sábado, 9 de novembro de 2019



09 DE NOVEMBRO DE 2019
COM A PALAVRA

O PLANO DIRETOR NÃO É DO GOVERNO, MAS DA SOCIEDADE.

CLÁUDIO ACIOLY JR., Arquiteto e urbanista, 62 anos | Chefe do programa ONU Habitat, da Organização das Nações Unidas, presta consultoria para a revisão do Plano Diretor de Porto Alegre

O arquiteto brasileiro Cláudio Acioly Júnior conhece como poucos as administrações municipais ao redor do mundo. Como chefe de Capacitação e Formação Profissional do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU Habitat), o especialista já prestou consultoria em mais de 30 países em áreas como gestão, planejamento urbano e capacitação profissional de servidores públicos. A ONU Habitat firmou um acordo em agosto para prestar assessoria à revisão do Plano Diretor de Porto Alegre, que se encontra em andamento com auxílio de técnicos ligados à entidade. Acioly passou pela Capital em outubro para participar do 21º Congresso Brasileiro de Arquitetos, promovido pelo Instituto de Arquitetos do Brasil e pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo. Em um intervalo de suas atividades no evento, recebeu ZH para falar sobre temas como a parceria entre a ONU e a prefeitura de Porto Alegre e a incapacidade de as administrações municipais resolverem os problemas das cidades sem auxílio da sociedade.

QUE CONTRIBUIÇÃO A ONU HABITAT PODE DAR À REVISÃO DO PLANO DIRETOR DE PORTO ALEGRE?

Esse momento crítico de revisar o Plano Diretor é uma oportunidade de rever uma série de premissas, de observar transformações da cidade, mudanças no perfil da população e problemas e oportunidades que aparecem por conta de alterações decorrentes do avanço tecnológico, por exemplo. Em Porto Alegre, há a oportunidade de a cidade se abrir para o rio, manter relação mais direta com a água. Será que se pensou nisso 20 anos atrás? Talvez não tenha se avaliado profundamente o impacto que poderia haver na economia da cidade você ter uma área enorme como a do porto e transformá-la de forma estratégica, com diferentes usos e otimização daquela infraestrutura. Redescobrir a fachada aquática da cidade em vez de dar as costas para esse exuberante espelho d?água.

É O QUE A PREFEITURA E O ESTADO BUSCAM FAZER NO CAIS MAUÁ.

Estou citando um ponto que me chamou a atenção. Qual a nossa contribuição nisso como ONU Habitat? Podemos trazer para a cidade, para o corpo técnico da prefeitura, para os gestores, uma troca com outras experiências. Pôr a experiência de Porto Alegre no contexto internacional, trazer ferramentas com as quais trabalhamos em outros locais e testá-las aqui.

QUE TIPO DE FERRAMENTAS?

Para ajudar na análise. Porque, de maneira geral, percebemos que a cultura do planejamento ainda está impregnada da visão tecnocrática e não tão integradora ou estratégica, no sentido de trazer outras variáveis que não seja só aquela do uso do solo, do urbanismo propriamente dito, do desenho, da forma, do volume e do skyline que você deseja ter.

QUE OUTRAS VARIÁVEIS SERIAM ESSAS?

Quando falamos de mobilidade: o que outras cidades do mundo estão fazendo? É simplesmente mobilidade como transporte público ou conectar esse transporte público a outras opções? Por exemplo, oferecer ônibus, mas também bicicleta, caminhada. Mas será que a condição das calçadas permite que as pessoas circulem de maneira segura e aproveitando os espaços? Só assim podemos desencorajar o uso maciço do transporte individual motorizado.

POR RAZÕES AMBIENTAIS OU DE CIRCULAÇÃO MESMO?

Hoje, as cidades respondem por 70% do volume emitido de gases de efeito estufa. Temos de pensar nas próximas gerações. A China, que era considerada a maior poluidora pelo modelo de desenvolvimento que adotou e por uma urbanização nunca vista, hoje está adotando uma série de medidas. Muitas cidades estão convertendo a frota de ônibus em veículos elétricos. Tem essas mudanças ocorrendo em função de que não teremos um planeta saudável se continuarmos com certas práticas.

O PLANO DIRETOR É UM INSTRUMENTO PARA VIABILIZAR ESSE TIPO DE POLÍTICA URBANA?

Eu iria entrar nesta parte. Outra contribuição que podemos dar à prefeitura é conectar o plano local da cidade com o resto. O que é o resto? É o que está se passando na área metropolitana, fora da área metropolitana e no mundo todo, que são os objetivos de desenvolvimento sustentável. Eles incluem qualidade do ar, manejo de resíduos sólidos, mobilidade, patrimônio histórico, habitação, planejamento...

HOJE, MUNICÍPIOS COMO PORTO ALEGRE PASSAM POR DIFICULDADES FINANCEIRAS. É POSSÍVEL DAR CONTA DE TODOS ESSES DESAFIOS COM POUCOS RECURSOS?

Acho que sim. Mas os gestores precisam ser criativos e ampliar seus leques de possibilidades. Sei que no Brasil, hoje, o setor privado está demonizado por questões como corrupção. Criou-se a imagem de que o setor privado só entra com coisas por baixo dos panos, cria processos ilícitos, mas há um setor privado que usa sua responsabilidade social e tem o maior interesse de viver e funcionar em uma cidade que oferece qualidade de vida para os seus clientes e os seus empregados. Uma das coisas a serem feitas é essa: abrir o leque.

NO SENTIDO DE ESTIMULAR A BUSCA DE PARCERIAS ENTRE OS SETORES PÚBLICO E PRIVADO?

Sim. É preciso buscar parcerias com o setor privado, mas também com outros grupos sociais organizados que estão competindo e querendo lugar na cidade onde possam gerar renda e emprego. As cidades brasileiras mostraram que é possível também ter agenda de engajamento da sociedade civil organizada na solução de problemas. A grande mudança que temos de fazer é chegar à conclusão de que os problemas da cidade não são só do governo. São coletivos, de todos. É um tipo de pacto que temos de construir pela escassez de recursos. Por exemplo, o Plano Diretor não é do governo, mas da sociedade, dos porto-alegrenses.

EM PORTO ALEGRE, CRIOU-SE O CHAMADO PACTO ALEGRE, QUE ENVOLVE GOVERNO, UNIVERSIDADES, SETORES PRIVADOS... O SENHOR SE REFERE A INICIATIVAS COMO ESSA?

Ouvi falar que se está construindo isso, é um fato positivo. Também podemos ajudar a prefeitura em termos de experiências internacionais, instrumentos e ferramentas, porque, muitas vezes, o técnico e o funcionário municipal estão sob tanta pressão, apagando tantos incêndios, que não têm tempo de se autocapacitar, ler um livro, se aprofundar. Então, muitas vezes, não têm essa chance de abrir o leque para ver o que está ocorrendo no mundo. Podemos facilitar isso, fazer oficinas internas, criar trocas entre cidades e fortalecer os quadros da prefeitura. Muita coisa também está publicada em inglês, espanhol, e nem todos têm esse domínio. E, como hoje temos essa tecnologia da informação, podemos explorar essas oportunidades para criar uma nova visão para a cidade.

QUE POTENCIALIDADES O SENHOR VISLUMBRA EM PORTO ALEGRE?

A dinâmica construída ao longo dos anos de engajamento da sociedade civil organizada na gestão urbana é um capital de Porto Alegre. A cidade é conhecida internacionalmente por esse modelo de engajamento que o Orçamento Participativo trouxe à tona. Muitos falam que é um modelo político, mas a verdade é que vemos hoje, no Brasil, todas as cores políticas exercitando de uma forma ou de outra o que se chama de orçamento participativo. Porque é importante você trazer a população para o seu processo decisório. 

Claro que a responsabilidade é do governo local, a prestação de contas é do técnico formado para tomar decisões, mas diferentes tipos de consultas públicas qualificam a decisão. No fim das contas, se você coloca investimento público em um determinado local, e as pessoas nem sequer foram consultadas ou envolvidas nisso, cinco anos depois não têm o menor compromisso de manter. Tenho visto isso muito em muitas cidades. Não há uma fórmula para fazer essa participação, cada cidade tem os seus processos, mas é algo positivo. Chegamos à conclusão de que não há como um governo resolver as coisas sozinho.

