sábado, 2 de maio de 2020



02 DE MAIO DE 2020
COM A PALAVRA

MORO PODE RACHAR O APOIO MILITAR A BOLSONARO.

DENIS ROSENFIELD, filósofo e escritor, 69 anos Cofundador do Instituto Millenium e defensor do liberalismo, foi conselheiro do ex-presidente Michel Temer e é um crítico tanto do PT quanto de Jair Bolsonaro

Denis Rosenfield é um privilegiado espectador dos bastidores do poder. O filósofo e escritor porto-alegrense estava no Palácio do Jaburu quando o então presidente Michel Temer esteve prestes a renunciar, durante o escândalo da JBS, em 2017, circula com desenvoltura na cúpula empresarial, jurídica e de mídia do país e frequenta a casa do general Villas Bôas, o mais influente conselheiro do presidente Jair Bolsonaro na caserna. Crítico ferrenho do PT e radical defensor do ideário liberal, Rosenfield votou com convicção em Bolsonaro no primeiro e segundo turno das eleições de 2018. Não se arrepende da escolha, mas considera-se estupefato pela forma como o ex-capitão conduz os destinos do país. Como solução, advoga uma espécie de interdição do presidente, a ser conduzida pelos generais de terno que despacham no Planalto:

- Ele pode até continuar, desde que abra mão dos seus atos e arbítrios. Ficaria sem nenhum poder.

Confira a entrevista concedida por telefone a Zero Hora.

EM ARTIGO RECENTE, O SENHOR AFIRMOU QUE UMA CONFUSÃO ATUAL É ATRIBUIR UM EVENTUAL FRACASSO DO GOVERNO BOLSONARO A UM FRACASSO DA DIREITA. BOLSONARO NÃO REPRESENTA MAIS A DIREITA?

Muito antes da eleição ficou claro que havia acabado a polarização PT versus PSDB e que a disputa se daria entre Bolsonaro e Lula ou seu preposto (Fernando) Haddad. Então houve uma aglutinação da direita em torno de Bolsonaro, cujo vetor era bater o PT. Bolsonaro não ganhou por ser de direita, ganhou porque o PT tinha de ir embora. Várias pessoas me disseram: votei no Bolsonaro contra o PT. Esse era o inimigo. Era questão de viabilidade eleitoral.

E AGORA, BOLSONARO REPRESENTA O QUÊ?

A extrema-direita. Bolsonaro fez uma campanha muito bem feita, com uso intenso das redes sociais, embora hoje a gente veja a perversidade disso aí. Aliaram-se a Bolsonaro a direita liberal, a conservadora, incluindo os militares e os evangélicos. Hoje, a polarização mudou. É entre Bolsonaro e outro setor da direita, representada pelo (João) Doria. Pode ser também entre Bolsonaro e (Henrique) Mandetta ou entre Bolsonaro e (Sergio) Moro. Ou seja, há três candidatos da direita para 2022. E o PT desapareceu. Não soube se mostrar como protagonista, tem uma ausência completa de discurso. Acho isso bom, porque, quanto mais o PT silenciar, melhor para a democracia.

Por quê?

Porque os militares se uniram a Bolsonaro contra o PT. Fecharam com ele por não considerarem o PT uma alternativa séria, e sim uma esquerda atrasada. Tão atrasada que àquela época só se preocupava com seu líder político preso.

O senhor acredita que um PT fortalecido pode acabar levando os militares a dar respaldo aos espasmos autoritários de Bolsonaro?

Exatamente. E são mais do que espasmos: há uma tendência autoritária no presidente. Os militares hoje são democratas e constitucionalistas, mas essa tendência autoritária poderia obter respaldo militar por medo do PT. Desaparecendo o medo do PT, essa aliança se desfaz naturalmente. Pode demorar uns meses, um ano, mas se desfaz.

O senhor tem boa interlocução nas Forças Armadas. Os militares estão constrangidos no governo?

Falo em nome próprio, não como interlocutor. Não quero confundir nada. Os militares representam uma visão conservadora da sociedade. Prezam a família e sobretudo defendem a ordem pública e constitucional. O problema é que Bolsonaro não representa nem a ordem pública, nem a constitucional. O (vice, Hamilton) Mourão é um democrata com boa formação. Me surpreendeu uma fala do presidente dizendo que ele é tosco. Tosco é o Bolsonaro, que não leu nada.

Por que Bolsonaro recorre a essa retórica beligerante?

Bolsonaro segue um conceito de Carl Schmitt, teórico do nazismo, que distingue a política entre amigos e inimigos. É por estar baseado na eliminação do inimigo que vai continuar governando desse jeito. Quem são seus inimigos? Primeiro há os objetivos: Lula e o PT. Depois, os ficcionais: os comunistas em geral, até Moro virou comunista. Em seguida ele passa a atacar as instituições: o Supremo, o Congresso, a imprensa. Depois, devora os aliados. Inclusive os mais próximos, que são os generais, como Santos Cruz, Floriano Peixoto e Maynard Santa Rosa. Ele segue uma pulsão de morte, ele segue Tânatos, no sentido psicanalítico do termo.

Agindo assim, ele não pode estar provocando a própria ruína?

Claro. É só alguém subir na estima popular que ele demite. Veja o Mandetta. Não passa uma semana, ele destrói o Moro. E já está sinalizando que vai pegar o (Paulo) Guedes daqui a pouco. Com a demissão do Moro, ele destruiu sua própria narrativa de combate à corrupção para favorecer os filhos numa investigação da Polícia Federal. Não vai colar dizer nas redes sociais que Moro é comunista. Moro tem uma credibilidade própria junto à opinião pública. E os militares têm um apreço muito grande pelo Moro. Já testemunhei em várias ocasiões, tanto que há poucos dias o general Villas Bôas apoiou Bolsonaro na demissão de Mandetta, e agora (pós-demissão de Moro) disse: "Vamos esperar os desdobramentos". Ao dividir a base bolsonarista, Moro se torna alternativa de poder e pode rachar o apoio militar a Bolsonaro. Esse processo está começando.

Há uma grave crise institucional no horizonte?

O país está num grave processo de instabilidade política e institucional, mas as instituições democráticas têm se preservado. O Supremo está fazendo uma investigação das fake news e do suporte de Bolsonaro ao ato de apoio à intervenção militar realizado em frente ao quartel-general do Exército. Aquele é um lugar simbólico. Ao fazê-lo, ele quis suscitar apoio dos militares, algo que não tinha e que pegou muito mal.

Muito se fala que Bolsonaro já teria cometido vários crimes de responsabilidade. Há uma passividade nas instituições?

Não vejo assim. O Supremo está conseguindo se blindar e já lançou várias advertências a Bolsonaro. O Legislativo tem mostrado sua extrema inconformidade com tudo o que ele vem fazendo. A imprensa em peso é contra a política de Bolsonaro. Ele mantém uma base digital que, hoje sabemos, cerca de 50% é feita de robôs. Sobraram só os militares. E dentro dos militares, só o Exército.

Já se fala abertamente em impeachment. Há ambiente?

É uma solução. O Brasil não aguenta mais dois anos e meio de Bolsonaro. Ele está desmoronando. A não ser que se converta à racionalidade, prendendo os filhos em casa e se livrando dos ministros ideológicos, além dos incompetentes. Assim poderia reconstituir sua base. Pode vir a fazer, à medida que não tem alternativa. Mas não me parece que seu caráter conduza a isso, nem o da sua família.

Nem em renúncia o senhor acredita?

Não, porque essa distinção entre amigo e inimigo é atávica nele. Não sabe negociar, não sabe estabelecer diálogo, parceria.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso pediu a renúncia, para poupar o país de um impeachment.

Foi hábil. Ele advogou que o presidente seja renunciado. Quem pode renunciá-lo? O Exército.
Como? Tirando o apoio, saindo do governo?

Basta retirar o apoio, numa saída coletiva do governo. Poderia forçá-lo a renunciar ou a dar uma guinada no governo. Se os militares disserem que maluquice tem limite, o presidente ficaria dependurado na família.

Há disposição para isso?

Não sei, não tenho informação nesse sentido.

