sábado, 15 de fevereiro de 2020


15 DE FEVEREIRO DE 2020
CARTA DA EDITORA

Referência no agro

Um dos patrimônios mais valiosos de que você, assinante de Zero Hora, dispõe são os colunistas. Não à toa, 80 deles escrevem nas páginas do jornal. Eles opinam, expõem diferentes visões de mundo, trazem informações exclusivas, antecipam o que será notícia. Quanto mais plural e variado for o cardápio, mais contemplados se sentirão nossos leitores. Um exemplo disso é a página 16 desta edição. A partir de agora, a colunista e comentarista de agronegócio da RBS Gisele Loeblein terá ampliada a sua presença em ZH. As suas colunas, até então publicadas de segunda a sexta-feira, serão estendidas para a edição conjunta dos finais de semana e passarão a se chamar Campo e Lavoura, mesmo nome que por 35 anos intitulou o caderno temático semanal de ZH - o suplemento teve sua última edição na semana passada e agora os conteúdos de agro passam a circular diariamente no caderno principal.

Ao reforçar a presença de Gisele, ZH nada mais faz do que acompanhar um Estado que a passos rápidos vem adotando novas tecnologias e substituindo antigos conceitos e práticas na agricultura e na pecuária.

- A coluna faz um giro de 360 graus pelo universo do agronegócio. São informações exclusivas, entrevistas, novidades, tendências. É um canal de comunicação desse setor tão importante para a economia do Rio Grande do Sul e que é essencial para a vida de todos nós - diz Gisele, que soma 20 anos de RBS, 10 deles no setor do agronegócio.

Os assinantes também passam a ter com maior frequência a publicação de reportagens sobre o meio rural. A que ilustra a capa desta edição, por exemplo, e que está publicada nas páginas 12 a 14, de autoria dos repórteres Fernando Soares e Isadora Neumann, mostra por que a colheita da maçã deste ano em Vacaria está diferente.

E vem muito mais por aí: na primeira semana de março, teremos a Expodireto-Cotrijal, feira considerada vitrine para quem quer expor o que há de mais avançado em tecnologia. Para Não-Me-Toque convergem autoridades, expositores e produtores de todo o Brasil e do Exterior. E é por isso que Gisele e uma equipe de reportagem estarão lá, acompanhando de perto os negócios, as novidades e os anúncios. Em 29 de fevereiro, dois dias antes do início da feira, e no dia 7 de março, um dia após o encerramento, ZH publicará dois suplementos mostrando tudo sobre a exposição e seus resultados.

E depois da Expodireto?

Aguarde a próxima parada do intenso calendário do agronegócio gaúcho.

DIONE KUHN - INTERINA

sábado, 8 de fevereiro de 2020



08 DE FEVEREIRO DE 2020
LYA LUFT

Vida injusta?

Estava eu assistindo a um jogo de futebol entre meu time e o adversário de sempre e o meu começou a perder. Soltei um gemido, um grito, quem sabe um palavrão. Uma de minhas netas, ainda pequena, saiu-se com essa frase lapidar, da qual não devia ter a menor noção, que até hoje cito e curto:

- Não fica chateada, vovó. A vida não é justa.

Achei graça porque a criança muito amada certamente não tinha experiência disso. Mas, como fazem as crianças, apanhava no ar coisas ditas por adultos na escola, na televisão, no mundo. E me disse aquilo com um jeitinho maternal, que meninas têm com pais, até avós, e me encanta.

A vida não é justa ou nós esperamos demais dela, querendo também ser crianças mimadas com tudo nas mãos... e de graça? Possivelmente sim. A vida é uma grande mãe generosa, paciente, eternamente disponível. E nos queixamos demais: o imposto, o governo, os governos, o patrão, o empregado, a mulher, o marido (mulheres se queixam muito mais frequentemente dos maridos do que vice-versa, que feio...). Do tempo, é um terror: bufamos por estar quente demais, passamos o tempo analisando a meteorologia em geral falha, ou tiritamos de frio fazendo a mesma coisa. Nos cumprimentamos já comentando com desgosto o calor ou o frio. Ou a chuva, ou a estiagem. Assim, a vida é dura mesmo.

Eternos insatisfeitos. Presenciei uma cena (divertidíssima porque não era comigo): pai, mãe, filhos adolescentes e avó no restaurante de praia, a céu aberto. Passa um pequeno avião, era tempo, eu acho, dos teco-tecos. O aviãozinho era amarelo. A avó comentou: Que bonito esse avião vermelho. Todos na mesa discordaram, ela discutiu, por fim acabaram se calando, pois em outras mesas pessoas já se viravam meio espantadas. Comeram, então, silenciosos. Adultos emburrados. Adolescentes contendo risadinhas. De repente a velhinha disse, alto e bom som:

- Mas era vermelho mesmo.

Para ela a vida devia ser muito injusta, pois não entendiam que ela estava com a razão. Avião vermelho e pronto, embora fosse de um amarelo brilhante. E assim tantas vezes sofremos sem motivo algum, por loucura nossa, por teimosia, por birra, por coisa nenhuma. Mas sofremos. Somos injustiçados, incompreendidos.

Uma velha dama da minha infância, avó de colegas minhas, não tinha uma só amiga, era temida pelas filhas e detestada pelos genros, tolerada pelos netos e netas. Comigo, sem nenhum laço especial entre nós, era sempre gentil. O bolo ainda morno, a flor do jardim do qual se orgulhava. Por que comigo? Talvez porque eu não tinha medo dela nem precisava gostar dela, pois não éramos parentes. Eu até gostava. Achava interessante aquela avó que não tinha muito jeito de avó (a das minhas fantasias seria sempre infinitamente paciente, discretamente divertida.)

Quem sabe a gente tenta fingir que não espera que a vida seja a grande mãe, a doce avó... e aí cada nuvem acumulada no céu, cada florzinha no capim mais reles da beira da calçada, cada sorriso gratuito de alguém desconhecido ou cada agrado de alguém muito querido nos deixará com a sensação de que, sim, a vida pode ser muito justa.

LYA LUFT

08 DE FEVEREIRO DE 2020
MARTHA MEDEIROS

Incoerência


Foi muito divulgado. No interior do Rio Grande do Sul, um homem atirou sete vezes na namorada, durante uma briga, e acertou cinco tiros. A moça foi socorrida e sobreviveu. No dia do julgamento, a vítima dava seu depoimento quando, de repente, pediu licença ao juiz, aproximou-se de seu agressor e, de forma totalmente inesperada, tascou-lhe um beijão na boca. Um beijo apaixonado. No dia seguinte, a foto estava estampada no jornal e todos nós de queixo caído.

Nas redes sociais, os palpites resumidos de sempre. "Síndrome de Estocolmo." "Desserviço ao feminismo." "Ignorância." "Cavando a própria sepultura." Etc, etc. Os psicanalistas foram chamados a explicar. Lembraram que antes de acontecer uma violência física, há um longo período de violência psicológica que estraçalha a autoestima da vítima: ela acredita que não será ninguém sem o amor daquele homem. Por não conseguir se libertar, fantasia que o amor será mais forte e salvará a relação no final.

As estatísticas estão aí pra quem quiser ver. O perdão não vai salvá-la. O amor não vai salvá-la. Ela morre no final.

