sábado, 9 de maio de 2020


09 DE MAIO DE 2020
FRANCISCO MARSHALL

SHIVA E DIONISO

Os deuses do panteão hindu são parentes da família olímpica, potências celestiais presididas por Diaush Pitar, forma sânscrita de Zeus pater, Júpiter e Deus pai. Os hindus pertencem à nossa família linguística, o indo-europeu, o que explica as similaridades, em que pese a distância geográfica entre a Índia e nosso berço cultural, o Mediterrâneo. Quando Alexandre Magno chegou aos confins da Pérsia, junto ao Rio Indo, os gregos chamaram Shiva de Dioniso indiano; Baco, por sua vez, era tido como o deus que veio do Oriente. 

Essas conexões foram bem estudadas pelos historiadores das religiões, especialmente Alain Daniélou, autor do célebre Shiva e Dioniso (1984). Não é demais lembrar que todos os deuses são representações culturais com qualidade simbólica, que ajudam a organizar a imagem do mundo e pensar nossa condição e destino, tanto individual como social. Diante disso, a pergunta: o que Shiva e Dioniso simbolizam e o que têm a dizer para o mundo atual?

Shiva significa a unidade e as forças do universo, em movimentos de preservação, destruição e renovação. Essa dinâmica permite ver os ritos que arrasam, pelo fogo ou pelo sacrifício, como parte de um ciclo do qual emerge nova condição do mundo, restaurado. Há nisso também simbologias dos mistérios de morte e ressurreição, de Osíris, Dioniso ou Cristo, conforme cada folclore. 

Essa visão simbólica aplica-se a muitos processos naturais e sociais, nos quais há metamorfoses em que as formas antigas são superadas em proveito da renovação. Incluir a destruição em uma narrativa sagrada que a conecta ao ciclo cósmico de revitalização significa ver um propósito no fluxo do tempo e um sentido positivo em cada momento do drama, inclusive neste usualmente percebido como negativo, a destruição. No mundo grego, esse é o sentido do trágico, o aniquilamento como parte do culto de Dioniso, de cujas cinzas renasce a vida, como a videira que reverdece após a hibernação. A tragédia grega, arte de Dioniso, é o templo filosófico da democracia, um regime que se investiga, produz a crise e se transforma.

Mas os deuses são, antes de tudo, nomes. Estabelecido o nome, a fantasia cultural pode dotá-lo de todos os atributos que desejar e depois perpetuar sua memória sob a forma de mitos, imagens e ritos. O significado do nome, portanto, revela a identidade imaginada. No caso de Shiva, temos uma das entidades mais complexas de toda a história das religiões, mas uma etimologia de seu nome enraíza o significado da palavra Shiva, do II milênio a.C., na composição de Shi, o que reside em tudo, com svi, o gracioso. O nome transmite o sentido de auspicioso, benigno, amigável. A destruição terá um propósito, se for, como simboliza Shiva, auspiciosa.

Eis agora Shiva dançando sobre a Terra e sobre a nação. E eis a tragédia grega, altar de Dioniso, esclarecendo mito e política: o problema concentra-se no poder, sua violência e seus vícios e artimanhas, e é ele que tem que ser aniquilado, para renascermos com graça renovada, entre Oriente e Ocidente, e como o terceiro olho de Shiva, entre passado, presente e futuro.

FRANCISCO MARSHALL


09 DE MAIO DE 2020
COM A PALAVRA

A IDEIA DE CIDADANIA FOI VENCIDA NO PAÍS

Ailton Krenak carrega a identidade de sua etnia no sobrenome. Originários do Sudeste e hoje restritos a pequenas reservas em Minas Gerais, os crenaques - ao menos os da aldeia de Ailton - estão em um isolamento exemplar, evitando contato com os brancos, o que é essencial para se preservarem do coronavírus.

A baixa imunidade dos povos isolados é sempre lembrada quando se fala na ameaça da covid-19. Mas, para este que é um dos principais líderes indígenas do país e, desde o ano passado, best-seller literário (graças ao livro ensaístico Ideias para Adiar o Fim do Mundo), a reflexão sobre as relações entre esses povos, a natureza e os não indígenas só pode ser vista sob uma perspectiva histórica mais ampla.

- Sobrevivemos a muitas ameaças em 500 anos. Não sei como os brancos sobreviverão ao atual momento - ele declara, em um discurso alarmista mas que também carrega algum otimismo: - Não tem como isso tudo passar e não sairmos menos individualistas.

Nesta entrevista, explica o que chama de "guerra híbrida" na preservação das culturas indígenas e relembra um episódio emblemático dessa luta: quando, na Assembleia Constituinte de 1987, pintou o rosto de preto e fez um discurso que comoveu o país - e ajudou a aprovar o marco constitucional para as relações entre o Estado, a sociedade e os índios.

O SENHOR TINHA 33 ANOS NA ASSEMBLEIA CONSTITUINTE DE 1987. HOJE, TEM O DOBRO: 66. O QUE MUDOU NA SITUAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO PAÍS?

Aquele momento foi o auge da experiência de mobilização social pela redemocratização do Brasil. Toda a sociedade estava envolvida na nova Constituição, era um momento promissor. Mas, olhando em perspectiva, constato que desde então descemos a ladeira em desabalada corrida. Aos poucos as mobilizações foram diminuindo e a sociedade passou a olhar a questão com menos vigilância, até que afundamos vertiginosamente em um pântano em que a própria noção de cidadania foi dissolvida. Hoje vemos pessoas muito despreparadas ocupando cargos nos poderes da nação, no Legislativo, nos Executivos de vários Estados. Conseguem se eleger como representantes do povo apontando carabinas para o próprio povo, o que sugere que a ideia de cidadania foi vencida no Brasil. É como se não tivéssemos mais poder nenhum com nosso voto.

O SENHOR DIZ ISSO PENSANDO NOS INDÍGENAS OU NA POPULAÇÃO COMO UM TODO?

É impossível pensar o direito dos povos indígenas sem olhar para o que os cerca, sem considerar a sociedade como um todo. Falar em direito dos povos indígenas inclusive é algo que foi criado no contexto da civilização que chamamos de ocidental, branca. Nós nos inscrevemos no processo de elaboração da Constituição - e nesse contexto eu fiz aquele discurso - porque estávamos na expectativa de criar uma sociedade democrática em que todos fossem ouvidos. Infelizmente, não somos mais. Nós e outras parcelas da população que não estão entre os vencedores. 

Não vejo mais o Brasil como uma nação que pode olhar para si e se enxergar de fato como uma nação. Há muito desrespeito com o que é diferente, com outras culturas. Há uma cultura da violência contra o diferente, muito bem representada pelo presidente da República, que tem como gesto simbólico esticar o dedo como se estivesse apontando uma arma para os cidadãos que estão à frente dele. O presidente chegou a dizer, esses dias (em 20 de abril), que a Constituição é ele. Essa declaração é um escândalo para quem lutou naquele processo da Assembleia Constituinte. O fato de as instituições que deveriam garantir os princípios democráticos não tomarem providências deixa claro como a ideia de cidadania foi vencida no país.

A CHEGADA DO CORONAVÍRUS DEIXA AS POPULAÇÕES INDÍGENAS, QUE TÊM MENOS CONTATO COM OS BRANCOS E MENOS ANTICORPOS, AINDA MAIS EXPOSTAS. QUAL O TAMANHO DA SUA PREOCUPAÇÃO COM A PRESERVAÇÃO DESSES POVOS EM MEIO À PANDEMIA?

Curiosamente, esses povos, sobretudo aqueles que estão em aldeamentos em regiões de floresta, estão mais protegidos do que eu, você e quem estiver nos lendo neste momento. Quem não está próximo a uma cidade ou a invasores, grileiros, garimpeiros, quem não tem de disputar suas terras com a soja, pode ficar mais tranquilo. Está protegido pela floresta. O grande problema é o que ocorre, por exemplo, no território ianomâmi (entre o Amazonas e Roraima): no ano passado, o Parque Yanomami foi invadido por 20 mil garimpeiros que estão lá ilegalmente explorando o local. Além do dano ao ambiente, eles levam as doenças. 

Se não levassem, a pandemia não seria um problema para esses indígenas. Isso se repete em várias áreas. Em outras, como, por exemplo, o Vale do Javari (no Amazonas, região de fronteira entre Brasil e Peru), onde estão os marubos, os matises e os corubos, a situação até que é tranquila. Esses grupos humanos só apareceram na mídia nos últimos seis a oito anos. Sequer temos contato com eles. Eles estão distantes da predação. É o que podemos considerar a situação ideal de isolamento.

