sábado, 16 de maio de 2020



16 DE MAIO DE 2020
J.J. CAMARGO

A DAMA DA LÂMPADA

Nesta semana, há exatos 200 anos, nascia, na Itália, Florence Nightingale, filha do milionário inglês William Shore Nightingale, que vivia então em Florença.

De volta a Londres, ela teve uma educação primorosa no King?s College e se encaminhava para ser mais uma donzela deslumbrada, reprisando as filhas de famílias ricas da Inglaterra vitoriana. No entanto, como para provar que muitas vezes o destino quebra projetos, em uma viagem ao Egito, visitando hospitais, ela teve despertada a sua vocação para a enfermagem, apesar de, à época, não ser reconhecida como uma atividade digna. No século 19, os hospitais funcionavam como albergues que recolhiam os miseráveis que adoeciam, enquanto os ricos eram tratados em suas próprias casas, para onde acorriam os médicos chamados para atendê-los.

Foi nesse universo de máxima degradação humana, que Florence mergulhou e descobriu o quanto podia ser feito, além de simplesmente lamentar a má sorte dos desprotegidos. Criou uma escola de enfermagem no Saint Thomas Hospital, em Londres, que lhe abriu as portas para ser considerada, na posteridade, a mãe da enfermagem moderna. A grande guinada na sua vida ocorreu quando, aos 33 anos, se inscreveu como voluntária para cuidar dos feridos da Guerra da Crimeia, um conflito em que a Inglaterra e a França decidiram apoiar a Turquia, contra a ambição de expansionismo ilimitado da Rússia, e que, em três anos, resultou em milhares de mortos e feridos graves.

Com um grupo selecionado de 38 voluntárias, Florence liderou uma política de assistência que priorizava higiene máxima e alimentação adequada dos feridos. Apaixonada por matemática e com noções de estatística, demonstrou que, com esses cuidados básicos, era possível reduzir para 3% uma mortalidade que oscilava em torno de 40%.

As notícias que vinham do front davam conta do seu heroísmo e, na Inglaterra pós-guerra, foi considerada a segunda pessoa mais famosa, atrás apenas da Rainha Vitória, que lhe agraciou, anos depois, com a maior comenda nacional, a Ordem do Mérito. Numa publicação do final do século 20, Florence foi incluída na lista das 100 mulheres que mais contribuíram para moldar a história da humanidade.(Rolka, 1994). Num pequeno e delicioso manual, ela escreveu: "Toda mulher, um dia, cuidou de uma criança doente ou de um desvalido. Toda mulher, um dia foi, ou será, enfermeira".

Sua biografia confirmou que quem cuida de gente não se destaca apenas pela fita métrica da competência. Florence fez dessa maravilhosa profissão a apologia da generosidade e do afeto, sempre disponíveis, como quando percorria, tarde da noite, as enfermarias dos hospitais para uma última palavra de consolo, o que lhe rendeu o título de a Dama da Lâmpada. O tempo passou, os hospitais se informatizaram, os visores coloridos brilham nas salas de prescrição, mas o reconhecimento dos pacientes acarinhados nunca mudou.

É compromisso da gratidão manter acesa a lâmpada que ela carregava. Enquanto houver quem precise ser socorrido.

J.J. CAMARGO


16 DE MAIO DE 2020
DAVID COIMBRA

Ninguém se importa com a opinião de Bolsonaro

Sabe o que vai acontecer agora, com a saída de mais um ministro da Saúde, depois de 28 dias desde a sua nomeação? Nada. Não fará a menor diferença.

O ex-ministro pediu demissão porque Bolsonaro queria que a cloroquina fosse recomendada pelo governo como tratamento miraculoso contra a covid-19, com o que ele não concordava. O novo ministro, obviamente, fará o que Bolsonaro quer: recomendará a cloroquina como tratamento miraculoso contra a covid-19. E os médicos, nos hospitais, ao pé da cama dos doentes, o que farão, por sua vez? Nada. Estarão pouco se lixando. Os médicos farão tão somente o que acharem correto e bom para seus pacientes, sem dar a mínima atenção para os desejos de eventuais ministros da Saúde ou do presidente da República.

Já os 27 governadores e os milhares de prefeitos de todo o país continuarão fazendo o que faziam: tomando suas decisões independentemente do que pensa ou pretende o presidente da República.

Bolsonaro conseguiu essa façanha com sua gestão errática: tornou-se irrelevante. Pela primeira vez, na história mais que centenária da República, o que um presidente diz ou faz não tem a menor importância.

Nenhuma liderança responsável se guia pelo que pensa Bolsonaro, porque ele afronta o senso comum. Tome a questão da cloroquina. Se esse remédio de fato curasse a covid-19 de forma indubitável, por que os médicos não o recomendariam com entusiasmo? Por que os dois ex-ministros da Saúde, que são médicos, não cederiam à vontade do presidente, sugerindo seu uso indiscriminado em todo o país? Por que a cloroquina não seria reconhecida como cura desta doença em alguma parte do mundo, em qualquer parte do mundo, uma só?

Por quê? Não existe lógica nessa teimosia de Bolsonaro. O que existe é ignorância e, quando falo em ignorância, não estou chamando o presidente de estúpido. Estou dizendo que ele ignora o assunto do qual está tratando, este assunto grave, que é a pandemia mundial. Ele não entende do tema e, pior do que isso, não aceita a opinião de quem entende.

A propósito: do que entende Bolsonaro? Ele já admitiu de sobejo que não entende de economia, e o reconhecimento até é um ponto a seu favor. Quando deputado, não apresentou um único projeto relevante a respeito de qualquer assunto. Antes de se eleger, foi um militar medíocre. Segundo o general Geisel, "um mau militar". Como político, não liderou nenhuma bancada, nenhum partido, nada.

Bolsonaro parece competente apenas em protagonizar conflitos. Seu grande mérito, a razão da sua eleição para a Presidência, foi o confronto. Foi dizer não: não ao PT, não ao politicamente correto e, supostamente, não à corrupção.

Bolsonaro se apresentou como antissistema, e ele é mesmo isso. Bolsonaro é antipolítica, porque a política é a arte do diálogo, da negociação e da convergência, o que ele não consegue fazer. Bolsonaro é antiliderança, porque o líder agrega, enquanto ele é um desagregador por natureza. Bolsonaro é um antipresidente.

Num momento de crise planetária, de sofrimentos e incertezas, em que a população deveria estar caminhando na direção do mesmo rumo, o presidente da República, em vez de ser um farol, é uma fonte de insegurança.

Bolsonaro só não será responsável por uma terrível mortandade no país porque os governadores transformaram o Brasil numa federação de fato, e não apenas de direito. Os Estados tomaram o volante do carro desgovernado nas mãos e o estão conduzindo por conta própria. Bolsonaro? Está esperneando no banco de trás. Mas ninguém lhe dá ouvidos, ninguém está interessado em sua opinião. Bolsonaro pode trocar quantos ministros quiser, pode dar palpites sobre assuntos que desconhece, pode tuitar à vontade, fazer lives com camisa de time, participar de manifestações a favor da ditadura ou gritar impropérios nas coletivas. Ninguém se surpreenderá. Ninguém se abalará. Ninguém realmente o leva a sério.

DAVID COIMBRA

16 DE MAIO DE 2020
ARTIGOS

CEM ANOS DE VIDA

Neste domingo é dia de celebrar um aniversariante muito importante para o nosso Estado. São cem anos completados com muita vitalidade, saúde e carisma. Durante esse século, construiu uma sólida tradição, reconhecida por todos os que o escolhem para o seu convívio e mensurada pelos resultados que conquistou.

A tradição traz segurança, robustez e capacidade de superar desafios, mas deve vir sempre acompanhada pela inovação, outra característica importante desses cem anos de vida. Nunca o mundo cresceu e se transformou tanto como nestas últimas décadas. Frente a isso, nosso aniversariante sempre foi ágil, ressignificando-se constantemente para superar os desafios que surgem. Os métodos foram reinventados e os ambientes atualizados, mas a forma de cuidar daqueles que o escolhem sempre se manteve.

