sábado, 13 de junho de 2020



13 DE JUNHO DE 2020
COM A PALAVRA

"VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE SOLIDÃO"

Foram os 25 anos como professor que levaram o filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé a produzir um livro no qual defende a ideia de que estamos em uma "era da ansiedade". O contato com os jovens (e com os pais deles) reforçou progressivamente a impressão de que gerações atuais vivem problemas cada vez mais acentuados como narcisismo, solidão e uma sensação crescente de incompletude, em um cenário que culmina com esse mal contra o qual, como ele próprio diz, "não há solução".

Coordenador do curso de Comunicação Social da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), autor de mais de uma dezena de obras sobre filosofia, amor, felicidade e ressentimento, entre outros temas, ele trabalhou no texto de Você É Ansioso? Reflexões Contra o Medo desde antes da pandemia do coronavírus. Aproveitou a quarentena - que potencializa a ansiedade - para finalizar o livro. E reforçar a reflexão diante do "desafio extra" representado pelo isolamento social. A seguir, analisa a midiatização da covid-19, lembra de quando era estudante de Medicina, critica os profissionais de coaching e pondera sobre realização pessoal e a obsessão das pessoas pela felicidade - um ponto fundamental, defende, para entender a era atual.

O SENHOR ASSOCIA A ANSIEDADE À DIFICULDADE DE ENCONTRAR SENTIDO PARA A VIDA DAÍ A CITAÇÃO INICIAL AO CLÁSSICO LITERÁRIO O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO, ÍCONE DE UM NIILISMO CONTEMPORÂNEO QUE PERPASSA VÁRIAS GERAÇÕES NAS ÚLTIMAS DÉCADAS. O QUE TEM FEITO ESSAS GERAÇÕES NÃO ENCONTRAREM SENTIDO PARA A VIDA?

A humanidade pensa sobre isso há muito tempo, mas de fato os estudos se fortaleceram no século 19 com obras como as de Kierkegaard, Schopenhauer e Nietzsche. Esses filósofos e outros posteriores - o que inclui Bauman - direcionam seu pensamento para a sensação de que o mundo voltado só para a produção e para a eficácia não satisfaz o ser humano. Um dos fatores que reforçam essa sensação é o de que as pessoas se sentem pressionadas pelo sucesso, o que gera a ansiedade. Quanto mais veloz e exigente o mundo vai ficando, mais ele te cobra, deixando claro que, se você não for produtivo o tempo todo, vai ficar obsoleto. Isso já está acontecendo há algum tempo. Do ponto de vista histórico, a ansiedade contemporânea seria fruto de uma ruptura com um momento em que as coisas estavam no seu devido lugar e, devido à aceleração da vida, as pessoas começaram a ser forçadas a fazer movimentos, sempre mais e cada vez mais enlouquecidos, levando-as, no fim das contas, para lugar nenhum.

TRAUMAS COLETIVOS COMO UMA PANDEMIA NÃO AJUDAM A ENCONTRAR O SENTIDO EVENTUALMENTE PERDIDO?

Não escrevi Você É Ansioso? na pandemia ou sobre a pandemia, quero deixar claro. Eu já vinha trabalhando nele desde antes. Acertei com a editora que produziria um livro sobre ansiedade no ano passado. Apenas finalizei o texto no isolamento, mais rapidamente do que estava previsto, inclusive, mas quero ressaltar que a questão da ansiedade é anterior. A quarentena potencializa essa sensação, traz um cenário propício para acentuar o problema, mas não cria um cenário novo, não. Agora, tem o seguinte. Não sei se estamos diante de um trauma coletivo tão grande. Por mais que a pandemia esteja o tempo todo no noticiário e nos afete, sua mortalidade não é alta. A gripe espanhola (1918-1920) e a grande peste da Idade Média (1346-1353) ceifaram muito mais vidas. O que o coronavírus tem é uma mídia muito grande. É a pandemia mais famosa da história da humanidade, isso sim. Poderia ganhar um Oscar de protagonista entre as pandemias que a humanidade já viu.

O FATO DE SE FALAR MAIS SOBRE O PROBLEMA NÃO POTENCIALIZA O IMPACTO DESSE PROBLEMA?

Acho que se trata de um trauma, sim. Mas a tendência da espécie é superar esse tipo de coisa rapidamente. Imagina quantos de nós já pararam para ficar pensando sobre a gripe espanhola, sobre as vidas ceifadas por ela. Antes de chegar o coronavírus, ninguém dava mais bola para a gripe espanhola, e isso há décadas, há gerações. Pouco depois daquele trauma, o povo já estava vivendo loucamente sem maiores preocupações sanitárias. Os anos 1920 foram loucos, inclusive, the crazy twenties, como se diz. Se olharmos historicamente, fica comprovado que as grandes epidemias têm impacto na gestão pública, no campo econômico, na organização da força de trabalho, na ciência e tecnologia. Do ponto de vista moral, elas não nos mudaram em nada. Se quisermos encontrar alguma mudança nesse sentido, será negativa: as pessoas ficaram mais desconfiadas, egoístas e agressivas. E as relações profissionais, mais exploratórias. É, inclusive, o que acho que vai acontecer agora: os ricos ficarão mais ricos, os pobres, mais pobres, e a classe média, mais pobre. O que vamos mudar dentro de nós pode ser consequência disso.

HÁ QUEM ACREDITE QUE PODEREMOS FICAR MENOS INDIVIDUALISTAS. O SENHOR NÃO CONCORDA, PELO JEITO.

Não mesmo. Já andei lendo por aí. Tem um povo "chiquinho", metido a inteligente, que está dizendo que a humanidade vai sair dando valor ao que é essencial. Pelo amor de Deus. Como é que alguém inteligente pode cair nessa? Não há dado histórico que embase esse tipo de raciocínio. Pode acontecer um milagre, aí sim. A pandemia de fato está tendo impacto, mas na política, na economia, no trabalho. Você fica muito tempo trancado em casa, de repente não sabe mais se vai continuar tendo emprego, descobre que não conhecia tão bem a pessoa que vive com você, o convívio com filhos pequenos vira um tormento. A vida pode colapsar, sim. Há todo um ecossistema, para usar um termo da moda, que é impactado. Mas acho que nosso aprendizado com isso virá em campos como o da tecnologia, que vai evoluir pressionada pela falta de respostas imediatas na saúde, por exemplo. Moralmente? Não há indicativo de que vamos aprender coisa alguma.

NO SEU LIVRO, HÁ UMA LONGA LISTA, QUE INCLUI MAIS ACESSO À INFORMAÇÃO, MAIOR LONGEVIDADE, MELHOR MEDICINA, TUDO NOS AJUDANDO A EVOLUIR, PORÉM, INDICANDO O QUANTO AINDA HÁ DE INCOMPLETUDE NA VIDA. É UM PARADOXO, QUE ESTÁ PRESENTE HÁ MUITO TEMPO NO PENSAMENTO OCIDENTAL FREUD, CITADO PELO SENHOR, ESCREVEU QUE, QUANTO MAIS CONHECIMENTO, MAIOR PODE SER A PARANOIA. O QUE FAZ A ERA ATUAL DIFERENTE?

Olha, é difícil comparar nossa ansiedade atual com a de uma pessoa indo para Auschwitz. Por isso inclusive faço um reparo metodológico no início do livro. Uso a expressão "era da ansiedade", mas deixando claro que há essa impossibilidade de comparação com outras eras. Baseio-me em coisas concretas para falar do tempo presente: há muita solidão entre os idosos, consumo acentuado de medicamentos por parte de jovens, entre outros fatores que levam a constatar que há uma situação psicológica precária da população. E a pressão do sucesso está ligada a isso. O sucesso parece que nunca é suficiente; quanto mais sucesso, mais vontade de sucesso. A eficácia parece obrigar a ser ainda mais eficaz. E isso vai delineando uma ansiedade muito própria da atualidade, uma ansiedade que é moldada pelo progresso, pelo avanço da sociedade. Quanto mais você vive, mais ansioso você fica na tentativa de encontrar sentido para a vida. Além disso, há outro fator: a humanidade não está acostumada a viver tanto tempo. Isso também é importante no panorama do avanço da depressão. Vivemos bastante, e ao longo da vida vamos cada vez mais nos aprofundando nesse jogo que envolve a pressão pelo sucesso. Vamos nos isolando. Nós vivemos uma epidemia de solidão. Pessoas de várias idades e gerações estão sendo afetadas. Um exemplo real de agora, da pandemia: o quanto cada um de nós já leu e descobriu coisas sobre imunização, medicamentos, sintomas da covid-19. É tanta informação especializada disponível. E não há solução para o vírus, apesar disso. Tem gente que absorveu tanta informação que acha que, se respirar na rua, vai morrer. Até as maçãs são inimigas - é preciso lavá-las com Pinho Sol, segundo se lê por aí, para livrá-las do vírus. Imagina o nível de ansiedade.