A foto perturbou a mim e a todos, pois escancara o quanto somos frágeis e trazemos desejos submersos, originados sabe-se lá por quais desvios. A gente se esforça para manter uma versão ajustada de si mesmo, para entregar à sociedade um perfil que seja condizente com o que se espera de um cidadão sensato, e até que nos saímos bem: ninguém costuma desconfiar das nossas fraturas emocionais e suas consequências.

Só dentro de casa, protegidos dos olhares e do julgamento alheio, é que liberamos nossas carências, traumas, fetiches. Entre quatro paredes, nossos sentimentos ocultos e contraditórios ganham permissão para conviverem. É quando a raiva e o amor deitam-se na mesma cama, o ódio e a compaixão sentam-se à mesma mesa, a dor e o prazer dão-se às mãos no sofá.

Somos perversos e adoráveis, somos amorosos e cruéis. Mas temos uma natureza preponderante, essa que postamos no Facebook e no Instagram, essa que nos acompanha ao escritório, nas ruas, no shopping. Somos reconhecidos como pessoas perfeitamente adequadas, equilibradas. Poucas são as testemunhas oculares das nossas convulsões internas, quase ninguém conhece a fundo nossas contradições.

O brutal pode vir acompanhado de extrema excitação. É a contradição que a moça agredida revelou às claras, sem nenhuma espécie de censura ou pudor. Ela despiu-se das camadas que revestem nossa pretensa normalidade e deixou a plateia perplexa e, ao mesmo tempo, embaraçada. Exibiu sua instabilidade para as lentes dos fotógrafos, demonstrou o efeito tirânico de uma relação abusiva para os jurados e para quem mais quisesse ver - só que nunca queremos.

MARTHA MEDEIROS


08 DE FEVEREIRO DE 2020
CARPINEJAR

As pernas de minha mãe

Não importa o problema de doença que a minha mãe tenha, ela sempre diz que elogiaram as suas pernas. É o único diagnóstico que não me omite.

Aos 80 anos, Maria continua com pernas bonitas, roliças, como se fosse uma jovem de tranças, saindo de Guaporé para estudar na Capital.

Têm sido assim as nossas conversas médicas. Ela diz que foi ver os olhos, tento descobrir mais detalhes da cirurgia de catarata, e vem com o assunto das pernas.

Ela avisa que está cuidando da pressão, esforço-me para entender qual a última contagem e se tomará algum remédio para o controle, e volta a falar de suas pernas.

Ela comparece no cardiologista, e, por algum desígnio estranho das palavras, encontra um nexo para descrever o estado perfeito de suas pernas. Ela conta que foi no dermatologista, que escamou a pele perigosa no pré-câncer e me engana de novo com o esplendor de suas pernas.

Ela descreve suas sessões de fisioterapia e nunca me poupa de comentar as suas pernas, de que recebeu exclamação de inveja da profissional, que chama atenção alguém de sua idade detendo tal par esbelto e sempiterno.

Pitaco aqui, pitaco acolá, os seus joelhos não envelhecem, com a rigidez da confiança.

Questionei se ela não anda mostrando as suas pernas demais. O convênio de saúde já estava cheirando a safadeza. - Não, meu filho, minhas pernas brilham.

- Como assim, brilham?

Entrei no seu raciocínio para verificar até onde ela ia, do mesmo jeito que costumamos fazer com as crianças, concordando, buscando ganhar confiança.

- Brilham como estrelas?

- Nada disso, retorquiu. Como pedras redondas no leito de um rio.

Daí ela confessou que as suas pernas mantêm o colágeno porque vivia se banhando no Rio Taquari, em Muçum, durante a infância.

- Eu caminhava sobre os cascalhos sem cair, malabarista das águas escuras. Eu pisava nas pedras que brilhavam ao sol. Havia uma escada no fundo para quem seguia a luz.

Fui compreendendo que era uma parábola sobre a longevidade, mais do que uma lição de estética. Aquelas pedras rolam anos e anos em atrito com as outras, desfazendo as suas pontas cortantes. Da mesma maneira, em contato com as dificuldades da vida, perdemos os excessos, o supérfluo de nossas formas, evidenciando, com o tempo, apenas a nossa essência.

Minha mãe não tem pernas, mas seixos esculpidos pela natureza.

CARPINEJAR


08 DE FEVEREIRO DE 2020
LEANDRO KARNAL

DE QUEM É A HISTÓRIA?

Para terminar nosso raciocínio e para dar sentido à reflexão proposta nas últimas semanas, vamos finalmente ao ponto: vivemos hoje novamente o perigo do negacionismo histórico. A história é viva, o passado não é imóvel e a memória pode ser dominada por interesses estranhos.

Hoje em dia, é muito comum ler ou ouvir que a história foi escrita por gente de esquerda, que manipulou o passado para criar uma narrativa que lhe servisse. Há verdade parcial no argumento. De fato, o Brasil carece de bons pensadores de direita, que tenham criado linhas racionais e sistemáticas de reflexão. Interrompe-se aí a verdade da frase. 

Se Escola Sem Partido tivesse razão e todos nós fôssemos doutrinados, ao menos teríamos alguma memória histórica: a dos vencedores. Já argumentei que nem isso temos. No Brasil, temos uma excelente historiografia, pesquisas realmente inovadoras e obras-primas. Há muita coisa ruim também. No meio disso, deve haver pessoas tentando doutrinar, porém morrem na praia, acredite. Não há narrativa consensual sobre o passado. Nunca deveria haver. Evaldo Cabral de Mello debateu muito e publicamente com José Murilo de Carvalho. 

O segundo é um monarquista, mais conservador em algumas posições, portanto. O primeiro sempre se ressentiu - com alguma correção - de que muito do que se chama de História do Brasil no século 19 é, na verdade, a história do Rio de Janeiro, com uma perspectiva da Corte. Ambos são gigantes da historiografia com livros incontornáveis. Era lindo acompanhar os debates. Nenhum deles negou a importância da família real ou da escravidão para nossa história. Viam sob ângulos distintos, porém ambos evitavam a cegueira.

Outros lugares têm suas disputas também. Quer entender a Revolução Industrial? Leia Hobsbawm, historiador marxista genial e longevo. Leia também David Landes, um liberal, e seu monumental Prometeu Desacorrentado. Ambos darão ênfase a questões distintas, discordarão em pontos centrais, como o papel dos cercamentos ou quem compunha a mão de obra operária. Nenhum dirá que a Revolução Industrial não existiu ou que seus efeitos não foram intensos.

O caro leitor e a querida leitora mais atentos já devem ter percebido meu ponto. Uma coisa é o enfoque, a discussão, o novo despertar de olhares a partir de novas questões do presente. Outra, distinta e muito perigosa, é negar o passado ou escrever uma versão alternativa para ele sem base documental qualquer. O passado, por não ter dono, não é estável, está sempre em disputa. Sempre importante lembrar: não se pode tudo.