ONDE HÁ MAIS RISCO?

Em inúmeros locais de contato. Letícia e Tabatinga (na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru), Tefé (região do Médio Solimões), Benjamin Constant (entre Tabatinga e o Vale do Javari) e, principalmente, nas proximidades de cidades, como São Gabriel da Cachoeira (AM), Marabá (PA), Manaus (AM). As populações de locais como esses já não vivem mais em harmonia com o ecossistema que integram. Esses povos estão muito ameaçados. Em Altamira (PA) e no entorno da Usina de Belo Monte, quem sobreviveu à tragédia que foi a construção da hidrelétrica (inaugurada em 2011) agora se vê ameaçadíssimo. Precisamos fazer alarde sobre essas populações, e não sobre aquelas que vivem isoladas. Não podemos generalizar. Os indígenas estão em condições de risco diferentes, dependendo da região em que vivem.

E QUANTO AOS INDÍGENAS DE OUTRAS REGIÕES, ESPECIALMENTE OS QUE TÊM TIDO CONTATO COM OS BRANCOS AO LONGO DE MAIS TEMPO?

Esses estão praticamente tão sujeitos à covid-19 quanto todos os demais seres humanos vivendo em São Paulo ou Porto Alegre. Os caingangues do Rio Grande do Sul, que estão agora em seus toldos e em suas aldeias: alguns deles convivem secularmente com invasões e arrendamentos, estão em contato com os brancos há muito tempo. Sua situação é evidentemente bem diferente. Mas precisam fazer quarentena, ter cuidados rigorosos.

MESMO ESSES INDÍGENAS MAIS PRÓXIMOS DE CIDADES TÊM UM SENTIDO DE COMUNIDADE DIFERENTE DAQUELE DE ALGUÉM QUE VIVE EM UM APARTAMENTO DO CENTRO DE PORTO ALEGRE. COMO FUNCIONA A QUARENTENA NAS ALDEIAS?

Veja bem onde estou agora (aponta a câmera do celular para a janela de sua casa). Estou, neste momento, onde moro, dentro de uma reserva crenaque criada nos anos 1920 (no interior de Minas Gerais). Já tivemos muito contato com os brancos, desde as lutas contra os posseiros em décadas e séculos passados até os diálogos mais recentes que resultaram, por exemplo, no isolamento desse nosso território. Neste momento, estamos protegidos. 

Vivemos em uma aldeia com 130 famílias. Todos aqui estão em quarentena há dois meses. Há apenas dois caminhos de acesso à aldeia, e ambos estão interditados. A covid-19 não entrou aqui. Por isso não precisamos usar máscaras nem álcool gel. Mas, para manter isso, é importante não ter contato com o ambiente exterior. Os indígenas que precisam frequentar o comércio, interagir com outras pessoas, enfim, que têm outro sistema de gestão territorial, precisam seguir procedimentos distintos. Depende de cada comunidade.

O QUE O SENHOR ACHA DO PLANO DE AÇÃO ELABORADO PELA SECRETARIA ESPECIAL DE SAÚDE INDÍGENA (SESAI), LIGADA AO MINISTÉRIO DA SAÚDE, PARA PROTEGER OS POVOS INDÍGENAS DO AVANÇO DO CORONAVÍRUS?

As campanhas em geral nos apresentam como se todos nós, indígenas, fôssemos um grupo homogêneo. Isso não é verdade. Não estamos vivendo um Deus nos acuda generalizado. Não vamos morrer todos de uma hora para outra, não. Do plano da Sesai, eu tomei conhecimento quando o Ministério Público obrigou o governo federal a explicitá-lo. Só que nada do que está escrito está sendo cumprido. Há, ali, um conjunto de recomendações. Mas que não chegam às aldeias, nem aquelas mais próximas das cidades, como a minha, imagina às mais isoladas. 

Fico pensando como está a assistência aos ianomâmis, sujeitos neste momento à violenta invasão para a exploração do garimpo, ou aos tikunas de perto de Tabatinga, que estão onde já é reportada uma significativa quantidade de indígenas contaminados com a covid-19. Não é a assistência ideal, longe disso. (Na região de Tabatinga, segundo o Ministério da Saúde, já houve quatro mortes de indígenas por coronavírus, mas lideranças locais desses povos afirmam que o Hospital Militar do município classificou outros indígenas mortos como pardos.)

EM MANIFESTAÇÃO RECENTE, O SENHOR CHEGOU A AFIRMAR QUE, DO JEITO QUE ESTÃO NOSSAS RELAÇÕES COM O AMBIENTE, OS BRANCOS CORREM TANTO RISCO QUANTO OS ÍNDIOS. É ISSO MESMO?

Não foi tão recente assim. Foi em Portugal, em meio à eleição de 2018. Fui instado por uma jornalista a comentar declarações do então candidato Jair Bolsonaro, que ofendeu os índios e disse que não demarcaria mais terras indígenas. Ela me perguntou como sobreviveríamos. Não lembro exatamente o que respondi, mas te digo agora que sobrevivemos a muitas ameaças em 500 anos. E vamos sobreviver a mais esse período terrível. O que não sei é como os brancos, ou os não indígenas como um todo, sobreviverão ao atual momento, porque, além da pandemia, todas as pessoas, toda a sociedade está sob ataque. 

Naquele momento, mesmo diante daquelas declarações, não dava para imaginar que o governo seria tão cruel como está sendo, a ponto de ameaçar a vida de todos. Seu belicismo é total. As instituições são atacadas a todo instante. O desprezo ao meio ambiente é só uma das facetas. Todos somos atingidos, de alguma forma. Basta entender que fazemos parte de um mesmo universo, de ecossistemas que podem ser diferentes, mas que se relacionam entre si. Não podemos enxergar só o que nosso olhar alcança. O impacto de certas atitudes de desprezo à natureza é global. A pandemia é uma prova disso: foi nossa relação com os animais que trouxe o vírus para a espécie humana, uma relação de dominação desrespeitosa construída ao longo de muito tempo. E, quando deveríamos estar repensando isso, fazemos justamente o contrário, elegendo esse tipo de discurso.

A TEORIA MAIS ACEITA ENTRE OS CIENTISTAS É DE QUE O CORONAVÍRUS SURGIU DE ANIMAIS SILVESTRES, TENDO CHEGADO ÀS PESSOAS QUANDO ESTES ESTAVAM SUBMETIDOS A CONDIÇÕES MUITO ESTRESSANTES EM UM MERCADO CHINÊS.

Animais em confinamento, como se fosse uma quarentena forçada - veja a ironia disso. Nós devoramos tudo. Prendemos milhões de animais de todos os tipos, aves, mamíferos, répteis, porque parece que temos de comer tudo. Nós comemos o que está na terra, na floresta, o que se move, o que não se move. 

Quando visitei pela primeira vez Davi Kopenawa Yanomami, xamã dos ianomâmis que à época - uns 30 anos atrás - vivia de modo muito remoto, ele me perguntou: Krenak, é verdade que os brancos são muitos? Respondi que sim, que são como se fossem todas as estrelas do céu ou todas as árvores da floresta. E ele, horrorizado: mas o que eles comem, tem comida para tantos? Falei a verdade: eles comem de tudo, terra, planta, folha, pau, pedra, todos os bichos. Comem ouro. São devoradores. Ele quis saber se os brancos chegariam aqui, no caso, no território ianomâmi onde ele estava. Falei que sim, que um dia chegariam. Porque estão cobrindo toda a face da Terra, feito uma peste. Te digo que, 30 anos depois, as coisas não mudaram muito.

O SENHOR TOMOU CONHECIMENTO DO MANIFESTO EM DEFESA DOS ÍNDIOS LANÇADO PELO FOTÓGRAFO SEBASTIÃO SALGADO EM MEIO À PANDEMIA?

Sim. É elogiável esse esforço de mobilização, para tentar conscientizar as pessoas, levar o problema para outros centros do mundo civilizado. A questão é que o Brasil tem dado passos largos para ele próprio sair desse mundo. Lembro de campanhas com o objetivo de chamar a atenção para genocídios na África. É importante mobilizar as pessoas de outras partes do mundo, o problema é convencer um ditador sanguinário como Idi Amin Dada (presidente de Uganda entre 1971 e 1979) a parar de matar. O efeito prático da campanha acaba sendo bem limitado.

EM OUTRA DECLARAÇÃO RECENTE, O SENHOR CLASSIFICOU A LUTA PELA PRESERVAÇÃO DAS CULTURAS INDÍGENAS COMO UMA GUERRA HÍBRIDA. O QUE ISSO QUER DIZER?

