado Eduardo Bolsonaro sugeriu "a volta do Ato 5", imposto pela ditadura em 1968 e que levou o Brasil à perversão do ódio. Aboliu-se a liberdade de pensar e criar. Desconfiança, perseguição, tortura e morte viraram "normalidade". Até a vida em família era vigiada.

Eduardo Bolsonaro não é um deputado a mais. É filho do presidente da República, que quis nomeá-lo embaixador nos Estados Unidos, onde o rapaz fritou hamburgers na rua, sua grande credencial nesse país. Não importa que o filho se desculpasse "pelo erro", ao perceber a unânime reação ao horror que propôs.

Valem o propósito e a intenção inconsciente. Ou, como disse o pai- presidente, "foi um sonho" de um maior de idade. Nem sequer sonho infantil, mas algo no horizonte de um adulto.

Podia ter visto a ideia do filho como "pesadelo", não como "sonho". Pesadelo é o que se sofre no devaneio noturno. Sonho é o que se pretende ou se espera, seja a Mega Sena ou a pessoa amada.

Mas como ver de outra forma o que disse o filho, se o próprio pai tem ideias (ou sonhos) de calibre similar, que levam à ruptura?

Após se imiscuir em assunto interno da Argentina e apoiar a reeleição do conservador Mauricio Macri, agora Bolsonaro se nega a felicitar o candidato eleito, Alberto Fernández, por considerá-lo "um esquerdista". Despreza o país com o qual temos rios comuns, 1,3 mil quilômetros de fronteiras, intenso turismo mútuo e é nosso maior parceiro nas Américas. Diz ainda que poderá propor a retirada da Argentina do Mercosul. E, se a esquerda seguir no poder no Uruguai, também esse país deve sair?

Restrito ao Paraguai, o esquálido Mercosul viraria ninho de contrabandistas e marcas falsificadas!

Não só no Vaticano, mas também aqui no Rio Grande a lucidez se sobrepôs ao disparate. O Tribunal de Justiça mandou o governador suspender "a urgência" de 30 dias para o Legislativo votar as 480 mudanças propostas ao Código do Meio Ambiente.

Minucioso, o desembargador Francisco Moesch (relator da ação iniciada por deputados de vários partidos) lembrou o conflito com a Constituição Federal e que diferentes setores da sociedade alertam para o perigo das alterações. Necessidades concretas de mudar (e não alegações de direitos ou fatos não comprovados) devem nortear o debate, que - assim - não pode ser às pressas.

Em novo pecado, o governador anunciou uma artimanha legislativa para votar em "urgência".

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

02 DE NOVEMBRO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

RESPOSTAS PARA O ÓLEO VAZADO

Apesar da demora das autoridades brasileiras para responder ao vazamento de óleo que contamina as praias nordestinas, é elogiável o trabalho conjunto de investigação que levou a desvendar a provável origem do produto que causou um dos maiores desastres ambientais da história do país. Marinha, Ministério Público Federal (MPF), Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), Agência Nacional do Petróleo (ANP), Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade de Brasília (UnB), Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Polícia Federal (PF) começaram ainda em setembro a montar o intrincado quebra-cabeça, com uso de inteligência e tecnologia, até chegar ao navio de bandeira grega Bouboulina e deflagrar na sexta-feira a Operação Mácula.

Descoberta a embarcação suspeita, é preciso agora avançar na apuração e buscar outras respostas, como se a ocorrência foi acidental ou intencional e os motivos que teriam levado os responsáveis pelo navio a esconderem o vazamento do petróleo cru. Após serem apontadas as responsabilidades, será necessário acompanhar o processo a que certamente os causadores serão submetidos para que seja imposta uma penalização exemplar.

