sábado, 30 de maio de 2020


30 DE MAIO DE 2020
LEANDRO KARNAL


A metáfora, belíssima, é do padre Antônio Vieira, e não é a primeira vez que me valho dela em meus textos. No seu sermão do Espírito Santo, o jesuíta escreveu que alguns povos são difíceis de ser mudados ou convertidos a uma nova ideia.

Necessitam de muito esforço e larga catequese. Seriam feitos de mármore, ou seja, duríssimos. Uma vez adquirida a forma árdua com cinzel persistente, tornam-se permanentes. Em oposição, outros povos seriam dóceis à pregação, como o arbusto chamado de murta. Nessa planta, o jardineiro pode produzir formas graciosas em poucos minutos com sua tesoura de poda. O vegetal não resiste à vontade daquele que o corta. 

Porém, mal o cultivador esculpiu nova forma na maleável planta, galhos rebeldes brotam. O padre Vieira achava que os indígenas do Brasil seriam como a murta. Na pena do "imperador da língua portuguesa": "Há outras nações, pelo contrário - e estas são as do Brasil -, que recebem tudo o que lhes ensinam, com grande docilidade e facilidade, sem argumentar, sem replicar, sem duvidar, sem resistir; mas são estátuas de murta que, em levantando a mão e a tesoura o jardineiro, logo perdem a nova figura, e tornam a bruteza antiga e natural, e a ser mato como dantes eram. 

É necessário que assista sempre a estas estátuas o mestre delas: uma vez, que lhes corte o que vicejam os olhos, para que creiam o que não veem; outra vez, que lhes cerceie o que vicejam as orelhas, para que não deem ouvidos às fábulas de seus antepassados; outra vez, que lhes decepe o que vicejam as mãos e os pés, para que se abstenham das ações e costumes bárbaros da gentilidade. E só dessa maneira, trabalhando sempre contra a natureza do tronco e humor das raízes, se pode conservar nestas plantas rudes a forma não natural, e compostura dos ramos".

A partir das figuras de linguagem do inaciano, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro fez um artigo belíssimo e conhecido de todos na área sobre a "inconstância da alma selvagem".

Não tenho a pretensão de analisar nem o padre Vieira nem Viveiros de Castro. Apenas quero falar da dificuldade em lecionar atualmente. Nossos alunos adolescentes hoje não são nem mármore nem murta: não são fáceis de ser convencidos pela fala e não são permanentes na nova forma. Os jovens questionam muito (o que seria bom em si) e sempre acham que aquilo que eles sabem já é suficiente. Muitos são resistentes a quaisquer novas ideias. Instala-se o mármore no ouvido e não floresce a murta no coração.

Lecionar é um exercício cada vez mais desafiador à medida que reunimos o pior dos dois mundos. O professor se vê diante do duplo desafio. O primeiro deles é o de comprovar permanentemente que aquilo que ele estuda é significativo e que pode levar a uma mudança interna que transforma para melhor. Ao mesmo tempo, com sua tesoura na mão e trabalhando em uma murta fértil, vê que a forma muda logo após o corte. Nunca foi tão difícil dar aula. Nós não temos a aparente docilidade do indígena que tudo ouve nem a suposta segurança dos outros povos que escutam com dificuldade, porém edificam de forma duradoura.

Todo professor, em algum momento, já se sentiu inútil ou falando para ouvidos de "marmurta" ou "murtármore". Em outras palavras, temos o pior dos dois mundos: a dureza de um e a inconstância do outro. Cada aula é uma conquista, um esforço diário de sedução e de convencimento. Demanda densa retórica e muitos exemplos concretos para estimular a mudança de visão ou aquisição de um novo hábito.

Para piorar, muitos pais (não todos) imaginam o filho de puro e bem lavrado ouro. Quando na infância o pimpolho entregou aquele desenho sem forma, garatujas mal acabadas, o olhar afetivo começou a insuflar: "Que lindo!". Sim, nada mais bonito do que algo feito com afeto e vindo da pessoa que você mais ama. Será que, em algum momento, existirá a reflexão de que é lindo para mim porque é do meu rebento, porém, é menos bonito fora desse quadrado cordial? De tanto elogiar coisas assim, não acabaríamos convencendo nossos filhos e a nós de que o infante tem o talento de Leonardo da Vinci e a agudeza lógica de Isaac Newton? Quem dá aulas sabe que eu não estou inventando ou exagerando.

Crianças e jovens devem ser estimulados sempre. Excesso de senso crítico produz efeitos devastadores na confiança e no empenho. Dosar elogios justos pelo progresso em algum campo sempre indicando que deu um passo decisivo, porém, aquela redação não é o próximo prêmio Nobel de literatura e aquela resposta foi divertida e proporcional a alguém de 13 anos. Vieira analisou o material vegetal ou pétreo das almas discentes. Eu incluo o jardineiro na reflexão.

Educar é um desafio. Respeitar cada fase e saber que alguém que começou a estudar formas literárias ainda tem um longo caminho; e que as perguntas originais de um pré-adolescente em geometria nascem do desconhecimento e não do brilho genial e precoce de um novo Pitágoras. Elogiar quando existe um progresso, indicar que pode crescer mais, que houve imperfeições aqui e ali, dar perspectivas e comparações e que, acima de tudo, o erro é o mais sólido instrumento de aprendizado da espécie humana: eis alguns caminhos para andar entre mármores e murtas.

Para nós, professores, uma rota: criticar sem destruir, indicar onde existiu conhecimento, mostrar um caminho de aprendizado. Para todos os pais: seu filho é inteligente, porém, há outros na sala, igualmente ou mais brilhantes. Mantenha a esperança no mármore clássico e na murta ecológica.

LEANDRO KARNAL



30 DE MAIO DE 2020
ARTE

"O grito" pede distanciamento

O Grito, quadro do pintor norueguês Edvard Munch (1863-1944), também precisa de distanciamento como o imposto pela pandemia do novo coronavírus. É o que indicam cientistas que passaram três anos investigando a perda de brilho e intensidade da tinta amarela usada na versão do Museu Munch, em Oslo (Noruega), pintada em 1910.

Uma das hipóteses é que a luz estivesse desbotando o quadro. Mas, após rastreá-lo com equipamentos especiais, analisar as tintas do pintor norueguês e submeter simulações de suas misturas a diferentes condições de luz e umidade, 18 pesquisadores de sete países (Noruega, Itália, EUA, Bélgica, França, Alemanha e Brasil) descobriram outro fator: nas faixas amarelas do pôr do sol, no pescoço do homem que grita e na massa espessa do lago, Munch usou uma tinta com pigmentos impuros, que, sob umidade, como a exalada pela respiração humana, sofre transformações químicas e descama.

- Ter multidões na mesma sala da pintura não é bom - diz a especialista norte-americana Jennifer Mass, que participou da investigação.

Além de umidade, as pessoas exalam cloretos quando respiram, segundo o professor de Física da Universidade de Antuérpia Koen Janssens, outro integrante do grupo:

- Para pinturas em geral, não é saudável estar muito perto da respiração humana.

Pelo Museu Munch passam 250 mil visitantes por ano, mas O Grito foi raramente exposto desde 2006, quando voltou para casa depois de ter sido roubado por dois mascarados em 2004. A pintura recuperada voltou com manchas de água no canto inferior esquerdo e, para evitar mais desgastes, ficou armazenada sob baixa iluminação, a 18ºC e umidade relativa de 50%. Após o resultado das pesquisas, deve ganhar instalações ainda mais secas, de no máximo 45% de umidade, segundo Irina Sandu, cientista de conservação do museu.

Tintas instáveis como a usada por Munch eram comuns no fim do século 19 e no começo do 20, porque sua durabilidade não havia sido testada. A fabricação era experimental, impulsionada pela descoberta de pigmentos sintéticos que permitiam paletas mais vibrantes do que as das tintas de então - feitas à base de minerais moídos ou corantes extraídos de plantas e insetos. Populares entre artistas modernistas, pós-impressionistas e expressionistas, as cores contrastantes, saturadas e com variações de brilho na superfície, eram perfeitas para a cena que o pintor norueguês queria representar.