A gente tem de entender que estamos sob uma pandemia, o que torna o contexto mais grave. Estamos diante do caos nas relações entre instituições e as próprias pessoas. Todos com medo, inseguros e sujeitos a mentiras, fake news. O governo brasileiro opera no caos, ele provoca isso porque gosta de se movimentar em meio ao caos institucional. Por isso as medidas são anunciadas e suspensas logo depois, por exemplo. Quando alguém que está no poder sugere que uma terra indígena demarcada não precisa mais ser respeitada, é natural que pessoas a desrespeitem. 

Até se corrigir, o estrago já foi causado. Da mesma forma fica mais fácil cooptar as pessoas a partir de discursos absurdos, como é o caso de indígenas levados à exploração das terras com a promessa do enriquecimento. Por isso essa ideia do hibridismo: índios são cooptados pelos exploradores. Há uma série de sabotagens em curso. Existe um aparato do Estado brasileiro atuando contra a vida do povo indígena, e isso encontrou com a covid-19 um contexto propício. Não precisaria de uma pandemia para nos liquidar quando garimpeiros fazem o que estão fazendo no Parque Yanomami, mas, quando há a pandemia, o caos encontra o momento propício para se instalar.

QUE DISCURSOS ESPECIFICAMENTE SUGEREM AÇÕES CONTRA OS POVOS INDÍGENAS E DEPOIS SÃO CORRIGIDOS? O SENHOR TERIA MAIS EXEMPLOS?

Autoridades são nomeadas e depois têm a nomeação cancelada, isso ocorre o tempo todo. No primeiro semestre do ano passado, o governo federal anunciou que os 30 e poucos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dseis) instalados pelo país estavam extintos. Houve uma reação das comunidades e de pesquisadores que fez com que a medida fosse extinta. O Ministério da Saúde mudou de estratégia e reativou os Dseis. Então todos se acalmaram. Só que a verba para os Dseis foi cortada. Então, na prática, esses distritos pararam de operar mesmo. Há outros exemplos dessa política do diz-desdiz que busca a cisânia, o desentendimento geral. 

Vou dar mais um: os grupos de missionários evangélicos norte-americanos trazidos para a região do Vale do Javari com a autorização do poder público. Eles tiveram de parar de atuar após intervenção do Ministério Público. Mas seguem lá, na região, à espera de poder se aproximar dos indígenas novamente. Você não acha que, neste momento de fragilidade em decorrência da pandemia, levar essas pessoas de fora para uma área onde há índios isolados não é sabotagem?

SUA EDITORA PUBLICOU ONLINE UM TEXTO SEU INTITULADO O AMANHÃ NÃO ESTÁ À VENDA (DISPONÍVEL GRATUITAMENTE EM SITES DE LIVRARIAS), NO QUAL O SENHOR DIZ QUE DEVEMOS PERDER DE VISTA A IDEIA DE VOLTA À NORMALIDADE APÓS A PANDEMIA. EM QUE SENTIDO?

Esse PDF distribuído pela (editora) Companhia das Letras é uma reunião de três entrevistas muito parecidas com esta aqui e que estarão reunidas em uma nova edição do livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo. Serão o posfácio do livro em breve. O que quero dizer com esse raciocínio é que, se quisermos voltar ao normal depois do que está acontecendo significará que nos rendemos todos ao negacionismo. Seremos todos terraplanistas. Porque, se não nos dermos conta, após uma pandemia, de que algo está errado na nossa relação com o ambiente, com os animais e com os demais seres humanos, não acreditaremos que a Terra é o que ela de fato é - redonda, rica em vida, exuberante. Teremos nos jogado em um abismo ontológico.

NESSE SENTIDO, A PANDEMIA É UMA OPORTUNIDADE PARA REPENSARMOS MUITAS COISAS.

Ver caixões empilhados e corpos sendo jogados em valas comuns precisa ser um momento para repensar as coisas. E a quarentena é propícia para isso. Precisamos, além de nos preocuparmos em quando vamos sair da quarentena, nos questionarmos como vamos sair dela. Não vai ser buscando aquilo que acreditávamos ser o normal. Não é normal seguirmos sendo uma vasta legião de seres que dominam os demais sem se preocupar com o impacto causado. Os pássaros seguem cantando, olha as maritacas (movimenta o celular e mostra a paisagem através da janela), os pés de manga, banana e abacate continuam verdes, tudo está normal. A pandemia é um alerta aos humanos.

NO QUE O SENHOR APOSTA QUE PODEMOS MUDAR?

Temos de pensar se é justo viver em um mundo em que milhões de pessoas morrem de fome enquanto produzimos alimentos em quantidades nunca antes vistas. Temos de pensar nos outros. A desigualdade gigantesca e o aquecimento global já vinham levando muitos a parar para pensar se é necessário ter combustível fóssil, ter carro, buscar a riqueza a todo custo. Nosso individualismo já era contestado por muitos de nós. O que fazemos tem impacto, precisamos pensar sobre esse impacto. Que pensemos agora, que estamos nessa situação extrema. Acredito que mais gente vai começar a se dar conta. Não tem como isso tudo passar e não sairmos menos individualistas. Tenho essa esperança.

DANIEL FEIX


09 DE MAIO DE 2020
DRAUZIO VARELLA

ADERÊNCIA AO TRATAMENTO

Tomar remédio todo dia, durante anos, não é tarefa corriqueira. Damos o nome de aderência à assiduidade com a qual seguimos as recomendações médicas.

Ela é mais alta nas doenças agudas, sintomáticas. Um doente com pneumonia e falta de ar faz repouso e toma sete dias de antibiótico nos horários recomendados. Difícil é manter os esquemas contra a tuberculose, que duram seis meses, ou contra aids, hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares, que devem continuar pela vida inteira.

Nas enfermidades crônicas, mesmo em ensaios clínicos internacionais que incluem participantes selecionados e acompanhados de perto, as meta-análises demonstram que a aderência varia entre 43% e 78%.

No Brasil, ocorrem cerca de 300 mil mortes anuais por doença cardiovascular, o equivalente a um óbito a cada dois minutos.

Nas últimas décadas, surgiram betabloqueadores, antiagregantes plaquetários, estatinas e outros medicamentos capazes de reduzir o risco de ataques cardíacos, derrames cerebrais e óbitos, tanto em pessoas com risco elevado de apresentar tais complicações (prevenção primária), como naqueles que já as enfrentaram (prevenção secundária).

Um estudo sobre prevenção secundária conduzido com 4.761 pacientes, que receberam prescrição de uma dessas drogas, mostrou que depois de um ano apenas 809 (17%) permaneciam em tratamento.

Em outro estudo semelhante, o seguimento de 8.864 pacientes durante um ano revelou que 88% abandonaram a medicação. .

As causas para a interrupção são multifatoriais: custo, efeitos indesejáveis, dificuldade para marcar consultas, falta de informações sobre a finalidade da medicação e os riscos de interrompê-la, indisciplina, baixa escolaridade, negação e dificuldades no relacionamento médico-paciente.

Nós, médicos, contribuímos involuntariamente para esses índices de aderência: entregamos as receitas nas mãos de nossos doentes e imaginamos que eles as seguirão religiosamente, sem levarmos em conta as idiossincrasias individuais.

Um hipertenso mal informado dos riscos de viver com pressão alta e da necessidade de medi-la e controlá-la, dificilmente tomará com regularidade as drogas prescritas.

O sobrevivente de um ataque cardíaco, precisa ser convencido de que, ao lado da atividade física e da dieta equilibrada, a medicação pode evitar que aconteça outro.

Se, nas condições de trabalho que o sistema público e os planos de saúde impõem à prática de hoje, o tempo de cada consulta é insuficiente para explicações mais detalhadas, precisamos de pessoas que nos ajudem. Quem são elas? Os familiares do doente e as enfermeiras, profissionais subutilizadas no Brasil.

A experiência mostra que contatos periódicos por telefone, SMS, e-mail ou WhatsApp aumentam significativamente a aderência. Equipes de enfermagem podem realizar esse trabalho com muito mais eficiência do que nós.

De que adianta basearmos nossa prática nas melhores evidências científicas se nossos pacientes não levarem a sério as mudanças no estilo de vida que lhes recomendamos nem tomarem os remédios receitados?