Ainda vai demorar para o país ter uma noção mais precisa da magnitude dos prejuízos e dos danos ambientais causados pelo derramamento de 2,5 mil toneladas de óleo que chegaram a quase 300 pontos do litoral de 98 municípios de todos os Estados do Nordeste. Praias, foz de rios e manguezais foram atingidos, com impacto severo para a fauna e a flora da região, causando também perdas para atividades econômicas importantes como a pesca, a maricultura e o turismo, além de risco à saúde das pessoas.

Espera-se agora que mais esta tragédia ambiental no país sirva de lição definitiva para o governo federal e demais órgãos que tratam do assunto. Situações do gênero não podem ser negligenciadas e as respostas têm de ser mais rápidas. É preciso lembrar que, apesar de as primeiras manchas terem chegado às praias no final de setembro, o Plano Nacional de Contingência para Incidentes de Poluição por Óleo (PNC) não foi acionado a tempo, o que levou o MPF, no dia 18 de outubro, a ingressar com uma ação contra a União exigindo a ativação da estratégia. A extinção do conselho que gerenciava o PNC e levou à descoordenação das ações também está cobrando o seu preço.

Em meio ao flagelo e à gestão atrapalhada da crise, deve ser enaltecida a corrente de solidariedade que se formou, com incansáveis voluntários, para limpar a sujeira das praias, somando-se a outras forças, como as do Exército. Um dos principais destinos do Brasil, o Nordeste e seu povo não merecem que os visitantes de outros pontos do país desfaçam seus planos de viagem para o litoral da região. Uma onda de cancelamentos de pacotes apenas agravaria a dramática situação de quem vive de receber turistas ou tira das cálidas águas do mar da região o seu sofrido sustento.

OPINIÃO DA RBS

02 DE NOVEMBRO DE 2019
DUAS VISÕES - Pesquisador, Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa

E se já não necessitassem um do outro?

O retorno do peronismo na Argentina acendeu alarmes em empresas e ministérios brasileiros. Alberto Fernández, o presidente eleito, quase dedicou o triunfo ao seu "amigo Lula". De seguida, o presidente Bolsonaro recusou felicitá-lo pela eleição. No dia seguinte, Eduardo Bolsonaro celebrou um tuíte no qual apareciam duas fotografias: uma dele próprio, bem macho, rodeado de metralhadoras, e outra do filho do Fernández disfarçado de mulher (ele faz cosplay, uma atividade lúdica na qual os artistas atuam e se vestem como personagens ficcionais). A comunicação da família Bolsonaro visa sempre satisfazer o seu público doméstico, mormente conservador, mas tem consequências além-fronteiras. Podem essas provocações recíprocas deteriorar as relações comerciais entre a Argentina e o Brasil? Vejamos.

Impostos altos com proteção tarifária alta: esse foi o modelo econômico dos membros do Mercosul durante duas décadas. As empresas pagavam muito ao Estado, mas, em troca, não estavam obrigadas a serem eficientes. Mauricio Macri na Argentina e Bolsonaro no Brasil chegaram para mudar esse modelo, acompanhando a abertura econômica com a baixa de impostos. Fracassado Macri, a Argentina ameaça recuar, afastando-se do Brasil imaginado por Paulo Guedes. Bolsonaro promete então expulsá-la do Mercosul. 

O antecedente da Unasul demonstra que é possível desmantelar uma organização regional. A diferença é que o Mercosul serve para alguma coisa: além de promover a convivência pacífica entre os seus membros, permite que eles escoem manufaturas de baixa qualidade e alto preço que não poderiam vender noutro lado. Sobretudo, carros. Em contraste com o México, que exporta para os Estados Unidos, os carros argentinos e brasileiros não cumprem requisitos técnicos para circular em países desenvolvidos. Enquanto não melhorar a sua qualidade, essa indústria depende dos mercados vizinhos para exportar.

Ora bem, os carros, como o açúcar, estão fora do Mercosul! Esses dois produtos são sujeitos a regimes especiais negociados entre o Brasil e a Argentina. Isso quer dizer que os governos podem "dar-se ao luxo" de congelar o Mercosul com fins propagandísticos enquanto, fora do radar, negociam a manutenção do acordo automotor.

