sábado, 6 de junho de 2020


06 DE JUNHO DE 2020
LEANDRO KARNAL

A HORA DA RETIRADA

Há 80 anos, em junho de 1940, completou-se uma retirada que é tratada como épica pelo Ocidente: Dunquerque. Esse lugar (entre a França e a Bélgica) apresenta um templo católico em meio às areias, de onde deriva o nome: igreja das dunas (dun-kerke).

O maior conflito da história humana teve começo, na Europa, em setembro de 1939. Derrotada a Polônia, as divisões alemãs não pareciam dispostas a bombardear seus inimigos ocidentais. Os meses finais de 1939 e iniciais de 1940 foram de tenebroso silêncio dos canhões a Oeste. O período foi batizado de Guerra de Mentira (em inglês, phoney war; em francês, drôle de guerre). A vida transcorria em Londres, Amsterdã, Bruxelas e Paris como se não existisse um perigo nazista.

Os franceses tinham adotado postura defensiva e confiavam de forma exagerada na sua imensa e custosa Linha Maginot, uma rede de casamatas e concreto, armamentos subterrâneos, depósitos de munições e até hospitais e transporte nas profundezas do solo para enfrentar a guerra que estava na memória dos velhos marechais de Paris: um conflito de trincheiras. Sim, em 1914, a Linha Maginot teria sido poderosa e intransponível. Mas estávamos em 1940. O novo mundo era de aviões e de tanques decisivos. Os ingleses, protegidos pela sua poderosa marinha, deslocaram tropas para a França. O povo das ilhas não sofria uma invasão desde 1066 e isso pode ter aumentado a confiança de Londres. A confiança na tática defensiva foi exagerada.

Quando a guerra de mentira se tornou de verdade, a rapidez da mudança foi assustadora. A região acidentada e com vegetação densa nas fronteiras de França, Bélgica e Luxemburgo era considerada uma barreira natural. Como na Linha Maginot, o alto-comando francês cometeu o erro de supor que seria impossível para os tanques alemães (Panzer) atravessarem o Rio Mosa e as áreas ao redor. Curiosamente, a floresta antiga parece ter dado sorte duas vezes ao exército alemão: nas vitórias de 1940 e na contraofensiva combatendo o avanço aliado, em 1944.

A tática das divisões de tanques passou a incorporar uma mobilidade inédita e assustadora. Os veículos avançavam muitos quilômetros por dia e passaram com relativa facilidade pelas Ardenas. Bélgica, Holanda, Luxemburgo e a fronteira francesa foram atacadas em poucos dias a partir de 10 de maio de 1940. Um pouco antes, o movimento de avanço já tinha atacado Dinamarca e Noruega.

A guerra relâmpago alemã (Blitzkrieg) surpreendeu todos, Hitler inclusive. Líderes de tanques e oficiais tomaram decisões, aparentemente, sem um total controle de Berlim. As divisões francesas e inglesas foram sendo encurraladas em Dunquerque, uma praia aberta e sem defesas naturais. Um soldado francês e brilhante historiador, Marc Bloch, escreveu, depois, a obra A Estranha Derrota (Zahar). Churchill fez uma análise do episódio na sua obra Memórias da Segunda Guerra Mundial (HarperCollins). Os dois autores são excelentes, porém, ambos escreveram após Dunquerque. A distância cronológica ajuda na clareza. Os fatos do momento estão imersos em brumas e sem destino indicado.

Centenas de milhares de soldados apanhados em uma armadilha poderosa. Os ingleses tomaram uma decisão que se revelou sábia: enviar todos os barcos disponíveis (de militares a barcos de pesca e de turismo) para resgatar o máximo de homens do outro lado do Canal. O resultado foi extraordinário: o número de resgatados foi imensamente superior ao esperado. A força aérea alemã poderia ter causado o caos bombardeando a praia e os barcos.

Os ataques foram relativamente leves. Por que a Luftwaffe evitou usar seu poderio? Há várias hipóteses, nenhuma inteiramente satisfatória. Outro dado curioso é que o general alemão (Gerd von Rundstedt) não compartilhava da ideia dos colegas oficiais de ataques relâmpago e preferia construir pontos seguros de retaguarda. Sua tática foi derrotada pelo alto-comando germânico. Ele seria promovido a Marechal de Campo logo em seguida. Premiou-se um militar que, se tivesse feito valer sua estratégia, teria impedido ou retardado o rápido avanço sobre Dunquerque.

Na hora em que a expansão nazista parecia irrefreável, despontou ainda mais a liderança de Winston Churchill. Sempre vale a pena ler seus livros e ver o filme O Destino de uma Nação (Darkest Hour, 2017, direção de Joe Wright). Gary Oldman ganhou Oscar pelo desempenho brilhante como primeiro-ministro britânico. Também é forte ver Dunquerque (Dunkirk, 2017, Christopher Nolan). Acompanhe bons filmes e lembre-se de que o objetivo dos roteiristas e do diretor não é preparar alunos para a prova do Enem. Obras cinematográficas são sobre história, jamais históricas em si. O filme mira na narrativa cativante e nos grandes prêmios e o júri de Oscar nunca foi dominado por historiadores. Se houvesse essa reviravolta, o cinema viraria uma boa fonte historiográfica e o público correria das salas.

Dizendo de outra forma: todo filme é histórico, pois sempre mostra como um determinado momento construiu a memória do passado. Nenhum filme é "fiel" ao que ocorreu. Os cuidados de verossimilhança dos grandes estúdios servem para conferir maior apelo comercial ao produto. Discutir se um filme é baseado em fatos reais é puro preciosismo. O principal argumento é o mercado e a cabeça dos produtores. Cinema pode ser arte e sempre é parte de uma indústria cultural. É preciso manter a esperança e a lucidez.

LEANDRO KARNAL



06 DE JUNHO DE 2020
DRAUZIO VARELLA

O PESADELO

É assim que pode ser descrito o cenário desenhado pelo coronavírus no Brasil. Fui otimista quando ouvi falar da epidemia que se espalhava na região de Wuhan. Em dezembro do ano passado, as notícias eram de que surgira um novo coronavírus, causador de infecção assintomática ou sintomas gripais de curta duração na maioria das pessoas infectadas. A mortalidade ficaria restrita aos mais velhos: chegaria a 14,8% naqueles com mais de 80 anos. Abaixo dos quarenta anos morreriam duas pessoas em cada mil infectadas. Era esse o panorama acessível a quem estava do outro lado do mundo.

Há muito sabemos que os coronavírus são agentes causadores de resfriados comuns. Apenas dois deles estão associados a doenças mais graves, como a sars e a mers, epidemias que emergiram na China, em 2003, e na Arábia Saudita, em 2012, respectivamente, para desaparecer misteriosamente depois de atingir alguns países.

Fui entender a gravidade da covid-19 nos primeiros dias de fevereiro, quando colegas italianos começaram a enviar vídeos que mostravam o inferno instalado nas unidades de terapia intensiva do país. Cientistas de renome e especialistas em saúde pública se enganaram como eu, entre os quais recipientes do Nobel de medicina e o Dr. Anthony Fauci, diretor do Instituo Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas (NIAID), dos EUA, cuja carreira acompanho desde o início da epidemia de aids.

Na verdade, o mundo não foi capaz de avaliar o perigo que vinha da Ásia. A Europa foi pega de surpresa. Os italianos levaram semanas para entender o que se passava, os ingleses também, os suecos mantiveram a população nas ruas, os espanhóis autorizaram uma passeata para comemorar o Dia Internacional da Mulher, que aglomerou 200 mil pessoas no centro de Madrid, justo no dia em que a Itália decretava o isolamento social nas cidades do norte.

Os EUA - que investem em saúde perto de 20% do maior PIB do mundo - assistiram à chegada do coronavírus em Nova York, com hospitais sem leitos suficientes nem máscaras cirúrgicas para atender à demanda dos profissionais de saúde. Para disfarçar a incompetência em adotar medidas antecipatórias, hoje o presidente americano joga a culpa na Organização Mundial da Saúde.

Aqui, logo que o primeiro brasileiro caiu doente, no último dia fevereiro, ficou claro que o vírus já andava longe demais para ser contido. A julgar pelo que acontecera em outros países, era esperado que centros urbanos como São Paulo e Rio de Janeiro se tornassem epicentros da epidemia, mas que a doença chegasse ao mesmo tempo em Manaus, Macapá, Fortaleza e Recife, separadas por milhares de quilômetros, foi surpreendente.