HÁ UM DEBATE GRANDE SOBRE AS PARCERIAS COM O SETOR PRIVADO. MUITAS PESSOAS SÃO CONTRA A CONCESSÃO DE ÁREAS VERDES, POR EXEMPLO, POR CONSIDERAR QUE É UMA FORMA DE PRIVATIZAÇÃO DO ESPAÇO PÚBLICO. O SENHOR ENTENDE QUE ESSE É O CAMINHO MESMO?

Entendo. A cidade tem de tratar o espaço como bem público e acessível a todos os cidadãos independentemente de cor, origem, o que seja, mas pode ter inclusive uma forma compartilhada de gestão e financiamento. Há algumas leis restritivas, porém, você pode criar essas concertações. No Peru, eles criaram as chamadas "mesas de concertação", onde estão o governo local, o provincial, os representantes privados, comunitários, a universidade, a imprensa, e todos esses atores discutem problemas e fazem acordos para as soluções. Você tem o compromisso de dizer: "Bom, somos todos responsáveis, temos de fazer isso andar, eu vou fazer a minha parte, você faz a sua". Você cria a corresponsabilidade, que não é só mais a minha responsabilidade como governo. Eu sei que tenho essa responsabilidade, mas tenho de ser honesto: "Olha, o meu orçamento é esse, não posso fazer mágica". Aí entramos na criatividade do gestor. Eu acho que as prefeituras, em geral, no Brasil, captam mal.

O QUE SIGNIFICA ISSO?

Os cadastros são defasados, há medo de utilizar ferramentas como o Estatuto das Cidades porque vai comprar briga com setores poderosos, imposto predial, solo criado... Vocês, em Porto Alegre, tiveram a tradição de criar uma estratégia de venda de solo criado com a visão de que a cidade pode se densificar, arrecadar com isso e ter recursos para melhorar a infraestrutura e o espaço público, enfim, fazer redistribuição de benefícios na cidade para chegar a um ponto em que mais ou menos todos estão com o mínimo de acessibilidade a bens e serviços que a cidade oferece.

MUITOS MORADORES DE BAIRROS MAIS TRADICIONAIS NÃO GOSTAM DESSA POLÍTICA DE ADENSAMENTO...

Exato, mas aí vai ter que ralar para melhorar a qualidade de vida. Se não fizer isso, vamos criar uma cidade dividida, o que é ruim para todos. A segregação e a desigualdade criam um passivo que afeta a performance (da cidade) e a capacidade de avançar com suas políticas.

O SENHOR PODERIA ESCLARECER UM POUCO MAIS O QUE QUIS DIZER QUANDO FALOU QUE AS PREFEITURAS CAPTAM MAL?

O Ministério das Cidades tinha uma série de carteiras e tinha dinheiro com a Caixa Federal para os governos municipais fazerem seus projetos. Lembro de uma visita que fiz a Porto Alegre, (o projeto) era o Habitat Brasil, tinha lá os recursos e estavam suando para preparar o projeto porque você está ocupado na sua secretaria, ou outro, na dele, todo mundo enfrentando pressão diária do secretário, do cidadão... Está todo mundo correndo, essa é a verdade. Poucas vezes quem trabalha em município está respirando. 

Você precisa dar atenção à formatação de projetos. Quando trabalhei com a prefeitura do Rio, durante quatro anos capacitei quadros da prefeitura, gerentes de projetos e programas. Era a primeira gestão do César Maia, que fez umas coisas interessantes. Depois, infelizmente, degringolou. Mas, na primeira gestão dele, eu nunca havia visto algo semelhante. Eles tinham um instituto, o Iplan Rio, com o qual criaram uma carteira de projetos urbanos feitos por técnicos excelentes. No momento em que houvesse dinheiro, faziam a licitação ou iam ao BNDES ou à Caixa procurar financiamento. Essa é uma linha.

HÁ OUTRA?

Há a linha fiscal, que as prefeituras não estão tendo essa receita que deveriam ter porque não têm instrumentos de monitoramento, cadastros (de contribuintes) não estão atualizados, não tem mecanismo de reforço, digamos assim, você dá a cenoura mas tem de ter a vara também. Incentivo e desincentivo.

HISTORICAMENTE, AS CIDADES TÊM DIFICULDADE DE PLANEJAMENTO E EXECUÇÃO. O QUE SE PODE FAZER PARA MELHORAR ISSO?

Vou me referir a experiências recentes. Fiquei em Roterdã, na Holanda, por muitos anos. Percebo hoje, na Europa, na maioria dos países, que há uma accountability, uma responsabilização, prestação de contas, transparência, tudo junto, onde a cidadania está muito atuante e alerta ao que é feito com os recursos públicos, inclusive quanto tempo se leva para ter um documento, uma aprovação. E a governança eletrônica está muito forte, porque o cidadão quer saber rapidamente. Isso está levando funcionários públicos a elevar suas performances. É uma tendência forte na atualidade.

HÁ ALGUM EXEMPLO DISSO NO BRASIL?

Tem um aplicativo que nós fizemos. É um projeto financiado por um fundo de desenvolvimento da ONU, e eu coordeno isso. Em Niterói (RJ), a prefeitura assumiu compromissos. Por exemplo: se você tem um processo de solicitação de algum serviço municipal, você consegue acompanhar ao vivo onde está o seu processo, e ele tem um tempo para voltar para você com uma resposta. Isso criou um sistema dentro da prefeitura que os levou a ganharem prêmios. Os cidadãos andam pela cidade fotografando e colocam nessa plataforma digital. Um cidadão conseguiu resolver 900 problemas na cidade só com esse aplicativo...

UMA PESSOA APENAS?

Sim! (Risos.) Porque ele resolveu pegar o celular e ir andando e fotografando buracos, falta de luz, calçada esburacada, essas coisas que o gestor urbano muitas vezes não dá atenção porque está vendo a coisa macro, enquanto o cidadão quer a coisa no micro, quer atravessar a rua com segurança, o lixo coletado, a calçada limpa, essas coisas. Sei que a prefeitura de Niterói levou isso para a gestão financeira da cidade e tem tido impacto... Eu estive lá e fiquei orgulhoso de ser brasileiro ao ver uma cidade de 500 mil habitantes, que tem lá seus problemas, mas na qual o povo está trabalhando engajado com os funcionários públicos. Isso me dá alento. É verdade que sabemos de casos em que o funcionário público está lá encostado, desmotivado, não há como tirar o melhor dele, mas a maioria que eu conheço quer cumprir com o seu papel, fazer, inovar. Se a instituição oferece condições de trabalho, a cidade toda se beneficia.

MUITAS CIDADES ENFRENTAM PROBLEMAS DE SEGURANÇA E MOBILIDADE, ENQUANTO A ONU ESTIMA QUE A URBANIZAÇÃO SEGUIRÁ EM RITMO ACELERADO ATÉ 2050. A TENDÊNCIA É QUE ESSES PROBLEMAS SE AGRAVEM OU É UMA OPORTUNIDADE PARA RESOLVÊ-LOS?

Não conheço a tendência demográfica ou econômica de cada uma das cidades, mas observo que algumas começam a encolher por sua economia ou processo demográfico. Os núcleos familiares estão diminuindo, as mulheres estão decidindo não só quantos filhos querem ter, mas se querem ter filhos. Temos de observar isso, é um movimento social que está em curso. Há ainda a longevidade e as taxas de mortalidade, então temos de entender essa dinâmica social atual. 

Mas, olhando de maneira geral para o futuro, haverá cidades que vão envelhecer e terão de ser revitalizadas. Temos de ter instrumentos de monitoramento para ver onde isso está ocorrendo, assim como vai haver locais com outras dinâmicas muito particulares. Por isso, no começo, falei que a orla da cidade é uma tremenda oportunidade. Temos de ter esses instrumentos de monitoramento e fazer as revisões de Plano Diretor de forma mais regular. Não vamos esperar 10 anos: vamos fazer em cinco anos uma revisão mais light. Ou criamos um conselho que se encontra a cada dois anos, por exemplo. Estou dando ideias. Pode ter um seminário de governo a cada dois anos para falar de mobilidade, dos temas importantes.

QUAL OS PRINCIPAIS DESAFIOS DAS GRANDES CIDADES BRASILEIRAS NESTE MOMENTO?

Cada cidade é uma cidade e tem as suas especificidades. Não teria coragem de dar uma tábula rasa, mas algumas coisas são comuns. O cidadão reclama da mobilidade e do transporte. Está certo: é onde a política pública está muito mal. 

