sábado, 22 de fevereiro de 2020


22 DE FEVEREIRO DE 2020
FLÁVIO TAVARES

NOVOS REBELDES

Temos tantos governantes, que às vezes não sabemos a quem atribuir o que nos falta. Ao prefeito, ao governador ou ao presidente e aos que, junto a ele, nos mandam lá de Brasília? Numa República federativa, um governante complementa o outro e tudo deveria desembocar na harmonia em função da população. Desde a posse de Bolsonaro, porém, tudo mudou. A cada dia, o presidente se atrapalha na mania de governar pelo "tuíter" ou à saída do Palácio da Alvorada. Se fosse "chef" de cozinha, confundiria caviar com feijão, ambos pretos e com bolinhas...

O país profundo sumiu das preocupações. Bolsonaro especializou-se em medidas fáceis. Proibiu o radar nas estradas e abriu portas a acidentes e mortes. Nega os dados do Instituto de Pesquisas Espaciais sobre meio ambiente. Ou, ao abordar a violência, encara coisas sérias na contramão do razoável. Agora, chamou de "herói" o ex-policial Adriano da Nóbrega, chefão de uma das "milícias" que, no Rio de Janeiro, compõem um Estado paralelo que governa pelo terror e a chantagem, além de investigado pelo assassinato da vereadora Marielle Franco, tempos atrás.

Imprensa, rádio e TV já detalharam a promíscua relação política de Adriano com um dos filhos do presidente, que (como deputado) lhe concedeu as mais altas condecorações do Estado do Rio. O "miliciano" e matador de aluguel foi morto dias atrás, pela polícia da Bahia e o presidente da República tachou o governador baiano de "bandido da polícia do PT".

Foi a gota d?água a transbordar o copo. Num manifesto, 20 governadores de diferentes partidos pediram que Bolsonaro "observe os limites institucionais" e exigiram "equilíbrio, sensatez e diálogo no interesse do povo". O governador Eduardo Leite foi um dos assinantes, junto aos governadores de São Paulo, Rio e Distrito Federal.

É a segunda rebelião contra o presidente. Em maio de 2019, governantes de 13 Estados, mais o do Distrito Federal, repudiaram o decreto de Bolsonaro facilitando o porte de armas e venda de munição, por incentivar a violência. O decreto foi, depois, suspenso pelo Senado.

Semanas atrás, num gesto publicitário para calar os protestos da Europa pelo descaso ambiental do governo, Bolsonaro subordinou o Conselho da Amazônia ao vice-presidente, mas dele excluiu os governadores da própria região, até então membros plenos.

Os governadores não se rebelam a esmo, nem por diferenças partidárias. Foram levados ao protesto pelo papel subalterno a que foram relegados desde que o sentido igualitário da união federativa foi substituído (no Planalto) pela visão do mando único.

É absurdo pretender que o "tuíter" substitua o diálogo. Toda ideia sem contrapartida ou debate é imposição que destrói a sociedade e nos faz párias.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

22 DE FEVEREIRO DE 2020
INFORME ESPECIAL

Pesquisa de médico gaúcho repercute mundo afora

Um homem com idade de 79 anos, 11 meses e duas semanas chega enfartado a um hospital. A recomendação é de cirurgia. O mesmo homem, com o mesmo problema, chega ao mesmo hospital, só que um mês depois, já com 80 anos e duas semanas. O mesmo médico não indica a cirurgia.

A hipótese criada por um gaúcho virou pesquisa e foi parar na maior revista médica dos Estados Unidos e do mundo, o New England Journal of Medicine. O estudo comprovou que, logo depois de completar 80 anos, a chance de alguém que chega a um hospital com um infarto agudo ser submetido a uma cirurgia cai 24%.

André Zimerman, formado pela UFRGS em 2016, conduziu a pesquisa juntamente com colegas e professores de Harvard, onde também estudou. André avalia que a principal contribuição do trabalho é mostrar que, também na medicina, existe uma categorização falsa baseada em percepções subjetivas. A repercussão tem sido enorme. O The New York Times publicou uma reportagem sobre o tema.

Perguntado sobre os motivos que levariam os médicos a mudar o tratamento diante de um intervalo praticamente insignificante de tempo, André prefere não falar em preconceito, mas na percepção - muitas vezes questionável - de que um paciente com mais de 80 anos não conseguiria suportar uma intervenção delicada - e que um com menos de 80, teria melhores chances.

A lógica pode ser comparada à utilizada na percepção dos preços nas lojas. Pagar R$ 99,90 por um produto parece bem mais vantajoso - ou menos arriscado - do que pagar R$ 100,00, mesmo que diferença real seja ínfima. André está iniciando a residência em cardiologia. Nesse caso, vale a máxima de que o fruto não cai longe do pé. O jovem médico é neto de David E. Zimerman, um dos pioneiros da psiquiatria gaúcha, e filho de Leandro Zimerman, um dos mais respeitados cardiologistas do Brasil.

TULIO MILMAN

22 DE FEVEREIRO DE 2020
RODRIGO CONSTANTINO

Raiva não é argumento

O impensável aconteceu em 2016: Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos. Como assim, aquele bufão fascista foi capaz de vencer? Em choque, os "progressistas" ficaram um tempo na fase psicológica da negação, esperançosos de que o voto popular, e não o tradicional colégio eleitoral, pudesse ditar o vencedor. Mas Trump assumiu o governo, ocupando a Casa Branca.

Quando a ficha caiu, de forma dolorosa, a esquerda partiu para o ataque: não era preciso aguardar um só dia de gestão para saber que seria um desastre, que minorias seriam perseguidas nas ruas, que haveria uma guerra mundial, que a democracia estava com seus dias contados. Logo criaram a "resistência" ao seu fascismo imaginário, e a conversa sobre impeachment começou imediatamente após Trump tomar posse.

Faltava apenas um pretexto, e muito foi apostado no suposto conluio com os russos. De forma inédita, o aparato do Estado foi colocado a serviço de um partido, e o FBI de Comey não se importou em usar dossiê falso pago pelos democratas para tentar incriminar um presidente eleito. Os "resistentes" ameaçavam as instituições republicanas de uma forma que nunca antes se viu, mas era Trump quem continuava produzindo calafrios nos democratas.

A mídia atuou como cúmplice na caçada, dando peso demasiado a qualquer tese conspiratória criada pelos democratas. Sua credibilidade desabava na mesma proporção em que o público ia ao delírio quando Trump acusava as fake news. O ódio ao presidente exalava das redações, e encontrava eco em Hollywood, com artistas revoltados com o governo.

Mas o caos não veio. Ao contrário: a economia retomou o crescimento, as minorias nunca encontraram tanto emprego, a América voltou a se destacar como líder global e colocar regimes nefastos em seus devidos lugares. A histeria dos raivosos crescia à medida que o sucesso do governo ficava inegável.

Eis o que a esquerda não compreende: sua raiva não é um argumento. Essa mania infantil de "cancelar" o outro pode funcionar nas redes sociais, mas em política existe a urna. Apostar num octogenário socialista para derrotar Trump é a grande tacada democrata? O que pode dar errado, não é mesmo?

RODRIGO CONSTANTINO


22 DE FEVEREIRO DE 2020
INFORME ESPECIAL

O bode e o machismo endêmico


Se a contabilidade fosse feita, descobriríamos que "Uber" venceu "machismo" no ranking das palavras mais pronunciadas da semana. O caso da menina que foi importunada por um motorista de aplicativo virou notícia no Brasil depois que o shortinho da Anitta entrou para o enredo - o acusado alegou que a vítima usava uma roupa provocativa demais.

Boa parte dos comentários reparte as culpas entre o acusado e a Uber. Não deixa de ser, também, uma forma camuflada de machismo. Tratar o problema como se fosse um tumor pequeno, localizado e facilmente tratável com uma cirurgia ambulatorial se traduz em uma receita simples: linchar virtualmente o infrator, depois acusá-lo de um crime pesado e daqui a algum tempo, se alguém ainda lembrar do caso, botá-lo na cadeia, de preferência para sempre.

