sábado, 16 de novembro de 2019



16 DE NOVEMBRO DE 2019
MÔNICA SALGADO

Casa de vó

Só tem um lugar no mundo mais delicioso do que nossa própria casa: casa de vó. Nossa própria casa pode até saber de quem somos hoje, mas casa de vó sabe de quem fomos ontem, e nós sabemos que o hoje não seria o hoje sem o ontem. Sem aquele tombo que me rendeu uma "janelinha" de anos na boca, sem aquele Natal em que descobri que o tio Paulo era o Papai Noel, sem aquela gemada com vinho do Porto, aquele primo distante que foi o primeiro amor, aquele "meinho" quentinho e protetor da cama, entre a vó e o vô, o clima festivo e permissivo que (viva a redundância!) permitia que a gente fizesse quase tudo... Sem todas as anteriores, como eu poderia ser esta que vos escreve?

Tenho sorte: tive quatro avós maravilhosos. Nino e Nice do lado paterno. João e Neide do materno. Presentes, importantes, aconchegantes, dínamos de amor. Tenho muita sorte: vovó Neide segue aqui neste plano, 91 anos, saúde boa apesar do Alzheimer que lamentavelmente a retirou de algumas atividades corriqueiras. 

A avó mais avó que se pode imaginar. Me ensinou a cozinhar (eu só quis aprender os doces), a tricotar (produzi toscos, porém bem-intencionados, cachecóis para a família), a servir (a ironia disso tudo é que ela é a única que está entre nós, como se vivendo sua merecedora fase de ser servida por todos aqueles a quem se doou). Mais do que tudo: vovó Neide me ensinou, do seu jeitinho, a ver poesia em todas as lições acima. Poesia no café com leite vespertino pro vovô, no frango assado pra família aos domingos, no arroz de amêndoas de tantos Natais... Ela cuidava sobretudo cozinhando. Era o seu "eu te amo".

Vó Neide viveu uma vida à moda antiga. Não se rebelou contra o status quo. Não foi exatamente visionária. Não lutou contra as convenções. Seu valor maior está naquilo que é, na sua essência que traz paz, no seu colo morninho e macio, no seu cheiro suave de canela, nos dedos gordinhos que fazem carinho. Na sua casa que é, para nós, templo.

E ela mora, até hoje, no mesmo lugar. A casa da vó Neide é um Xangri-lá. Tem aroma de especiarias, temperatura amena (25º C, curiosamente não importando a estação do ano), o conforto emocional dos móveis no mesmo lugar de sempre, a história da família nos porta-retratos, os vizinhos que nos viram crescer.

Por ali, coisas mágicas acontecem. O sofá, por exemplo, tem sonífero. Sentou, deitou, dormiu. O tempo passa mais devagar. Os sapatos se recusam a ficar nos pés. A água do velho filtro de barro bateria qualquer Evian da vida. Na cristaleira, sua famosa coleção de "bibelôs" se mantém estranhamente intacta, imune a quatro bisnetos bisbilhoteiros que já até armaram por ali uma partida de pebolim - fazendo de jogadores peças de presépios antigos, galinhas d?Angola compradas em Porto de Galinhas e objetos de murano adquiridos naquele cruzeiro pela Itália com o vovô. Milagre: nenhuma baixa entre os bibelôs! E não conto nem sob tortura de qual bisneto estou falando, cof, cof. cof.

Tem mágica, muita mágica. Mas também uma tristeza ou outra. Nem Xangri-lá escapa dos ciclos da vida. De uns anos pra cá, as especialidades gastronômicas da Dona Neide foram ganhando ora muito sal, ora nenhum açúcar, às vezes forno demais, às vezes forno de menos. Maldito Alzheimer. No início, fingíamos que nada notávamos. "Que delícia, vó, a senhora cada vez melhor, hein?". Porém, o perigo iminente a que ela estava exposta bem ali, no seu cômodo preferido da casa, nos fez abrir os olhos. Detalhe: vovó jura que prepara todos os almoços em família e fica ofendida quando encomendamos fora a ceia de Natal. Bendito Alzheimer.

Na garagem/quintal, os brinquedos que já foram dos netos se misturam aos dos bisnetos. Relíquias como um Pogobol autêntico já foram encontradas onde antes ficava o Escort azul. Carro já não se faz necessário. Melhor que o portão sirva de gol pros meninos jogarem. Desde que eles não quebrem o vidro, né, vó? O quê? Quebraram de novo? Não, vó, a senhora confundiu. Já consertamos, está tudo perfeito. Agora descansa. Quer um chazinho de camomila pra chamar o sono? Não saio daqui até a senhora adormecer. Te amo, vó. Mãe, qual é mesmo o contato do vidraceiro? Zzzzz....

MÔNICA SALGADO

16 DE NOVEMBRO DE 2019
CARPINEJAR

Toda a vida

Sempre que preciso justificar uma compra cara, busco na memória o que a minha mãe falava para calar a desconfiança de meu pai:

- Mas vai durar toda a vida. É a melhor desculpa para o consumismo, para assinalar que fez um excelente negócio, para espantar questionamentos secundários.

Não há como derrubar a alegação de que se arrebatou um aparelho eterno ou uma roupa imortal. Assim como ninguém vai ficar fiscalizando no armário ou no cabide a duração do objeto e da peça. Por mais que desfie ou estrague, as pessoas já terão esquecido a cobrança.

Justificar o valor pela longevidade é a saída para vencer a resistência e a acareação sobre os gastos excessivos no cartão de crédito. Dizer que é lindo ou que é único ou que é de um estilista famoso ou que nos serviu bem nunca acalma os ânimos de nossa família zelosa pelo orçamento doméstico.

Enfrentei um longo processo para incorporar a panaceia dessa explicação. Não desejava plagiar a minha mãe, mas não teve jeito.

Antes eu chegava em casa com um mundaréu de sacolas, despertando a inveja e o olho gordo de quem estava na frente da televisão. Era aparecer com as mãos ocupadas que filhos e esposa me rodeavam para saber se havia presentes. "Presentes para mim", retrucava, e perdia imediatamente o apoio e a linha de crédito. Argumentava que não devia ser confundido com uma criança inconsequente, que desfrutava de consciência dos meus limites, que partiu de meu salário e que merecia gastá-lo com o que eu quisesse, longe do constrangimento de prestar contas. Só recebia a fama de egoísta.

Depois, passei a guardar as aquisições em minha mochila, para não chamar atenção no momento de abrir a porta. A discrição funcionava até estrear os mimos: "Não conhecia isso, andou comprando?"

A resposta milagrosa também me salvou além do comércio, quando pedi a mão de Beatriz em casamento ao sogro.

Não aguentava mais a maratona de perguntas sobre os meus projetos, a minha atividade e as minhas reais intenções. Suava frio, emparedado num beco: como convencer um advogado que poeta tem estabilidade financeira?

Foi quando, sem controlar mesmo, soltei a pérola: - Mas vai durar toda a vida. Ele não resistiu, e acho que se conformou comigo.