O aniversariante ao qual me refiro é o Colégio Marista Champagnat, fundado no dia 17 de maio de 1920, em Porto Alegre, em um espaço que décadas depois também seria dividido com o vasto campus da PUCRS. A escola, que nasceu pouco depois de a gripe espanhola atingir o Brasil e boa parte do mundo, celebra seus cem anos frente a uma nova pandemia. Como foi há um século, a educação será essencial para passarmos por esta crise juntos, como comunidade, e o Marista Champagnat seguirá à disposição da sociedade gaúcha, que desde o princípio o acolhe tão bem.

Hoje celebramos a distância, mas em sintonia com os 1,3 mil estudantes, que são a razão de existência do colégio, com as famílias que confiam na instituição e com os mais de 160 educadores que diariamente dão continuidade à missão marista. Tenho certeza de que logo todos estarão reunidos novamente nas salas de aula, laboratórios e quadras da escola. Até lá, comemoramos os cem anos do Marista Champagnat com gratidão pelo passado, valorização aos esforços do presente e com um olhar de esperança para o futuro.

Superintendente dos Colégios e Unidades Sociais da Rede Marista superintendencia@maristas.org.br
ROGÉRIO ANELE

16 DE MAIO DE 2020
RBS BRASÍLIA

Saúde não é prioridade para Jair Bolsonaro

Ao partir para o terceiro nome no comando do Ministério da Saúde, em meio a uma pandemia, Jair Bolsonaro deixa claro que cuidar da vida dos brasileiros não é prioridade. Se a manutenção de uma política clara de combate à pandemia estivesse no topo da lista do presidente, ele ouviria com atenção o que os cientistas têm a dizer.

Os médicos Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich não foram defenestrados por incompetência. Com diferentes estilos, eles saíram do governo porque não defenderam o fim do isolamento social e o uso da cloroquina logo no início do tratamento contra a covid-19. Político e carismático, Mandetta fazia sombra para o chefe. Mas Teich foi tão discreto que aceitou até mesmo ser tutelado pelos militares que assumiram postos importantes na pasta. Ele só não admitiu manchar a própria biografia, assinando um novo protocolo para o uso do medicamento.

- A vida é feita de escolhas - disse o ex- ministro, no brevíssimo discurso de despedida.

Como disse a secretária da Saúde do Rio Grande do Sul, Arita Bergmann, a discussão da cloroquina não resolve o problema dos Estados. O ministério precisa liberar leitos de UTIs, comprar e distribuir respiradores, enfim, administrar o SUS dentro da lógica tripartite. Fez bem o STF, que assegurou autonomia aos Estados e municípios na aplicação das ações contra a crise sanitária, blindando essas regiões dos desatinos de Bolsonaro.

Governo manda sinais trocados

Um dia depois de apoiar a aprovação no Congresso de um reajuste salarial para policiais do Distrito Federal, Bolsonaro apareceu em frente ao Alvorada com uma máscara da PM do DF. A sinalização dos apoiadores faz sentido. A negociação foi fechada com o governador Ibaneis Rocha e a bancada da bala. A área econômica não esconde o constrangimento. Questionado, o secretário de Política Econômica, Adolfo Sachsida, disse que o reajuste era acordo antigo. Para os demais servidores, a equipe econômica prega o congelamento.

CAROLINA BAHIA


16 DE MAIO DE 2020
POLÍTICA +

Bolsonaro tritura ministros que ousam não dizer amém

Três demissões em 28 dias e uma coisa comum entre os ministros que saíram: todos ousaram não dizer amém aos delírios do presidente Jair Bolsonaro. Preocupados em salvar suas biografias, Luiz Henrique Mandetta (foto ao lado), Sergio Moro e agora Nelson Teich (acima) escolheram formas diferentes de se despedir da Esplanada. Todos foram sacrificados no altar do Planalto porque não se submeteram às ordens de um presidente voluntarioso que se coloca acima da ciência, da Constituição e, não raro, da civilidade.

Político, Mandetta sabia que sua popularidade era maior do que a do presidente e, em vez de se abalar com a fritura, resistiu para forçar Bolsonaro a demiti-lo. Saiu com o prestígio intocado e, fora do poder, segue orientando governadores e dando entrevistas em português e inglês com mais desenvoltura do que quando estava preso ao cargo. Pelo Twitter, comentou a saída do sucessor em apenas 42 caracteres (a rede social permite 280 por post): "Oremos. Força SUS. Ciência. Paciência. Fé!".

Com Moro não foi muito diferente o processo de desgaste na relação, mas os desdobramentos da saída ainda não terminaram. Contrariado com a interferência de Bolsonaro na Polícia Federal, o ex-juiz caiu atirando. Acusou o presidente de tentar usar a máquina do Estado para proteger filhos e amigos investigados e forneceu o roteiro para a apuração que está em curso e que expôs os maus modos do chefe e de colegas na reunião ministerial gravada em vídeo.

Teich não completou um mês no cargo. Desde o primeiro dia, parecia um peixe fora d?água. Nunca se mostrou à vontade, mas sua permanência se tornou insustentável quando percebeu que estava sendo desrespeitado por Bolsonaro. Soube pela imprensa que, sem consultá-lo, o presidente declarou salões de beleza, barbearias e academias de ginástica como atividades essenciais. Era a grife com CRM em um ministério no qual o presidente instalou militares em todos os postos principais. O médico sorumbático que, ao contrário de Mandetta, nunca sorria, se despediu com elegância.

Nos menos de oito minutos de seu pronunciamento derradeiro, não explicou o pedido de demissão. Disse apenas que a vida é feita de escolhas e que escolhera sair. Agradeceu a Bolsonaro pelo convite e, para surpresa geral, disse que faltava essa experiência de SUS em sua carreira. Outro talvez quisesse apagar do currículo tal passagem.

Teich disse que deixou pronto um plano de trabalho para auxiliar prefeitos e governadores a definir os próximos passos. Em sua derradeira manifestação, homenageou os profissionais de saúde que estão "lá na ponta" salvando vidas.

aliás

Seja quem for o substituto de Nelson Teich, é grande o risco de ser desmoralizado se trocar os pés pelas mãos e adotar medidas sem base científica. Com aval do Supremo Tribunal Federal, governadores e prefeitos não precisam seguir a cartilha do governo federal em relação ao isolamento. O uso da cloroquina continuará sendo decisão dos médicos, que já prescrevem o medicamento com a concordância dos pacientes.

No dia em que nelson Teich assumiu o ministério da saúde, o Brasil ultrapassou a barreira das 2 mil mortes. Vinte e oito dias depois, foram 824 em 24 horas, 2.417 nos últimos três dias e um total de 15.305 vidas perdidas para o coronavírus em dois meses, sem contar os que são enterrados sem diagnóstico.

ROSANE DE OLIVEIRA

16 DE MAIO DE 2020
CHAMOU ATENÇÃO

Um espetáculo sem graça


Na Avenida Dorival Cândido Luz de Oliveira, em Gravataí, bolas e cones não são as únicas coisas que precisam ser equilibradas pelos malabaristas e outros artistas que estão acampados em um terreno de esquina na parada 63. Com a pandemia, uma companhia com dois circos está tendo de passar muito mais tempo do que o de costume em uma cidade.

Os circos Troy e Pantanal são compostos por 13 famílias que totalizam cerca de 40 pessoas, além de nove cachorros. O Pantanal chegou a Gravataí em março. Conseguiu começar a temporada de shows - que normalmente dura de quatro a 15 dias - mas, como logo em seguida teve início o distanciamento social, o grupo não pôde continuar as apresentações.

O Troy, por sua vez, estava em Três Coroas. Entretanto, os integrantes tiveram a notícia de que outros circos conhecidos por eles estavam sendo convidados a se retirar dos municípios próximos, por isso resolveram ir embora. O terreno em que a primeira parte da companhia estava instalada era grande o suficiente para os dois circos, então, ficaram todos juntos.

Cada família tem seu trailer, usado como casa. Todos os integrantes, exceto as crianças, têm suas funções e salários predefinidos. Como todos do setor da arte e da cultura, eles estão sem receber, pois não há renda sem bilheteria.