De onde vem o saudosismo com os militares? o milagre econômico durou cinco anos dos 21 da ditadura, e esta nos legou gigantismo estatal, crise econômica, hiperinflação, sem falar na restrição das liberdades.

O regime teve fases benéficas e outras nocivas. O governo Castelo Branco foi liberal na economia e nos costumes. A ideia era ficar pouco. Já o governo Geisel foi estatizante, desenvolvimentista. No governo Médici, houve o milagre econômico. Não cabe uma análise em bloco do período militar. O saudosismo vem da desordem pública. O PT também exagerou na dose do politicamente correto. Os evangélicos se fortaleceram e hoje são uma força política porque não aguentavam mais. Por que não fazer em doses homeopáticas, criando consensos, em vez de vir em intervenção estatal?

Essa aproximação com figuras do Centrão de longa ficha policial, como Valdemar Costa Neto e Roberto Jefferson, pode salvar ou enterrar o governo?

Enterra a narrativa de que ele estava empenhado na luta contra a corrupção. Vai pro lixo. Isso atinge a base dele também. Outra narrativa que vai ao brejo é a de que ele é contra os políticos, contra o sistema. E tem mais, esse pessoal é profissional na negociação de toda e qualquer espécie de coisa, por cima e por baixo da mesa. Eles prezam enormemente honrar a palavra. Prometeu, cumpriu. Bolsonaro já mostrou que não cumpre promessa.

Diante de um governo tão tumultuado, o que explica a anomia da oposição de esquerda?

O Brasil precisa de uma esquerda moderna, que pense o mercado, o Estado, a exemplo do que fez Tony Blair na Inglaterra. Lula fez um excelente governo no primeiro mandato, (Antonio) Palocci foi um dos melhores ministros da Fazenda do país. Palocci era um liberal, tinha o (Henrique) Meirelles no Banco Central. Foi substituído por (Guido) Mantega e Nelson Barbosa. Ou seja, passou de posições liberais para desenvolvimentistas que levaram a essa imensa crise econômica e fiscal do país. Depois, o PT hipotecou o partido para tirar o Lula da prisão. Não tem uma bandeira, não se renovou, não fez autocrítica, tampouco valorizou seus inúmeros aspectos positivos de antigamente, como a ampla democracia interna. Você pode não gostar daquele assembleísmo, mas tinha discussão e decisão coletiva. O Lula saiu da prisão e não tem mais o que dizer. É um partido monocrático. É só o que o seu Lula mandar. E, como o seu Lula não tem o que dizer desde que saiu da prisão, o partido não sabe o que fazer. Para o PT, era melhor o Lula preso.

Essa frente ampla anti-Bolsonaro que se cogita agora tem futuro?

Depende de quem participar. Se for liderada pelo PT, estamos perdidos de novo e Bolsonaro será reeleito. O grande ganho dos últimos tempos foi o leque da direita ter se aberto. Se essa frente de esquerda se unir a algum dos líderes da direita, qualquer um, pode ser um avanço. Mas, se a esquerda petista quiser capitanear, estamos perdidos.

Antigamente se falava que a utopia perfeita para o Brasil era unir a direita do PT com a esquerda do PSDB.

Agora ambos estão desacreditados e o PSDB já fez sua derivação para o Doria, que é a direita dos tucanos. Observo o Luciano Huck tentando uma aproximação de centro-esquerda, embora do ponto de vista econômico ele esteja alinhado ao Armínio Fraga, um liberal com sensibilidade social. Poderia dar certo, mas ele desapareceu na pandemia, ficou ganhando dinheiro fazendo propaganda da Magazine Luiza. Ele tem de escolher se quer ser presidente da República ou ganhar dinheiro. Nesse sentido, o Huck perdeu o momento. Pode até reconstruir esse polo de centro-esquerda, mas vai depender dos erros dos demais.

Tem bastante tempo para se reconstruir.

Tem bastante tempo para os outros errarem. Acho que ele ficou sem discurso e sem iniciativa. Huck era uma alternativa boa, mas se omitiu, e tem momentos na história do Brasil que você não pode se omitir. O Doria não se omitiu e não errou nada.

Em 2018 cogitaram-se Huck e o ex-ministro Joaquim Barbosa, que representava o combate à corrupção. Ganhou Bolsonaro. para 2022, se fala em Mandetta, o guardião da saúde, e Moro, o juiz que bota corrupto na cadeia. desse modo, Não poderemos ver o mesmo filme de novo?

Mandetta, (Rodrigo) Maia, Moro e Doria não se encaixam na ideia de salvador da pátria. Nenhum deles é um líder carismático como Lula e Bolsonaro. Huck tampouco. É excelente apresentador de televisão, mas não fez a prova de falar para uma multidão na rua e os caras ficarem gritando "mito, mito". O Brasil tem dois craques, Bolsonaro e Lula. Os dois são demagogos de alta competência. Nenhum do outros tem esse perfil. Não dá para ser salvador da pátria sem carisma. Os outros são políticos normais. Aliás, falam português, coisa que Bolsonaro e Lula não falam.

Depois de um governo tumultuado como o do ex-presidente josé Sarney, Fernando Collor surgiu como "caçador de marajás". Deu no que deu. Depois do impeachment de Dilma Rousseff e das denúncias contra michel Temer, venceu Bolsonaro, o mito. Estamos condenados a sempre buscar o salvador da pátria?

É um problema cíclico desde a redemocratização. Se tivermos mais um impeachment, será o terceiro em menos de 30 anos. É demais. O Brasil estava entrando num processo de reequacionamento das finanças públicas com o presidente Temer. Mas o governo acabou com as denúncias da JBS, o presidente ficou apenas na defensiva. Achávamos que Bolsonaro recuperaria esses ganhos, mas fez apenas a reforma da Previdência. Quando a pandemia chegou, a economia já estava caindo. E agora não se vê com clareza como sair desse processo. Se houver afastamento, por impeachment, por ser "renunciado", por processo do Supremo, assume o Mourão. Aí acho que teríamos um governo de direita conservadora, voltado para uma política liberal.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, é alvo constante dos bolsonaristas. No governo Temer, foi tachado de conspirador no episódio da JBS. Como o senhor o avalia?

Na crise do governo Temer, ele fez jogo duplo. Conheço os detalhes, eu estava no palácio naquele dia, fiquei o final de semana lá. Num determinado momento, quis ser real alternativa de poder, caso o presidente renunciasse - e ele esteve mesmo a ponto de renunciar. Depois se recompôs e conseguiu articular a base de apoio. Nesse mesmo momento, Maia mudou progressivamente de opinião. Inclusive por influência familiar, de que deveria ter papel institucional. E depois teve esse papel, agiu muito bem, inclusive na votação das denúncias contra o presidente. Acabou sendo fiel, apesar da dubiedade inicial. Depois desse episódio, ele amadureceu, tanto que foi o artífice da aprovação da reforma da Previdência, decisivo para o único êxito do governo. Manteve atitude profissional e tem sido importante para manter o equilíbrio republicano, mesmo sendo alvo dos ataques mais baixos nessa política do eterno inimigo cultivada por Bolsonaro, que só pensa na reeleição de 2022.

A direita liberal está escanteada do governo?

Não se pode confundir liberalismo com política de equilíbrio fiscal. Isso é ranço brasileiro. O liberalismo não tem nenhuma dificuldade em advogar por uma maior intervenção estatal em períodos de crise. Agora temos uma economia voltada à pandemia. Pega o discurso do Armínio Fraga, a favor de aumento da intervenção estatal nesse momento. O problema é confundir medidas provisórias, com validade de tempo determinada, com política perene. Foi o que o governo Lula fez. Começou com uma política provisória na crise de 2008 e se tornou política desenvolvimentista. Deu no que deu. O problema foi que o Guedes não soube contemplar esse aspecto na sua política liberal. Ele hesitou e ficou alienado no processo. Acabou aceitando relutantemente. Não foi protagonista, e o Brasil exigia um protagonismo. Nesse sentido, a ala liberal do governo está enfraquecida.

Nessa hesitação do Guedes, surgiu o Pró-Brasil. Faz sentido um plano nacional de desenvolvimento nos dias de hoje?

Não faz sentido nenhum. Isso é um PAC 3 da Dilma. Nem tem como fazer, o plano não detalha nada. É mera declaração de intenções. Não tem nenhuma eficácia. Baixou o espírito do governo Geisel num governo Bolsonaro que se pretendia Castelo Branco.