QUAL A SOLUÇÃO PARA FICAR MENOS ANSIOSO?

Em primeiro lugar, ler menos essas bobagens como a do Pinho Sol. Mas não há solução, não há fórmula. Temos de encarar do jeito que dá - com elegância, de preferência, como defendo no fim do livro. A ansiedade está inscrita no laço social. Não ter ambições de popularidade, não perseguir o sucesso incansavelmente ajuda a não ser tão ansioso. O livro é de sociologia da ansiedade, aborda a questão a partir de marcos como a desestruturação política e as redes sociais e como tudo isso nos afeta. Esses marcos estão aí. Vai da nossa capacidade de resistir à fúria do desejo de querer mais, que hoje nos estimula o tempo todo. Ou seja, ser elegante. Na pandemia fica mais difícil, porque, para enfrentá-la, você teria de ter construído ativos anteriores: estrutura financeira, possibilidade de trabalhar remotamente, harmonia em casa, relações menos alienadas. Sem isso, a ansiedade é despertada, tem mais estímulos. Há um desafio extra.

LER MENOS BOBAGENS É UM PRIMEIRO PASSO, ENTÃO.

Ler menos, eu diria. Eliminar todos os vídeos infernais de redes sociais, além de desconsiderar as recomendações que preveem cura e prevenção milagrosas para o vírus. Ter como fonte de informação o que nos é transmitido pela mídia mais profissional, ainda que essa mídia esteja nos deixando em pânico diariamente... A mídia é o seguinte. Ela tem como principal função nos informar, então é natural que, em uma pandemia como essa, nos bombardeie com entrevistas com epidemiologistas, nos apresente estudos de médicos e cientistas, e isso o tempo todo. E como a gente, que é leigo nesse campo, reage diante de uma pessoa superespecializada e cheia desses repertórios? Fica com medo. Pode observar: quando um médico fala sobre saúde, quem não é médico fica com medo. Tenho uma história sobre isso. Eu estudei Medicina. Casei quando estava na faculdade. Sempre que saía para jantar com minha mulher, quando começava a falar sobre questões dessa área, procedimentos que via, rotina de pronto-socorro, ela desmaiava. Aconteceu várias vezes. Até que, num belo dia, nos demos conta. E parei de contar. Ela não desmaiou mais.

A ALIENAÇÃO NEM SEMPRE É O MELHOR CAMINHO.

A mídia fica em uma saia justa, de fato. Ela tem de informar. Ao mesmo tempo, sabe que o receptor é mórbido. Ele fica com medo, mas se interessa. O sujeito vive na merda e, quando vê que todos estão na mesma merda, ele sente um certo conforto: não é só a vida dele que é assim. Você conhece gente mais feliz do que hipocondríaco? Tenho um amigo hipocondríaco que está radiante agora: posta selfie de máscara, fica combinando roupa, está toda hora com álcool gel. Está curtindo o atual momento.

O SENHOR CITA MUITO OS PROFISSIONAIS DE COACHING NO LIVRO. CLASSIFICA-OS COMO UM FATOR ANSIOGÊNICO PORQUE VENDEM UM PRODUTO FALSO. O QUE ACHA DESSA ATIVIDADE QUE SE TORNOU UM MARCO DOS ÚLTIMOS TEMPOS?

O coaching gera ansiedade, ao contrário do que promete. Você vai para o coaching para ser assertivo e ter prosperidade, mas, na maioria dos casos, não alcança isso. O que vai acontecer com você? Fica mais ansioso. Imagina, vender sucesso hoje em dia. Qualquer pessoa que faz isso está fadado a entregar fracasso. Obter sucesso dificilmente é possível a partir de metodologias tão rasas e fórmulas tão prontas, aplicáveis a tanta gente.

O SENHOR ESCREVE QUE OS JOVENS SÃO MAIS ANSIOSOS E ARRISCARIA DIZER QUE A ESPERANÇA DE FUTURO ESTÁ NOS MAIS VELHOS. GERAÇÕES ATUAIS LIDAM MAL COM AS DIFICULDADES?

Sim, acho que sim. Essa frase eu ouvi de um jovem em uma aula. Dou aula na graduação há 25 anos. Fui vendo um processo de fragilização acontecer. Hoje os jovens não conseguem nem fazer avaliação oral. Têm dor de barriga. Passei a vida inteira fazendo prova oral e tive de parar há dois anos, porque alunos caíam no chão de medo. É sério. E não é só a minha experiência. Há literatura especializada sobre isso. Tem gente que diz, cheia de orgulho, "meu filho está estudando em Barcelona, ele é ótimo". Pode ser, mas provavelmente ele está deprimido em Barcelona. A frase que você cita na pergunta tem um efeito, um peso retórico, justamente para ressaltar isso: se depender dos jovens, com sua ansiedade e insegurança, com sua dificuldade de manter vínculos e diante de um mercado de trabalho difícil, que exige mais do que eles podem dar e recompensa menos do que deveria financeiramente, o futuro será difícil. Os jovens, hoje, são filhos únicos, por isso convivem mais com adultos e tendem a ser solitários, frequentam escolas piores, não assumem responsabilidades familiares. Se a esperança for os jovens, ela está comprometida.

MAS DEPOIS O SENHOR AFIRMA QUE VIVEMOS UMA EPIDEMIA DE IMATURIDADE NOS ADULTOS.

São esses jovens se tornando adultos. Eles já se tornaram. Esse diagnóstico vem desde pelo menos 1979, com o livro A Cultura do Narcisismo, de Christopher Lash (antropólogo norte-americano). Ele aponta que o narcisismo virou uma epidemia, e uma de suas consequências é a dificuldade de assumir responsabilidades. Todo mundo quer ser adolescente a vida inteira. Há 40 anos já era possível identificar isso. Imagina de lá para cá. Esse processo vem se intensificando, ainda mais nas famílias de classes mais altas, que só têm um único filho. Imagina a carga sobre esse filho! Os pais, hoje, vão à universidade reclamar que o filho tirou nota baixa. Isso não acontece mais apenas nos níveis inferiores de ensino. Sob certo aspecto, a universidade virou um jardim de infância. Isso está gerando estudos, livros. Lembro de dois, bem recentes, ainda sem tradução: The Coddling of the American Mind (algo como "o mimar da mente norte-americana"), de Jonathan Haidt e Greg Lukianoff, e What Happened to the University? ("o que houve com a universidade?"), de Frank Furedi. Ambos analisam o que acontece com as universidades sob essa perspectiva, abordando a pressão dos pais sobre professores que não dão notas boas aos seus filhos.

O SENHOR ESCREVE, CITANDO ZYGMUNT BAUMAN, QUE OS AFETOS ESTÃO EM PROCESSO DE DISSOLUÇÃO, INDICANDO SER UMA CONSEQUÊNCIA DO FATO DE AS CRIANÇAS SEREM MUITO MIMADAS. É TUDO ISSO MESMO?

Sim. Quando você mima muito uma pessoa, querendo fazer com que tenha uma autoestima alta, ela tende a sofrer um grande impacto quando vai para o mundo e recebe uma voadora na testa. É isso que o mundo faz conosco, mesmo, o mundo é uma máquina de tortura, nosso desafio é estar preparado para isso - o que não acontece quando somos mimados. Ficamos frágeis, despreparados. A educação virou uma usina de autoestima. A pedagogia atual é legitimar o que as crianças sentem, o tempo todo. Resultado: ao tomar a voadora do mundo, a criança crescida não confia mais em ninguém. Virou um adulto narcísico, que só olha para o próprio umbigo, achando que a obrigação do mundo é amá-lo. E o segredo dos afetos é você ser capaz de amar o outro para além de si próprio.

FILHOS ÚNICOS E CRIANÇAS MIMADAS EXISTEM MAIS NAS CLASSES MÉDIA E ALTA. ISSO NÃO SE APLICA EXATAMENTE AOS DESFAVORECIDOS, CERTO?

Certo. Meu raciocínio - assim como o próprio livro - é voltado para a classe média, daí para cima. Inclusive porque é onde estão as pessoas que leem esse tipo de publicação. É claro que a ansiedade existe também na pobreza. Mas, nesse caso, você está tão paralisado pela falta de perspectiva que entra no subemprego, ou no crime, ou na gravidez precoce, e aí você tem outros problemas mais urgentes. O fenômeno que descrevo é fruto do enriquecimento, da evolução a partir do enriquecimento.

JOVENS MAIS POBRES TAMBÉM SONHAM EM TER CELULAR, VIAJAR ETC.