MARCELO GONZATTO


09 DE NOVEMBRO DE 2019
DRAUZIO VARELLA

A HORA DE TOMAR REMÉDIO

ESTUDO COM HIPERTENSOS TESTA SE OS HORÁRIOS DE MEDICAÇÃO TÊM RELAÇÃO COM O RISCO DE DOENÇAS CARDIOVASCULARES

Hipertensão é doença traiçoeira. Caminha silenciosa, avariando lentamente a camada interna das artérias, as terminações nervosas e os glomérulos renais, até provocar danos que levam ao infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, insuficiência renal e insuficiência cardíaca entre outros males.

Aos 65 anos de idade, a metade das mulheres e dos homens brasileiros sofre desse mal, prevalência que não para de aumentar com a idade, daí em diante.

Embora haja várias classes de medicamentos hipotensores eficazes, a adesão ao tratamento é precária. Muitos o fazem de forma irregular, quando não decidem interrompê-lo por conta própria.

Um grupo espanhol acaba de publicar no European Heart Journal, os resultados do Hygia Chronoterapy Trial, realizado com o objetivo de testar se os horários de tomada das medicações guardam relação com o risco de doenças cardiovasculares.

Os pacientes puderam receber qualquer associação de medicamentos, desde que aprovados para uso em doses diárias únicas. Os critérios para o diagnóstico de hipertensão arterial foram os seguintes:

1) Durante a vigília: média de pressão sistólica maior ou igual a 13,5 cm ou pressão diastólica maior ou igual 8,5 cm.

2) Durante o sono: média da pressão sistólica igual ou acima de 12 cm ou diastólica igual ou acima de 7 cm.

3) Pacientes já em tratamento para hipertensão.

Realizada em diversos centros da Espanha, a pesquisa dividiu 19.084 pessoas com hipertensão, em dois grupos. O primeiro foi orientado a tomar todos os medicamentos (um ou mais) de uma vez só, ao deitar. No outro grupo, todos os medicamentos foram tomados pela manhã, ao acordar.

Nos retornos para consulta (pelo menos uma por ano), a pressão foi monitorada por 48 horas, durante um acompanhamento que durou em média 6,3 anos, período no qual ocorreram 1.752 casos de doença cardiovascular: infarto do miocárdio, revascularização (por stent ou ponte de safena), insuficiência cardíaca, AVC ou morte.

Depois de ajustar os números de modo a afastar a influência de outros fatores de risco para doenças cardiovasculares (idade, sexo, diabetes, doença renal crônica, fumo, colesterol HDL, pressão máxima durante a vigília e o sono e a existência de eventos cardiovasculares prévios), os autores concluíram que a tomada noturna reduziu o risco dos seguintes eventos: morte por doença cardiovascular (redução de 46%), infarto do miocárdio (34%), revascularização das coronárias (40%), insuficiência cardíaca (42%) e acidentes vasculares cerebrais (49%).

Ao lado desses benefícios, a ingestão rotineira ao deitar provocou queda da pressão sistólica no decorrer do período de vigília e também durante o sono.

Conclusão: se você que sofre de hipertensão, recebeu uma prescrição de um ou mais medicamentos que devem ser ingeridos de 24 em 24 horas, o ideal é tomá-los de uma única vez, na hora de dormir. Só não pode esquecer nem pegar no sono antes.

DRAUZIO VARELLA


09 DE NOVEMBRO DE 2019
J.J.CAMARGO

O SONHO FRAUDADO

O socialismo e os 30 anos da queda do muro de Berlim.  Quando se faz o inventário dos 100 anos da Revolução Russa, que incendiou o coração da juventude no mundo inteiro porque se baseava no poder retomado pelo povo que desbancara a aristocracia czarista, egoísta e alienada, percebe-se que as nações que provaram da poção milagrosa se dividem, muitas décadas depois, em os decepcionados, os arrependidos e os fanáticos.

Atualmente, a presença de um militante dessa causa perdida em países mais desenvolvidos é vista com a curiosidade com que se inspeciona uma peça que resistiu ao incêndio do museu. Nos países pobres, onde eles ainda desfilam com uma empáfia difícil de explicar, está a maioria dos sobreviventes desta autoflagelação, e ali se encontram os deprimidos em tratamento, e os incuráveis, ou seja, os fanáticos que envelheceram acreditando e, agora, não têm mais tempo, nem ânimo, para assumir que deu tudo errado.

E como deu! A análise comparativa dos países capitalistas com os que mergulharam na utopia por convicção (poucos) ou foram coagidos (maioria) é constrangedora, pelo menos para os que preservam intacta a capacidade de pensar por conta própria.

Convivi com a Alemanha logo depois que o muro ruiu, e soube, por alemães ocidentais, do esforço de reintegração das duas metades, irmãs na genética e na cor dos olhos, mas completamente diferentes na iniciativa e na paixão pelo trabalho. Logo depois da fusão, o chefe de cirurgia torácica da Universidade de Munique, meu amigo de longa data, recebeu três jovens cirurgiões de Leipzig, e se confessou surpreso quando eles, imediatamente, iniciaram um movimento de reivindicação por melhores condições de trabalho, incluindo bônus por insalubridade, e aumento do valor das horas extras porque, com o sucesso do programa de transplantes naquela instituição, as operações no período da noite, sem tempo previsto para terminar, se tornaram rotina.

O regime de trabalho competitivo, que recolocou a Alemanha entre as nações mais ricas do mundo, apenas 40 anos depois de ter sido completamente destroçada, não combinava em nada com quem se habituara com a previsível acomodação que rege a vida dos que são igualmente remunerados, trabalhando ou protestando.

Quando a mãe Rússia assumiu a inviabilidade do modelo que fracassara depois de ter sacrificado milhões de vítimas inconformadas com a perda da liberdade, a máscara caiu e as chagas ficaram expostas.

O fim começou quando Miklós Németh, primeiro-ministro húngaro à época, foi à Moscou, para rogar a Gorbachev uma ajuda econômica, para restaurar a cerca elétrica que separava a Hungria da Áustria, e que, desmoronando, se transformara numa porta aberta para o ocidente e a liberdade, mas o pedido resultou em negativa sumária. Diante da resposta explícita de que, sem petróleo a Rússia não tinha como continuar bancando as aparências, todas as barreiras experimentaram o efeito dominó, que levou Cuba de roldão.

A queda do Muro de Berlim, um dos acontecimentos mais emblemáticos do século 20, completa 30 anos neste 9 de novembro e, passado este tempo, com cada nação tentando, do seu jeito, se reerguer das ruínas do socialismo utópico, ainda se percebe a flagrante diferença de desenvolvimento que encabula os países do Leste Europeu.

Tudo bem, vamos deixar de fora as ditaduras, que, tolhendo o princípio básico da liberdade, não permitem comparações, até porque quem não entende esta diferença nada mais entenderá.

Feita esta ressalva, respeitar a decepção recatada dos velhos socialistas, que gastaram os anos dourados da juventude perseguindo um modelo ficcional de convivência, é uma questão de generosidade.

Difícil é aturar que certos jovens, aparentemente poupados de descerebração, continuem defendendo uma ideologia sempre imposta com violência, e que fracassou sistematicamente em um século de tentativas, e sigam venezuelando por aí, com ares de originalidade. Se houvesse interesse numa conclamação à racionalidade, a primeira pergunta seria esta: por que será que ninguém jamais arriscou a vida, tentando pular o muro para o lado de lá?

J.J.CAMARGO


09 DE NOVEMBRO DE 2019
DAVID COIMBRA

Um amor de sogra

Uma vez vi um carro rodando por Porto Alegre com um adesivo no vidro de trás que dizia o seguinte: "Eu amo a minha sogra". Colaria esse adesivo com entusiasmo no meu carro, se carro tivesse. Porque sinto apreço especial por minha sogra, a querida Ana Maria, que neste mês veio nos visitar, aqui em Boston. Ela é uma pessoa doce, afável, suave, como todas as pessoas deveriam ser para o mundo ser como deveria ser.

Exatamente para tentar agradar-lhe, levei-a, junto com minha mulher, a Marcinha, e meu filho, Bernardo, a um restaurante de que gosto muito, no Little Italy. Chama-se Trattoria Il Panino e serve um paccheri al ragu que você come aos soluços, de tão bom.