"Andava de noite numa estrada. Estava cansado e doente. Fiquei olhando para o outro lado do fiorde; o sol estava se pondo; as nuvens estavam vermelhas - como sangue -, senti como se um grito passasse pela natureza. Pensei ter ouvido um grito. Eu pintei essa imagem. Pintei as nuvens como sangue real. As cores estavam gritando", descreveu Munch, segundo o historiador Arne Kristian Eggum, que estuda sua obra.

Entre 1893 e 1916, o pintor fez várias versões de O Grito, em tinta e pastel, desenhos, esboços e litogravuras, além dos quadros que estão Museu Nacional da Noruega (de 1893) e no Museu Munch (1910).

Na procura pelas cores gritantes, experimentou diversos pigmentos até chegar no amarelo de cádmio que desvaneceu. Os cientistas descobriram o problema exato: havia cloretos na tinta usada por Munch. Sob umidade, essa impureza acelera a deterioração. As pinceladas no céu nublado do pôr do sol e na figura central ficaram esbranquiçadas. No lago, a massa de tinta descamou.

A descoberta envolveu várias estratégias de pesquisa em diferentes laboratórios europeus e visitas a Oslo. Numa delas, o físico nuclear brasileiro Renato Pereira de Freitas, 37 anos, e uma equipe do italiano Molab, referência na análise de obras de arte, pegaram um avião em Perúgia (Itália) em um domingo à noite de 2017, levando desmontado numa mala um sofisticado equipamento de mapeamento molecular. Como em um raio X, ele detecta os elementos químicos da obra sem danificá-la, diz Freitas, que ajudou a mapear o cádmio e o cloro no quadro de 83,5cm por 66cm, de têmpera sobre cartão.

Para Janssens, Munch deve ter usado por acidente uma tinta de menor qualidade. O sulfeto de cádmio amarelo é obtido pela reação entre cloreto de cádmio e sulfeto de sódio; numa indústria ainda incipiente, pode ter sido incompleta ou feita de forma negligente.

Descoloração e descamação do mesmo pigmento também foram documentadas em obras de Matisse, Ensor e Van Gogh. Nesses casos, a luz era o principal fator. A degradação não pode ser revertida, mas o conhecimento dos processos que levaram a ela permite uma volta digital ao passado, reconstruindo as cores originais, diz Janssens.

No Brasil, a investigação também terá consequências. De volta ao país após terminar o pós-doutorado, Freitas comprou um equipamento de mapeamento para o Instituto Federal do Rio de Janeiro, o que permitirá estudar obras brasileiras com a mesma técnica. 

ANA ESTELA DE SOUSA PINTO


30 DE MAIO DE 2020
COMPORTAMENTO

NEM TODOS APRENDERÃO COM A ATUAL EXPERIÊNCIA

Luciano Marques de Jesus, Filósofo e professor, coordenador do curso de Filosofia da PUCRS

A MORTE PARECE MAIS PRÓXIMA EM UMA PANDEMIA. COMO ESSA EXPERIÊNCIA PODE NOS INFLUENCIAR?

Nossa sociedade nega a morte. Por um lado, a morte é tabu. Por outro, é banalizada e espetacularizada. Se há uma pessoa doente na família, a palavra morte é proibida, nos programas policiais vespertinos é vulgarizada e, não raro, comemorada. Na área da saúde a palavra não existe. As pessoas não morrem, evoluem a óbito. Tudo isso talvez porque, para muitos, a morte represente a derrota última. Mas a pandemia nos confronta com a morte! 

Deveríamos aprender com Rubem Alves que a consciência da morte nos torna mais libertos, preocupados com aquilo que efetivamente importa, que vale a pena dar valor. Se morrêssemos hoje, qual o significado de toda a preocupação de ontem? Vale a pena dar a importância a tantas inquietações? Talvez pouca coisa nos seja necessária, talvez uma só! Curioso ser humano! O único animal que sabe que vai morrer e vive como se nunca fosse morrer. Tomara que saiamos dessa experiência dando maior valor à vida. Essa é uma oportunidade que temos. Infelizmente, nem todos vão aproveitá-la.

O SENHOR É UM ESTUDIOSO DA LOGOTERAPIA, QUE PRECONIZA QUE A CHAVE INTERPRETATIVA DO SER HUMANO É A VONTADE DE SENTIDO, E NÃO DE PRAZER OU PODER. A LOGOTERAPIA SURGIU QUANDO SEU FUNDADOR, VIKTOR FRANKL (1905-1992), REFLETIU SOBRE SUA EXPERIÊNCIA NOS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO NAZISTAS. O QUANTO EXPERIÊNCIAS DRAMÁTICAS (COMO UMA PANDEMIA) PODEM NOS MOSTRAR O SENTIDO DA VIDA?

A logoterapia propõe que o motor da vida humana, a verdade que sempre volta é a vontade de sentido. A questão do sentido persegue o fundador da logoterapia desde sua juventude, quando, numa aula de história natural, o professor ensinava que a vida pode ser reduzida a dois processos, oxidação e combustão. O jovem Frankl questiona: se é assim, que sentido tem a vida? O campo de concentração foi o terrível laboratório que validou as intuições de Frankl, mostrou que as chaves interpretativas de Freud (prazer) e Adler (poder) são insuficientes para mostrar o motivo por que as pessoas continuariam a dizer sim à vida, não obstante todo o horror que as circunvizinhava. A teimosa vontade de fazer que a vida faça sentido, essa é a chave interpretativa do ser humano segundo a logoterapia. Freud tinha a ideia que, se todos fossem submetidos aos seus instintos, por exemplo, se todos passassem fome, seriam iguais. O campo de concentração e outras situações de extrema crise, como essa pandemia, mostram o contrário: trazem a lume a emergência do que há de mais elevado, nobre e sublime no ser humano e, também, o que há de mais baixo, asqueroso e abjeto; ou, na dura expressão de Frankl, a emergência do porco e do santo.

MUITO SE TEM DITO QUE TODOS SAIREMOS DA PANDEMIA TRANSFORMADOS EM ALGUM SENTIDO. HÁ QUEM DIGA QUE SEREMOS MENOS INDIVIDUALISTAS. O SENHOR CONCORDA COM ESSA IDEIA?

Mais do que concordar, eu torço para que isso aconteça! No entanto, não podemos nos iludir, já durante a epidemia temos visto emergir o que há de melhor e de pior no ser humano. Muita solidariedade e voluntariado, mas também oportunismo, golpes e manifestações de interesses egoístas. Penso que a vida pós-coronavírus tem tudo para ser melhor, mas nem todos aprenderão com a experiência. Mario Sergio Cortella afirma que a ocasião não faz o ladrão, ela apenas o revela! Vamos aguardar para ver quais revelações o futuro nos revelará.

TEMOS VISTO ALGUMA VIRULÊNCIA NO DEBATE PÚBLICO, E NÃO SÓ NO CAMPO POLÍTICO. O NEGACIONISMO À PANDEMIA SE ALINHA A ISSO À MEDIDA QUE SUGERE INTERPRETAÇÕES RASAS E PRÉ-CONCEBIDAS DO MUNDO. O QUANTO ESSA SITUAÇÃO DE CONFLITO PODE SER AFETADA POR ESTE MOMENTO DE CRISE E ISOLAMENTO DAS PESSOAS?

O cientista e professor Marcelo Gleiser, perguntado por um aluno da Especialização em Filosofia e Autoconhecimento da PUCRS sobre o que ele pensava a respeito da volta do terraplanismo, respondeu com uma palavra: triste! É uma tristeza ver menosprezo pela ciência, negacionismo, movimento contra as vacinas. De um lado, essas visões equivocadas - não gosto do adjetivo "medievais", ele é ofensivo, mas para a Idade Média! - podem prejudicar o combate ao vírus, mas também torço para que sejam desmascaradas. É impressionante a capacidade brasileira de politizar e ideologizar uma pandemia! Sobre a defesa do uso de medicações específicas por pessoas que passam longe da área da saúde, só resta o meu estarrecimento. De uma velha canção portuguesa, citada pelo saudoso senador Jefferson Peres: "Tudo isto existe; tudo isto é triste; tudo isto é fado!".