Sim, mas precisar produzir sua vida material, porque você não ganhou isso de ninguém, muda o cenário. Vou contar uma coisa. Escrevi uma coluna para a Folha de S.Paulo, uns anos atrás, intitulada Sociologia Selvagem do Metrô, na qual fiz uma analogia com as cores das linhas paulistanas: disse que, dos jovens da linha verde, que passa por zonas mais nobres, não deveria se esperar nada, porque não passavam, grosso modo, de uns molengas; e que a esperança estava naqueles que andavam nas linhas azul e vermelha, que passam por zonas mais pobres. Logo depois que o texto foi publicado, quatro adolescentes vieram até mim em um evento e se apresentaram assim: "Nós somos da linha azul". Bem orgulhosos. Na linha verde estão os jovens que acham que vão mudar o mundo com sua alimentação vegana. Mas eles sequer sabem o preço das coisas. É claro que ser como os jovens mais ricos é algo a que os mais pobres aspiram. Mas a formação é outra, o comportamento é outro, as preocupações são outras.

NO FIM DAS CONTAS, ONDE RESIDE A ESPERANÇA NA ERA DA ANSIEDADE?

Onde a gente seja menos pretensioso com a realização pessoal. Eu disse antes que não há fórmula, mas dá para eu ser bem sintético: é só querer ser menos feliz. Não ser obsessivo com a felicidade. Qualquer reflexão a sério sobre felicidade feita nos últimos 2.500 anos sabe que essa busca tem de ser feita com uma dosagem ponderada e equilibrada. Querer o máximo de felicidade, sempre, só pode nos levar a problemas.

COMO FICOU A SUA ANSIEDADE NESTE PERÍODO DE PANDEMIA?

Olha, continuo trabalhando bastante, o que ajuda. Minha ansiedade, na quarentena, está associada à vontade de que ela acabe, porque gosto da vida real, do encontro com os outros. Trabalhar remotamente tem muitas limitações.

DANIEL FEIX


13 DE JUNHO DE 2020
DRAUZIO VARELLA

PROTESTOS E CORONAVÍRUS

Vivemos num mundo dominado pelas imagens. A do policial branco esmagando com o joelho o pescoço do rapaz negro de mãos atadas veio tão carregada de significados que desencadeou protestos nos Estados Unidos e em outras partes do mundo.

Na cena terrível, o ar de superioridade do policial com a mão esquerda no bolso, enquanto esganava o rapaz que tinha dado uma nota falsa de U$ 20 numa loja, fez reviver os horrores dos séculos de escravidão em que foram mantidas as pessoas de pele negra, nas Américas, e o preconceito contra elas que ainda persiste. Não é difícil entender a explosão de revolta que se espalhou pelo país inteiro.

Em diversas cidades, multidões de mulheres e homens brancos aderiram às manifestações, em passeatas diárias que duram uma semana, no momento em que escrevo, sem dar sinais de que terminarão nos próximos dias.

Não poderia haver hora pior para quebrar o confinamento social nos Estados Unidos que, depois de ultrapassar a barreira das 100 mil mortes por covid-19, esperavam a redução do número de casos e a possibilidade de relaxar as medidas de restrição à mobilidade urbana.

Por mais justos que sejam os protestos, no entanto, as consequências não se farão esperar: em duas ou três semanas haverá aumento do número de mortes no país. O coronavírus se aproveita dos agrupamentos e das gotículas liberadas ao falar, sem levar em conta a justiça das reivindicações político-sociais de seres humanos.

Em entrevista à Medpage Today, o professor Amesh Adalja, porta-voz da Sociedade Americana de Doenças Infecciosas, chama a atenção para o fato de que nas passeatas muitas pessoas não usam máscara, ficam mais próximas, conversam umas com as outras, gritam palavras de ordem e cantam, atividades que aumentam o número de gotículas formadoras de aerossóis infectados e colocam em risco as demais.

Está bem documentado o caso de uma cerimônia religiosa, na cidade de Washington, em que 53 dos 61 participantes de um ensaio do coro da igreja foram infectados por um único cantor com sintomas da covid-19. O doutor Adalja ressalta o fato de que até a repressão policial colabora para a disseminação do vírus, uma vez que as bombas de gás lacrimogênio e os sprays de pimenta provocam correria, tosse e processos inflamatórios nos olhos e nas mucosas das vias aéreas, que facilitam a transmissão de viroses respiratórias. Os que entram em contato com os poluentes e a matéria particulada dispersa pelo fogo ateado por manifestantes radicais, podem desenvolver uma síndrome pulmonar aguda que também aumenta o risco de infecções virais, como ocorreu por ocasião do ataque às torres gêmeas.

No Brasil, as aglomerações em apoio ao presidente, que se repetem todo fim de semana desde o início da epidemia, bem como as passeatas organizadas por manifestantes opositores, no domingo passado, embora reúnam muito menos gente do que os protestos dos americanos, acontecem em péssima hora. Em São Paulo, Rio de Janeiro e em outras capitais o número de mortes tem aumentado todos os dias e sobrecarregado o sistema de saúde que chega ao colapso em várias cidades.

Quando os especialistas e os gestores falam em colapso, muitos não compreendem a extensão de seu significado. Colapso significa a ocupação de todos os leitos hospitalares, das unidades de pronto-atendimento, das equipes de saúde na linha de frente e de todos os recursos disponíveis para o atendimento de novos pacientes, estejam eles infectados pelo coronavírus ou não. Colapso, quer dizer que doentes com infarto, AVC, crises de asma, apendicite, hemorragias perderão a vida sem receber cuidados mínimos, sejam crianças, jovens ou velhos.

Essas razões têm feito os governos agir com extrema cautela ao afrouxar o isolamento. Portugal, exemplo de país que conseguiu conter a epidemia ao adotar medidas precoces de isolamento, que foram respeitadas pela população, já estava na terceira e última fase do desconfinamento quando foi obrigado a recuar por causa do aumento do número de casos na região de Lisboa.

Não há o que contestar, a relação é inversa: diminuem os níveis de isolamento, aumentam as mortes. Criar discursos políticos para ir contra essa realidade é negar a experiência mundial e as mais sólidas evidências científicas. É má intenção ou burrice, mesmo.

DRAUZIO VARELLA


13 DE JUNHO DE 2020
BRUNA LOMBARDI

A CIÊNCIA DA FELICIDADE

Falar sobre felicidade nesses tempos conturbados pode parecer alienação. Como é possível alguém ser feliz com tanto conflito e confronto no mundo? Diariamente somos atingidos por uma avalanche de notícias ruins, o panorama parece dominado pelo horror. No noticiário, predomina o lado terrível da humanidade justamente porque nosso instinto de sobrevivência presta atenção imediata ao que nos expõe a qualquer perigo.

A situação alarmante do mundo cria medo, que se desdobra em pânico, ódio, raiva, ansiedade, estresse, depressão e outras distorções. O resultado é que isso tudo nos intoxica, mina nosso sistema, nos adoece e envenena.

A felicidade não é uma alienação diante disso tudo. A felicidade é o antídoto. É a grande subversão.

Cada um de nós pode ser um agente de transformação. De si mesmo e da sua realidade.

Nossa força, resistência, resiliência começa dentro de nós. Nossa aventura se inicia descobrindo quem somos. O autoconhecimento é a nossa melhor jornada.

O conceito de ser feliz mudou inúmeras vezes através dos tempos. Só recentemente a felicidade passou a ser estudada como ciência. A Ciência da Felicidade se refere a um novo campo social: a Psicologia Positiva.

Descobrimos como funciona nosso cérebro, a raiz das emoções, nossa capacidade de adaptação, flexibilidade, empatia, violência, moral e outros sentimentos que definem a nossa vida.

Confundimos felicidade com satisfação imediata, recompensa momentânea. Unir nossa escuridão e nossa luz e focar no nosso propósito é compreender que nossos opostos são fundamentais e podemos transformar experiências negativas em vivências positivas.

A neuroplasticidade mostra que somos capazes de remodelar e modificar nossas redes neurais, conforme a interpretação do que vivenciamos. Se podemos reorganizar e até mesmo criar novos circuitos neuronais, temos o poder de controlar nossas compulsões, reeducar nossos impulsos, dominar comportamentos obsessivos e limpar a mente de pensamentos negativos.

Como dormir bem sem medicação nesse mundo tarja preta? Como repensar e transformar nossa realidade, nosso corpo, espírito e mente? Como ter paz no meio do caos em que vivemos? Como enfrentar com serenidade os problemas e crises que se apresentam?

Felicidade tem sido um dos temas que me acompanham. Nos meus filmes, livros, redes sociais, no meu canal no YouTube, na Rede Felicidade, no Clube Felicidade e nas minhas palestras mostro as ferramentas que temos para melhorar nossa qualidade de vida.

A meditação e o silêncio são instrumentos poderosos nessa busca. Aprendemos a escutar nossa voz interior, a ter consciência e atenção plena sobre o nosso ser.