Desse modo, Bolsonaro poderia encenar uma política externa de direita, e Fernández uma de esquerda, sem estragar os negócios. Porém, dois problemas permaneceriam. O primeiro é a possibilidade de o conflito diplomático escalar para além do cálculo; o segundo é que persista a falta de incentivos para melhorar a produtividade. Verdadeiros estadistas procurariam o acordo, não a briga.

ANDRÉS MALAMUD


02 DE NOVEMBRO DE 2019
TENDÊNCIA "COLIVING"

República com grife na Capital

Moradias coletivas atraem pessoas e o mercado imobiliário, que aposta em residências planejadas para a vida em comunidade.

Numa sociedade em que o direito à propriedade está previsto na Constituição, e mais de 70% das residências fixas, segundo o IBGE, são em imóveis próprios, moradias coletivas são frequentemente vistas como alternativa para quem está em dificuldades financeiras ou busca um lar temporário. Nos últimos anos, esse tipo de lugar tornou-se popular também entre quem tem mais recursos financeiros, mas, por conveniência ou filosofia de vida, prefere viver na companhia de outras pessoas.

O chamado coliving, termo em inglês que se refere a residências coletivas - como os já muito difundidos albergues e repúblicas estudantis -, atrai o mercado imobiliário, que aposta em casas ou prédios planejados para a vida em comunidade. Nos colivings "gourmetizados", o espaço individual é pequeno, mas a infraestrutura inclui facilidades como academia, piscina, cinema e escritório.

Como permite a construção de várias unidades no espaço, o modelo chama cada vez mais a atenção dos investidores. Os prédios voltados para o coletivo, em geral, têm apartamentos com 30 metros quadrados ou menos, e foco nas áreas de convivência e uso comum, como lavanderia, cozinha coletiva e sala de estar. Já nas casas e apartamentos compartilhados, a área privativa é restrita a um dormitório, com ou sem banheiro, os demais ambientes são comunitários.

O princípio é mais ou menos o mesmo de uma república, com diferenças consideráveis. Nos novos empreendimentos, os serviços são centralizados em um administrador único, responsável por pagar as contas e garantir a manutenção das áreas de uso coletivo - um valor mensal costuma incluir quase todas as contas, do wi-fi à faxina. Também diferentemente das repúblicas, os colivings destinam-se a um público mais amplo do que apenas estudantes universitários - há, inclusive, empreendimentos voltados à terceira idade.

- Tem desde modelos radicais, com quarto dividido, até outros em que se compartilham só algumas áreas de um prédio. A sociedade atual vem pedindo por formatos alternativos de moradia, e a socialização e a otimização dos espaços fazem cada vez mais sentido - diz Alexandre Lafer Frankel, vice-presidente do Sindicato da Habitação de São Paulo (Secovi-SP).

Ainda não há levantamento específico sobre esse tipo de moradia no Brasil. O Secovi estima que boa parte das 7,5 mil unidades de imóveis para solteiros, construídas nos últimos 12 meses em São Paulo, onde o conceito está mais difundido, agregue características de coliving. Em Porto Alegre, os primeiros empreendimentos assim autodenominados começaram a surgir há cerca de dois anos.

Economia

Se, para quem constrói, o modelo mostrou-se atrativo em razão do potencial lucrativo, a opção de viver em casas compartilhadas dá- se por múltiplos fatores. Um dos principais é o custo-benefício. Por um valor único, que, em Porto Alegre, pode ficar entre R$ 700 e R$ 2 mil mensais, é possível morar em bairros centrais como Bom Fim, Floresta e Moinhos de Vento, com quase todas as despesas incluídas.

Outro atrativo está relacionado à busca por estilo de vida mais sustentável. Como partes da infraestrutura e dos equipamentos são utilizados por várias pessoas, esse tipo de moradia é visto como forma de otimizar recursos, atitude cada vez mais necessária à preservação ambiental.