Embora pelo menos 80% dos infectados tenham evolução benigna, aqueles com apresentações mais agressivas que exigem internação em leitos hospitalares e UTIs, provocaram um estresse no sistema, que nem o SUS nem os planos de saúde estavam preparados para suportar. O drama dos hospitais superlotados no norte do país, no Rio de Janeiro, em Fortaleza e em Recife será repetido em outras capitais e em cidades menores à medida que a epidemia se interioriza. Se o vírus viajou da China para cá em três meses, há alguma razão para ficar aprisionado nas cidades grandes?

Décadas de descaso com a Saúde inviabilizaram a agilidade das respostas, para enfrentar o desafio de impedir que o Brasil assuma a humilhante liderança mundial na contagem do número de óbitos, tragédia considerada possível, e até provável, por epidemiologistas respeitados.

No auge da maior crise sanitária dos últimos cem anos, assistimos à inacreditável negação da realidade por parte das autoridades federais, a quem caberia a responsabilidade inalienável de coordenar e dar sentido ao esforço nacional. Inexplicavelmente, o governo se exime até de reconhecer a gravidade do mal que aflige todos, especialmente os que perderam - e ainda perderão - familiares e pessoas queridas.

O Brasil caiu numa armadilha sinistra. Duas trocas de ministros numa fase crucial da disseminação da epidemia mantêm o Ministério da Saúde de mãos atadas há mais de um mês, enquanto o presidente faz o diabo para acabar com o isolamento social e impor um medicamento inútil, com efeitos colaterais eventualmente graves. Por que essa obstinação? Para dar a ilusão de que existe cura para quem contrair a doença nas ruas?

A situação em que estamos não poderia ser imaginada sequer no mais terrível pesadelo.

DRAUZIO VARELLA


06 DE JUNHO DE 2020
MONJA COEN

O CHUCHU

Esta pandemia, este isolamento, realmente está nos tornando diferentes. Vejam o que aconteceu comigo na semana passada. Gosto muito de chuchu. Há quem não goste. Meu pai dizia que não tinha gosto de nada. Era como fosse comer água sólida.

Eu sinto o gosto do chuchu, considero muito agradável. Pode ser apenas cozido no bafo, pode ser passado na manteiga, pode ser com outros alimentos ou purinho.

Havia recebido alguns chuchus e os colocara no altar. Tudo que recebemos ou mesmo compramos, antes de comer ou utilizar, colocamos em um dos altares do templo. Acendemos um incenso, fazemos uma pequena prece e deixamos no altar até que o incenso se queime todo ou até o momento em que decidirmos usar a oferta do altar.

Pois bem, havia alguns chuchus no altar. Decidi fazer uma mistura de chuchu com batatas. Fui até o altar e peguei um dos chuchus. Era grande, de cor verde clara e com pontinhas que espetavam a mão. Mesmo assim, levei-o até a pia da cozinha, coloquei uma tábua de cortar sobre a pia, peguei uma boa faca e parti o chuchu ao meio na vertical.

Surpresa! O chuchu estava prenhe. Havia um feto chuchu ali. Fiquei muito triste e aflita. Procurei remover o feto chuchu o melhor que pude e logo o levei a enterrar com adubo bom, para tentar lhe dar vida.

Voltei a cortar o resto do chuchu e havia mais dois pequeninos fetos. Novamente os removi e enterrei.

Terminei de cortar o chuchu, cortei a batata - tendo cuidado para não pegar alguma batata que estivesse brotando e almocei bem. Ora, parecia tudo resolvido e pronto.

Nessa noite, tive um sonho. No sonho, havia um chuchu verde escuro e dentro dele um chuchuzinho verde bem claro. Os dois pulsavam como se fosse um coração batendo. Ambos vivos e se movendo.

Todos sabemos que tudo é vida e tudo está se transformando. Claro que todos sabemos que todas as formas de vida podem ser alimentos para outras formas de vida. Tudo está em processo contínuo de transformação: nascimento, velhice, morte, nascimento.

Tenho sempre encontrado pessoas vegetarianas e/ou veganas pregando a alimentação sem carnes ou peixes, alguns sem nada que venha da vida animal, nem mesmo mel de abelhas. Só comer vegetais. Alguns só os comem crus. Outros só o que caiu - nem mesmo plantam ou colhem coisa alguma. Entendo!

Quando me lembro do sonho-realidade, ah, como dói! O chuchu vivo. Tudo está vivo. Tudo pulsa. Não sei se poderei comer chuchu novamente.

Os dois outros, que ficaram no altar, lá ficaram por dias. De dentro deles surgiu uma haste verde e resolvi plantar. Talvez, quando surgirem chuchus, a partir dos que eu plantei, talvez eu os vá colher e comer. Será preciso pegá-los bem novinhos, antes de ficarem prenhes de si mesmos.

E, me lembrei dos ensinamentos do professor Mario Sergio Cortella: estamos todos nos autogerando.

Você sabe que você é o resultado de sua autogestação? Que você se constrói e reconstrói a cada dia? Que você se transforma e é transformada por tudo que existe?

Observe em profundidade e faça escolhas adequadas. Somos a vida que pulsa. Respeite a vida, centro da própria vida. Cuidemos! Mãos em prece

MONJA COEN

06 DE JUNHO DE 2020
FRANCISCO MARSHALL

PREVARICADORES

A palavra é muito feia e por isso mesmo combina com seu significado. Em sua origem latina, junta o prefixo prae (antes, diante) com o verbo varico (afastar as pernas) para significar que alguém cambaleia e, por isso, sai da rota e faz algo errado. Nas orações de Cícero (106-43 a.C.), designava o falso acusador, que agia em favor do acusado, contra o interesse público. 

Daí evoluiu nosso conceito de prevaricação, crime descrito no artigo 319 do Código Penal Brasileiro: "Retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal". A pena prevista, de três meses a um ano de detenção, é pouca, perto dos danos causados. De Roma vem essa palavra cambaleante e seu rol de delitos, e aqui se instaura para devastar a República.

O Brasil colonial e imperial cimentou o pacto oligárquico, com arreglos que harmonizam os interesses de pequeno grupo, a oligarquia, contra o povo. A oligarquia vive de ocultar o que importa, seu egoísmo alienado, sua debilidade covarde e despreparo, as verdades da História e os destinos possíveis para sanear-se a nação. Em Os Donos do Poder (1958 e 1975), Raymundo Faoro analisa como se forma e se atualiza nossa oligarquia e como opera o patrimonialismo, a forma com que esta se apropria do Estado. 

O conluio no topo da pirâmide celebra-se tanto em relações sociais, em que se preserva etnia luxuosa, quanto em interesses realizados com zelo estratégico, por meio de privilégios econômicos, anomalias jurídicas, violências e hipocrisia sem limites. Eis como solapa-se a emancipação política, econômica e cultural da nação. Nada disso seria possível sem a ação impune e desavergonhada dos prevaricadores da República, nosso perpétuo estorvo histórico.

Os prevaricadores atuais podem estar na Procuradoria Geral da República e no Congresso Nacional, onde por vezes tenta-se impedir a necessária criminalização de um presidente transgressor. Prevaricadores são agentes do pacto oligárquico, contra o povo, a sobrevivência e o futuro da nação. Travestem de cautela jurídica e política sua decisão de pôr panos quentes em uma crise moral, jurídica, política, cultural, econômica e sanitária sem precedentes. 

Com sua leniência, renovam a farsa da aparente estabilidade em meio a gravíssima crise, enquanto se avança em agressões à democracia, ao meio ambiente, aos direitos humanos e ao trabalho, e no contrabando de reformas iníquas, sem benefício ao povo e à nação. Há muitos crimes de responsabilidade apontados nos pedidos de impeachment que estão no Congresso Nacional e, sobretudo, a diária emanação nociva de um ser indecoroso. Há um cômputo assombroso de mortes vinculadas à irresponsabilidade presidencial. Ampla maioria da população recusa esse pacote de insanidades no núcleo do poder, mas ali estão os prevaricadores, para afastar as pernas diante do poder, acobertar, indultar e servir.

Brasil, pátria dos prevaricadores. Mas estamos de olho. E as cidades têm ruas que inflamam e desejos que podem incendiar o destino.

FRANCISCO MARSHALL


06 DE JUNHO DE 2020
COM A PALAVRA - TODD CHAPMAN, embaixador dos EUA no Brasil, 58 anos

VEMOS NO BRASIL UM ALIADO NATURAL DOS ESTADOS UNIDOS

Diplomata de carreira no governo norte-americano desde os anos 1990, era embaixador no Equador antes de assumir o posto em Brasília, em março.