O ministro Guedes falou em atrair investimento privado. Como fazer isso numa pandemia?

Os investidores estrangeiros já não estavam botando dinheiro antes. Como vão botar agora? Investimento vem para um país com estabilidade institucional, marco regulatório, respeito aos contratos, honra à palavra, nada do que está acontecendo hoje. Não dá para contar com investimento privado.

Dá para ser otimista no brasil hoje? 

Eu não estou nem um pouco otimista.

FÁBIO SCHAFFNER


02 DE MAIO DE 2020
DRAUZIO VARELLA

O CORONAVÍRUS NOS FARÁ PAGAR A CONTA DA DESIGUALDADE SOCIAL

Eu me recrimino por ter compartilhado de um otimismo no início de tudo. É a primeira vez que a doença se dissemina num país continental com tantas diferenças quanto o nosso. Enquanto o coronavírus se espalhava pela China, o mundo avaliou mal a gravidade da epidemia. Hoje, sabemos que os números divulgados pelos chineses subestimaram a magnitude do problema.

Há poucos dias, Peter Doherty, que recebeu o Nobel de Medicina em 1996 por desvendar os mecanismos imunológicos na defesa contra os vírus, declarou ao jornalista Álvaro Pereira Júnior, no Fantástico, ter sido muito otimista no início da epidemia chinesa.

Eu me recrimino por ter compartilhado desse otimismo. Só fomos entender as dimensões da pandemia em meados de fevereiro, quando as UTIs dos hospitais da Itália ficaram abarrotadas de doentes com insuficiência respiratória. O mundo estava tão despreparado, que houve uma passeata com 200 mil pessoas pelas ruas de Madri, no mesmo dia em que os italianos decretavam o isolamento social.

Salvo raras exceções, o restante da Europa desenvolvida demorou a entender o alcance e as consequências da epidemia. Poupados por algumas semanas, os Estados Unidos não agiram melhor. O país mais rico do mundo tem mais mortes do que os outros porque foi surpreendido sem máscaras cirúrgicas, luvas e ventiladores mecânicos nem sequer para as necessidades básicas. Nova York assiste ao drama dos hospitais lotados, com caminhões frigoríficos estacionados à porta.

E o Brasil? Não sabemos exatamente, porque a experiência alheia nos é de pouca valia. É a primeira vez que esse coronavírus se dissemina num país continental, com tantas desigualdades sociais e regionais quanto o nosso.

Quando analiso a evolução da epidemia brasileira, no entanto, não consigo deixar de ser pessimista. Sem testar todos os doentes, dá para confiar nos números oficiais de infectados e mortos? Na verdade, estamos enfrentando no escuro uma tragédia de dimensões imprevisíveis.

Duas semanas atrás, alguém imaginava que Manaus seria a primeira cidade em colapso? Lá, as UTIs estão lotadas, faltam respiradores, equipamentos de proteção individual, médicos, fisioterapeutas e enfermagem com experiência em terapia intensiva. Os pacientes perambulam por unidades de saúde e prontos-socorros sem possibilidade de atendê-los, os enterros acontecem em valas coletivas.

Quando nós, médicos, falamos em colapso do sistema, talvez devêssemos ser mais claros. Colapso é uma situação em que os hospitais e os centros de atendimento ficam completamente lotados, sem condições de receber qualquer pessoa, tenha ela infarto, AVC, apendicite, desidratação ou covid-19. Sem vagas nas UTIs nem ventiladores mecânicos para todos, os médicos são obrigados a decidir quem vai morrer por falta de ar, a mais sofrida das mortes. Os menos afortunados enfrentarão essa realidade em suas casas ou nas portas dos hospitais.

O drama manauara não será exclusivo dos amazonenses. Estão próximos do limite de disponibilidade de leitos e ventiladores Belém, Fortaleza, Recife, Macapá, os hospitais públicos do Rio de Janeiro e até de São Paulo, cidade em que o SUS está mais bem estruturado.

A menos que a epidemia brasileira dê uma reviravolta para seguir trajetória diametralmente oposta à de todos os lugares por onde se alastrou, nosso sofrimento está longe de acabar. Há quanto tempo sofrem italianos, espanhóis, britânicos, americanos e os próprios chineses, povos que viram a pandemia se instalar várias semanas antes de desembarcar aqui? O melhor que conseguiremos fazer a partir de agora será apagar os incêndios que se espalharão pelas cidades brasileiras.

Vamos pagar a conta da ausência de políticas públicas, do absurdo de 13 ministros da Saúde nos últimos 10 anos, dos estádios construídos para a Copa agora transformados em hospitais de campanha, da desídia e do desrespeito com a organização e financiamento do SUS, da naturalidade com que aceitamos viver no meio de tamanha desigualdade social e, ainda, da irresponsabilidade que nos levou a criar um sistema penitenciário com cerca de 800 mil presos, o terceiro mais populoso do mundo.

Nos Estados Unidos, campeões mundiais de aprisionamento, as penitenciárias se tornaram os maiores focos de disseminação do vírus para a sociedade. Aqui, com cadeias em que as celas contêm pelo menos duas a três vezes mais ocupantes do que a capacidade máxima, vai ser melhor?

Não será possível enfrentar a epidemia mais perigosa dos últimos cem anos com a sabedoria dos avestruzes.

DRAUZIO VARELLA


02 DE MAIO DE 2020
BRUNA LOMBARDI

O ENCONTRO QUE MUDOU MINHA VIDA

Lembranças de uma visita aos povos indígenas do Xingu. Desci de um pequeno avião numa pista improvisada no coração da floresta, perto do Posto Leonardo. Os irmãos Villas Boas tinham conseguido a demarcação das terras indígenas e era quase impossível visitar o Xingu.

A razão de eu aceitar esse trabalho foi justamente viver essa aventura, mas eu não podia imaginar que isso mudaria minha vida pra sempre.

Eu era a única mulher de uma pequena equipe e conheci o ator que faria o papel de Aritana, com quem eu ia passar um mês na aldeia Yawalapiti, no Alto Xingu. Era uma época ainda de muito pouco contato com os brancos e eu ia poder vivenciar o cotidiano nas ocas e a cultura da tribo.

Conhecemos o verdadeiro cacique Aritana, um líder de alma nobre, um príncipe no seu comportamento. Eles falavam o Aruak e também entendiam muitas frases nossas. Tinha uma forte curiosidade de troca dos dois lados. Era impressionante a organização serena da aldeia, a calma do tempo e a maneira como convivem com a natureza.

Íamos nadar diariamente no Rio Tuatuari e na Lagoa Ipavu, lugares de beleza indescritível, águas supercristalinas que eles bebem e nunca sujam. Tudo é muito limpo, assim como o interior da oca e o manuseio da comida. Eles plantam principalmente mandioca e pescam o necessário para o consumo. E a gente de canoa ia pescar com eles.

Eu ficava fascinada com a arte, o artesanato criativo colorido. Todos se enfeitavam numa linda mistura de cores. E a gente dançava junto com eles. Eles fizeram para nós todos os rituais, festas, lutas e cerimônias para a filmagem e o Ri, vestido de índio, participou de tudo. Você vê as cenas e quase não o reconhece.

Brincamos muito com as crianças livres, carinhosas e sempre felizes. Elas diziam "vamo banha?" e iam correndo com a gente pra mergulhar. Os índios são pessoas fortes, generosas e extraordinariamente verdadeiras.

Participamos de cerimônias com o xamã com sua absoluta sabedoria de todas as ervas e plantas da floresta. O xamã prepara as substâncias para tudo o que eles precisam. E faz as sessões de cura. Os rituais têm um espírito religioso e muitos cantos e danças.

Conhecer o Ri nesse paraíso terrestre foi um estado de total encantamento, com ele e com tudo o que me cercava. Fomos nos apaixonando na exuberante beleza e magia desse lugar. Não parecia real. Todos os dias a gente andava no meio de milhares de borboletas amarelas e azuis, numa absoluta comunhão com a natureza.

E nas noites adormecia olhando o céu do Xingu. Não encontro palavras pra descrever aquela imensidão silenciosa coberta de estrelas. Momentos de uma emoção tão profunda.