 DANIEL FEIX

30 DE MAIO DE 2020
JULIA DANTAS

A REALIDADE INVEROSSÍMIL

Certa vez, numa oficina de escrita criativa, uma professora propôs à turma um exercício que consistia em criar um mundo distópico. Um dos alunos entregou o seguinte texto: "Era uma vez um país de proporções continentais que, de uma semana para outra, se viu na rota de um vírus mortal. Não havia vacina nem tratamento, o líder da nação contava apenas com a vantagem de que outros países já tinham sido tomados pela doença antes, podendo oferecer bons e maus exemplos do controle das contaminações. 

Mas o líder não gostava de ciência. Sua estratégia consistia em divulgar um elixir encantado, dizer às pessoas que estava tudo bem e ignorar os mortos acumulados. Questionado sobre suas decisões, a resposta foi simples: debochar dos questionadores. Ninguém entendia quais eram seus objetivos, até que uma reunião a portas fechadas foi tornada pública, e ali o povo soube os projetos para o futuro do grande país. Assim que o vírus passasse, eles chamariam os jovens da nação para que construíssem estradas, chamariam esses jovens de aprendizes, pagariam a eles uma esmola e ensinariam a todos o hino nacional".

A professora disse ao aluno que entendia a proposta do texto, o objetivo de mostrar a desconexão de um líder com a realidade. Mas advertiu que os personagens estavam pouco convincentes. Mesmo os vilões de uma história precisam de complexidade, não podem ser assim tão planos ou o leitor não acreditará neles. Até mesmo Hitler tinha contradições em sua personalidade, vide o desejo, na juventude, de se tornar artista.

A professora perguntou ao aluno qual era a história prévia do personagem líder. Ele disse que era um sujeito que tinha sido expulso da organização militar de seu país, que tinha sido um político irrelevante que se aproveitava de sua irrelevância para exaltar bandidos, empregar bandidos, homenagear bandidos com medalhas, e que depois se tornou famoso por fazer piada com estupro. A professora observou o aluno e tentou ser gentil: "Assim não vai funcionar", ela disse, "fica muito caricato e, além disso, inverossímil, um sujeito desses nunca chegaria à Presidência de lugar nenhum".

Esse causo de oficina é fictício, claro. Nada mais que um exercício de imaginação, coisa que falta a esse governo: a capacidade de imaginar um projeto de país que vá além da exploração da pobreza e do medo. Em vez de desenhar planos para colocar jovens em trabalhos pesados com remuneração irrisória, nossos líderes deveriam imaginar um futuro no qual as pessoas que constroem estradas e realizam serviços essenciais poderiam - sei lá, vou sonhar alto - receber treinamento adequado, salários suficientes para sustento de uma família e garantias de segurança. A gente podia até inventar um nome para essa relação de trabalho, talvez uma palavra assim tipo emprego. Mas acho que agora já entrei no terreno das utopias.

JULIA DANTAS


30 DE MAIO DE 2020
DRAUZIO VARELLA

CORONAVÍRUS, OS OLHOS E O SÊMEN

O que dizem duas pesquisas sobre a transmissão do vírus. Os olhos servem de porta de entrada para o novo coronavírus. Os estudos mostram que ele se instala nas células que revestem as vias respiratórias altas e as da conjuntiva, com mais facilidade do que os outros coronavírus causadores das epidemias de sars e da mers, de anos atrás.

Em artigo publicado na revista The Lancet Respiratory Medicine, pesquisadores da escola de saúde pública da Universidade de Hong Kong foram os primeiros a documentar a facilidade com que o novo coronavírus conseguia infectar seres humanos ao penetrar os olhos, além das vias aéreas.

Eles cultivaram em laboratório tecidos das vias respiratórias e da conjuntiva de pacientes com covid-9, para compará-los com os mesmos tecidos daqueles infectados pelo vírus da sars e da gripe H5N1. Os resultados mostraram que o vírus da covid-19 é capaz de atingir concentrações celulares 80 a 100 vezes mais altas do que os da sars e da gripe H5N1. Segundo os autores: "Os resultados explicam a transmissibilidade mais elevada do vírus da covid-19, além da importância dos olhos como via da transmissão humana".

Achados como esses justificam a insistência nas recomendações de lavar as mãos com água e sabão, com regularidade, de não levar as mãos ao rosto e de não coçar os olhos, uma vez que pesquisadores da mesma universidade já haviam demonstrado que o vírus pode permanecer viável por vários dias em superfícies de aço ou de plástico.

No início da epidemia, imaginava-se que aos profissionais de saúde que trabalham em contato direto com os pacientes bastaria usar roupas protetoras e as máscaras N95. Esse, e outros estudos, demonstraram que havia necessidade de uma barreira de plástico para evitar o contato de secreções com os olhos (óculos ou "face shield").

O vírus da covid-19 já foi isolado na saliva, no trato gastrointestinal, nas fezes e na urina dos pacientes. Agora, pesquisadores do Hospital Municipal de Shangiu, na China, publicaram no JAMA Network um pequeno estudo realizado para detectar a presença de partículas virais no sêmen de 38 homens internados com a doença. O vírus foi encontrado em seis deles.

O coronavírus poderia ser sexualmente transmissível? O número de pacientes avaliados é tão pequeno que não permite conclusões definitivas. No ambiente científico, pesquisas desse tipo são consideradas apenas "geradoras de hipótese", isto é, requerem estudos mais completos, com maior número de pacientes.

Além do mais, não sabemos se partículas virais presentes no esperma estão íntegras, mantêm a viabilidade e a capacidade de infectar outras células, requisitos fundamentais para a transmissão.

Enquanto aguardamos a chegada da vacina salvadora e de medicamentos dotados de atividade antiviral, cabe a nós lavar as mãos com frequência, usar máscara ao sair de casa, além de manter o rigor do isolamento, é claro.

DRAUZIO VARELLA


30 DE MAIO DE 2020
BRUNA LOMBARDI

ANO DA LIMPEZA

Sou daquelas que adoram limpar gavetas, esfregar prateleiras, armários, arrumar, organizar, rever, doar, jogar fora. Sou ótima numa faxina e limpo com tamanho empenho e obsessão que dá para lamber onde eu limpei. E faço tudo com muito prazer.

Vivo como todos na correria e na pressa do cotidiano, nesse acúmulo do mundo contemporâneo, onde se junta mais do que se precisa. Manter essa ordem e organização é um desafio constante. Ando, por exemplo, soterrada de livros que compro constantemente, na certeza absoluta que um dia vou ler todos. E vou, porque não sou de desistir, mas eles andam tomando conta do meu escritório e me empurrando para um canto cada vez menor.

O planeta regente do ano passado foi Marte. Na mitologia romana, Marte era o deus da guerra. Com sua regência, passamos um ano de combate, de confrontos, de energias antagônicas, mas também de força interior e iniciativa para tomada de grandes decisões.

E foi um ano de limpeza, de renovação, de lidar com desordem externa e interna e conseguir se livrar de tudo que não precisamos mais carregar.

A limpeza começa pelas coisas materiais que nos cercam. A busca da ordem e harmonia do que temos ao redor. Eu não consigo ser produtiva se as coisas não estiverem organizadas e arrumadas em volta de mim. A desordem drena minha energia. As coisas nos lugares certos trazem beleza e serenidade. Dá trabalho, mas faz bem para o espírito.

Arrumar o exterior é uma tarefa bem mais simples do que adentrar nossas cavernas interiores. O desafio maior é sempre mergulhar dentro de nós.

Somos seres complexos e aos poucos vamos descobrir pesos que carregamos sem perceber, sem sequer enxergar que arrastamos certas correntes. Tantas coisas invisíveis, cargas emocionais que suportamos, lixos que se acumulam pesados em algum lugar do nosso espírito e que foram largados, escondidos, esquecidos, deixados sem solução.

Raiva, ódio, frustrações, ressentimentos são os nós dessas correntes atadas aos nossos pés, que impedem nossos movimentos. Mágoa é uma má água, uma água parada, que suja nosso sistema, nos intoxica.