Maior autoridade do governo Donald Trump no Brasil, o embaixador Todd Chapman exibe no português perfeito sua proximidade com o país no qual morou, em diferentes momentos, por 11 anos. Chegou em 1974, ainda criança, depois que a empresa americana na qual seu pai trabalhava transferiu a família para São Paulo. Antes de ingressar no corpo diplomático, atuou na área financeira em Nova York e na Arábia Saudita e depois, como consultor no Brasil e em sua cidade natal, Houston, no Texas. Trabalhou na embaixada dos EUA em Cabul, no Afeganistão, e em Maputo, Moçambique, além de ocupar postos na Bolívia, na Costa Rica, na Nigéria e em Taiwan. Antes de voltar ao Brasil para assumir o cargo de embaixador no país, trabalhou entre 2011 e 2014 como vice-chefe da missão na representação em Brasília. Nesta entrevista, por videoconferência, fala sobre a crise racial nos EUA, o coronavírus e as perspectivas de alinhamento com o Brasil.

O SENHOR ESTÁ CHEGANDO DE VOLTA AO BRASIL DEPOIS DE SEIS ANOS. QUE MUDANÇAS PERCEBE ENTRE AQUELE PAÍS QUE O SENHOR DEIXOU E PARA O QUAL ESTÁ RETORNANDO?

Há vários períodos na minha vida em que morei no Brasil. Cheguei em 1974, quando tinha 11 anos. Claro, nesse tempo, houve uma transformação radical. Durante esses anos, fui ao Rio Grande do Sul com meus pais, fomos a Gramado, a Porto Alegre por um curto período, na década de 1970, e isso me marcou muito. Pensando entre 2011 e 2014, quando estive em Brasília, foi outro tempo, outro momento político. Lembro do início das manifestações sociais em 2013, na Avenida Paulista (em São Paulo), foi o começo de toda essa questão sobre corrupção. Agora, voltando, é um Brasil diferente, não há dúvidas. Não somente com relação à política, mas também na maneira como a economia está sendo transformada: tem mais Brasil no mundo, mais tecnologia, mais startups aqui, mais agroindústria. Esse é um Brasil bastante diferente, e acho que, para EUA e Brasil, é um momento de oportunidade e de otimismo do que podemos fazer.

O SENHOR É OTIMISTA COM RELAÇÃO A ESTE MOMENTO DAS RELAÇÕES ENTRE OS DOIS PAÍSES. QUANDO O GOVERNO NORTE-AMERICANO OLHA PARA O BRASIL HOJE, QUE IMAGEM VÊ?

Olhando o Brasil, desde Washington, o que vemos: é uma das 10 maiores economias do mundo, uma grande população, um país com uma tradição democrática, um irmão americano e uma força que está avançando nos princípios com os quais compartilhamos. Falo isso muito além da política, pensando nas liberdades de expressão, de imprensa, de associação, da importância do voto, de dizer o que você quer. Esses são princípios básicos fundamentais que existem na tradição dos EUA e do Brasil. 

Então, vemos um aliado natural. É tão bom que agora estamos nos aproximando mais e mais não somente na área política. Olhe os investimentos de empresas brasileiras, inclusive do Rio Grande do Sul, nos EUA. E também, claro, investimentos de décadas de empresas como General Motors, John Deere, no Rio Grande do Sul. Tem essa tradição. Vemos um aliado, mas acho que também vemos uma parceria que não é completamente otimizada. Nós podemos fazer muito mais juntos. Nosso fluxo de comércio é de US$ 105 bilhões. Com o México, é de mais de US$ 600 bilhões. E se trata de uma economia menor, mas com seis vezes mais (fluxo comercial). Por isso, digo que podemos duplicar nosso comércio em cinco anos, se tivermos acordos, entendimentos, essa fluidez de informação, baixando tarifas, regulamentos que restringem o setor privado. Por isso, sim, sou otimista. Mas otimista com razão.

SOBRE A QUESTÃO DA INTERNET 5G, EM ALGUM MOMENTO O BRASIL TERÁ DE DECIDIR SE VAI USAR A TECNOLOGIA DA CHINA OU SE FICARÁ AO LADO DOS EUA. ESSE SERÁ O PONTO DECISIVO PARA A APROXIMAÇÃO DOS DOIS PAÍSES?

Sempre quando seu país está avançando precisa avaliar várias questões: número 1, qual é meu interesse nacional? Um país tem de trabalhar pensando em seus interesses nacionais. Isso é primordial. Número 2: tem de pensar não somente no curto prazo, nos próximos três ou seis meses. É exatamente isso que é importante para o Brasil neste momento. E, nesse tema, como em outros, nós queremos compartilhar não somente nossa tecnologia e experiência, mas também nossa impressão quando observamos que há perigos para um aliado, um país irmão. Temos obrigação, como amigo, de alertar. Não estamos dizendo o que tem de fazer. Não vamos fazer isso, mas compartilhamos nossa preocupação e falamos da consequência. Isso não é ameaça, é para alertar. Um país como a China comunista tem uma lei, que é aberta, todos podem ver, que diz: qualquer empresa é obrigada a entregar toda a informação que passa por ela ao Partido Comunista e ao exército. Se você se preocupa com dados pessoais, sobre seus ativos de saúde, patentes, propriedade intelectual - e o Brasil produz muita propriedade intelectual -, você tem de fazer de tudo para se proteger. Por isso, alertamos. Nós já implementamos 5G com Nokia (finlandesa), com Ericsson (sueca), já há sucesso com essas empresas. E, quando os melhores e mais eficientes mercados e economias do mundo estão chegando a uma conclusão, é necessário prestar atenção. Por que o Japão? Por que a Austrália? Por que a Dinamarca? (Países que não usaram a tecnologia da chinesa Huawei.) Porque é real. Esse não é um assunto comercial. Essas nações têm os mesmos princípios que nós, que amamos a liberdade, a proteção da informação.

O SENHOR COSTUMA DIZER: VOCÊ PODE VENDER PARA QUEM NÃO CONCORDA, MAS NÃO SE VENDER. OS EUA PODEM RETALIAR O BRASIL SE CONTINUAR VENDENDO SOJA PARA A CHINA? O BRASIL PODE TER COMÉRCIO COM A CHINA E SEGUIR SE RELACIONANDO BEM COM OS EUA?

É claro que sim, porque nós vendemos mais para a China do que o Brasil vende. Vocês vão ter problemas conosco porque vedemos para a China? Posso fazer essa pergunta a você. Não. Não é o caso. Quem são os maiores produtores de soja? EUA e Brasil. Ótimo, fantástico, juntos podemos alimentar o mundo. É isso o que queremos fazer, com nossa tecnologia, com nossas empresas. Há brasileiros com grandes investimentos na agricultura na Flórida e em outras partes dos EUA. E aqui, quem são os maiores exportadores de soja? Cargill, Bunge, ADM, empresas norte-americanas. A cadeia de produção dos produtos agrícolas é integrada, e isso é fantástico. Vamos continuar com isso. Vamos alimentar o mundo juntos, porque somos os melhores do mundo.

FALANDO DE ESTADOS UNIDOS, O SENHOR ADMITE QUE A QUESTÃO RACIAL É UM PROBLEMA HISTÓRICO NÃO RESOLVIDO?

A sociedade norte-americana é multirracial, multiétnica. Somos um país de imigrantes que vieram legalmente aos EUA para recomeçar suas vidas desde Europa, Japão, desde muitos lugares. Há conflitos sociais. Não se pode negar isso. Mas estamos evoluindo como sociedade. A maneira como meus pais viram os temas do movimento de direitos civis, na década de 1950, é muito diferente de hoje. Estamos evoluindo, isso é importante. Mas ainda temos muito a fazer. Lamentavelmente, ainda há preconceito racial, que existe em muitas pessoas. 

Temos de, por meio da educação, do conhecimento, seguir evoluindo. Lembro que, quando morei na Filadélfia, cheguei a uma nova cidade, subúrbio da cidade, tinha 10 anos. Eu e outro menino, éramos os dois novos na região. Eu era branco como todos os outros, e ele era negro. Como acontece muitas vezes, os dois novos vão juntos. Ele foi meu melhor amigo em 1971, 1972. Pedi para minha mãe: "Posso levá-lo a minha casa?". "Sim, pode." Cheguei, brincamos de tudo. Adoro minha mãe, agora ela esta no céu, mas lembro que ela perguntou para mim: "Por que você não me contou que ele era negro?". Eu não pensei nisso. Mas olha a diferença de 1972 a 2020. Hoje isso seria diferente. Tem uma evolução nos entendimentos. Somos um país que continua a construir entendimentos e uma sociedade multirracial, sempre diminuindo os preconceitos. 