O homem errou e seu erro não pode ser relativizado. "Não é não", ainda mais se uma menor de 18 anos estiver envolvida. Mas o motorista de Uber que importunou uma menina pode ser tudo, menos um caso isolado. Acontece nas empresas, nas universidades, nos clubes, na praia, no bar. Acontece dentro dos lares.

Quando todos os dedos apontam para a Uber e os pais, preocupados, anunciam que suas filhas nunca mais usarão aplicativos de transporte, enviamos mais uma vez o bode para o deserto. E lá, sob o sol escaldante do verão porto-alegrense, ele expiará nossos pecados. Poderemos, então, dormir em paz.

TULIO MILMAN

sábado, 15 de fevereiro de 2020



15 DE FEVEREIRO DE 2020
LYA LUFT

Vãs filosofias

Escrevi recentemente sobre a vida ser ou não ser justa. Tipo de filosofia de fundo de quintal ou beira de praia. No meu caso, poltrona da sala. Concluí que ela (a vida...) nem é justa nem injusta, porque não é uma pessoa ou uma deusa, não pensa nem escolhe quem vai ajudar ou arrasar.

A vida apenas é. E corre como aquele rio do tempo, nós sendo as pedras do fundo, buriladas ou esfoladas nesse curso que não cessa. Pode ser - pode ser apenas - que a gente possa conferir algum sentido aos nossos dias e noites e anos e décadas feitos de momentos. Há quem diga que devemos nos fixar nos momentos. Mas... e o que vem de arrasto?

Se formos otimistas de natureza e por convívio com família positiva, podemos dar a essa vida, apesar das trombadas e tropeços, algum significado: estou aqui pra aprender, pra ser melhor, pra produzir alguma coisa útil, seja ideia, casa, livro, cura, comida... para cuidar desses que destino ou acaso ou minha vontade botaram junto de mim... pra curtir, em suma.

O sentido talvez seja tentar ser uma boa pessoa. Primeiro dilema: o que é isso? Boa, boazinha, boba? Decente, gentil, esforçada, amiga, amorosa. Alegre quando possível, braba quando preciso, indignada sem se tornar chata... fiel e leal, não abandonar pessoas nem pets pelo caminho. Nem roubar dos ricos para dar aos pobres, nem dos pobres para encher a carteira. Ou trabalhar mais do que o possível, matar-se de lutar sem retorno, aguentar os chatos, os perversos, os burros arrogantes - pior de todas as pragas? Desculpem, isso não é vida.

Nem creio que a vida seja justa, nem que a gente deva ser sempre boa e merecedora do céu ou quaisquer alegrias. Mas acho, sim, que a gente poderia se esforçar para ser melhor em tudo ou em alguma coisa, até porque nós mesmos íamos nos sentir bem.

Lamentar-se demais não ajuda em nada, ficamos cansados de nós mesmos. Muitos enfrentam com heroísmo calado dores incalculáveis, físicas ou emocionais, e não jogam isso em cima de ninguém. Outros, porque choveu quando queriam ir à praia, envenenam o clima da casa com seu mau humor ridículo.

Viver é difícil, ah, sim. Por exemplo: fazer e ter filho é tudo de bom, mas educar é aquele drama se não tivermos bom humor, espírito prático e sensatez. Bom senso anda fora de moda, vivemos de receituários malucos, mas, às vezes, é bom parar pra pensar (sem desmoronar): o que seria melhor agora, com essa pessoa, essa amiga, esse filho ou parceiro, ou... comigo mesma? Viver sozinho é o desejo de muitas pessoas, eu, por exemplo, não me imagino só com cachorrinho e eventual diarista. Minhas funcionárias estão comigo há décadas, são pessoas minhas. Filhos aparecem, netos e netas idem, falamos muito no whats, e o marido está aqui firme, quieto, amigo, e escrevendo suas coisas incríveis.

Não há respostas prontas, nem há essa justiça da qual tanto reclamamos. Mais um trabalhinho para os pobres seres humanos: inventar a vida.

(Eu não tenho a receita .)

LYA LUFT


15 DE FEVEREIRO DE 2020
MARTHA MEDEIROS

Essa mensagem foi apagada

Tenho certeza de que já aconteceu de você começar a discar um número (na época do telefone discado) e desistir antes de completar a ligação. "Não, não vou ligar agora, é tarde, vou deixar pra amanhã".

Também já deve ter escrito uma mensagem por e-mail e deletado antes de enviar. "Ih, bebi demais, vou acabar me arrependendo de ter escrito isso".

Em uma noite de sábado, ficou dentro do carro estacionado na frente do prédio de alguém, pensando: "Entro ou não entro?". Saiu do carro, caminhou até o painel do porteiro eletrônico, chegou a posicionar o dedo em direção ao número do apartamento desejado e pensou: "E se ela estiver com outro?". Voltou para o carro, deu a partida no motor e sumiu na escuridão, sem saber que ela estava sozinha e que, se você tivesse tido a coragem de se anunciar pelo interfone, o destino de vocês teria sido espetacular. Seu banana!

Ela nunca soube. Ninguém nunca soube das nossas desistências. Aquela vez em que quase entramos na sala do diretor para pedir demissão, mas recuamos. A vez em que quase tentamos o suicídio, mas caímos na real antes de fazer a besteira. E mais uma tonelada de "quases" que também fizeram parte da nossa história, mas de que os outros não foram informados.

(Fiquei imaginando agora que meu personagem, aquele que voltou para o carro, deveria se declarar para a moça do apartamento, mesmo com 20 ou 30 anos de atraso - seria uma cena poética, ainda que nada se possa fazer com um amor desperdiçado).

Mas não é sobre poesia essa crônica. É sobre sadismo essa crônica. Chegamos ao assunto: qual a razão de o WhatsApp comunicar que uma mensagem foi apagada? Ora, se a pessoa se arrependeu do que enviou, ela apaga discretamente e fim, encerrado o assunto. Qual a vantagem de o interlocutor ser avisado de que alguém desistiu do que escreveu pra você? Sadismo. Você nunca saberá se a pessoa apagou porque cometeu um atentado contra a ortografia, ou porque se deu conta de que estava num grupo onde havia alguém que não poderia ler aquilo, ou porque fez um comentário político e estremeceu ao lembrar a enxurrada de agressões que receberia. Animal! Demente! Ignorante! Vá que não estivesse num dia bom para lidar com o linchamento usual. Melhor não. Nada de política hoje.

Essa mensagem foi apagada.

Qual a bomba que terá sido desativada a tempo? Por alguns minutos, ficamos especulando. Uma traição seria denunciada. Viria uma fofoca daquelas. Uma foto que faria o governo cair. O pedido de perdão que tanto aguardávamos. Um nude! Claro, um nude é bem provável. A mensagem não teria sido apagada por causa de um simples erro de digitação, certo que era uma obscenidade das boas - e que nunca adivinharemos. Sadismo, WhatsApp, sadismo.

MARTHA MEDEIROS


15 DE FEVEREIRO DE 2020
CARPINEJAR

Invisíveis mudanças

As transformações pessoais não acontecem de repente, por mais que se deseje cumprir uma resolução de um dia para o outro.

O que realmente nos modifica é ser capaz da metamorfose em segredo, invisível, sem placa de reconhecimento, bônus e post nas redes sociais. Aguentar o tempo que ninguém notará qualquer diferença, seguir com a solidão do esforço, na ausência de estímulos externos, porque se quer, não porque se deseja impressionar alguém ou colher os louros do resultado.

O mais difícil é fazer não sendo visto, perder um quilo de cada vez, durante meses, e não os oito pretendidos de uma vez por todas em semanas, para não se incomodar mais com o assunto e festejar com uma foto de antes e de depois.