- Não estamos passando fome, mas estamos tendo de equilibrar os sentimentos. Para as pessoas da cidade, mesmo em casa, é fácil se distrair. Pra gente não. Nossa vida é o circo - lamenta Lídio Rodrigues, palhaço e motorista.

De acordo com o decreto de distanciamento controlado, eventos de artes, cultura, esporte e lazer, teatros, cinemas e similares continuam proibidos.

LILIANE PEREIRA

16 DE MAIO DE 2020
RODRIGO CONSTANTINO

Manchetes sensacionalistas

O Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo. Sempre que vejo uma manchete como essa, pergunto: qual o real interesse por trás? Afinal, para o sétimo país mais populoso do planeta, não chega a ser um choque ter uma das maiores populações atrás das grades. E se o intuito é afirmar que o país prende demais, resta combinar isso com a taxa de criminalidade explosiva e com o fato de que apenas um em cada 10 homicídios tem solução. O país da impunidade prende muito?

Os liberais e conservadores sempre compreenderam esse tipo de estratégia usada pela mídia como viés esquerdista. Curiosamente, a mesma tática vem sendo usada no caso da pandemia, sob o silêncio conivente de uma "direita" que passou a odiar o governo Bolsonaro mais do que amar a verdade. As manchetes colocam o Brasil em destaque nos casos de morte por covid-19, sempre destacando números absolutos!

Esta semana vimos: Brasil já passa Alemanha e França em quantidade de óbitos. Mas a Alemanha tem 83 milhões de habitantes e a França tem 67 milhões, enquanto o Brasil tem 210 milhões. Qual o sentido de usar dados absolutos, portanto? Países mais populosos do mundo: China, Índia, Estados Unidos, Indonésia, Paquistão, Nigéria e Brasil. Alguma surpresa de sermos o sexto em mortes de covid-19? E vale notar que os dados oficiais da China, sob uma ditadura, não são nada confiáveis.

O que muitos já perceberam é que boa parte da imprensa se tornou torcedora e luta para derrubar o governo. Enxerga na pandemia uma oportunidade para pintar o presidente como alguém insano e precisa, então, destacar o pior da crise. Há muitos motivos legítimos para criticar Bolsonaro, mas esse tipo de artimanha chama atenção e acaba criando resistência: mesmo críticos do presidente ficam na defensiva por considerarem injusto o tratamento da mídia.

Um site conhecido chega ao ápice de dedicar várias manchetes sensacionalistas por dia contra o governo. Tudo é "bomba", a "pá de cal", o "fim próximo" do presidente. O tiro sai pela culatra. A cada disparo fora do alvo, o presidente se fortalece. E parte da imprensa perde credibilidade.

RODRIGO CONSTANTINO

16 DE MAIO DE 2020
INFORME ESPECIAL

O melhor candidato a novo ministro da Saúde


Luiz Henrique Mandetta caiu porque "não tinha humildade". Vinha fazendo um bom trabalho, mas tropeçou no defeito imperdoável de se comunicar bem e de prestar contas à opinião pública através da imprensa. Nelson Teich, mais caladão, foi desautorizado publicamente pelo presidente - que voltou a prescrever cloroquina na porta do Palácio - e acabou não durando um mês no cargo.

Jair Bolsonaro não consegue fazer na área da saúde o que faz, sabiamente, na economia: deixar um especialista cuidar do assunto. Mesmo com alguns escorregões, como o PAC proposto pela ala militar e mais tarde soterrado pelo próprio presidente, que havia autorizado o movimento, Paulo Guedes tem conseguido fazer seu trabalho. Mas na saúde, não. Bolsonaro insiste em pensar que entende do riscado. Quando o assunto é pandemia, só falta trocar o célebre "o Estado sou eu" por "o posto Ipiranga sou eu".

Desse jeito, nenhum ministro sério aguenta. Bolsonaro impõe a médicos que estudaram anos a mesma hierarquia que funciona numa guerra, mas nem sempre fora dela. Cada vez que diz - e são muitas - "quem manda sou eu", reconhece, nas entrelinhas, sua falta de liderança. Mandar e liderar são coisas completamente diferentes.

Diante disso, só resta no país um nome capaz de atender às expectativas de Bolsonaro para o enfrentamento da pandemia. Trata-se de uma pessoa conhecida, com a qual o presidente teria livre trânsito e sintonia absoluta, que defende o fim do isolamento e o uso da cloroquina. Meu nome para o Ministério da Saúde é incontestável: Jair Messias Bolsonaro. E com vantagem extra de jamais precisar gravar uma reunião para provar quem disse o quê. Se bem que, dadas as circunstâncias, não se pode descartar o risco de rompimento no futuro.

O dia em que quase ganhei uma calcinha

Talvez eu já tenha contado essa história, mas, conforme expliquei acima, repetir não é pecado. Ainda mais quando a história é boa. No começo da carreira, eu era interino do Rogério Mendelski no Gaúcha Hoje, apresentado atualmente com brilhantismo pelo Macedão. Eu, guri, queria impressionar. O Rogério tirava férias entre Natal, Ano-Novo e Carnaval. E lá ia eu, bem feliz, noite fechada ainda, aproveitar a oportunidade de mostrar serviço.

O locutor que acompanha o programa no estúdio era o Flávio Martins, dono de uma voz aveludada e de uma personalidade tranquila e reservada. Um baita colega, que me ajudou muito lá atrás. Era cedo, antes das 6h, hora de mais um break comercial. O Flávio pegou a pastinha e começou a ler, com aquela voz grave e imponente. "Você quer passar um Natal inesquecível?". E eu, ligadíssimo, achei que poderia contribuir e valorizar a mensagem do cliente. "Claro, Flávio, quero sim", emendei, de improviso, na pausa da respiração dele.

Fez-se um silêncio. O Flávio olhava para a pasta e para mim, atônito.

Vi que ele, sempre reservado e quieto, mudou a fisionomia. Segurando o estouro na gargalhada, seguiu lendo a propaganda. "Se você quer passar um Natal inesquecível, vá a uma de nossas lojas e ganhe, nas compras acima de R$ 100, uma linda calcinha nova para passar o Ano-Novo".

O operador cortou o áudio do estúdio e colocou os comercias gravados, enquanto nos dobrávamos de rir sobre a mesa.


Nós e, imagino, os ouvintes também.

TULIO MILMAN

sábado, 9 de maio de 2020



José Augusto Mãe



Mamãe estou tão feliz



Mamma son tanto Felice



09 DE MAIO DE 2020
LYA LUFT

É preciso chorar

Sempre me impressiona a insistência (certamente feita com a maior boa vontade) com alguém que chora a perda de marido, filho, pai, irmão: "Reage! Não chora!".

Ora, como? Como não chorar a perda trágica e irreversível de alguém muito amado? Penso que é preciso chorar, sim, não só porque é natural, mas porque faz parte dos rituais humanos que brotam do fundo da psique, agir com relação a uma dor tão grande, para aos poucos conseguir acomodá-la no peito de algum modo. E dizemos para nos consolar, "com o tempo há de doer menos".

Meus olhos ainda ficam marejados tentando assimilar, por exemplo, a perda de minha amiga Lou Borghetti, morta na plenitude de sua vida e de sua arte, assim como choro por um amigo amado, fraterno, que há um mês sofre entubado num hospital do Rio, vítima do corona. E pela perda de um filho há dois anos e meio - ou foi ontem? Pelas perdas, quero o direito de chorar.

Tenho refletido sobre o trabalho de Borghetti, antes divagado, pois não tenho cacife para bancar a crítica de arte. Penso no que me fascina em suas telas. Cores, cores, cores. Vermelhos ou azuis, mais vezes vermelhos. Sombras muito escuras espreitando ou invadindo. Insinuações de casas, de figurinhas humanas, árvores, montanhas, aqui e ali ouro resplendendo como respingos de sol.