É simples falar de Mindfulness no Butão, meditar nas montanhas do Nepal. O desafio é conseguir conciliar tudo isso com a loucura estressante das grandes metrópoles.

Melville disse que a ignorância é a mãe do medo. Felicidade é o conhecimento, a harmonia e o equilíbrio de cada um dos aspectos da nossa vida.

A conexão com o que somos, nossa inteligência física, mental, emocional, psíquica e espiritual. Corpo, mente, emoção, psique e espírito estão interconectados de tal maneira que cuidando desse todo podemos controlar nossa saúde, bem estar e longevidade.

BRUNA LOMBARDI


13 DE JUNHO DE 2020

ARTIGO


HORA DE SERMOS OS GUARDIÕES DA INFÂNCIA


É IMPORTANTE DAR AOS NOSSOS FILHOS A NOÇÃO DA REALIDADE, MAS AINDA NÃO A NOÇÃO DO TODO

Uma guerra está posta lá fora, a luta contra um vírus letal é diária, nossas mentes se preocupam constantemente. Porém, ao nosso lado uma criança sorri e nos convida para brincar.

Vivemos um tempo de apreensão e incerteza, mas as infâncias ao nosso lado dão sequência as suas histórias. Dia a dia, assim como nós, buscam entender o significado deste tempo. Buscam entender por que os adultos se preocupam, por que estamos em casa e por que usamos máscaras para sair. Questionam e investigam as mudanças, porque as crianças são especialistas nisso, são curiosas, são inquietas. Os adultos se preocupam, mas de alguma forma se acostumam, se acomodam, se adaptam. As crianças não, elas querem mais, querem novidades, querem aprender, querem desvendar o mundo.

Em meio a tantos afazeres e tantas preocupações, os adultos encontram uma nova missão: de agora em diante, são guardiões da infância, ou pelo menos deveriam ser. De alguma forma, precisamos preservar nossas crianças dessa triste realidade que se apresenta, precisamos ser seu porto seguro, mesmo não tendo tanta certeza assim. Nossa missão tem sido preservar o colorido da vida, mesmo sem a liberdade de explorar o mundo lá fora e vivenciar novas experiências. Precisamos preservar a vida, nos proteger, isolando-se de todos, mas também precisamos preservar as infâncias que nos são compartilhadas, dando a elas o repertório mais satisfatório possível, as experiências de uma rotina simples, mas cheia de afeto e esperança, na qual terão certeza de que tudo vai ficar bem.

Noções da realidade? Sim, é necessário! Até para formar hábitos que possam protegê-las. Noção do todo? Não, agora não. A infância precisa ser vivida, e ela contempla o mundo de uma forma totalmente diferente, ela tem esperança no olhar, ela busca algo novo, ela deseja encontrar o inesperado, ou, como diria Rubem Alves, ela tem olhos encantados. Os adultos têm essa nova missão, a de guardiões da infância, essa que temporariamente está sendo limitada fisicamente, mas não prejudicada por isso, pois as crianças têm a capacidade de ir além. O espaço físico é importante, mas a imaginação, a fantasia e os afetos, sendo preservados, dão sequência às suas lindas histórias, que ficarão marcadas por um tempo de convívio familiar, de estreitamento de laços afetivos, de carinhos, de descobertas dentro de um espaço que é tão nosso, e que talvez não conhecêssemos tanto assim.

Que desafio para nós, adultos: em tempos de guerra, somos responsáveis por preservar a vida, mas também por preservar a beleza da infância. Eles nos observam atentamente, eles cuidam nossas expressões. Os mais comunicativos questionam, os mais introspectivos analisam apenas, mas todos tiram suas próprias conclusões. Em meio a tantas preocupações, que não são poucas não, devemos perceber essa infância que dá sequência a sua história, bem do nosso lado. Não queremos que vivam numa bolha, mas é preciso preservar. Preservar o brilho no olho, preservar a descoberta, preservar o desejo de crescer, preservar a esperança, preservar a fé e preservar a infância, fase única da vida, na qual se tem a capacidade de enxergar a beleza do mundo, sem perceber suas imperfeições.

*Coordenadora pedagógica de uma escola de Educação Infantil e mãe de uma menina de três anos


NATÁLIA MANSAN*


13 DE JUNHO DE 2020
J.J. CAMARGO

A NOITE PRECISA SER PROTEGIDA

O Asdrubal era de Colonia del Sacramento, a mais antiga cidade uruguaia. Fundada pelos portugueses em 1680 e declarada Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco em 1995, esta cidade foi motivo de uma acirrada disputa entre portugueses e espanhóis, na qual ambos queriam obter mais domínio territorial para os seus já poderosos impérios. Nascido de família rica, Asdrubal graduou-se em filosofia pela Universidade de Buenos Aires. Continuou por mais uns 12 anos lá, onde foi um notívago, encantado pela música, pela arte e, claro, pela boemia.

Foi uma daquelas consultas as quais gostaríamos que não acabasse, poupando-nos da volta ao corriqueiro e a este enfaro das pessoas que dormem sempre no mesmo horário, e têm responsabilidades, e se parecem com gente.

Com 81 anos, Asdrubal veio consultar sozinho. Era um homem elegante e genuinamente refinado, sem afetação. Impossível acertar-lhe a idade pela postura descontraída e pela marcha ereta e digna.

Quanto a filhos, disse que "era provável que os tivesse, mas lhes faltava o reconhecimento, e por isso, não tinha ninguém que o acompanhasse". Não havia mágoa na informação, apenas a necessidade de um rápido olhar no vazio ao fim deste comentário.

Fumante inveterado, prometera a si mesmo parar, mas protelara, quase sem culpa, e por fim, quando se descobriu doente, concluiu que agora não adiantaria, e então seguiu fumando, mas, com a cara mais debochada, anunciou que, cuidadoso, reduzira de quatro para três carteiras diárias.

Trazia uma tomografia que mostrava um tumor de cinco centímetros no pulmão esquerdo, com vários gânglios entre os pulmões, maiores do que o próprio tumor. No fim da tarde do terceiro dia de internação, recebi os resultados dos exames que incluíam uma punção pulmonar e uma avaliação de corpo inteiro.

Com as suspeitas diagnósticas confirmadas, fui visitá-lo no fim da tarde e, preocupado com a solidão da noite, anunciei que o patologista me prometera o resultado para a manhã seguinte. Cedo da manhã, o encontrei já de banho tomado e vestido como para uma noitada de festa.

Quando lhe expliquei que era mesmo um tumor, não cirúrgico, pelo tipo de células encontradas, e que deveria tratar-se com quimioterapia e radioterapia, com ótima expectativa de resposta porque os tumores de células pequenas eram assim, ele fez um silêncio resignado, indispensável à metabolização das notícias. As ruins mais do que as outras.

Depois de uma longa conversa sobre onde ser tratado, duração do tratamento e necessidade de revisões, nos despedimos.

- Claro que o senhor já sabia de tudo isso quando esteve aqui ontem à tardinha - o Asdrubal me disse. - Então deixe-me agradecê-lo por ter-me permitido dormir uma noite a mais com alguma esperança.

Antes que eu respondesse, ele completou:

- Sendo um homem da noite, aprendi o quanto ela é delicada e lhe asseguro que só os capazes de protegê-la conseguem ser generosos durante o dia.

J.J. CAMARGO


13 DE JUNHO DE 2020
DAVID COIMBRA

Por que é preciso saber sobre o homem que virou hino

Por que Lara virou hino? Fazia-me essa pergunta enquanto investigava sua vida nos albores dos anos 90. Agora, quando se completará cem anos do seu primeiro jogo pelo Grêmio, sei qual é a resposta, e ela está acima e além do futebol, e serve bem para o mundo do século 21.

Havia lendas em torno de Lara. A melhor de todas, que ouvi muitas vezes, de muitas fontes, era sobre sua morte. Lara sofria de uma fraqueza qualquer no coração, e os médicos já lhe tinham aconselhado a deixar de jogar. Mas o futebol e o Grêmio eram a sua vida, ele não podia parar. O campeonato foi em frente, e a decisão ocorreria, como sempre, em um Gre-Nal. No dia da final, Lara se sentia especialmente mal, mas, ainda assim, foi a campo. E o Inter atacou, o Inter estava melhor, e Lara defendia num canto, defendia no outro, espalmava a escanteio, voava no ângulo. Até que o juiz marcou um pênalti contra o Grêmio. Do outro lado, quem se apresentou para bater foi ninguém menos do que o irmão de Lara, um centroavante conhecido por seu chute fortíssimo. O irmão, sabedor dos problemas de saúde do goleiro, advertiu:

"Irmão, sai do gol, que essa, se tu pegar, tu morre".

Lara teimou: "Pois não saio".