Um longo e custoso processo montou alguns alicerces de nosso mundo no pós-Segunda Guerra. Direitos humanos, civis, sociais, políticos, a condenação do racismo, da homofobia, a igualdade entre gêneros. Todas essas invenções (pois não existiam antes de 1948; não ao menos como um grande consenso mundial) foram forjadas com muito sangue, suor e lágrimas. Nos anos 1980, um primeiro ataque, filho da crise daquela década, passou a negar a existência do Holocausto. O negacionismo é sempre filho de crises. Quando tudo vai bem, raivosos são silenciosos. Qual o interesse de negar algo tão documentado (por nazistas e por seus inimigos)? Ao inventar um passado sem Holocausto, se inventava um passado que validava o racismo contra judeus ou que era mais leniente com o nazismo. A Europa respondeu de várias formas, mas em muitos países se tornou crime negar o Holocausto.

Hoje em dia, em clima de nova "bolharização" e ainda lidando com efeitos da brutal crise de 2008, voltamos ao fantasma do negacionismo histórico, por vezes referido como revisionismo. Voltamos a ouvir que dizer que Holocausto não existiu é liberdade de expressão. Junto disso, que escravidão foi branda e benéfica para os negros; que ela já era praticada na África, logo os europeus não tiveram nada com isso. Que não houve ditadura. Temos canais de YouTube, com autodenominados filósofos/historiadores e toda uma sorte de pessoas que se acostumaram a dizer que esse negacionismo é apenas uma resposta "sem ideologia". Essas leituras do passado não são nem de direita ou de esquerda, em si. São, perigosamente, negacionistas. Negar não é tomar outro lado da história, é querer que a história tenha somente um lado, uma voz; distorcida e fantasiosa, portanto.

Existem narrativas variadas com enfoques variados, e isso é ótimo. Impossível deixar de ler, se for do seu interesse, a História da Segunda Guerra Mundial, do conservador Winston Churchill, autor e ator do momento dramático. A Revolução Francesa precisa, para ser bem compreendida, da pena do liberal Adolphe Thiers, assim como do socialista Louis Blanc. Robespierre foi herói ou ditador terrível? Varia se o autor for Eugène Despois, Alexis de Tocqueville, Ernest Renan ou Albert Soboul. Importante: nenhum deles negou que houve guilhotina durante o Terror. A história profissional pertence a todos que a pesquisam com método, senso crítico, bons arquivos, formação teórica e honestidade. O defeito de coisas como negacionismo do Holocausto ou da ditadura não é de método, todavia de caráter. Muita esperança e boa história, sempre!

Historiador, professor da Unicamp, autor de, entre outros, ?Todos Contra Todos: o Ódio Nosso de Cada Dia?

LEANDRO KARNAL


08 DE FEVEREIRO DE 2020
DRAUZIO VARELLA

Quando vi pela primeira vez João de Deus

De onde vem tanta complacência com os que se aproveitam da religiosidade do povo para explorá-lo?
Se aprendi alguma coisa em 30 anos frequentando cadeias, foi a reconhecer marginais. Podem disfarçar os modos, o jeito de andar, o palavreado, os gestos, mas o olhar os trai.

Anos atrás, quando vi pela primeira vez na TV o cidadão que se intitulava João de Deus, não hesitei em dizer para minha mulher, ao lado: é bandido.

A televisão tem o dom de entregar os olhos do personagem e, como diz o povo, eles espelham a alma. É por isso que, mesmo sem saber por que, o espectador percebe quando o entrevistado mente, por mais razoáveis que pareçam os argumentos evocados por ele.

O tal João que apregoava incorporar o espírito de um médico do além-túmulo, que lhe trazia a capacidade de curar enfermos, tinha o olhar em desencontro com a expressão piedosa que a fisionomia se esforçava para transmitir, fugidio, arisco, incapaz de se fixar nos olhos da repórter que o entrevistava.

Nessa época, o homem que eu julgava safado já atraía multidões. Caravanas de crédulos do país inteiro e do Exterior viajavam para Abadiânia, no interior de Goiás, em busca das proezas circenses que corriam de boca em boca, reforçadas por reportagens sensacionalistas que exaltavam seus vínculos extraterrenos.

O prestidigitador, que dizia curar doenças malignas com passes de mágica e que raspava córneas com o lado cego da lâmina do mesmo bisturi usado nos simulacros de cirurgias, transmitiu por décadas os vírus das hepatites B e C e sabe lá quantas infecções para os incautos, sem que a Vigilância Sanitária se dignasse a molestá-lo.

Acreditaram que suas habilidades mediúnicas se estendiam aos vírus e às bactérias?

No auge da fama, o número de visitantes chegou a 2 mil por dia. A cidadezinha prosperou - tinha 80 pousadas que cobravam diárias de até R$ 200, restaurantes, lanchonetes, lojas que vendiam roupas brancas para os fiéis, imagens religiosas e suvenires bentos pelo santo que me passava a convicção de ser bandido.

Oncologista a vida inteira, vi surgirem vários tipos como esse, curandeiros que apregoavam trazer a saúde de volta aos desenganados, graças à intervenção de entidades extraterrenas que reencarnavam em seus corpos bem-aventurados. Com a esperteza para enganar tanta gente por tanto tempo como esse tal João, entretanto, não soube de outro.

Não faço ideia de quantos de meus pacientes caíram nesse engodo. Entendo que não se sentissem à vontade para contar ao médico descrente.

Dos que admitiam ter ido, boa parte se dizia decepcionada pela evidência dos interesses comerciais envolvidos no atendimento, enquanto outros se consideravam beneficiados pela paz emanada nas bênçãos e pela névoa de espiritualidade que acreditavam envolver o ambiente.

O argumento de que personalidades estrangeiras, artistas de renome, intelectuais, políticos, juristas e até médicos também consultavam o benzedor travestido de médium ajudou a consolidar a fama e dar credibilidade ao golpista.

Como é inevitável na carreira dos meliantes, no entanto, um dia a casa caiu. O jornalista Pedro Bial entrevistou mulheres que afirmavam ter sido molestadas pelo espertalhão.

A essas delações se juntaram centenas de outras. O ex-emissário de Deus não passava de um homem desprezível que se valia de sua posição para atacar mulheres fragilizadas por tragédias pessoais e dramas familiares.

A credulidade, entretanto, é tão irracional que ainda há quem defenda separar o joio do trigo: de um lado, o homem e as fraquezas da carne, de outro, os poderes transcendentais das entidades que ele garantia encarnar.

Depois de condenado a mais de 50 anos de cadeia por pequena parte de seus crimes, há devotas que teimam em visitar a hoje decadente Abadiânia, na esperança de captar eflúvios energéticos remanescentes nas instalações em que o vigarista as abençoava.

Não me choco com a boa-fé das pessoas simplórias ludibriadas por vigaristas desse tipo, mas com os crédulos que desfrutaram o privilégio de estudar em boas escolas.

Em pleno século 21, como podem crer em milagres, em curas mirabolantes e em personagens tão bizarros quanto esse senhor?

O presidiário João Teixeira, já condenado por uma fração dos estupros cometidos, ainda é tratado pela imprensa como o "médium João de Deus".

Médium? De Deus? Como assim? De onde vem tanta complacência com os que se aproveitam da religiosidade do povo para explorá-lo em nome de Deus?