Pois lá estávamos nós, sorvendo um tinto denso, quando aquela loirinha entrou. Eu estava de frente para a porta, por isso a vi antes. Andava em cima de botas pretas de saltos altos, o que já demonstrava de onde vinha. Ou, pelo menos, de onde não vinha, porque americanas raiz, do interior de New England, não usam saltos altos. Ela deveria ser das áreas centrais de Boston, como a Back Bay ou a Beacon Hill, onde as vitrines reluzem e a vaidade freme.

Já estamos singrando o outono, as temperaturas baixam a cada dia, mas a pele da loirinha era dourada como trigo maduro, como se tivesse sido untada pelo sol da Califórnia ou, quem sabe, do Hawaii de Obama. Seu corpo era esguio feito o de uma gueparda. Seu cabelo, uma catadupa homogênea que desaguava suavemente nos ombros. Ela veio sorrindo um sorriso coruscante em direção à mesa ao lado da nossa. Fiquei olhando, enquanto o rapaz que a aguardava se erguia de um salto e a saudava com um beijo no rosto. Sentaram-se os dois na ponta de suas cadeiras e se inclinaram um em direção ao outro. A linguagem corporal não deixava dúvida: tratava-se do primeiro encontro.

Percebi que a Marcinha também observava o casal. Não havia como não observar. Eles estavam muito perto e chamavam a atenção. A loirinha fez uma pergunta tipicamente americana:

- Como foi o seu dia?

Ele sorriu e pediu uma garrafa de vinho. A Marcinha, então, virou-se para mim e disse:

- Esse guri é mais bonito do que o Brad Pitt.

Espantei-me com a súbita e positiva avaliação. Nem tinha reparado no rapaz, para falar a verdade. É agradável olhar para pessoas atraentes, como é agradável admirar uma tela impressionista de Renoir, os arco-íris das Cataratas do Iguaçu ou um grande leão que caça na savana da África. A beleza faz bem para o espírito. Não acho, portanto, que considerar uma pessoa atraente significa se sentir atraído por ela. Além disso, não sou ciumento. Mas a Marcinha não parava de repetir:

- Nossa, mas ele é bonito mesmo. Muito bonito. Bonito, bonito.

Estiquei o pescoço e olhei para o cara. Ele estava de lado. Assim, de perfil, não parecia tããão bonito. Não era, definitivamente, um perfil grego ou coisa que o valha. Mas ela continuava:

- Bem bonito? Protestei, meio de brincadeira: - Precisa manifestar tanto entusiasmo?

Ela riu. Parou de elogiar o sujeito, mas não de prestar atenção ao casal. Ia narrando a evolução dos acontecimentos na mesa ao lado:

- Agora eles estão falando da faculdade. Agora ele disse que não é daqui. Deve ser do Meio-Oeste. Tem todo o jeito de ser do Meio-Oeste.

Então, meu filho, que estava sentado diante de mim, quis saber:

- Do que é que a mamãe está falando.

- Daquele cara ali - indiquei com a cabeça.

E o meu filho: - Ele é bonito?

Ao que a minha sogra, que até aquele momento parecia distraída, acrescentou, com vibrante empolgação na voz: - Nossa, se é!

Depois daquilo, levantei o braço. Pedi a conta. Ouvir a mulher elogiando outro, tudo bem. Mas ver todo aquele arrebatamento da sogra, bem, aí foi demais.

DAVID COIMBRA


09 DE NOVEMBRO DE 2019
MÁRIO CORSO

Do que é feito o superego?

Freud conceituou a ideia sobre a nossa instância moral interna. Ela é herdeira da educação que recebemos dos nossos pais e atende pelo nome de superego. Outra tradução poderia ser "sobre o eu", para não acionar outras ressonâncias do prefixo super.

O problema é que isso é só uma parte do processo. Ele é feito também de outras coisas, nem sempre tão nobres. Aqui vale o dito: é melhor não saber do que é feita a salsicha. A questão é que, justamente sabendo do que ela é feita, pode nos poupar de dissabores.

À primeira vista, o superego seria nossa salvação, afinal, somos seres morais. Um sólido superego pouparia descaminhos e nos faria melhores. Intuitivamente essa é a conduta de muitos, especialmente os religiosos, acreditando que a severidade moral salva. Mas é aqui que entram os outros ingredientes do embutido para atravessar o samba.

O superego de Freud não é um princípio moral que chega de fora e instaura a ordem. Ao contrário, é na experiência da doma das pulsões infantis que ele é forjado, cada um fabrica o seu. Em outras palavras, é na força da renúncia dos desejos proibidos que formatamos a instância que irá regular nosso encontro com a lei e os nossos ideais. Mas, quando a renúncia é imperfeita, isso pode dar errado. Para essas pessoas, o superego frágil vai se agigantar para tentar ter a mesma eficácia que tem nas outras pessoas.

É disto que são feitos os moralistas: seu superego exagerado desborda o sujeito, pois ele tenta convencer os outros daquilo que ele mesmo custa recalcar. Quanto maior a energia para controlar um impulso em si mesmo, mais o sujeito quer para os outros a mesma medida.

Portanto, é possível conhecer alguém pelo seu avesso. Por exemplo, se alguém passa a vida em treta com a homossexualidade alheia, é que nele isso pulsa forte. Tanto que precisa de uma dose maior de recalque, e esta é projetada em quem tem o azar de ser seu vizinho.

Um exemplo real: vocês conhecem Fred Pontes, presidente da Acons - Associação Nacional dos Conservadores? Foi condenado recentemente por crime sexual. Quando tinha 30 anos, abusou de uma menina de 10.

Atenção, a palavra conservador, especialmente fora do Brasil, é uma corrente de pensamento séria. A bronca aqui é com Fred Pontes. Se ele é pela família, pela tradição, pelos bons costumes, o que aconteceu? Justamente porque seu superego superdimensionado não funciona, sua militância é um desespero inútil para fundar algo que pare seu desejo perverso.

Infelizmente, instituições políticas e religiosas, baseadas na ideia de impor interdições e limites como princípios, são um ímã para almas assim perturbadas. O proselitismo moralista militante é o sinal de que algo vai mal no sujeito e, em vez de arrumar a falha em si, ele tenta consertar o mundo.

MÁRIO CORSO


09 DE NOVEMBRO DE 2019
FLÁVIO TAVARES

RECUAR OU...??

Às vezes, recuar significa vencer. Recuamos por reconhecer que o outro lado tem mais razões (ou mais poder) e que erramos. E que nosso erro nos destroçará, destruindo a todos. Na guerra ou no futebol, recua-se para adotar o que faz o outro lado e, assim, triunfar antes que ele nos vença.

O dia a dia é assim, também.

O governador Leite soube recuar da absurda mudança do IPVA. Com maturidade e visão, salvou-se da tolice ao perceber o erro. Agora, se espera que repita o feito e recue em erros ainda mais graves.

Mudar o modelar Código Estadual do Meio Ambiente é um erro profundo, como apontam geólogos, biólogos e botânicos, além de todos os ex-secretários da área ambiental dos governos anteriores. A mudança erra ao equiparar o empresário correto e respeitoso com o desleixado e fraudulento, que se guia pela cobiça e abre portas à destruição da natureza.

A proposta de "autolicenciamento ambiental" deixa nas mãos da empresa decidir se a futura atividade agride ou não o meio ambiente. Pode-se confiar nos eventuais espertalhões? Ou, até, em quem se equivoque na boa-fé, por ignorar?

Um relatório de 194 páginas da Agência Nacional de Mineração afirma, agora, que a Cia. Vale sabia da precária situação de Brumadinho (MG) meses antes da tragédia de janeiro, mas omitiu o perigo que representava. Se até uma megaempresa não se importou com o horror, o que esperar das que não dispõem dos meios da maior mineradora do país?

O correto recuo no IPVA, porém, nada é comparado à decisão de perdoar 90% dos débitos das multas dos devedores de impostos. Não será isto um acinte à correção dos que cumprem a lei?

Perdoar os maus significa culpar os bons por serem bons!

Há, também, recuos afrontosos, que agridem até a quem recua, seja pessoa ou organismo. É o caso do Supremo Tribunal Federal ao revogar o que havia decidido, anos atrás, sobre a prisão após condenação em segunda instância.

Nos últimos tempos, voltamos a confiar na Justiça e nos tribunais. Figurões até então intocáveis foram presos. O crime bilionário dos que detêm o controle político ou econômico passou a ser visto como crime mesmo, não como salvo-conduto dos poderosos.