DRAUZIO VARELLA


09 DE MAIO DE 2020
JJ CAMARGO

A ORDEM NATURAL DAS COISAS

A morte dos pais, além de eliminar as nossas referências afetivas mais antigas e mais sólidas, ainda traz um recado: como a fila andou, a ordem dos personagens tem que se modificar. E vários relatos apontam a mudança na linha de frente, como uma experiência que pode ser considerada sutil, mas é sempre desagradável.

Quando assumida com a naturalidade que só as crianças conseguem imprimir, o modelo parecerá muito mais didático.

A mãe de um amigo querido era, com 71 anos, uma mulher ativa e aparentemente saudável, que se mantinha trabalhando, quando foi fulminada por um infarto e morreu diante de seus funcionários, durante uma reunião administrativa. Perplexos com a terrível perda, instalada sem preâmbulos, e sacudidos por uma nova realidade, com a dor do nunca mais tendo que ser elaborada de improviso, meu amigo, a esposa e dois filhos pequenos voltavam do cemitério naquele silêncio que mistura dor, pasmo e soluço.

No banco de trás, não havia lágrimas. Só incompreensão. E então o silêncio constrito foi quebrado com a descoberta do caçula que, na inocência dos seus cinco aninhos, anunciou: - Bom, agora primeiro vai o pai, depois a mãe, depois o mano e só depooois que vou eu!

Dito isso, com um enorme estoque de dura realidade liberado assim de supetão, voltou a silêncio.

O primeiro encontro com a morte, que é chocante em qualquer idade, nunca é completamente entendido na infância, o que justifica que, horas depois do enterro, as crianças voltem às brincadeiras usuais. E não há nada de errado nisso. O luto é mesmo elaborado com os sentimentos que temos, sem dissimulações, e permite até decoração com recursos cênicos ou com cantorias em diferentes civilizações, ou ainda, num modismo mais recente em nossa cultura ocidental, com uma calorosa salva de palmas.

Uma tarde, meu passeio no gramado de um enorme parque municipal em Nassau, nas Bahamas, foi interrompido pela chegada de um cortejo fúnebre. Enquanto o féretro avançava numa charrete puxada por um único cavalo, a multidão formava uma concha, todos de mãos dadas, entoando blues, com aquela voz linda que só os negros têm. O tom mais agudo da cantoria anunciou a proximidade do sepulcro, e então a concha se fechou formando um círculo. Todos seguiam cantando e chorando. Queria ter cantado, mas só chorei, por pura solidariedade, sem nem saber quem estava no centro daquele choro.

Quando, no início de março, minha mãe adoeceu de morte, resolvemos, para afastar as queixas de cansaço e dor, explorar a sua paixão musical. Então, selecionamos as músicas de que ela mais gostava, dando ênfase ao bandolim, instrumento que ela tocara na juventude. Por isso, Naquela Mesa, uma homenagem do seu filho a Jacob do Bandolim, com a Zélia Duncan, fazia parte obrigatória do nosso roteiro musical. A primeira metade desse arranjo, que dura 4min16s, é apenas instrumental, e ela me confessou que bastava fechar os olhos para ser transportada para uma época em que a morte estava fora de cogitação. A sua música preferida, A Noite do Meu Bem, de Dolores Duran, que tinha que ser cantada pela Ângela Maria, encerrou com emoção a cerimônia de despedida em seu velório.

E guardei-a como uma doce reserva técnica para o tempo que durar a necessidade de chorar, de vez em quando.

JJ CAMARGO


09 DE MAIO DE 2020
DAVID COIMBRA

O mistério do bolinho de feijoada

O Dado Bier original, que ficava ali perto do Iguatemi, embutido em um ermo, uma região da cidade que antes era remota e hoje é elegante, aquele primeiro Dado Bier foi histórico. Era um lugar bonito, cheio de ambientes diferentes, frequentado pelas mais belas mulheres do Brasil. Bastava caminhar pelo Dado Bier e olhar a paisagem para se desfrutar de uma noite agradável.

Eu ia sempre lá com meu irmão e o Professor Juninho, às vezes o Degô ia também. No meio da madrugada, a garçonete vinha das entranhas da cozinha equilibrando uma bandeja em que estavam instalados tubos de ensaio. Sério: tubos de ensaio, não copos. Continham uma bebida colorida e fumegante, coisa de que nem sei o nome. Não era bom, mas era divertido. Então nós bebíamos aquilo como se fosse a poção mágica do Obelix. Nada nos fazia mal naquela época.

No Dado Bier trabalhava uma garçonete, a Mari, que era famosa por sua beleza, sua simpatia e seu profissionalismo. No meio da noite, sempre havia algum bêbado pedindo a Mari em casamento, mas ela se esquivava dessas abordagens com classe e senso de humor, conseguindo ser leve e firme ao mesmo tempo. Assim, o que seria um assédio incômodo se transformava em um episódio folclórico. Os amigos do bêbado gozavam da sua tentativa infrutífera, aplaudiam a Mari e tudo ficava por isso mesmo. Que categoria, a Mari. Depois ela foi para outros bares da noite porto-alegrense. O último em que a vi foi o Quincho, que se encarapitava nos altos do Três Figueiras e servia um ótimo carreteiro de charque.

Escrevo sobre o Dado Bier porque, no meio da última semana, fiz uma crônica a respeito dos bares que tanta falta nos fazem agora, durante as agruras do confinamento. Alguns leitores se entusiasmaram e me mandaram mensagens discorrendo acerca de seus bares favoritos. E o velho debate se acendeu: afinal, qual foi o melhor bar da história de Porto Alegre?

Sou um homem fiel aos meus bares. Quando vou a um, é ali que vou sempre. Não gosto de mudar, porque me sinto leviano. Até porque bares são muito mais efêmeros do que restaurantes. Um bar se torna moda, viceja por algum tempo e, depois, por alguma razão começa a murchar, até que desaparece. Bares envelhecem. Restaurantes, não. Um restaurante pode ter 200 anos e continuar igual ao que sempre foi. Um bar bom, quando a gente vê, já foi. Por isso, quando assumo um bar, aproveito-o. Para mim, ele será eterno enquanto dure.

Fiquei pensando se o Dado Bier não seria um dos melhores bares da história de Porto Alegre, mas o descartei. Sabe por quê? Porque tinha dança. Bar não pode ter dança. Quando tem dança, deixa de ser bar e vira "casa noturna". O Dado Bier era uma casa noturna.

Gosto desse nome, "casa noturna", porque é aconchegante. Você sai da casa diurna, que é a sua casa, e vai para uma noturna. Quer dizer: você também se sente em casa, só que é de noite.

Mas voltando aos grandes bares de Porto Alegre, preciso ressaltar que mesmo a música ao vivo pode ser daninha ao bom bar. O bom bar haverá de ter comida saborosa, chope gelado e atendimento atencioso. Se tiver um prato que o distinga, aí, bem... aí pode ser o bar perfeito.

Seguirei relembrando a história de grandes bares da cidade, mas, por enquanto, quero me ater a este ponto: o prato de distinção. Porque era a respeito disso que, dias atrás, conversava com o Nilson, garçom do Tartare.

O Nilson me contou que, tempos atrás, ao empreender uma viagem para fora do Estado, aprendeu a fazer uma rara iguaria: bolinho de feijoada. Não é de feijão; é de feijoada, com todos os seus nobres ingredientes suínos. Ele descreveu o bolinho, contou em pormenores como é preparado e me deixou salivando.

- Meu Deus! - exclamei. - Eu quero bolinho de feijoada! Preciso do bolinho de feijoada! Quando teremos bolinho de feijoada? O Nilson baixou a cabeça e gemeu: - Nunca... - Mas... por quê? Por quê???

Ele explicou, com voz sumida, que tentou servir bolinho de feijoada no bar, mas os clientes não aprovaram. O bolinho de feijoada, por melhor que seja, afronta a cultura gaúcha, que reserva os sábados de inverno, e apenas os sábados de inverno, para comer feijoada e mocotó. Qualquer variação escandaliza os nossos tradicionalistas culinários. Para o gaúcho, tudo tem de ser sempre igual. Fiquei revoltado. Ainda estou. Quanto do proveito da vida perdemos por nosso conservadorismo!

DAVID COIMBRA
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09 DE MAIO DE 2020
MÁRIO CORSO

Preconceitos letais

Mary Edwards Walker nasceu em 1832 nos EUA. Teve uma infância livre para uma menina do seu tempo. Seu pai era médico prático, mas sabia o suficiente de anatomia para dar-se conta de que roupa de mulher era desconfortável para o trabalho doméstico. Deixava suas filhas usarem vestimentas adequadas aos afazeres. Para a época, consideraram que vestiam roupas de homem. Ela e sua família se lixavam para esses critérios.