DRAUZIO VARELLA

08 DE FEVEREIRO DE 2020
J. J. CAMARGO

O PODER IDENTIFICA O CARÁTER (DE QUEM TEM)

DO PORTEIRO AO POLÍTICO, NEM TODAS AS PESSOAS PRESERVAM A DIGNIDADE AO SE SENTIREM COMANDANTES

"Se quiser pôr à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder." (Abraham Lincoln)

O diretor-geral de um hospital universitário se aproxima da cancela e, depois de uma apalpadela agoniada, percebe que deixara o crachá noutro avental. Começa, então, a explicar ao funcionário novo o que ocorrera:

- Eu sou o doutor Fulano, diretor deste hospital, e esqueci meu crachá. O senhor pode abrir, por favor? E então a resposta orgulhosa do funcionário encantado com o poder que o cargo lhe conferia:

- Por este portão, sem o crachá, nem o Papa!

O pragmatismo da resposta eliminava qualquer possibilidade de continuar o diálogo e só restou ao nosso diretor ligar para sua secretária avisando que atrasaria uns 40 minutos, tempo de ir ao consultório e voltar equipado com a credencial. Contou-me depois que estava determinado a escrever uma crônica sobre o assunto. Lembro que gostei do título proposto ("O grande poder das pequenas pessoas"), mas, de fato, não sei se chegou a escrevê-la.

Esta história pode ser vista por vários ângulos, a começar pela fidelização ao cumprimento das normas impostas à função de porteiro, mas ela encerra mais do que isso: o centro da questão é o orgulho com a intransigência anunciada. A referência ao Santo Padre foi só um requinte para ilustrar o quanto estava fascinado com o poder, que lhe permitia eliminar as exceções, quanto mais não fosse, para que soubessem com quem estavam lidando.

Transfira-se essa condição para os degraus mais altos do poder real e percebe-se que a capacidade de subversão da atitude civilizada é, na essência, exatamente a mesma. Claro que com consequências mais danosas, porque mais poder significa hipertrofia da capacidade de fazer o mal. E na trilha da psicopatia, um pouco adiante, encontraremos aqueles capazes de exultar com o tamanho do estrago na vida dos atingidos.

Por isso a concessão de poder não pode ser aleatória: nem todas as pessoas preservam a dignidade ao se sentirem comandantes. Na verdade, alguns nunca poderiam ser mais do que subalternos, sem se tornarem insuportavelmente prepotentes.

Nas grandes empresas, na universidade, na fábrica, no sindicato, no hospital ou na vida, identificam-se espontaneamente os líderes verdadeiros, aqueles que mandam sem se sentirem chefões, porque têm a exata noção do poder que lhes assegura a tarefa oferecida por merecimento.

Em contrapartida, são insuportáveis os que foram guindados à chefia por parentesco, influência política, laços matrimoniais ou amizade antiga com tipos que antigamente tiveram poder. Provavelmente o cargo novo libera o ego reprimido, que, ao se sentir poderoso, solta as amarras do ressentimento arquivado por décadas. Curiosamente, essas pessoas sempre terminam mal porque, ao se colocarem acima da realidade, cometem erros primários e, no fim do mandato, se sentem como vítimas frágeis e assustadas, como são, na ressaca, todos os herdeiros bastardos da prepotência irracional.

Muitas vezes, essas pessoas terminam tão pobres, que a única coisa que lhes resta é o dinheiro, que, como se sabe, pode impressionar aos tolos, mas não ameniza a insignificância do insignificante.

J. J. CAMARGO


08 DE FEVEREIRO DE 2020
NÍLSON SOUZA

Darwin e os leitores

Na última quarta-feira, na página 6 deste jornal, publiquei um despretensioso comentário sobre criacionismo e evolucionismo nas escolas brasileiras e desafiei meus 17 leitores a completarem um imaginário diálogo entre Deus e Darwin, na porta do céu, depois da morte do cientista. Surpreso com a existência do paraíso, ele fica sabendo que só poderá entrar se reconhecer o Supremo Anfitrião como criador da vida. O que dirá? Foram tantas e tão criativas as respostas, que, em vez de duas como havia prometido, selecionei 17 e aproveito este espaço mais amplo para compartilhá-las também com os incontáveis leitores de David Coimbra.

Gustavo Heinrich Copé, de Novo Hamburgo, acha que Darwin diria: "Claro que o Senhor é responsável pela Criação, eu apenas decifrei como foi feito". Já Jayme José de Oliveira, de Capão da Canoa, tem esta visão: "Apenas segui a Tua diretriz, ao me dares o livre-arbítrio proporcionaste a oportunidade de continuar a Tua obra. A evolução, como o próprio nome indica, é a ultimação da Tua obra". Marinês Meyer pensa que Darwin reconheceria o direito autoral divino: "O ser humano evoluiu dos macacos, mas quem criou os macacos foi Deus".

Lírio Zanchet, de Frederico Westphalen, exemplificou com outra história: "Certa vez, num muro de Londres, um estudante escreveu a famigerada frase "Deus está morto - Nietzsche". Bono Vox, o guitarrista da banda U2, emendou ao lado "Nietzsche está morto - Deus".

Uca Marcon fez um interessante ensaio a respeito do assunto, do qual extraí o seguinte trecho: "Voltando aos tempos de Darwin, houve um cientista em sua época chamado Louis Pasteur, que disse: ?Um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima?. E foi o que aconteceu. À medida que a ciência evoluiu, a teoria de Darwin continuou sendo considerada verdadeira. Porém, ficou claro que ela não seria possível sem uma inteligência superior. 

Assim, surgiu a chamada Teoria do Design Inteligente, pela qual um grupo de cientistas diz que a evolução proposta por Darwin foi realizada pela "mão" de um Criador. Pois, se há um projeto, tem que haver um projetista. Por isso, acredito que, quando Darwin chegou ao céu, reconheceu a grandeza do autor da Evolução e, assim, Deus permitiu que Darwin entrasse pela porta. Pois o tempo de Deus é diferente do tempo dos homens. E a Teoria de Darwin, ao invés de ir contra o Criador, demonstrou a grandeza de Sua Criação".

Ivan Elstor Dopke, falando por Darwin, foi direto ao ponto: "Senhor Deus, te agradeço por haveres me criado com inteligência suficiente para poder explicar aos homens como tudo se modificou após a Sua Criação do Mundo". J. Oscar Paz ironizou: "Ao que eu saiba, ó Criador, sois o mais evoluído dos seres... Então, dizei-me que é brincadeira, para que eu e minha teoria possamos entrar". Otávio Passos de Oliveira, com humor, acha que Darwin se rendeu: "Tens razão, Deus. Morrendo e aprendendo!". Na suposição de Thiago Ferreira, Darwin argumentou: "Ok, você fez a criação. Mas a seleção natural fez a evolução". Osvaldo Munari Raupp brincou com a teoria do macaco: "O senhor sabe com quem está falando? Sou assiiiiim com o King Kong!". Lucia Silla ampliou o diálogo: Darwin: "Deus, criando a vida para que esta evoluísse, permitiu que inteligências como a minha conseguissem compreender a importância de cada ser vivo na evolução por Vós planejada". E Deus: "Pode entrar, pois a ideia era exatamente esta - criar um homem à minha semelhança". Vera Reichert manteve Darwin irredutível: "Você não deu provas suficientes de que existia para realizar uma obra desta magnitude". Noara Bernardy Lisboa imaginou o contrário: "Senhor Deus, se me deixares entrar poderei explicar aos homens de pouca fé como é evoluir no Paraíso". Henrique Motta também foi por este caminho: "O senhor é brilhante! Criou os seres unicelulares para se desenvolverem e facilitar meu trabalho". Paulo JB Leal fulminou Darwin: "Deus, como eu sou um mentiroso, me retrato". André Martins foi mais respeitoso: "Vossa Onipotência, saiba que todas as coisas foram criadas por Vós e para Vós. Tenho a prova disso, está na Bíblia. Então, eu só criei porque Vós criastes a mim antes! Me dá licença, agora?".