Um ex-presidente da República e dezenas de grandes empresários (ou seus asseclas) foram presos, condenados em duas instâncias após minuciosas investigações. É difícil (ou impossível) que a instância final do processo os declare "inocentes". De fato, o Supremo Tribunal julga, apenas, se o processo seguiu o rito constitucional.

A essência do crime já foi julgada antes, por duas vezes.

As mais lúcidas figuras do STF, como os ministros Edson Fachin, Luís Barroso e Cármen Lúcia, optaram por manter a prisão, em votos memoráveis. O "voto de minerva" do presidente da Corte, porém, decidiu pelo absurdo, num recuo desastroso.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

09 DE NOVEMBRO DE 2019
ARTIGOS

6 A 5 PELA IMPUNIDADE


Foi lamentável a recente decisão do STF que reverteu a automaticidade da prisão após a condenação em segunda instância. Em primeiro lugar, há argumentos jurídicos em favor da prisão em segunda instância, pois, após essa etapa, não há mais dúvida acerca da autoria e da materialidade do crime nem discussão sobrefatos e provas. Em segundo lugar, é importante que a população confie no sistema penal e veja a justiça sendo feita em tempo hábil. A sensação de impunidade, especialmente de ricos e poderosos, revolta o cidadão de bem e erode a confiança da população em relação à Justiça e ao próprio Brasil.

Além disso, a efetividade dos tribunais superiores em termos de alteração de resultado de sentenças da segunda instância é mínima. Os dados trazidos no voto do ministro Luís Roberto Barroso indicam que em apenas 0,035% dos casos em matéria penal analisados pelo STF houve decisão de absolvição dos réus. Na verdade, a maioria dos recursos em matéria penal ao STJ e STF são medidas protelatórias que visam retardar o cumprimento da pena a espera da sua prescrição.

Os dados mostram, ainda, que a prisão em segunda instância não elevou a taxa de encarceramento. Ao contrário, nos últimos anos a população carcerária cresce menos do que no passado. O que aumentou foi o encarceramento de políticos e empresários corruptos.

Esperamos, agora, que o Congresso repare esse equívoco do STF. Cabe aos parlamentares atender à vontade da população em modificar o Código de Processo Penal e a Constituição de forma a viabilizar a prisão a partir da condenação em segunda instância. Isso pode ser feito através da aprovação do pacote anticrime do ministro Sergio Moro ou pela aprovação da PEC 410/18, que altera o inciso LVII do art. 5º da Constituição. Infelizmente, em ambos os casos, a tramitação é muito lenta.

Espero que o Congresso, que tem produzido boa legislação na área econômica, não nos decepcione na área penal. Queremos um país mais justo, onde criminosos de colarinho branco sejam punidos com cadeia.

LUIZ CARLOS BOHN

09 DE NOVEMBRO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

O TOM DE LULA



Beneficiado pela decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de derrubar a autorização para prisão após a condenação em segunda instância, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva saiu da cadeia menos de 24 horas depois, no final da tarde de sexta-feira, deixando no país a dúvida sobre com que espírito vai desfrutar a liberdade. Ainda na cadeia, graças à condescendência do sistema prisional, o petista concedeu inúmeras entrevistas e mostrava-se falante, repetindo a ladainha de que foi encarcerado por motivos políticos, e não pelo resultado de um minucioso processo investigativo e judicial conduzido pela Operação Lava-Jato.

Solto, certamente o ex-presidente continua- rá eloquente, mas agora com o potencial de aprofundar ainda mais a polarização que machuca o Brasil. Para os radicais da direita, a volta de Lula ao cenário pode funcionar como a senha para que alardeiem de forma mais estridente os perigos de uma suposta ameaça vermelha. Neste momento, parece que muito mais do que a esquerda, ainda fragmentada e personalista, é o outro lado do espectro ideológico que se alimenta da figura controversa de Lula.

Grande parte do que o Brasil vai viver daqui para a frente dependerá do tom imprimido por Lula nos próximos dias, que certamente será repetido por seus seguidores. Se mantiver a toada radical, dará um grande impulso à intolerância e ao extremismo, que continuarão sendo protagonistas de um quadro de degradação das relações sociais no Brasil. A primeira amostra, ainda na sexta-feira, logo após sair da prisão, não foi das melhores. Os ataques à Lava-Jato e as provocações ao presidente Jair Bolsonaro indicam uma postura beligerante.

Precisa ainda ser analisada a questão de fundo. A posição do STF na quinta- feira, que beneficiou Lula, foi a reversão da interpretação da mais alta corte do país sobre o tema da prisão após a condenação em segunda instância, apenas três anos depois de firmar entendimento diferente. Há convicção generalizada de que o Supremo cedeu ao casuísmo, levando à soltura de Lula, condenado por corrupção e lavagem de dinheiro. A decisão produzirá consequências que vão muito além da possibilidade imediata de milhares de criminosos sentenciados voltarem às ruas.

É cristalino que a deliberação do Supremo, com placar apertado de 6 a 5, vai amparar essencialmente os condenados que têm amplas reservas financeiras para pagar os melhores advogados do Brasil e levar os seus recursos para a última instância. Contam com a possibi- lidade de protelação inerente ao cipoal do sistema recursal brasileiro e, quem sabe, até com a prescrição dos casos, para livrar seus clientes da cadeia. Neste grupo, claro, estão incluídos empreiteiros, doleiros e políticos denunciados pela Lava-Jato. O veredito do STF, portanto, tem infelizmente o condão de reavivar a percepção de que o Brasil é o país onde impera a impunidade.

OPINIÃO DA RBS

Um ano de mistério no Vale do Taquari

Cinquenta e cinco rosas brancas foram arremessadas no gramado de um condomínio em Anta Gorda, no Vale do Taquari, em 9 de junho, numa despedida simbólica. Era a forma de a comunidade dizer adeus ao gerente de banco Jacir Potrich, 55 anos. Em 13 de novembro de 2018, o bancário sumiu do residencial onde morava. Para a Polícia Civil e o Ministério Público, ele foi assassinado, embora o corpo nunca tenha sido encontrado. Quase um ano depois, com a ação contra o acusado do crime suspensa na Justiça, o mistério paira no município de 6 mil habitantes.

A Paróquia de São Carlos não foi suficiente para abrigar os participantes do ato realizado em junho. Era ali que Potrich ia à missa aos domingos com a esposa. De origem humilde, os colegas recordam que não era incomum ele mesmo varrer a calçada em frente ao Sicredi, onde trabalhava havia 25 anos. Potrich também adorava futebol, esporte ao qual se dedicou por anos. Amigos percorreram o corredor da igreja com as camisetas dos seus times do coração: o Grêmio e o São José, de Anta Gorda. Um quadro, com a fotografia do filho e de Potrich, foi cercado por assinaturas de amigos na celebração.

Foi a forma que vizinhos e familiares encontraram para tentar dar desfecho ao caso. O mistério que passaria a causar aflição na comunidade desacostumada com crimes teve início em novembro passado. O último homicídio em Anta Gorda havia ocorrido em 2003. Potrich desapareceu do condomínio fechado, onde viviam três famílias. O bancário residia com a esposa e um sobrinho dela, de 24 anos. Às 19h7min, voltando de uma pescaria, dirigiu-se aos fundos da residência, onde limpou os peixes. Desde então, não foi mais encontrado. O carro ficou na garagem, com a carteira e documentos.

A partir dali, começaram as buscas pelo gerente e até um açude foi esvaziado. A família ofereceu recompensa de R$ 50 mil para informações sobre o sumiço. A polícia chegou a cogitar um sequestro, por conta da profissão do desaparecido. Sem pedido de resgate, a possibilidade foi descartada. Pouco mais de dois meses depois, o dentista Carlos Alberto Weber Patussi, vizinho de condomínio de Potrich, foi preso por suspeita de ter estrangulado o bancário e escondido o corpo.

Vassoura

Para a Polícia Civil e o MP, imagens do residencial mostram o dentista caminhando pelo terreno e mexendo em duas câmeras com uma vassoura. Uma tem o foco desviado para o alto e outra é desligada. A acusação entende que neste momento o dentista estaria desviando equipamentos para não flagrarem a ocultação do corpo.