Mas o ponto mais destacado pelos entusiastas dos colivings não tem viés pragmático. Idealizadores e pesquisadores dizem que a possibilidade de aproximar-se de outras pessoas por meio da convivência, mais intensa que nos modelos convencionais de habitação, favorece o desenvolvimento pessoal de quem abraça a experiência.

- A dimensão colaborativa é uma das mais desejadas, por conta da solidão epidêmica que vivemos, e também a mais desafiadora, porque as pessoas têm muito medo umas das outras. É o vetor mais bonito e fascinante - diz a arquiteta e urbanista Lilian Avivia Lubochinski, que atua como consultora para grupos que pretendem viver de forma colaborativa.

A profissional paulista destaca que há diferença entre dividir e colaborar. Enquanto o compartilhamento implica em cessão - seja do espaço ou de equipamentos -, a colaboração refere-se à soma, à construção de algo enquanto comunidade. Sob essa perspectiva, nem todos as moradias coletivas são necessariamente ambientes colaborativos.

Se nas casas partilhadas a convivência é mais evidente - e inevitável -, nos prédios, administradores costumam propor atividades para aproximar moradores, como eventos gastronômicos ou "reuniões de condomínio" descontraídas, com pizza ou churrasco. Alguns locais têm hortas comunitárias, e outros, atividades em grupo, como aulas de ioga ou idiomas, por vezes ministradas pelos próprios moradores.

Na Capital, dois empreendimentos que adotaram o conceito apresentam propostas diferentes: enquanto o Pueblo 595, inaugurado em 2018, é um prédio com apartamentos, a Oka Coliving, aberto em 2017, conta com quatro imóveis e aluga quartos. Recentemente, a Oka reformou o Cine Teatro Presidente, na Avenida Benjamin Constant, onde deve funcionar em modelo semelhante ao do Pueblo.

BRUNA VARGAS


02 DE NOVEMBRO DE 2019
DIÁRIOS DO MUNDO

Onde o Estado Islâmico fala português

O mais novo front do terrorismo internacional está localizado em um país de língua portuguesa. No recente boletim Al-Naba, espécie de newsletter produzida pelo grupo Estado Islâmico (EI), os extremistas anunciaram sua presença no nordeste de Moçambique, na fronteira com a Tanzânia. Conflitos na região, província de Cabo Delgado, são frequentes, mas até agora não havia indícios de integrantes da organização de Abu Bakr al-Baghdadi, morto no fim de semana na Síria.

Há anos, grupos radicais islâmicos atuam na região. Um deles se autodenomina Ansar al-Sunna (Defensores da Tradição), designação adotada também por sunitas que lutaram contra tropas americanas no Iraque entre 2003 e 2007. Na África, a organização seria composta por moçambicanos dos distritos de Mocímboa da Praia, Palma e Macomia, e estrangeiros de Somália e Tanzânia - este último, alvo de um atentado reivindicado pela rede Al-Qaeda contra a embaixada americana, em 1998, na capital Dar es Salaam.

Na região, o EI reivindica um "Califado da África Central". Desde outubro de 2017, pelo menos 250 pessoas morreram nos confrontos. Em maio, uma ação dos guerrilheiros chamou a atenção pela crueldade e modus operandi semelhante ao usado por jihadistas no Oriente Médio: 10 corpos decapitados foram encontrados no vilarejo de Monjane.

A intenção do EI seria estabelecer um califado em Moçambique. Os alvos geralmente são vilarejos remotos. Os ataques são realizados na maioria das vezes com machados, mas há relatos de tiroteios e do uso de explosivos.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, tem colocado a organização à disposição de Moçambique - se a situação piorar, não seria absurdo cogitar-se a proposta de uma força de paz na região. Entre 1992 e 1994, a entidade manteve capacetes azuis no país - com participação do Brasil - para monitorar o cessar-fogo entre grupos rivais após a guerra.