O irmão suspirou e encaminhou-se para a cobrança. Lara ficou debaixo da trave, fitando a bola, imóvel feito um leopardo antes do bote, na expectativa. O irmão veio e mandou um bazucaço. Lara decolou na horizontal e, contra todas as possibilidades, encaixou a bola no peito. Mas a pancada havia sido tão poderosa que uma veia do seu coração gremista arrebentou e ele morreu ali mesmo, sobre a cal da grande área, agarrado à bola, mais do que nunca campeão.

Eu adorava essa história, e nela havia pedaços de verdade por todos os lados. Lara realmente saiu de um Gre-Nal para morrer. Foi a decisão do Campeonato Farroupilha de 1935, um título improvável que o Grêmio conquistou com tanta galhardia que é comemorado até hoje, a cada setembro, e o será até que se completem cem anos daquele jogo. Outra verdade é a respeito do pênalti batido por um centroavante de chute violento. O centroavante era Arthur Friedenreich, que, dizem, fez mais gols do que Pelé. Fried, chamado "El Tigre", tinha um coice em cada perna e nunca havia errado um pênalti. Até enfrentar Lara num jogo da Seleção Paulista contra a Seleção Gaúcha. Fried chutou e Lara defendeu, e defendeu tantos outros chutes, mais de 20, que, ao final da partida, os paulistas o carregaram nos ombros, em triunfo.

Essas façanhas, portanto, foram verdadeiras, mas, infelizmente, não houve o enfrentamento com o irmão no Gre-Nal. Se houvesse, seria tragicamente lindo.

Colhi inúmeras histórias sobre ele, ótimas histórias, porque são do tempo do futebol romântico, jogado por amor. Mas o que de fato me impressionou, e me levou a escrever agora, foi a coincidência dos depoimentos de todos os que o conheceram.

Conversei com sete ou oito pessoas que conviveram com Lara, como o jornalista Ivo dos Santos Martins, que citei ontem, e Oswaldo Rolla, o "Foguinho". A primeira característica que esses contemporâneos de Lara citavam, quando iam descrevê-lo, era sempre a sua integridade. Sempre.

Lara, acima de tudo, era um homem honrado. Se durante um jogo cometesse uma falta não marcada pelo árbitro, segurava a bola, parava tudo, admitia o erro e reivindicava a punição. E se, ao contrário, um adversário simulasse uma falta, não se conformava, ia até ele e o convencia a admitir o logro. Seu prestígio era tamanho que o outro acabava confessando. Lara era tão honesto que os clubes o chamavam para atuar como árbitro em suas partidas.

Quando morreu, em 1935, seu funeral eletrizou e parou a cidade. Foi o maior evento público de Porto Alegre até aquela data. Dirigentes do Grêmio pediram que lhe fizessem a máscara mortuária e ela hoje está exposta no museu do clube, como se Lara fosse um faraó.

Toda essa comoção não se deu pelas façanhas esportivas de Lara, e sim por sua estatura ética. Fosse ele apenas um craque, e não um homem leal e reto, talvez despertasse admiração, mas não veneração. E é isso que me leva a escrever a seu respeito. É a consciência de que hoje, mais do que nunca, é preciso ter noção da relevância de valores intangíveis, como a honra. A decência era, é e sempre será importante em qualquer sociedade humana. A decência de cobrar mais de si mesmo do que dos outros, como fazia Lara. Sobram-nos moralistas, no século 21. Falta-nos moral.

DAVID COIMBRA


13 DE JUNHO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

PRUDÊNCIA NO ESTADO

O maior rigor que passará a ser observado no modelo de distanciamento controlado em vigor no Estado é, sobretudo, prudente. Os indicadores mais recentes sobre a disseminação do novo coronavírus, com aumento da quantidade de casos, de internações em UTIs e de vítimas fatais, apontam para sensatez na discussão sobre possíveis novas medidas de flexibilização. Titubear, neste momento, pode levar a um descontrole da pandemia no Rio Grande do Sul, onde subsiste um quadro mais confortável em relação a outras regiões do país, ainda que baseado em números de dias atrás. Mas, com o recrudescimento da covid-19 em diversas regiões gaúchas, é ajuizado tornar mais rígidos os critérios para o estabelecimento das diferentes cores de bandeiras que indicam maior ou menor grau de flexibilização de atividades.

Como alertou o governador Eduardo Leite, não se pode descartar que, neste fim de semana, as autoridades que avaliam constantemente os dados tenham de colocar alguns pontos do Estado sob a bandeira vermelha, que significa risco alto. Boa parte do aumento significativo de casos de coronavírus no Rio Grande do Sul, o que inclui Porto Alegre, pode ser atribuída à percepção equivocada de parcela da população de que se caminhava paulatinamente para uma "volta ao normal". Essa impressão distorcida levou muitos gaúchos infelizmente a relaxarem nos mais básicos cuidados quando, pelo contrário, deveriam ser redobrados. Por isso, não surpreende que, infelizmente, a prefeitura da Capital tenha sido compelida a determinar novas restrições na tarde de sexta-feira.

A advertência do governo serve para que a população se conscientize outra vez e volte a ter um comportamento compatível com o momento. O Estado atravessa o período mais crítico desde o início da pandemia e é esse o quadro que precisa ser compreendido por todos, uma vez que muita gente, de forma irresponsável, não usa máscara em espaços públicos e se descuidou de hábitos como higienizar frequentemente as mãos, justamente quando aumenta a circulação de pessoas nas ruas.

O plano de distanciamento controlado é sólido, mas para ter sucesso necessita do engajamento generalizado. A pesquisa da Universidade Federal de Pelotas mostra que o vírus circulou relativamente pouco na maioria das cidades gaúchas. O que por um lado é bom também preocupa por indicar um alto potencial de crescimento das infecções se não houver mais responsabilidade.

O Estado segue com uma situação relativa melhor em comparação com o restante do Brasil e a condução da crise sanitária pelas autoridades gaúchas mostra-se séria, ao contrário do plano federal, em que o presidente Jair Bolsonaro permanece alienado da realidade ao pregar, por exemplo, que pessoas invadam e filmem hospitais para verificar se existem leitos vazios, o que seria um indício de que o problema não seria tão sério. Mostra uma incrível desconexão com os fatos, em um país com um número de casos confirmados acima de 800 mil e mais de 40 mil mortos. Certa folga na disponibilidade de leitos é o que se busca, caso o quadro venha a se agravar.

A contribuição de cada cidadão, portanto, é imprescindível para que o Estado não precise retroceder de forma mais drástica, voltando a paralisar uma série de atividades. Este cenário indesejado, com maior risco à saúde dos gaúchos, seria ainda um desastre para a economia de várias regiões.



13 DE JUNHO DE 2020
+ ECONOMIA

"É agradável estar vivo e saudável"

Como no filme Contágio, Carlos Souto sabe onde e quando contraiu coronavírus: foi em 10 de março, em um jantar em São Paulo. Sócio e CEO do escritório Souto Correa Advogados, diz que teve sintomas "acentuados" e medo do desconhecido. Recuperado, diz que é "agradável estar vivo e saudável".

Isolamento

"O lado bom foi a oportunidade, que achei que nunca mais teria, de conviver diariamente com minha família. Sou casado e tenho quatro filhos, com idades, interesses e atividades bem diferentes. Os dois mais velhos estudavam no Exterior. Como minha rotina de trabalho é intensa, pouco tempo sobrava para estarmos juntos prestando atenção uns nos outros. Brinco que, quando qualquer família está reunida, há monólogos simultâneos. O isolamento tem permitido diálogos verdadeiros."

Rotina

"Sem deslocamentos e viagens, houve maior disponibilidade e, por consequência, maior carga de trabalho. Maior até do que antes. Fico muito tempo no computador e no celular, mas busco caminhar por poucos minutos e tomar um pouco de sol. Estava preocupado com os receios das pessoas em face do desconhecido e das más notícias e me preocupei em estar disponível, mesmo doente. Durante os primeiros 51 dias úteis de trabalho remoto do escritório, de 17 de março a 30 de maio, enviei internamente uma carta relatando como havia sido o dia, destacando as conquistas mais relevantes, por simples que fossem. É possível que nunca tenhamos estado tão bem informados. Além disso, tentei apoiar belas iniciativas de solidariedade."

Leituras e vídeos

"Li sobre filosofia, história e negócios. Em meio a tantas certezas e convicções, ler Karl Popper, Edgar Morin, Friedrich Hayek, Mario Vargas Llosa e Paul Johnson fez muito bem. Pude assistir a muitos eventos online. Destaco os com Nassim Taleb e Daniel Kahneman. Além desses, o documentário The Last Dance, sobre a vida de Michael Jordan. Imperdível."