Para concluir, Juarez Guedes, que estendeu a conversa:

- Pensa bem, Charles! O que vão dizer de mim? E Deus criou o macaco?

- Boa pergunta. Mas vem de antes.

- De antes o quê?

- De antes do macaco.

- O quê? E Deus criou a cegonha? O coelhinho?

- Antes... muito antes.

- A ameba? Menos que isso não dá. Não desisto do desenho inteligente.

- Nem tão inteligente assim, né, Deus?

- Vamos lá... última oferta: e Deus criou o Bóson de Higgs, a partícula de Deus! Depois vieram os elétrons, moléculas, amebas, as algas, peixes, anfíbios, os mamíferos, homens, mulheres, até o auge do meu design... aquela de Horizontina... a Bündchen. Com trema e tudo.

- Quer dizer que, no fundo, no fundo, a Gisele é criação sua?

- Isso!

- Bah, Deus, você é um teimoso, muito narcisismo para uma pessoa só.

- Pessoa, não. Não ofende. Para um Ser!

- Tá bom, para um Ser só. Quer saber de uma coisa? Tô fora. Você não existe!

Mas leitores inteligentes e bem-humorados, felizmente, existem muitos. Agradeço a todos os que entenderam a brincadeira e peço desculpas pelas mensagens que não consegui publicar.

*O colunista David Coimbra está em férias e retorna no dia 18/2

nilsonlsouza31@gmail.com - INTERINO


08 DE FEVEREIRO DE 2020
NÍLSON SOUZA

Darwin e os leitores

Na última quarta-feira, na página 6 deste jornal, publiquei um despretensioso comentário sobre criacionismo e evolucionismo nas escolas brasileiras e desafiei meus 17 leitores a completarem um imaginário diálogo entre Deus e Darwin, na porta do céu, depois da morte do cientista. Surpreso com a existência do paraíso, ele fica sabendo que só poderá entrar se reconhecer o Supremo Anfitrião como criador da vida. O que dirá? Foram tantas e tão criativas as respostas, que, em vez de duas como havia prometido, selecionei 17 e aproveito este espaço mais amplo para compartilhá-las também com os incontáveis leitores de David Coimbra.

Gustavo Heinrich Copé, de Novo Hamburgo, acha que Darwin diria: "Claro que o Senhor é responsável pela Criação, eu apenas decifrei como foi feito". Já Jayme José de Oliveira, de Capão da Canoa, tem esta visão: "Apenas segui a Tua diretriz, ao me dares o livre-arbítrio proporcionaste a oportunidade de continuar a Tua obra. A evolução, como o próprio nome indica, é a ultimação da Tua obra". Marinês Meyer pensa que Darwin reconheceria o direito autoral divino: "O ser humano evoluiu dos macacos, mas quem criou os macacos foi Deus".

Lírio Zanchet, de Frederico Westphalen, exemplificou com outra história: "Certa vez, num muro de Londres, um estudante escreveu a famigerada frase "Deus está morto - Nietzsche". Bono Vox, o guitarrista da banda U2, emendou ao lado "Nietzsche está morto - Deus".

Uca Marcon fez um interessante ensaio a respeito do assunto, do qual extraí o seguinte trecho: "Voltando aos tempos de Darwin, houve um cientista em sua época chamado Louis Pasteur, que disse: ?Um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima?. E foi o que aconteceu. À medida que a ciência evoluiu, a teoria de Darwin continuou sendo considerada verdadeira. Porém, ficou claro que ela não seria possível sem uma inteligência superior. 

Assim, surgiu a chamada Teoria do Design Inteligente, pela qual um grupo de cientistas diz que a evolução proposta por Darwin foi realizada pela "mão" de um Criador. Pois, se há um projeto, tem que haver um projetista. Por isso, acredito que, quando Darwin chegou ao céu, reconheceu a grandeza do autor da Evolução e, assim, Deus permitiu que Darwin entrasse pela porta. Pois o tempo de Deus é diferente do tempo dos homens. E a Teoria de Darwin, ao invés de ir contra o Criador, demonstrou a grandeza de Sua Criação".

Ivan Elstor Dopke, falando por Darwin, foi direto ao ponto: "Senhor Deus, te agradeço por haveres me criado com inteligência suficiente para poder explicar aos homens como tudo se modificou após a Sua Criação do Mundo". J. Oscar Paz ironizou: "Ao que eu saiba, ó Criador, sois o mais evoluído dos seres... Então, dizei-me que é brincadeira, para que eu e minha teoria possamos entrar". Otávio Passos de Oliveira, com humor, acha que Darwin se rendeu: "Tens razão, Deus. Morrendo e aprendendo!". Na suposição de Thiago Ferreira, Darwin argumentou: "Ok, você fez a criação. Mas a seleção natural fez a evolução". Osvaldo Munari Raupp brincou com a teoria do macaco: "O senhor sabe com quem está falando? Sou assiiiiim com o King Kong!". Lucia Silla ampliou o diálogo: Darwin: "Deus, criando a vida para que esta evoluísse, permitiu que inteligências como a minha conseguissem compreender a importância de cada ser vivo na evolução por Vós planejada". E Deus: "Pode entrar, pois a ideia era exatamente esta - criar um homem à minha semelhança". Vera Reichert manteve Darwin irredutível: "Você não deu provas suficientes de que existia para realizar uma obra desta magnitude". Noara Bernardy Lisboa imaginou o contrário: "Senhor Deus, se me deixares entrar poderei explicar aos homens de pouca fé como é evoluir no Paraíso". Henrique Motta também foi por este caminho: "O senhor é brilhante! Criou os seres unicelulares para se desenvolverem e facilitar meu trabalho". Paulo JB Leal fulminou Darwin: "Deus, como eu sou um mentiroso, me retrato". André Martins foi mais respeitoso: "Vossa Onipotência, saiba que todas as coisas foram criadas por Vós e para Vós. Tenho a prova disso, está na Bíblia. Então, eu só criei porque Vós criastes a mim antes! Me dá licença, agora?".

Para concluir, Juarez Guedes, que estendeu a conversa:

- Pensa bem, Charles! O que vão dizer de mim? E Deus criou o macaco?

- Boa pergunta. Mas vem de antes.

- De antes o quê?

- De antes do macaco.

- O quê? E Deus criou a cegonha? O coelhinho?

- Antes... muito antes.

- A ameba? Menos que isso não dá. Não desisto do desenho inteligente.

- Nem tão inteligente assim, né, Deus?

- Vamos lá... última oferta: e Deus criou o Bóson de Higgs, a partícula de Deus! Depois vieram os elétrons, moléculas, amebas, as algas, peixes, anfíbios, os mamíferos, homens, mulheres, até o auge do meu design... aquela de Horizontina... a Bündchen. Com trema e tudo.