Mary aperfeiçoou os passos do pai. Estudou medicina em Syracuse. Única faculdade da época que aceitava mulheres. Quando se formou, já brigava contra corpetes, crinolina, saias de baixo, anáguas e os demais adereços. Ela acreditava que essa condição engessava as mulheres para as lidas da vida. Tinha uma mente prática, sua questão era não trabalhar com uma armadura de pano que impedisse movimentos. Para realizar seu trabalho médico, preferia calças. Foi isso o que a tornou, na prática, uma feminista.

Começara a Guerra Civil e os hospitais precisavam desesperadamente de médicos. Mary sentiu-se convocada. Apresentou suas credenciais em vários hospitais. Em todos reiterava-se a condição de que ela vestisse um figurino feminino. Eram duas as imposições inaceitáveis: que atuasse como enfermeira sendo médica; que se submetesse à pesada indumentária corrente para mulheres.

A saga por enquadrá-la não dava tréguas. Mas nada como a tragédia para abalar preconceito. Mary trabalhava quando encontrava um cirurgião angustiado demais para se importar com a hierarquia machista ou tolices de costumes. Então ela podia limpar feridas, retirar balas e estilhaços, costurar cortes, amputar membros gangrenados, enfim, curar o possível.

Mary trabalhou em vários acampamentos militares, sempre perto do front, tanto que foi capturada. Posteriormente, num intercâmbio de prisioneiros, foi trocada por um major confederado.

Se a guerra é a antecâmera do inferno, um hospital de campanha do século 19 é o foyer. Jovens não param de morrer, intervenções cirúrgicas eram feitas sem anestesia. Por falta de material, escolhia-se quem tratar. Mutilavam-se corpos para salvar vidas. O enfrentamento com a morte pode ser mais duro nesse bastidor sem glória do que no campo de batalha.

A pergunta que fica: quantas mortes ocorreram enquanto discutiam qual roupa Mary deveria usar? Quantas vezes a ideologia emperra a máquina da vida para discutir picuinhas? Quantas mulheres, quantos cientistas, quantos médicos, maltratados pela imbecilidade militante, são agora requeridos à cabeceira daqueles que os desautorizavam e desdenhavam de seus conselhos?

Final da guerra, apesar de médica, Mary recebeu uma pensão de enfermeira. A medalha por bravura que recebera lhe foi retirada, só devolvida depois de sua morte. O preconceito ficou com a última palavra.

A partir da próxima semana, a coluna de Mário Corso será veiculada às quartas-feiras no espaço diário dos cronistas de ZH.

MÁRIO CORSO


09 DE MAIO DE 2020
FLÁVIO TAVARES

VIGIAR SEMPRE

A maldade maior do coronavírus não é ser invisível e atacar a esmo. A maldade suprema é nos fazer esquecer dos perigos maiores. Dedicados a impedir que a covid-19 continue a matar, toda a atenção voltou-se ao novo vírus, como se fosse única ameaça.

O diretor científico da Organização Mundial da Saúde já advertiu sobre algo "ainda pior" - as mudanças climáticas - cujos efeitos iniciais já sentimos e que nosso desdém agrava e nos aproxima do horror. Em 2014, uma pesquisa da UFRJ previu a hecatombe do clima deste 2020, com seca brutal no Sul e chuva torrencial inundando cidades do centro do país. Fingimos não ouvir e continuamos a tratar o planeta como inimigo, não como nosso lar.

No Rio Grande, a estiagem destruiu boa parte da nossa agricultura, mas não nos interessamos em sanar as causas do problema. Ao contrário, o governador (com apoio do Legislativo) mudou o Código Estadual do Meio Ambiente, facilitando a devastação irresponsável da cobiça.

Os combustíveis fósseis - a começar pelo carvão mineral - são a causa principal do horror das mudanças climáticas, mas aqui não falamos da mina a céu aberto, junto ao Rio Jacuí, a 12 quilômetros em linha reta da Capital, que pode transformar o Guaíba numa pestilenta lixeira líquida, como lembro sempre. Se não nos interessamos sequer pela água (que é vida), por que dar atenção a sarampo, dengue e outros vírus que pareciam extintos?

Não se conhece a origem exata do novo coronavírus, que se desenvolveu em ambiente degradado pela poluição do ar, das terras e águas. Não há horror que nasça da limpeza e da higiene. Só há poucos anos a China entendeu que a alavanca do seu progresso não podia continuar a ser o carvão mineral. O irrespirável ar das cidades chinesas faz com que, ao longo daquele país, há anos, todos usem máscaras como as que utilizamos aqui pela covid-19.

Em tempos de perigo, reiterar alertas e cuidados não é defeito, apesar de enfadonho. Ser vigilante é vigiar quando o perigo é contínuo mas se disfarça. Já pensaram onde estaríamos se a imprensa não alertasse sobre o vírus maldito?

No sábado de Aleluia, 11 de abril, escrevi aqui: "O atual outono frio faz prever um inverno gelado e úmido, ideal para o vírus se expandir e atacar".

O frio se antecipou, mas, por sorte, o governador entendeu o perigo e não se dobrou à insensatez dos que negam o horror da covid-19 e advogam abolir as medidas de vigilância e proteção.

Só o presidente da República segue alheio a tudo, chegando ao absurdo de sugerir que o Supremo Tribunal não reconheça como válidos os controles estabelecidos por governadores e prefeitos. Para ele, vigiar é controlar a liberdade de pensar, não o crime?

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES


09 DE MAIO DE 2020
ARTIGOS

MÃES EMPOADERADAS

O Dia das Mães, comemorado no Brasil no segundo domingo de maio, neste ano, devido à pandemia do coronavírus que atravessou o planeta, vai ser bem diferente, com a necessidade do distanciamento social. Os tradicionais encontros de celebração especial para homenagear quem nos trouxe ao mundo, os presentes comprados em meio ao burburinho dos shoppings, as viagens para encontros entre mães e filhos devem ser substituídos - com a ajuda da tecnologia e uma boa dose de criatividade - por telefonemas de vídeo e lembranças encomendadas na internet e enviadas por alguma telentrega.

O abraço apertado e afetuoso vai ficar na vontade, na saudade, para depois que tudo isso passar. Porém, há coisas que não mudam quando se está longe, mesmo diante da maior guerra sanitária mundial deste século. A força do amor incondicional de uma mãe. E esse poder independe da distância, da presença física. Todos os dias são dias das mães. Dias de agradecer pela generosidade, entrega e sacrifícios que elas dedicam aos seus filhos. Que não são poucos. Horas de sono acordadas, preocupações com o crescimento, a saúde e a educação de seus rebentos. E é a essas emPOAderadas, verdadeiras heroínas de suas próprias histórias, a quem devemos dedicar a mais sincera gratidão. Em Porto Alegre, há inúmeras mulheres incríveis que são exemplos de superação e coragem.

Em minha trajetória como primeira-dama, tenho tido o prazer de conhecer de perto a vasta capacidade de solidariedade e empatia que elas têm.

A pandemia expôs aos nossos olhos milhares de mães do chamado grupo de invisíveis que ficaram sem trabalho e tiveram de encarar longas filas para receber a ajuda do governo e dar sustento aos seus filhos. Ao depararmos com essa face tão difícil da realidade nacional, é momento de refletirmos sobre o verdadeiro sentido da vida dessas mulheres. Sobre o valor que elas têm e que é dado a quem não mede esforços pela sobrevivência e pela existência dos homens. Devemos tirar uma lição deste Dia das Mães. Respeitar sempre e cada vez mais quem dá a vida aos seus filhos, dedicando-lhes o maior e verdadeiro presente que ultrapassa qualquer barreira sanitária ou econômica. É uma simples frase que basta ser dita com o coração porque tem um significado enorme: te amo, mãe.

Primeira-dama de Porto Alegre agenda.gpd@portoalegre.rs.gov.br - TAINÁ VIDAL

09 DE MAIO DE 2020
ACERTO DE CONTAS

R$ 1 bilhão na veia da economia local


Indústria de celulose e conhecida por ter feito o maior investimento privado da história do Rio Grande do Sul quando ampliou a fábrica de Guaíba com R$ 5 bilhões, a CMPC está trabalhando para manter o mesmo nível de produção de 2019, apesar da crise. O plano também é assegurar os 6,5 mil empregos que a companhia gera no Estado. E mais, irá comprar R$ 1 bilhão de fornecedores gaúchos em 2020, considerando materiais e a contratação de serviços. As informações foram dadas pelo diretor-geral, Mauricio Harger, durante a Live GaúchaZH na quinta-feira.

