sábado, 27 de junho de 2020



27 DE JUNHO DE 2020
DAVID COIMBRA

Você prefere ser Caetano Veloso ou Gilberto Gil?

Gilberto Gil completou 78 anos de idade nessa sexta-feira, e o Chico Buarque lhe fez uma linda homenagem em forma de vídeo. Ele, Chico, reuniu um grande grupo de artistas e todos cantaram Andar com Fé, música que o Gil compôs nos anos 1980. "Andar com fé eu vou, que a fé não costuma faiá".

Participaram, entre tantos, o próprio Chico, as filhas do Gil, Caetano Veloso, Zeca Pagodinho e até o americano Stevie Wonder, que mandou um "Happy birthday to you" em uma belíssima voz feita de metal e mel.

Contei sobre o vídeo no Timeline, da Gaúcha, e o nosso mago da técnica, o Augusto Silveira, botou para rodar Drão. Nem ouvi mais o que o Potter e a Kelly falavam, o som do Gil me mesmerizou, me fez flutuar.

Essa Drão é uma obra-prima da música brasileira. Não só por sua beleza, mas por seu significado. Gil a compôs para sua ex-mulher Sandra quando eles estavam se separando. Drão era o apelido dela, porque Maria Bethânia a chamava de "Sandrão".

Gil fez um poema delicado para falar de um momento duro. Gil besuntou com doçura a amargura da separação. Comparou o amor dos dois com uma semente, que tem de ser enterrada para nascer e tornar-se uma planta robusta e fecunda:

"Drão, o amor da gente é como um grão. Uma semente de ilusão. Tem que morrer pra germinar".

Só por esse poema já mereceria todas as homenagens, o Gilberto Gil, mas ele produziu muito mais. Além disso, trata-se de uma pessoa afável, amorosa, obviamente boa. Seu maior amigo, Caetano Veloso, é mais agressivo, às vezes o Caetano se irrita e morde. Eu, se pudesse, queria ser como o Gil, mas sei que sou mais como o Caetano.

Aliás, tenho visto os vídeos do Caetano no Instagram. São engraçados. Quem grava é a mulher dele, Paula Lavigne, que nunca aparece, só faz perguntas ou narra o que está acontecendo. Ela é ótima nisso, porque é meio irônica, não leva a coisa muito a sério, ela provoca o Caetano e, vez em quando, caçoa dele. Caetano em geral está sentado em um sofá amarelo, não raro de pijama e chinelos. A Paula atira-lhe umas gozações, como se fosse uma rede de pescar, e ele se deixa capturar, responde com uma inocência e uma solicitude admiráveis. Outro dia ela contou que, nesse tempo de confinamento, o Caetano se distrai comendo paçoquinha. Ele adora paçoquinha. Aí o Caetano está lá, comendo paçoca no seu sofá amarelo e ela vem com o celular, brincando:

"Olha o Seu Paçoca..."

O Caetano parece incomodado no começo, mas não se abala, continua comendo a sua paçoca e respondendo às perguntas da Paula.

São as coisas boas da pandemia, isso de as pessoas que a gente aprecia a distância exporem um pouco de suas intimidades. Passei a gostar mais do Caetano depois de assistir aos vídeos da Paula. Ao vê-lo assim, terno e pacífico, no recôndito do lar, ele me pareceu ser menos o Caetano que eu supunha conhecer e mais o Gil que existe na minha imaginação. Gilberto Gil, esse homem amável, capaz de assumir de público seus erros, como fez em seu doce Drão:

"Os pecados são todos meus, Deus sabe a minha confissão", ele admitiu na música, e acrescentou: "Não há o que perdoar, por isso mesmo é que há de haver mais compaixão".

Mas o melhor é o fechamento da poesia, que dá o sentido ao que quer dizer o Gil: que os amores verdadeiros não morrem, eles se transformam:

"Quem poderá fazer

Aquele amor morrer

Se o amor é como um grão

Morre, nasce trigo

Vive, morre pão".