Nunca pensei que uma história de amor pudesse acontecer assim. E nem estava esperando nada disso.

Conviver com povos indígenas foi uma experiência transformadora. Uma vivência que marcou a nossa vida e trouxe à tona nosso lado índio, livre, da terra, da natureza. E foi olhando aquele horizonte que não tinha fim que descobri como podia ser infinita a dimensão do amor.

Penso no Xingu, nos povos indígenas e na nossa história e sinto profundo respeito, admiração e uma gratidão imensa.

BRUNA LOMBARDI


02 DE MAIO DE 2020
J.J. CAMARGO

AS SOBRAS DE TUDO

Aquela insólita declaração de amor salvou meu dia, que se encaminhava para se perder por inanição de afeto. O bicho homem é complicado e, confinado, fica pior. Na desesperança e no inconformismo.

E os queixosos da monotonia do trabalho agora admitem sentir muita falta da rotina, que trocava a angústia por serenidade e ainda dava acesso às pessoas e à possibilidade de ajudá-las, recebendo em troca a gratidão. Semana passada, completamente carente, fazendo compras no supermercado, fui saudado à distância por uma velhinha, que por trás da máscara tinha uma carinha muito fofa. E ela disse:

- Doutor, tenho uma enorme admiração pelo senhor e rezei para que um dia eu lhe encontrasse. Pois hoje lhe encontro e não posso nem lhe abraçar. Isso só faz aumentar o ódio que eu tenho por este vírus. Nem vou falar do adjetivo que ela usou para falar do vírus.

Aquela insólita declaração de amor salvou meu dia, que se encaminhava para se perder por inanição de afeto. De qualquer maneira, quatro semanas sem dar a ninguém uma razão para me agradecer é desesperador.

E esse tempo perdido sem abraçar ninguém, quem vai compensar? E para qual ministério eu posso encaminhar este pedido de reembolso afetivo?

Do ponto de vista da saúde pública, uma enorme dificuldade é estabelecer o limite entre a informação que protege e o exagero que insufla o medo, que, como já escrevi, tantas vezes atropela a razão. Apesar de a mídia mostrar manifestações comoventes da população rendendo homenagens aos profissionais que trabalham na linha de frente, nos bastidores o medo da doença tem substituído a gratidão por crueldade.

Como a médica que recebeu um recado no para-brisas do seu carro: se alguém adoecer neste prédio, você é a culpada. Ou a enfermeira de Barcelona que teve o carro pichado, "Rata contagiosa", e não conseguia parar de chorar.

Ou a nossa amada Lya Luft, que tem casa em Gramado e adora a cidade, e que ao sair do supermercado foi xingada por um casal que, ao ver a placa do carro, disse: "Volte já para Porto Alegre, não venha trazer doença pra nossa cidade!". Uma injustiça com a doçura da Lya, mas ela sabe que o medo embrutece as pessoas, não obrigatoriamente más.

Se a melhor maneira de reduzir a ansiedade é se manter ocupado, temos de reconhecer que só o intelectual pode praticar o chamado ócio produtivo porque saberá empregar melhor o tempo e se dedicar a prazeres protelados, como escrever um livro, ouvir uma ópera inteira sem interrupção, ou reler um clássico (durante tanto tempo fiquei me prometendo reler Crime e Castigo, só não sabia que daria para reler todo o Dostoiévski).

Mas e os trabalhadores braçais, que além de não terem onde descarregar energia ainda ficam matutando como fazer para pagar as contas que a falta do trabalho inviabilizou? Um velho paciente, meu antigo mecânico, ligou para uma consulta online e quando lhe perguntei como estava a quarentena, respondeu:

- Este tempo trancado em casa me fez entender por que quando abro a porta o meu cachorrinho sai naquela disparada!

Quando ele desligou, fiquei pensando: estou precisando muito que alguém abra a porta para mim. E nem temos certeza de que as sobras de tudo representem mais empatia futura. Como um realista esperançoso, estou determinado a crer na utopia, porque ela precisa ser buscada para justificar a nossa vida. Mas sendo realista em relação ao futuro, qualquer projeto que signifique mais do que já tínhamos antes da pandemia vai parecer um exagero. Como era já está de bom tamanho. Dar as mãos, abraçar, beijar as pessoas que correspondem ao nosso afeto, voltar do supermercado sem a preocupação de lavar cada saco plástico das compras, e viajar: não dá pra ser feliz sempre no mesmo lugar.

Da nossa experiência com a interlocução por via remota, em alguns aspectos avançamos, porque sairemos mais treinados nos instrumentos de comunicação digital, mas o triunfo da comunicação remota, se ocorrer, precisará ser assumido como um retundo fracasso da civilização. Toque, calor e cheiro fazem parte da natureza humana. Na área médica, a telemedicina tem se afirmado progressivamente como útil, mas só em determinadas condições especiais. Que não se pretenda generalizá-la, porque a medicina se baseia em compaixão, e a compaixão não é um sentimento que se contente em ser visto, a compaixão precisa ser tocada. Ninguém abraçará um robô diante da ameaça da morte. Então, o afeto da relação médico/paciente jamais será substituído por nenhuma máquina inteligente.

E se isso for considerado uma UTOPIA, então estaremos irreparavelmente perdidos.

J.J. CAMARGO


02 DE MAIO DE 2020
DAVID COIMBRA

O fim do mundo

Pandemia, seca, crise econômica, crise política e agora me aparecem discos voadores. Estou me referindo aos filmes que a Nasa liberou, nesta semana, mostrando objetos voadores não identificados que foram registrados por pilotos de avião. Sei que vai ter um ou outro bidu a argumentar que os objetos voadores que aparecem nos vídeos não foram identificados. Ou seja: podem não ser discos voadores.

Mas também podem ser. Eu, aqui, tenho certeza de que existe vida fora da Terra, simplesmente porque seria ilógico não existir. Pense: os cientistas calculam que só a nossa amada galáxia, a Via Láctea, possua algo entre 100 e 400 bilhões de estrelas. É bastante coisa, não é?

Não. Há muito mais. Empregando dados levantados por 20 anos de uso do telescópio Hubble, cientistas ingleses estimaram que o universo abrigue nada menos do que 2 trilhões de galáxias. Se cada uma delas tiver 100 bilhões de estrelas, calcule o número delas em todo o universo. E depois multiplique por 10 para calcular o número de planetas. Faça esses cálculos, por favor, porque eu não vou fazer, que o confinamento me cansa.

O que importa saber é o seguinte: se existem milhares de quintilhões de planetas, por que só no nosso haveria seres vivos? É claro que há vida em milhões de planetas.

Mas que tipo de vida? Pegue a Terra como exemplo. Por aqui, tudo mudou devido a um acidente: um meteoro caiu bem em cima do México, há 65 milhões de anos, e matou 75% de todos os bichos que andavam felizes pelos campos, inclusive os enormes dinossauros, pterodáctilos e tigres-dente-de-sabre. Esse meteoro nem era tão grande, o problema é que ele atingiu uma imensa reserva de petróleo, que explodiu e ficou queimando e encheu o ar de fuligem. O sol não podia passar por essa espessa nuvem de sujeira e, assim, o mundo entrou numa era do gelo, tornando escasso o alimento. Assim, os pequenos animais, que podiam viver com menos fornecimento de energia, sobreviveram.

Bem.

O meteoro caiu AQUI, mas nem todos os planetas em que há vida tiveram a mesma sorte, óbvio. Então, em alguns lugares talvez não haja pessoas, mas haja um monte de dinossauros e tigres-dente-de-sabre e mamutes e animais gigantescos, como havia antes.

Outra possibilidade: você sabe que nós, Homo sapiens, somos apenas uma das várias espécies humanoides que existiam. Só nós sobramos. Porém, em algum lugar os neandertais, por exemplo, podem ter vencido a concorrência. E os neandertais eram mais fortes fisicamente do que nós e tinham o cérebro maior também. Seus cabelos eram amarelos, a pele clara e os olhos na certa puxavam para o azul. Já as mulheres neandertais suponho que fossem todas como a Maria Sharapova, loiras de um metro e noventa, no mínimo. Há, por aí, um mundo dominado por essa gente, um mundo que é como se fosse uma imensa Suécia.