- Só na cidade de Guaíba, deixamos R$ 500 milhões todos os anos. E temos ainda um desafio triplo: manter a saúde dos nossos funcionários, a renda deles e o abastecimento de produtos nas prateleiras - comentou o diretor-geral.

Harger afirmou que a demanda global por celulose deve cair em torno de 2%, o que é um privilégio no cenário atual da economia com a pandemia. A CMPC exporta 92% do que fabrica no Rio Grande do Sul, sendo que China e Europa respondem por mais da metade dos embarques. Por ser uma exportadora que importa pouco, tem se beneficiado do dólar alto, o que dá competitividade para seu produto no Exterior.

Dos empregos gerados pela companhia no Estado, 2,3 mil estão em Guaíba. Os demais estão divididos entre 70 municípios. Anualmente, a empresa investe US$ 500 milhões globalmente em suas unidades. Segundo Harger, a operação de Guaíba é uma das mais relevantes para o negócio, porque, sozinha, computa 43% da produção de celulose da empresa e entrega em torno de 35% a 40% do resultado do grupo.

A empresa entende que alguns de seus segmentos sofrerão mais do que outros. É o caso, por exemplo, de papel para impressão, usado em livros, uma vez que as escolas estão fechadas. Já papéis de embalagem e papelão, no momento, estão com impacto neutro, porque, apesar de ter uma redução industrial, as pessoas estão pedindo mais coisas em casa. Ainda há a operação de papéis de higiene e limpeza, onde houve um aumento de demanda.

- Apesar de ter segmentos negativos e positivos, este ano deve ficar negativo e recuperamos nos próximos anos. Entendemos que serão tempos de adaptações - diz Harger.

Considerando o geral da economia, o diretor-geral da CMPC avalia que o próximo semestre será desafiador para o país. Ele acha que iniciaremos a volta ao normal somente por volta de julho ou agosto.

GIANE GUERRA


09 DE MAIO DE 2020
+ ECONOMIA

Cultura Home Office "Somos interdependentes"

A coluna estreia uma nova seção em que empresários e executivos compartilham aprendizados durante a crise, assim como visões de futuro. Sempre que possível na voz dos próprios convidados, será outra forma de disseminar reflexões e lições. O primeiro é o presidente do conselho de administração da Lojas Renner, José Galló, famoso por propor aos executivos do grupo listas de leituras. É assim que deve ser entendida a observação de que leu "só" três livros em 40 dias de home office (na foto, Galló está em seu local de trabalho em casa). Leitor voraz, relata ter dividido o tempo com lives e webinars, que ocupam boa parte do tempo nesse período:

"Já são quase 40 dias de home office, imaginei que haveria tempo para ler muitos livros, acabei lendo só três:

- 21 Lições para o Século 21, de Yuval Noah Harari (Cia. das Letras);

- Platform Revolution, de Geoffrey G. Parker, Marshall W. Van Alstyne e Sangeet Paul Choudary (Norton); - O Estilo Startup, de Eric Ries (Sextante).

Porém, li muitos artigos e estudos, desde economia a comportamento do consumidor e comportamento do vírus. O que também acabou acontecendo é que fomos invadidos por lives e webinars (XP, Itaú, BTG, BCG, Bain, entre outras).

Foi difícil conseguir selecionar quais eu gostaria de ver, algumas acabei assistindo após sua realização.

Qual a parte boa? Consegui absorver um nível enorme de conhecimento ficando em Porto Alegre, sem precisar ir a São Paulo, NY, Londres. Isso me fez pensar muito sobre o mercado e o que será o mundo pós-crise. Algumas me fizeram ver que muitas vezes nós, de empresas e entidades, nos achávamos independentes, e a conclusão é que somos interdependentes. Também foi incrível ver o espírito de solidariedade entre pessoas, empresas e organizações.

Assisti a algumas séries e canais pagos, procurando muita natureza e assuntos relaxantes. Não deixei de fazer, de três a quatro vezes por semana, exercícios físicos orientado por vídeos do meu personal. Também acabei assistindo (mais do que o normal) canais de notícias de 24 horas, como GloboNews e CNN. Isto tudo está me preparando para o novo normal, que certamente terá muitas oportunidades, coisas boas e diferentes. Esta crise também ajudou pessoas e empresas a desenvolverem competências para tempos difíceis, que os líderes mais jovens não tinham, porque fazia um bom tempo que não víamos uma crise tão aguda e diferente. Enfim, cada dia de uma vez, vivendo a vida e me preparando para o futuro."

+ ECONOMIA


09 DE MAIO DE 2020
CORONAVÍRUS

Grupo RBS, Renner e Lebes se unem no combate à covid-19

Iniciativa das marcas busca conscientizar o público para o uso de máscaras e apoiar a cadeia têxtil, fragilizada pela pandemia.

Grupo RBS, Renner e Lebes estão juntas para incentivar o uso correto de máscaras para evitar a contaminação pelo coronavírus. O objetivo das três grandes marcas é mobilizar os gaúchos a aderirem às máscaras, a partir da crença de que cada um de nós tem um papel fundamental no combate à pandemia e para acelerar o encerramento da crise. A iniciativa leva em conta as orientações dos órgãos oficiais, prevê ações de comunicação em todos os veículos da RBS e distribuição de máscaras em comunidades carentes do Estado.

O projeto foi pensado de forma conjunta pelos CEOs da RBS, Claudio Toigo Filho; da Renner, Fabio Faccio; e da Lebes, Otelmo Drebes. Além de aproximar as empresas das comunidades e contribuir no combate à disseminação do coronavírus, a ação busca apoiar uma parte da cadeia produtiva do Estado que sofre diretamente com a crise econômica: as pequenas e médias empresas do setor têxtil.

- Acredito que a melhor forma para enfrentar essa pandemia, proteger a saúde dos gaúchos e conseguir retomar nossas rotinas da forma mais segura possível é através da educação e da solidariedade. É preciso unir forças, habilidades e expertises para levar informação a todos os cantos e conscientizar as pessoas de que cada um precisa fazer a sua parte. Todos nós: empresas, governos e comunidades. Por esta razão, a Lebes abraçou o Projeto Solidariedade com o Grupo RBS e a Renner. É preciso comprometimento de todos, um importante pilar desse grande projeto. Esperamos assim mobilizar os gaúchos e transformar o uso correto das máscaras em um hábito diário. Queremos também inspirar outras empresas para que se juntem a nós nesta grande causa - comenta Otelmo Drebes, presidente da Lojas Lebes.

Comunidades

No momento em que o Rio Grande do Sul vive a possibilidade de flexibilizar o isolamento social com o novo modelo em implementação no Estado, o papel de cada cidadão passa a ser ainda mais decisivo para evitar o contágio e superar a crise econômica. Por isso, a escolha por comunidades carentes para a entrega de 200 mil máscaras. São locais onde faltam informação e recursos para a prevenção.

- Estar próxima das comunidades onde atua sempre foi um valor da RBS e de nossos acionistas. Temos apoiado com doação de mídia, a partir da cobertura editorial e em campanhas publicitárias, inúmeras ações positivas de combate à doença e à crise, mas queríamos fazer algo proprietário, com nosso envolvimento direto. Cada gaúcho terá um papel fundamental a partir de agora, para que possamos evoluir. Por isso, decidimos, junto com parceiros que têm uma visão semelhante, dedicar esforços a conscientizar todos sobre a importância da prevenção - destacou o CEO da RBS, Claudio Toigo Filho.

A RBS participará da ação por meio da Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho (FMSS), marca social da companhia. A distribuição será realizada em parceria com a Cufa em Porto Alegre, Caxias do Sul, Passo Fundo, Pelotas e Santa Maria. Mas o convite é para que outras empresas façam também parte do projeto, permitindo ampliar o número de máscaras doadas, comunidades atingidas e municípios cobertos pela iniciativa.

- Desde o início da pandemia, a Renner vem atuando em diversas frentes para preservar a saúde e o bem-estar de colaboradores, clientes, parceiros de negócio e comunidades. A situação exige diálogo, transparência e serenidade, pois todos temos que vencer um inimigo em comum, que é o coronavírus. E conseguiremos isso de forma mais rápida unindo esforços. Atuar em uma grande corrente de colaboração, como essa com a RBS e a Lebes, nos permite multiplicar resultados, otimizando os cuidados a quem mais precisa de nós neste momento. Por isso, convocamos outras empresas a se juntarem a esta rede e ficamos à disposição daqueles que queiram construir em conjunto outras alternativas de apoio - diz o diretor-presidente da Lojas Renner, Fabio Faccio.