Bonito. Bem que eu queria ser mais Gil.

DAVID COIMBRA

27 DE JUNHO DE 2020
FLÁVIO TAVARES

NOVOS OÁSIS

Uma semana atrás, festejamos os 50 anos do tricampeonato mundial de futebol em 1970, no México, e, ao mesmo tempo, passaram-se 16 anos da morte de Leonel Brizola, em 2004. O notório é sempre atual e, assim, as duas datas seguem vigentes.

O Mundial de 1970 deu ao Brasil a posse definitiva da Taça Jules Rimet, em ouro maciço, mas cujo valor intrínseco ia além e era o "tri". Eu estava lá, no estádio Azteca, e assisti à conquista, da qual hoje só resta nostalgia. Até o futebol (mesmo com exceções) imita o caos político.

A taça de ouro já não existe. "Desapareceu" da sede da CBF, no Rio, num roubo simbólico do próprio Brasil. Tudo em surdina, mas com a conivência de muitos. A taça foi derretida num alto-forno e sumiu até a bela ourivesaria.

Antes, no México, ao festejar o jogo, um jornalista italiano me advertiu: "Cuidado. Mussolini usou a vitória na Copa de 1939 e tornou-se mais feroz". A profecia se fez verdade aqui e, com a euforia, o general-ditador Emílio Medici aprofundou o terror.

Naquele 1970, fazia seis anos que Brizola se exilara. Saiu do país após o golpe militar de 1964, quando sua casa em Porto Alegre foi invadida e saqueada pelos golpistas. Até a roupa pessoal foi rasgada com tesoura, sob pretexto de que "podia esconder dólares".

Em 1959, Brizola começa no RS um governo inovador. Dota o Rio Grande de eletricidade, estradas e comunicação telefônica, constrói escolas, faz do magistério uma profissão digna e cria a pesquisa agrícola, como no trigo. Inicia a reforma agrária, além de ações de infraestrutura que, depois, passam ao setor privado. A cana do litoral vira usina de açúcar.

Em 1961, na renúncia do presidente Jânio Quadros, ele se agiganta: derrota o golpe de Estado dos três ministros militares, que impedia a posse do vice-presidente João Goulart. Os adeptos da ditadura jamais o perdoariam.

Ao voltar do exílio, é o único a falar da defesa do meio ambiente, das "perdas monetárias" geradas pelas multinacionais e de criticar a submissão da mulher na sociedade.

No deserto político atual, falar de Brizola leva a um oásis.

Mas surgem, também, novos oásis. Os presidentes dos dois maiores bancos privados do país, Cândido Bracher, do Itaú, e Octávio De Lazari, do Bradesco, alertaram sobre as terríveis consequências da degradação ambiental no Brasil.

Em reunião do setor bancário em São Paulo, Bracher advertiu que "as consequências ambientais são mais lentas do que as da covid-19, mas duram mais e são difíceis de reverter". Lembrou que 29 grandes investidores de oito países europeus ameaçam retirar-se do Brasil se o governo não mudar a política que destrói a Amazônia.

Lazari, do Bradesco, alertou que "muito se fala em aquecimento global e sustentabilidade, mas se faz pouco". O inesperado é um oásis florido.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES


27 DE JUNHO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

PAZ NA EDUCAÇÃO

As primeiras entrevistas do novo ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli da Silva, permitem ter a esperança de que o obscurantismo e o conflito permanente que marcaram o primeiro ano e meio da pasta no governo Jair Bolsonaro ficaram para trás. Ao contrário principalmente de seu antecessor, Abraham Weintraub, que gastava mais horas e energia em temas ideológicos e discussões em redes sociais, Decotelli sinaliza que irá buscar a pacificação nas relações do MEC com os demais atores do ensino e fará uma gestão norteada por aspectos técnicos. Mesmo que ainda se conheça pouco sobre as ideias do novo ministro, é preciso reconhecer que as impressões iniciais são positivas.