- Ele foi a última pessoa que esteve com a vítima Potrich dentro daquele quiosque. Isto está confirmado pelas imagens que apresentam a vítima entrando no quiosque minutos antes e o Patussi entrando depois. Foi a última pessoa a ver o Potrich com vida. Depois dessa entrada no quiosque, o Potrich desaparece - conclui o promotor André Prediger.

Patussi foi preso duas vezes, mas está em liberdade. Ele se tornou réu por homicídio e ocultação de cadáver e teve a ação suspensa pelo Tribunal de Justiça (TJ). O MP recorreu da decisão e, após análise do TJ, o processo pode chegar ao Superior Tribunal de Justiça (STJ). O dentista segue morando no residencial. Após o vizinho ser preso, a esposa de Potrich deixou o local e se mudou com o sobrinho para um apartamento na área central.

- Nós da família temos sentimento de dor, tristeza, luto - descreve Adriane Balestreri Potrich.

Em frente ao condomínio, seguem estendidas as faixas, que expressam luto e pedido de justiça.

LETICIA MENDES


09 DE NOVEMBRO DE 2019
ATIVIDADES TERCEIRIZADAS

"Irmãs" Job de portas fechadas

Constituídas para dar seguimento às atividades da Alerta e da Abrasul, prestadoras de serviço de limpeza e vigilância fechadas por fraude ao fisco nos anos 2000, as "irmãs" Job Recursos Humanos e Job Segurança e Vigilância devem ser as próximas a sumir do mercado por causas de dívidas, punições, penhoras e indisponibilidade de bens. Elas já foram alvo de 6 mil ações trabalhistas, metade em andamento.

Os escritórios das duas Job na Capital estão de portas fechadas e placas de aluga-se foram penduradas nos muros, no cruzamento da Rua Santos Dumont com a Avenida Brasil, na zona norte. A placa de identificação de uma das empresas está jogado no pátio. Ao menos 16 carros da frota da empresa seguem estacionados na garagem, parte penhorada por ordem da Justiça do Trabalho.

Dirigidas por Ronaldo Pinheiro Prates, filho do gestor da Alerta e da Abrasul, Luiz Paulo Pereira Prates, as empresas receberam R$ 394,1 milhões nos últimos 10 anos por serviços a Estado, União e prefeituras gaúchas. Desde o ano passado, estão impedidas de celebrar contratos com entes públicos por irregularidades na prestação dos serviços ao Tribunal de Justiça do Estado (TJ) - pelo menos dois contratos com a Job RH foram rescindidos.

A contar de 2010, a prefeitura de Porto Alegre pagou R$ 21,2 milhões por serviços prestados pelas duas empresas, mas, não recebeu os impostos. Desde dezembro de 2005, o município cobra R$ 323,3 mil referentes a dívida de ISSQN da Job RH. Em abril de 2019, a prefeitura entrou com um segundo processo, cobrando R$ 29,6 mil da Job RH, decorrente de multa não paga por descumprir entrega de declarações de ISSQN entre junho de 2012 e maio de 2017.

Similaridade

Débitos fiscais da Job RH com a Fazenda Nacional somam R$ 8,2 milhões. E da Job Segurança e Vigilância, R$ 1,5 milhão. Em razão de dívidas fiscais e trabalhistas, sete imóveis da Job RH e 28 veículos estão indisponíveis, incluindo um Fusion 2014, com 33 restrições judiciais.

O eventual fim das duas Job lembra o método adotado por Alerta e Abrasul, citadas em inquérito civil do Ministério Público do Trabalho (MPT) de 2002. O texto afirma ter havido "inarredável certeza, que, mais do que frente a um grupo econômico, ou a uma sucessão de empregadores, se está ante a um único empreendimento, capitaneado pelo Sr. Luiz Paulo Pereira Prates, o qual conta com o auxílio de familiares, e no qual vêm sendo usadas, ao longo do tempo, razões sociais diversas, como escudo para sonegação, dentre outros, de direitos trabalhistas".

Em 2015, o sócio majoritário das Job, Ronaldo Pinheiro Prates, filho de Luiz Paulo, foi processado por apresentar ao Ministério do Trabalho recibos adulterados de pagamentos a empregados que trabalharam como recepcionistas em evento da Festa da Uva, em 2012. O caso resultou em condenação de um ano de prisão, cumprida como prestação de serviço.

Ronaldo é acusado de fraude em licitações investigada na Operação Purgato, do Ministério Público, que resultou em prisão temporária por cinco dias, em 2015. Desde 2017, responde a processo na 11ª Vara Criminal do Fórum Central de Porto Alegre.

Em desdobramento dessa operação, em julho passado, a 5ª Vara da Fazenda Pública, atendendo a pedido da Promotoria de Combate aos Crimes Licitatórios, do MP, determinou a interditação parcial das atividades das duas Job e outras 15 empresas e as proibiu de assinar novos contratos com entes públicos. As empresas tiveram bens bloqueados para garantir ressarcimento de valores cobrados a mais em contratos, estimados pelo MP em R$ 6,6 milhões. Os bens de Ronaldo estão indisponíveis.

09 DE NOVEMBRO DE 2019
NOVO CENÁRIO

Decisão irresponsável do STF lança o país às chamas

Coisas muito ruins podem ocorrer com o Brasil devido à irresponsável decisão do STF em relação à prisão em segunda instância e à consequente libertação de Lula.

Muito ruins.

Não que Lula possa ser eleito presidente da República. Não será. Em primeiro lugar, porque está barrado pela Lei da Ficha Limpa. Mas, ainda que o temerário STF anule suas condenações, o que é uma possibilidade, Lula não será eleito porque nunca mais conseguirá amealhar a maioria dos votos da sociedade.

Lula perdeu a classe média, e foi a classe média que o arrastou para o poder, em 2002. Verdade que, em 2006, já havia o fenômeno do lulismo a sustentá-lo, tornando-o maior até do que o PT, mas todos os lulistas reunidos, mais os votos dos simpatizantes, só seriam capazes de conduzi-lo até o segundo turno. Depois, qualquer outro candidato o derrotaria.

A libertação de Lula, portanto, não chega a fazer diferença eleitoral. Não diretamente. O que vai acontecer, com absoluta certeza, é o acirramento dos ânimos da população. Se os brasileiros estavam divididos, agora entrarão em conflito.

O comportamento habitual de Lula e dos lulistas já é uma garantia de que o confronto explodirá. Lula e os lulistas são naturalmente provocadores, eles sairão às ruas para se manifestar, farão carreatas e comícios e poderão encontrar resistência. Porque a direita mudou, no Brasil. Antes, a direita era envergonhada, tinha pudores de se mostrar. Hoje, não. Hoje, a direita, mais até do que a esquerda, anseia pelo choque.

Quais serão os limites da irritação? Até que ponto pode se estender a cólera? Haverá violência? Isso é impossível de se estabelecer. O fato é que um dos poderes da República, o Judiciário, por meio de seu órgão mais elevado, o STF, tornou inflamável uma nação que já era instável. O Brasil precisa de ponderação, o Brasil precisa de paz, o Brasil precisa se acomodar para voltar a crescer, e o STF jogou os brasileiros em um ambiente de guerra.

"Que Deus tenha misericórdia deste país", pediu, certo dia, Eduardo Cunha, da tribuna do Congresso. Deus, talvez, pudesse ter. O STF, não.

 DAVID COIMBRA


09 DE NOVEMBRO DE 2019
INFORME ESPECIAL

Terra de Gigantes

Humberto Gessinger estava grudado no celular, reclinado na cadeira da espécie de antessala aberta e contígua ao estúdio. Era quarta-feira e o Jornal do Almoço começaria em alguns minutos. A mesma cabeleira dos tempos da TVCOM, quando conversávamos de vez em quando no Estúdio 36. Os Engenheiros do Hawaii ainda tocavam pelos palcos do Brasil, e eu era um apresentador esforçado, que tentava disfarçar o encantamento de entrevistar pessoas que admirava. Gessinger era - e é - uma delas. Transformar tanta lucidez em poesia e tudo em canção, sendo um cara como a gente, faz dele um cara melhor que a gente.

Então, quando vi o Gessinger antes do Jornal do Almoço, me deu vontade de saber o que ele pensa de tudo isso que aí está. "Cara, quero te ouvir uma hora dessas", foi o que eu disse. Ele entendeu na hora. Deu um quase suspiro simpático e respondeu: "Ando com preguiça de ser sincero".