Os gramas doem, pela sua imprevisibilidade. Assim como foram conquistados de jeito penoso e vagaroso podem ser perdidos rapidamente. Não haverá empatia da família para ajudar com o regime ao lado, todos seguirão esnobando com os seus prazeres e excessos. Até para testar a sua resistência, encarnarão a fantasia de demônios oferecendo tentações e eufemismos.

O engajamento é sempre individual. Não adianta exigir companhia, álibis e parcerias para manter uma decisão.

Mudar significa enfrentar o mundo e suas engrenagens automáticas. Romper com um padrão de convivência. Sair mais cedo da mesa, abandonar a sobremesa, largar alegrias conhecidas e compensações habituais pelos sacrifícios do trabalho.

Mas não existe uma segunda opção senão passo a passo, palmo a palmo, grão a grão. O ponto de partida será impraticável quando só enxergarmos o ponto de chegada.

É cansativo, porém verdadeiro. Constrangedor, porém honesto.

A pequena mudança, quando levada a sério, mostra-se contagiosa, despertando grandes mudanças.

Aquele que não caminhava, ao vencer a primeira e angustiante fase de adaptação, onde não há incentivo, encontrará confiança para correr.

Suportou o desgosto da discrição para alcançar o amor-próprio, que não depende da opinião alheia. Deixa de buscar corresponder às expectativas para se desafiar. Sem perceber, estará participando de meia maratona, atravessando 21 quilômetros impensáveis. Daí descobre que tem potencial para exigir do fôlego o que julgava impossível, e se inscreverá em maratonas, com o dobro do percurso. Nunca mais vai parar, viajando o mundo para participar de seletivas e trocando experiências e macetes com os competidores para aumentar a performance. Primeiro, achava que não dava conta do espaço, agora já se preocupa em diminuir o tempo das provas.

O corpo se molda às intenções da alma, jamais o inverso. Estar feliz consigo mesmo, independentemente da aparência, é a única liberdade que podemos desfrutar nesta vida.

CARPINEJAR


15 DE FEVEREIRO DE 2020
LEANDRO KARNAL

A MORTE ETERNA

O NAZISMO É MORTE PERMANENTE PORQUE CONTINUA SEDUZINDO PESSOAS, PROVOCANDO ESTÉTICAS, ESTIMULANDO VÍDEOS QUE AINDA FAZEM REFERÊNCIAS AO CARÁTER ASSASSINO, VIOLENTO E AUTORITÁRIO DO PROCESSO.

Em fevereiro de 1920, há exatos cem anos, o Partido dos Trabalhadores Alemães (Deutsche Arbeiterpartei, DAP) virava o partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei, NSDAP). Crescia a liderança de Adolf Hitler no grupelho. O bizarro núcleo de associados olhava com medo e desconfiança o aumento da crise alemã desde a derrota na Grande Guerra. O risco de um golpe de esquerda, o desemprego, a humilhação nacional no conflito de 1914-1918 e os sonhos messiânicos de uma Alemanha forte outra vez animavam aqueles seres que se reuniam em cervejarias.

As ideias eram variadas, e os membros tinham um espectro amplo. Porém, o que unia todos era o nacionalismo, o discurso antidemocrático e antiliberal, o caráter anticomunista e, acima de tudo, um entranhado e sólido antissemitismo.

O antissemitismo germânico, infelizmente, não existia de forma isolada. Havia teóricos mais organizados na França republicana ou na Rússia. Massacres de judeus eram rotineiros nos territórios vizinhos do czar em pleno início do século 20.

Nos Estados Unidos, da mesma forma, vicejava uma vasta onda de ataques. Também lembramos, em 2020, o centenário da infame obra de Henry Ford, o magnata dos automóveis: O Judeu Internacional. O pensamento do empresário seria bem recebido do outro lado do Atlântico: Ford foi condecorado pelos nazistas com a mais destacada honra para um estrangeiro: a Grande Cruz da Águia Alemã. Nos Estados Unidos e no resto do mundo havia apoio a "melhorias raciais".

O discurso contra os judeus apresenta raízes históricas muito antigas, porém foram os doentes mentais as vítimas de práticas agressivas nas democracias e na Alemanha nazista. O antissemitismo e a eugenia contra "fracos" unificavam o ódio nas ditaduras e nas democracias.

O nazismo é um traço terrível da história mundial. Da mesma forma, outros Estados totalitários, como o stalinista, mostram que a opressão absoluta e criminosa não é um acidente. O que mais incomoda, em todo caso, é a permanência de adoradores da barbárie.

O caso recente com o ex-secretário Roberto Alvim é emblemático. A demência é uma hipótese confortadora, porque implica inserir o nazismo no quadro das perturbações cerebrais. Seria bom se todo nazista do passado ou todo simpatizante do presente fosse um caso de disfunção. Infelizmente, a realidade é outra. O "mal banal" de Hannah Arendt, a "psicologia de massas" de Reich, a amnésia seletiva de Cidade Sem Passado (Das schreckliche Mädchen, 1990, Michael Verhoeven), o pungente texto de Primo Levi (É Isto um Homem) são alguns elos para entender o fenômeno mais além do delírio. O nazismo contém uma vontade de controle, um sentido de missão, uma violência unificadora de grupos e uma catarse social muito além da simples idiotice individual.

Nós, humanos, carregamos dores imensas, ressentimentos, preconceitos, análises rasas em muitos campos, cegueiras, memórias deformadas sobre nós e nosso papel no mundo, questões sexuais problemáticas, ódios familiares mal disfarçados, confusões internas, angústias e todos os males que a caixa de Pandora ainda puder conter. Faz parte da nossa constituição psíquica um fluxo expressivo de pulsão de morte, no sentido técnico da expressão freudiana e no mais amplo e metafórico alcance do termo. O nazismo consegue pegar toda essa dor e dirigi-la a um foco. 

Cria um eu ideal, inexistente na prática, o ariano puro (pode ser o militante, o cidadão de bem) e um inimigo perfeito, o judeu (ou a feminista, o conservador etc.). Todo o bem flui de um e todo o mal de outro. Você é fraco intelectualmente? Basta repetir slogans e, pela insistência e pela câmara de eco do comício (ou do grupo de WhatsApp) você passa a pensar que aquela ideia tênue e rasa é compartilhada por outros e, de repente, uma coisa sem nexo ou base vira um clichê coletivo.

A sedução do nazismo (ou do stalinismo, ou da ortodoxia religiosa fundamentalista ou de qualquer pensamento que elimina a crítica ou o contraditório) é sempre a mesma: alça a cargos e ao microfone gente ruim, medíocre, fraca e que ganha o poder por força da circunstância. Essa gente encarna a morte que não queremos ver em nós, mas desejamos atribuir a outros. Exorciza insignificância por mostrar outro ser comum (como o Führer) repetindo o que eu sempre desconfiava na minha escuridão interna.

O nazismo é a morte permanente porque continua seduzindo pessoas, provocando estéticas, estimulando vídeos que ainda fazem referências ao caráter assassino, violento e autoritário do processo. O nazismo já seria execrável para sempre pelos 6 milhões de judeus mortos e por outras vítimas como os dissidentes, comunistas, gays, Testemunhas de Jeová, comunidades Roma e Sinti e tantos outros. Só existia uma opção, ser ou parecer aderir ao modelo que o famigerado Goebbels defendia: integrar-se à cultura única ou desaparecer.

Milhões morreram por essa sedução tétrica de poder e de distopia destruidora de pureza. Isso já seria trágico. Que alguém ainda se deixe seduzir por tais ideais é ainda mais assustador. Cem anos do partido nazista e uma eternidade insuportável de sedução pela morte. É preciso ter muita, muita, muita esperança para sair da sedução do mal. Ele é banal e pode ocupar cargos.