Os últimos 18 meses foram para a educação brasileira um tempo perdido. As deficiências do ensino no país não começaram em janeiro de 2019, mas foram agravadas pela perda de foco, que deveria estar voltado a uma reflexão que levasse a uma profunda transformação em uma área em que o Brasil tem sérias deficiências, que comprometem o seu futuro. Não se espera que Decotelli tire da cartola soluções para reverter imediatamente um quadro que é resultado de décadas de desleixo. Mas a disposição ao diálogo que o novo ministro tem reiterado indica que está compromissado em construir de forma colaborativa saídas que, alguns anos à frente, melhorem o desempenho dos alunos de escolas e universidades do país.

A educação, como disse Decotelli em entrevista à Rádio Gaúcha, transforma sonhos em realidade. O poder do conhecimento é capaz de tanto proporcionar uma existência digna para os indivíduos, pela melhor compreensão do mundo e aquisição de habilidades que levem a uma vida profissional mais promissora, quanto de alterar o destino de uma nação. Não há país desenvolvido no mapa do mundo que não tenha priorizado a educação como uma base para o progresso. A rápida evolução tecnológica exige cada vez mais trabalhadores preparados para não apenas acompanhar, mas para serem protagonistas dessa transmutação constante. A demográfica, por outro lado, impõe uma mão de obra cada vez mais produtiva. Outro aspecto em que o Brasil vai mal.

Embora não se reivindiquem de Decotelli respostas para todas as carências da educação brasileira, muitas com soluções apenas de longo prazo, há problemas prementes que precisam ser atacados. Os desafios, que já seriam enormes em tempos normais, ganham um peso ainda maior com a pandemia que levou à paralisação de aulas presenciais, afetando principalmente jovens e crianças carentes, mas também traz sérias dúvidas sobre o ano letivo. Um dos mais urgentes é um cronograma para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o que prometeu para os próximos dias. 

Terá ainda que trabalhar pela aprovação do novo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos profissionais da Educação (Fundeb) e pela implementação da Base Nacional Comum Curricular do Ensino Médio. Ex-presidente do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, Decotelli conhece a área. Com a ajuda do currículo e da formação sólidos, da disposição ao diálogo e com superação, poderá suplantar as dificuldades que agora se apresentam para minimizar os impactos da pandemia e começar a recuperar o terreno perdido para dar a largada em um processo contínuo e consistente de melhoria da qualidade do ensino brasileiro.



27 DE JUNHO DE 2020
DESAFIOS DO MEC

Novo ministro da Educação quer visitar universidades

O novo ministro da Educação, Carlos Alberto Decotelli da Silva, falou na sexta-feira, em entrevista ao programa Gaúcha Atualidade, da Rádio Gaúcha, sobre os seus desafios à frente da pasta. O principal deles, afirmou, é "transformar a educação brasileira em um mecanismo de diálogo".

- A educação transforma sonhos em realidade. Todos que estudam têm expectativa de uma vida melhor - declarou.

Decotelli foi anunciado na quinta-feira pelo presidente Jair Bolsonaro. Ele sucederá a Abraham Weintraub, que, depois de 14 meses como titular da pasta, teve a saída anunciada no último dia 18.

- Ele (Bolsonaro) pediu para arregaçar as mangas e priorizar gestão e diálogo - disse Decotelli.

Questionado sobre como será sua relação com os reitores das universidades federais, foco de tensão durante a gestão de Weintraub, o novo ministro reforçou a necessidade de conversa.

- Diálogo, gestão, integração e visita. Eu quero visitar as universidades e conversar, ponderar, criar (...). Conte comigo para dialogar, buscar o contraditório. Sou do ambiente de pesquisa, educação e ambiente acadêmico. Sala de aula é minha forma de ser, é minha forma de convicção pessoal. Irei às universidades, elas virão até mim. Vamos buscar resultados quantificáveis - afirmou.