Me iluminei com o facho porque a frase traduz exatamente o espírito do agora. Não um espírito hegemônico, mas peculiar a uma tribo ameaçada de extinção: os ponderados. Esses, quando sacam que a sua verdade já faz pouca diferença, são um farol da luz que resta. Então eu disse, rindo, mas falando a minha verdade: "Isso dá uma música: preguiça de ser sincero". Gessinger mal esperou eu terminar e também sorriu: "Música instrumental".

No ar, perguntei de onde, em 2019, vem a inspiração. A resposta foi outra que me encontrou em cheio: "Hoje, fugir da informação talvez até faça melhor para quem quer criar".

Fiquei com vontade de dar um abraço nele, mas não dei porque o programa iria em frente, as trocas de câmera e de temas não esperam pelos afetos. Mais tarde, no carro, fui ouvindo, a todo volume: "Mas agora, lá fora, todo mundo é uma ilha, a milhas, e milhas, e milhas de qualquer lugar."

Mérito ao quadrado

A direção do Internacional, de forma inédita no futebol brasileiro, prometeu não botar panos quentes nas investigações sobre a quadrilha que, de acordo com o MP, saqueou o Beira-Rio.

O novo Salão de Atos da PUC, inaugurado durante a semana, é um presente para Porto Alegre.

A Universidade Feevale está entre as instituições privadas e comunitárias com maior representatividade de mulheres no seu quadro de professores. Os dados foram divulgados pelo Censo da Educação Superior de 2018, realizado pelo Ministério da Educação.

A proposta da deputada Luciana Genro (PSOL) que proíbe fogos de artifício com ruído no RS agora é a lei número 15.366. O governador Eduardo Leite sancionou na terça-feira o projeto. O prazo para a regulamentação da lei é de 90 dias.

TULIO MILMAN

sábado, 2 de novembro de 2019



02 DE NOVEMBRO DE 2019

LYA LUFT

Alemão

Quando esta coluna aparecer, será dia de Finados. Dia em que, há dois anos, a Senhora Morte levou um de meus filhos, André, o nosso Alemão. Toda a família aturdida, alguns, como eu, nem sempre acreditando nessa morte de alguém tão amoroso e tão amado. Sem muita vontade de escrever a não ser sobre isso, aqui vai o que consigo partilhar com meu leitor. Começo com esse depoimento de uma colega de Agronomia dele, Sabrina, que não conheço, mas a quem muito agradeço o texto comovido.

“Alemão. Nada naquele rapaz fazia sentido: seu tamanho, sua beleza, ou ser filho de uma conhecida intelectual. Muito menos estar cursando Agronomia. Chamavam-no Alemão. Quando me contaram que era filho da Lya Luft, eu olhei descrente. O cara era um gigante, os olhos dele dois faróis acesos. E passavam uma inquietação, ele vivia se mexendo, não cabia direito na cadeira.

Ficamos no mesmo grupo de estudo em entomologia. Acho que foi a única cadeira da faculdade que fiz com ele. Depois de formados, a gente fica sabendo o que foi feito da vida de cada colega.

Reencontrei o Luft no Facebook, e vi que ele ganhou o mundo. Estava trabalhando em outro continente, fazendo um trabalho maravilhoso ao lado de sua mulher. Quando a gente conhece a realidade rural, e o universo das empresas internacionais, e tudo o que envolve o nosso trabalho de agrônomo(a), e sabe de um colega envolvido em um trabalho tão completo como o do Luft, vem um sentimento de profunda admiração.

Quando eu soube que o Luft tinha partido, pensei em reencarnação, pois muitas pessoas em várias encarnações não irão viver a bela vida que meu colega viveu. Poucas pessoas terão a dimensão do Engenheiro Agrônomo Luft. Perder pessoas que a gente admira é triste, mas agradecemos por tê-las conhecido.”

Ninguém pode dizer que jamais teve a sensação: “Agora, acabou; nada faz sentido”. Ou: “Não vou aguentar”. No entanto, me ensinou a vida, mesmo quando estamos numa UTI emocional, um dia conseguimos levantar: somos liberados dos aparelhos que nos mantinham vivos, apoiados pelas pessoas que nos ajudam, chegamos até a porta... somos transferidos para um quarto.

Dali podemos espiar o corredor, andar por ele apoiados em alguém ou de bengala, e respiramos quase normalmente. A pedra pesada e escura no meu peito aliviou. Um pouco. Mais um pouco. Talvez eu nunca me livre dela inteiramente, mas estou aprendendo a lidar com ela. (Certamente é o que aquele que partiu desejaria.)

Nos reconstruímos, de um jeito ou de outro.

Descobrimos ou redescobrimos o valor dos afetos, família, amigos, as coisas simples, aquela voz no telefone, aquele e-mail ou Whats, aquele passo no corredor, aquele gesto afetuoso ou um simples olhar de cumplicidade. Tudo isso nos faz de novo viver.

A fênix incansável ajeita as penas chamuscadas, olha em torno, abre as asas, tenta seu voo, escreve sua coluna de jornal... e entende que a morte não vence o amor.

LYA LUFT

02 DE NOVEMBRO DE 2019
MARTHA MEDEIROS

Boa, Lisboa


Em 2014, quando estive em Lisboa pela última vez, dava até medo de caminhar pela Prata, Augusta e Áurea, as três avenidas paralelas que desembocam na Praça do Comércio. A região conhecida como Baixa era ocupada por lojas decadentes e alguns pedestres arrastando os pés. Quisesse conhecer o lado mais vívido da cidade, o turista deveria perambular pelo Chiado e a Alfama, ainda assim sem criar expectativas: "vívido" nunca foi o melhor adjetivo para classificar a capital portuguesa, mais facilmente identificada por sua melancolia.

Cinco anos atrás é pré-história. Lisboa acordou, e está com saudade nenhuma da antiga sonolência.

Outubro de 2019. Fiquei hospedada exatamente na Baixa, onde agora multiplicam-se bistrôs com mesas na calçada, butiques, cafés, artistas de rua, turistas escandinavos, orientais e muitos, muitos brasileiros - residentes, em sua maioria. Seria exagero dizer que Lisboa hoje é uma cidade que não dorme: ferra no sono. Mas agora em horário de gente grande.

Há restaurantes moderninhos de montão (como o JNcQuoi e o 100 Maneiras), mas bom mesmo é sentir os aromas e sabores tradicionais, sendo o Maria Catita um bom representante da turma, na Rua dos Bacalhoeiros. As casas de fado convivem com um exército de pubs, cevicherias e rooftops - o programa é escolher um vinho do Alentejo e reverenciar o pôr do sol escutando o som de algum DJ. A tristeza, produto tipicamente lusitano, agora só nos versos de Fernando Pessoa.

A arquitetura, sabiamente, continua preservada, não há nenhum monstrengo de 20 andares ocultando a vista do Tejo ou sepultando os casarios coloniais que embelezam a capital portuguesa. As calçadas seguem lindas e escorregadias, as igrejas ladeadas por buganvílias: o bom senso e o bom gosto continuam de mãos dadas. Para quem quer modernidade extrema, a poucos minutos de carro está o Parque das Nações, uma área construída há apenas duas décadas, onde os admiradores de Dubai podem se esbaldar com o design futurista. Uma visita ao Oceanário é obrigatória, leve uma criança se precisar de álibi.

O Mercado da Ribeira, revitalizado, está com uma atmosfera ótima para tragos e tapas. O bar Pensão do Amor é um achado: fica num antigo prostíbulo da Rua do Alecrim. E as livrarias continuam ao pé da rua, como a menor livraria do mundo (nas Escadinhas de São Cristóvão), a Ler Devagar na XL Factory, a tradicional Bertrand no Chiado, a moderna Travessa no bairro Príncipe Real e o sebo Deja Lu, em Cascais, dentro da fortaleza. Livros são mais importantes do que pastéis de nata.

Segurança, emprego, cabeças arejadas, investimento em cultura e no turismo. Este é o socialismo português, que acaba de eleger o parlamento mais feminino da história, com 89 mulheres, sendo três negras de origem africana. Despertar é preciso. Enquanto isso, tendo Trump como modelo, salve, salve o Brazil com zzzzzzz.

MARTHA MEDEIROS


02 DE NOVEMBRO DE 2019

CARPINEJAR

Segurando o amor pelos dentes

Eu sei de onde tenho a sensação de que sempre chego atrasado para o que desejo.