Historiador, professor da Unicamp, autor de, entre outros, ?Todos Contra Todos: o Ódio Nosso de Cada Dia?.
LEANDRO KARNAL

15 DE FEVEREIRO DE 2020
FRANCISCO MARSHALL

GIORDANO BRUNO E A CENSURA


Em 17 de fevereiro de 1600, ardeu em uma fogueira no Campo dei Fiori, em Roma, o corpo ainda vivo de um dos maiores pensadores da História, Giordano Bruno (1548-1600). Acusado de heresia, foi preso por autoridades católicas em Veneza, em 1592, e transferido para Roma, em 1593, onde foi mantido preso, torturado e julgado pelo tribunal da Santa Inquisição. Em 20 de janeiro, o Papa Clemente VIII o declarou herege, e logo o colégio de 8 cardeais-juízes proferiu a sentença de morte e o entregou às autoridades civis de Roma, em 8 de fevereiro. 

Na manhã daquela quarta-feira de cinzas, Giordano foi conduzido à praça com a língua presa (ou cortada), atado em uma estaca, nu e de cabeça para baixo, e incinerado, enquanto um coro cristão cantava litanias diante do povo. O cardeal Bellarmine, líder da acusação a Giordano Bruno, foi canonizado pela Igreja Católica em 1930. O Vaticano jamais desculpou-se por esse assassinato, e ainda sustenta que estavam certos ao condenar o pensador à morte e executá-lo com requintes de crueldade.

Esse destino pavoroso fez de Giordano Bruno o maior mártir do livre pensar, e o mais veemente sintoma da intolerância contra a ciência e a cultura. Entre as 12 acusações apresentadas (e refutadas por Giordano), predominavam temas religiosos, mas causava escândalo sua tese cosmológica sobre o infinito do universo e dos mundos (planetas), enunciada em um livro publicado 1584, em Londres, um admirável diálogo filosófico. 

Giordano herdara a tese sobre o infinito do erudito cardeal alemão Nicolau de Cusa (1401-1464), mas dera a ela renovado e vigoroso argumento. Familiarizado com a teoria heliocêntrica de Copérnico (1473-1543), Giordano acrescentava argumento teológico: se deus é infinito, sua obra deve ter a mesma natureza. Apontava, então, para o que é hoje uma das metas da astronomia, a busca de planetas similares à Terra (exoplanetas) orbitando em torno de outras estrelas do universo, tema de projeto concebido por Carl Sagan (1934-1996) e realizado pela Nasa. Giordano Bruno, um precursor, sofreu a incompreensão de sua era e pagou com sua vida pela ignorância de seus contemporâneos.

Em 1603, a obra de Giordano Bruno foi inscrita no Índice de Livros Proibidos da Igreja Católica. Iniciada em 1557, essa lista complementou o trabalho repressivo da Inquisição e condenou milhares de obras e autores por muitos séculos. Em sua última edição, em 1948, censuravam-se 4.327 obras, de autores como Thomas Hobbes, René Descartes, Immanuel Kant, Émile Zola e Simone de Beauvoir. Em 1966, o Vaticano concluiu que, dada a imensa quantidade de publicações na atualidade, já não teriam como controlar, e descontinuou a lista, mas manteve-se a condenação moral a todas as obras listadas até então.

O estudo da História costuma revelar o quão terrivelmente atuais são muitos fatos do passado. Todavia, indiferentes à estupidez dos censores, autoras e autores escrevem sempre visando ao futuro de ideias, que chegam aos seus sentidos, e animam a perpetuação da inteligência, da beleza e da liberdade.

Historiador, arqueólogo e professor da UFRGS | marshall@ufrgs.br - FRANCISCO MARSHALL



15 DE FEVEREIRO DE 2020

DRAUZIO VARELLA

DO SISTEMA PENITENCIÁRIO BRASILEIRO E DAS LEIS QUE NÃO SE CUMPREM

No livro "A Prisão", criminalista recupera a origem, a evolução e os problemas dos presídios

As prisões de antigamente serviam para trancar escravos e prisioneiros de guerra. Fora dessas categorias, albergavam apenas criminosos à espera de julgamento ou a serem torturados, prática legal naqueles dias. A partir do século 18, no entanto, a finalidade do encarceramento passou a ser isolar e recuperar o infrator. Houve um direcionamento novo da arte de fazer sofrer, como disse Foucault. Assim começa o excelente livro A Prisão, do criminalista Luís Francisco Carvalho Filho.

O autor parte de uma análise dos dois sistemas penitenciários americanos que influenciaram a organização dos presídios no final do século 19: o sistema da Filadélfia e o de Auburn. O primeiro preconizava isolamento em cela individual, silêncio absoluto, castigo físico para os desobedientes e vigilância permanente. O outro, além do silêncio e das punições físicas, propunha oito horas de trabalho diário nas oficinas.

Mais tarde, com o aumento progressivo do número de presos e do custo para manter prisões com celas individuais, a adoção desses sistemas se tornou impraticável. Entrou, então, em moda um modelo criado na Irlanda, segundo o qual a pena seria cumprida em três fases: na inicial, os detentos deviam ser mantidos em regime celular, isolados, em silêncio, com "trabalho duro e alimentação escassa"; depois, vinha um período intermediário de trabalho em grupo, ainda em silêncio, mas com isolamento apenas noturno, no qual os bem comportados ganhavam o direito de adquirir a liberdade condicional, terceira fase da pena.

Em seguida, o autor mostra como evoluíram as prisões brasileiras, das cadeias localizadas no andar térreo das Câmaras municipais, sem muros, com grades que davam para a rua, através das quais os presos pediam esmolas aos transeuntes, até a construção das primeiras Casas de Correção, em São Paulo e no Rio de Janeiro, nos anos 1850.

Nelas, como descreveu Fernando Salla, na publicação mais completa sobre o assunto (As Prisões em São Paulo: 1822 - 1940, Annablume, 1999), os presos eram condenados ao trabalho forçado, à prisão perpétua, ao açoite nos calabouços, e, numa demonstração clara de arejamento do sistema, os escravos não podiam mais ser condenados à morte nem a receber mais do que 50 chibatadas por dia. Esse apanhado histórico é apresentado de uma forma concisa, que prende a atenção do leitor, para entender como surgiram nossas prisões modernas, das quais a Penitenciária de São Paulo, construída em 1920, encarnava a nova filosofia de tratar o criminoso como doente e a cadeia, como hospital destinado a regenerá-lo.

Ao chegar à situação atual das 871 prisões brasileiras, com suas 107 mil vagas, Carvalho Filho abre caminho no emaranhado de artigos de nosso Código Penal para deixar claro o que poucos sabem: quando a pena é superior a oito anos, o condenado deve cumpri-la em regime fechado. Quando não é reincidente e a pena é inferior a oito e superior a quatro anos, poderá ser cumprida em regime semiaberto. Se for inferior a quatro anos, o principiante pode ir direto para o regime aberto. Além disso, cumprido pelo menos um sexto da sentença, o preso de bom comportamento que não tenha cometido crime hediondo tem direito de passar de um regime para o seguinte, isto é, do fechado para o semiaberto e deste para o aberto.

Consideremos ou não que "lugar de bandido é a cadeia", essas são as leis do país. Se são frouxas para conter a escalada do crime em nossas cidades, devem ser mudadas urgentemente. Mas, enquanto não o forem, precisam ser respeitadas. O não cumprimento delas é, em minha experiência, a principal causa das rebeliões em nossas cadeias. Embora a sociedade não tenha interesse nesses detalhes legais tão bem resumidos no livro, eles são recitados de cor pelos principais interessados: os que infringiram a lei. Ladrões, receptadores, traficantes, estupradores e autores de crimes de morte impressionam o interlocutor pela familiaridade com o Código Penal.