Aprendizado

"Lideranças verdadeiramente virtuosas são mais importantes do que imaginamos. Acompanho a gestão dessa crise em um hospital de referência, uma escola internacional e uma rede de varejo de moda. Culturas fortes, pessoas certas, visão estratégica, disciplina e trabalho são as melhores armas para se preparar e vencer as surpresas."

Reflexões

"Tenho muita gratidão ao acompanhamento médico que recebi. É agradável estar vivo e saudável. Depois, em contexto maior, a importância do tempo. É fácil constatar que há hábitos que mantemos pela inércia e, muitas vezes, não valem o tempo que demandam. Por mais que voltemos a nos repetir - e tudo indica que assim será -, há uma oportunidade rara. Se vamos melhorar ou não, só o tempo dirá."

MARTA SFREDO

13 DE JUNHO DE 2020
INDÚSTRIA NA PANDEMIA

Números e surtos investigados

A preocupação com adoção de protocolos na indústria para evitar casos de coronavírus não ocorre à toa. No Rio Grande do Sul, 36 dos 53 surtos investigados até 3 de junho estavam no setor, conforme dados do Informe Epidemiológico divulgado pelo Centro de Vigilância em Saúde (Cevs) da Secretaria Estadual da Saúde (SES)

A presença de dois ou mais casos de síndrome gripal em um mesmo ambiente fechado, com intervalo de sete dias entre a data de início dos sintomas, é o que caracteriza um surto. A maior incidência de focos em indústrias tem mais relação com o tamanho da força de trabalho mobilizada pelo setor do que pelo tipo de atividade, na avaliação de Marcelo Vallandro, coordenador do Centro de Operações (COE) da SES

Vallandro ressalta que a postura mantida pelos trabalhadores fora do expediente é fundamental para evitar a contaminação nas fábricas. Ou seja, qualquer relaxamento no uso da máscara ao sair de casa e na higienização das mãos pode acabar gerando a contaminação e, posteriormente, espalhar-se no ambiente de trabalho

No Rio Grande do Sul, os frigoríficos lideram a lista de focos de coronavírus na indústria, com 22 casos investigados no momento pela Secretaria da Saúde

Caracterizados pela umidade no ambiente e a pouca ventilação, os estabelecimentos viraram o principal alvo do monitoramento do Ministério Público do Trabalho (MPT)

A gerente nacional adjunta do projeto de fiscalização dos frigoríficos, Priscila Schvarcz, estima que um terço dos casos de covid-19 no Rio Grande do Sul está relacionado aos abatedouros. Há mais de 3,3 mil diagnósticos positivos no setor até o momento, conforme o MPT. - Verificamos falhas nas medidas de distanciamento, nas áreas convivência e até resistência na utilização de máscaras adequadas. As empresas também falham nos procedimentos de busca ativa dos contactantes das pessoas afastadas pela doença - aponta Priscila


13 DE JUNHO DE 2020
POLÍTICA +

Chegou a conta pelo descaso com as regras de prevenção

A ideia de que o pior da pandemia já tinha passado, traduzida em aglomerações e no abandono de medidas de higiene e distanciamento social após a reabertura do comércio, vai custar caro aos gaúchos. Em Porto Alegre, a conta já chegou com o aperto anunciado pelo prefeito Nelson Marchezan no início da noite de sexta-feira, que inclui novo fechamento dos shopping centers a partir de segunda-feira.

No Estado, a conta virá em forma de bandeira vermelha, neste sábado ou nos próximos dias, numa tentativa de frear a demanda por leitos de UTI e evitar colapso no sistema de saúde. Em entrevista ao Gaúcha Atualidade, o governador Eduardo Leite confirmou o que o monitoramento dos indicadores do modelo de distanciamento controlado vinha indicando: a previsão é de bandeira vermelha em regiões onde a demanda por leitos de UTI chegou ao nível crítico.

Marchezan e Leite trabalham com a mesma lógica, a de que é preciso prestar atenção nas projeções. Pelo comportamento do vírus, os efeitos das medidas adotadas hoje aparecem nos hospitais de 10 a 14 dias depois. A chave para as decisões é "velocidade de crescimento", mais do que o número absoluto de leitos ocupados no momento.

Olhando o quadro apenas pelos leitos ocupados, a situação em Porto Alegre ainda não chegou ao ponto crítico. Está em 78,59%. O que preocupa é a curva de crescimento. No sábado passado, havia 46 leitos ocupados por pacientes com covid-19. Uma semana depois, são 66 (na quinta-feira chegou a 69). Esse aumento ocorreu duas semanas após a flexibilização.

- Se a velocidade da demanda dos últimos 12 dias se mantiver, no final de junho os 174 leitos destinados a pacientes covid estarão ocupados - alertou o prefeito.

Embora os decretos ainda não tenham sido finalizados, é possível dizer que Porto Alegre retroage à situação do início de maio, quando só o pequeno comércio, com faturamento abaixo de R$ 360 mil, recebeu autorização para funcionar.

Alcolumbre corta as asas de Weintraub

Quase desconhecido até ser eleito presidente do Senado em uma construção para tirar Renan Calheiros do comando do Congresso, Davi Alcolumbre (DEM-AP) disse a que veio na sexta-feira, ao devolver ao Palácio do Planalto a medida provisória que criava a figura do reitor biônico nas universidades. Cortou as asas do ministro Abraham Weintraub, a quem caberia escolher reitores temporários, e mostrou ao presidente Jair Bolsonaro que a Constituição de 1988 foi emendada, mas não revogada.

Alcolumbre devolveu a MP porque ela afronta a Constituição no trecho que trata da autonomia das universidades. Essa afronta vinha sendo apontada por juristas, deputados, senadores e pela comunidade acadêmica.

Desde que assumiu o Ministério da Educação, Weintraub expressa profundo desprezo pelas universidades federais, que já definiu como antros de balbúrdia, sexo, drogas e pregação esquerdista.

Além de volta e meia agredir a língua portuguesa, atacou os ministros do STF na reunião ministerial de 22 de abril:

- Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia, começando no STF.

Aliás

Nelson Marchezan apelou aos prefeitos da Região Metropolitana para que repensem as restrições, já que mais da metade dos pacientes da rede hospitalar de Porto Alegre vem de outros municípios. A Capital recebe mais dinheiro do SUS para atender pacientes de outras cidades, mas quando se trata de prevenção é preciso pensar como região.

Topo do ranking

Graças à reformulação do site onde são publicados os dados epidemiológicos da covid-19, o governo de Eduardo Leite comemora a chegada ao topo do ranking da organização independente Open Knowledge.

O Rio Grande do Sul saiu do oitavo lugar em 3 de abril para o terceiro na semana passada e agora chegou ao primeiro, com cem pontos, ao lado de Ceará, Goiás, Minas Gerais e Rondônia.

PSOL contesta dados oficiais

A deputada Luciana Genro (foto) e o vereador Roberto Robaina, ambos do PSOL, apresentaram, na sexta, estudo que aponta "fortes indícios" de subnotificação de mortes por coronavírus no Rio Grande do Sul. A pesquisa foi realizada pela assessoria técnica da bancada do PSOL na Assembleia Legislativa.

O levantamento mostra que, neste ano, entre 1º de março e 9 de junho, houve 1.024 mortes por síndrome respiratória aguda grave (SRAG) no Estado, cerca de nove vezes mais do que no mesmo período de 2019. Conforme os parlamentares, isso sugere que parte dos óbitos por covid-19 pode estar registrado como SRAG e que o número de mortes pode ser até 3,4 vezes maior do que o oficial.

O levantamento apresentou dados locais de Porto Alegre e de Pelotas. Nesses casos, a subnotificação seria de até 3,79 e 5,40 vezes, respectivamente. O reitor da Universidade Federal de Pelotas, Pedro Hallal, participou da live, recebeu o resultado do estudo e prometeu avaliá-lo.

É dura a vida dos gestores que lidam com a pandemia. Enquanto integrantes do governo bolsonaro dizem que os governadores em geral inflam os dados sobre mortes causadas pelo coronavírus para receber mais dinheiro do ministério da saúde, no rio grande do sul o psol acusa o governo de subnotificação. Nos dois casos, há forte cheiro de disputa política.

Contraponto

O governador Eduardo Leite e o secretário da Saúde de Porto Alegre, Pablo Stürmer, rechaçam as acusações do PSOL de que há subnotificação nas mortes.

Leite assegura que todos os mortos por síndrome respiratória aguda grave são testados para covid-19 e diz que o Estado nada teria a ganhar adulterando as estatísticas.

Stürmer usa o mesmo argumento e garante que não faltam testes na Capital.

ROSANE DE OLIVEIRA

13 DE JUNHO DE 2020
RODRIGO CONSTANTINO

Mosca azul

Meu sonho de consumo: ler e debater sobre as grandes questões filosóficas, de forma civilizada e de preferência num belo jardim, como faziam os peripatéticos. A realidade: ter de mergulhar nos "debates" do cotidiano sobre política, com p minúsculo, em que a honestidade intelectual parece algo mais raro do que diamante.