A região nordeste da nação, onde atuam os extremistas, virou palco recente do interesse de empresas que atuam em jazidas de gás descobertas na última década. Moçambique é um país de maioria católica (56%) com importante comunidade muçulmana (18%). O radicalismo islâmico não tinha raízes no local, mas, nos últimos anos, líderes muçulmanos de Cabo Delgado alertaram para a chegada de radicais, seguidores do extremista queniano Aboud Rogo Mohammed, morto em 2012.

“É uma tentativa de criar desordem”
ENTREVISTA: EURICO RASSUDE, Funcionário público de Moçambique

Direto de Lichinga, no norte de Moçambique, Eurico Rassude (foto), funcionário da autoridade tributária do governo, conversou com a coluna, por telefone, sobre a possível presença do Estado Islâmico (EI) no país. Ele afirma que não há evidências, mas acredita que a região, por ser rica em minérios, pode estar sendo foco de desestabilização por interesses externos. Rasssude é doutorando do projeto de pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais da UFRGS na nação africana. A seguir, trechos da conversa.

O Estado Islâmico está reivindicando presença em Moçambique. O que as pessoas falam sobre essa ameaça ao país?

Não me parece uma mensagem muito verídica. Visito a fronteira Tanzânia-Moçambique frequentemente por causa do trabalho. Não há evidências do Estado Islâmico nessa zona. Em termos de religião, a região é dominada pelo Islã, embora tenha-se forte presença cristã. Do lado da Tanzânia, a maior parte da população também professa o islamismo. Temos forte relação com a Tanzânia. Não haveria espaço para estragar tão linda relação.

Quem estaria por trás desses ataques, decapitações, então?

Não associaria isso ao EI. Moçambique é um Estado laico, de muita abertura, acolhe a maior parte dos grupos religiosos. É um país com várias religiões, embora as fés islâmica e cristã sejam dominantes. Até agora, não tínhamos registros de conflitos de origem religiosa. Para mim, é difícil associar esses ataques que estão acontecendo à religião islâmica. Esses grupos podem estar usando a forma de se vestir dos islâmicos, porque sabem que, do ponto de vista internacional, muitos dos terroristas têm determinado comportamento. Seria uma tentativa de manchar a religião islâmica.

Qual seria o interesse?

Há hipótese de descontentamento político. Por conta disso, pode existir algum movimento que procure ajuda e intervenção externa.

Ajuda externa com dinheiro ou envio de tropas?

O país é muito estável, embora em um ou outro ponto, surjam movimentos que tentam desestabilizá-lo. Historicamente, temos registros de movimentos nacionais apoiados por forças externas para tentar destruir a força que está no poder. Provavelmente, esteja acontecendo isso. Desde a independência até as recentes eleições, o governo esteve nas mãos de um único partido (Frente de Libertação de Moçambique, Frelimo). Pode ser que um ou outro grupo não esteja satisfeito com essa realidade e, uma vez que não tenha apoio interno, provavelmente esteja recorrendo a apoio externo para lutar contra o regime. A região que está sendo vítima dos ataques é muito rica em recursos naturais. Em uma área com essas características, há muitos interesses nacionais e internacionais. Os focos de ataques nesse momento, provavelmente, estão ligados a uma tentativa de criar desordem para exploração ilegal de recursos. A história já mostrou que zonas assim foram problemáticas. Grandes potências estão lá para explorar commodities e todo tipo de insumos para alimentar suas indústrias. Do ponto de vista da segurança, Moçambique, junto da região da SADC (Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral), da qual a Tanzânia também faz parte, está muito preocupado e trabalhando para identificar quem são esses grupos. Até agora, essas organizações não esclarecem seus objetivos. Acredito que a dificuldade de identificá-los pode estar associada à mão invisível externa, que manipula grupos nacionais e, para mascarar a realidade, pode estar utilizando essa capa de grupo islâmico. Mas, na verdade, em Moçambique nunca tivemos conflitos de ordem religiosa.