Sabem os números dos artigos em que foram enquadrados, a pena máxima a que podem ser condenados e todas as atenuantes que os favorecem. Muitos repetem o palavreado jurídico e encaminham petições como se fossem advogados - com mais precisão técnica do que alguns profissionais, como costumam afirmar. Se um homem está condenado a seis anos de reclusão e a lei diz que depois de cumprir um sexto da pena ele tem direito de ser transferido para o regime semiaberto, ao completar um ano de cadeia, vai querer ir embora dali. Se a lei assegura que, cumprido um terço da pena, o preso pode pleitear livramento condicional, por que os que têm advogado conseguem esse benefício e os mais pobres não?

No final do livro, o autor analisa as principais controvérsias sobre as causas e tratamentos da violência urbana que nos aflige. Mostra que o custo da manutenção daqueles que foram condenados por crimes não violentos no país (cerca de 30% do total de criminosos) seria suficiente para construir 54 mil casas populares por ano e que o problema da segurança pública nunca será resolvido com a retórica dos demagogos, que prometem devolver segurança imediata à população através de programas do tipo "tolerância zero".

Como Carvalho Filho explica com toda a propriedade, "não há perspectiva de melhoria nesse campo sem a implementação de uma série de políticas que envolvem desde medidas aparentemente singelas, como iluminação pública e criação de áreas de lazer para a população periférica, até reformas muito profundas, voltadas para a reversão do processo de exclusão econômica e para o aperfeiçoamento das instituições policiais e judiciárias".
DRAUZIO VARELLA


15 DE FEVEREIRO DE 2020
MONJA COEN

PARINIRVANA DE BUDA

Hoje é o dia do Parinirvana de Xaquiamuni Buda, de acordo com estudiosos e pesquisadores das grandes universidades do Japão.

Parinirvana significa o Nirvana final. Nirvana é paz resultante da sabedoria correta, sabedoria que nos permite atravessar o oceano de nascimento, velhice, doença e morte com tranquilidade e plenitude.

Nirvana pode ser alcançado por você, agora. Pode ser obtido, penetrado, reconhecido quando há contentamento com a existência, tranquilidade, sabedoria e compaixão. A palavra em si significa extinguir - extinguir as oscilações da mente. A mente não cessa, continua a fluir, mas reconhecemos alegrias e tristezas, ganhos e perdas, luz e sombra. Percebemos a impermanência e a interdependência de tudo e de todos.

Parinirvana é o grande final, a grande paz e tranquilidade. Morrer bem.

Não é suicidar-se, não é provocar a sua própria morte ou a morte de alguém. É compreender a impermanência e a interdependência. É fazer o seu melhor. É apreciar a existência.

Buda se esforçou sem esforços inúteis. Nasceu, envelheceu, adoeceu e morreu - entrou em Parinirvana.

Estava com 80 anos de idade, quando assim se deu. No meio de uma noite silenciosa, sem nenhum rumor. Deu seu último ensinamento - o Breve Parinirvana Sutra, recomendando aos seus discípulos que não se lamentassem e que o mantivessem vivo através dos ensinamentos e da vida pura.

Deixou muitos discípulos e discípulas, que se espalharam e continuam se espalhando pelo mundo.

Durante sua vida, teve muitos contestadores - alguns se tornaram seus seguidores. Teve um primo invejoso, Devadata, que queria ser um Buda. Faltava-lhe, entretanto, a sabedoria plena, a mente de Nirvana, o olho tesouro do verdadeiro ensinamento. Tentou dividir a comunidade, chamada de Sanga. Dizia que Buda estava idoso e fraco, que apenas ele, Devadata, era capaz de reativar a comunidade por ser jovem e forte. Alguns o seguiram. A comunidade se dividiu. Entretanto, não demorou muito para que percebessem o engodo e voltaram a Buda. Devadata ficou furioso e tentou matar Buda ao jogar sobre ele uma pedra de cima de um desfiladeiro. A pedra caiu antes de Buda passar, e um estilhaço feriu seu pé. Por isso, ao morrer, surgiu para Devadata um mundo de grande sofrimento. Mas o primo faltoso, nesse último momento, se arrependeu e invocou: "Namu Xacamuni...".

Por haver se arrependido e invocado o nome do Iluminado, abriu-se a ele um mundo intermediário. A força do arrependimento modifica o carma, abranda seus efeitos.

A história acima é do Buda histórico, que viveu há mais de 2,6 mil anos. Chamaram-no de Xaquiamuni - o sábio da tribo dos Xaquias.

Ele nunca se intitulou Buda ou Muni - ele foi assim chamado por pessoas que o ouviram, entenderam e praticaram seus ensinamentos para acessar a mente iluminada.

O que é a mente iluminada? É a mente que vê com clareza a realidade assim como é. É a mente que discerne de forma correta como responder -sem ofender, sem ser ofendido. Reconhece o que é, no assim como é.

O assim como é, esse é movimento e transformação.

"Nada tem uma autoidentidade substancial separada e independente."

Pense nessa frase. Medite. Reflita. Reconheça. Agradeça.

Mãos em prece

Monja Coen escreve a cada 15 dias neste espaço - Na próxima semana, leia a coluna de Bruna Lombardi.

MONJA COEN


15 DE FEVEREIRO DE 2020
J. J. CAMARGO

RIVALIDADE, O ANTÍDOTO DA MEDIOCRIDADE

A GERAÇÃO MIMIMI SE ENCANTOU TANTO COM A INFORMAÇÃO DE QUE A INFÂNCIA É SÓ PARA BRINCAR, QUE NUNCA ACEITOU QUE ELA TERMINASSE

A competitividade deve ser estimulada, porque produz uma energia que nos expulsa da zona de conforto e nos empurra em direção ao nosso limite, que é onde descobrimos quem de fato somos. As exigências serão sempre exacerbadas, porque sem desafios nunca saímos da mesmice, esta condição amorfa que aprisiona e deforma o espírito, tornando-o incapaz de sentir mais do que pena de si mesmo. E por esta avenida se chega, sem surpresas, ao protótipo da geração mimimi, que se encantou com a informação de que a infância é só para brincar e gostou tanto da ideia, que nunca aceitou que ela terminasse; aos 30 anos, ainda mora na casa dos pais e sistematicamente reclama se ninguém foi capaz de arrumar-lhe a cama.

Este tipo se diz socialista, mas se atrapalha se alguém perguntar o que isso significa, sente uma energia indescritível quando abraça uma árvore, sonha morar no Tibete, faz de conta que se interessa pelos direitos humanos, se compadece das crianças pobres de Burkina Faso, mas nunca se oferece para um voluntariado na pátria-mãe. Como exagero de tristeza cansa, só viaja em classe executiva, pelo menos enquanto os pais viverem para assegurar-lhe uma mesada que inclua o acesso ilimitado ao cartão de crédito, e as maravilhas da cibernética com planos de renovação automática e débito em conta. É impossível esperar competitividade de quem acredita que buscar o corte de cabelo mais bizarro e cobrir o corpo das tatuagens mais grotescas torna-o merecedor de algum troféu.

Como esse modelo de jovem se generalizou, vamos ter que apegar-nos às exceções se quisermos produzir uns tipos vencedores, que daqui a algumas décadas possam sentar com os netos empoleirados nos joelhos e perceber o quanto eles estão orgulhosos das histórias que o avô tem para contar.

Lamentavelmente, somos muito mais afeitos a reverenciar os que conseguiram vencer do que a batalhar para copiá-los. Tiger Woods, que era só um jovem recolhedor de bolas no clube de golfe, teve de vencer a barreira étnica para se transformar no seu maior campeão. Ele cunhou a famosa frase:

- Quanto mais eu treino, mas sorte eu tenho!

Na semana da trágica morte de Kobe Bryant, as TVs americanas reproduziram suas proezas à exaustão, e havia nos comentários o deslumbramento da idolatria e, de quando em vez, algum ressentido ("Também ganhando o que ele ganhava, até eu faria sucesso!"), como se o sucesso tivesse chegado antes do trabalho.