Decotelli também foi perguntado sobre o papel da chamada "ala ideológica" do governo sobre a gestão do Ministério da Educação (MEC). O novo ministro, contudo, reforçou seu perfil técnico:

- Sou da ala técnica, acadêmica. Não tenho preparo para fazer idiossincrasias ideológicas. Sou gestor. Enquanto estiver na estrutura operacional, esse é o meu projeto. Não tenho condições de fazer além disso.

Enem

Ele prometeu apresentar até a próxima terça-feira um cronograma para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A expectativa é de que sejam anunciadas as novas datas das provas, que foram adiadas de 30 a 60 dias:

- A prioridade absoluta é estabelecer um cronograma a ser divulgado intensamente.

Inicialmente, o Enem estava previsto para 1º e 8 de novembro. Devido à pandemia, o MEC prorrogou o exame. O governo lançou consulta pública aos estudantes que vão fazer as provas, mas nenhum anúncio sobre as novas datas foi feito. A enquete segue aberta até a próxima terça-feira.

- Na segunda ou terça-feira, já terei estudado e já terei tomado pé. Sábado e domingo ficarei estudando. Então, poderei responder de maneira objetiva e com cronograma definido - disse.

Outra prioridade do ministro é o novo Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), que expira em 31 de dezembro deste ano. O fundo foi criado em 2006 e serve para garantir investimentos na Educação Básica brasileira, incluindo creches, pré-escolas, Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos (EJA).

- Tenho uma reunião agora (manhã de sexta-feira) sobre o novo Fundeb. Estaremos reunidos com a equipe de Fundeb, temos reunião em seguida sobre as questões envolvendo o Enem. Estou indo pela primeira vez trabalhar integralmente e tomar pé (da situação) - relatou Decotelli.

O ministro não disse se o governo vai apresentar uma proposta própria para o Fundeb. Atualmente, há propostas de parlamentares sobre o tema tramitando no Congresso. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), já anunciou que deve pautar para as próximas semanas uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que torna o Fundeb permanente. O Senado também discute proposições.

27 DE JUNHO DE 2020
RODRIGO CONSTANTINO

Rebeldes sem causa


Quando seu bisavô lutou contra escravocratas e os radicais da Ku Klux Klan, quando seu avô lutou contra nazistas e comunistas, e quando seu pai conseguiu prosperar por esforço próprio, deve ser muito duro constatar que sua grande "causa" é colocar um homem dentro de um banheiro feminino!

O mundo é um lugar hostil, o default é a miséria e o tribalismo, o desafio é superar tal condição. A escravidão foi a regra durante séculos, e graças aos valores ocidentais chegou ao fim - mas não em todos os lugares. Ideologias totalitárias como o nazismo e o comunismo derramaram rios de sangue no século 20, e jovens foram enviados para lutar em outro continente para preservar a liberdade. Que coragem! Que sacrifício!

Aí, o sujeito de 20 anos, bancado pelo pai, estudante de uma universidade que custa os olhos da cara, descobre que é a melhor alma que já vagou pela Terra porque marcha ao lado do Black Lives Matter, grupo marxista, derrubando estátuas de Washington ou Colombo. A elite branca culpada cospe em policiais negros em nome do combate ao racismo. Seria até cômico, não fosse tão trágico.

A culpa é dos pais, que não souberam impor limites, e dos professores e da mídia, que estimularam uma narrativa invertida que faz o aluno se sentir vítima de um legado terrível e opressor do "homem branco malvado". Em vez de ser grato por viver na era mais próspera e livre da História, essa turma busca "lugar seguro" contra "microagressão", sentindo-se ofendida por tudo e demandando reparações e privilégios.

"A cultura em muitos campi universitários tornou-se mais ideologicamente uniforme, comprometendo a capacidade dos scholars de buscar a verdade e dos alunos de aprenderem com uma ampla gama de pensadores", constatam Greg Lukianoff e Jonathan Haidt em The Coddling of the American Mind. Os autores apontam a excessiva fragilidade das novas gerações, moldadas nas universidades e nas redes sociais, que criaram uma "cultura de denúncia" que serve para constranger publicamente quem não reza da mesma cartilha politicamente correta.