Vamos continuar trabalhando nisso. O ato pelo qual passou George Floyd é repugnante, é completamente um abuso, não só de direitos humanos, mas um ato criminoso, que agora será processado nos EUA. Mas também a morte de David Dorn, policial de 77 anos de Saint Louis, que foi morto, depois de mais de 30 anos como policial, agora aposentado, por alguns criminosos que estavam se aproveitando da situação para roubar lojas. Também é repugnante. Temos muito o que trabalhar nos EUA, e vamos continuar trabalhando. Ao mesmo tempo, como país multirracial, o Brasil também tem seus desafios na área. Temos todos de unir nossas forças para combater isso.

DESEMPREGO, PANDEMIA E VIOLÊNCIA NAS RUAS: OS EUA ESTÃO EM CRISE?

Eu diria que estamos passando por um momento difícil. Isso ninguém pode negar. Economicamente, está batendo fortemente. Mas, ao mesmo tempo, tenho muita confiança em nossa economia, a maior do mundo, capaz de se recuperar rapidamente. Como já estamos vendo, nossa bolsa de valores está subindo de novo. Tem um otimismo crescente de que nossa retomada econômica vai ser rápida. Acho que antes do final do ano vamos ver coisas voltando fortemente. Tenho muita confiança na solidez econômica, no espírito de empreendedorismo. Tanto dinheiro que estamos colocando em nossa economia, trilhões de dólares, como o Brasil, para sustentá-la durante este tempo de dificuldades, vai facilitar muito a recuperação da economia. Isso vai acontecer.

JAIR BOLSONARO E DONALD TRUMP TÊM ALGUMAS CARACTERÍSTICAS EM COMUM, ENTRE ELAS A BRIGA CONSTANTE COM A IMPRENSA. O SENHOR ESTÁ HÁ 30 ANOS NO SERVIÇO PÚBLICO E SABE A QUALIDADE DE JORNAIS COMO WASHINGTON POST E THE NEW YORK TIMES. ESSAS BRIGAS DO GOVERNO NÃO PREJUDICAM A DEMOCRACIA E A LIBERDADE DE IMPRENSA?

Acho muito importante ter uma conversa ativa, aberta e constante com a imprensa. Porque, se falo com você tomando um café, estou falando com um brasileiro. Se falo com você como jornalista, falando com todo o Rio Grande do Sul, estou falando com milhões de pessoas. É importante essa via de comunicação para poder ter esse diálogo. Mas, como funcionário público que já foi mal representado (pela imprensa) às vezes, vou dizer com toda a sinceridade: muitas vezes, jornalistas têm uma agenda que vai muito além de simplesmente reportar o que está dizendo a fonte. Existe frustração e, às vezes, essa frustração cresce. 

Eu entendo. Mas vamos continuar com a importância de preservar a liberdade de imprensa, mesmo criticando a mim, ao meu governo, o que seja. É uma liberdade bastante importante. Mas também tenho o direito de responder. E vou responder. E agora há muito mais canais pelos quais se comunicar. Algumas pessoas são mais agressivas, outras, menos, todos têm seu jeito, mas o importante é que o canal está aberto. O presidente Trump está dando mais acesso à imprensa do que qualquer outro presidente que já vi. Ele faz conferências de imprensa que duram mais de uma hora.

ELE GOSTA DE APARECER NAS CÂMERAS.

É bom ter mais acesso, mas está tendo problemas. Depende da personalidade, do jeito, da estratégia das pessoas. Estou tendo muita abertura com a imprensa. Estou sendo criticado, alguém não vai gostar do que digo. Tudo bem. Mas também vou preservar meu direito de responder. E acho que isso é importante. E talvez estejamos vendo que há mais abertura para responder diretamente quando se está sendo mal representado.

POR QUE, NA SUA OPINIÃO, OS EUA SÃO HOJE O PAÍS MAIS ATINGIDO PELO CORONAVÍRUS? O GOVERNO FALHOU NA RESPOSTA OU PODERIA TER FEITO MAIS PARA CONTER A PANDEMIA?

Somos referência mundial com nosso Centro de Controle e Prevenção de Doenças. Temos os melhores pesquisadores. Também temos uma das maiores populações do mundo. Mas o controle de doenças, de vírus, de pandemias, depende da informação científica, de um trabalho em conjunto, internacional, para controlar o vírus. E, lamentavelmente, dias e horas são importantes. Se você não conhece a informação correta no momento correto, você tem problemas. 

E, lamentavelmente, o vírus saiu de Wuhan, da China. Todo esse esforço da China comunista cria dúvida. O vírus não foi controlado dentro de Wuhan e da China. E, mesmo dois meses depois, a OMS (Organização Mundial da Saúde) disse, em meados de janeiro, não ter evidência de transmissão de pessoa para pessoa. Era uma informação completamente errada. E isso causou muitos danos. Quando você vive em uma sociedade aberta e livre é mais difícil controlar a população. Se eu chego em sua casa, com chave, e eu o tranco, você não pode sair, como fizeram em outros países autoritários. Você vai reclamar. Você tem o direito de sair de sua casa. Há diferenças em como se pode tratar pandemia em países democráticos e autoritários. 

Mas também se pode ver a Nova Zelândia, o Japão, a Coreia do Sul: eles tiveram mais sucesso, com maneiras diferentes de lidar com o problema. Essa é uma doença que ainda não entendemos totalmente. Todos estão trabalhando com o máximo possível de esforços para encontrar uma vacina. Há vários países que estão em fases avançadas de testagem. Estamos cooperando com o Brasil. Cada morte é lamentável. Mas vamos continuar trabalhando até o fim para que isso esteja sob controle.

COMO O SENHOR IMAGINA QUE SERÁ O MUNDO PÓS-PANDEMIA? O SENHOR ACREDITA QUE POSSA HAVER DESGLOBALIZAÇÃO E, POR EXEMPLO, RISCO DE EMPRESAS AMERICANAS DO BRASIL EM GERAL E DO RIO GRANDE DO SUL EM PARTICULAR SAÍREM DAQUI?

Acho que vamos ter mais atenção à reciprocidade nas relações entre os países, porque alguns não estão trabalhando de maneira recíproca. Vamos ver países como o nosso analisando de novo a cadeia de produção e onde estão as vulnerabilidades. Descobrimos, com essa pandemia, que há uma dependência de produtos de vários países. Quem sabia que uma máscara seria um item de segurança nacional? Agora, sabemos. 

É de interesse nacional produzir isso com países amigáveis, que não vão usar a saúde pública como uma arma, como fez a China comunista, dizendo "vamos deixar os EUA mergulhar no mar do coronavírus". O que é isso? Não vamos deixar isso acontecer de novo. Vamos selecionar nossos parceiros com muita atenção. Por isso, é uma oportunidade para o Brasil, porque muitas empresas vão sair da China comunista. O Japão já tem programa para isso. Muitos países têm, devido aos seus interesses nacionais e econômicos. Para onde vão? Muitos vão voltar para os EUA, muito bom. 

Mas essa é uma oportunidade de ouro para o Brasil, um país já bastante industrial, que já exporta muito, que tem muito para crescer industrialmente. Por isso, acho que podemos duplicar nosso comércio em cinco anos. Não é que vão sair do Rio Grande do Sul, minha opinião, de jeito nenhum. Eles vão ver: onde é um lugar excelente para produzir no Brasil? Onde tem empresas como Dell, GM, General Motors, John Deere, HP, esses grandes nomes dos EUA, empresas que têm uma contribuição no Brasil há décadas. O sul do país é muito competitivo. Então, acho que esse é um momento de oportunidade. Temos todos de trabalhar nesse sentido para aproveitar o momento, aumentar nosso comércio e criar as condições, com acordos e entendimentos, para crescermos economicamente juntos, como aliados que somos.

RODRIGO LOPES


06 DE JUNHO DE 2020
INFÂNCIA

O DESENVOLVIMENTO NO CONFINAMENTO

HÁ ESPAÇO PARA APRENDIZAGEM QUANDO NOSSOS FILHOS ESTÃO TENTANDO DIGERIR AS INDIGESTAS RESTRIÇÕES DO DISTANCIAMENTO SOCIAL?