CARPINEJAR


16 DE NOVEMBRO DE 2019
DRAUZIO VARELLA

FUTEBOL E NEURÔNIOS

PESQUISADORES ESCOCESES COMPARARAM OS ÍNDICES DE MORTALIDADE DE 7.676 EX-JOGADORES PROFISSIONAIS COM OS DE UMA POPULAÇÃO MASCULINA

Praticar esporte faz bem à saúde, mas bater a cabeça traz problemas. Na década de 1990, foi publicado o primeiro estudo a mostrar que atletas profissionais de futebol americano, que haviam jogado pelo menos cinco anos, apresentavam índices mais baixos de mortalidade do que homens da mesma faixa etária, na população geral.

A mortalidade por doenças neurodegenerativas, no entanto, era 3,2 vezes mais alta. Os riscos de morrer por Alzheimer ou por esclerose lateral amiotrófica (ELA) - doença que causa paralisia progressiva dos músculos - praticamente quadruplicavam.

Apesar da relevância desses achados, houve poucas pesquisas até a última década, quando surgiram casos de ex-profissionais com quadros de disfunção cognitiva grave e atrofia cerebral, classificados como "encefalopatia traumática crônica".

Resultante de concussões repetitivas e assintomáticas na prática de esportes de contato, esse transtorno se instala no decorrer de décadas, levando ao comprometimento da função mental, depressão e dificuldades motoras, como a falta de equilíbrio. Nas situações mais dramáticas, há aumento do número de suicídios.

O risco de encefalopatia traumática é maior nos jogadores de futebol americano escalados para as posições que os obrigam a correr com mais velocidade e a se chocar com maior impacto, contra os adversários.

Agora, acaba de ser publicado na prestigiosa The New England Journal of Medicine, um estudo realizado, desta vez, com atletas profissionais do futebol que praticamos.

Pesquisadores escoceses compararam os índices de mortalidade de 7.676 ex-jogadores profissionais de futebol com os de uma população de 23.028 homens, numa pesquisa patrocinada pela Football Association and Professional Footballers? Association, da Escócia.

Depois de 18 anos de observação, foram contados 1.180 óbitos entre os ex-jogadores e 3.807 no grupo-controle.

Até os 70 anos de idade, a mortalidade por todas as causas reunidas foi mais baixa nos ex-jogadores, provável reflexo da redução da prevalência da obesidade e do fumo, entre eles. Daí em diante, houve inversão: a mortalidade do grupo-controle se tornou mais baixa.

Mortes por infarto do miocárdio e câncer de pulmão foram menos frequentes entre os ex-jogadores, mas a mortalidade por doenças neurodegenerativas mais do que triplicou (1,7% contra 0,5%).

Os ex-futebolistas profissionais receberam cinco vezes mais medicações para tratamento de demências do que os participantes do grupo-controle. O índice de mortalidade por neurodegenerações em goleiros não foi mais baixo do que entre os demais defensores e os atacantes, posições mais sujeitas a choques e cabeçadas.

Encefalopatias traumáticas crônicas já foram descritas em boxeadores e praticantes de diversas modalidades esportivas que envolvem contato e pancadas na cabeça. O trabalho conduzido com futebolistas profissionais na Escócia confirmou os achados de outros estudos que encontraram mortalidade geral mais baixa em ex-atletas, porém maior prevalência de mortes por Alzheimer, ELA e encefalopatias traumáticas.

Em algumas séries de autópsias realizadas em profissionais de futebol e de rúgbi, alterações patológicas consistentes com esse tipo de encefalopatia foram diagnosticadas em 75% dos ex-jogadores, mas a relação desses achados com a instalação de quadros demenciais não está clara.

Calcula-se que um jogador profissional cabeceie a bola de seis a 12 vezes por partida, eventos que somados aos dos treinamentos podem chegar a mais de mil durante a carreira. Há evidências de que choques repetidos da bola de futebol contra a cabeça podem modificar a bioquímica cerebral, interferir com a integridade da substância branca e a espessura da substância cinzenta, camada encarregada das funções nobres que nos diferenciam dos outros animais.

Futebol é o esporte mais popular do mundo, praticado em mais de 200 países por centenas de milhões de pessoas que se beneficiam da redução do risco de doenças cardiovasculares e câncer, duas das principais causas de morte. Não há demonstração de que a prática amadora tenha repercussões neurológicas.

As conclusões do estudo escocês não valem para mulheres nem para boleiros de fim de semana. Não existe motivo para preocupação dos pais: as atividades esportivas - inclusive a do futebol - devem ser incentivadas, por causa dos inúmeros benefícios à saúde.

DRAUZIO VARELLA

16 DE NOVEMBRO DE 2019
BEM-ESTAR

QUERER E NÃO QUERER


Dias atrás, depois de uma palestra, conversei com um grupo de estudantes sobre escolhas. A preocupação deles é não saber ainda com clareza o que querem e nem pra onde se direcionar. E, ao mesmo tempo, ter que lidar com tantas pressões e obrigações que a sociedade vai nos impondo no caminho.

Muitos não se sentem bem com as opções que se apresentam, e a insegurança aumenta.

A gente não precisa, logo de cara, saber o que quer. Aliás, essa é uma grande tarefa para a vida toda. A cada minuto a gente tem de fazer escolhas e em cada momento de transição parece que a liberdade da gente fica por um fio.

Mas liberdade não significa necessariamente saber o que a gente quer. Ser livre não implica ter descoberto todos os desejos. A gente vai conquistando a liberdade a cada passo, mesmo sem saber pra onde se vai, e é fundamental não sermos obrigados a seguir direções que não queremos de jeito nenhum.

Liberdade significa não aceitar caminhos impostos, padrões impostos, rótulos, papéis, comportamentos e regras com as quais não nos identificamos. Não ser o que não nos traduz.

Começar sabendo o que a gente não quer e sacando o que a gente não é, já tira da frente um monte de coisa que não nos interessa. E vai facilitando as nossas escolhas.

Uma boa parte da felicidade resulta dessa liberdade de poder fazer o que se gosta e de gostar do que se faz. De poder descobrir quem a gente é e trabalhar para se tornar essa pessoa.

Essa é uma escolha primordial e uma maneira da gente se orientar na vida.

Em qualquer situação, temos essa possibilidade, independentemente das circunstâncias em que vivemos.

Alguns podem alegar que isso é um privilégio, mas é preciso compreender que isso é simplesmente uma perspectiva, um jeito de olhar a vida, seja sua vida qual for.

O poeta português José Régio, em seu maravilhoso Cântico Negro, diz:

"Não sei por onde vou.  Não sei para onde vou

Sei que não vou por aí."

Esse poema traz a rebeldia de não aceitar a direção que nos obrigam a ir, de não deixar que nos transformem naquilo que não queremos ser.

Somos todos interdependentes e nossas vidas são conectadas. Mesmo assim, não precisamos nos tornar aquilo que os outros querem que a gente seja, se essa não for a nossa verdade.

Temos que resistir a ser empurrados para um caminho que não queremos ir, temos que respeitar o que somos e sentimos para poder achar a nossa felicidade.