Em vez de aprender com a História, querem apagá-la. São mimados e ingratos em busca de um pretexto para destruir. Rebeldes, mas sem causa.

RODRIGO CONSTANTINO

27 DE JUNHO DE 2020
INFORME ESPECIAL

A Igreja e a pandemia

Se existe no Rio Grande do Sul uma instituição disciplinada e colaborativa em tempos de pandemia, é a Igreja Católica. Aos 2 mil anos de idade, está transformando limitações em oportunidades de evolução aqui no Estado.

A Arquidiocese de Porto Alegre, liderada por Dom Jaime Spengler, suspendeu a realização de missas públicas em 16 de março - a primeira capital brasileira a tomar essa atitude. Decretou o fechamento das igrejas em 20 de março e seguiu as orientações de distanciamento para o retorno, um mês depois. Novamente fechou as igrejas em 20 de junho, obedecendo à classificação de bandeira vermelha do modelo do governo do Estado. Sem reclamar. Ao contrário: sempre afirmou que a preservação da vida é a sua prioridade, apesar dos eventuais prejuízos materiais.

O Mensageiro da Caridade, por exemplo, enfrenta uma crise sem precedentes. A solução: mobilizar a comunidade, o que vem acontecendo.

Adoções no RS

Boa parte das 850 crianças e adolescentes acolhidos em abrigos e casas-lar de Porto Alegre está com sua situação jurídica indefinida e paralisada devido à pandemia, já que os processos são físicos e não há tramitação desde que a covid-19 limitou o trabalho da Justiça.

Na busca por encontrar uma solução, a promotora Cinara Vianna Dutra Braga enviou ofício ao Tribunal de Justiça pedindo a implementação imediata do processo eletrônico na 2ª Vara da Infância e Juventude da Capital.

Sem a papelada em dia, as crianças e adolescentes não podem ter seus nomes incluídos no cadastro de adoção. O desembargador Antonio Vinicius Amaro da Silveira, presidente do Conselho de Comunicação do TJ, explica que a digitalização dos processos está sendo agilizada com recursos humanos próprios e terá o reforço de uma empresa escolhida por licitação, mas que ainda espera o final das etapas legais de contratação para iniciar o trabalho. O desembargador afirma também que a área da infância e da juventude está na lista das prioridades.

sábado, 20 de junho de 2020



20 DE JUNHO DE 2020
LYA LUFT

O amor simples

Alguém vai sorrir e dar de ombros ao ler este título: amor simples? Bah.

Se tudo na vida é complicado, o amor tende a ser isso, multiplicado e múltiplas vezes. Ou não? Depende do amor, do tempo, do casal, das circunstâncias. Hoje em dia, casais e famílias encerrados na pandemia, muitos amores se renovam, outros se veem estilhaçados, o anel que me deste se quebrou.

Não sei se tenho muitas amizades firmes e fortes hoje em dia. Algumas se foram porque a Senhora Morte as levou, e de várias nunca me recuperei. Outras, uma, duas, simplesmente sumiram sem um adeus e, depois de algum tempo de perplexidade, desisti. Muitas ficaram e outras surgiram, tenho a sorte de ter aquelas amizades da vida inteira, e algumas novas, que são sempre um refrigério, renovação e aprendizado.

Nesta fase de reclusão, que vai me cansando e enlouquecendo muita gente, nunca tanto valorizei a internet, o Whats, o Instagram, o Face, pontos de encontro, troca de recados, afetos, debates, risos e também tristezas.

Quando pequena, eu tinha poucas amigas reais: não se usava muito isso de dormir ou comer na casa dos outros, não havia praticamente vizinhas da minha idade. Mas eu tinha amigos imaginários, de que já falei: uma família inteira. Familinha, diminutos, vestidos de verde, chapeuzinho pontudo. Eu os sentava no peitoril da janela e conversava com eles. Imaginação infantil, ou de verdade gnomos benfazejos? Criança enxerga o que adultos há muito deixaram de ver.