Tudo como eu gosto e procuro na minha literatura: mais sugestões do que definições. O estilo Lou Borghetti. A arte deve ser o território maior da nossa liberdade: a mim agradam a mescla de intensidade e máxima delicadeza, insanidade e lucidez, alusões, rabiscos, pinceladas largas e generosas, ou espaços de silêncio entre palavras. Nas telas de Lou há sinais secretos, que comentei com ela mais de uma vez. Um deles é uma escadinha precária subindo para o nada, que usei em um de meus livros mais recentes, A Casa Inventada, e disse a Lou que tinha "roubado" essa imagem dela. A minha escada se perdia no nevoeiro da morte. Minha personagem começava a subir, mas desistia e voltava para a vida.

A amizade de Lou Borghetti e aquelas horas no seu ateliê me faziam bem. Ela naquele seu esplendor de vitalidade, eu já aquietada pelos anos, meio sem graça por minhas limitações com tintas e pincéis. Nos últimos tempos, ela já doente, introduziu o tema morte mais vezes nesses diálogos, com naturalidade dizia que nós duas a tínhamos encarado olho no olho, eu recém-enfartada, ela lutando com sua enfermidade. Ela havia algum tempo tinha perdido a mãe, eu, um filho: a amizade era solidária também nisso.

Então traduzo aqui versos esparsos do poema da americana Edna St. Vincent Millay, Elegia sem Música, que andei relendo:

"Não me conformo com trancarem corações amorosos na terra dura. É assim, e assim foi desde o começo dos tempos(...): entram na treva, os fortes e os adoráveis.(...). Amantes e pensadores, postos na terra. Docemente lá se vão para a escuridão da tumba. Vão alimentar as rosas. A flor é elegante e sinuosa. A flor é perfumada. Eu sei. Mas não aprovo. Mais preciosa era a luz de teus olhos, do que todas as rosas do mundo. E eu não estou conformada".

Às vezes é preciso chorar. Não me peçam o contrário.

LYA LUFT


09 DE MAIO DE 2020
MARTHA MEDEIROS

Não envergonhe sua mãe

Gosto muito de um vídeo do Mario Sergio Cortella em que ele comenta a digna atitude de um maratonista espanhol. Em 2012, na reta final de uma prova, Fernández Anaya estava em segundo lugar quando reparou que o queniano à sua frente, que liderava com folga, havia diminuído o ritmo das passadas por acreditar que já tinha cruzado a reta de chegada. Em vez de aproveitar a bobeira do queniano e ultrapassá-lo, o espanhol alertou-o sobre seu equívoco. O queniano retomou o ritmo e venceu.

Logo após, um jornalista entrevistou o espanhol: "Por que você deixou o queniano ganhar?". "Ele iria ganhar, apenas se distraiu uns metros antes da chegada". "Mas você poderia ter tirado proveito". "Que mérito teria minha vitória? Como iria explicar isso para a minha mãe?"

Envergonhar a própria mãe deveria ser o limite ético de todos nós. Na dúvida se está agindo certo ou errado, pergunte-se: o que minha mãe diria disso? Mesmo quando a mãe não é o estandarte moral que se espera, ainda assim, para todo filho, ela é suprema, e não há pior castigo do que desapontá-la.

Fico tentada em falar da mãe de você-sabe-quem, uma senhora simpática que, anos atrás, em entrevista, disse que criou o filho para "não ser estúpido, bruto, nem dizer besteira". Pobrezinha. Mas hoje não é dia de falar sobre decepções maternas. Prefiro falar da alegria das mães de jovens que, solidários, distribuem alimentos para moradores de rua. Prefiro imaginar o orgulho das mães dos médicos, enfermeiros e técnicos de laboratório que estão em plantão permanente nos hospitais e postos de saúde. 

Felicitar as mães de voluntários que produzem máscaras e viseiras para doar, mães de psicanalistas que fazem consultas gratuitas por chamada de vídeo, mães de quem disponibiliza filmes, livros e shows de graça nas redes, mães de artistas que vão para as varandas cantar para a cidade, mães de vizinhos que fazem compras para os idosos do prédio, mães de motoristas que dão dinheiro aos pedintes nos sinais de trânsito, mães de filhos que conversam com seus pais através de janelas, que telefonam para eles várias vezes ao dia, que procuram não deixá-los desamparados neste momento tão inédito de nossas vidas. 

Enquanto este distanciamento social durar, cada um está fazendo o que pode por si e pelos outros, exercendo o senso de coletividade e a compaixão. As mães dos brasileiros que estão colaborando para que esse período tenha o mínimo de baixas jamais sentirão vergonha de seus filhos. Numa época em que, afora a pandemia, há também uma crise política contaminada por fake news e atos de irresponsabilidade, é um alívio saber que grande parte da população está dando a suas mães o melhor dos presentes: a certeza de que elas fizeram um bom trabalho.

MARTHA MEDEIROS


09 DE MAIO DE 2020
CLAUDIA TAJES

Humor de mãe

Claudia Gomes é autora e roteirista de TV, cinema e teatro. Também é autora da peça Mãe Fora da Caixa. Mas aqui a história começa quando ela engravidou, há 15 anos, depois de uma vida inteira idealizando a maternidade. Se o desconforto com o corpo e os meses de repouso forçado haviam sido um incômodo, o mais complicado estava por vir. "O puerpério foi um inferno. Amamentar foi difícil no começo. Tive uma leve depressão pós-parto". Os inúmeros textos e perfis sobre maternidade real ainda não existiam. E Claudia não se entendia. "Como eu não tinha ninguém para dividir meus perrengues, achava que aquilo só acontecia comigo. E me sentia terrivelmente culpada. Por que eu estava tão cansada e triste justamente quando realizava meu maior sonho, e era para estar tão feliz? Me sentia uma ET."

Claro que havia a explosão de amor e fofura. Mas de todo o resto, parecia quase proibido falar. "Era muito solitário passar por tudo sem compartilhar. As coisas ficaram mais fáceis com o passar dos anos, mas fui acumulando centenas de histórias que seriam trágicas, não fossem cômicas. Um dia escrevi uma delas no meu próprio Facebook. Para minha surpresa, em poucas horas tive mais de três mil curtidas. Veio da Pilar, a minha mais velha, a ideia de fazer uma fan page. Assim surgiu o Humor de Mãe, para fazer graça com a nossa desgraça. E lá se vão seis anos."

Claudia, que também é mãe de Vicente, nove anos, e "boadrasta" de Nina, de sete, tem uma relação próxima com as leitoras do Humor de Mãe, milhares no Instagram e Facebook. "Sinto que, falando as minhas bobeiras, chego em lugares muito profundos e delicados. Através do humor, criou-se uma rede de apoio. Todas as vezes que uma leitora me diz que eu tirei um peso das suas costas, respondo que sou eu quem mais recebo ali. Por causa delas, eu fiz as pazes com a maternidade. Eu não sou uma ET."

A seguir, uma amostra do Humor de Mãe, de Claudia Gomes, para abraçar todas as mães sempre. Textos completos no Instagram @humor_de_mae.

Hoje a Jurupoca vai piar. Algumas amigas já me perguntaram, tímidas, se de vez em quando eu perco a cabeça com meus filhos. Se dou uns gritos, seguro com mais força, se fico bem loucona. Veja, eu era do tipo que via crianças se jogando no chão num ataque histérico e torcia o nariz. Ja-ma-is um troço daquele aconteceria comigo. Coisa de gente que não sabia dar educação. Eu não. Eu seria aquele tipo de mãe que bastaria um olhar, para ser prontamente obedecida. Aham. Medalha de ouro em cuspida pro alto. Meus filhos são até educados, nem posso reclamar. Mas são crianças. Já se jogaram muito no chão. Porque criança, às vezes, acorda e pensa: que lindo dia pra fornicar com o juízo da minha mãe. E há também os dias em que o nosso juízo se autofornica sozinho. Seja por cansaço, estresse ou a lista com 72 coisas para fazer antes do meio-dia. Ou tudo isso junto. Em momentos assim, minha querida, eu grito. Grito, sim. E estou vivendo.

Mulheres gostosas logo depois de parir - quem são, onde vivem, do que (não) se alimentam. Você quer me ver espumando de raiva, cruze comigo numa banca de jornal vendo alguma revista com famosa na capa e a seguinte manchete: "Fulana mostra a boa forma, 20 dias depois de dar à luz". Tenho vontade de juntar umas mães e fazer um esguichaço de leite materno na porta da editora, seguido de um campeonato de arremesso de fraldas sujas. Mas prefiro canalizar minhas energias para alguma ação positiva. Por isso, limito-me a escrever. E amaldiçoar todas as famosas que se prestam a esse papel, porque eu não sou um espírito tão evoluído assim. Que ardam no mármore do inferno, por prestarem esse desserviço à humanidade.