Talvez alguns planetas tenham sido afetados pela ambição de seus seres humanos, que lhes esgotaram os recursos naturais por inteiro. As pessoas desses lugares foram extintas e agora, se chegarmos lá com nossas naves, veremos cidades vazias, desertos e desolação. Sim, é isso. É provável que muitos mundos tenham acabado por guerras, pela ação deletéria do homem, por quedas de meteoros maiores do que aquele que matou nossos dinossauros ou até, quem sabe, por doenças contagiosas. Por vírus, talvez, por que não? Esse pensamento me ocorreu ao ver os filmes daqueles discos voadores. O mundo pode estar chegando ao fim. E eu nem li todos os clássicos, nem vi todas as séries, nem conheci as Ilhas Maldivas, nem mesmo estou bebendo chope com os amigos numa amena mesa de bar.

DAVID COIMBRA

02 DE MAIO DE 2020
VARIANDO

A bagunça tem seu preço

Quando acordou, a louça ainda estava lá. Havia pratos e copos em todos os cômodos. A falta de visitas fez Antônio afundar na bagunça doméstica. Igual, estava de mau humor. Uns dias antes da pandemia, para sorte de ambos, separou-se da Raquel. Antes de a relação azedar de vez, ela tomou rumo.

Apenas um canto limpo na casa destacava-se. Era o cenário das videochamadas da empresa. Uma camisa branca, sempre a mesma, o esperava na cadeira. No resto do dia, trabalhava de pijama. A alimentação era telentrega de algo engordurado. Mas Antônio não estava mal. Havia uma ponta de felicidade em refestelar-se nesse ninho de rato. Gostava dessa irresponsabilidade temporária. Sabia que era uma fase. Curtia férias da vida adulta regrada.

Toca o celular. É Karen, sua amiga e confidente da vida inteira. Amiga por força alheia. Ele tentou mil vezes algo a mais e era rechaçado. Ela o queria como o irmão que não tinha.

Karen era uma sombra na sua alma e o objeto de ódio de todas as suas ex-namoradas. Algo entre eles era mal resolvido. Atende sem saco para a chorumela da também recente separação dela. Mas a conversa era outra.

Karen confessa estar enlouquecendo na casa dos pais e pedia para fazer a quarentena juntos. Dizia que talvez fosse o momento de tentarem o que nunca se permitiram. Antônio tem um segundo de êxtase antes de se dar conta de que não tinha uma só cueca limpa. Toda sua roupa fedia. O apartamento era uma Disneylândia para baratas, um depósito de caixas de pizza e latas de cerveja vazias. Karen tinha mania de limpeza.

O cérebro de Antônio bolou um plano para ganhar umas horas. Urgia uma blitzkrieg de sabão. Concordou e disse estar muito feliz. Mas pedia que ela dormisse com a ideia, que não fizesse no impulso. Se acordasse com o mesmo pensamento, viesse no outro dia cedo. Ela deu certeza de que iria.

O primeiro problema era conseguir material de limpeza. Mas quem tem latões de Polar em casa tem dólar. Saiu no escambo com os vizinhos e conseguiu de tudo. Começou com as maquinadas de roupas, e as idas ao contêiner de lixo. Deixou para o fim a louça e arrematou com um pano no chão na casa inteira.

Seis horas depois estava no chuveiro recuperando as forças. Faltava passar e secar alguma roupa, mas isso era barbada. Difícil seria dormir. Não dormiu. Talvez um cochilo. Estava muito excitado. Preparou um café e esperou o telefone tocar.

Às sete horas, Karen ligou exultante. Disse que ele era realmente um grande amigo, um tesouro. A prova era que ele não se aproveitou de um momento de fraqueza dela, que poria a perder a maravilhosa amizade deles.

Antônio engoliu a voz. De qualquer forma, Karen tinha que desligar. Ela e Roberto decidiram dar-se mais uma chance. Ela estava chegando lá. Moral da história: mantenha a casa limpa. É o destino que escolhe o dia, não você.

MÁRIO CORSO

02 DE MAIO DE 2020
É DEMÓÓÓÓIS

SHOW DA VIDA

Nelson Marchezan fez uma live, na tarde de sexta-feira. Falou de sua opção nos decretos para relaxar um pouco o distanciamento social em Porto Alegre. Foi uma longa explanação, revelando diversos detalhes de abertura de lojas e também sobre profissões que estão sendo liberadas. Ainda falta muito, mas os resultados são animadores. Foi a opção pela vida. Temos um número de mortos imensamente inferior do que outras capitais brasileiras, e temos pouquíssima gente ocupando leitos dos hospitais com covid-19.

Com isso, os centros de treinamentos foram liberados, e já na segunda-feira o Inter reinicia seus trabalhos profissionais. Na interessante entrevista do presidente Marcelo Medeiros ao Sala de Redação, foram colocadas diversas situações sobre o retorno e dos máximos cuidados que terá o clube com a saúde de seus jogadores. Chamou atenção que a direção colorada fará, neste sábado, testes dos procedimentos que serão adotados. O Grêmio não confirma o retorno dos jogadores porque os testes adquiridos na Coreia do Sul ainda não chegaram. Tudo isso é possível porque as condições sanitárias de nossa cidade são, apesar de tudo, boas. Eduardo Leite e Nelson Marchezan estão ganhando esta dura partida. Felizmente. O Rio Grande do Sul está assistindo ao show da vida. Mas o jogo ainda é duro.

EMOCIONANTE Confesso que fiquei emocionado quando ouvi de Marcelo Medeiros que o seu Inter estudou todos os processos de protocolo para o retorno dos jogadores junto com o Grêmio. Poucas vezes se viu no nosso futebol dois presidentes tão amigos e possuidores de tanta sensibilidade. Eles sabem que a rivalidade precisa estar em campo, e que fora dele os problemas são muito comuns. Neste caso da crise que estamos vivendo, o fato de estarem juntos, dividindo preocupações e soluções para o enfrentamento das dificuldades, emociona. São adversários, nunca inimigos.O inimigo que está aí é o coronavírus.

ALTERAÇÕES Teremos muitas alterações na volta do futebol. A concentração tradicional não existirá. Quando necessário, será um jogador em cada quarto de hotel. Durante a semana, em dias sem jogos, virão de casa fardados para os treinamentos, sem uso de vestiário ou academias. Toda a preparação física irá para o campo ou aparelhos que cada jogador tiver em casa. O número de jogadores reservas deverá ser menor. Deverão viajar somente os profissionais e dirigentes fundamentais. Devem ser utilizados dois ônibus, para que os passageiros tenham distância entre si. Não creio que teremos abraços nos gols marcados. Enfim, será outro jeito de entender futebol. Tudo isto visando, prioritariamente, a saúde dos jogadores. É a nova realidade chegando entre nós. Será estranho, mas a gente logo se habitua.

PALPITES Foi só falar em volta do futebol e já surgiram os palpiteiros. Formadores de opinião, ocupando espaços importantes da imprensa ou da internet, exaltando opiniões definitivas. Claro que a quase totalidade deles não tem nenhum conhecimento de medicina. Suas opiniões são para se fazerem notar, ou porque têm mania de saber tudo.

Estou entre aqueles que recebem a opinião de autoridades, ou seja, os médicos, os profissionais que estão fazendo protocolos, as secretarias e o Ministério da Saúde. São eles que têm que opinar sobre isto. Os clubes precisam jogar, o futebol pode ser mais um importante aliado do isolamento social, já que o cara fica em casa vendo o jogo, e cuidar da saúde dos jogadores fica com quem sabe. Como os palpiteiros são chatos e definitivos!

PEDRO ERNESTO

  02 DE MAIO DE 2020
ARTIGOS

O INIMIGO DO POVO

Na peça de teatro de Henrik Ibsen (1882) - que se passa numa pequena cidade da Noruega cuja maior fonte de renda advém de sua estação balneária -, Dr. Stock- mann identifica que a água está poluída, aparentemente devido a lançamentos de impurezas dos curtumes da cidade. Médico dedicado à ciência, sente-se no dever de levar a verdade ao povo. A denúncia representará o encerramento do balneário, o que causaria um transtorno para a cidade, que deixaria de lucrar com o turismo. Ele é apontado então como inimigo do povo!