Nos armamos de gatilhos e nos tornamos um campo minado onde já não se pode andar despreocupado e nem correr livremente.

É preciso muita coragem para entrar nesses porões da alma e acender a luz. Podemos ver o que não queremos. Podemos apagar a luz, fechar a porta e fugir.

Mas também temos em nós a capacidade de encarar de frente o que existe, calcular bem todo esse acúmulo da vida e tomar uma decisão.

Já não importa mais a razão, nem o porquê aquilo está lá. Coisas passadas, sujeiras antigas, desnecessárias. Reminiscências que juntas se compactam e formam um bloco escuro sólido, que impede a nossa leveza.

Hora de limpar. Hora de usar a nossa luz para iluminar e enxergar a nossa sombra. Hora de definir quem somos e quem seremos a partir de agora.

Podemos entrar nessa caverna sem medo, nada ali é permanente e tudo pode ter um novo significado.

Nenhuma escuridão dura para sempre. Lembrei do verso de um poema meu que diz: "Depois de toda noite vem a aurora. É hora de ver a sua brilhar".

BRUNA LOMBARDI


30 DE MAIO DE 2020
J.J. CAMARGO

FELICIDADE: O TRABALHO QUE DÁ

O caminho mais seguro é ajudar o outro, despertando o mais nobre dos sentimentos
Só o amor despertou mais debatedores animados. Se considerarmos que a busca da felicidade é a essência da nossa passagem pelo mundo, todo o aparente exagero se justifica. O resultado de tantas cabeças pensantes trabalhando em dissintonia explica a variedade infinita de conceitos, uma característica dos temas que não entendemos bem.

Como somos completamente diferentes, a ponto de que coisas que deslumbrem alguns provoquem bocejos em outros, não se pretenda copiar modelos de felicidade. Tente construir a sua, do seu jeito. E trate de aceitar que, se pretender pôr a cabeça de fora, a ponto de ser profissionalmente respeitado, sempre terá maior chance o espírito acelerado, em comparação com aquele que sai da cama toda manhã com o desânimo de quem vai terminar o dia numa reunião do condomínio.

Para que não pareça implicância, e em prol dos menos ambiciosos, é preciso admitir que as pessoas pouco exigentes têm mais chance de alcançar uma condição de equilíbrio emocional, que se confunde tanto com felicidade, que talvez seja ela mesma. Por outro lado, uma fonte segura de infelicidade é a comparação, descrita por Mark Twain, como a morte da alegria, porque à nossa volta sempre haverá alguém que sabemos melhor do que nós.

Quem consulta a literatura fica impressionado com o rosário de recomendações, com uma unanimidade: o caminho mais seguro é ajudar o outro, que além de ser um exercício de humanismo, ainda desperta nos beneficiados o mais nobre dos sentimentos, a gratidão. No desespero desta pandemia, este sentimento ficou evidente, como raramente tinha acontecido. A onda de manifestações coletivas de aplauso aos profissionais da saúde só precisa permanecer, para que ninguém a considere um reles fruto do pânico transitório. Qualquer medo contamina a gratidão.

Enquanto isso, seguimos encantados com a descoberta de que ser médico, de verdade, é dar a alguém que nos procura uma alegria que ele não teria se não fôssemos capazes de fazer o que fazemos. E sem nenhuma soberba, até porque estamos sempre assombrados com nossos erros, dos quais, muitas vezes, nunca nos recuperamos completamente.

Apesar da diversidade de vicissitudes e ambições, consagrou-se a observação de que agrupados somos mais, e que em geral a solidão flagela, reduz a expectativa de vida, aumenta o risco de adoecer, e quando isso ocorre, o solitário sofre mais.

Ainda que essa observação seja consensual, não se pode negar a possibilidade, real e menos exigente, de sermos felizes sozinhos. Sempre me impressionou a capacidade de certas pessoas de estarem contentes com coisas que os outros consideram menores, em contraste com os que exigem a felicidade global, geralmente tendo fracassado com a sua.

Um dos depoimentos mais pungentes, recebi de um leitor fiel que confessou ter chorado enquanto assava uma costelinha no seu solitário churrasco de domingo, e se deu conta que era sim, uma pessoa feliz, e se sentia grato por isso.

Um exemplo de autodidata inteligente, ao entender que a pretensão de fazer todo o mecanismo funcionar harmonicamente é um impeditivo de felicidade, esta coisa que não existe e, um dia, acaba.

J.J. CAMARGO






30 DE MAIO DE 2020
DAVID COIMBRA

Como tirar um hipopótamo do pântano

Uma vez, o Mago de Riga viu-se metido em uma séria dificuldade. Então, ele pensou no hipopótamo.

Engraçado alguém pensar em um hipopótamo quando está com problemas, mas foi o que aconteceu.

O Mago de Riga era Mikhail Tal, Grande Mestre de xadrez da Letônia, na época da União Soviética. Um gênio. Coisa assim de Michelangelo, de Leonardo. Aprendeu a ler sozinho aos três anos de idade. Aos oito, já humilhava marmanjões nos tabuleiros. E o melhor: ao contrário de outro gigante do xadrez, Bobby Fischer, era afável e gentil com as pessoas.

Mas não quando mexia os peões. Ao contrário, Mikhail Tal tinha um estilo de jogo surpreendente e agressivo. Fazia sacrifícios de peças importantes, que desorientavam seus adversários e levavam as partidas para finais inesperados, em que ele sempre vencia.

Se você já jogou xadrez sabe como esse jogo pode ser violento. Nos tempos do IAPI, isso já contei, mas conto de novo, pois, naquele tempo, a Biblioteca Romano Reif trouxe para jogar na vila um guri que era campeão de xadrez de algum lugar. Inscrevi-me para enfrentá-lo. Era um gordinho de aparência inofensiva, daqueles que pegam no gol na peladinha e levam cascudo no recreio. Isso até avançar o peão do rei para a casa quatro. A partir daí, ele se transformou. Silencioso, concentrado, olhar assassino, começou a movimentar aqueles cavalos, aqueles bispos, aquelas torres de um jeito feroz, que me deixou aturdido e acuado. Derrotou-me com a naturalidade de um Tyson surrando o Batatinha.

Tal fazia isso também, só que com Grandes Mestres. Foi invencível durante uma temporada e só não continuou amassando todos porque sua saúde era frágil. Tal sofria de problemas renais crônicos. E, na mão direita, faltavam-lhe dois dedos.

Muitos não sabem, mas é preciso condição física para jogar um bom xadrez. A concentração, o foco e o esforço mental são tão intensos que, às vezes, um jogador chega a perder cinco quilos durante um match decisivo. Tal, enfraquecido fisicamente, viu seu jogo enfraquecer também, e só por isso foi superado.

Mas, no dia em que pensou no hipopótamo, desfrutava o auge da carreira. O que se deu foi que, em meio a uma partida, o adversário colocou o Mago de Riga em uma posição complicada. Se fizesse o movimento errado, Tal perderia o jogo. Aí, sem motivo aparente, veio-lhe à memória uma antiga canção infantil soviética que dizia algo do tipo "como é difícil tirar um hipopótamo do pântano". Assim, em vez de pensar em adiantar a dama ou recuar o bispo, Tal começou a pensar em maneiras de tirar um hipopótamo de um pântano. Com um sistema de apoios? Com cordas? Com um helicóptero? O adversário esperando, a plateia esperando, todos achando que ele estava calculando os próximos lances, e Tal obcecado com o hipopótamo.

Até que ele chegou a uma conclusão. "Quer saber?", disse para si mesmo. "Deixa o hipopótamo se afogar. Se não há como salvá-lo, paciência. Que a natureza siga seu curso!"

Encontrada a resposta, o hipopótamo, puf, desapareceu da mente de Mikhail Tal e ele tomou uma decisão: "Vou sacrificar o cavalo". Foi o que fez. E ganhou o jogo.

Gosto dessa história, porque mostra que, às vezes, temos de fazer o que os chineses recomendam: seguir a favor da maré. Se um problema não tem solução, deixou de ser um problema. Já foi resolvido, não é preciso mais pensar nele. Isso, de certa forma, é um alívio. Libera o cérebro para se ocupar com outras pendências.