A política está virando uma torcida de futebol, e o ambiente tóxico do Twitter alimenta isso. Qualquer análise é recebida com uma torrente de rótulos e xingamentos, mas quase nada de argumentos. É preciso escolher um lado, e ponto final. Ou se está totalmente com o governo, ou deve-se ser seu inimigo mortal, lutando para derrubar o presidente. Não há mais nuances.

Bolsonaro resolveu recriar o Ministério das Comunicações na última semana e indicar um deputado ligado ao centrão cujo "atributo" é ser genro de Silvio Santos. Bola fora! Entende-se sua escolha quase imposta de se aproximar do centrão para sobreviver aos anseios golpistas dos adversários e garantir alguma governabilidade. Mas todo cuidado é pouco, e, sem critério, vai se desgastar ainda mais com sua base de eleitores.

Justiça seja feita, vi nas redes sociais bolsonaristas criticarem a decisão. São pessoas acusadas de "gado" pelos detratores, sendo que esses "radicais de centro" jamais elogiam nada que vem do governo. Quem, afinal, toma um lado apenas de forma cega? Vejam a turma do MBL, por exemplo, que foi responsável por um teatro patético na saidinha do Planalto, tentando constranger o presidente com uma "eleitora arrependida", que não passava de uma atriz frustrada e lotada no gabinete do vereador Fernando Holiday.

Enquanto isso, Sergio Moro segue em sua cruzada para se destacar como adversário do governo, de onde acaba de sair. Tenta "lacrar" o tempo todo nas redes sociais e chegou a dizer que aceitou o convite para padrinho de casamento de Carla Zambelli por se sentir constrangido de negar. Na festa, porém, não parecia nada constrangido. Ou então sabe fingir muito bem.

Por fim, jovens mimados seguem derrubando estátuas, e os democratas usam o cadáver de George Floyd para turbinar sua campanha eleitoral contra Trump. É tudo muito abjeto. O poder da mosca azul corrompe.

RODRIGO CONSTANTINO

sábado, 6 de junho de 2020


06 DE JUNHO DE 2020
LYA LUFT

Perdidos e achados

Penso que nos avisos e placas o termo é Achados e Perdidos. Não faz mal, eu quero aqui realçar os achados, que são o bom da vida. E, apesar de tudo, da pandemia, dos horrores, das contradições e contrariedades, da chatice suprema, dos cuidados (sou altíssimo risco...), da saudade de uma vidinha meio normal, e do dinheirinho encolhendo, ainda acredito que se acham coisas boas no fim de tudo.

Tenho pensado em amizades: aquelas boas, de uma vida inteira, que duram apesar de altos e baixos, e nos baixos se fortalecem porque a gente confia um no outro. Porque não sente ciúme nem suspeitas; porque, havendo alguma contrariedade, a gente se explica e acaba dando risada; e porque apesar dos anos, décadas, continuamos por aqui para nos lamentar, para nos divertir, para dividir um vinho branco - cada uma do seu lado do Skype -, para existirmos uma para a outra.

Tem as amizades que estão entre os achados recentes: tenho algumas, não muitas, amizades deliciosas, que são de poucos anos atrás, mas a raiz está lá, no tempo sem, tempo das coisas boas. Se forem mais jovens que eu, melhor ainda, menos chance de perder mais alguém, embora recentemente tenha-se ido a minha amada Lou Borghetti, no esplendor da maturidade, e ainda não me acostumei.

Entre os perdidos: estão esses que se foram pelos corredores do mistério, e só sabemos deles que ainda os amamos e lembramos. Talvez, assim, nunca se tenham de verdade perdido.

Os tempos da infância e juventude com o que tinham de bom, alegre, amoroso, luminoso, nem sei onde os colocaria, porque se perderam no concreto, mas na memória, sempre que procuro, estão logo ali. Aqui. Dentro de mim, então não foram, mesmo perdidos. (Afinal, pouca coisa se perde.)

Alguns momentos da infância é bom perder, os castigos, as briguinhas bobas que para uma criança são tragédias, as ausências, como quando o pai viajava a trabalho e eu ficava pela casa feito uma pequena alma penada... a partida cruel quando aos 11 ou 10 anos me botaram num internato... ótimo, aliás, mas uma antessala do exílio que nunca se apagou em mim com sua sensação de que, ou eu tinha feito algo muito errado sem saber, para merecer aquilo, ou meus pais não me queriam. 

Onze anos, muita imaginação e um horror de separação justificavam todos os dramas. Por sorte minha e compaixão de meu pai, lá fiquei dois meses e voltei para casa de trem, com o pai, porque havia uma enchente grave a as balsas que ligavam a cidade do colégio à minha estavam paradas. Aquela viagem foi dos grandes, maravilhosos achados da minha vida, e quando por alguma razão fico mais triste, às vezes revivo aquela sensação de que estava salva, acolhida, devolvida. Todos temos perdidos e achados, e às vezes, como nesse episódio do internato, algo pode ser as duas coisas ao mesmo tempo.

Hoje, com essa pandemia, essa Peste mundial, essas incertezas, contradições e desequilíbrio entre receio, alívio, ilusão e morbidez, nem sei se estamos perdidos: mas espero que em breve, quando houver alguma normalidade (o que é isso, afinal?), voltemos a nos achar.

LYA LUFT


06 DE JUNHO DE 2020
MARTHA MEDEIROS

Precisamos respirar

Na sexta da semana anterior, vi as imagens nauseantes do policial que se ajoelhou sobre o pescoço de George Floyd por quase nove minutos, sem compaixão diante dos apelos do detido: "Não consigo respirar!". Horas depois, George estaria morto, e os Estados Unidos explodiam em convulsão por mais um ato criminoso de racismo.

Na mesma noite, assisti ao documentário sobre o genial Quincy Jones, que iniciou carreira como trompetista e virou o maior produtor musical de todos os tempos, responsável pelas orquestrações dos discos de Frank Sinatra e de álbuns históricos como Thriller, de Michael Jackson. Ele colocou a música negra no mapa, abrindo portas para todos os gêneros, incluindo o hip hop. Amigo íntimo de Ray Charles, admirado por Mandela, Obama, Oprah e outros expoentes da raça, Quincy Jones virou lenda e, aos 87 anos, mereceu esta retrospectiva emocionante. Mas sua infância não foi um passeio de carrossel.

Viu a mãe ser arrancada de casa numa camisa de força quando tinha sete anos. O pai era um delinquente. Criado na rua, Quincy queria ser um gângster quando crescesse - era a única realidade que o menino conhecia. Por sorte, um dia ele chegou perto de um piano e descobriu que podia ser outra coisa.

Em 1951, aos 18 anos, excursionou pela primeira vez com uma banda de jazz composta só por negros. O racismo era tão intenso que o motorista do ônibus tinha que ser branco para poder comprar comida para a trupe - negros não podiam entrar em restaurantes. No início dos anos 1960, artistas como Sammy Davis Jr. e Harry Belafonte faziam grande sucesso em Las Vegas, mas tinham que jantar na cozinha, pois negros eram proibidos de frequentar os salões. Quando Sinatra soube, ameaçou não cantar mais na cidade se os cassinos mantivessem a segregação, e só então a situação melhorou.

A situação melhorou?

Melhorou, mas a cena brutal que aconteceu em Minneapolis (e que ocorre de diferentes formas no Brasil, diariamente) ainda exige muita mobilização. O silêncio não move nada. É preciso, sim, junção de vozes, povo na rua, tudo isso que assusta, mas que transforma.

E arte, o tempo inteiro. O documentário sobre Quincy Jones está focado em sua brilhante carreira, mas estão ali, também, as fissuras de uma sociedade escravagista que ainda tem muito a evoluir antes de se definir como civilizada. Quincy não é apenas um artista, mas um artista negro, e como tal, sabe que a luta deve ser constante, ou o preconceito continuará evidenciando nossa falência moral. O que ainda estamos esperando? Sejamos empáticos, vamos dar um sentido profundo às nossas vidas, valorizemos mais músicos do que gângsters. Só assim respiraremos aliviados, sem ter nenhuma vergonha atravessada na garganta.

MARTHA MEDEIROS


06 DE JUNHO DE 2020
CLAUDIA TAJES

Você não pode achar isso normal

Há quem ainda ache que o caso George Floyd, o homem negro que foi sufocado por um policial até morrer na cara do mundo, não tem nada a ver com a gente. É assunto dos gringos, eles que se resolvam. Desconhecer, ou não se importar, com o que acontece lá em Minneapolis ou aqui perto, nos bairros da periferia e nas comunidades, é assinar uma carteirinha de falta de humanidade. Está formado, meu filho, e acredite: esse está longe de ser um motivo de orgulho.