Nesta pandemia, enfrentamos um inimigo invisível que dizima populações. Não é de hoje que decisões duras impostas pelo dilema da preservação da vida e repercussões econômicas vêm ao debate público. A despeito das questões ideológicas, interesses mesquinhos e particulares, devemos entender que a pandemia é única, com padrões de transmissão, distribuição etária e viabilidade no meio externo desconhecidos. Ainda que o curso seja impossível de prever, sabemos que a fase inicial é o momento adequado de agir com celeridade.

Como na prática médica em geral, por vezes, os tratamentos são realizados em etapas ou ciclos e ocorrem em tempos diversos. A primeira etapa envolve conscientização da população, da academia e de toda a sociedade para preparo e entendimento da gravidade. São medidas restritivas severas com repercussões na vida de cada cidadão e na economia. O distanciamento social nunca é popular. E o objetivo não é conter a doença, mas reduzir mortalidade, atendimento hospitalar, mormente tratamento intensivo. Evitar a falência do sistema de saúde e as escolhas de Sofia!

Não podemos "matar da cura", mas temos que evitar de apontar o Inimigo do Povo. Infelizmente com custos para a vida e para a atividade econômica, pois sabemos que são inevitáveis, embora trabalhemos para minimizá-los. Estamos no primeiro ciclo do tratamento e precisamos evoluir para o seu aprimoramento contínuo. Não há caminhos mágicos. A prevenção no tempo certo é a melhor escolha para salvaguardar a vida e, ao mesmo tempo, uma economia voltada a sustentar uma casa compartilhada por todos.

Médico, diretor do Instituto do Cérebro (InsCer), vice-reitor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) jcc@pucrs.br
JADERSON COSTA DA COSTA

02 DE MAIO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

FALTA UM PLANO FEDERAL

O novo ministro da Saúde, Nelson Teich, parece ter despertado para a dura realidade do país. Ou ao menos sentiu-se um pouco mais encorajado a admitir publicamente que o quadro de aumento acelerado de pessoas infectadas pelo novo coronavírus e a escalada do número de mortes não permite falar neste momento, em nível nacional, em um afrouxamento mais amplo das medidas de distanciamento social. Mesmo que possa contrariar seu chefe, na quinta-feira, duas semanas após assumir, pela primeira vez Teich foi mais enfático na defesa da ideia de que, por enquanto, seria irresponsável tratar de medidas que liberassem um número maior de atividades econômicas devido à curva ascendente de casos no Brasil.

Antes disso, o ministro se limitava a ressaltar a necessidade de ter mais dados sobre a pandemia no país e a comentar medidas como envio de respiradores e equipamentos para os hospitais. Ou seja, transparecia preocupar-se mais com o tratamento dos doentes e o preparo da estrutura de atendimento, o que também é vital, mas silenciava quanto à relevância do distanciamento social e a importância de evitar aglomerações, a melhor prevenção conhecida até agora para deter uma disparada descontrolada dos casos e o colapso da rede de saúde. 

A omissão parecia confirmar as inquietações de que Teich, tutelado, estaria mais interessado em não entrar em colisão com o presidente Jair Bolsonaro. O primeiro compromisso de um ministro da Saúde, no entanto, deve ser o bem-estar da população, e não adular quem o nomeou, ainda mais se o subproduto dessa subserviência for corroborar posturas que colocam brasileiros em risco. A nova postura, porém, traz os primeiros dissabores para o ministro, que passou a ser um novo alvo dos ataques de bolsonaristas mais radi­cais nas redes sociais.

Lamentavelmente, porém, Teich demora em mostrar seu plano de contenção da pandemia e ainda peca pela pouca coordenação com os Estados. Não precisaria muito para ter uma bússola e recomendá-la, no momento possível. O governo do Rio Grande do Sul já ofereceu repetidas vezes sua sensata proposta de distanciamento controlado ao Planalto. Com adaptações, é uma estratégia que poderia ser replicada sem grandes e inúteis complexidades em toda a federação. No Estado, as medidas previstas obedecem a um caminho iluminado pelo farol da ciência, com um planejamento detalhado. São possíveis neste momento pelo número de casos bem abaixo da média nacional e pela disponibilidade de leitos de UTI, mas levando em conta também particularidades regionais e diferentes graus de risco de ati­vidades. Quando chegar a hora, seria um plano de saída viável também para outras partes do Brasil.

Em vez de apresentar ou adotar uma ideia sólida, porém, o Executivo federal segue em sua atitude errática, na qual o ministro da Saúde parece a cada dia mais perplexo com a evolução do coronavírus, e o presidente, cada vez mais preocupado apenas com seu futuro político.




02 DE MAIO DE 2020
DIÁRIOS DO MUNDO - FÁBIO MENDES MARZANO, Embaixador responsável pelo grupo de crise do Itamaraty

"Me sinto muito contente por não deixar nenhum brasileiro para trás"


De uma hora para a outra, brasileiros ficaram sem hospedagem do outro lado do mundo, porque os hotéis em que estavam foram obrigados a fechar as portas por ordem de governos devido à pandemia. Não havia como voltar porque as companhias aéreas cancelaram os voos. Aeroportos estavam desertos, fora de operação.

Esses foram alguns dos desafios enfrentados pelos diplomatas brasileiros para trazer de volta ao país mais de 17 mil cidadãos retidos em cinco continentes por causa da crise do coronavírus.

A maior operação de repatriação da história do Brasil teve a coordenação do embaixador Fábio Mendes Marzano (foto), 55 anos, carioca à frente do G-CON, grupo especial de crise para assuntos consulares e migratórios, criado pelo Ministério das Relações Exteriores. Com a experiência de ter trabalhado em postos de Madri, Lima, Caracas, Washington e Paris, Marzano comandou o fretamento de 23 voos até agora, entre eles seis contratados da TAP para trazer mais de 1,3 mil brasileiros de Portugal. Desde 21 de março, o governo investiu R$ 47 milhões nas operações. Cerca de 3,7 mil cidadãos ainda enfrentam problemas para retornar. Segundo o Itamaraty, não há prazo para o término das repatriações. Em entrevista à coluna, Marzano conta os bastidores da operação, que envolveu 300 diplomatas.

Como o Itamaraty se organizou para repatriar os cidadãos?

Houve pouco tempo. Nosso ministro (chanceler Ernesto Araújo) resolveu estabelecer um grupo de crise, porque começamos a receber informações de consulados e embaixadas que estavam sendo procurados por brasileiros cujos voos haviam sido cancelados. Eles estavam ficando sem opção. O ministro determinou que eu criasse e coordenasse esse grupo, que se estabeleceu rapidamente. Convocamos umas 50 pessoas, hoje temos mais de cem colegas diplomatas trabalhando nas operações em Brasília. A maioria de casa, mas pedimos à administração os números de celulares e, com isso, conseguimos fazer um esquema 24 horas. Colocamos todos esses colegas em uma espécie de plantão intensivo permanente.

E nos consulados e embaixadas como se organizaram?

Se contarmos os colegas nos postos, dá mais de 300 participando desse grupo de crise. Colocamos um formulário online na nossa plataforma consular para que qualquer brasileiro em dificuldade pudesse se inscrever e explicar sua situação, onde estava, informar seu número de passaporte, telefone, e-mail de contato.

Quais foram as dificuldades?

Primeiro havia a dificuldade da demanda em si, atender a tantas pessoas. Foi necessário ter todo esse contingente de colegas atendendo. Nem todos estavam treinados para esse tipo de trabalho consular. Tivemos de, muito rapidamente, explicar como atender ao telefone, o que dizer às pessoas, que dados anotar. A segunda dificuldade foi obter recursos. Fizemos um ofício, pedindo recursos extraordinários. Estimamos que seriam necessários R$ 50 milhões. Encaminhamos para a Economia e, por meio do gabinete de crise da Presidência, o ministério agilizou (a verba). Em poucos dias, tínhamos esse crédito extraordinário. Nossas ações ordinárias do orçamento não permitem esse tipo de gasto. Vencida essa etapa, a terceira foi começar a examinar as possíveis rotas, as situações de maior emergência, os maiores grupos. Tudo isso no mundo inteiro. Não dá para priorizar um país. Pode-se ter apenas cinco brasileiros, mas eles estarem em situação dramática. Então, você tem de atender rapidamente.