Uma mãe lava a outra. Essa semana uma mãe de um amiguinho do meu filho me mandou uma mensagem pedindo ajuda. O marido não conseguiu chegar de viagem a tempo, ela tinha um curso e não tinha com quem deixar o menino. Socorrooooo!!! Mana, nem que eu não pudesse, eu ia dar meu jeito. Sabe quando ia negar um pedido desses? Jamais. Nem é porque eu sou a alma mais pura que já habitou essa Terra, não. (...) Separada duas vezes desde que os dois são bem pequenos (nunca disse que eu era facinha), mãe de dois (com diferença entre eles de cinco anos que conste nos autos!) e raladora profissional de fiofó na ostra, tem noção de quantas vezes fui eu que já gritei socorro?

A culpa que pariu. Mulher entra em sala de parto carregada na maca. Respira, respira, puf, puf. Cercada de um bando de pessoas vestidas como se fossem dissecar o ET naquele inflável branco. Incluindo o marido. Começou. Um tempo depois, finalmente o bebê é postado no mundo.

- Tá tudo bem com ele, doutor? Qual o Apgar? (Antigamente perguntávamos se tinham todos os dedos. Ficamos tão bestas!)

- Com ele tá tudo ótimo. A outra é que não tá muito bem. - A outra? - Ninguém te falou? O médico traz um pacotinho.

- A culpa. Nasce junto de cada bebê. Parabéns, agora você é mãe.

CLAUDIA TAJES


09 DE MAIO DE 2020
LEANDRO KARNAL

O BANHEIRO COMO ESPELHO DAS MUDANÇAS DE GÊNERO

Nos banheiros do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, existe um cartaz dizendo: Aqui você é livre para usar o banheiro correspondente ao gênero com o qual se identifica. No rodapé, indica-se a Resolução Federal número 12, de 16 de janeiro de 2015, e outro parecer de um conselho de combate à discriminação (CNCD/LGBT 01/2015). O texto é fruto de uma transformação no enfoque sobre o que seria sexo biológico, identidade de gênero e orientação sexual. Porém, gênero não é o tema de hoje. Quero falar da percepção de masculino e feminino em banheiros.

Vamos sair da redoma do IFCH. Em um restaurante elegante da Rua Amauri, em São Paulo, fui ao toalete e encontrei, em uma porta, a sílaba "blá". Em outra porta, multiplicada em muitas formas gráficas, "blá blá blá blá blá". O sentido era óbvio: o masculino era de poucas palavras, sobriedade retórica e objetividade. O feminino reforçava a ideia de que mulheres falam demais. Caso restasse alguma dúvida, bonecos de Adão e Eva ilustravam cada porta.

Bem, o mundo é mais complexo do que há 50 anos. Banheiros são simbólicos. Quando Margaret Thatcher se tornou membro do Parlamento Britânico, em 1959, descobriu que não havia um banheiro feminino porque... não existia uma bancada feminina! Nas visitas guiadas ao Pentágono, em Washington, descobrimos que há muitos banheiros no prédio porque foram construídos de forma dobrada para brancos e negros durante o período do "separados mas iguais". Ao anunciar um banheiro específico para o grupo LGBT+, a escola de samba Unidos da Tijuca causou muitos debates na sua quadra, em 2011. "Apartheid gay!" foi um slogan frequente contra a iniciativa. Com a invenção da ideia de intimidade, os banheiros foram se multiplicando. Ter seu próprio banheiro virou um sonho expressivo das pessoas contemporâneas. Esse desejo não existia nos séculos anteriores. Banheiros são metáforas fortes ou espelhos de como o mundo se constitui.

Se o banheiro é seu e, ali trancado, finalmente, caem suas máscaras e representações sociais. Muitos cantam no espaço íntimo. Já ouvi relatos de dança. O adolescente trancado no seu ambiente sanitário encontra o refúgio para sua individualidade, seu medo e seu prazer. Muitos homens e mulheres adultos também.

Banheiro também é arte. Marcel Duchamp revolucionou o conceito de estética colocando um mictório sobre um pedestal. O urinol de 1917, batizado A Fonte, é uma peça icônica da dessacralização assinada pelo pseudônimo R. Mutt. A obra é uma chave do dadaísmo e está avaliada em mais de 3 milhões de euros. Já sofreu mais de um ataque, sinal claro da sua "aura" respeitável. No último atentado, com martelo, o agressor alegou estar usando o mesmo princípio de desconstrução que o autor fizera.

Se a arte é o sublime, uma maneira de desconstruí-la é apelar a um subproduto dos banheiros. Piero Manzoni enlatou, em 1961, suas próprias fezes em recipientes bem acondicionados. Cada lata vale uma fortuna hoje. Cumpre-se o traço de "épater le bourgeois" que marca tantas vanguardas. Escandalizar o burguês foi um grito de poetas como Rimbaud ou Baudelaire. Talvez a burguesia já não se choque tanto e uma nova geração de artistas faz outras intervenções no universo do banheiro e seus significados. No Museu Guggenheim (Nova York), o italiano Maurizio Cattelan colocou um vaso sanitário de ouro maciço: "América". A peça podia ser utilizada (com algumas regras) pelo público. Se antes a burguesia se retirava horrorizada com o vanguardismo de artista, hoje há fila para selfies. Sentar-se sobre sólidos quilates não choca mais, apenas aumenta likes em redes sociais. Ao ser exposta no Palácio Blenheim, em Oxfordshire (Inglaterra), a obra foi roubada. Banheiro metáfora, banheiro chocante e banheiro com valor de revenda...

Quando Winston Churchill nasceu naquele palácio, a 30 de novembro de 1874, havia poucos banheiros na propriedade. Volto ao ponto: sanitários são documentos de uma época.

Os banheiros individuais são espaço de uma sonhada liberdade. Os que comportam mais gente produzem relações ambíguas e corporativas. Homens falam de forma mais decidida e máscula no banheiro, talvez como reação ao ambiente de exposição do corpo. Desde o colégio, fantasiávamos o que as meninas faziam no banheiro. Acho que o jogo permanece.

Assim, passados séculos de transformações sociais e de identidades de gênero, preste um pouco mais de atenção nas gramáticas que antecedem ao simples uso do sanitário. A arte usou banheiros. O debate de gênero ilustra portas. O que é masculino e feminino e quais os limites da intimidade estão fora e dentro dos espaços sanitários. Gosta da ideia? Abomina? Acha que é o fim do mundo? Sem problema. O que eu peço a libertários e conservadores, esquerda e direita, anarquistas e monarquistas é o mesmo: lavem bem a mão depois de usar o banheiro. Contaminações não respeitam barreiras.

É preciso ter esperança. E mãos limpas colaboram para a ética e para evitar doenças.

LEANDRO KARNAL


09 DE MAIO DE 2020
FRANCISCO MARSHALL

SHIVA E DIONISO

Os deuses do panteão hindu são parentes da família olímpica, potências celestiais presididas por Diaush Pitar, forma sânscrita de Zeus pater, Júpiter e Deus pai. Os hindus pertencem à nossa família linguística, o indo-europeu, o que explica as similaridades, em que pese a distância geográfica entre a Índia e nosso berço cultural, o Mediterrâneo. Quando Alexandre Magno chegou aos confins da Pérsia, junto ao Rio Indo, os gregos chamaram Shiva de Dioniso indiano; Baco, por sua vez, era tido como o deus que veio do Oriente. 

Essas conexões foram bem estudadas pelos historiadores das religiões, especialmente Alain Daniélou, autor do célebre Shiva e Dioniso (1984). Não é demais lembrar que todos os deuses são representações culturais com qualidade simbólica, que ajudam a organizar a imagem do mundo e pensar nossa condição e destino, tanto individual como social. Diante disso, a pergunta: o que Shiva e Dioniso simbolizam e o que têm a dizer para o mundo atual?