Na escola comecei a entender amizade e coleguismo. Afinal já podia visitar amigas e elas vinham à minha casa. Sempre havia as mais ligadas em mim e as mais ligadas entre si: eu, em geral a mais novinha e maior, mais pateta para muitas coisas, ficava um pouco de fora. Mas adorava dançar de mãos dadas no pátio da escola, cantiga de roda, sobretudo - ao entardecer nos dias de calor - na calçada de casa. Outros tempos. Quando, já escurecendo, a criançada ainda corria ou girava na rua, eu tinha de entrar: banho, comer e cama. Surgiram daí minhas revoluções bobas e prematuras: "Por que tenho de entrar se as outras podem continuar brincando? Por que tenho de comer e logo dormir? Por que, por que, por quê?".

Por isso e outros motivos, sempre desejei crescer. Ser jovem, adulta, entrar na maturidade, envelhecer: cada vez ficaria mais independente, mais livre. "Ninguém é livre", me diziam. É, sim, eu teimava. Livre para ler ou caminhar quando quisesse, para dormir quando sentisse vontade, para comer algo além de purê de batata, peito de frango e canja. Para ler quando e quanto quisesse, e casar, e ter filhos, coisa que eu mais queria, e, de novo, tempo para sonhar e ler.

E para as grandes, verdadeiras amizades.

Amigo, esse que não cobra, não trai, não tem inveja nem ciúme, nem te deixa na mão - e, mesmo quando não te entende, te curte -, como eu espero ser para os meus, é esse amor simples de que falo no título. E nos salva.

LYA LUFT


20 DE JUNHO DE 2020
MARTHA MEDEIROS

Quando a plateia atua

"Amor, ganhamos convite para a estreia da peça do...". "Não vou." "Posso terminar de falar? É de um ator amigo nosso."

"Agora é que não vou mesmo." "Mas..." "Se você fizer muita questão, iremos outro dia, comprando nós mesmos nossos ingressos, sem que ele saiba que estamos na plateia. Se a gente não gostar da peça, sai de fininho."

Fui testemunha desse diálogo meses atrás, quando éramos felizes e não sabíamos: os teatros estavam abertos e pulsantes. Agora, impedidos de frequentá-los, restam apenas as histórias de coxia.

Vai-se ao camarim, depois de um espetáculo, para confraternizar, mas, dependendo da apresentação, pode acabar em saia-justa. Se você detestou a peça, o que vai dizer quando for cumprimentar o elenco? Inversão de papéis: a plateia é que precisa atuar quando as cortinas se fecham e encerram um vexame cênico.

Um conhecido meu, ator carioca, recebe convite para a estreia de todos os espetáculos em cartaz. Não vai de jeito nenhum. É um crítico feroz de quase tudo o que assiste e não tem jogo de cintura para rapapés. Sabe que seria falta de educação receber um convite de cortesia e emudecer sobre o que viu, desaparecer sem dar nenhum feedback, então ele prefere comprar o próprio ingresso e ir na segunda ou terceira semana da temporada, quando ninguém percebe que ele está no escurinho do teatro. Se gostar da peça, aí sim, vira um lorde, não economiza nos elogios.

Eu vou bastante ao teatro e quase sempre gosto muito do que vejo, mas já aconteceu de eu ter que fazer um "teatrinho" na saída, dizendo que adorei o que não adorei tanto assim. Por isso, prefiro ir ao camarim desejar "merda" aos amigos antes da função começar. Não é o ideal, por diversas razões. O elenco está se vestindo. Se maquiando. Se concentrando. Você pode flagrar alguém pelado. Mas ao menos o entusiasmo é genuíno, você não precisa interpretar um personagem canastrão. Jamais esqueci a vez em que vi um sujeito invadir um camarim distribuindo comentários magníficos, quando todos o haviam flagrado roncando durante dois terços da peça.