Nossa missão é essa, encontrar isso tudo: decifrar o que somos e queremos, nossas emoções, crenças, desejos, vontades, nossas loucuras, nossos medos, toda a complexa teia de sensações que nos envolve.

Seguimos caminhos difíceis, vamos errando, nos enrolando, complicando, porque é assim mesmo que vamos descobrir aos poucos nossa verdadeira identidade.

A gente embarca numa jornada mesmo sem ter ainda uma ideia do nosso rumo. Se joga sem ter noção de onde isso nos leva.

Mas quando a gente sabe o que não quer, fica mais simples encontrar tudo o que somos e podemos ser.

Lembrando o verso de Antonio Machado que resume isso: "Caminhante não há caminho, se faz caminho ao andar?".

Bruna Lombardi escreve a cada 15 dias neste espaço. Na próxima semana, leia a coluna de Monja Coen.

BRUNA LOMBARDI


16 DE NOVEMBRO DE 2019
JJ CAMARGO

A DESCONFIANÇA

SE A QUESTÃO FOR DINHEIRO, É BOM FICAR DE OLHO, BEM ABERTO, PARA QUEM NOS CONHECE MAIS, POIS ESSES SABEM, COMO NINGUÉM, NOS FAZER SOFRER

Se considerarmos que somos jogados no mundo, sem nenhuma noção de que inimigos vamos enfrentar nem de que armas precisaremos, a vida será sempre um exercício assustador de tentativa e erro.

E como desembarcamos sem um manual de instruções para cada situação, interagindo com pessoas sempre tão diferentes, não há a possibilidade de que se estabeleça uma estratégia de defesa, e fica muito claro que o máximo que podemos fazer é tentar não repetir os erros, na expectativa generosa de que a maturidade nos encontre sábios e serenos.

Uma fantasia precoce na vida moderna é de que seria muito bom se tivéssemos alguém com quem compartilhar nossas dúvidas ou, idealmente, alguém para copiar. Sem ombros e sem modelos, nosso viver assume ares de um videogame em que estamos eternamente tentando desviar de inimigos impiedosos e traiçoeiros, as vezes reais, em outras imaginários.

Sem airbags emocionais confiáveis, saímos de casa todos os dias, de peito aberto ao que o mundo ofereça, de melhor ou pior, e sem aviso prévio.

Os otimistas considerarão que este é o lado mais excitante da vida, enquanto os pessimistas se consagrarão ao verem que tudo o que previram como desastre desastrou.

O nosso "modelo de fábrica" original traz a desconfiança como único e precário recurso de proteção, e, sem saber como utilizá-la, incorremos com frequência no exagero de desconfiar de todos, e é certo que não precisamos chegar a esse extremo, porque não é tão raro assim que encontremos pessoas genuinamente boas.

É certo que, se confiarmos muito, algumas vezes nos quebraremos, mas os que desconfiam sempre se tornam amargos pela escassez de reciprocidade de afeto, e essa é matriz da mesquinhez.

Quem tem tempo de ouvir as histórias ricas que brotam nos ambulatórios pobres descobre formas ainda mais deprimentes de mau-caratismo, como aquele que, sem a barreira da desconfiança, prospera na boa fé.

Conheci a Marialva quando a operei no final dos anos 1990. Na época, ela era classe média, mas morava em casa própria, com o marido aposentado, e tinha um plano de saúde. Recentemente, quase não a reconheci ao entrar na minha sala, trazida pela secretária com o alerta de que precisava muito me ver, mas não era uma consulta.

- Viuvei há quatro anos e, uns tempos depois, minha irmã pediu que acolhesse meu sobrinho que arranjara um emprego na Capital - ela contou. - Sempre oferecido para me ajudar, foi tomando o controle das minhas contas, e no ano passado descobri que ia ser despejada se não vendesse a casa para pagar as dívidas, que nem entendi ainda de onde brotaram. Agora só tenho SUS e moro de favor com uma prima, em troca de cozinhar e limpar a casa. Às vezes penso que foi bom ter ficado sozinha. Se o Anselmo ainda estivesse vivo, eu teria morrido de vergonha dele. Agora estou aqui para ver se o senhor me consegue umas amostras grátis de antibiótico. Qualquer antibiótico!

Desconfiar de quem não conhecemos parece mais ou menos espontâneo, mas se a questão for dinheiro, talvez seja recomendável desconfiar também, e muito, de quem nos conhece mais, pois esses sabem, como ninguém, nos fazer sofrer.

JJ CAMARGO

16 DE NOVEMBRO DE 2019
DAVID COIMBRA

O grito de pizza

As bancas do centro de Novo Hamburgo estão renovadas e resplandecentes, contou-me o Beto Nielsen. Fiquei feliz.

O Beto Nielsen é jornalista. Trabalhamos juntos no NH quando o editor-chefe era o Emanuel Mattos, grande amigo, que já morreu. Na época, o jornal não tinha lancheria, nem cafeteria, nem nada. Então, lá pelo fim da tarde nos assaltava, a todos nós, repórteres e editores, uma fome antiga, como diria o deputado Pinheiro Machado. Por coincidência, mais ou menos nessa hora as luzes da redação eram apagadas por uns 10 segundos para troca de gerador ou coisa que o valha.

Aí, nós gritávamos "pizza".

Sério. Era um grito primevo, ancestral, um grito que vinha da alma, que clamava, também ela, não apenas o estômago, por pizza.

Confesso que fui eu quem começou aquilo. Um dia, as luzes se apagaram e eu, já faminto, aproveitando-me do anonimato da escuridão, gritei bem alto:

- Pizza! Todo mundo riu.

No dia seguinte, repeti: - Pizza!

E os outros ecoaram: - Pizza! Pizza! Pizza!

Tornou-se uma tradição. Sempre que as luzes se apagavam, ou, às vezes, mesmo que não se apagassem, alguém gritava:

- Pizza!

Não era uma reivindicação. Não era um protesto. Era mais uma forma de expressão, praticamente uma manifestação artística:

- PIZZA!!!

Eu era repórter especial. Assim, estava sempre fazendo matéria na rua. Por isso, podia ir às bancas do centro no meio da tarde, e ia a fim de evitar, exatamente, a fome do anoitecer.

Contei a história do meu lanche naquelas banquinhas dia desses, no Timeline Gaúcha. Causou rotunda repercussão a minha história, devido ao cardápio. É que eu pedia o seguinte: uma fatia de pão caseiro de dois dedos de espessura, encimada por uma camada de schmier e outra de nata, tendo sobre elas, dispostas lado a lado, rodelas de salsichão. Para acompanhar, uma caneca generosa de café com leite.

Oh, como era bom!

O café da tarde, já disse e repito, é um hábito civilizatório que nós perdemos miseravelmente.

Havia outra razão para eu gostar tanto daquela composição aparentemente contraditória, schmier, nata e salsichão. É que lembrava do meu avô, o velho sapateiro Walter, que, como bom representante da colônia alemã, adorava misturar doce com salgado nas refeições.