- Quer dizer que, no fundo, no fundo, a Gisele é criação sua?

- Isso!

- Bah, Deus, você é um teimoso, muito narcisismo para uma pessoa só.

- Pessoa, não. Não ofende. Para um Ser!

- Tá bom, para um Ser só. Quer saber de uma coisa? Tô fora. Você não existe!

Mas leitores inteligentes e bem-humorados, felizmente, existem muitos. Agradeço a todos os que entenderam a brincadeira e peço desculpas pelas mensagens que não consegui publicar.

*O colunista David Coimbra está em férias e retorna no dia 18/2

nilsonlsouza31@gmail.com - INTERINO


08 DE FEVEREIRO DE 2020
FLÁVIO TAVARES

A MALA E NÓS

Viajo ao Rio de Janeiro, agora, e isto não seria tema a comentar se não fosse o que levo na mala. Terei de levar garrafas de água mineral, que passaram a ser escassas por lá, pois o que sai das torneiras não serve, sequer, para lavar os pés, menos ainda louça ou talher.

Na gíria, "mala" deixou de ser só aquilo em que amontoamos pertences e passou a significar, também, coisa pesada e ruim. Nunca, porém, fora "geladeira" ou recipiente d?água. Se a gíria persiste, minha mala de agora será, mesmo, "uma mala"?

Não tento ser inovador, só me resguardo. Na outrora "Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil e coração do meu Brasil", em pleno verão chuvoso de lá, a água foi racionada nos supermercados. Por tratá-la como lixo, virou luxo.

Sujaram e poluíram os mananciais que abastecem a cidade e os transformaram em apodrecida lixeira. As algas (sinal de sujeira profunda) se apropriaram dos rios e o cheiro e a cor turva da geosmina chegaram às torneiras. A TV mostrou o horror que, agora, devo enfrentar.

Poucos anos atrás, São Paulo viveu algo similar, que pode reaparecer. Resolver o problema deve preocupar a todos, até quem (como nós, em Porto Alegre) viva abastecido de água razoável, mas que, tempos atrás, exalou horrível mau cheiro.

Era o sinal de início da poluição do Guaíba, mas só se discutiu se era "rio" ou "lago", ignorando o essencial. Nada é mais terrível e maléfico do que a poluição das águas, mas, por ironia, se ignora no Rio Grande do Sul.

Dos rios que deságuam no Guaíba, o Sinos é lixeira dos curtumes há décadas e o Gravataí não lhe fica muito atrás. O pouco poluído Jacuí termina no delta que serve de "filtro natural" e, assim, "salva" a área metropolitana.

Mas, e se o Jacuí e seu delta forem invadidos por remanescentes de carvão mineral na exploração de uma mina à beira-rio, o que ocorrerá com o Guaí- ba? Bastará definir se é rio ou lago? Ou seremos "mala" em definitivo?

O que é relevante nunca é repetitivo, tal qual sempre é tempo de falar dos mortos que foram marcantes em vida.

Assim, recordo hoje Ibsen Valls Pinheiro, que nos deixou há duas semanas e que conheci no Colégio Júlio de Castilhos, muito moço e já brilhante. Ele, então comunista, e eu, socialista, nos respeitávamos na divergência e nos reencontramos como jornalistas na antiga Última Hora.

Depois, ele foi vereador, logo deputado e, como presidente da Câmara Federal, conduziu o "impeachment" do presidente Collor, que não se consumaria sem Ibsen. Apaixonado por futebol, nem aí perdia a ironia crítica. Lembrava que o futebol era a única atividade que se analisava antes, durante e após efetivá-la (no treino, no jogo e depois dele) e, por isto, tinha mais adeptos do que a ciência.

Perder a ironia de suas frases é "uma mala"?

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

08 DE FEVEREIRO DE 2020
ARTIGOS

INFÂNCIA FELIZ, CRIANÇAS DO AMANHÃ


A infância é a etapa mais importante na vida de uma pessoa, período em que as primeiras experiências e descobertas ficam registradas na memória. Engatinhar, aprender a andar, correr aos quatro ventos e proferir as primeiras - e depois, dezenas de outras - palavras, identificar formas, aromas, sons e diversas outras habilidades são vivências levadas à bagagem do saber. Ao adulto cabe fazer com que esses ensinamentos sejam os mais prazerosos possíveis, pois, na ausência de atenção, cuidados e incentivos, cicatrizes ficarão registradas para sempre no coração e na alma dos pequeninos.

É na primeira infância que o ser humano adquire a maior parte das competências que levará para o restante de sua existência. Nesta compreensão da importância ao estímulo às inteligências e capacidades, um dos projetos governamentais torna-se prioritário para o governador Eduardo Leite: o Criança Feliz. 

Premiado como o maior programa em escala do mundo de visitação domiciliar com foco no desenvolvimento infantil, recebendo todos os incentivos do seu idealizador, ministro Osmar Terra, esta Secretaria do Trabalho e Assistência Social e a Secretaria da Saúde assinaram, em novembro de 2019, um termo de cooperação unindo os programas Criança Feliz e o Primeira Infância Melhor, em um somatório de esforços que visam ao fortalecimento de vínculos familiares e o desenvolvimento saudável dos seus bebês.

O início desse trabalho em conjunto já tem metas traçadas, entre elas: o Criança Feliz deve ampliar a adesão para 150 municípios até o final de 2020 - hoje são 83. O desafio mútuo é fazer com que as famílias, gestantes, bebês e crianças em situação de vulnerabilidade social recebam todo o acompanhamento e orientação necessários para o desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças, contribuindo para sua formação integral.

O esforço de nossas equipes está direcionado aos pequenos olhos daqueles que serão os agentes das transformações do amanhã. Investir nesta política pública é deixar um legado imensurável para o futuro.

Secretária do Trabalho e Assistência Social | regina-becker@stas.rs.gov.br - REGINA BECKER


08 DE FEVEREIRO DE 2020

TRÂNSITO

Cobrança de pedágio nas BRs 101 e 386 começa domingo

Valor da tarifa será R$ 4,40 para automóveis e R$ 2,20, para motos. Pagamento deverá ser feito nos dois sentidos

Começa neste domingo a cobrança nas cinco novas praças de pedágios construídas pela CCR ViaSul no Estado. Quatro delas ficam entre Canoas e Carazinho, em um trecho de 264 quilômetros da BR-386. A outra está na BR-101 em Três Cachoeiras. Padronizada em todas as unidades e cobrada nos dois sentidos, a tarifa custará R$ 2,20 para motos e R$ 4,40 para carros.

O pagamento é só em dinheiro, cartões não serão aceitos. A cifra será corrigida anualmente pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Desde 30 de janeiro, a concessionária testa a implementação da cobrança abordando os usuários que passam pelas cabines. Até a noite deste sábado, ninguém precisará tirar dinheiro da carteira. Os motoristas apenas serão alertados sobre o começo da operação por material informativo.

O período também é aproveitado para realização dos últimos treinamentos e ajustes no sistema de arrecadação, informou a empresa. Para operar o serviço, foram contratadas 200 pessoas, sendo 23 delas moradoras de Fontoura Xavier. O município de 10 mil habitantes cortado pela BR-386 recebeu uma das estruturas.