RBS, Renner e Lebes estão trabalhando em força-tarefa para organizar a logística da ação, que deve se iniciar ainda em maio.

Outras medidas que essas empresas já tomaram durante a pandemia para amenizar a crise

Grupo RBS

Desde o começo da pandemia, a RBS está apostando seus esforços na missão de manter a informação certificada à disposição do público. O lançamento semanal de novos produtos e o acesso gratuito a conteúdos de serviço sobre a pandemia em GaúchaZH e no Pioneiro digital são exemplos disso. A partir da força dos seus veículos, com cobertura, mobilização dos comunicadores e publicidade, a empresa tem reverberado o apelo para que os gaúchos sigam todas as recomendações necessárias, a partir da mobilização 360º #juntoscontraovírus. Adicionalmente, a RBS tem dado visibilidade, em seus espaços editoriais e a partir da doação de mídia, às ações positivas que estão contribuindo para a solução da crise do coronavírus. Com esse objetivo, o equivalente a mais de R$ 4,6 milhões foi cedido em chamadas de TV, rádio, jornal e digital para a divulgação de projetos e causas sociais

Renner

A Lojas Renner vem desenvolvendo uma série de iniciativas de responsabilidade social para atuar no combate à crise gerada pelo coronavírus, somando um investimento que ultrapassa os R$ 5,5 milhões. Por meio do Instituto Lojas Renner, mobilizou uma rede de colaboração com o objetivo de apoiar hospitais em diferentes regiões do país e comunidades em situação de vulnerabilidade. Isso inclui a doação de 1,3 milhão de unidades de EPIs para instituições de saúde, fabricadas pelos próprios fornecedores da Renner. A varejista também lançou a plataforma Inovação do Bem, em parceria com o Hospital Albert Einstein, para conectar hospitais a produtores de EPIs e uniformes. Em paralelo, a Lojas Renner está implementando ações com foco na preservação dos empregos de seus mais de 23 mil colaboradores e no suporte a toda a sua cadeia de fornecimento, incluindo a disponibilização de subsídio e consultoria a micro e pequenas empresas em seis Estados brasileiros

Lebes

A Lojas Lebes foi uma das primeiras redes de varejo do sul do país a fechar suas portas para proteger clientes e colaboradores contra o coronavírus. Isto ocorreu no dia 21 de março, antes mesmo do decreto do governador Eduardo Leite, que definiu o fechamento do comércio no Rio Grande do sul. Na semana seguinte, com toda a operação parada (170 lojas no RS e SC), a empresa aproveitou sua fábrica de confecção New Free, localizada no município de São Jerônimo, para produzir 30 mil máscaras de proteção para serem doadas. A ideia surgiu de um grupo de costureiras da planta, que trabalharam de forma voluntária, junto com a direção da empresa. Os equipamentos foram destinados a comunidades carentes e secretarias de Saúde de 17 municípios do Estado


09 DE MAIO DE 2020
RODRIGO CONSTANTINO

Temer melhorado

Bolsonaro foi eleito com um discurso de mudança e nova política, apesar de ter sido deputado por três décadas e emplacar três filhos na política. De fato, montou um ministério técnico, com nomes de peso como Paulo Guedes e Sergio Moro, sem divisão feudal entre caciques partidários. Apostou nas "bancadas temáticas" para ter governabilidade, assim como na pressão popular. Era uma aposta ousada.

A renovação do Congresso foi alta, mas restaram muitos ícones da velha política, do centrão fisiológico. Numa democracia tão fragmentada, era quase utópico imaginar o fim do "presidencialismo de coalizão". E Bolsonaro não estava disposto a partir para o "presidencialismo de cooptação", ou seja, para o mensalão petista. Restavam poucas alternativas concretas.

Uma delas era abrir mão de parte da agenda e montar uma base de apoio programático, ou seja, compreender que governar é priorizar as pautas mais relevantes e contemporizar. Afinal, em que pese a representatividade questionável num país sem voto distrital, os parlamentares também foram eleitos, representam parcela do povo tanto quanto o presidente.

Mas o estilo de Bolsonaro sempre foi o do confronto. Sua mentalidade militar enxerga apenas aliados fiéis ou inimigos mortais, sem região cinzenta. Construir consensos não é sua área, e sim implodir pontes. Influenciado pelo guru de Virgínia, a cizânia era inevitável. Começou rachando o PSL ao meio. É verdade que alguns ali eram oportunistas traidores mesmo, mas as constantes intrigas em nada ajudaram.

Veio a pandemia, e a postura do presidente se mostrou bastante inadequada. Ele tinha um ponto ao chamar a atenção para o lado econômico, mas fez isso de forma bem atabalhoada e até irresponsável. Ficou mais isolado ainda. Em meio à crise da saúde e ao desastre econômico contratado, Bolsonaro ainda conseguiu produzir uma enorme crise política. Perdeu o ministro Moro, um dos pilares cruciais que representava o lavajatismo no governo. Quase perdeu Guedes, que se sentiu traído em vários momentos.

Restou, para sobreviver, o baixo clero, blindando-se contra o impeachment. Na melhor das hipóteses, será um novo governo Temer, um pouco melhorado. Uma grande oportunidade perdida para o país. Uma pena!

RODRIGO CONSTANTINO

sábado, 2 de maio de 2020



02 DE MAIO DE 2020
LYA LUFT

Lou Borghetti

Estas são as frases que eu jamais quereria escrever. Pois vou falar de uma amiga muito especial, um ser humano singular, que personalizava alegria, vitalidade, seriedade na sua arte, melancolia, profundos pensamentos, fraternidade e solidão. Eu a conheci há talvez 10 anos, quando Lisette Guerra perguntou se eu gostaria que Lou retocasse um retrato meu, para uma exposição. Eu não conhecia Lou pessoalmente, mas, muito, de algumas de suas belas obras, e fotos ou entrevistas de jornal, e através de amigos e admiradores.

Ela apareceu em minha casa, trocamos ideias, e imediatamente alguns fios luminosos estabeleceram entre nós uma amizade daquelas da vida para a vida. Uns dois anos depois, sentada em minha sala, contemplando um vaso de vidro azul, barrigudinho, com ramos de buganvílias vermelhas, solferinas, amarelas e brancas colhidas no meu terraço, me veio um daqueles impulsos - minha vida foi em boa parte feita de impulsos. Telefonei para Lou: "Estou olhando umas buganvílias incríveis aqui na minha sala, e me deu vontade de pintar. Podes me ajudar?". Ela, com sua alegria generosa, logo me acolheu, "claro, vem pro atelier, não traz nada, eu te empresto tudo e depois a gente vê".

Minha primeira ida ao atelier foi inesquecível. Ali respirava algo totalmente novo, o belo, o sofisticado, o simplésimo, a vida. Logo deparei com uma grande tela numa parede, em tons de preto, branco, cinza, uns vagos azuis, e espontaneamente exclamei: "Mas este é o mar de todo os naufrágios!". Lou me deu a tela de presente, e eu a contemplo o dia todo na minha sala. Depois disso passei a frequentar o atelier todas as quartas-feiras, aula particular, em que não sei se mais falávamos ou pintávamos: dependia do dia, da hora. Conversas filosóficas ou fúteis, trágicas ou hilárias, cimentando uma amizade irredutível entre uma já velha e outra no esplendor da sua maturidade.

Quando ela adoeceu, e entrou numa luta feroz contra uma doença diabólica, e não se entregou apesar das dores e dificuldades: sempre elegante, maquilada, com seus colares e anéis, cada dia mais debilitada e, parecia, mais corajosa. Difícil acreditar que estava, realmente, nos sendo roubada por uma doença muito agressiva. Nunca se queixou diretamente, apenas lamentava estar mais fraca dia a dia. Teve uma alegria extraordinária, o nascimento de sua neta Helena, que ainda pôde segurar, embalar, curtir, cujo quartinho decorou, e que me dizia ser a maior alegria de sua vida, junto com a filha, Fernanda.

Quando Lou morreu, "a mãe se foi", me escreveu a filha numa dor que eu mal imagino, não acreditei direito, e mesmo hoje, dias depois, ainda parece pesadelo. Seu currículo invejável - aulas com os maiores artistas brasileiros, além de Iberê, de quem foi assistente, e que por um breve tempo usou o atelier dela para pintar, sua obra maravilhosa, sua personalidade ímpar, continuarão a preencher nossas vidas. A gente preferia ela viva, com seu perfume Narciso Rodriguez que adotei, com sua voz especial, sua risada linda, sua fraternidade com alunas e amizades, com todo o seu natural esplendor.