As aulas da Educação Infantil foram suspensas em março. Com as crianças em casa e o acúmulo de atividades, surgem muitas dúvidas quanto às possibilidades que se têm de estimulação no ambiente familiar. Nem sempre os estudos domiciliares são exequíveis com crianças pequenas. É possível não haver prejuízos neste cenário?

Estamos vivendo um período sem precedentes. A cada dia, novos desafios e questionamentos. Ainda não é tangível o retorno às escolas. Cenários estão sendo estudados e há espera por mais conhecimento de como a covid-19 se comportará em nossa cidade. Enquanto isso, as crianças seguem aguardando em casa, respeitando o distanciamento social.

O progresso da aprendizagem na primeira infância se dá através de amplas experiências. O corpo, os movimentos, o convívio e as vivências tornam o espaço educacional uma experiência completa. Assim sendo, o desenvolvimento nesta etapa não significa a aprendizagem de conteúdos.

Como reproduzir, em casa, este estímulo? Pais vêm se esforçando, incansavelmente, buscando incentivar seus filhos para as videoaulas. Nem sempre o esforço resulta em saldo positivo, e muito mal-estar pode ser criado nestas tentativas.

Antes do coronavírus, havia uma grande mobilização da Sociedade Brasileira de Pediatria orientando a restrição às telas para crianças pequenas. Hoje, temos as aulas justamente pelas telas. É a possibilidade que temos no momento, mas é inegável que estamos "tateando".

A pandemia provocou muitas perdas para a sociedade. Há famílias ansiosas diante da possibilidade de perder empregos - ou mesmo já tendo de lidar com o desemprego. Há o distanciamento de familiares queridos. A impossibilidade de ir e vir. Crianças privadas do convívio com seus pares. O clima angustiante ronda as casas. Há espaço para aprendizagem quando as crianças estão tentando digerir as indigestas restrições às quais temos que observar? A insistência em realizar as tarefas escolares pode ser prejudicial aos pequenos?

Este não é um artigo de respostas. As certezas andam em falta. Porém, quando estuda-se sobre desenvolvimento infantil, é inegável que a tranquilidade das crianças possibilita a elas desbravar e aprender. Então, não seria momento de trabalharmos em prol de bem-estar emocional?

Se por um lado temos a privação do coletivo, nunca as crianças conviveram tanto em família. Este pode ser um grande ganho: pais desenvolvendo novas formas de se relacionar com seus filhos, tendo mais intimidade. Aproveitar este momento e deixar as crianças usufruírem do seu espaço, brincando, explorando e criando, pode ser a melhor saída. Ficar fixado nas perdas pode ter repercussões muito danosas, como ansiedade e tristeza.

Ainda que não saibamos como a pandemia ficará registrada na criançada, estar atento aos limites que os pequenos assinalam e impedir prejuízos emocionais é um passo acertado. Se estiverem em harmonia, o convívio em família será combustível para os pequenos enquanto esperamos a reabertura das escolas. Aguardemos brincando!

*Psicóloga - DÉBORA LAKS*

06 DE JUNHO DE 2020
J.J. CAMARGO

VERGONHA DE SENTIR MEDO

Uma mudança de estado de espírito não virá por decreto governamental. "O homem corajoso experimenta a morte apenas uma vez, enquanto os covardes morrem muito, antes de morrer." (Shakespeare, em Júlio César)

"Provisoriamente não cantaremos o amor, que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos. Cantaremos o medo que esteriliza os abraços." (Carlos Drummond de Andrade)

Se viver é um estado de permanente descoberta, nestes tempos medonhos descobrimo-nos medrosos de um jeito que não precisava ser tanto. E ninguém acredita quando tentamos convencer que este tremor é só por causa do frio, que acabou de chegar. Agradecemos que as máscaras escondam nossas caras de medo, mas sabemos o quanto os olhos são delatores.

Temerosos de que os tempos do abraço não voltem mais, nos tornamos equilibristas nas escadas rolantes da vida, por puro medo do corrimão, tocado sabe-se lá por quantas mãos que, graças a Deus, estamos proibidos de apertar. Pelo menos até isso tudo passar, se é que um dia passará. E torcemos que o elevador não venha carregado para não termos que improvisar aquela cara de desculpe, eu não vou subir agora, obrigado. E quando o elevador finalmente chega vazio, ficamos rezando que nenhum inconveniente decida interromper a marcha até o nosso andar. E por garantia não respiramos durante o trajeto, porque a televisão avisou que, em ambientes confinados, o vírus pode ficar flutuando durante muito tempo.

E, na fila do caixa, ficamos irritados com a quantidade de gente que não tem noção do que seja uma distância de dois metros, pô!

E aceleramos o passo para aproveitar a brecha da porta automática, para passar sem tocar nessa promíscua que, despudoradamente, se permite apalpar por mãos devassas que deixam suas maçanetas carregadas de vírus.

Temos medo da rua e de receber um descuidado que venha de lá. Tememos o inverno que sempre traz uma gripe que pode se parecer com aquilo que nem queremos falar o nome. E não confessamos o medo que a primavera ainda nos encontre com esta cara de susto. E desconfiamos do vento, esse dissimulado que pode estar trazendo pra perto o que queremos bem longe.

Morremos de medo de adoecer porque, com a pouca sorte dos últimos tempos, como saber se a roleta chinesa do destino não vai nos colocar entre aqueles 5% que morrerão? Não suportamos mais as imagens fúnebres dos noticiários, com aqueles especialistas em dar notícia ruim com ar de indiferença. Mesmo que lá pelas tantas um deles aparente emoção com a tragédia, nosso preconceito só verá fingimento.

Depois de um tempo, nem sabemos se mais tememos contaminar ou ser contaminados, e então misturamos o medo surreal da doença com a tristeza verdadeira da solidão.

Dando a cada um o direito de assumir ou dissimular seu temor, estamos, de certa forma, todos inscritos no Congresso Internacional do Medo, uma das mais lindas poesias de Drummond, que termina assim: "Temos medo da morte, e medo do depois morte. E depois morreremos de medo. E sobre os nossos túmulos, crescerão flores amarelas. E medrosas".

E assim, dia após dia, de parágrafo em parágrafo, vamos plantando a desesperança que só servirá para azedar o trajeto, porque a única certeza que até o pessimista tem é que sairemos dessa. E se isso é inevitável, que tal começarmos a nos preparar para rir, no futuro, desse medo que hoje nos amordaça, atormenta e ridiculariza?

Esta mudança de estado de espírito não virá por decreto governamental. Então, melhor que cada um assuma a sua cota na resignação ao medo que nos envergonha, vista o paletó esperança e anime-se. Se faltar estímulo, lembre-se: depressão abaixa a imunidade e anima o vírus.

J.J. CAMARGO


06 DE JUNHO DE 2020
DAVID COIMBRA

Por que os poetas eram cegos?

Bernard Shaw estava dando uma palestra e um estudante lhe perguntou se era verdade que Homero não havia escrito a Ilíada e a Odisseia. Shaw ergueu uma sobrancelha e respondeu: - É verdade. Não foi Homero quem escreveu a Ilíada e a Odisseia. Quem escreveu foi um homem que também se chamava Homero e que viveu na mesma época que ele. 

Eis uma resposta perfeita para dar a esses historiadores que querem tirar o homem da história do homem. Eles procuram uma trama sem protagonistas, eles acreditam que tudo que acontece aconteceria de qualquer forma, mesmo que os personagens envolvidos no enredo não fizessem o que fizeram. É uma espécie de determinismo socioeconômico, quase que uma crença no Destino, em Tupã, em Tutátis ou no Cavalo Celeste.

Para eles, Cleópatra era feia, Jesus não existiu e Shakespeare não era um, era muitos. Para eles, não há quem cometa façanhas, apenas há façanhas.

Uns chatolas. Mas há que se admitir: é verdade que Homero não escreveu a Ilíada e a Odisseia. Porque ele era cego, registrava os poemas não em um livro, mas na memória, e saía pelas cidades da Grécia a recitá-los e a encantar toda a gente.

Antes de Homero, houve outro poeta que, de tão famoso, misturou-se com a mitologia. Chamava-se Tamiris e cantava como uma Elis. Certa feita, tornou-se campeão de canto nos jogos gregos e ficou todo exibido. Saiu pela cidade dizendo que cantava melhor do que as Musas. Não foi uma boa ideia. As Musas se enfureceram com a concorrência e o cegaram. Ao contrário de Homero, Tamiris abateu-se com a cegueira, atirou a lira em um rio e nunca mais cantou.