Shiva significa a unidade e as forças do universo, em movimentos de preservação, destruição e renovação. Essa dinâmica permite ver os ritos que arrasam, pelo fogo ou pelo sacrifício, como parte de um ciclo do qual emerge nova condição do mundo, restaurado. Há nisso também simbologias dos mistérios de morte e ressurreição, de Osíris, Dioniso ou Cristo, conforme cada folclore. 

Essa visão simbólica aplica-se a muitos processos naturais e sociais, nos quais há metamorfoses em que as formas antigas são superadas em proveito da renovação. Incluir a destruição em uma narrativa sagrada que a conecta ao ciclo cósmico de revitalização significa ver um propósito no fluxo do tempo e um sentido positivo em cada momento do drama, inclusive neste usualmente percebido como negativo, a destruição. No mundo grego, esse é o sentido do trágico, o aniquilamento como parte do culto de Dioniso, de cujas cinzas renasce a vida, como a videira que reverdece após a hibernação. A tragédia grega, arte de Dioniso, é o templo filosófico da democracia, um regime que se investiga, produz a crise e se transforma.

Mas os deuses são, antes de tudo, nomes. Estabelecido o nome, a fantasia cultural pode dotá-lo de todos os atributos que desejar e depois perpetuar sua memória sob a forma de mitos, imagens e ritos. O significado do nome, portanto, revela a identidade imaginada. No caso de Shiva, temos uma das entidades mais complexas de toda a história das religiões, mas uma etimologia de seu nome enraíza o significado da palavra Shiva, do II milênio a.C., na composição de Shi, o que reside em tudo, com svi, o gracioso. O nome transmite o sentido de auspicioso, benigno, amigável. A destruição terá um propósito, se for, como simboliza Shiva, auspiciosa.

Eis agora Shiva dançando sobre a Terra e sobre a nação. E eis a tragédia grega, altar de Dioniso, esclarecendo mito e política: o problema concentra-se no poder, sua violência e seus vícios e artimanhas, e é ele que tem que ser aniquilado, para renascermos com graça renovada, entre Oriente e Ocidente, e como o terceiro olho de Shiva, entre passado, presente e futuro.

FRANCISCO MARSHALL


09 DE MAIO DE 2020
COM A PALAVRA

A IDEIA DE CIDADANIA FOI VENCIDA NO PAÍS

Ailton Krenak carrega a identidade de sua etnia no sobrenome. Originários do Sudeste e hoje restritos a pequenas reservas em Minas Gerais, os crenaques - ao menos os da aldeia de Ailton - estão em um isolamento exemplar, evitando contato com os brancos, o que é essencial para se preservarem do coronavírus.

A baixa imunidade dos povos isolados é sempre lembrada quando se fala na ameaça da covid-19. Mas, para este que é um dos principais líderes indígenas do país e, desde o ano passado, best-seller literário (graças ao livro ensaístico Ideias para Adiar o Fim do Mundo), a reflexão sobre as relações entre esses povos, a natureza e os não indígenas só pode ser vista sob uma perspectiva histórica mais ampla.

- Sobrevivemos a muitas ameaças em 500 anos. Não sei como os brancos sobreviverão ao atual momento - ele declara, em um discurso alarmista mas que também carrega algum otimismo: - Não tem como isso tudo passar e não sairmos menos individualistas.

Nesta entrevista, explica o que chama de "guerra híbrida" na preservação das culturas indígenas e relembra um episódio emblemático dessa luta: quando, na Assembleia Constituinte de 1987, pintou o rosto de preto e fez um discurso que comoveu o país - e ajudou a aprovar o marco constitucional para as relações entre o Estado, a sociedade e os índios.

O SENHOR TINHA 33 ANOS NA ASSEMBLEIA CONSTITUINTE DE 1987. HOJE, TEM O DOBRO: 66. O QUE MUDOU NA SITUAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO PAÍS?

Aquele momento foi o auge da experiência de mobilização social pela redemocratização do Brasil. Toda a sociedade estava envolvida na nova Constituição, era um momento promissor. Mas, olhando em perspectiva, constato que desde então descemos a ladeira em desabalada corrida. Aos poucos as mobilizações foram diminuindo e a sociedade passou a olhar a questão com menos vigilância, até que afundamos vertiginosamente em um pântano em que a própria noção de cidadania foi dissolvida. Hoje vemos pessoas muito despreparadas ocupando cargos nos poderes da nação, no Legislativo, nos Executivos de vários Estados. Conseguem se eleger como representantes do povo apontando carabinas para o próprio povo, o que sugere que a ideia de cidadania foi vencida no Brasil. É como se não tivéssemos mais poder nenhum com nosso voto.

O SENHOR DIZ ISSO PENSANDO NOS INDÍGENAS OU NA POPULAÇÃO COMO UM TODO?

É impossível pensar o direito dos povos indígenas sem olhar para o que os cerca, sem considerar a sociedade como um todo. Falar em direito dos povos indígenas inclusive é algo que foi criado no contexto da civilização que chamamos de ocidental, branca. Nós nos inscrevemos no processo de elaboração da Constituição - e nesse contexto eu fiz aquele discurso - porque estávamos na expectativa de criar uma sociedade democrática em que todos fossem ouvidos. Infelizmente, não somos mais. Nós e outras parcelas da população que não estão entre os vencedores. 

Não vejo mais o Brasil como uma nação que pode olhar para si e se enxergar de fato como uma nação. Há muito desrespeito com o que é diferente, com outras culturas. Há uma cultura da violência contra o diferente, muito bem representada pelo presidente da República, que tem como gesto simbólico esticar o dedo como se estivesse apontando uma arma para os cidadãos que estão à frente dele. O presidente chegou a dizer, esses dias (em 20 de abril), que a Constituição é ele. Essa declaração é um escândalo para quem lutou naquele processo da Assembleia Constituinte. O fato de as instituições que deveriam garantir os princípios democráticos não tomarem providências deixa claro como a ideia de cidadania foi vencida no país.

A CHEGADA DO CORONAVÍRUS DEIXA AS POPULAÇÕES INDÍGENAS, QUE TÊM MENOS CONTATO COM OS BRANCOS E MENOS ANTICORPOS, AINDA MAIS EXPOSTAS. QUAL O TAMANHO DA SUA PREOCUPAÇÃO COM A PRESERVAÇÃO DESSES POVOS EM MEIO À PANDEMIA?

Curiosamente, esses povos, sobretudo aqueles que estão em aldeamentos em regiões de floresta, estão mais protegidos do que eu, você e quem estiver nos lendo neste momento. Quem não está próximo a uma cidade ou a invasores, grileiros, garimpeiros, quem não tem de disputar suas terras com a soja, pode ficar mais tranquilo. Está protegido pela floresta. O grande problema é o que ocorre, por exemplo, no território ianomâmi (entre o Amazonas e Roraima): no ano passado, o Parque Yanomami foi invadido por 20 mil garimpeiros que estão lá ilegalmente explorando o local. Além do dano ao ambiente, eles levam as doenças. 

Se não levassem, a pandemia não seria um problema para esses indígenas. Isso se repete em várias áreas. Em outras, como, por exemplo, o Vale do Javari (no Amazonas, região de fronteira entre Brasil e Peru), onde estão os marubos, os matises e os corubos, a situação até que é tranquila. Esses grupos humanos só apareceram na mídia nos últimos seis a oito anos. Sequer temos contato com eles. Eles estão distantes da predação. É o que podemos considerar a situação ideal de isolamento.

ONDE HÁ MAIS RISCO?

Em inúmeros locais de contato. Letícia e Tabatinga (na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru), Tefé (região do Médio Solimões), Benjamin Constant (entre Tabatinga e o Vale do Javari) e, principalmente, nas proximidades de cidades, como São Gabriel da Cachoeira (AM), Marabá (PA), Manaus (AM). As populações de locais como esses já não vivem mais em harmonia com o ecossistema que integram. Esses povos estão muito ameaçados. Em Altamira (PA) e no entorno da Usina de Belo Monte, quem sobreviveu à tragédia que foi a construção da hidrelétrica (inaugurada em 2011) agora se vê ameaçadíssimo. Precisamos fazer alarde sobre essas populações, e não sobre aquelas que vivem isoladas. Não podemos generalizar. Os indígenas estão em condições de risco diferentes, dependendo da região em que vivem.