Quando o senhor fala de um ator externo, seriam os EUA? Historicamente, a Rússia tem relação próxima com o governo de Moçambique.

Não há evidências. Mesmo a Rússia, a amizade entre países é aparente. Existe amizade, cooperação, mas, no fundo, os países desconfiam uns dos outros. Em última instância, vão prevalecer os interesses dos Estados. Não posso afirmar que é a Rússia ou os EUA porque ainda precisamos de dados para sustentar essa ideia. Mas existe a possibilidade do que chamamos de tentativa de intromissão externa devido ao fato de a região ser um poço de recursos. 

A SEMANA QUE EU VI

PERONISTAS NA CASA ROSADA 

A semana começou com os peronistas voltando ao poder na Argentina. Alberto Fernández e a ex-presidente Cristina Kirchner (foto) venceram Mauricio Macri no primeiro turno, no domingo. As relações começaram tensas entre o eleito e o presidente Jair Bolsonaro, que não irá à posse. No Uruguai, a disputa ficou para segundo turno, entre Daniel Martínez e Luis Lacalle Pou, no dia 24.

POPULAÇÃO NAS RUAS

No Chile, os protestos levaram o governo a cancelar a conferência do clima, que ocorreria em Santiago. Na segunda-feira, uma passeata acabou em incêndio em um shopping da capital. Há revoltas também no Líbano.

MORTE DE TERRORISTA

O presidente Donald Trump obteve um triunfo político, com a morte do líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi, durante ataque americano na Síria. Na quinta-feira, a organização confirmou a perda e nomeou novo comandante, Abu Ibrahim al-Hashimi al-Quraishi.

IMPEACHMENT AVANÇA NOS EUA

Na quinta-feira, veio o revés para Trump. Democratas na Câmara dos Deputados conseguiram votos suficientes para aprovar uma legislação que estabelece as próximas etapas do processo de impeachment e permite audiências públicas.

RODRIGO LOPES


02 DE NOVEMBRO DE 2019

ACERTO DE CONTAS


Clube gaúcho do bilhão



Ainda que continue com 41 empresas bilionárias, mudou o topo do ranking do Rio Grande do Sul em 2019. O estudo é feito todos os anos por Amanhã e PwC. Essa edição traz dados de receita líquida das companhias em 2018, que foram pincelados nas tabelas pela coluna. Com a transferência da sede da Gerdau para São Paulo, a companhia saiu da liderança. Yara assumiu o primeiro lugar, seguida por Sicredi.



O RANKING (dados em R$ bilhões)



1 - Yara Fertilizantes 12,753



2 - Sicredi 11,084



3 - Banrisul 9,551



4 - Lojas Renner 8,426



5 - Cia Zaffari 4,996



6 - Camil Alimentos 4,748



7 - CMPC 4,713



8 - Bianchini 4,460



9 - Rodoil 4,415



10 - Randon 4,262


Frutas com música ao vivo

Rede de supermercados da Região Metropolitana, o Max Center está com um projeto curioso. De quarta a sexta-feira à noite e aos sábados pela manhã, oferece música ao vivo na área do mercado onde ficam, por exemplo, frutas, legumes e verduras, chamada Hortifruti. Devidamente acomodado em um mezanino, o artista toca de música infantil a MPB e sertanejo.

Quando foi proposta, a ideia gerou um pouco de receio. Mas os clientes aprovaram, contou a gerente administrativa do Max Center, Magali Medeiros:

- Foi ideia de um dos nossos diretores. Então, quando reconstruímos o mercado, colocamos essa área. É como se fosse um palquinho. O pessoal gosta bastante, dá para ver a repercussão nas redes sociais dos clientes - detalha a executiva.

Para quem curtiu a ideia de fazer compras apreciando música ao vivo, o Max Center, por enquanto, oferece a atração apenas no supermercado de Alvorada, onde é sua sede e a loja foi reformulada em 2017. Marcando a entrada na Capital, uma unidade foi aberta na Avenida Baltazar de Oliveira Garcia em julho. Há planos do Max Center para abrir mais uma operação em breve, mas não deve ficar em Porto Alegre.