Qual foi a operação logística mais complicada?

Acho que foi o voo da Ásia, que envolveu Katmandu (Nepal), Bali e Jacarta (Indonésia). A empresa que fez o menor preço, não sei se não tinha muita experiência, nos deu muito trabalho para conseguir autorizações, sobrevoos, pernoite de tripulação. Teve de mudar de rota. Tivemos de trazer pessoas em outro avião de Katmandu, coordenar horários para que saíssem da aeronave e pegassem outra em Bali. Outros aviões pequenos trouxeram pessoas que estavam em ilhas da Indonésia. Para que, de lá, fossem para Jacarta. 

Foram várias pequenas operações. Tudo tinha de ser muito coordenado, às vezes com poucas horas para coordenação. Outra grande dificuldade foi o fato de os países estarem praticamente sem operação aeroportuária. A empresa (companhia aérea) que você contrata tem de conseguir tripulação, parte está infectada, em quarentena. Os aeroportos não têm toda aquela cadeia logística de apoio. Então, tínhamos, por meio da embaixada, de fazer gestão com o governo local. Não só pedir autorização para sobrevoo, mas para operar os aeroportos. Em todos esses voos, praticamente os aeroportos estavam desertos. Eram abertos somente para nós.

Não foram usados aviões da Força Aérea Brasileira (FAB)?

De Wuhan, aeronaves de reserva da Presidência resgataram aqueles 30 brasileiros. No início de março, houve o caso de um brasileiro retido no Irã, no qual tivemos de atuar. Envolveu várias embaixadas por causa de sobrevoos. Em seguida, começou toda essa operação. A FAB nos ajudou em Cusco (Peru), onde havia brasileiros retidos. Não se conseguia mais voo comercial. A FAB mandou dois Hércules, que conseguiram resgatar todos os brasileiros.

O senhor já havia participado de algo desse tipo?

Havia atuado em algumas operações no passado, na Líbia, mas coordenando todo o esquema, não. Até porque é algo inédito para o Itamaraty. Nunca tínhamos fretado um voo para repatriar brasileiros. Nunca tinha acontecido isso antes na nossa história. Também nunca houve uma pandemia que obrigasse retorno em tão curto prazo de milhares de brasileiros.

Em 2006, o Brasil resgatou brasileiros que estavam no Líbano, durante guerra com Israel. Mas esta operação é diferente.

Pelo ineditismo, pelo tipo de operação, de logística envolvida e negociação. Pela magnitude também. Da noite para o dia, tivemos de acionar, ao mesmo tempo, toda a rede de postos brasileiros em cinco continentes. A vantagem é que temos essa rede habituada a atuar em casos consulares. Mas é como se, de repente, em dois meses, tivessem se concentrado todos os casos consulares de anos. Milhares de pessoas demandando. Não foi só repatriação. Temos gastado com assistência consular. Porque muitos desses brasileiros foram expulsos de hotéis, às vezes já até tendo pago, mas o estabelecimento foi obrigado a fechar as portas pelo governo local. Principalmente em países onde houve toque de recolher mais rígido. Então, a pessoa foi para rua, e a embaixada teve de providenciar abrigo. Pessoas também começaram a ter falta de medicamentos. Não tinham mais recursos, o cartão de crédito já tinha esgotado o limite.

Como foi?

Aconteceu com muita gente. Na Europa, mas também na Ásia. Às vezes, o hotel era obrigado (a fechar). Também aconteceu o contrário: muitos brasileiros que estavam em Cusco não puderam sair do hotel porque foram diagnosticados com o vírus. Nesse hotel, houve até um estrangeiro que morreu. Então, o governo peruano impôs a quarentena, e esse grupo de brasileiros não podia voltar. Não tinham autorização para nem sequer sair do estabelecimento. Tiveram de cumprir a quarentena. Na semana passada, foram liberados, então conseguimos trazê-los.

Como o senhor se sente, do ponto de vista pessoal, ao liderar essa operação?

Me sinto muito contente de ter essa oportunidade, por não deixar nenhum brasileiro para trás. É um aprendizado. A Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) tem nos ajudado nos contatos com as homólogas dos outros países, com empresas aéreas. A gente aprende até sobre logística, rotas, aviões. É interessante.

RODRIGO LOPES


02 DE MAIO DE 2020
CORONAVÍRUS

Ferida da desigualdade social deve aumentar na pandemia

Situação desafiará a economia quando a covid-19 passar. Especialistas defendem socorro aos mais vulneráveis neste momento

Considerada uma das grandes feridas sociais do Brasil, a desigualdade deve voltar a crescer em razão do coronavírus. Ao dificultar a vida dos mais pobres, o cenário desafia o desenvolvimento econômico do país como um todo depois da pandemia. Para diminuir os estragos, especialistas destacam a necessidade de medidas de amparo aos mais vulneráveis durante a crise.

Uma das formas de medir o espaço que separa as camadas mais ricas das mais desfavorecidas é o Índice de Gini, que varia em uma escala de zero a um. Quando o indicador sobe, sinaliza aumento na desigualdade da renda do trabalho. Quando baixa, mostra que a diferença entre os ganhos das duas pontas da sociedade ficou menor.

No Brasil, o índice caiu no quarto trimestre do ano passado depois de 18 altas consecutivas, aponta o centro de estudos FGV Social, da Fundação Getulio Vargas. Significa que a última recessão enfrentada pelo país fez a desigualdade subir desde o início de 2015, até finalmente voltar a cair no fim de 2019.

Na ocasião, o Índice de Gini atingiu a marca de 0,6276, recuo de 0,12% frente ao quarto trimestre de 2018. A questão é que a nova crise gerada pelo coronavírus provoca resultados indigestos como o aumento do desemprego. Com a perda de renda em classes mais vulneráveis, nova piora aparece no cenário, diz o economista Marcelo Neri, diretor do FGV Social.

- A tendência é de que a desigualdade volte a subir com a parada ocorrida na economia - frisa o pesquisador, referência na análise sobre distribuição de renda no país.

Um dos motivos que explicam a projeção mais pessimista é o elevado nível de informalidade no Brasil. Com o distanciamento social imposto pela covid-19, trabalhadores sem carteira assinada ou CNPJ viram o faturamento desabar. É o caso, por exemplo, de vendedores ambulantes ou motoristas de aplicativos de transporte.

- Com alto nível de informalidade, países em desenvolvimento tendem a ampliar a desigualdade social. Muitos informais têm o ganha-pão no dia a dia. Precisam estar na rua para conseguir renda. Com o distanciamento, esse público sente mais - pontua o economista Felipe Garcia, professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

O número de informais passou a crescer com a recessão de 2015 e 2016, alcançando no Rio Grande do Sul a marca de 1,9 milhão de trabalhadores no quarto trimestre de 2019, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No país, o dado mais recente corresponde ao período de janeiro a março. No intervalo, o Brasil tinha 36,8 milhões de profissionais sem registro formal. O grupo respondia por 39,9% do mercado de trabalho nacional à época.

- A informalidade é uma das grandes chagas da desigualdade. É causa e consequência desse problema. Trabalhadores autônomos estão sendo muito penalizados pela pandemia - observa o economista Ely José de Mattos, professor da Escola de Negócios da PUCRS.

Na pandemia, o governo Bolsonaro fechou acordo com o Congresso e anunciou o auxílio emergencial de R$ 600, por três meses, para informais. Diante da crise, Neri ressalta a importância da transferência de renda para a população. E ainda alerta sobre postura "ambígua" do Planalto:

- Ao aumentar os gastos fiscais, o governo quer viabilizar a permanência das pessoas em casa, só que o presidente fala em ir para a rua. É como se um carro fosse acelerado e freado ao mesmo tempo.

Nas últimas semanas, o auxílio de R$ 600 gerou filas em agências da Caixa no país. Para Garcia, que foi secretário adjunto de Política Econômica do Ministério da Economia em 2019, a dificuldade para fazer a ajuda chegar a quem mais precisa reflete erros históricos:

- Temos projetos sociais que não se conversam, foram construídos a partir de demandas momentâneas ao longo do tempo. Tanto é que o governo precisou correr para colocar uma porção de gente para dentro do auxílio de R$ 600.