Assim, encostado no balcão de um dos quiosques do centro de Novo Hamburgo, eu desferia uma decidida dentada no pão e me vinha à memória a imagem do meu avô sentado à mesa do jantar, diante de um prato de comida fumegante e aromático. A minha avó, então, fazia aterrissar ao lado dele uma compota de pêssego ou figo em calda que ela mesma havia preparado. O meu avô abria o vidro, metia lá dentro uma colher e colhia o caldo doce, que espalhava sobre o arroz. Eu ficava fascinado, olhando aquilo. Um dia, experimentei. Bem. Não posso dizer que seja o meu prato preferido, mas ruim não é.

Em todo caso, eu mesmo, com minhas próprias mãos, inventei uma iguaria que mistura sabores doces e salgados e, como sou generoso, vou partilhá-la com você. É simples de fazer. Porém, como diria Da Vinci, a máxima simplicidade é a máxima sofisticação.

Vamos lá. Ingredientes:

Bananas

Canela em pó

Manteiga

Queijo gouda

Modo de preparo

1. Arranque do cacho quatro bananas, de preferência já maduras e no entanto ainda douradas, como se apresenta hoje a Jennifer Aniston.

2. Amasse as bananas criteriosamente com um garfo.

3. Coloque a frigideira no fogo e, sobre a superfície da frigideira, um tablete de manteiga do tamanho de uma caixa de fósforos Pinheiro.

4. Quando a manteiga estiver derretida, acrescente a banana. No momento em que ela estiver da cor do chope que é servido no Posto 6 de Copacabana, polvilhe a canela.

5. Em seguida, cubra a banana com finas fatias do queijo gouda e misture docemente, para fazer com que o queijo derreta.

6. Espalhe sem pejo ou economia esse amálgama sobre uma fatia de pão.

7. Coma com café preto.

8. De nada.

Depois de experimentar essa guloseima que lhe dou de presente, faça uma saudação ao meu avô, aos quiosques do centro de Novo Hamburgo e a todo aquele para quem basta uma boa refeição para ser feliz.

DAVID COIMBRA


16 DE NOVEMBRO DE 2019
MÁRIO CORSO

Cão de raça ou vira-lata?

Nem todos que gostam de cachorro gostam de cães de raça. Existe uma tensão entre os cinófilos sobre o tema. Eu sempre me mantive neutro. Gostava das incríveis variações que foram feitas a partir do primeiro lobo domesticado. Através dos criadores, a plasticidade genética mostra toda a sua possibilidade. Dá para acreditar que um mastim e um chihuahua partilham a mesma carta genética?

Mas, quando saímos da estética e paramos para pensar no custo em sofrimento animal do nosso prazer em fabricar raças, o pêndulo vai para o outro lado. Claro, existem feitos maravilhosos, não é qualquer cão que pode ser guia para deficientes visuais. Uma seleção e um trabalho incrível aconteceram nesse e em outros casos.

Minha questão é outra, por exemplo, as pernas curtas dos dachshunds, resultado de uma má-formação na estrutura óssea advinda de cruzamentos endogâmicos. Geralmente na meia-idade, eles têm sérios problemas de coluna. Bem o contrário, em outras raças, o alongamento das pernas pode resultar em displasia coxofemoral precoce.

Ou seja, vale a pena o sofrimento pelo prazer estético de obter uma criatura bizarra? Para termos animais de bolso, que cabem em qualquer apartamento, vale miniaturizar nossos companheiros de planeta para serem bibelôs vivos?

Ainda, você já se perguntou por que cachorro de raça dá muito mais veterinário do que o vira-lata? Porque o outro lado dos cruzamentos consanguíneos é aumentar as chances das doenças recessivas, que todos os animais portam, mas o acaso genético dissolve.

Quem compra cachorros de raça raramente sabe que pode estar comprando a fixação de uma deformação genética. Alguns animais só existem pela teimosia dos criadores e são inviáveis para a vida sem cuidados veterinários. Na juventude já começam os problemas, como se fossem precocemente velhos, são cardiopatas, respiram mal, possuem incontáveis problemas de pele, otites crônicas, corrimento lacrimal persistente, epilepsia, diabete, torção estomacal, enfim, a lista é longa... Você não compra um cão, e sim um mico. É cara para todos a ideia de parecer chique que o cachorro de raça supostamente emprestaria.

Não vamos generalizar, existem raças que foram planejadas por aptidões específicas, como as que trabalham no campo ao lado do homem, por exemplo, que levam uma boa vida e não perderam a necessária rusticidade natural. Minha crítica endereça-se às raças de cães de companhia.

Quando for a vez do próximo mascote, pense no bem-estar do seu amigo peludo, e em seu bolso, que vai alimentar a cadeia de cuidados que ele vai exigir. Reflita se não vale mais a pena adotar um cãozinho que teve a sorte de receber genes misturados, portanto mais chance de estar longe da nossa brincadeira de ser Deus e editar a vida.

MÁRIO CORSO


16 DE NOVEMBRO DE 2019
TE MOSTRA RIO GRANDE

Estância amplia ramo de atuação e investe em vinícola sustentável

A cada geração da família Pötter, Guatambu aposta em transformações sem deixar de lado a tradição que move os negócios.

De Dom Pedrito, no coração da Campanha, vem uma lição: inovação rima com tradição. Aos 67 anos, o Grupo Guatambu começou em uma aposta na agricultura, abraçou a pecuária e, chegando à terceira geração da família de Valter Pötter, hoje investe em vitivinicultura e sustentabilidade.

- Sempre tivemos foco na inovação e na diversificação, buscando qualidade. Nós temos mais de mil prêmios na agropecuária, sustentabilidade, produtividade, rentabilidade - diz Valter Pötter, empresário de 70 anos, sócio-proprietário e administrador do grupo.

Na década de 1950, quando o pai de Pötter começou o trabalho na terra, o foco era a produção de arroz. Quando assumiu o comando da fazenda, em 1971, Pötter, recém-formado em Veterinária, inovou implantando a pecuária. Hoje, a Guatambu é referência em rebanhos das raças Hereford e Braford.

No sistema de rotatividade no campo, que integra lavoura e pecuária, a Guatambu também é pioneira. A meta é tirar o melhor do que a terra tem para oferecer em todos os períodos do ano.

- Não tenho dúvida de que a diversificação no campo é um dos fatores muito importantes para a gente ter sucesso, porque, se um produto não está bem, tipo o arroz hoje, o soja está bem, está valendo bem - explica.

Familiar

Valter administra o negócio em parceria com a esposa, Nara, e com as filhas Gabriela, Raquel e Mariana. E a terceira geração da família já está deixando sua marca na Guatambu. Em 2003, deu início ao projeto de plantação de uvas viníferas, aposta baseada em estudos que apontam a região da Campanha como excelente para produção de uvas, em função do clima e do solo.

Em 2009, o primeiro vinho produzido já mostrava que a aposta tinha dado certo. O sucesso de vendas do vinho e a quantidade de medalhas que o rótulo ganhou serviriam de incentivo para ampliar a ideia. Em 2013, começava um novo projeto: o enoturismo, com a inauguração da Guatambu Estância do Vinho. Hoje, a marca já é reconhecida e se destaca em salões e concursos pelo mundo.