GIANE GUERRA

02 DE NOVEMBRO DE 2019
RODRIGO CONSTANTINO

Aventura autoritária

Bolsonaro foi eleito com 57 milhões de votos. Nem todos, claro, a favor dele ou de sua agenda, pois muitos deram o voto útil contra o petismo. Mas há uma sólida base disposta a apoiar uma guinada mais conservadora nos costumes e liberal na economia. 

A agenda de reformas do governo é necessária, positiva. Há ministros talentosos, trabalhadores. A bandeira ética anda um tanto esgarçada com o caso envolvendo o filho senador, mas Sergio Moro ainda representa o “lava-jatismo” dentro do governo.

Em suma, o governo tinha tudo para unir a direita, carente de representação política, em prol de pautas comuns. A oposição já viria naturalmente do lugar esperado: partidos de esquerda, sindicatos, intelectuais e artistas, imprensa. Seria uma briga boa. Digo seria, pois não foi isso o que aconteceu.

O governo conseguiu criar enorme cizânia dentro da própria direita. Inventou oposição onde menos precisava.

A causa está na postura radical de uma ala bolsonarista, influenciada pelo filósofo de Virgínia. Essa ala é comandada por ninguém menos do que os filhos do presidente. Com mentalidade tribal e binária, de guerra permanente, eles investem em conflitos desde o começo, acusando todo crítico eventual de traidor, vendido ou comunista. Ou se adere totalmente ao “mito”, ou se é um inimigo.

Com tal método, foram afastando cada vez mais gente boa da direita, liberal ou conservadora. E o ápice se deu nesta semana, quando Eduardo Bolsonaro disse, numa entrevista, que resgatar o AI-5 do regime militar seria uma possibilidade se a esquerda partisse para a violência.

Nem o pai engoliu o despautério, e o filho teve de pedir desculpas. Mas não foi com sinceridade. Ele já deu vários indícios de realmente flertar com aventuras autoritárias, com um golpe de Estado em nome do combate ao comunismo. A narrativa vem do próprio guru: o líder “amado” pelo povo, contra o “sistema” podre, apoiado pelos militares. Se tem cheiro de fascismo, é porque parece mesmo. 

E, com tal boçalidade, os radicais conseguiram finalmente unir todos os moderados... contra o governo! Quem precisa da oposição assim?

RODRIGO CONSTANTINO

02 DE NOVEMBRO DE 2019
INFORME ESPECIAL

Destemperos verbais

Há algo em comum entre os recentes movimentos sociais e políticos na América do Sul: a surpresa. Da vitória de um neoperonista na Argentina à violência no Chile, passando pela revolta dos índios no Equador, pela dissolução do parlamento no Peru e pelos protestos na Bolívia, quase ninguém previu o que estava por acontecer. Não me considero alarmista, mas a oscilação acelerada e precoce do pêndulo da História vai desenhando pontos que se unem de um jeito barulhento.

O bolivarianismo e suas vertentes eram considerados, até bem pouco, moribundos.

Jaziam semienterrados, nocauteados pela guinada à direita que varreu o continente e boa parte do planeta. Subitamente, o susto.

Aprendi, ainda criança, que a melhor maneira de desatar um emaranhado é começar pelo nó mais fácil. Vale o mesmo para as questões de uma prova. As mais difíceis, convém deixar para o fim. Nesse refluxo continental, a parte mais difícil é o Brasil.

Aqui, a ressaca com a esquerda ainda provoca náuseas. As Forças Armadas são coesas e, até agora, estritamente fieis ao seu papel constitucional. Mas isso não impede a identificação de alguns fatores que, unidos, formam um rastilho de pólvora que vai ganhando comprimento e largura. Nosso presidente cutuca a esquerda a esmo, briga com a Europa e debocha dos que considera inimigos.