Agora, por exemplo, não adianta se afligir com um governo negacionista, que acredita que a pandemia é uma trama do comunismo internacional. Melhor esquecer as bizarrices que saem do Palácio do Planalto e se empenhar no combate ao vírus em cada Estado, em cada cidade, em cada casa. Melhor lidar com o corona como se fosse o cavalo de Mikhail Tal. E deixar que o hipopótamo de Brasília se afogue no pântano.

DAVID COIMBRA


30 DE MAIO DE 2020
FLÁVIO TAVARES

A BOIADA

É comum confundir estupidez com rudeza ou grosseria, quando, de fato, é muito mais do que isto. É imensa teia que aprisiona e afoga a todos, incluído o estúpido.

Em As Leis Fundamentais da Estupidez Humana, o pensador italiano Carlo Cipolla apontou cinco situações: 1) subestimamos o número de estúpidos; 2) o estúpido nunca é só estúpido e tem outras torpezas; 3) o estúpido nem sequer tira proveito da estupidez e pode, até, prejudicar-se com ela; 4) os não estúpidos desvalorizam o potencial nocivo dos estúpidos; 5) em suma, o estúpido é a pessoa mais perigosa e destrutiva que existe.

No vídeo da reunião ministerial de 22 de abril, os cinco monstros da estupidez apareceram de uma só vez, capitaneados pelo presidente da República. E não como crítica à estupidez em si, mas como se fosse a disputa de um grotesco torneio do absurdo. A pandemia da covid-19 já estava no apogeu, mas não surgiu sequer uma simples ideia para combatê-la.

A única menção (apenas menção) à pandemia foi feita pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, ao sugerir que (já que a imprensa está dedicada à covid-19) o governo deveria aproveitar a situação "para passar a boiada" e, assim, simplificar as leis de proteção à natureza.

Num evidente "ato falho", impossível de ocultar, Salles chamou de "boiada" o conjunto de medidas que preparou para se autotransformar, cada vez mais, no "ministro do desmatamento". Citou como "modelo" as medidas que facilitam arrasar o que ainda resta da Mata Atlântica, seus córregos e cachoeiras.

Não só a natureza e o meio ambiente foram alvo do tiroteio. Quase todos imitaram o palavreado chulo (ou obsceno) do presidente da República. Até o ministro da Economia, Paulo Guedes, usou o verbo predileto de Bolsonaro e, ao defender a liberação de cassinos e jogos de azar, pediu à ministra Damares, dos Direitos Humanos: "Deixa cada um se f.... do jeito que quiser, principalmente se o cara é maior, vacinado e bilionário".

Parecia, até, uma desatinada conversa gerada por litros de cachaça em estômago vazio, em que só se fale em passar a boiada?

Pela segunda vez, Rio Pardo se torna "cidade histórica", mas, agora, pelo horror do roubo (mais de R$ 15 milhões) organizado pelo prefeito sob o torpe simulacro de enfrentar a pandemia. A prisão do prefeito e seus asseclas mostra que o Rio Grande já não é uma ilhota isolada no mar da corrupção que assola o país.

Aqui, também, fomos carcomido$ pelo víru$ ance$tral que, no Rio de Janeiro, leva a Polícia Federal a investigar até o governador estadual, além de um filho do presidente da República. E de imediato, antes que a boiada passe, pois, aí, a avalanche destruirá o essencial, legalizando o crime maior.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

30 DE MAIO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

A REPETIÇÃO DO HORROR

Mesmo cercados pelas preocupações que emergem com a pandemia do novo coronavírus no Estado, os gaúchos acompanham consternados os desdobramentos das investigações sobre a morte de Rafael Mateus Winques, 11 anos, de Planalto, no norte do Rio Grande do Sul. A mãe do menino, Alexandra Dougokenski, 32 anos, confessou o crime, mas ainda sustenta que teria sido acidental, devido a uma dose exagerada de medicamentos que teria dado ao garoto, por estar muito agitado. A versão, entretanto, apresenta fragilidades, uma vez que a perícia inicial apontou estrangulamento.

Assim como teve a competência de desvendar rapidamente uma das principais perguntas sobre o crime ao confirmar a participação confessa da mãe, a Polícia Civil agora se debruça sobre uma série de pontos que ainda aguardam esclarecimento, como se ela agiu sozinha, a possível motivação de Alexandra, como era o relacionamento entre os dois e se o garoto foi realmente dopado.

Os novos depoimentos e o resultado dos laudos periciais certamente levarão as autoridades a elucidar as demais circunstâncias que precisam ser aclaradas em mais este caso perturbador. O crime de Planalto, mesmo com suas particularidades, guarda dolorosas semelhanças com o episódio do menino Bernardo Uglione Boldrini, de Três Passos, morto em 2014 também aos 11 anos. Como agora, o desaparecimento da vítima foi forjado e, da mesma forma, alegou-se depois o uso de medicamentos como causa da fatalidade. No caso Bernardo, a madrasta e o pai, entre outras pessoas, acabaram condenados.

A morte de uma criança pelas mãos de alguém muito próximo, ainda mais por uma mãe, perturba, intriga e une os gaúchos na repulsa a mais este crime bárbaro. A incredulidade e o choque não se resumem aos moradores do pacato município de 10 mil habitantes, uma comunidade como a maioria das cidades de menor porte do Estado, em que grande parte dos moradores se conhece e cultiva algum tipo de relação. Não há antídoto contra a perversidade humana e suas mais inconfessáveis motivações, mas o cultivo de valores salutares, da compaixão e das relações familiares sadias deve ser algo a ser perseguido por todos, incluindo a rede pública de proteção à infância e à adolescência, para que se possa evitar novas tragédias do gênero.

O menino tímido, que tinha facilidade com a matemática na escola, que sonhava em ser policial e vivia com a mãe e o irmão mais velho teve a vida precocemente interrompida por uma razão que ainda não se conhece. As peças que faltam para completar este trágico quebra-cabeças devem em breve ser encontradas e encaixadas pelos investigadores da Polícia Civil gaúcha, instituição que, mais uma vez, comprova a sua eficiência mesmo diante das limitações que enfrenta devido à crise do setor público do Estado.

OPINIÃO DA RBS



30 DE MAIO DE 2020
+ ECONOMIA

Cultura home office | "A história vai julgar os líderes"

Presidente do conselho de administração da Évora, William Ling foi um dos fundadores do Instituto de Estudos Empresariais (IEE). Em 19 de março, perdeu o pai, Sheun Ming Ling, pioneiro no plantio de soja no Estado. Na mesma data, entrou em isolamento e concluiu que há, sim, uma certeza nesta crise:

- Continuaremos a ser humanos, desejosos de proximidade física.

Isolamento

"Não foi difícil. Começou no mesmo dia da morte do meu pai. Sou muito caseiro, e essa coincidência ajudou no recolhimento. Saí poucas vezes para encontros presenciais. A primeira coisa que fiz foi pensar como poderia ajudar. Apoiamos hospitais e pessoas vulneráveis."

Rotina

"A Évora estava muito bem posicionada e não enfrenta grandes problemas. Nossa maior empresa, a Fitesa, produz não tecidos, usados na confecção de máscaras e material hospitalar. Tivemos demanda ainda maior, e o desafio tem sido organizar a produção para atender aos pedidos e avaliar investimentos."

Leituras e vídeos

"Não sou muito fã de séries e vídeos. A novidade são os inúmeros webinars. Mas continuo me informando primordialmente por meio de veículos da grande mídia nacional e internacional e de jornalistas que considero independentes. Também estou lendo livros sobre história e geopolítica."

Lazer e atividade física

"Sinto falta das aulas de dança (fazia dança de salão), viagens, ir ao estádio. Sou colorado, com direito a camarote no Beira-Rio. Mas organizei melhor as aulas de italiano, que agora faço por vídeo duas vezes por semana. Tenho passaporte italiano. Io sono sposato (?sou casado?) com uma descendente de italianos, e o mínimo que posso fazer é tentar falar a língua. Tenho esteira e faço exercício diariamente."