Gostei de um debate entre dois especialistas da NBA, sobre quem tinha sido melhor, ele ou Michael Jordan. Depois da apresentação dos números impressionantes, que comparavam cestas, assistências, rebotes, desarmes, títulos e troféus ao longo da vida, um dos comentaristas argumentou que preferia o Jordan por ser mais vertical, e achava que o Bryant dava toques demais na bola.

Ao que o outro, mais velho, respondeu:

- Pode ser. A propósito, um dia ouvi de um crítico que Mozart colocava demasiadas notas nas suas composições!

A cara de surpresa do mais jovem me deixou com a impressão de que ele não estava se lembrando de ninguém com este nome na liga de basquete americano.

J. J. CAMARGO


15 DE FEVEREIRO DE 2020
DIANA CORSO

Preciosa

"Tinha quinze anos e não era bonita. Mas, por dentro da magreza, a vastidão quase majestosa em que se movia, como dentro de uma meditação. E dentro da nebulosidade algo precioso."

Essa personagem de um conto da Clarice Lispector, a cada amanhecer percorria a quadra até o ponto do ônibus que a levaria à escola. No veículo, temia que os trabalhadores, mesmo adormecidos, "lhe dissessem alguma coisa, que a olhassem muito". Por via das dúvidas, "fazia mais sombra do que existia".

No fim da infância de uma menina, os outros começam a ver algo que ela ainda não reconhece e detesta que mencionem. Como a flor acontece à planta sem olhos, os seios brotam, o corpo se esculpe, mas ela é cega às evidências do espelho. Leva tempo até incorporar o potencial erótico das modificações corporais pubertárias, mesmo que tenham chegado bem antes. Aliás, cada dia encontramos mais garotas que partilham seios e bonecas, a natureza deu de ficar apressada, mas a mente demora para acompanhar o corpo. Meninas são preciosas.

Certo amanhecer friorento, o dia demorou a se espreguiçar. Nossa personagem fazia seu percurso solitário no vazio de uma branca nebulosidade. Coração espantado, viu dois rapazes em sentido contrário. Envergonhada do próprio medo, descartou a possibilidade de recuar ou correr, apostou na invisibilidade. "Rígida, catequista, sem alterar a lentidão com que avançava, ela avançava." Porém, eles a viram e "quatro mãos a tocaram tão inesperadamente que ela fez a coisa mais certa que poderia ter feito no mundo dos movimentos: ficou paralisada". Eles saíram correndo, mas ela seguiu estátua. Retomou os movimentos minimalista, reaprendendo a andar. Passos quebrados, privada do garbo discreto da sua marcha, virou ninguém, "mais larva se tornou".

Infelizmente, na clínica de qualquer profissional da escuta, é raro uma mulher sem história de constrangimento, perigo ou abuso a contar. São traumas inaugurais, dos quais não provém nenhuma potência da sexualidade feminina. Possuir partes do corpo desejáveis não nos faz mulheres, mas há quem defenda os olhares lascivos e palavras obscenas como produtoras de um despertar. Nosso corpo não é uma lata, que aberta à força revelaria encantos.

Rapinar alguém como objeto sexual expulsa o humano do interior da pele. Um corpo se faz erótico somente através do desejo, ativamente. Os atos, os gestos, só vêm depois da fantasia. Não importa o que a imaginação antecipe, ela pode até providenciar cenas de passividade, a direção de cena será sempre de um sujeito.

Objeto é ninguém. Por isso, a reação ao abuso é de paralisia. É como se um vazio soprasse no pensamento. A vergonha, o pânico, que chegam depois, são como uma devolução do protagonismo sequestrado. Ainda bem que, cada vez mais, jovens feministas se preparam (e nos despertam a todas) para ser intolerantes ao assédio. Com Clarice, elas sabem-se preciosas, mas sem precisar fazer mais sombra do que existir.

*O colunista David Coimbra está em férias e retorna no dia 18/2

dianamcorso@gmail.com - DIANA CORSO - INTERINA



15 DE FEVEREIRO DE 2020
MÁRIO CORSO

Valterego

Devemos ao Lacaniano de Passo Fundo, dileto aluno do Analista de Bagé, o conceito de Valterego. Pois o Valterego, ou Valter para os íntimos, é a parte da nossa psique que nos defende. Em outras palavras, é o nosso pequeno advogado interior.

O Valterego encontra-se aboletado ao lado do Superego. Os dois vivem de dar cascudo no Id e empurrar o bagual para o fundo do galpão do inconsciente. Já o ego é quem aparta a briga dos outros três e põe de castigo quem não se comporta. Nós, como pessoa, somos o que sobra desse entrevero.

Quando somos acusados, justa ou injustamente, é o Valter que vem em nosso socorro. É ele que sussurra os argumentos do contra-ataque, que se indigna com gritos e coreografia, que arruma a melhor versão do acontecido, que faz o contorno da omissão, que bola as desculpas furadas, as mentiras descabeladas. Enfim, é uma das mais criativas partes da mente.

Sim, o Valter é um tanto amoral, mas tenta viver sem ele. Do jeito que anda a maldade no mundo, se não souberes te esquivar, vão passar por cima de ti, e dar ré na tropa para passar de novo. Depois te esfolam e dançam uma chula em cima do que sobrou do teu couro. E é na ausência do Valter que acontece o sincericídio, doença grave, quando se entrega a rapadura por nada.

Sabes quando tu escutas aquela de que o cachorro comeu o tema de casa? Pois é o Valter. Já pegaste que o Valter é enfático, teimoso, mas não muito esperto. Ele tenta contrabalançar com energia seu pouco tutano. É persistente: quando vemos, o assunto tem mais volta do que rolo de fumo. O índio do outro lado fica tonto de tanta lorota, já não sabe no que acreditar.

Mas tudo vai do tamanho do Valter. Se sem Valter é ruim, com muito Valter é pior. O perigo é que um vivente, de tanto usar o Valter, vai deixando ele se agrandar. E o Valter vai se aquerenciando nas rédeas do mando e, quando menos esperas, um golpe: o Valter se aboleta na sela do ego e o desbanca. Ele deixou o paisano tão amarrado nas patranhas, que já não pode se virar sem as invencionices.

Saber se alguém está valterizado é fácil. É aquele que sempre tem razão, jamais escuta e já sai falando. Aliás, não fala, dá comício, mesmo para uma só pessoa. O Valter sabe que não tem bons argumentos, então o ataque é a melhor defesa. Vai na grosseria levando a conversa para lugar nenhum. Na sua lógica, ganha quem mais ofende, e o Valter é bom nisso: é seu chão.

A valterização é o avesso da autocrítica e do cuidado com o outro. Quem tem o melhor Valter pode até ganhar as discussões, mas se extraviou do jogo da vida. Trocou a verdade pelo orgulho. Seguirá sendo profeta dele mesmo, berrando para ver se ele mesmo, de tanto repetir, acredita em si.

MÁRIO CORSO


15 DE FEVEREIRO DE 2020
FLÁVIO TAVARES

AMAZÔNIA GAÚCHA

Para evitar erros, às vezes basta conhecer o que está ao lado e não vemos. No Rio Grande, as terras úmidas do Parque Nacional da Lagoa do Peixe são tão importantes quanto a floresta Amazônica para regular o meio ambiente não só aqui, mas em função do planeta.

Agora, porém, querem transformar o parque em mera "área de proteção" com atividade econômica, deixando de ser preservada e virando um trambolho.

A ideia é abrir "fontes de trabalho" às populações de Mostardas e Tavares, segundo projeto de lei do senador Luis Carlos Heinze. "De boas intenções, o inferno está cheio...", diz a ironia do velho ditado, aplicável aqui.