Dos botecos de estrada do Rio Grande do Sul! Nunca o atendente gaúcho diz que não existe tal comida, ele desconversa. - Tem, mas acabou.

Já espio o prato do freguês sentado no balcão, ao meu lado, para conferir se não está se deliciando com a última porção da iguaria que recém solicitei. Alimento uma raiva desse eufemismo. Melhor avisar simplesmente que não tem, ponto, assim não sofro com a ilusão. Para que jogar na minha cara faminta que acabou? Nunca descobrirei se é verdade ou mentira. Na dúvida, fico com o mal-estar de ter aparecido cinco minutos depois.

O que mais anseio em minhas andanças profissionais é competir com o meu pai pelo pastel perfeito e pela torrada insuperável. O pastel tem que ser do tamanho de um ofício A-4, com recheio até a metade, e uma rodela de ovo com o relevo aparecendo na massa crocante.

A torrada precisa contar com salaminho fino, queijo de colônia e pão feito em casa. Dourada como a primeira luz da manhã, evaporando uma leve e perfumada camada de manteiga.

São os nossos pré-requisitos. Paro em tudo o que é muquifo para revelar ao mundo algum talento desconhecido. Demoro três vezes mais para alcançar o meu destino.

A aparência não é decisiva - os nossos lugarzinhos prediletos mostram-se simples e desajeitados, caracterizados pela toalha de plástico na mesa, café já adoçado e cadeiras mancas.

É uma obsessão familiar. Realizamos listas dos campeões, cada um tem o seu caderninho com notas e avaliações.

Quanto mais longe e escondido, melhor. Partilhamos um Trip Advisor antes mesmo do surgimento dos aplicativos de cotações.

Como ele é mais velho do que eu, vive me humilhando com roteiros secretos e antigos dentro das cidades. Busco compensar me aventurando em estabelecimentos inaugurados há pouco, que ele nem ainda ouviu falar.

Meu maior prazer, superior a encontrar o pastel e a torrada dos sonhos, é telefonar ao pai para esnobá-lo:

- Achei um local incrível, que você não deve conhecer, mordi o paraíso, nem imagina.

Com gosto sádico, pressinto, nas lacunas, o seu silêncio mastigado, a salivação enchendo a boca, a gula invejosa. Eu maltrato o meu pai, ele me maltrata, nosso amor é feito de torturas e de vinganças, mas seguramos a vida um do outro pelos dentes.

CARPINEJAR


02 DE NOVEMBRO DE 2019

LEANDRO KARNAL

A DOR MAIS FUNDA

HOUVE UM AUMENTO DO RESSENTIMENTO? APARENTEMENTE SIM. REDES SOCIAIS TALVEZ TENHAM TRAZIDO UMA PROPAGANDA DE SUCESSO E FELICIDADE QUE ENVENENAM O RESSENTIDO.

Há dois sentimentos feios que envergonham o portador. Um é a inveja; o outro, o ressentimento. A inveja, já disse muitas vezes, é a tristeza pela alegria alheia. Não pode ser confundida com a simples cobiça. O invejoso não deseja o que o outro tem, apenas se contorce internamente ao ver que o prazer alheio é intenso. Não há inveja positiva, ela é sempre um fracasso.

O ressentimento é parente próximo da inveja. Ambos parecem inconfessáveis. Em um patamar inicial, é a mágoa guardada e macerada em vinagres internos. O ressentido não supera a fala, o gesto ou a dor. Guarda-a com certo zelo.

Buscando raízes em Nietzsche, Maria Rita Kehl (Ressentimento, ed. Casa do Psicólogo) diz que pode existir um cultivo da dor ressentida que encontra no Outro uma forma de dialogar com seu narciso abalado. Culpa-se o vencedor em algum campo e eu, atingido de forma direta ou indireta, viro um derrotado-vítima. Não pode ser confundido, prossegue a autora, com qualquer mágoa ou raiva. Eu poderia imaginar, fugindo do rigor técnico, que tristeza é diferente de depressão. A tristeza tem causa e duração. A depressão é mais longa e nem sempre parte de um gatilho concreto. O ressentido é o depressivo. Porém, se a depressão é doença e dolorosa, o ressentido cultiva com certo prazer a injustiça que o coloca no patamar da vitimização.

Ressentidos são ambidestros. O de esquerda entende que todo sucesso material foi obtido à custa do seu próprio. Seu apartamento de 200 metros quadrados só pode existir porque oito famílias estão confinadas em moradias de 25 metros quadrados. É uma leitura mercantilista de riqueza: o montante de tudo é fixo e, para um alguém ter muito, outros precisam ter menos. Existem injustiças sociais? Com certeza.

Poderíamos trabalhar por uma sociedade que contivesse menos disparidades e que todos tivessem mais acesso ao essencial? Absolutamente válido. O ressentido de esquerda não faz sempre o caminho da equidade, faz o da dor que costura inveja com a ferida narcísica que tira seu sono. Incomoda mais que o outro tenha do que ele não tenha. Suspeita que pode ser sua incompetência e deseja substituir o controle de um grupo explorador pelo seu. Com frequência o ânimo revolucionário de esquerda gera tiranos despóticos porque estava embasado na dor do poder e riqueza alheios. Stálin teve mais poder e matou mais gente do que o czar que ele odiava. Sempre reafirmando: justiça social não pode ser calcada em ressentimento.

Falei que ressentimento tinha dois vetores. O de direita é muito comum. Acusa a esquerda de dominar a cultura sem nunca ter tentado, vagamente, utilizar o caminho de livros, shows ou do teatro. Atribui ao financiamento público a existência de bolhas culturais esquerdizantes e jamais elabora uma cultura forte e alternativa aos discursos que imagina dominantes.

Apesar das evidências fortes, óbvias e abundantes da corrupção entre empresários e políticos conservadores, identifica apenas no outro, na alteridade da esquerda, todo o mal. Separa-se habitualmente da esposa por mulheres cada vez mais novas e berra pelos valores familiares que estariam em perigo graças ao comunismo. Na base histórica, o ressentido conservador é o velho fariseu do Evangelho: aparência de virtude e uma vontade imensa de controlar o outro pela teatralidade da sua benevolência positiva.

Volto a dizer: existe uma boa luta pela justiça social, e ser conservador é uma posição política e pessoal válida. Esquerda e direita não são ilegais nem contrárias à ética. A democracia ganha com a diversidade. Estou falando do ressentimento universal. Um dos dois parágrafos anteriores fez com que você se irritasse? Temos um bom ponto de partida para o tema do meu texto. O que me perturba me revela.

Houve um aumento do ressentimento? Aparentemente sim. Redes sociais talvez tenham trazido uma propaganda de sucesso e felicidade que envenenam o ressentido. Maria Rita Kehl fala de um "apego ao dano" e eu imagino que ele possa ser reforçado navegando pela vida fabulosa dos outros. Também existe a crença nova de que a felicidade absoluta é o destino de todos nós e um direito adquirido pelo simples fato de eu existir.

O fato de existir gente mais bonita, mais inteligente, mais focada, mais eficaz, com famílias melhores, carros mais luxuosos provoca o ressentido. Tudo foi tirado dele. A argila da inveja se compacta com o ácido do ressentimento e a casa da dor vai sendo erigida a cada novo clique. É, como foi dito, uma morada dolorida, todavia confortável. Exclui minha responsabilidade e invoca a clássica má-fé sartreana: não fui eu, foi o outro, a culpa é alheia, eu fui forçado, o outro é livre.

O ressentimento é universal e algo muito importante para ser analisado. Tem uma estética e uma tradição literária. Entre outros, Maria Rita Kehl lembra da peça Ricardo III (Shakespeare) e de São Bernardo (Graciliano Ramos). Na primeira, um ressentido consciente age para se vingar do mundo. Na segunda, é a mulher alvo do ressentimento, Madalena, que toma a iniciativa de uma vingança. Apesar de forte na literatura, a política é o campo por excelência do ressentimento. Bons candidatos sempre souberam explorar o ressentimento do eleitor.

O paternalismo político, marca da nossa história de cinco séculos, é a chave disso. "O ressentimento é o terreno dos afetos reativos, da vingança imaginária e adiada, da memória que só serve à manutenção de uma queixa repetitiva e estéril", como encerra Maria Rita Kehl. A impotência crônica do ressentido é uma dor funda cáustica que ataca o fundamento democrático. É preciso ter esperança, muita, e lutar contra nossos ressentimentos.