- Se contabilizadas as vagas para manutenção da via, temos mais de cem moradores empregados pela concessionária. A praça trouxe emprego e vai gerar ICMS. Porém, nossa cidade é muito ligada a Soledade. Foro, Defensoria Pública, Promotoria e Cartório de Registro de Imóveis ficam lá. O pedágio vai atrapalhar. Por isso, estamos pleiteando isenção de pagamento para veículos emplacados aqui - observa o prefeito de Fontoura Xavier, José Flávio Godoy da Rosa.

Diretor-presidente da concessionária, Fausto Camilotti descarta a dispensa tarifária:

- Quem andar na rodovia vai usufruir de todos os benefícios. Não faz sentido esse tipo de isenção - pontua.

Pacote

A CCR é a maior concessionária de rodovias do país, responsável pela administração da Presidente Dutra, que liga São Paulo ao Rio de Janeiro, e da Anhanguera-Bandeirantes, que conecta a capital paulista ao interior do Estado.

No Rio Grande do Sul, responde pela Rodovia de Integração do Sul (RIS), pacote de quatro estradas federais que cortam o solo gaúcho: freeway e BRs 101, 386 (entre Canoas e Carazinho) e 448. Cabe à empresa paulista fazer manutenção, conservação e melhorias nestas vias (veja quadro na página seguinte). Em contrapartida, vai administrar por 30 anos as sete praças de pedágio, incluindo as duas na freeway.

Segundo a direção, nos próximos cinco anos, as quatro rodovias alcançarão o mesmo parâmetro técnico de qualidade de pavimento e sinalização, ainda que tenham configurações de pistas e de velocidades diferentes.

A exigência da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) é de que no primeiro ano sejam realizados trabalhos como conserto de placas e pontes, roçada, pintura e manutenção do pavimento. Obras mais estruturais são esperadas a partir de 15 de fevereiro, quando se completa o primeiro ano de concessão.

- Das nossas ideologias, a central talvez seja conservar a segurança viária - destaca Camilotti.

Investimentos

Todo o trecho concedido à CCR Via Sul já conta com os serviços de atendimento médico e mecânico e, ao longo do ano, recebeu os trabalhos iniciais de recuperação do pavimento e manutenção.

A concessão exige investimento de R$ 5 bilhões em obras e R$ 3,8 bilhões em conservação e operação, abrangendo 36 municípios, em um total de 473,5 quilômetros de estrada. A expectativa é d
MARCELO KERVALT

08 DE FEVEREIRO DE 2020
ACERTO DE CONTAS

Aposta em funcionários maduros e com autonomia


Contratar pessoas mais velhas como funcionários ainda é um desafio no mundo corporativo e a coluna ficou empolgada quando soube que uma rede de lojas de Porto Alegre tinha essa prática. O varejista é Carlos Klein, dono da Ishtar, que tem quatro unidades na Capital, e que também participa da direção de entidades setoriais.

Dos 12 funcionários nas lojas, sete têm mais de 50 anos. Klein explica que esses candidatos têm características importantes para sua estratégia de negócios, como responsabilidade, comprometimento, maturidade e disponibilidade para trabalhar aos finais de semana e alguns feriados:

- Temos um modelo de lojas pequenas, de 20 a 30 metros quadrados, com uma equipe bem enxuta, sem gerente. Para funcionar, traçamos um perfil específico que é fácil de encontrar em pessoas mais velhas.

Klein complementa que os trabalhadores com mais idade preferem exercer a função com liberdade, o que também se encaixa com a proposta da Ishtar.

- Não gostamos de ficar mandando e cobrando toda hora. Contratamos, orientamos e analisamos os resultados, corrigindo com reuniões periódicas, que são poucas - detalha o empresário.

Outro aspecto importante é o relacionamento com os clientes. Funcionários mais velhos gostam de conversar e têm paciência para ouvir, relata Klein:

- O processo de compra em loja física é uma terapia. Tenho muitas clientes que vão até a loja para conversar e acabam comprando uma "pecinha de roupa". Criam laços de amizade, o que fideliza muito. É comum também nessa faixa etária relacionamentos mais sólidos. O companheiro ou companheira não complica tanto com o trabalho aos sábados e domingos.

Outra observação curiosa feita por Klein é o uso do celular. Pessoas mais velhas não ficam tanto tempo no aparelho e atendem melhor os clientes, diz. O empresário recebe currículos pelo e-mail sac@lojasishtar.com.br ou pelo WhatsApp (51) 99903-9798.

GIANE GUERRA

08 DE FEVEREIRO DE 2020
VISITA AO RS

Mourão reabre divisão desativada por Dilma


De terno, gravata e óculos de sol, o vice-presidente Hamilton Mourão participou, na sexta­-feira, da cerimônia de reabertura da 6ª Divisão de Exército. O ato ocorreu ao ar livre no 19º Batalhão de Infantaria Motorizado, em São Leopoldo, sob temperatura de 32ºC.

Por decreto, a divisão havia sido desativada em 2014 pela ex-presidente Dilma Rousseff em meio a um processo de "transformação, modernização e reorganização" do Exército, desagradando a ala militar. À época, Mourão era o comandante militar do Sul.

Em gesto às Forças Armadas, o presidente Jair Bolsonaro atendeu à reivindicação da categoria e reverteu a medida, por meio de decreto, em agosto do ano passado. O vice também já comandou a unidade.

- A reativação da 6ª Divisão é um compromisso do governo com o reequipamento e a recapacitação operacional das nossas Forças Armadas. Temos visto críticas proferidas a esse respeito, mas trata-se de uma decisão do Estado para que efetivamente tenhamos capacidade para cumprir as nossas missões constitucionais - disse Mourão, em discurso.

Conhecida como Divisão Voluntários da Pátria, a 6ª Divisão terá como sede a Capital, sendo responsável por 23 unidades e 7,7 mil militares. Trata-se de uma reorganização interna da corporação, sem previsão de contratações.

DÉBORA ELY

08 DE FEVEREIRO DE 2020
INFORME ESPECIAL

Uma ideia que merece fugir da polarização ambiental

Não há dúvidas de que o governo Jair Bolsonaro é pródigo em meter os pés pelas mãos nas questões ambientais. O projeto de lei para regulamentar a mineração e a construção de hidrelétricas em terras indígenas, por exemplo, tem tudo para não prosperar no Congresso e cair no esquecimento.

Em novembro, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, foi taxativo ao afirmar que um projeto do gênero não tinha futuro na Casa pelo estrago ainda maior na imagem do Brasil no Exterior. Com o envio, Bolsonaro mostra a sua base que tentou cumprir uma promessa de campanha, mas o sistema não deixou. Fica com o discurso.

Mas há uma iniciativa que merece ser debatida sem preconceitos. A portaria do ICMBio - vinculado ao Ministério do Meio Ambiente - que autoriza a pesca esportiva em unidades de conservação ambiental não deve ser vista como incentivo à destruição da natureza. Pelo contrário.

A pesca esportiva consiste em apanhar o peixe e devolvê-lo à água para que continue crescendo e se reproduzindo, logo após o praticante, feliz da vida, registrar o feito em fotos ou vídeos. O interesse do pescador da modalidade é que o rio ou a lagoa tenha uma população de peixes abundante e com exemplares grandes. E que as matas ao redor fiquem intactas, mantendo o ambiente sadio. Por querer repetir a experiência, que também poderá ser usufruída pelas futuras gerações.