Aprendizado

"Apesar de participar de muitas reuniões em vídeo, não acho que o novo normal será dominado por esses instrumentos. Uma das poucas coisas que posso afirmar sobre o pós-pandemia é que continuaremos a ser humanos, desejosos de proximidade física. As pessoas não vão a estádios e a shows para ver futebol e ouvir música. Vão para partilhar uma experiência humana."

Reflexões

"Uma das coisas que mais me fizeram pensar foi a importância da liderança em tempos de crise. Como empresário, acho desafiador ter de decidir sobre negócios com um nível limitado, mas suficiente, de informações. Alguns líderes, neste momento, têm de tomar decisões que impactam milhões de vidas, no contexto desconhecido da covid-19. Fico pensando em como deve ser esse processo, como deve ser difícil, inclusive enfrentando fortes pressões. Procuro não julgar. A história vai julgar como os líderes se comportaram nesta crise."

MARTA SFREDO

30 DE MAIO DE 2020
RODRIGO CONSTANTINO

Supremo arbítrio


Um grande debate político dividiu os dois filósofos gigantes gregos. Platão defendeu o conceito de rei-filósofo, enquanto Aristóteles, talvez mais cético com a natureza humana, preferia um governo de leis, não de homens. O estagirita desejava, assim, impedir o arbítrio e a sedução dos homens pelo poder ilimitado. Quando o Ocidente abraça a ideia de império das leis e limites constitucionais está dando razão ao tutor de Alexandre, o Grande.

Infelizmente, é mais fácil defender essa ideia na teoria do que na prática. As instituições, afinal, são formadas por seres humanos imperfeitos. O mecanismo de pesos e contrapesos surgiu para tentar impor freios aos poderosos, de todas as esferas de poder. Pretendia-se, assim, minar a ambição desmedida de uns por meio da paixão de outros, reduzindo o risco de um soberano absolutista.

O vigia maior, sem dúvida, deve ser a Suprema Corte, responsável por fazer valer a Carta Magna de uma nação. A missão precípua do STF é a de guardião da Constituição. Mas, como o poeta romano Juvenal já questionava, quem vigia o vigia? O que acontece quando esses "ungidos", apontados por políticos, excedem suas funções, rasgam as leis que deveriam preservar, sentem-se intocáveis?

Na teoria, cabe ao Senado tanto o filtro da escolha, por meio da sabatina, quanto a possibilidade de retirar os frutos podres, pelo impeachment. Mas é um poder demasiado concentrado no presidente da casa, e cabe perguntar: quando a sabatina é realizada por um Congresso sob mensalão, o que ocorre? Sabemos a resposta na prática: apaniguados petistas e advogados de bandidos tornam-se ministros da mais poderosa instância jurídica no país.

E o risco de abuso se torna crescente. Até vermos, estarrecidos, um inquérito ilegal ser aberto sem objeto definido, transformando seu relator, apontado de forma direta, em vítima, procurador e juiz ao mesmo tempo. É muito poder a quem não merece, e o resultado está aí: um Estado policialesco que invade a casa de cidadãos por críticas aos ministros do STF. É o supremo arbítrio de um STF que virou, certamente, uma vergonha nacional.

RODRIGO CONSTANTINO


30 DE MAIO DE 2020
INFORME ESPECIAL

Um texto do #@%@&*$

"O meu sobrenome, sem uma letra, já é um palavrão", disse a jornalista Tânia Carvalho, às gargalhadas, enquanto relembrava uma história do começo da década de 1970. Ela foi convidada a comparecer à Polícia Federal, em Porto Alegre, depois de dizer ao vivo, no Jornal do Almoço, que os cachinhos de Dom Pedro I eram "um desbunde". Tânia ouviu, entre outras acusações, a de que havia atentado contra um dos símbolos da pátria.

A língua é viva. Hoje, "bunda" e seus derivados não são mais considerados termos ofensivos. Na recente reunião ministerial que virou o assunto do mês, foram pronunciados 37 - esses sim - palavrões, 29 deles pelo presidente da República. Se essa polêmica é nova, estudos sobre o tema não são. Mais do que julgar, me proponho aqui a analisar a origem, a função e os dogmas que cercam o uso de palavras tidas como vulgares.

Uma pesquisa publicada no European Journal of Social Psychology em 2017 concluiu que xingar ajuda a aliviar dores emocionais. Médico e diretor do Instituto do Cérebro da PUCRS, o professor Jaderson Costa da Costa concorda que, em algumas circunstâncias, pronunciar palavras mais fortes gera "um certo prazer e um certo alívio", mas pondera que este não é o melhor jeito de resolver tensões.

Trazendo para o contexto da reunião ministerial, é legítimo considerar a quantidade de impropérios vocalizados por Jair Bolsonaro como sintoma de um nível alarmante de estresse. Apenas como registro, porque não parece ser o caso do presidente, o uso exagerado de palavrões pode estar associado à Síndrome de Tourette - distúrbio neuropsiquiátrico caracterizado por uma série de tiques motores ou vocais. Um deles, pronunciar incontrolavelmente palavras obscenas ou insultos, está presente em boa parte dos casos. A expressão verbal extrema tem outras e mais amplas conotações.

Para o psicólogo e linguista canadense Steven Pinker, xingar leva nossas faculdades de expressão ao máximo, porque recruta "o poder da combinação da sintaxe, a força evocativa da metáfora e a carga das atitudes, pensadas ou impensadas". Talvez por isso os apoiadores do presidente aplaudam a sua truculência verbal, reconhecendo nela atributos positivos como sinceridade, transparência e coragem. Pinker acredita que a origem do palavrão está ligada à religião e ao mandamento que veda o uso do nome de Deus em vão. Transgredi-lo era a maior das blasfêmias. Mais tarde, o conceito se estendeu a expressões ligadas ao corpo humano e à sexualidade, os vieses mais explorados por Bolsonaro.

O professor do Insper Pedro Burgos buscou outras explicações. Em um artigo publicado em 2008, nos conta que as palavras comuns e suas primas sujas nascem em locais diferentes do cérebro. Enquanto a linguagem "limpa" é da alçada da parte mais sofisticada da massa cinzenta, o neocórtex, os palavrões habitam os porões da cabeça, mais exatamente o sistema límbico, que controla nossas emoções. Quanto mais comum é o uso de palavrões, mais ativa é a parte primitiva do cérebro de quem os diz.

Além disso, o peso das palavras está diretamente ligado ao ambiente nas quais são inseridas. No futebol, não causa choque ou mesmo reação o canto uníssono de 50 mil vozes a adjetivar a mãe de um árbitro. Só recentemente a FIFA começou a fechar o cerco sobre expressões racistas e homofóbicas. Acostumado ao calor dos estádios, o narrador Pedro Ernesto Denardin avalia que o xingamento é uma forma de protesto contra a autoridade, quando uma decisão, ainda que justa, prejudica o time do torcedor.

De certa forma, Pedro Ernesto joga luz sobre a realidade que explica - sem tentar justificar - a postura do presidente na malfadada reunião e as reações polarizadas que se sucederam. Não é de hoje que a dinâmica da política, no Brasil, se aproximou da lógica do futebol, onde a paixão descontrolada alimenta o excesso, enquanto a torcida entoa seus gritos de glória e de guerra.

TULIO MILMAN

sábado, 23 de maio de 2020



23 DE MAIO DE 2020
LYA LUFT

Um novo mundo

Muito se fala, se pensa, se argumenta sobre isso: depois de passada ou aquietada essa pandemia do coronavírus, teremos um mundo novo, um mundo diferente, uma humanidade transformada, um pouco recauchutada, pior ou melhor?

Em geral sou otimista, o que me permitiu viver bastante bem uma vida já longa, cheia de ganhos e perdas, como a de todo mundo. Pessoalmente, não creio que a gente saia muito melhorada, exceto alguns cuidados de higiene, não atropelar uns aos outros... sei lá. Cuidar mais da saúde, do povo, cuidar mais dos miseráveis e pobres, que são os mais vulneráveis. Mas vejo tanta raiva, tanto horror ao estrangeiro e ao diferente, tanta acusação, tanta irritação que, sem ter um objeto fixo, se lança sobre qualquer um - que não creio muito numa grande melhora na hostilidade geral.