- A vinícola oferece serviços à clientela, ou seja, piquenique, almoço harmonizado, cursos de harmonização, isso cada vez mais atrai clientes e nos deixa mais entusiasmados - afirma Pötter.

ROBERTA MERCIO


16 DE NOVEMBRO DE 2019
FLAVIO TAVARES

O TRAMPOLIM

Governar é ato de confiança mútua, seja qual for o tipo de governança. Numa casa ou escola, no trabalho e em qualquer atividade humana, governantes e governados estão unidos por um objetivo comum. Podem divergir quanto ao modo ou a forma, e até reclamar ou divergir, mas confiam entre si.

O poder político, porém, quebrou essa norma de confiança e convivência. Surgiram diferentes déspotas governando contra os governados e até impondo o terror. Hitler, Stalin e as ditaduras sul-americanas foram modelos de horror no século 20.

Nas democracias como a nossa, no Brasil, é comum o governante destruir a confiança recíproca e impor regras de vida aos governados. Os que mandam (sejam presidentes, governadores ou, até, prefeitos) imitam os velhos reis absolutistas ou os recentes ditadores e jogam no lixo a regra básica da convivência democrática - a confiança recíproca.

Agem como se o povo fosse um monturo de lixo apodrecido. Com pose de justos, impõem modos e estilos que perpetuam a ignorância, cultivando e expandindo a violência.

Os anos de Lula-Dilma (com o PT escorado na voraz "base-alugada" do MDB de Temer e do PP de Maluf) abriram as portas à corrupção. A frase de Lula - "nunca os bancos lucraram tanto" - gabava-se do que devia sentir vergonha. As migalhas da "Bolsa Família" (R$ 80 por filho) eram confundidas com riqueza.

O vice-reinado de Temer & Cia. notabilizou-se pela correria. Exemplo do "corre-corre, senão o bicho pega", foi o assessor presidencial Rocha Loures, filmado pela Polícia Federal na rua, correndo com uma mala com R$ 500 mil, parcela inicial da "ajuda" de R$ 20 milhões destinada ao vice-rei.

Neste horror, o candidato que pregava a violência e, com dedos e braços, imitava revólver e fuzil "contra os bandidos" elegeu-se presidente da República.

Agora, no 15 de Novembro, 130 anos da República, foram exatos 10 meses e meio do novo governo. O modo de governar saiu do esboço e virou realidade, mas parece, até, que voltamos à monarquia.

Quem governa é "a família real". Ou a prole, com os três filhos-homens à frente, pois no quarto (como disse o próprio Bolsonaro) "o pai fraquejou e veio mulher"...

A intolerância começou com o lulismo-petista, mas virou visão fanática com o bolsonarismo. E (já disse aqui) o fanatismo permite tudo. Quanto mais cruel, sibilino e perverso for, mais a cegueira fanática se regozija.

A soltura de Lula mostrou que a prisão só lhe serviu para copiar o que Bolsonaro tem de pior, nunca para meditar e pensar num país sem ódio, construído por todos. O torneio de palavrões entre ambos culmina, agora, com Bolsonaro mudando de partido de novo, pela quinta ou sexta vez, como se trocasse cueca ou camisa suada.

Ou como se partido fosse trampolim para o poder único do chefão, como Hitler e Stalin?

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

16 DE NOVEMBRO DE 2019
OPINIÃO DA RBS

MAIS PRAGMATISMO, MENOS IDEOLOGIA

Um dos diferentes aspectos positivos a se extrair da reunião de cúpula do Brics, que transcorreu sem percalços, é a sensação de que o governo Bolsonaro começa a se portar de maneira mais pragmática quando o assunto são as relações exteriores com parceiros comerciais importantes ou de grande potencial. Foi assim na visita do presidente Jair Bolsonaro à China, em outubro, e a postura se repetiu no encontro realizado em Brasília, que reuniu também os líderes de Rússia, Índia e África do Sul. Chineses e russos, como se sabe, estão no lado oposto das crenças ideológicas do atual inquilino do Palácio do Planalto. Mas questões comerciais e estratégicas, pelo jeito, vêm prudentemente falando mais alto e ganhando espaço de bravatas.

Como anfitrião, Bolsonaro seguiu os protocolos. Não se ouviu nada sobre comunismo, globalismo, climatismo ou planos mirabolantes do Foro de São Paulo. Nem publicamente emergiu qualquer desconforto em relação às posições diferentes sobre as questões que envolvem, no continente, Venezuela e Bolívia. Tratou-se de negócios e integração e, ao final, uma declaração conjunta que abordou apenas conflitos distantes do Brasil, a defesa do multilateralismo e a condenação a protecionismos. A reivindicação de Bolsonaro de que o Novo Banco de Desenvolvimento, a instituição financeira do grupo, deveria aportar mais recursos no Brasil é justa e não é motivo de qualquer controvérsia.

É de se ressaltar que, apesar de reiteradas manifestações do presidente de apreço aos Estados Unidos e a Donald Trump - até um pouco ausentes nas últimas semanas -, o governo vem se comportando bem em tentar fortalecer os laços com a China e manter-se distante do conflito entre Washington e Pequim. Que, aliás, ainda deve ir longe. Além de ser o principal cliente dos embarques do Brasil, a China acaba de colocar à disposição do país US$ 100 bilhões em capital para financiar a melhoria da precária infraestrutura nacional.

No grupo de países que forma o Brics, há potencial para elevar substancialmente as exportações para a Índia. Assim como a China, é uma nação que vê sua economia crescer de forma acelerada nos últimos anos. As projeções da ONU indicam, inclusive, que a população indiana será maior do que a chinesa até 2027. Ao mesmo tempo, a África do Sul pode ser a porta de entrada para uma maior inserção no continente africano, que, a exemplo da Ásia, seguirá com forte aumento no número de habitantes nas próximas décadas. O que não deve significar, por outro lado, qualquer desleixo na busca por estreitar conexões com a Europa e os Estados Unidos. Quanto mais plurais e pragmáticas forem as relações brasileiras, melhor. 

Editado por: Suzete Braun ? 3218-4317 leitor@zerohora.com.br ? Instagram@gauchazh ? WhatsApp (51) 99667-4125 Facebook facebook.com/gauchazh ? Twitter@gauchazh
OPINIÃO DA RBS


16 DE NOVEMBRO DE 2019
MAIS ECONOMIA

Ensino de apps

Criada em junho passado, a escola Ctrl+Play pretende intensificar sua atividade em Porto Alegre a partir do reinício do ano escolar, em março de 2020. É focada no universo digital, com ensino de robótica e programação para computadores. Ensina a criar softwares, aplicativos, jogos e vídeos. Resultado de R$ 400 mil em investimento, é uma franquia da empresa fundada em 2015, em Campinas (SP), pelo engenheiro de computação Henrique Nóbrega, hoje com cerca de 2 mil alunos no país.

A visita dos Embaixadores dos países da União europeia ao Estado ocorre de 4 a 8 de Dezembro. O objetivo é falar de projetos bilaterais, perspectivas de ampliação dos contatos comerciais e de cooperação em diversos setores.