Outros poetas gregos daquela época também se mesclaram com a lenda, como, por exemplo: Dáfnis, que era cego; Teiresias, que, aliás, era cego; e Estesicoro, que, inclusive, era cego.

Por Santa Luzia, por que os poetas gregos eram cegos? Ciumeira das Musas, como aconteceu com Tamiris? Ou alguma doença da época, como dizem que acometeu Homero?

Há historiadores que afirmam que não foi nada disso. Os poetas gregos não eram cegos, eles ficaram cegos. Os reis das pólis gregas gostavam tanto deles que os queriam manter presos a seus reinos. Assim, para que os poetas não pudessem gozar de independência e sair lépidos pelas ilhas gregas, agradando a outros reis com seus belos cantos, os monarcas mandavam os esbirros lhes arrancar os olhos.

É a lógica do passarinho na gaiola: os bonitos são aprisionados, os feios podem voar em liberdade.

Mandatários que cobiçam, invejam ou temem o talento alheio são perigosos. No entanto, se o governante é bom, ele se cerca dos melhores. E os ouve. E pondera sobre o que dizem. Mas, se é inseguro, tenta destruir os que parecem melhores do que ele.

Bolsonaro, ao ver Mandetta crescer na crise do coronavírus, enciumou-se de sua popularidade e o repeliu. O país perdeu a orientação que tinha para combater a pandemia, e o resultado foi trágico: agora, morre um brasileiro por minuto devido à covid-19. Enquanto isso, o ministro da Saúde é interino, as ações do ministério são erráticas e o presidente da República estimula aglomerações, contrariando orientações de cientistas do mundo todo.

Por que Bolsonaro não usufruiu do bom trabalho do seu auxiliar, em vez de sabotá-lo e, assim, sabotar a própria administração?

A resposta é óbvia: é porque Mandetta, como Tamiris, estava cantando melhor do que ele. Bolsonaro, temendo a concorrência de Mandetta, tentou arrancar-lhe os olhos. De certa forma, conseguiu. Mas acabou deixando o país em um rumo cego. Um morto por minuto. É um massacre. É uma guerra. E o governo não vê.

DAVID COIMBRA

06 DE JUNHO DE 2020
FLÁVIO TAVARES

E DEPOIS?


O inesperado (ou o futuro) está em tudo, até em dobrar a esquina e ver o que ainda não havíamos visto. Assim, este 5 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente, tornou-se em 2020 uma data de angustiosa tristeza.

A covid-19 mostrou a fragilidade humana e, após extinta (sim, esse dia virá!), teremos de nos preparar para uma avalanche ainda mais destrutiva, mas anunciada, há muito, pela ciência - o horror das mudanças climáticas.

A falsa visão de progresso que a sociedade de consumo implantou (em que o dióxido de carbono nos afoga e a cobiça destrói a obra divina da Criação) leva a reivindicar mais hospitais e medicamentos, como na pandemia atual. Não vemos, porém, as causas profundas da tragédia que surge como sina da nossa estupidez.

Neste 5 de junho, a Vigília Climática pela Vida e pela Saúde do Planeta, auspiciada no Rio Grande pelo arcebispo dom Jaime Spengler e pelas ONGs 350 e Ayara, nos fez entender o alerta do papa Francisco na encíclica Laudato Si?, de 2015.

Às 20h, acendi uma vela na janela, como muitos mais, em sinal de respeito à vida no planeta. Foi um gesto simbólico, mas de rebeldia ao desdém com que tratamos a origem das "mudanças climáticas". Todos temos culpa no desastre anunciado, não só governantes demagogos ou empresários cobiçosos. Aceitar que os fósseis (como o carvão mineral) degradem a vida é crime em si.

O Papa frisa, sempre, que o desastroso pecado ecológico arrasa "o lar comum". Em junho de 2015, a encíclica de Francisco despontou como documento inigualável para entender o desvario humano na avaliação do que seja "progresso". Ele não se dirigiu apenas aos católicos, mas à humanidade inteira e, assim, juntou as igrejas luteranas tradicionais e ramos do judaísmo na defesa da obra da Criação.

A Organização Mundial da Saúde, o secretário- geral da ONU e as pesquisas da ciência alertam para "a brutalidade" das mudanças climáticas, mas as reuniões governamentais tentam apenas mitigar o horror, sem tocar na causa profunda - o desvario hedonista da sociedade de consumo.

No Brasil, sequer há planos para "após a Covid-19". Os fanáticos adeptos do presidente da República dedicam-se mais a estimular o caos (pedindo fecharem-se os tribunais) do que a pensar no que a pandemia agravou.

O alerta do ministro do Supremo Tribunal Celso de Mello apontou nossas semelhanças com a Alemanha de 1933, quando Hitler subiu ao poder pelo voto. A visão histórica não afeta a imparcialidade do decano do STF, pois ninguém - menos ainda um juiz - pode ser neutro face ao crime.

Numa caricatura de si próprio, Bolsonaro desfila a cavalo entre seus adeptos, como um Napoleão tropical. O que virá depois?

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

06 DE JUNHO DE 2020
PATRIMÔNIO HISTÓRICO

O que prevê a concessão do Mercado

A prefeitura de Porto Alegre detalhou, na sexta-feira, o edital de concessão do Mercado Público. A gestão do tradicional ponto de comércio da Capital será cedida à iniciativa privada pelos próximos 25 anos. Em uma transmissão pelas redes sociais, o Executivo municipal detalhou algumas regras do certame. Entre elas, está a garantia da continuidade, por quatro anos, dos atuais permissionários.

- Depois desse período, os permissionários passarão a ser locatários e irão negociar diretamente com a concessionária. Mas eles terão cláusula muito forte de preferência. Qualquer proposta de terceiros poderá ser coberta pelo atual locatário - informou o secretário de Parcerias Estratégicas da Capital, Thiago Ribeiro.

A nova concessionária terá de realizar reformas no espaço. Estão previstas melhorias na drenagem de águas, nos sanitários e na fachada do prédio. Além disso, o Mercado Público deverá contar com sistema de monitoramento com câmeras interligadas a uma central da prefeitura. O novo gestor terá de executar todas as obras sem a necessidade de fechamento do local.

Em outubro do ano passado, o Executivo recebeu sugestões para o projeto de concessão. Uma audiência pública reuniu cerca de 200 pessoas no Auditório Araújo Vianna - entre eles, representantes de religiões com matrizes africanas. Eles solicitaram a garantia do acesso ao assentamento Bará, na área central do andar térreo. No edital, estão liberadas as manifestações religiosas populares de caráter cultural e sem fins lucrativos.

Propostas

A prefeitura informou ainda que não será permitida a comercialização de vestuários, calçados, eletrônicos, móveis e utilidades domésticas, que não estão na linha atual de produtos oferecidos.

Conforme o edital, o valor total em investimentos diretos e operacionais será de R$ 85,9 milhões. A outorga minima inicial será de R$ 17,8 milhões - R$ 11 milhões menor do que havia sido proposto em consulta pública. A redução, segundo a prefeitura, se fez necessária devido à covid-19.

- Fizemos revisão total do modelo devido aos efeitos da pandemia, com menos possibilidade de aglomeração, que reduziu o potencial do negócio - justificou Ribeiro.

A prefeitura começa a receber propostas a partir de 31 de julho e prevê a assinatura com vencedor no quarto trimestre.

EDUARDO PINZON

06 DE JUNHO DE 2020
RBS BRASÍLIA

Sem protagonismo nem transparência

Além de ter perdido protagonismo, o Ministério da Saúde resolveu abrir mão da transparência. Esse é o recado que o ministro interino, general Eduardo Pazuello, passa quando atrasa a divulgação dos números do coronavírus no país para driblar a audiência dos principais telejornais.

Se dependesse do Palácio do Planalto, essa medida teria sido adotada há mais tempo. No entanto, em sua época, o ministro Luiz Henrique Mandetta fazia questão de manter a rotina que ele mesmo implantou, das divulgações no final da tarde. O começo da estratégia de enfrentamento foi marcado pela revelação sistemática de números e tabelas, acompanhada pela explicação de técnicos. Mas, por mais de uma vez, o próprio presidente da República questionou os dados.