Por ora, este problema está contornado. Vem aí o projeto Teatro Já. Espetáculos online transmitidos ao vivo. Peças de talentos como Ana Beatriz Nogueira, Paulo Betti, Emilio Orciollo e Marcelo Serrado, com ingressos a apenas R$ 10 (informe-se no site teatropetragold.com.br). Você assiste em casa, tomando um vinho, sem que ninguém repare caso você durma no meio da sessão. Melhor que isso, só quando voltarmos ao prazer supremo de assistir, frente a frente, grandes atores em cima de um palco - com direito a uma passadinha no camarim depois, para cumprimentá-los com toda sinceridade.

MARTHA MEDEIROS



20 DE JUNHO DE 2020
CLAUDIA TAJES

A Orquestra Villa-Lobos pede ajuda para continuar

A Escola Municipal de Ensino Fundamental Heitor Villa-Lobos, na Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre, é o palco de um projeto que há 28 anos coloca as crianças e os adolescentes da comunidade em contato com a música. A Orquestra Villa-Lobos foi criada pela professora e regente Cecília Rheingantz Silveira a partir de um desejo: mostrar que a vida, mesmo a de quem nasce na periferia das oportunidades, tem muitos e muitos caminhos.

Tudo começou quando a professora designada para lecionar artes na Villa-Lobos propôs uma atividade no contraturno escolar. Para iniciar os alunos na flauta, instrumento que é a paixão dela desde os oito anos de idade, Cecília fundou o Clube de Flautas, que abriu em 15 de abril de 1992 já com 14 inscritos.

De lá para cá, o Clube agregou instrumentos, vivências e experiências e se transformou na Orquestra Villa-Lobos, que hoje faz parte do cotidiano da Vila Mapa e de mais três regiões da Lomba do Pinheiro. Através de oficinas, hoje são realizados 600 atendimentos semanais, quer dizer: 600 jovens têm acesso à arte todas as semanas. Agora imagine a importância disso no momento em que o nosso país vive um completo e total desprezo pela cultura.

Cecília conta que o trabalho da Orquestra Villa-Lobos se apoia em três pilares. A educação é a espinha dorsal, e nem poderia ser diferente no projeto idealizado por uma mulher que tem dedicado todos os seus dias a ensinar. Em seguida vem a arte e a cultura e o braço social - ainda que todos se misturem como em uma melodia.

A porta de entrada é a iniciação à flauta doce e o coral infantil. Cada jovem fica, em média, cinco ou seis anos na Orquestra. Muitos dos que iniciaram crianças são hoje adultos formados em Música, e continuam atuando como professores e incentivadores dos que chegam. Outros saíram da Orquestra Villa-Lobos para ganhar o mundo, como é o caso de Vladimir Soares, o Vlad, que ganhou uma bolsa de estudos em Stuttgart, na Alemanha. Lá, onde fez um segundo mestrado, ele recebeu a nota máxima, coisa que há 25 anos não acontecia em flauta doce. Em suas férias, Vladimir Soares costuma vir ao Brasil e se apresenta em uma série de concertos. Fica a dica, caso a pandemia nos dê uma trégua nos próximos meses.

A Orquestra Villa-Lobos oferece a oportunidade para os jovens expressarem e desenvolverem potencialidades e sensibilidades que, muitas vezes, eles nem sabiam ter. Mas em meio às incertezas da covid-19, todo este trabalho está ameaçado. Em abril, os recursos que permitiam o funcionamento da Orquestra foram suspensos por tempo indeterminado, causando o desligamento de 20 professores contratados e a paralisação momentânea das atividades.

Seria uma tragédia em qualquer contexto, e mais ainda quando se sabe o incrível trabalho que a Orquestra Villa-Lobos faz em um ambiente tão exposto à vulnerabilidade.