E QUANTO AOS INDÍGENAS DE OUTRAS REGIÕES, ESPECIALMENTE OS QUE TÊM TIDO CONTATO COM OS BRANCOS AO LONGO DE MAIS TEMPO?

Esses estão praticamente tão sujeitos à covid-19 quanto todos os demais seres humanos vivendo em São Paulo ou Porto Alegre. Os caingangues do Rio Grande do Sul, que estão agora em seus toldos e em suas aldeias: alguns deles convivem secularmente com invasões e arrendamentos, estão em contato com os brancos há muito tempo. Sua situação é evidentemente bem diferente. Mas precisam fazer quarentena, ter cuidados rigorosos.

MESMO ESSES INDÍGENAS MAIS PRÓXIMOS DE CIDADES TÊM UM SENTIDO DE COMUNIDADE DIFERENTE DAQUELE DE ALGUÉM QUE VIVE EM UM APARTAMENTO DO CENTRO DE PORTO ALEGRE. COMO FUNCIONA A QUARENTENA NAS ALDEIAS?

Veja bem onde estou agora (aponta a câmera do celular para a janela de sua casa). Estou, neste momento, onde moro, dentro de uma reserva crenaque criada nos anos 1920 (no interior de Minas Gerais). Já tivemos muito contato com os brancos, desde as lutas contra os posseiros em décadas e séculos passados até os diálogos mais recentes que resultaram, por exemplo, no isolamento desse nosso território. Neste momento, estamos protegidos. 

Vivemos em uma aldeia com 130 famílias. Todos aqui estão em quarentena há dois meses. Há apenas dois caminhos de acesso à aldeia, e ambos estão interditados. A covid-19 não entrou aqui. Por isso não precisamos usar máscaras nem álcool gel. Mas, para manter isso, é importante não ter contato com o ambiente exterior. Os indígenas que precisam frequentar o comércio, interagir com outras pessoas, enfim, que têm outro sistema de gestão territorial, precisam seguir procedimentos distintos. Depende de cada comunidade.

O QUE O SENHOR ACHA DO PLANO DE AÇÃO ELABORADO PELA SECRETARIA ESPECIAL DE SAÚDE INDÍGENA (SESAI), LIGADA AO MINISTÉRIO DA SAÚDE, PARA PROTEGER OS POVOS INDÍGENAS DO AVANÇO DO CORONAVÍRUS?

As campanhas em geral nos apresentam como se todos nós, indígenas, fôssemos um grupo homogêneo. Isso não é verdade. Não estamos vivendo um Deus nos acuda generalizado. Não vamos morrer todos de uma hora para outra, não. Do plano da Sesai, eu tomei conhecimento quando o Ministério Público obrigou o governo federal a explicitá-lo. Só que nada do que está escrito está sendo cumprido. Há, ali, um conjunto de recomendações. Mas que não chegam às aldeias, nem aquelas mais próximas das cidades, como a minha, imagina às mais isoladas. 

Fico pensando como está a assistência aos ianomâmis, sujeitos neste momento à violenta invasão para a exploração do garimpo, ou aos tikunas de perto de Tabatinga, que estão onde já é reportada uma significativa quantidade de indígenas contaminados com a covid-19. Não é a assistência ideal, longe disso. (Na região de Tabatinga, segundo o Ministério da Saúde, já houve quatro mortes de indígenas por coronavírus, mas lideranças locais desses povos afirmam que o Hospital Militar do município classificou outros indígenas mortos como pardos.)

EM MANIFESTAÇÃO RECENTE, O SENHOR CHEGOU A AFIRMAR QUE, DO JEITO QUE ESTÃO NOSSAS RELAÇÕES COM O AMBIENTE, OS BRANCOS CORREM TANTO RISCO QUANTO OS ÍNDIOS. É ISSO MESMO?

Não foi tão recente assim. Foi em Portugal, em meio à eleição de 2018. Fui instado por uma jornalista a comentar declarações do então candidato Jair Bolsonaro, que ofendeu os índios e disse que não demarcaria mais terras indígenas. Ela me perguntou como sobreviveríamos. Não lembro exatamente o que respondi, mas te digo agora que sobrevivemos a muitas ameaças em 500 anos. E vamos sobreviver a mais esse período terrível. O que não sei é como os brancos, ou os não indígenas como um todo, sobreviverão ao atual momento, porque, além da pandemia, todas as pessoas, toda a sociedade está sob ataque. 

Naquele momento, mesmo diante daquelas declarações, não dava para imaginar que o governo seria tão cruel como está sendo, a ponto de ameaçar a vida de todos. Seu belicismo é total. As instituições são atacadas a todo instante. O desprezo ao meio ambiente é só uma das facetas. Todos somos atingidos, de alguma forma. Basta entender que fazemos parte de um mesmo universo, de ecossistemas que podem ser diferentes, mas que se relacionam entre si. Não podemos enxergar só o que nosso olhar alcança. O impacto de certas atitudes de desprezo à natureza é global. A pandemia é uma prova disso: foi nossa relação com os animais que trouxe o vírus para a espécie humana, uma relação de dominação desrespeitosa construída ao longo de muito tempo. E, quando deveríamos estar repensando isso, fazemos justamente o contrário, elegendo esse tipo de discurso.

A TEORIA MAIS ACEITA ENTRE OS CIENTISTAS É DE QUE O CORONAVÍRUS SURGIU DE ANIMAIS SILVESTRES, TENDO CHEGADO ÀS PESSOAS QUANDO ESTES ESTAVAM SUBMETIDOS A CONDIÇÕES MUITO ESTRESSANTES EM UM MERCADO CHINÊS.

Animais em confinamento, como se fosse uma quarentena forçada - veja a ironia disso. Nós devoramos tudo. Prendemos milhões de animais de todos os tipos, aves, mamíferos, répteis, porque parece que temos de comer tudo. Nós comemos o que está na terra, na floresta, o que se move, o que não se move. 

Quando visitei pela primeira vez Davi Kopenawa Yanomami, xamã dos ianomâmis que à época - uns 30 anos atrás - vivia de modo muito remoto, ele me perguntou: Krenak, é verdade que os brancos são muitos? Respondi que sim, que são como se fossem todas as estrelas do céu ou todas as árvores da floresta. E ele, horrorizado: mas o que eles comem, tem comida para tantos? Falei a verdade: eles comem de tudo, terra, planta, folha, pau, pedra, todos os bichos. Comem ouro. São devoradores. Ele quis saber se os brancos chegariam aqui, no caso, no território ianomâmi onde ele estava. Falei que sim, que um dia chegariam. Porque estão cobrindo toda a face da Terra, feito uma peste. Te digo que, 30 anos depois, as coisas não mudaram muito.

O SENHOR TOMOU CONHECIMENTO DO MANIFESTO EM DEFESA DOS ÍNDIOS LANÇADO PELO FOTÓGRAFO SEBASTIÃO SALGADO EM MEIO À PANDEMIA?

Sim. É elogiável esse esforço de mobilização, para tentar conscientizar as pessoas, levar o problema para outros centros do mundo civilizado. A questão é que o Brasil tem dado passos largos para ele próprio sair desse mundo. Lembro de campanhas com o objetivo de chamar a atenção para genocídios na África. É importante mobilizar as pessoas de outras partes do mundo, o problema é convencer um ditador sanguinário como Idi Amin Dada (presidente de Uganda entre 1971 e 1979) a parar de matar. O efeito prático da campanha acaba sendo bem limitado.

EM OUTRA DECLARAÇÃO RECENTE, O SENHOR CLASSIFICOU A LUTA PELA PRESERVAÇÃO DAS CULTURAS INDÍGENAS COMO UMA GUERRA HÍBRIDA. O QUE ISSO QUER DIZER?