R$ 2,7 BI

é o valor corrigido da dívida da Avianca Brasil, que teve falência recomendada à Justiça pela atual administradora judicial Alvarez & Masal , porque o plano de recuperação judicial não seria viável.

CRISE? QUE CRISE?

A Construtora Tedesco, que ergueu o novo prédio de internação do Hospital Moinhos de Vento, agora vai ampliar o Bloco C, que terá duas novas ressonâncias magnéticas e emergência cardiológica. O prazo de entrega é maio de 2020.


O hub de soluções G5 e a DBServer, prestadora de serviços de convergência, uniram-se para criar o Gtech/DB Innovation Lab. Vão atuar em pagamento móvel e "self checkout" (autopagamento).


A Vento Sul Turismo inaugurou na quarta-feira sua terceira unidade em Gramado, o Colina Lagos Hotel.

A SEMANA QUE EU VI

KINDER OVO

Deveria ser a resposta do governo ao principal problema do Brasil, o desemprego. Mas a Medida Provisória 905, que permite dar vagas mais baratas a jovens de 18 a 29 anos, tem 70% de seu texto voltado para mudanças na CLT. Também subsidia empresas com desconto no seguro-desemprego.

ICMS E COLAPSO

Capítulo tenso na novela da cobrança antecipada de ICMS: donos de revendas de carros estariam sob risco de "colapso" por não poder compensar descontos a clientes. Segundo a Fazenda, como o segmento já tem corte de alíquota, de 18% para 12%, não tem direito mesmo. Há novo impasse.

EFEITO 'VECINOS'

Só com a queda do presidente da Bolívia, Evo Morales, os conflitos na América do Sul impactaram o mercado financeiro nacional. Um motivo é a renegociação do fornecimento de gás, suspensa à espera do sucessor oficial da autoproclamada presidente, Jeanine Áñez (foto).

SPRINT DO PIB?

Bons resultados de setembro - serviços com alta de 1% ante agosto, varejo com avanço de 0,7% na mesma comparação, e a alta de 0,44% no IBC-Br - provocaram uma rara onda de revisões positivas para o PIB de 2019. A melhora de cenário para o final do ano se estendeu às projeções para 2020.

MARTA SFREDO

16 DE NOVEMBRO DE 2019
RODRIGO CONSTANTINO

República de mentirinha

Talvez o leitor ainda esteja de ressaca por conta do feriado dessa sexta, mas caberia dedicar uns minutos à reflexão sobre mais este aniversário da proclamação de nossa suposta República. O presidencialismo no Brasil nasceu com um golpe militar positivista que derrubou a monarquia e proclamou a República em 15 de novembro de 1889. Desde então, tivemos sete Constituições, vários golpes, inúmeros escândalos de corrupção e dois casos de impeachment.

Digo suposta República pois uma República de verdade pressupõe o império das leis isonômicas, a "coisa pública" separada da mafiosa "cosa nostra" que trata o Estado como um puxadinho familiar, uma extensão de casa, bem ao estilo patrimonialista. Em outras palavras, exige um governo de leis, não de homens, ou seja, República não combina com arbítrio. E poder arbitrário é tudo o que vemos em nosso país.

No livro A História das Constituições Brasileiras, o historiador Marco Antonio Villa disseca os maiores absurdos das várias Constituições que tivemos. Na sua apresentação, a síntese é perfeita: "Não é exagero afirmar que os últimos 200 anos da nossa história têm como ponto central a luta do cidadão contra o Estado arbitrário. E, na maioria das vezes, o Estado ganhou de goleada".

Os britânicos sabem que a liberdade não vem de graça. Sua Carta Magna data de 1215 e impôs restrições ao poder do monarca. A América foi fundada como uma legítima República, protegendo direitos individuais dos cidadãos, contra o risco de "tirania da maioria" alertado por Tocqueville.

Já no Brasil, temos um presidente do Supremo Tribunal agindo como uma espécie de imperador absolutista, fora tantos outros abusos de poder por parte da classe dirigente. Roberto Campos escreveu: "Continuamos a ser a colônia, um país não de cidadãos, mas de súditos, passivamente submetidos às ?autoridades? - a grande diferença, no fundo, é que antigamente a ?autoridade? era Lisboa. Hoje é Brasília".

Está mais do que na hora de a população acordar para este lamentável fato, e passar a exigir mais respeito da elite governante. São nossos servidores, não nossos mestres ou senhores!

RODRIGO CONSTANTINO

sábado, 9 de novembro de 2019



09 DE NOVEMBRO DE 2019
LIA LUFT


O silêncio e as vozes


Quando criança, insone, eu tinha algum medo do silêncio da madrugada. O alívio vinha daquelas vozes: um cachorro latindo no nosso pátio, outro no vizinho, outro mais adiante e mais e mais, na cidadezinha encantada com casas em grandes jardins e muitas árvores.

O canto dos galos também me fazia companhia: alguém me disse – e, como sempre, acreditei – que um respondia ao outro, perto e longe e mais longe, e eu achava isso muito bonito. Os galos se faziam companhia no escuro da noite.

Porém o melhor de tudo, o mais maravilhoso ainda, era de repente, logo antes de clarear, o canto dos pássaros como uma chuva de sons todos de uma só vez. Eram meus amigos das longas madrugadas: cachorros, galos e pássaros.

Depois o som das primeiras carrocinhas na rua: leiteiro, verdureiro, chegando na cidade, passavam na frente de nossa casa e eu imaginava os homens e rapazes às vezes no frio e na chuva.

Mas, acima de tudo, havia a chuva.

Até hoje – já não insone como então –, ela me encanta, me consola, me alegra. Como se fosse uma amiga maternal, a chuva me acolhe. Claro que me entristecem as atribulações dos que têm casas invadidas, objetos estragados, crianças sem abrigo.

Mas muitas vezes, quando estou cansada, entediada ou aborrecida, me pego pensando ou até suspirando em voz alta: “Se ao menos chovesse!!”.

Mas eu ia escrever sobre silêncio, para muitos um inimigo assustador: será porque nele escutamos nosso próprio vazio? Ou cresce o clamor das nossas aflições?

Não sei dizer. Sei que quando na sala alguém – vendo que ninguém presta atenção – de repente desliga a tevê, raramente alguém reclama. Ao contrário, em geral se escuta “que bom um pouco de silêncio...”.

Silêncio e quietude nos inquietam: “Você anda muito calado... quer um uisquinho? um Prozac?”. Ou: “Esse menino tá muito quieto... está doente” ...e botamos a mão na testa da criança pra ver se tem febre.

Bom pensar aqui e ali que eventualmente todos precisamos de sossego: nem palavras nem correrias nem mesmo música. Mas a serenidade curativa de que andamos tão carentes.

LYA LUFT

09 DE NOVEMBRO DE 2019
MARTHA MEDEIROS

Darín


Qual o segredo de Ricardo Darín? É a pergunta clássica feita aos que atingem uma rara unanimidade. Se há quem o despreze, é por desconhecer seu currículo ou por insolência boba - esnobar alguém que todo mundo gosta é um meio de se diferenciar. Eu sou do time que presta reverência a esse argentino que emenda um filme no outro sem medo de cansar a plateia - em vez de saturada, ela quer mais e mais e mais de Darín, extasiada com sua presença na tela e na vida.