Na sequência ensaiada, apoiadores de Jair Bolsonaro nas redes sociais passaram a levantar dúvidas sobre o número de mortos pela covid-19 por ignorância ou má fé. Afinal, qualquer secretário de Saúde ou cientista que acompanha a evolução da pandemia reconhece o risco das subnotificações.

Militarizada, a atual equipe da Saúde resolveu puxar o freio e fez a vontade do presidente. Estratégia que chamou atenção até do Supremo Tribunal Federal. O ministro Gilmar Mendes fez questão de lembrar que, na pandemia, a divulgação de dados deve estar aberta ao público, aos gestores e à imprensa de forma consistente e ordenada.

A tática do avestruz, de enfiar a cabeça no chão, não transfere ou elimina a responsabilidade do presidente da República. Mas atrapalha quem quer fazer o que é certo.

CAROLINA BAHIA

06 DE JUNHO DE 2020
RODRIGO CONSTANTINO

Jogo sujo

É perfeitamente legítimo não gostar do presidente ou de seu governo. Cada um tem sua visão de mundo, alguém pode achar que o estilo de Bolsonaro é terrível, ou discordar da agenda de reformas. É parte do jogo democrático.

O que não é parte do jogo é flertar com todo tipo de instrumento golpista para derrubar um governo de que não gosta. Dilma, vamos lembrar, não sofreu golpe, mas sim um impeachment após o PT destruir o Brasil, milhões tomarem as ruas de forma pacífica para protestar, e das pedaladas fiscais.

O que tentam fazer com Bolsonaro não tem nada a ver com isso. É buscar uma vitória no "tapetão" após derrota nas urnas. O presidente desconfia de um complô contra ele e tem todos os motivos do mundo para tanto. É inegável que parece haver um movimento orquestrado para retirá-lo do poder.

Duvida? Então vejamos: como pode alguém achar normal um ministro do STF tocar um inquérito que envolve o presidente, quem ele considera uma espécie de Hitler? Que tal o outro inquérito, sobre fake news, relatado por Alexandre de Moraes, totalmente irregular e que manda a Polícia Federal na casa de apoiadores do presidente sem qualquer fundamento legal, e ainda impede seus advogados de terem acesso aos processos?

Não bastasse o que vem de um Supremo que é vergonha nacional, temos agora a mídia flertando até com terroristas da Antifa ou com marginais das torcidas organizadas, chamando-os de "democratas" só para inflar arruaças nas ruas em plena pandemia, pois podem enfraquecer o governo.

Até o comedido vice-presidente Mourão perdeu a paciência e lembrou que baderneiros são caso de polícia, não de política, além de alertar que democracia não se defende com faces mascaradas, roupas negras e barras de ferro. Mourão alfinetou ainda os "sessentões nas redações", que resolveram voltar aos seus anos dourados de agitação estudantil. No ponto!

O que fica claro é que a turma derrotada nas eleições tenta esticar a corda ao máximo, na esperança de que o "fascismo imaginário" se torne real. É feio e perigoso. É um jogo muito sujo. Democratas de verdade aceitam o resultado das urnas!

RODRIGO CONSTANTINO


06 DE JUNHO DE 2020
INFORME ESPECIAL

UFRGS muda eleições para reitor

Maior universidade gaúcha, a UFRGS escolherá o seu novo reitor através de uma eleição virtual. A decisão mantém o calendário da instituição e, ao mesmo tempo, contempla a necessidade de evitar deslocamentos e aglomerações em tempos de pandemia.

Uma comissão foi nomeada para definir prazos e outros detalhes da eleição, que deve estar concluída até 20 de julho.

A definição dos novos nomes da reitoria da UFRGS começa com uma consulta à comunidade, composta por professores, alunos e técnicos. O resultado é enviado ao Conselho Universitário, que elabora uma lista tríplice submetida ao presidente da República, a quem cabe a escolha final e a nomeação até 20 de setembro, quando termina o mandato do atual reitor, Rui Oppermann.

Seguradoras de veículos economizam R$500 milhões em abril

A retração do movimento nas ruas, imposta pela pandemia, teve um impacto significativo no mercado de seguros. As informações são do site da Superintendência de Seguros Privados - SUSEP, compiladas e analisadas pela consultoria gaúcha Mirador Atuarial. A tabela apresenta o volume de sinistros ocorridos no país em abril de 2020, comparando com o mesmo mês do ano passado.

Em um dos segmentos mais relevantes, o de automóveis, a queda da circulação dos veículos, dos acidentes, dos furtos e dos roubos levou a uma redução de 30% no volume de sinistros. Houve queda em outros setores. "A pandemia alterou o comportamento das pessoas, afetando a dinâmica dos riscos assumidos pelas seguradoras", analisa o consultor Sérgio Rangel, da Mirador Atuarial. Confira os números:

TULIO MILMAN

06 DE JUNHO DE 2020
CARTA DA EDITORA

Jornalismo na essência

Jornalista, na sua essência, deve ser um obstinado. É curioso, não se contenta com a superficialidade, destrincha números para entender o que está abordando, precisa sempre ter um olhar próprio para compreender a real dimensão de um fato. Desde que passamos a enfrentar a pandemia do coronavírus, a repórter Larissa Roso - uma profissional que segue à risca essa obstinação - procura trazer em suas reportagens um olhar que vai além de estatísticas e projeções.

Formada em Jornalismo pela PUCRS, mestre em Medicina pela Faculdade de Medicina da UFRGS e há 22 anos em ZH, Lari, como é chamada pelos colegas, tem conseguido traduzir como poucos o que tem se passado nos hospitais da Capital e os sentimentos dos profissionais que diariamente estão sendo desafiados por uma doença ainda cercada de mistérios.

Desde o início, Lari tinha em mente que em algum momento chegaria a hora de conhecer de perto a realidade das áreas mais sensíveis desta pandemia: as unidades ou centros de tratamento intensivo (UTIs e CTIs). Após fazer análise minuciosa do cenário de cada hospital e abrir negociação para que pudesse entrar numa dessas unidades, na sexta-feira, 29 de maio, ela e o fotógrafo Jefferson Botega conseguiram acompanhar a rotina do CTI do Hospital Conceição. Seguindo os rigorosos protocolos, vivenciaram durante uma manhã a tensa rotina de médicos, enfermeiros e pacientes.

- Vi ao vivo o que significam os números da pandemia, cada vez mais assustadores no Brasil. Mostrar o que se passa e o que se ouve ao redor do leito de um paciente em estado grave ou gravíssimo talvez sensibilize quem ainda não entendeu a dimensão arrasadora do que estamos vivendo - afirma Lari.

Desde 1996 na RBS e acostumado a grandes coberturas nacionais e internacionais, Jefferson Botega, o Jeff, relata ter tido uma experiência única na sua carreira.

- Entrar em um CTI que concentra grande número de infectados para ser os olhos da sociedade foi uma das experiências mais marcantes que já tive em minha profissão e na minha vida - conta Jeff, que precisou, por questões de segurança sanitária, tirar a barba que cultivava havia mais de década.

A reportagem pode ser conferida no caderno DOC. Os textos e fotos, além de vídeo, também estão em GaúchaZH.

Boa leitura.

DIONE KUHN

sábado, 30 de maio de 2020



30 DE MAIO DE 2020
LYA LUFT

Esperanças

(Aqui respondo ao pedido especial de alguém que ainda não conseguiu meu livro As Coisas Humanas, que aguarda livrarias abertas, portanto sendo comprado online.)

Não vou falar de cidade, Estado, continente, nem mesmo planeta.

Pois esses, eu sei, são terra de seus habitantes, por sorte e azar deles. Falo desta terra interior, e da vida, que pouco se controla. Que nos surpreende tão lindamente às vezes, e em outras com uma patada mortal, o trator existencial passando por cima da gente - e fim de uma alegria, uma felicidade, uma luz, uma pessoa amada. (Ou uma trágica pandemia destruindo boa parte do mundo que conhecíamos.)

Mas gosto de pensar neles, de curtir esses presentes positivos que o destino nos traz. Como quando abro a janela e diante de mim, um luxo que não me pertence e que só curto do meu apartamento: um parque bem cuidado com vários jacarandás. Em outras épocas, paineiras em flor parecem um sorvete de morango se derramando sobre as outras árvores mais baixas (sim, gulosa desde criança).Ou alguém me diz, inesperadamente, encantadoramente: "Tu és uma vó muito divertida!", e isso me ilumina um dia inteiro. Ou cai da agenda um poema que alguém me escreveu há décadas, e ainda vale. Valeu mesmo que essa pessoa tenha sumido, morrido, ou esteja logo ali e tenha esquecido o poema.