Ao contrário, talvez a gente seja ainda mais egoísta e bairrista, curtindo uma horrorosa xenofobia. Você é de outro edifício, outra rua? Se desinfete por favor, o álcool gel está na porta. Outro bairro? Outra cidade, Estado, região? Outro país? Caia fora, não venha me trazer doença. Talvez no futuro a gente nem lembre mais do corona, mas tenha medo de qualquer pessoa não próxima: seremos tribos isoladas, rangendo os dentes e brandindo paus para quem se aproximar vindo de fora. E não será nem por medo de que roube nossos territórios ou nossos tesouros, mas nossa saúde... ah, aquele vírus.

Estudar, comer, dançar (os furiosos que seremos ainda vão saber dançar?), ir ao cinema, sentar no sofá da sala - tudo com fita métrica na mão: dois metros de distância, ou pouco menos. Vidinha sem graça. Licença para abraçar, transar só para perpetuação da espécie. O resto, muito suspeito, e os vírus, e os vírus?

Seremos mais religiosos, ou transcendentais, ou caridosos, fraternos? Também não sei. Para muitos, a contenção de festas, passeios, despesas, rua, pode significar uma real interiorização também na alma, nos amores. Há quem me diga: descubro cada dia novas qualidades nos meus filhos, novo encanto na minha mulher, nova qualidade no meu marido. Outros, porém, convivem como animais selvagens numa gaiola estreita. Talvez não se ataquem concretamente, mas quanto desejo mau, quanto rancor secreto, quanta palavra maldosa contida na boca que se fecha amargurada.

Enfim, não sabemos, e de momento sou dos que duvidam: sim? Não? Vamos melhorar ou piorar, ou desaparecer do mapa? Possivelmente vamos continuar, cheios de conflito, medo, esperança, alguns milímetros mais humanos... Seja o que for que isso vá significar. Ou ainda achando que tudo aquilo foi histeria e exagero? Ou bem piorados, sussurra o diabinho que às vezes pousa no meu ombro. Vai ser apenas este nosso velho mundinho, mais torto, mais medroso, e um pouco mais raivoso, cheio de ódio e acusações.

Mas vamos ser otimistas: quem sabe será um mundo novo com gente mais amena, mais criativa, mais trabalhadora, mais artística, mais espiritualizada porque passou esse grande susto... Mais amiga e mais bonita porque mais feliz...

Ah, nossos bebês vão começar a nascer mascarados? Isso nem os deuses sabem.

LYA LUFT

23 DE MAIO DE 2020

MARTHA MEDEIROS

Live

Tecnologia não é meu forte. Além da inaptidão, tem muita preguiça envolvida. Nada sei sobre cabos, operadoras e filtros. Nem mesmo sei de onde vem e quem paga a internet aqui de casa (desconfio que eu mesma), e, apesar de ter um notebook novinho, de vez em quando ainda escrevo num desktop com Windows 7 sem suporte técnico: a qualquer momento, sumirão todos os meus arquivos. Até meses atrás, não tinha backup. Calma, hoje eu tenho. Obrigada, filha.

Em tempos de distanciamento social, eis que surge um novo desafio: fazer lives.

A primeira foi com a jornalista Patricia Parenza, e, agora que passou, já consigo lembrar sem cair no choro. Sentei no chão da minha biblioteca (não me faça perguntas difíceis como "por que no chão?") e empilhei vários livros onde apoiei o celular e dois copos d´água: andava mal da garganta. Quando Patricia surgiu no vídeo, estava bela e iluminada como Nossa Senhora, enquanto eu estava em meio às trevas, só se enxergavam meus olhinhos aflitos. Então, acendi as lâmpadas dicroicas do teto e fiquei parecida com o ex-ministro Nelson Teich, as olheiras vinham no pé. Como nada está tão mal que não possa piorar, um gerador explodiu na rua e caiu a energia elétrica. No breu, sabiam que eu continuava ali porque tossia entre uma frase e outra.

Patricia, que é uma lady, me presenteou no dia seguinte com um ring light: um anel de luz que faz a gente se sentir em um camarim. Meus problemas acabaram, pensei, e me animei a conversar com a querida Jackie de Botton, diretora da School of Life Brasil. Jackie começou a transmissão 15 minutos antes do combinado para que ajustássemos alguns detalhes, e acreditei que ninguém estava nos vendo ainda - não ria, por ignorância já se fez coisa bem pior neste país. Passei a chamar minha filha, aos gritos, para que viesse até a sala me ajudar (ela estava me assistindo do quarto, em choque), mas nada se comparou ao fato de estarmos sem conexão e eu ter achado que isso não atrapalharia o bate-papo.

Dias depois, estava dividindo a tela do meu celular com Mônica Martelli, que tem quase 2 milhões de seguidores - desta vez o vexame seria épico. Sentei à mesa da sala de jantar, a alguns quilômetros de distância do meu roteador. Acho que foi por isso que a imagem travou e o áudio falhou, mas seguimos assim mesmo, aos tropeços, como se eu estivesse em Marte.

O que aprendi? Que meus leitores são um arraso. Não arredaram pé e seguiram confiando no borrão onde deveria estar meu rosto. Graças ao incentivo deles, fiz novas lives em que me saí melhor, e os convites continuam chegando (inclusive, na terça, dia 26, repetirei a live com Jackie. Te devo esta, amiga). O jeito é ir em frente, sem esquecer de rir das desventuras. Não tem sido fácil - nada tem sido -, mas é nosso dever seguirmos vivos no jogo. I´m alive.

MARTHA MEDEIROS



23 DE MAIO DE 2020
CLAUDIA TAJES

Diário de uma advogada estressada

Seguindo a série de podcasts e páginas como sugestão para se ler e ouvir no distanciamento social - que pode até ser flexibilizado, mas não vai acabar tão cedo -, hoje a coluna apresenta a advogada estressada, que se confunde com sua própria autora. Ela se chama Saíle, uma auto-homenagem de seu pai, Elias, que escreveu o próprio nome de trás para a frente. E gostou. Saíle Barbara, porque Elias também era devoto da santa. Ana Paula, o nome que a mãe, dona Jane, queria, perdeu de goleada. Conheci a Saíle Barbara Barreto em uma oficina de escrita criativa, e lá tomei conhecimento de que a página dela no Facebook, Diário de uma Advogada Estressada, tinha 70 mil leitores. Poucos meses depois, já são 90 mil. Números de best-seller que a Saíle, advogada em Florianópolis que coleciona Barbies nas horas vagas, não cansa de aumentar com suas histórias bem-humoradas.

Filha e neta de professoras, ela conta que cresceu em uma casa cheia de livros, sempre incentivada a ler. Foi contando os causos de seu cotidiano de ações de divórcio, litígios e alguns barracos - todos devidamente protegidos pelas liberdades da ficção -, que Saíle começou a chamar a atenção em seu perfil no Facebook. Criou a Advogada Estressada por sugestão do irmão, que também batizou a página. E não parou mais de conquistar seguidores. Um detalhe: como quase sempre acontece com as autoras, as mulheres são o público principal da Saíle.

Hoje ela tem três livros independentes publicados: Tão Legal que Nem Parece Advogada, Não Sou Tua Querida! e Os Herdeiros da Nonna, todos à venda no Facebook e no perfil @advogadaestressada do Instagram. É a própria Saíle quem embala e despacha os livros, o que cria uma relação quase que de amizade com as leitoras - que também interagem, e muito, nas redes sociais. "Aquelas que estão todos os dias ali, comentando e curtindo, até já conheço. E respondo todas as mensagens, converso bastante e tento acompanhar os comentários. O que, confesso, já não é mais tão fácil como no começo."

Sobre o Diário da Advogada Estressada, Saíle conta: "A página é de humor, não jurídica. Embora tenha gente que não entenda, fiz questão de deixar bem claro que é ?para quem encara com bom humor os perrengues da advocacia?. Cada dia conto alguma coisa que me acontece. Faço um desabafo, mas não cito nomes nem entro no mérito de nenhum processo, até porque ficaria muito chato para quem lê".