Temos aí um ponto. Darín não é apenas um grande ator, mas um grande ser humano. E essa junção faz diferença, sim. Sucesso e inteireza se cumprimentam e até dormem junto.

Se você já assistiu a alguma entrevista com ele, sabe que espécie de homem ele é (falo em assistir, e não ler uma entrevista, pois o olhar, a voz e os gestos de um entrevistado traduzem sua alma mais do que palavras impressas). Viralizou um depoimento que ele deu certa vez a um programa de TV em que afirma não ficar tentado a fazer carreira em Hollywood. "Para quê? Para interpretar um narcotraficante mexicano?". Darín não se interessa em promover estereótipos e não objetiva ter mais dinheiro do que tem. "Tomo dois banhos quentes por dia. Tenho uma família fenomenal. Recebo abraços das pessoas na rua. Preciso mais do quê?". 

O ingênuo entrevistador comete a insensatez de sugerir jatinhos. Darín ri e não comenta, nem precisa. Jatinhos? Hangar, manutenção, combustível, funcionários. Jatinhos garantem um deslocamento fácil, mas e o deslocamento da realidade que vem embutido? Isolar-se não conecta pessoas. Em vez de focar em ter fortuna, que induz ao excesso de consumismo, mil vezes trabalhar menos, voltar pra casa mais cedo e pedir uma pizza. Desculpe aí o provincianismo, sei que pode soar chocante.

Ricardo Darín esbanja integridade e retidão de caráter, e não apenas por interpretar homens de boa índole, como no excelente A Odisseia dos Tontos, que está em cartaz - ele também já adicionou alguns vilões em sua filmografia. Darín é íntegro porque não se vende, não se deslumbra, não cai na esparrela de se comportar como um astro. Tem luz própria suficiente, consciência social, compreende a importância da moralidade e o seu talento dispensa caras e bocas. É másculo e sensível, o combo dos sonhos. 

Um sujeito confiável, que mantém o ego sob controle. Quantos desse naipe você conhece? O autoendeusamento é não só ridículo, como também entediante: a indústria do entretenimento produz semideuses em série, todos com o rótulo de "inatingível" grudado na testa. Darín poderia ser o vizinho da porta ao lado.

Mas não é, então vá ao cinema, nem que seja pra ter a sensação de que ele entraria no elevador e daria bom dia pra você.

MARTHA MEDEIROS


09 DE NOVEMBRO DE 2019
CARPINEJAR


O momento de discutir


Até para discutir, você deve escolher o momento. Mesmo que tenha razão, nem toda hora é hora, nem todo lugar é lugar.

A conversa não vai desaparecer por não colocá-la em prática quando sentiu o incômodo. Não pare a sua vida, não boicote os seus prazeres, dramatizando o problema com beiço e silêncio.

Arrastar a dor estraga as roupas das lembranças. Guarde-se para a privacidade, para a liberdade da intimidade, para o olhar discreto dentro de casa, com objetivo de não incluir estranhos em um assunto que só diz respeito a sua relação.

É constrangedor estragar a alegria de sua companhia como forma de impor um castigo. Às vezes, não se quer um perdão ou um esclarecimento, e sim fazer com que o par sofra a mesma angústia e suspense experimentados em segredo.

O barraco e a gritaria não servem para nada, a não ser chamar atenção exagerada para a sua grosseria.

O que adianta demonstrar que os erros têm um alto preço a pagar anulando a própria noção de respeito? Não brigue numa festa, renunciando à dança e à diversão, emparedado num canto durante a Lua cheia cobrando satisfações. Vocês irão fazer as pazes em seguida e jamais recuperar aquele instante mágico de fruição.

Não brigue num show, com os pensamentos repetitivos da obsessão, desperdiçando o ingresso que adquiriu com planejamento e expectativa. Não brigue com a família reunida, envolvendo sogros e irmãos, acentuando a gravidade de impasses que poderiam ser solucionados com um abraço a sós e palavras doces de retratação.

Não brigue num jantar com amigos, eles perderão o apetite com o seu espetáculo de indiretas e ironias. Não é justo competir a noite inteira para dar um recado ou uma lição, à revelia das testemunhas inocentes na mesa.

Não aumente o desespero criando um circo público. Os desentendimentos crescem com a falta de educação e geram rupturas piores do que o motivo do estremecimento.

Dê uma trégua a si para raciocinar melhor. O coração tem pressa para resolver, nem sempre se mostra certo e com bons modos. A ansiedade confunde a importância de ser ouvido com a urgência de falar. Você pode estar preparado para falar, mas a outra pessoa ainda não estar pronta para escutar.

A solução do atrito será sempre a convergência desses dois tempos. A pontualidade costuma trazer entendimento.

CARPINEJAR


09 DE NOVEMBRO DE 2019
LEANDRO KARNAL

ÁGUIAS E LAMBARIS

OS PAÍSES TÊM INTERESSES CONCRETOS E NÃO POSSUEM AMIGOS. CONSIDEREI UM ERRO DA DIPLOMACIA BRASILEIRA UM ALINHAMENTO COM A VENEZUELA, EQUADOR E BOLÍVIA NO PERÍODO LULADILMA. DA MESMA FORMA, PREOCUPA-ME O ALINHAMENTO IDEOLÓGICO COM OS EUA DO GOVERNO BOLSONARO.

No livro Diplomacia, Henry Kissinger opta por começar a análise das relações internacionais a partir do século 17. Naquele momento, com o fim da guerra dos 30 anos, a paz da Vestfália (1648) estabeleceu políticas de zonas de influência e de equilíbrio em um mundo ocidental multipolar. O eixo dos capítulos seguintes gira em torno de uma política realista, objetiva, racional, que coloca o interesse das nações acima de outras ideias. Razão de Estado torna-se superior a convicções pessoais ou religiosas. Exemplo da atitude? O cardeal Richelieu, em nome de uma objetividade pelos interesses franceses, contraria seu posto de príncipe da Igreja em uma nação de maioria católica e apoia os protestantes no conflito de 1618-1648. Trata-se de um exemplo claro de realismo político. Vence a Razão de Estado. Interessava mais ao ministro francês enfraquecer os inimigos Habsburgos do que garantir a defesa da sua fé.

O momento seguinte em que surge a mesma posição é na forma da célebre piada de Churchill: "Se Hitler invadisse o inferno, eu faria pelo menos uma referência favorável ao diabo na Câmara dos Comuns". O hábil Ulysses Guimarães teria dito algo similar: em campanha, abraçamos tudo e todos.

Existe uma linha de realismo político que pode ser identificada em Maquiavel e que se espalha em exemplos como Otto von Bismarck, o chanceler prussiano e arquiteto da unidade alemã. Ela foi chamada de Realpolitik, reforçando sempre a máxima de que os países não têm amigos, porém, interesses. Os dois principais focos dizem respeito a questões estratégicas e econômicas. Preservar integridade territorial, rechaçar riscos de conflitos prejudiciais, promover um comércio próspero e, assim, sempre lembrar que um ministro das relações exteriores não serve a potências estrangeiras, mas ao país que o sustenta e ampara.