A gente tem de entender que estamos sob uma pandemia, o que torna o contexto mais grave. Estamos diante do caos nas relações entre instituições e as próprias pessoas. Todos com medo, inseguros e sujeitos a mentiras, fake news. O governo brasileiro opera no caos, ele provoca isso porque gosta de se movimentar em meio ao caos institucional. Por isso as medidas são anunciadas e suspensas logo depois, por exemplo. Quando alguém que está no poder sugere que uma terra indígena demarcada não precisa mais ser respeitada, é natural que pessoas a desrespeitem. 

Até se corrigir, o estrago já foi causado. Da mesma forma fica mais fácil cooptar as pessoas a partir de discursos absurdos, como é o caso de indígenas levados à exploração das terras com a promessa do enriquecimento. Por isso essa ideia do hibridismo: índios são cooptados pelos exploradores. Há uma série de sabotagens em curso. Existe um aparato do Estado brasileiro atuando contra a vida do povo indígena, e isso encontrou com a covid-19 um contexto propício. Não precisaria de uma pandemia para nos liquidar quando garimpeiros fazem o que estão fazendo no Parque Yanomami, mas, quando há a pandemia, o caos encontra o momento propício para se instalar.

QUE DISCURSOS ESPECIFICAMENTE SUGEREM AÇÕES CONTRA OS POVOS INDÍGENAS E DEPOIS SÃO CORRIGIDOS? O SENHOR TERIA MAIS EXEMPLOS?

Autoridades são nomeadas e depois têm a nomeação cancelada, isso ocorre o tempo todo. No primeiro semestre do ano passado, o governo federal anunciou que os 30 e poucos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dseis) instalados pelo país estavam extintos. Houve uma reação das comunidades e de pesquisadores que fez com que a medida fosse extinta. O Ministério da Saúde mudou de estratégia e reativou os Dseis. Então todos se acalmaram. Só que a verba para os Dseis foi cortada. Então, na prática, esses distritos pararam de operar mesmo. Há outros exemplos dessa política do diz-desdiz que busca a cisânia, o desentendimento geral. 

Vou dar mais um: os grupos de missionários evangélicos norte-americanos trazidos para a região do Vale do Javari com a autorização do poder público. Eles tiveram de parar de atuar após intervenção do Ministério Público. Mas seguem lá, na região, à espera de poder se aproximar dos indígenas novamente. Você não acha que, neste momento de fragilidade em decorrência da pandemia, levar essas pessoas de fora para uma área onde há índios isolados não é sabotagem?

SUA EDITORA PUBLICOU ONLINE UM TEXTO SEU INTITULADO O AMANHÃ NÃO ESTÁ À VENDA (DISPONÍVEL GRATUITAMENTE EM SITES DE LIVRARIAS), NO QUAL O SENHOR DIZ QUE DEVEMOS PERDER DE VISTA A IDEIA DE VOLTA À NORMALIDADE APÓS A PANDEMIA. EM QUE SENTIDO?

Esse PDF distribuído pela (editora) Companhia das Letras é uma reunião de três entrevistas muito parecidas com esta aqui e que estarão reunidas em uma nova edição do livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo. Serão o posfácio do livro em breve. O que quero dizer com esse raciocínio é que, se quisermos voltar ao normal depois do que está acontecendo significará que nos rendemos todos ao negacionismo. Seremos todos terraplanistas. Porque, se não nos dermos conta, após uma pandemia, de que algo está errado na nossa relação com o ambiente, com os animais e com os demais seres humanos, não acreditaremos que a Terra é o que ela de fato é - redonda, rica em vida, exuberante. Teremos nos jogado em um abismo ontológico.

NESSE SENTIDO, A PANDEMIA É UMA OPORTUNIDADE PARA REPENSARMOS MUITAS COISAS.

Ver caixões empilhados e corpos sendo jogados em valas comuns precisa ser um momento para repensar as coisas. E a quarentena é propícia para isso. Precisamos, além de nos preocuparmos em quando vamos sair da quarentena, nos questionarmos como vamos sair dela. Não vai ser buscando aquilo que acreditávamos ser o normal. Não é normal seguirmos sendo uma vasta legião de seres que dominam os demais sem se preocupar com o impacto causado. Os pássaros seguem cantando, olha as maritacas (movimenta o celular e mostra a paisagem através da janela), os pés de manga, banana e abacate continuam verdes, tudo está normal. A pandemia é um alerta aos humanos.

NO QUE O SENHOR APOSTA QUE PODEMOS MUDAR?

Temos de pensar se é justo viver em um mundo em que milhões de pessoas morrem de fome enquanto produzimos alimentos em quantidades nunca antes vistas. Temos de pensar nos outros. A desigualdade gigantesca e o aquecimento global já vinham levando muitos a parar para pensar se é necessário ter combustível fóssil, ter carro, buscar a riqueza a todo custo. Nosso individualismo já era contestado por muitos de nós. O que fazemos tem impacto, precisamos pensar sobre esse impacto. Que pensemos agora, que estamos nessa situação extrema. Acredito que mais gente vai começar a se dar conta. Não tem como isso tudo passar e não sairmos menos individualistas. Tenho essa esperança.

DANIEL FEIX


09 DE MAIO DE 2020
DRAUZIO VARELLA

ADERÊNCIA AO TRATAMENTO

Tomar remédio todo dia, durante anos, não é tarefa corriqueira. Damos o nome de aderência à assiduidade com a qual seguimos as recomendações médicas.

Ela é mais alta nas doenças agudas, sintomáticas. Um doente com pneumonia e falta de ar faz repouso e toma sete dias de antibiótico nos horários recomendados. Difícil é manter os esquemas contra a tuberculose, que duram seis meses, ou contra aids, hipertensão, diabetes e doenças cardiovasculares, que devem continuar pela vida inteira.

Nas enfermidades crônicas, mesmo em ensaios clínicos internacionais que incluem participantes selecionados e acompanhados de perto, as meta-análises demonstram que a aderência varia entre 43% e 78%.

No Brasil, ocorrem cerca de 300 mil mortes anuais por doença cardiovascular, o equivalente a um óbito a cada dois minutos.

Nas últimas décadas, surgiram betabloqueadores, antiagregantes plaquetários, estatinas e outros medicamentos capazes de reduzir o risco de ataques cardíacos, derrames cerebrais e óbitos, tanto em pessoas com risco elevado de apresentar tais complicações (prevenção primária), como naqueles que já as enfrentaram (prevenção secundária).

Um estudo sobre prevenção secundária conduzido com 4.761 pacientes, que receberam prescrição de uma dessas drogas, mostrou que depois de um ano apenas 809 (17%) permaneciam em tratamento.

Em outro estudo semelhante, o seguimento de 8.864 pacientes durante um ano revelou que 88% abandonaram a medicação. .

As causas para a interrupção são multifatoriais: custo, efeitos indesejáveis, dificuldade para marcar consultas, falta de informações sobre a finalidade da medicação e os riscos de interrompê-la, indisciplina, baixa escolaridade, negação e dificuldades no relacionamento médico-paciente.

Nós, médicos, contribuímos involuntariamente para esses índices de aderência: entregamos as receitas nas mãos de nossos doentes e imaginamos que eles as seguirão religiosamente, sem levarmos em conta as idiossincrasias individuais.

Um hipertenso mal informado dos riscos de viver com pressão alta e da necessidade de medi-la e controlá-la, dificilmente tomará com regularidade as drogas prescritas.

O sobrevivente de um ataque cardíaco, precisa ser convencido de que, ao lado da atividade física e da dieta equilibrada, a medicação pode evitar que aconteça outro.

Se, nas condições de trabalho que o sistema público e os planos de saúde impõem à prática de hoje, o tempo de cada consulta é insuficiente para explicações mais detalhadas, precisamos de pessoas que nos ajudem. Quem são elas? Os familiares do doente e as enfermeiras, profissionais subutilizadas no Brasil.

A experiência mostra que contatos periódicos por telefone, SMS, e-mail ou WhatsApp aumentam significativamente a aderência. Equipes de enfermagem podem realizar esse trabalho com muito mais eficiência do que nós.

De que adianta basearmos nossa prática nas melhores evidências científicas se nossos pacientes não levarem a sério as mudanças no estilo de vida que lhes recomendamos nem tomarem os remédios receitados?

DRAUZIO VARELLA