Vai ser anjo no céu, Lou Borghetti: cada coloração especial nas nuvens será uma pincelada tua para nos dizer: "Oi, gente, estou aqui".

LYA LUFT

02 DE MAIO DE 2020
MARTHA MEDEIROS

Levemente pirados

Continuamos dentro de nossas casas, vivendo entre quatro paredes - espaço que costuma ser amplo para alguns afortunados, porém exíguo para a maioria dos brasileiros e suas novas rotinas.

Os que moram só fazem abdominais sobre o tapete da sala, dançam com parceiros invisíveis, almoçam na companhia de um pet e jantam na companhia do William Bonner. Dormem mais tempo do que o habitual ou têm insônias intermináveis. Endireitam quadros que não estão tortos, encharcam as plantas cinco vezes ao dia e às 19h abrem um vinho a fim de tomar um moderado cálice. Pegam o celular para dar uma olhada rápida no Facebook e só o largam quando o pescoço ganhou uma contração e a segunda garrafa de vinho já está vazia, por volta de duas da manhã. Sofrem por não estar ao lado de seus entes queridos, sem imaginar que as coisas não andam nem um pouco melhores com eles.

A convivência em família não tem sido tarefa para amadores. As brigas começam por uma banalidade qualquer, como o ponto de cozimento de um ovo, e desandam para traumas retroativos, como o de ter sido um bebê que nunca foi amamentado no peito. A mãe reclama do filho que ainda não arrumou a cama, e ele revida lembrando-a do dia em que ela esqueceu de buscá-lo no jardim de infância. O marido comenta que a camisa não está bem passada, e a mulher surta: quando ele dá por si, está explicando pela centésima vez que não foi ele que beijou a morena com vestido de lurex na festa de Réveillon de 1983. O adolescente sai do banheiro, depois de 15 minutos embaixo do chuveiro, e depara com um pai raivoso que segura a conta de luz, aos berros, e logo a coloca na boca, mastigando-a como se fosse um crepe.

Não me parece uma boa hora para testar a sanidade mental de nossos parceiros de cela.

Então, quando a atmosfera pesar, não discuta. Arraste a cortina para o lado, abra os vidros e espie o pedaço de mundo que lhe coube. Você há de ter uma janela. Talvez consiga enxergar uma árvore ou duas. Talvez possa se distrair contando quantos pedestres caminham pela calçada usando máscara. Talvez enxergue um naco do céu. Ou um naco do apartamento do vizinho: xeretar, a essa altura, não é crime, eu acho. Janela é a saída - só não leve ao pé da letra. Outro dia, mandei um WhatsApp para uma amiga que está confinada sozinha em um apê de 15 metros quadrados, a milhas de distância. Perguntei se ela tinha uma janela. Respondeu que tinha, mas morava no primeiro piso, de nada adiantaria saltar.

A obrigatoriedade de reclusão mexe com os nervos, mas o jeito é rir um pouco e lembrar que ao menos algo nos une: estamos sendo testemunhas históricas deste desconcertante mundo novo. E, se mantivermos a cabeça no lugar, seremos devolvidos pra rua assim que possível.

MARTHA MEDEIROS


02 DE MAIO DE 2020
LEANDRO KARNAL

A REVOLUÇÃO DO CORPO

No dia 29 de abril, segundo determinação da Unesco, celebra-se o Dia Internacional da Dança. Foi escolhida a data por ser aniversário do professor, coreógrafo e bailarino francês Jean-Georges Noverre (1727-1810). Noverre representou a passagem do balé formal de corte e de teatro para o estudo da gestualidade das ruas para uma "dança em ação". Assim, o ato de dançar seria mais natural e expressivo. Era admirado pela elite londrina, por Maria Antonieta e por Frederico da Prússia. Foi amigo de Voltaire e de Mozart. Era uma celebridade em toda a Europa.

Leio com admiração biografias como a de Noverre. Vim ao mundo sem habilidades de desenho e de dança. Na minha família, o mal é coletivo e corre, entre nós, o adágio que, "se um Karnal souber desenhar ou dançar, é bastardo". Mais de uma vez, disse que só dançava para acasalamento, ou seja, na fase da conquista e, depois, revelava minha inaptidão absoluta para o bailado.

Das musas que presidem ao ato artístico, Terpsícore (da dança) foi a que se recusou a assistir ao meu nascimento. Admiro o corpo falando pela dança, admiro a técnica e a expressividade daquelas mulheres e homens que exibem um ato árduo de trabalho prévio parecer leve. No aniversário de 80 anos da minha mãe, fiz o último e debalde esforço: treinei uma valsa. Felizmente, não foi filmada a pantomima. Os mais generosos diziam que eu parecia aqueles bonecos de posto de gasolina com vento que os ergue e, imediatamente, os derruba. Existe certa honra em reconhecer limites. Dançar e desenhar são limites pétreos meus.

Um dia, usei a imagem de um pé de bailarina em uma palestra. Estava machucado, com entorses e hematomas. Era o fruto de horas pesadas de treino e de muita dor, choro e sacrifício.

Quando vemos a graciosa bailarina voando, delicada e ágil, poucos imaginam que a estrada até ali seja tão complicada. A dança é de uma exigência enorme. É verdade, sei, como músico amador, que o estudo prolongado de piano causa dor nas costas, cansaço visual e até exaustão das mãos. A dança demanda a dor nas costas, nas mãos, nos pés, no pescoço e na alma. O ato de se entregar a um público é sublime e... exaustivo.

Falei de dança clássica, porém, admiro todas as formas de movimento de corpo. Os passos desconstruídos da street dance, o gingado do samba, os maracatus ritmados, a sensualidade do tango e a coreografia da valsa (não dançada por mim, claro). Nas cortes antigas, saber dançar um minueto e outras formas coreografadas era tão importante quanto a boa conversação e o uso dos talheres. Dançar, para homens e mulheres, era parte da educação formal que se exigia para o convívio.

Admirei imagens ou vídeos de Márcia Haydée e de Mikhail Baryshnikov. Assisti ao vivo à força cigana da dança de Joaquin Cortés. Vi balés tradicionais (O Lago dos Cisnes, O Quebra-Nozes, Dom Quixote etc.) no Alla Scala de Milão, em Nova York e em São Paulo. Minha incapacidade pessoal aumenta minha admiração pela sincronia e pelo domínio de cada fibra do corpo com elegância e arte.

Vou ultrapassar algumas fronteiras e chocar os mais pudicos. Admiro, também, as dançarinas de funk em trios elétricos. Sim, sei que muitos colegas intelectuais dirão que é uma coisificação do corpo feminino. Discordo. Acho um empoderamento expressivo uma mulher como Anitta dirigir um cortejo com centenas de milhares de pessoas mesmerizando com um gesto de se abaixar e balançar o quadril. Podem existir excessos em bailes funk? Tenho certeza que sim, como podem existir em sofisticados apartamentos que ouvem jazz melódico e se locupletam de drogas.

Há um traço de demofobia no julgamento do funk. O corpo livre vira um manifesto político, e o corpo é a área por excelência para o exercício da repressão. Isso vai da barriga gestante de Leila Diniz à minissaia de Mary Quant; da liberdade da primeira-dama Nair de Tefé dançando o Corta-Jaca no palácio presidencial ao ritmo empreendedor de Larissa, mais conhecida como Anitta. O corpo livre incomoda as mentes acorrentadas. O corpo livre da mulher é ainda mais escandaloso. Faz milênios que se ouve o mesmo brado: "As mulheres de hoje em dia estão cada vez mais peladas e mais fáceis. No meu tempo, elas sabiam ter decoro". Essa é uma frase encontrável no Baixo Império Romano, no Renascimento, ao longo do século passado e no Carnaval de 2020.

Dançar pode ser libertador. Escrevo e imagino se me inscreverei na desconfiança da bastardia da família. Aprenderei a dançar tão próximo à data em que poderei utilizar fila especial de melhor idade nos aeroportos? Talvez sim. No meu caso, trata-se de questão pessoal de relevância discutível. No caso da sociedade em geral, enquanto houver um corpo voando no Lago dos Cisnes ou agitando um trio elétrico, haverá esperança de que ainda exista vida, disciplina da liberdade e projetos vitoriosos. Viva Isadora Duncan! Viva Anitta! Viva todo ser que diz que o corpo pode expressar, protestar e ser sem depender do azedume alheio. Esperança sempre! A esperança faz dançar.