Em 1993, a Lagoa do Peixe foi declarada área de preservação internacional por suas terras úmidas, um "posto avançado" da biosfera da Mata Atlântica, berçário de espécies marinhas (camarão-rosa, tainha, linguado etc.), além de alimentar 300 espécies de aves, entre elas 35 migratórias, vindas do Hemisfério Norte, todas já catalogadas. Os banhados com 35 quilômetros de extensão e dois quilômetros de largura, entre a Lagoa dos Patos e o mar, são tão essenciais, que a ONU classificou a área como um dos "sítios Ramsar", zonas de importância internacional para preservar o planeta.

O bem-estar de todos depende da preservação das áreas úmidas, que (ao sequestrarem carbono) regulam o regime hídrico muito além da própria região. A Amazônia sequestra carbono por ser área úmida de floresta. O Parque da Lagoa do Peixe é úmido em si.

Eventual devastação em nome de falso "progresso" só acentuará estiagens como as atuais que assolam o Estado.

Na Capital, extensas sangas e riachos desciam do Morro Santo Antônio ao Partenon formando charcos, tal qual noutros pontos da cidade, mas foram soterradas pelo cimento armado. Sem elas, o ar piorou, pois esquecemos que banhado preservado é carbono sequestrado.

"Cada vez mais, os vivos são guiados pelos mortos", dizia Auguste Comte, como está no frontispício do templo positivista, na Avenida João Pessoa. O exemplo do que foram em vida abre portas ao futuro.

Na última semana, morreu no Rio de Janeiro o jornalista Jorge Miranda Jordão, que em 1961, como diretor da antiga Última Hora de Porto Alegre, numa edição extra levou às ruas o Movimento da Legalidade pela posse do vice-presidente João Goulart, vetada pelos chefes militares. Guiada pelo governador Leonel Brizola, "a Legalidade" foi o último grande movimento de massas do Brasil e derrotou o golpe militar derivado da renúncia do presidente Jânio Quadros.

Sem a argúcia de Miranda Jordão, a mobilização não chegaria ao povo tão rápido, quando os minutos eram vitais para unir o Rio Grande contra o golpe. A seu lado, presenciei tudo e dou testemunho para que o exemplo perdure.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

15 DE FEVEREIRO DE 2020
ARTIGO

APAREÇAM...

Acho muito imprudente dizer que a gente precisa de pouco pra ser feliz quando na verdade se tem tudo. Eu sempre tive muito. E, de um tempo para cá, venho dando valor para outras coisas e, acho que até pela idade, me tornei uma pessoa muito mais emotiva do que eu gostaria.

Na semana passada, voltei para Porto Alegre e, quando meu pai me deixou na rodoviária de Rio Grande, se despediu dizendo "aparece, filha!". Rapaz, isso bateu forte. Durante todo o trajeto fiquei pensando em quantas palavras cabiam em "aparece, filha". Fiquei imaginando o que meu pai queria realmente ter me dito. Talvez "vem me visitar", "estarei te esperando", "quando precisar, eu estarei aqui".

Eu também fiquei pensando em mais um montão de coisas. Quando foi que a gente deixou de marcar a próxima visita? Quando foi que as ligações se tornaram mais espaçadas? Quando foi que meu pai percebeu que minha vida é aqui e o quanto será que isso doeu nele? Quando foi que eu me tornei uma visita pra "aparecer" por lá?

Às vezes minimizar palavras também significa minimizar alguns riscos. E foi quando me dei conta de que ser adulto é engolir algumas lágrimas, diminuir algumas frases e dizer "aparece" quando se quer dizer "não vai embora".

Sei que a vida exige muito e que a gente não têm tempo pra fazer o tanto de coisas que gostaria. Eu sei também que tá todo mundo correndo atrás da máquina pra se tornar profissionais competentes, adultos saudáveis - de corpo e alma - e sair vencedor desse grande desafio que se chama viver. Mas eu acho, e acho mesmo, que a gente não pode esquecer de quem é realmente importante e do que é realmente essencial. A gente não pode esquecer, sobretudo, de ser. Ser feliz, ser honesto aos nossos princípios e, principalmente, ser presente na vida de quem a gente ama.

Vivam, alcem voo, sejam adultos competentes mas "apareçam" porque sempre vai ter alguém morrendo de saudade esperando nosso abraço. 

Advogada e especialista em Direito de Família e das Sucessões monicamagalhaes@outlook.com.br
MÔNICA MAGALHÃES

15 DE FEVEREIRO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

RASTEIRAS NO PALÁCIO


O jeito Jair Bolsonaro de conduzir sua equipe é uma linha de montagem de intrigas que atrapalham constantemente o bom funcionamento da máquina pública e, por via de consequência, produzem desnecessário atrito para a recuperação econômica do país. O episódio de esvaziamento e fritura progressivas de dois ministros gaúchos, Onyx Lorenzoni e Osmar Terra, revela mais uma vez que o presidente desconhece princípios elementares de gestão. Sem perfil para unir e motivar equipes e contagiado pela familiocracia que se instalou em Brasília, Bolsonaro deixa que o Palácio do Planalto, por natureza um ambiente de maledicências, torne-se uma central de rasteiras na qual a disputa pela ascendência sobre o presidente sobressai diante dos interesses mais amplos do país.

Seria injusto atribuir-se essa inabilidade de Bolsonaro à sua formação militar. Nas últimas décadas, as Forças Armadas vêm incorporando instrumentos de gestão de equipes, monitoração de metas e motivação de pessoal em paralelo ao modelo de muitas corporações privadas. O problema central se deve ao fato de o presidente ter transportado para o Executivo o mesmo estilo de seu gabinete de deputado, onde por 28 anos de rarefeita produção parlamentar as métricas de avaliação se resumiam à amizade e lealdade cega à visão do chefe.

Ao desconfiar daqueles que o cercam, silenciar questionamentos, por mais sensatos que sejam, e frequentemente humilhar colaboradores com luz própria, Bolsonaro age com um estilo imperial ultrapassado e ineficaz. Em contrapartida, ao prestigiar aqueles que se mostram mais fiéis à figura do presidente, deixa implícito que bajulação e obediência monolítica são razões para valorização, no lugar do que deveria ser uma meritocracia na defesa dos interesses nacionais.

Uma amostra do estilo rude e anacrônico de fritar colaboradores ao vivo já havia sido testemunhada pelo país nas saídas do ex-secretário-geral da Presidência Gustavo Bebianno e do general Carlos Alberto Santa Cruz, ex-secretário de governo. Pelo ritual, o chefe da nação drena gradativamente o poder do ministro, puxa - ou tolera que puxem - suas orelhas em público e atribui a fake news os rumores de demissão que pipocam na imprensa, para então, já num clima de esgarçamento, forçar a saída do colaborador desgastado.

Esse jeitão faz a alegria das falanges bolsonaristas nas redes sociais, que vibram com falas toscas e carimbam vozes de dissensões, corriqueiras em uma democracia, como inimigos a serem aniquilados. Na prática, o modelo cria desavenças inúteis, nutre adversários imaginários ou não e redunda em um ambiente no qual, por medo de cair em desgraça, alguns dos escalões mais altos do país, que deveriam estar focados na busca de soluções, murmuram lamentos sobre o presidente e reclamam da influência de seus filhos pelos cantos.

A militarização do Palácio pode fazer brotar alguns sinais de mais sensatez e disciplina na gestão, mas não é o recomendável para se governar um país com enorme diversidade e divergência de pensamentos, além da constante necessidade de negociações com outros poderes e setores da sociedade. Os próximos meses demonstrarão, para o bem ou para o mal, os resultados dessa escolha do presidente.


15 DE FEVEREIRO DE 2020
CONSTANTINO

Indignação seletiva

A classe jornalística se uniu na última semana para prestar solidariedade a Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, que foi acusada pelo depoente da CPI das Fake News de ter oferecido sexo em troca de uma reportagem. A acusação, que contou com o respaldo do filho do presidente, denota extrema baixeza, especialmente por carecer de evidências, que na verdade apontam na direção contrária - o sujeito convidou a jornalista para um encontro, e ela saiu pela tangente.