Ou num aeroporto estrangeiro, uma brasileira toque meu ombro para perguntar se eu sou eu, sorrir, abraçar e dizer uma porção de coisas boas sobre meus livros. Espantando assim meu desconforto com aviões e aeroportos. Fazendo eu me sentir em casa, mesmo quase do outro lado do mundo.

Mas não somos terra de ninguém na medida em que coisas boas nos habitam: projetos ou sonhos, realizações ou desejos, pessoas, memórias, experiências inesquecíveis, livros, filmes, não faz mal. Somos terra povoada por muita coisa: que seja boa, que seja bela, que nos ajude.

Pois viver pode ser interessante, instigante, mas em algumas fases cansa, e como. Cansa abrir os olhos interiores antes de descerrar as pálpebras e dar-se conta: mais um dia. Ter um artigo para escrever, contas a pagar (até isso é a vida!) e livros para ler, muitos e bons. E a casinha da serra nos esperando, com flores, bugios, singulares borboletas de um azul muito pálido e vizinhas e amigas -, e quando quero, quietude maravilhosa olhando as árvores, que digo minhas porque a vida me presenteou com elas e acho que me protegem.

Enfim, o jeito é bancar o guerreiro e não entregar os pontos, pensando que não há só desgraça e discórdia, e quem sabe vamos todos nos abraçar, e rir, e relevar todos os mal-entendidos e brigas que, acreditem, não valem a pena. (Grande ilusão da minha infância.)

Pois o bom é poder ser território de amores, amizades, desejos, trabalhos, conquistas e mesmo fracassos, mas estando aqui, estando vivos - ah, e, apesar de tudo, curtindo as esperanças.

LYA LUFT


30 DE MAIO DE 2020
MARTHA MEDEIROS

Boletim de ocorrência

22 de maio de 2020, 17h06min. Estava desde o início da manhã em frente ao computador tentando escrever um novo texto, mas não conseguia digitar uma única palavra. Alegar falta de assunto, impossível. Não dá para dizer que o mundo anda um tédio, tudo indica que o apocalipse se avizinha, e os terrores são sortidos, basta conferir os sites de notícias, jornais, telejornais. Então o que estaria acontecendo que eu não conseguia me manifestar sobre nada? Foi quando me dei conta de que havia sido vítima de estelionato: a inspiração foi apenas a primeira falta que percebi, mas o butim era bem maior.

Levaram também minha inocência. Fico envergonhada de admitir, mas eu ainda tinha alguma. Não dá para se entregar às evidências o tempo inteiro, a gente acaba ficando cínica em relação à vida. Eu tinha um restinho de inocência no bolso, para alguma emergência. Ela me fazia pensar: vá que não sejam tão dementes, vá que prestem para alguma coisa. Naquela tarde, vi que meu bolso estava vazio.

Além da inspiração e da inocência, passaram a mão no meu discernimento. Já não sei o que é bom ou ruim pra mim. Cheguei a fantasiar uma ruptura. Abandonar as redes sociais, vender meu apartamento e meu carro, desistir de ser colunista, me mudar para um local distante e viver para a leitura, as caminhadas e as visitas dos amigos. Aí concluí: seria uma involução. Sei que já não sou garota, mas desistir desse jeito? 

Ainda há projetos a realizar e é importante me manter ativa na profissão que escolhi. No segundo seguinte, concluí o oposto: seria uma evolução. Cultivar a paz de espírito longe do caos urbano, se distanciar da toxidez da política, me alimentar melhor, ouvir música, falar menos: é preciso ficar velha pra isso? Continuo sem resposta.

Eis a razão deste B.O. que discrimina minhas perdas. Não sei bem a quem acusar. O capitalismo? O fascismo? O comunismo?

Gostaria que um inquérito fosse aberto e, se possível, reaver o que me foi tirado. Não é pouco. Eu vivia melhor. Eu era mais alegre. Reconhecia os problemas do Brasil, mas ainda gostava de morar aqui. E também achava que seria feliz morando em certas cidades do mundo. Agora nenhum lugar me parece ideal - a não ser a tal casa isolada em algum ponto distante: fantasias resistem a qualquer vírus.

A idiotice e a ignorância assumiram a chefia e ninguém parece interessado em me ressarcir da ausência de algo belo em que continuar acreditando. Meus olhos estão secando com a luz azul dos celulares. As pessoas andam desiludidas e com medo de apertarem-se as mãos. Os teatros estão vazios. E ninguém mais conversa sobre o amor. Faltava mais nada, roubarem também meu romantismo.

MARTHA MEDEIROS



30 DE MAIO DE 2020
CLAUDIA TAJES

Pequenas narrativas para a graça. E a desgraça

Além de ler, assistir a lives, garimpar podcasts, grudar na TV, trabalhar de casa e em casa, muitos andam se encontrando com seus talentos adormecidos nesses dias - e noites - de reclusão. O que tem de gente postando fotos de suas obras, sejam desenhos, pinturas, vestidos, um canteiro novo para as plantas, uma música, um jeito diferente de arrumar a sala, um bolo, um bordado, um corte novo de cabelo. É como se, finalmente, o "eu" que nunca pôde se mostrar ganhasse uma chance para existir. Ou procuramos as boas coisas, ou estamos fritos.

Campeã no quesito botar para fora, a escrita acaba sendo não só a arte mais exercitada, como a mais maltratada. Anos e anos da linguagem tosca e cheia de abreviações da internet deixaram sequelas em bilhetes de amor, redações escolares e e-mails de apresentação. Haja leitura para reverter isso. E salve as oficinas de escrita, refúgio para a alma e as ideias de amadores - nos dois sentidos, de quem não é profissional e de quem ama escrever.

Sempre no espírito das boas recomendações para aproveitar em casa, hoje a coluna indica a recém-criada Oficina de Pequeníssimas Narrativas de um dos maiores talentos da literatura, Cíntia Moscovich. Escritora, jornalista, patrona da Feira do Livro, colunista aqui da Zero Hora. Sete livros publicados e muitos prêmios na estante, entre eles um Portugal Telecom e um Jabuti. Mais não digo porque os parágrafos são poucos.

Até a pandemia, as oficinas da Cíntia aconteciam na casa azul cheia de lembranças e plantas dividida com o marido Luiz Paulo Faccioli, também escritor, a cusca Esperança e os gatos. A Oficina de Pequeníssimas Narrativas é, como ela define, "Um laboratório online que promete levar os alunos ao universo do micro e do miniconto: formas breves, superbreves e megabreves que voltaram a ter apelo máximo com a pandemia e a necessidade urgente de comunicação enxuta, diversão saudável e humor inteligente." Sem exigir mais que a vontade de seus pupilos, Cíntia terá a participação de autores representativos do miniconto em suas novas aulas online. Entre eles, estão Marcelino Freire e José Roberto Torero.

Experiência não falta para a autora que teve no escritor Luís Antônio de Assis Brasil seu grande exemplo. "Eu comecei com o Assis em 95, na Oficina de Criação. Ele me incentivou a fazer o pós e o mestrado na área de criação literária e me incentivou, acima de tudo, a seguir carreira como escritora. Quando eu me dei conta de que era uma loucura trabalhar com ideias num meio retrógrado e reacionário, o Assis me colocou nos eixos. Ele sempre acreditou mais em mim do que eu."

Como se sabe, não se vive de literatura no Brasil. Aliás, na nossa atual situação, apenas viver já está de bom tamanho. Foi quando o Assis deu o segundo grande conselho para Cíntia: que ela ensinasse a escrever. "Dar aula significa também refletir sobre a escrita, é uma possibilidade de estar junto do que a gente ama. Dar aula é estar perto do material do meu trabalho. Eu preciso e gosto. Gente é coisa muito boa."

Desde então, a Oficina do Subtexto da Cíntia já formou várias turmas e publicou quatro coletâneas com os textos produzidos em aula. "O que eu mais gosto é quando os alunos ganham o mundo e lançam livros individuais. E uma coisa: não vivo sem rir. Oficineiro meu tem que rir e se acostumar com barbaridades!".

Nos momentos de graça e quando a vida pesar: escreva. Não passa, mas alivia de um jeito que vou te contar.

Serviço: Oficina de Pequeníssimas Narrativas com Cíntia Moscovich. A partir do dia 17 de junho, todas as quartas, às 18h30min. Informações: oficinasubtexto@gmail.com.

CLAUDIA TAJES