Ah, mas o tal do George Floyd tinha quase dois metros e passou uma nota falsa de US$ 20. Juro que li isso, como se justificasse a morte de mais um homem negro. De mais um: de acordo com o jornal Washington Post, foram 1.014 pessoas mortas a tiros por policiais nos Estados Unidos em 2019 - a maioria delas, negras. O que confirma um estudo da ONG Mapping Police Violence, segundo o qual os negros, nos Estados Unidos da América, têm três vezes mais chances de serem mortos pela polícia do que os brancos.

Você pode até ser a favor do armamento. Você pode se enrolar em uma bandeira do Brasil e passar o domingo gritando no Parcão. Mas você não pode achar isso normal.

Não é diferente no Brasil. Agora mesmo, um menino de 14 anos foi assassinado com um tiro nas costas, um dos mais de 70 disparados pelos policiais que invadiram a casa onde ele e os primos cumpriam o confinamento imposto pela pandemia em São Gonçalo, cidade da área metropolitana do Rio. Todo mundo sabe a história, o corpo foi levado de helicóptero e localizado pela família apenas 17 horas depois. Sobre João Pedro, que estava no nono ano do colégio, o pai disse: a vida dele era casa, igreja, escola e jogo no celular.

Antes de João Pedro foram Ágatha e Félix, de oito anos. Kauê, de 12. Kauan, de 11. Você, que escreve e-mails xingando os jornalistas e colunistas que pensam diferente de você, não pode achar isso normal.

É impossível contar todas as histórias, elas são muitas. A de Gilberto Andrade, o angolano que saiu de Goiás para passear em Porto Alegre, terminou com ele vivo - baleado, preso, humilhado, injustiçado, mas vivo. O motorista de aplicativo, foragido, furou um sinal vermelho e escapou a pé. A polícia disparou 35 tiros contra Gilberto e sua amiga, Dorildes, que morreu dias depois, na UTI. "Tu vai sangrar até morrer", ele ouviu de um dos PMs. De lembrança do Rio Grande, além dos 12 dias no presídio, vai levar duas balas no corpo.

Você pode achar que tem muito mimimi e vitimismo no discurso de quem não tem os mesmos privilégios que você. Mas você não pode achar isso normal.

A situação é tão lamentável que, aos negros, nem o sucesso é perdoado. A jornalista Maju Coutinho já foi ofendida apenas por ser uma negra em horário nobre. A médica Thelma Assis, que venceu o último BBB, sofre ofensas raciais cada vez que faz uma live. Adriel Bispo de Souza, de 12 anos, que escreve resenhas literárias no Instagram, encontrou o seguinte comentário em seu perfil: "Porco gordo. Eu achava que preto era para estar cavando mina, não lendo. Para de ser trouxa e volta para a sua realidade. Você foi criado para ser preto e pobre". Adriel respondeu com a sua incredulidade: "Em pleno Século 21, pessoas ainda são racistas?".

São, Adriel. Por incrível que pareça. E se você, que está lendo, achar isso normal, então você não é normal.

CLAUDIA TAJES


06 DE JUNHO DE 2020
LEANDRO KARNAL

A HORA DA RETIRADA

Há 80 anos, em junho de 1940, completou-se uma retirada que é tratada como épica pelo Ocidente: Dunquerque. Esse lugar (entre a França e a Bélgica) apresenta um templo católico em meio às areias, de onde deriva o nome: igreja das dunas (dun-kerke).

O maior conflito da história humana teve começo, na Europa, em setembro de 1939. Derrotada a Polônia, as divisões alemãs não pareciam dispostas a bombardear seus inimigos ocidentais. Os meses finais de 1939 e iniciais de 1940 foram de tenebroso silêncio dos canhões a Oeste. O período foi batizado de Guerra de Mentira (em inglês, phoney war; em francês, drôle de guerre). A vida transcorria em Londres, Amsterdã, Bruxelas e Paris como se não existisse um perigo nazista.

Os franceses tinham adotado postura defensiva e confiavam de forma exagerada na sua imensa e custosa Linha Maginot, uma rede de casamatas e concreto, armamentos subterrâneos, depósitos de munições e até hospitais e transporte nas profundezas do solo para enfrentar a guerra que estava na memória dos velhos marechais de Paris: um conflito de trincheiras. Sim, em 1914, a Linha Maginot teria sido poderosa e intransponível. Mas estávamos em 1940. O novo mundo era de aviões e de tanques decisivos. Os ingleses, protegidos pela sua poderosa marinha, deslocaram tropas para a França. O povo das ilhas não sofria uma invasão desde 1066 e isso pode ter aumentado a confiança de Londres. A confiança na tática defensiva foi exagerada.

Quando a guerra de mentira se tornou de verdade, a rapidez da mudança foi assustadora. A região acidentada e com vegetação densa nas fronteiras de França, Bélgica e Luxemburgo era considerada uma barreira natural. Como na Linha Maginot, o alto-comando francês cometeu o erro de supor que seria impossível para os tanques alemães (Panzer) atravessarem o Rio Mosa e as áreas ao redor. Curiosamente, a floresta antiga parece ter dado sorte duas vezes ao exército alemão: nas vitórias de 1940 e na contraofensiva combatendo o avanço aliado, em 1944.

A tática das divisões de tanques passou a incorporar uma mobilidade inédita e assustadora. Os veículos avançavam muitos quilômetros por dia e passaram com relativa facilidade pelas Ardenas. Bélgica, Holanda, Luxemburgo e a fronteira francesa foram atacadas em poucos dias a partir de 10 de maio de 1940. Um pouco antes, o movimento de avanço já tinha atacado Dinamarca e Noruega.

A guerra relâmpago alemã (Blitzkrieg) surpreendeu todos, Hitler inclusive. Líderes de tanques e oficiais tomaram decisões, aparentemente, sem um total controle de Berlim. As divisões francesas e inglesas foram sendo encurraladas em Dunquerque, uma praia aberta e sem defesas naturais. Um soldado francês e brilhante historiador, Marc Bloch, escreveu, depois, a obra A Estranha Derrota (Zahar). Churchill fez uma análise do episódio na sua obra Memórias da Segunda Guerra Mundial (HarperCollins). Os dois autores são excelentes, porém, ambos escreveram após Dunquerque. A distância cronológica ajuda na clareza. Os fatos do momento estão imersos em brumas e sem destino indicado.

Centenas de milhares de soldados apanhados em uma armadilha poderosa. Os ingleses tomaram uma decisão que se revelou sábia: enviar todos os barcos disponíveis (de militares a barcos de pesca e de turismo) para resgatar o máximo de homens do outro lado do Canal. O resultado foi extraordinário: o número de resgatados foi imensamente superior ao esperado. A força aérea alemã poderia ter causado o caos bombardeando a praia e os barcos.

Os ataques foram relativamente leves. Por que a Luftwaffe evitou usar seu poderio? Há várias hipóteses, nenhuma inteiramente satisfatória. Outro dado curioso é que o general alemão (Gerd von Rundstedt) não compartilhava da ideia dos colegas oficiais de ataques relâmpago e preferia construir pontos seguros de retaguarda. Sua tática foi derrotada pelo alto-comando germânico. Ele seria promovido a Marechal de Campo logo em seguida. Premiou-se um militar que, se tivesse feito valer sua estratégia, teria impedido ou retardado o rápido avanço sobre Dunquerque.

Na hora em que a expansão nazista parecia irrefreável, despontou ainda mais a liderança de Winston Churchill. Sempre vale a pena ler seus livros e ver o filme O Destino de uma Nação (Darkest Hour, 2017, direção de Joe Wright). Gary Oldman ganhou Oscar pelo desempenho brilhante como primeiro-ministro britânico. Também é forte ver Dunquerque (Dunkirk, 2017, Christopher Nolan). Acompanhe bons filmes e lembre-se de que o objetivo dos roteiristas e do diretor não é preparar alunos para a prova do Enem. Obras cinematográficas são sobre história, jamais históricas em si. O filme mira na narrativa cativante e nos grandes prêmios e o júri de Oscar nunca foi dominado por historiadores. Se houvesse essa reviravolta, o cinema viraria uma boa fonte historiográfica e o público correria das salas.

Dizendo de outra forma: todo filme é histórico, pois sempre mostra como um determinado momento construiu a memória do passado. Nenhum filme é "fiel" ao que ocorreu. Os cuidados de verossimilhança dos grandes estúdios servem para conferir maior apelo comercial ao produto. Discutir se um filme é baseado em fatos reais é puro preciosismo. O principal argumento é o mercado e a cabeça dos produtores. Cinema pode ser arte e sempre é parte de uma indústria cultural. É preciso manter a esperança e a lucidez.

LEANDRO KARNAL