A seguir, três trechinhos da Advogada Estressada para desestressar em mais um fim de semana de pandemia. E, assim, seguimos.

***

Hoje lembrei de um juiz com quem fiz muitas audiências (e levei muitos sustos) quando atuei como defensora dativa no começo da carreira. É que ele se jogava para trás e fazia umas caretas engraçadas sempre que ouvia alguma barbaridade nas audiências. E eram audiências de família. Então, sabe como é. Ele se jogava para trás muitas vezes, e eu achava que a cadeira iria partir, e o MM se estatelar no chão. Só que a cadeira era muito boa, e isso nunca aconteceu.

Pois bem. Um dia cheguei com um casal muito jovem para fazer um divórcio consensual. O guri entrou mascando chiclete e eu não vi. Tivesse visto, teria feito o dito cujo cuspir o chiclete, mas o "miserento" deve ter colocado aquela porcaria na boca no momento em que entrou na sala e estava de costas para mim.

O juiz viu. Fez aquela careta engraçada e jogou-se para trás em sua cadeira inquebrável. Olhou para o guri e perguntou, ainda calmo:

- O senhor casou apenas no civil, ou na igreja também?

- Na igreja também - ele respondeu.

- E entrou mascando chiclete?

- Claro que não - meu cliente respondeu rindo.

- Então por que para se separar está entrando aqui mastigando essa porcaria?

Tranquei o francês, mas estou assistindo a um filme por dia no Festival Varilux em Casa e, também, seguindo o Justin Trudeau (primeiro-ministro do Canadá) no Instagram. Acho o máximo aquele homem lindo, fazendo os pronunciamentos em inglês e depois em francês. E ele fala pausadamente, dá para entender tudinho. Muito bom para treinar o ouvido. O que não dá de entender é como a cegonha me jogou aqui e não no hemisfério norte. Tá decidido! Vou processar essa desgraçada. Deixa estar, que vou pedir um dano moral beeeem alto no JEC, e ela vai se enfiar embaixo da cama tremendo de medo, hahaha!

Descobri outra utilidade para as máscaras. Além de nos protegerem um pouco mais do vírus e camuflar nosso mau humor, elas também servem de disfarce! Pois é. Passei por um parente hoje na rua. Um falso, que sempre me tratou muito bem, mas, na época do inventário da minha avó, descobri que andava falando por aí que a demora era culpa minha. Sim, guardei mágoa. O inventário já acabou faz tempo, graças a Deus, e também não vou fingir modéstia, graças à minha competência e empenho. (...) Hoje o vi na rua. Ele estava mascarado (como sempre) e eu também, mas, no meu caso, por conta da pandemia. (...) Eu sou má!

CLAUDIA TAJES


23 DE MAIO DE 2020
LEANDRO KARNAL

CEM SEM CLARICE

No fim deste ano, se viva estivesse, Clarice Lispector completaria cem anos. Cem anos e estamos sem Clarice. Parei para pensar sobre como ela me atingiu.

No Ensino Médio, tive acesso ao texto A Hora da Estrela. O último romance da escritora foi o meu primeiro contato com ela. Acompanhei Macabéa com o brilho de uma boa descoberta. Porém, confesso, talvez Clarice tenha razão quando pede, em um livro, que os leitores sejam almas já formadas. Gostei da jovem alagoana, compadeci-me de suas privações com a tia fanática, com o namoro ambíguo e a esperança inútil na cartomante. Fui seduzido pela narrativa e, no entanto, volto a dizer, Clarice talvez não seja a autora ideal para alguém de 15 anos.

Anos mais tarde, o estilo introspectivo da ucraniana-brasileira chegou a mim pelo primeiro romance dela: Perto do Coração Selvagem. Clarice mais jovem e eu mais velho foi uma paixão que se adensou. Foi amor de verdade. A memória era de um livro que me fazia perder o sono e eu não parava de ler enquanto comia, para crítica acerba da minha mãe. Joana marcou minha vida como personagem e iluminou cantos da minha alma. Virei um convertido lispectoriano chato que queria emprestar a obra para todo mundo.

Eu não imaginava que o salto seguinte seria o mais espetacular. Já professor, ganhei A Paixão Segundo G.H. Macabéa empalideceu, Joana diminuiu: aquele era, agora, o texto da minha vida toda. Nunca imaginei uma inteligência literária daquele porte. Eu tinha amado muitos autores brasileiros, todavia Clarice ocupava outra prateleira. Não era a beleza da semântica de José de Alencar, a ironia brilhante de Machado de Assis, a brasilidade iconoclasta dos Andrades (Oswald e Mário) ou a identidade regional que eu venerava em Erico Verissimo. Eu tinha tido uma paixão aguda pelos volumes de Eça de Queiroz na biblioteca do meu pai. Todos eram espetaculares e eu os carrego comigo até hoje. O volume d?A Paixão Segundo G.H. eu guardo rabiscado há 30 anos.

O mais dramático é que eu posso dizer com clareza total o motivo de eu achar Vidas Secas de Graciliano Ramos um marco. Também sei o motivo de cultivar sistematicamente a leitura da grande Lygia Fagundes Telles. Hamlet, de W. Shakespeare, foi o livro que li mais vezes na vida. Lembro-me até hoje da primeira vez que conheci o Quixote de Cervantes. Foi uma revolução. Custou-me um pouco mais banhar-me das margens dos rios de Guimarães Rosa, porém, uma vez que mergulhei, saí transformado.

Conservador e católico, fui positivamente chocado por Nelson Rodrigues na juventude. Preciso confessar: nada lido antes se comparou ao furacão provocado pelas reflexões da enigmática G.H. O motivo? Até hoje não tenho certeza, provavelmente apenas eu possa repetir as ideias: "Estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender". Ou: "Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda". Era o que sempre senti e que só agora, pela pena da autora, podia expressar. Era o que sempre temera encarar: como redefinir a vida sem respostas de sistemas externos e acabados, religiosos e filosóficos. Clarice foi fundo no abismo do desespero humano e emergiu com mais densidade do que qualquer outra pessoa no século 20 na língua portuguesa.

Li a biografia dela bem depois. Benjamin Moser fez um trabalho ótimo. Também devorei os contos que ele organizou. Nos pequenos relatos vi, de novo, o brilho genial da mestra da língua. G.H. foi mais adiante: além de brilhante como escrita, é impactante como percepção. Geralmente acho tediosos os fluxos de consciência porque eles despertam uma subjetividade tamanha que só vale para o autor. Clarice parecia uma mulher atormentada. Porém, de forma fascinante, tornou a dor uma alavanca criativa.

Em 10 de dezembro de 2020, ela faria cem anos. Sua vida acompanhou as tragédias do nosso tempo. Antissemitismo, emigração, a memória das guerras, as oscilações políticas no Brasil entre ditaduras e espasmos democráticos. Vi Beth Goulart encarnando a autora no Rio de Janeiro. A semelhança física se tornava notável e o talento da atriz iluminou o gênio da escritora.

Existem bons pintores e existe Diego Velázquez. Existem bons autores e existe Kafka. Existem ótimos autores e existe Clarice Lispector. De onde saem esses meteoros fulgurantes e escassos? Creio que nunca saberemos.

Volto a dizer. Clarice é autora madura para mentes maduras. Ela não atende problemas comezinhos ou seres ainda muito presos ao aqui e agora. Talvez, o maior indicativo para saber se é hora de acessar Clarice seja um pouco da experiência de G.H. no apartamento: o enfrentamento denso e produtivo da solidão. Se você precisa estar sempre com muitas pessoas, se não consegue jantar sozinho ou ir ao cinema só com sua pessoa, creia-me, ainda não é hora de ler Clarice Lispector. Clarice implica vida interior mais elaborada, não exatamente erudição, porém capacidade de enfrentar bem uma noite de sábado tendo a si por espelho e companhia. Não consegue? Não se preocupe, ela esperou um século, pode esperar uns dez anos a mais. Ela aguarda. É preciso ter esperança e é necessária paciência pela hora da sua estrela ficar autônoma para ler G.H.

LEANDRO KARNAL