A busca de uma linha ideológica para as relações diplomáticas e comerciais é, por natureza, algo problemático. Os exemplos são abundantes. Por anos, a URSS comprou açúcar caro em Cuba e forneceu petróleo barato para a ilha. O investimento deficitário era uma forma de dar mesada ao governo cubano e fortalecer uma ponta de lança no Caribe para fustigar a geopolítica dos EUA.

Tinha lógica na Guerra Fria, no entanto, colaborou para quebrar o regime soviético. O caminho foi seguido pelo governo chavista da Venezuela com óleo barato para Havana. O resultado foi similar. O governo brasileiro foi um pouco mais realista: em plena ditadura militar, o presidente Ernesto Geisel condecorou o presidente do socialismo romeno. Da mesma forma, o acordo nuclear com a Alemanha contrariava os interesses norte-americanos. 

Havia uma tradição de objetividade realista. Quase sempre, o governo brasileiro não se comporta nem de forma hostil, nem submissa a Washington. Antiamericanismo parece ser uma infantilidade meio insana, bem como a ideia de alinhamento automático com o país ao norte. Um dia, o presidente Carlos Menem, na Argentina, teve a ideia de participar do esforço de guerra contra o Iraque e declarou seu desejo de "relações carnais" com os Bush. O esforço foi feito. O apoio nunca veio de verdade e a Argentina quebrou de novo e sem suas sonhadas ilhas Malvinas.

Os países têm interesses concretos e não possuem amigos. A ideia se repete. Eu considerei um erro estratégico da diplomacia brasileira um alinhamento maior com a Venezuela, Equador e Bolívia no período Lula-Dilma. O bloco ideológico não protegeu os interesses brasileiros, por exemplo, da Petrobrás no Equador ou do fornecimento de gás da Bolívia. Alinhamentos ideológicos são vazios como balões. Sobem um pouco e estouram mais adiante. Da mesma forma, preocupa-me o alinhamento ideológico com os EUA do governo Bolsonaro

A simpatia dos norte-americanos já é garantida pelo fato claro de que nosso comércio bilateral é muito lucrativo para eles. O déficit é brasileiro e a tipologia de quem está na embaixada brasileira ou no palácio do Itamaraty não são uma preocupação central, pois, sendo Lula ou Bolsonaro, continuamos perdendo dinheiro todo mês. Se o governo brasileiro berrar "yankees, go home" ou colocar bonés cafonas pró-EUA, o comércio continua sendo favorável ao enriquecimento do grande irmão do Norte. Dócil ou agitado, o lambari continua sendo engolido pela águia.

Sim, um governo inteiramente alinhado com os EUA pode trazer benefícios, como, hipoteticamente, isenção de visto para os brasileiros. A simpatia tupiniquim garante contas e espelhos no escambo com os brancos. Sempre foi assim, desde aquela bela quarta-feira, 22 de abril de 1500. Um pouco mais tarde, os "tamoios" decidiram que a melhor maneira de combater inimigos internos era a aliança com franceses. Foi um equívoco. Tanto franceses como portugueses não respeitavam indígenas. Os dois países tinham interesses que não passavam pelo indigenismo.

Tenho grande ligação com a história e com a cultura dos EUA. Escrevi livros sobre ambos. Todavia, sou um professor de história, e não chanceler do Brasil. Mais uma vez: países não têm amigos, apenas interesses. É preciso ter esperança e, talvez, uma mínima dignidade.

LEANDRO KARNAL

09 DE NOVEMBRO DE 2019
FRANCISCO MARSHALL

EVIDÊNCIAS


"Os olhos são melhores testemunhas do que os ouvidos", disse o filósofo grego Heráclito de Éfeso (540-470 a.C.). Para arrematar, esclarece: "As coisas de que há visão, audição, aprendizagem, só estas prefiro". Heráclito estava diante da força do mito, que enleva ouvintes com histórias fantásticas, antigas, intermináveis, de maravilhas que ninguém viu, apenas contam que assim foi; histórias sobre os deuses, a origem do mundo, feitos sobrenaturais, fama de heróis, tudo aquilo de que falavam Homero e os poetas e profetas, em que o povo preferia e prefere acreditar. Mas o filósofo dá um passo adiante, supera a tradição e declara: conheço por evidências, não me venha com conversa fiada, os enganos do mito.

A filosofia começou muito simples e complexa, entre os filósofos da Ásia menor, região hoje turca, de cidades gregas como Mileto, Éfeso e Colofão. A parte complexa diz respeito às enciclopédias de astronomia-astrologia e geometria que animaram aos primeiros filósofos, desde Tales, e que levaram à matemática e a pensamentos elaborados sobre número e ordem do universo; esse pensamento chegou ao seu apogeu com Pitágoras de Samos (569-475 a.C.), o guru nascido em uma ilha perto de Mileto. A parte simples é a opção pelo conhecimento metódico, seguindo um caminho seguro, produzido pelas evidências. Foi o maior salto cultural da humanidade, o surgimento da filosofia, berço da ciência, da liberdade, da democracia e mesmo do conforto moderno.

A grandeza da filosofia está no que revela com clareza em frases singelas, algumas repletas de poesia, uma poesia sem mito, apenas corpo, sensibilidade e pensamento: "O Sol, da largura de um pé humano", disse Heráclito, e o vemos deitado em uma colina fora da cidade, olhando o céu, quando cobre o astro rei com o pé, para proteger a visão, e logo pensa, ri e formula este hai-kai grego, iluminado e irônico. 

O Sol não é Apolo ou Hélios, como diz o mito, mas um ente tão físico quanto o nosso corpo, e que pode ser medido como todo o universo, com nossas referências, pé ou palmo. É uma versão lúdica do pensamento físico, inaugurado por Tales e que chegaria ao seu apogeu com Anaxágoras (500-428 a.C.), que afirmou que o Sol é um astro incandescente, animado por uma reação química que o faz queimar permanentemente. E por dizer esta verdade científica, descoberta com a força da filosofia, foi perseguido em Atenas. Não é só hoje que a ciência e a filosofia incomodam.

Filosofia não é saber o que disseram os pensadores, Platão, Kant ou Hegel, embora o que eles escreveram seja interessantíssimo e necessário. A filosofia trata apenas de evidências, sejam aquelas que o mundo apresenta, e isso gera a física e todas as demais ciências, inclusive a medicina, o direito e a história, sejam aquelas que podemos, com o pensamento, deduzir de modo seguro, inequívoco. É essa objetividade que dá fundamento e segurança para a sociedade.

Filosofia é viver à luz dos fatos, com lógica. O único modo de superarmos o mito é com filosofia, afirmando verdades e evidências que desfaçam quaisquer enganos e manipulações.

Historiador, arqueólogo e professor da UFRGS | marshall@ufrgs.br - FRANCISCO MARSHALL