A revolta, portanto, é legítima. O que, desnecessário dizer, não significa que a jornalista em questão seja um exemplo de imparcialidade. Ela é autora de uma reportagem de 2014 enaltecendo, por exemplo, o porto de Mariel em Cuba, e já confessou ser de esquerda e ter votado sempre no PT. Sua reportagem em foco na CPI se mostrou um tanto enviesada também, até porque a fonte, justamente o depoente, admitiu que disparou mensagens para o PT, não para Bolsonaro, que foi o destaque da chamada.

Não importa muito, no caso, a visão política da jornalista: o golpe baixo precisa ser denunciado e ponto. Há limites que não podem ser cruzados, onde acaba a civilização e começa a barbárie. Não vale tudo para detonar a reputação de adversários políticos. A Folha declarou guerra ao governo Bolsonaro, mas isso não dá o direito ao filho Eduardo de descer o nível desse jeito. A reação, em que pese a cortina de fumaça sobre o essencial, que foi a confissão de que o sujeito agia para o PT, é compreensível.

O que não é aceitável, porém, é a seletividade da indignação. Ela é perneta, e pula só com a esquerda. Quando Dora Kramer foi atacada de forma abjeta por Renan Calheiros, não vimos o mesmo espírito de corpo, e Rodrigo Maia não saiu da toca para repudiar a "difamação" e o "sexismo", como fez agora. Quando o ator José de Abreu fez insinuações asquerosas sobre Regina Duarte, tampouco vimos a mesma revolta.

E para não falar só de mulheres como alvo, quando o deputado do PSOL Glauber Braga chamou Sergio Moro de "capanga de milícia", houve um profundo silêncio. Um décimo da indignação já estava de bom tamanho! Mas sabemos que, no fundo, muitos jornalistas concordam é com o desqualificado comunista, o que explica a baixa credibilidade de parte da mídia...

RODRIGO CONSTANTINO

15 DE FEVEREIRO DE 2020
CARTA DA EDITORA

Referência no agro

Um dos patrimônios mais valiosos de que você, assinante de Zero Hora, dispõe são os colunistas. Não à toa, 80 deles escrevem nas páginas do jornal. Eles opinam, expõem diferentes visões de mundo, trazem informações exclusivas, antecipam o que será notícia. Quanto mais plural e variado for o cardápio, mais contemplados se sentirão nossos leitores. Um exemplo disso é a página 16 desta edição. A partir de agora, a colunista e comentarista de agronegócio da RBS Gisele Loeblein terá ampliada a sua presença em ZH. As suas colunas, até então publicadas de segunda a sexta-feira, serão estendidas para a edição conjunta dos finais de semana e passarão a se chamar Campo e Lavoura, mesmo nome que por 35 anos intitulou o caderno temático semanal de ZH - o suplemento teve sua última edição na semana passada e agora os conteúdos de agro passam a circular diariamente no caderno principal.

Ao reforçar a presença de Gisele, ZH nada mais faz do que acompanhar um Estado que a passos rápidos vem adotando novas tecnologias e substituindo antigos conceitos e práticas na agricultura e na pecuária.

- A coluna faz um giro de 360 graus pelo universo do agronegócio. São informações exclusivas, entrevistas, novidades, tendências. É um canal de comunicação desse setor tão importante para a economia do Rio Grande do Sul e que é essencial para a vida de todos nós - diz Gisele, que soma 20 anos de RBS, 10 deles no setor do agronegócio.

Os assinantes também passam a ter com maior frequência a publicação de reportagens sobre o meio rural. A que ilustra a capa desta edição, por exemplo, e que está publicada nas páginas 12 a 14, de autoria dos repórteres Fernando Soares e Isadora Neumann, mostra por que a colheita da maçã deste ano em Vacaria está diferente.

E vem muito mais por aí: na primeira semana de março, teremos a Expodireto-Cotrijal, feira considerada vitrine para quem quer expor o que há de mais avançado em tecnologia. Para Não-Me-Toque convergem autoridades, expositores e produtores de todo o Brasil e do Exterior. E é por isso que Gisele e uma equipe de reportagem estarão lá, acompanhando de perto os negócios, as novidades e os anúncios. Em 29 de fevereiro, dois dias antes do início da feira, e no dia 7 de março, um dia após o encerramento, ZH publicará dois suplementos mostrando tudo sobre a exposição e seus resultados.

E depois da Expodireto?

Aguarde a próxima parada do intenso calendário do agronegócio gaúcho.

DIONE KUHN - INTERINA

sábado, 8 de fevereiro de 2020



08 DE FEVEREIRO DE 2020
LYA LUFT

Vida injusta?

Estava eu assistindo a um jogo de futebol entre meu time e o adversário de sempre e o meu começou a perder. Soltei um gemido, um grito, quem sabe um palavrão. Uma de minhas netas, ainda pequena, saiu-se com essa frase lapidar, da qual não devia ter a menor noção, que até hoje cito e curto:

- Não fica chateada, vovó. A vida não é justa.

Achei graça porque a criança muito amada certamente não tinha experiência disso. Mas, como fazem as crianças, apanhava no ar coisas ditas por adultos na escola, na televisão, no mundo. E me disse aquilo com um jeitinho maternal, que meninas têm com pais, até avós, e me encanta.

A vida não é justa ou nós esperamos demais dela, querendo também ser crianças mimadas com tudo nas mãos... e de graça? Possivelmente sim. A vida é uma grande mãe generosa, paciente, eternamente disponível. E nos queixamos demais: o imposto, o governo, os governos, o patrão, o empregado, a mulher, o marido (mulheres se queixam muito mais frequentemente dos maridos do que vice-versa, que feio...). Do tempo, é um terror: bufamos por estar quente demais, passamos o tempo analisando a meteorologia em geral falha, ou tiritamos de frio fazendo a mesma coisa. Nos cumprimentamos já comentando com desgosto o calor ou o frio. Ou a chuva, ou a estiagem. Assim, a vida é dura mesmo.

Eternos insatisfeitos. Presenciei uma cena (divertidíssima porque não era comigo): pai, mãe, filhos adolescentes e avó no restaurante de praia, a céu aberto. Passa um pequeno avião, era tempo, eu acho, dos teco-tecos. O aviãozinho era amarelo. A avó comentou: Que bonito esse avião vermelho. Todos na mesa discordaram, ela discutiu, por fim acabaram se calando, pois em outras mesas pessoas já se viravam meio espantadas. Comeram, então, silenciosos. Adultos emburrados. Adolescentes contendo risadinhas. De repente a velhinha disse, alto e bom som:

- Mas era vermelho mesmo.

Para ela a vida devia ser muito injusta, pois não entendiam que ela estava com a razão. Avião vermelho e pronto, embora fosse de um amarelo brilhante. E assim tantas vezes sofremos sem motivo algum, por loucura nossa, por teimosia, por birra, por coisa nenhuma. Mas sofremos. Somos injustiçados, incompreendidos.

Uma velha dama da minha infância, avó de colegas minhas, não tinha uma só amiga, era temida pelas filhas e detestada pelos genros, tolerada pelos netos e netas. Comigo, sem nenhum laço especial entre nós, era sempre gentil. O bolo ainda morno, a flor do jardim do qual se orgulhava. Por que comigo? Talvez porque eu não tinha medo dela nem precisava gostar dela, pois não éramos parentes. Eu até gostava. Achava interessante aquela avó que não tinha muito jeito de avó (a das minhas fantasias seria sempre infinitamente paciente, discretamente divertida.)

Quem sabe a gente tenta fingir que não espera que a vida seja a grande mãe, a doce avó... e aí cada nuvem acumulada no céu, cada florzinha no capim mais reles da beira da calçada, cada sorriso gratuito de alguém desconhecido ou cada agrado de alguém muito querido nos deixará com a sensação de que, sim, a vida pode ser muito justa.

LYA LUFT