Nossa Suprema Corte, em vez de fator de segurança jurídica, gera, aos borbotões, instabilidade política. As reformas da Previdência e do Estado mexem com corporações poderosas e organizadas. Nosso Congresso não representa mais ninguém e, por fim, mas não menos importante, as universidades públicas, acuadas pela falta de verbas e pelas acusações de aparelhamento, estão inquietas.

Antes, cada ignição  precisava de um detonador apropriado. Só que a lógica da combustão não é mais linear. A Primavera Árabe, se pouco resultou em termos de democracia, nos ensinou sobre a complexidade das teias urdidas nas redes sociais, quase sempre abaixo dos radares das velhas instituições. Quem acompanha as postagens do presidente e de alguns dos principais atores da cena pública brasileira sabe: riscar fósforos virou rotina, como se não houvesse gasolina por perto. Ou, quem sabe, justamente por haver gasolina por perto.

TULIO MILMAN

sábado, 26 de outubro de 2019



14 DE SETEMBRO DE 2019
CLAUDIA TAJES

O vendedor sincero

A loja estava vazia, tanto que o único vendedor de plantão naquele domingo demorou a me perceber no balcão, entretido com um joguinho de celular. Na verdade, não percebeu. Eu é que chamei por ele, e não foi uma vez só. Quando enfim rolou a interação, vi que era muito jovem, um menino com barba nenhuma e o colarinho fechado até o último botão, sem mais o que fazer senão jogar Free Fire na loja às moscas. Às 17 horas, faltando três para fechar, ele me disse que eu era a primeira pessoa a cruzar o umbral naquele domingo de sol.

Eu precisava de um fone de ouvido. Junto com os pés de meia, os óculos e os guarda-chuvas, o fone de ouvido deve ser o objeto que mais some no mundo. Do nada desaparece, esquecido em algum banco, engolido pelo sofá, enroscado sabe-se onde. Não ter um fone de ouvido à mão - expressão um tanto estranha - significa perturbar o próximo com o último sucesso sertanejo de Sabichão & Geninho, um áudio do WhatsApp com o recado de uma tia ou um joguinho desses cheios de efeitos irritantes. Embora haja dúvidas sobre a verdadeira razão que leve uma pessoa a submeter quem está em volta aos seus sons. Mais provável que não seja a falta do fone, seja a falta de educação. Ou o sadismo mesmo.

O fone de ouvido que o jovem vendedor tinha para oferecer era daqueles de enfiar no pobre do pavilhão auditivo. Desconfortável, mas azar. Pelo menos estaria no bolso para qualquer eventualidade. Se não tem tu, vai tu mesmo, grande lema.

- A senhora conhece essa marca?

- Claro, é a famosa marca diabo.

- Pois então. Isso aí não vai durar três dias.

Eram mais de cinco horas e ninguém havia entrado na loja. Tudo indicava que a venda do fone seria a única naquele domingo de sol. Não que o estabelecimento, lotado de bugigangas, não tivesse os seus encantos. No meio de tanta tralha, qualquer consumidor poderia encontrar uma utilidade - ou uma futilidade, vá lá.

- E tem algum que dure mais?

- Pior que não. Mas esse aí não vale a pena. É jogar dinheiro no lixo.

A gente se acostuma a vestir uma calça que ficou o ó do borogodó e ouvir da vendedora: "Nossa, como caiu bem". E quantas vezes leva gato por lebre, e com a garantia do dono? Foi porque eu precisava, mas foi muito mais pela sinceridade do rapaz. Comprei o fone de ouvido e mais um pano de prato com um elefante em duas patas recitando uma passagem bíblica. Não existe pano de prato laico hoje em dia. Também entrei no site da loja e deixei um elogio para o funcionário. Se um dia tiver uma empresa, é ele que eu quero contratar.

Faz cinco dias e o fone continua funcionando.

CLAUDIA TAJES