 LEONARDO VIECELI

02 DE MAIO DE 2020
CARTA DA EDITORA

Transformação permanente

A partir deste fim de semana, ocuparei este espaço semanal em substituição ao meu colega Carlos Etchichury, que agora é gerente-executivo de Esporte de GZH, Gaúcha, ZH e DG. Assumo como editora-chefe às vésperas de ZH completar 56 anos (nesta segunda-feira) e num momento atípico e ainda mais desafiador para o jornalismo.

Nestas mais de cinco décadas de existência, foram muitas as transformações do jornal para conseguir acompanhar a evolução da comunicação e se adaptar às necessidades dos leitores. Destes 56 anos, em 25 deles tive a oportunidade de vivenciar essas mudanças.

Comecei em ZH como repórter de política em 1994. Era então o auge de um Rio Grande polarizado politicamente. O rádio e a TV davam as informações do momento. O jornal em papel trazia no dia seguinte as notícias completas, junto com análises e opiniões. Em 1994, a internet engatinhava no Brasil. As redações de ZH, Gaúcha e RBS TV pouco se comunicavam. Chegavam a ser, em determinados momentos, concorrentes.

Ao me tornar editora de Política, em 2012, ZH já tinha profissionais multimídia, que faziam suas reportagens para impresso, rádio e TV, e a mudança nos hábitos de consumo já era uma realidade, embora não ao alcance de todos. Em 2016, quando me transformei em editora de uma área mais ampla de hard news (política, economia, mundo, segurança), o papel de informar já não era mais nosso único foco. Com o bombardeio de conteúdos falsos nas redes sociais, a certificação e a curadoria ganharam relevância. E a integração entre as redações da RBS avançava, mas ainda havia obstáculos a remover. Um grande passo foi dado em 2017, com GaúchaZH, plataforma digital que surgiria da união dos sites de notícias de Zero Hora e Rádio Gaúcha.

Em 2018, mesmo ano em que assumi como coordenadora do Grupo de Investigação da RBS (GDI), os últimos obstáculos foram derrubados. Uma redação integrada começou a surgir, com ZH, Rádio Gaúcha e Diário Gaúcho trabalhando em um mesmo ambiente, tendo GaúchaZH como a mídia agregadora dos conteúdos produzidos por esses veículos. O jornalismo que fazemos não é mais exclusivo de um ou de outro veículo. O que nos diferencia na redação integrada é a forma como entregamos a notícia nas diferentes mídias do Grupo RBS.

Chegamos a 2020 e os desafios continuam. Vivemos momento de incerteza mundial provocada por uma pandemia que nos obrigou a esvaziar momentaneamente nosso ambiente de trabalho. Desde o final de março, somos uma redação integrada virtual, mas que continua fazendo aquilo que sabe fazer de melhor: jornalismo de relevância, que informa, elucida e, sobretudo neste momento, combate a desinfomação.

DIONE KUHN

02 DE MAIO DE 2020
RODRIGO CONSTANTINO

Construir pontes


Dividir para conquistar é uma tática política eficiente desde os romanos. O PT lançou mão dessa estratégia e rachou o país entre ricos e pobres, negros e brancos, homens e mulheres, gays e heterossexuais etc. Demonizaram tanto os adversários, tratados como inimigos cujas intenções seriam malignas, que quando deixaram um rastro de corrupção e caos social, o ódio foi inevitável para muitos.

Em parte isso explica o fenômeno do bolsonarismo. Há uma ala movida basicamente pelo ressentimento, pela raiva, pelo sentimento de vingança. Em vez de querer construir algo positivo, predomina o desejo de destruir o inimigo. Essa turma enxerga traidores por todo canto, exige lealdade plena ao "mito" e trata com desprezo e revolta qualquer um que desvia uma vírgula de sua cartilha.

Esses bolsonaristas só se reconhecem no combate, foram forjados no conflito, e costumam esticar a corda até o limite. O risco é ela se romper. A quantidade de "traidores" não para de aumentar. Alguns pareciam, no começo, oportunistas desmascarados mesmo. Mas, com o tempo, a lista de "comunistas" ou "vendidos" foi aumentando, até incluir o ex-ministro Sergio Moro.

Aquele que era um herói nacional até "ontem" se transmutou, da noite para o dia, num pária infiltrado a ser destruído. Uma coisa é criticar a forma como Moro escolheu sair, atirando no ex-chefe, o que foi criticado inclusive pelo vice Mourão. Militares prezam a fidelidade hierárquica. Outra, bem diferente, é passar a detonar todo aquele que ainda admira Moro.

O deputado Vitor Hugo, porém, publicou mensagens de lamento pela saída de Moro dos deputados do Partido Novo e afirmou que vemos "muitas máscaras caindo". Entre os deputados estava Marcel van Hattem, do RS, um dos mais combativos defensores da agenda reformista do governo, em especial na área econômica. Vitor Hugo é ninguém menos do que o líder do governo na Câmara!

Marcel rebateu, perguntando se o intuito do líder do governo era dividir a direita para devolver o poder ao PT. Uma alfinetada legítima, já que ele, por convicção, tem sido dos mais favoráveis às pautas do governo. Paulo Eduardo Martins, deputado governista que tenta construir pontes, também desabafou: "É impressionante. Não há 12 horas de paz em Brasília". Por que será?

RODRIGO CONSTANTINO

sábado, 25 de abril de 2020



25 DE ABRIL DE 2020
LYA LUFT

O dia em que fui xingada

É normal para quem escreve e publica, sobretudo em revista e jornal, ter experiência com elogios e estímulo, e alguma vez um xingamento.

Há vários anos, publiquei uma coluna em revista sobre cuidados da população com uma baleia encalhada numa praia do Rio, contrastando com a indiferença com relação a um menino que pouco antes tinha morrido numa calçada ali perto. Reclamações choveram, dizendo que eu não gostava de animais. Paciência, porque esses mal-entendidos não adianta explicar.

Naturalmente em criança às vezes eu era xingada por alguma malcriação: botar a língua pra avó (que eu, aliás, adorava), subir de novo na jabuticabeira e não conseguir descer, obrigando o jardineiro a vir com escada e me tirar de lá, chamar a mãe de "chata" quando era hora do banho e eu queria brincar no pátio um pouco mais.

Mas eis que outro dia fui xingada em Gramado, minha cidade adotiva, que frequento há décadas, onde criamos um pequeno paraíso particular: saindo do supermercado que frequento, guardei as compras no porta-malas e, quando estava entrando no meu carro, metade do corpo já lá dentro, vi passar na calçadinha em frente um casal de uns 50 anos, de máscara, sacolinhas do súper na mão.

Então ele indica a placa do meu carro pra mulher e diz: "Ó, Porto Alegre". Eu, geralmente gentil, começo a abrir um sorriso, quando ele me aponta a mão e vocifera: "Porto Alegre, né? Volta pra lá, e não vem mais pra cá pra trazer doença!!".

Em geral minha coragem é menor do que meu tamanho, mas fiquei furiosa e respondi: "Eu tenho casa aqui, seu grosso, e devo pagar mais imposto do que tu!!!". A mulher puxou o herói pelo braço e eu entrei no carro, seguimos nossos caminhos.

Primeiro fiquei atônita; depois chateada; chegando em casa, já estava rindo sozinha: ainda bem que o Vicentão não estava junto. Mas me ficou a preocupação: esse vírus não só nos faz adoecer de uma terrível doença que está transformando o mundo - sobre o qual se estende como uma sombra densa e pegajosa -, ele também ataca economia, convívio, projetos e sonhos, e além disso nos faz adoecer psicológica e moralmente.

Virão - estão vindo - ondas de medo e paranoia, desinformação e raiva, bairrismo e xenofobia.

Cidades se temendo, países se odiando, pessoas caluniando e desprezando umas às outras.

Nesse sentido, a pandemia coronada não vai terminar tão cedo: pode estar havendo solidariedade e afetos reencontrados, reinvenção de muita coisa boa, mas talvez ele nos deixe com feias sequelas morais. O xingamento em Gramado me fez pensar nisso - com tristeza.

LYA LUFT