A modalidade cresce forte nos últimos anos no Pantanal, na Amazônia e na Argentina. Com a ideia, é possível até criar receitas para o custeio das unidades de conservação.

No Brasil, a pesca esportiva é alternativa de renda para as populações locais, que trabalham em pousadas ou são guias nas embarcações. No Rio Grande do Sul, inclusive, existem várias agências de viagens especializadas e fabricantes de material.

Claro que todo o cuidado é pouco. Ainda é preciso conhecer melhor os detalhes. A atividade nas unidades de preservação deve obedecer a um plano de manejo. É algo que, mesmo genericamente, está no texto do ICMBio. Pode-se até discutir se uma portaria é o meio adequado. Só não é possível colocar o assunto no mesmo balaio de iniciativas do governo que trazem grandes riscos ao ambiente. Nem ser contra apenas por supostamente tratar-se de uma vingança do presidente, multado por pesca irregular em Angra dos Reis (RJ), em 2012.

CAIO CIGANA - INTERINO

sábado, 1 de fevereiro de 2020



01 DE FEVEREIRO DE 2020
LYA LUFT

Nós, os amorosos

Se na semana passada escrevi sobre nossa inata e em geral oculta - ou disfarçada - ferocidade de animais predadores, hoje lembro que somos, também, como tanta coisa neste mundo estranho, gentis, bons, brilhantes ou simplesmente amorosos.

Revi num relance as mais belas obras de arte que me emocionam e inspiram: telas, músicas, dança, textos. Lembrei de alguns dos grandes museus do mundo que visitei. Lembrei do quanto me debrucei sobre detalhes infinitamente valiosos, nuances de cor, quanto tentei perceber a mesma coisa em músicas que posso chamar sublimes (economizo muito essa palavra). Lembrei dos muitíssimos gestos de afeto, generosidade, idealismo, coragem e heroísmo que presenciei ou de que fiquei sabendo a história na nossa realidade comum.

Sim, somos também muito bons, capazes de coisas eventualmente escondidas. Aqueles que cuidam do filhinho doente ou deficiente para o resto da vida; os que atendem com bondade e amor os velhos pais precisados; os que estendem a mão para um amigo, abrem os braços para um mero conhecido, choram junto, tentam confortar ou apenas estão ali presentes, em silêncio, na hora mais negra.

Já participei de demasiados velórios de pessoas amadas e embora em geral nem prestasse atenção a nada, curvada sobre minha dor e a de pessoas chegadas, ali naquele lugar doloroso demais para se comentar, de algum jeito sutil aquelas presenças amorosas, aqueles olhares de cumplicidade no sofrimento, até aqueles silêncios - porque as coisas mais graves não se pronunciam - me fizeram bem. Ainda que remotamente. Ainda que só percebidos horas ou dias depois.

Há quem ajude crianças ou adultos abandonados; há quem acolha animais maltratados; há quem visite doentes desconhecidos em hospitais; há quem acorde de madrugada atendendo ao chamado de um paciente ou do hospital onde se precisa de médico. 

Há quem no silêncio do seu ateliê crie obras de arte lindas, fortes ou sutis, quem componha músicas no isolamento do estúdio ou até do quarto, quem ensaie delicados ou audaciosos passos de dança, quem trabalhe em redações de jornal ou televisão altas horas para transmitir notícias importantes da melhor maneira; há quem trabalhe sob um sol quase fatal arrumando estradas e limpando ruas; quem prepare comida numa cozinha mal ventilada e com temperatura de 40 graus; quem alimente um bebê que nem é seu e o trate com cuidado e carinho; há quem se esfalfe tentando abrir cabeças adultas ou infantis em universidades e escolas... 

quem no seu consultório escute dia a dia a agonia de pacientes graves... há tanta coisa boa, grande, emocionante que nós, pobres humanos, fazemos, que não posso deixar de homenagear aqui todos aqueles que alguma vez, ou cotidianamente, são bons, gentis, generosos, amorosos.

Sem eles, a vida não seria possível.

LYA LUFT


01 DE FEVEREIRO DE 2020
MARTHA MEDEIROS

A árvore e a ausência

Ela procurava um apartamento de dois dormitórios que não ficasse prensado entre outros prédios. Lavabo, mármore, suíte, nenhum desses luxos estavam na sua lista de exigências, nem seu orçamento permitiria, mas precisava se sentir acolhida pelo novo lar. Foi quando me disse que havia encontrado o apartamento dos seus sonhos. Perguntei onde. Ela deu o endereço: ficava na esquina de duas ruas movimentadas da cidade. Se vidros antirruídos não estiverem em sua lista de exigências, pensei, ela não levará a ideia adiante.

Não estavam, mas ela levou.

Pediu que fosse encontrá-la no apartamento para analisarmos juntas. Quando estacionei o carro, ela já estava na calçada em frente, me esperando. O corretor havia lhe entregue as chaves. Não tínhamos muito tempo, ela precisava devolvê-las. O prédio ficava na esquina de duas ladeiras. Carros zuniam na descida de uma delas, e quando viravam à direita, aceleravam fundo para subir a outra. Você tem certeza? Ela não me escutou. Mas sorria muito.

Subimos as escadas até o primeiro andar. Enquanto ela se desdobrava para encontrar a chave certa, perguntei: "A cozinha é boa?". Ela respondeu: "Acho que é". Ela já havia recusado outras opções de imóveis com cozinhas minúsculas, e agora achava que a desse apartamento era boa, sem demonstrar que se lembrasse dela. De onde vinha aquele sorriso de ganhadora da Mega Sena?

Abriu a porta e entrou primeiro. Entrei depois. Percebi de imediato o chão de tabuão. Não estava muito danificado. Olha, ela disse. Eu olhei. Havia uma janelão gigante na sala. E por trás dela, uma árvore do tamanho das nossas fantasias.

Aquele apartamento não precisaria de quadros. Muito menos da cortina que ela intencionava colocar. A árvore espetacular quase entrava sala adentro. Tudo mais era supérfluo. Cozinha? Que importava? (ainda assim, era espaçosa). "Agora você me entende?", ela perguntou. Pedi para ela repetir a pergunta por causa do barulho e só então respondi: entendo. À noite o trânsito diminuiria, nos fins de semana daria uma trégua. Mas a árvore estaria sempre ali.

Esteve ali por 11 anos. Mais valiosa do que um Van Gogh original. Até que semana passada, recebi o telefonema da dor. Ela caiu! Minha árvore caiu! Não foi pelas mãos do homem nem pela ação do vento. Velha, doente, cansada, a imensa árvore tombou de repente, por sorte não caiu em direção ao apartamento, mas pra fora, levando junto os fios de luz e os postes. Morte súbita.

Fui visitá-la. Pela primeira vez, vi a cortina fechada. Por que fechada? Pra não enxergar a ausência, ela me respondeu. Tinha razão. Eu nunca havia reparado no prédio do outro lado da rua, cinza, mórbido. Antes, havia o verde e a vida. O apartamento perdeu sua alma. A inquilina, inconsolável, se contenta, agora, com uma cozinha espaçosa.

MARTHA MEDEIROS