Para salvar o projeto, foi lançada uma campanha de financiamento coletivo para arrecadar recursos para a recontratação dos profissionais. A campanha Bloco na Rua, numa referência à música de Sérgio Sampaio que faz parte do repertório, está no ar pela plataforma Catarse e traz diversas recompensas a partir da contribuição de R$ 20: livros, CDs, aulas de música online e shows ao final da quarentena. Quanto mais for arrecadado, por mais tempo será garantida a sobrevivência deste projeto que há quase 30 anos transforma a realidade das crianças e jovens da Vila Mapa. E que já foi reconhecido, premiado e serviu de exemplo para iniciativas no Brasil e no mundo. Cecília encerra:

- Quando a gente fala em transformação por meio da educação, da arte e da cultura, eu posso dizer que a Orquestra Villa-Lobos é realmente um exemplo do que pode acontecer. E acontece.

Para a Orquestra Villa-Lobos continuar viva, palmas sempre para ela e a nossa contribuição aqui: catarse.me/bloco_na_rua.

CLAUDIA TAJES


20 DE JUNHO DE 2020
LEANDRO KARNAL

O TRIÂNGULO

Foram duas epidemias no ano em curso. A primeira, trágica, foi de coronavírus. A segunda, sem vítimas, foi a das lives. Não eram só médicos dando opiniões aguardadas sobre doenças ou cantores famosos nos ajudando a superar o confinamento. Todo mundo decidiu falar para o mundo.

O anonimato virou a dor mais aguda do mundo da internet. Disputas de likes e de fãs são fundamentais de uma forma objetiva: transformam-se em dinheiro. O argumento seria objetivo e bom: desejo ser conhecido porque preciso de recursos materiais. Ponto. "Monetizar" as intervenções online talvez seja o novo "concurso do Banco do Brasil". Na minha geração, a instituição pública era um caminho indicado pelas mães de classe média para seus rebentos. Aquelas senhoras que se orgulhavam da aprovação dos filhos no disputado concurso, hoje tornadas avós, comentam que seu neto tem 1 milhão de seguidores.

O ponto subjetivo das lives é mais interessante. Ser conhecido é existir. O anonimato é a morte dolorosa em vida. Novidade? O grego Heróstrato tocou fogo no Templo de Diana, em Éfeso (atual Turquia), unicamente para... ser lembrado pela posteridade. Virou uma doença que atinge criminosos e terroristas, a "síndrome de Heróstrato", mal daqueles que fazem atos violentos com o objetivo de serem conhecidos. Seríamos herdeiros dele? "Quem me cita me excita", como li em uma página da internet. Um novo Eros, uma veleidade, uma forma de tocar a eternidade possível do mundo atual, um ou dois verões no hall da fama.

A fama é tudo, o anonimato, o vazio angustiante. Fala-se de uma dor que acometeria celebridades como membros do programa Big Brother: viram estrelas supernovas no céu e, em poucas semanas, escasseiam convites e o trend topic vira a pergunta "quem é ele"? "Ex-BBB", ainda assim, parece ser um purgatório preferível ao vácuo do anonimato eterno.

As críticas à fama, claro, abundam em quem não a possui. O desdém da raposa pelas uvas inalcançáveis foi alvo de muitas reflexões, de Esopo a La Fontaine. Racionaliza-se a frustração. Sim, nossos ataques falam de nós e de nossas dores. Em inglês usa-se a expressão "sour grapes" para o amargor profundo do cacho não degustado.

Ainda que levemos em conta o demônio de olhos verdes do ciúme e da inveja, o que é a fama? É dinheiro, já vimos. Assim como alguns juízes perdoam o "crime famélico" (a vítima rouba para comer), os gregos poderiam ter ignorado o ato incendiário de Heróstrato, pois ele buscava a mesma perenidade dos que tinham construído o templo que seria uma das sete maravilhas do mundo antigo. Como condenar no terrorista o idêntico impulso do arquiteto? A morte de Lady Di foi atribuída, pelo irmão enlutado, aos tabloides sensacionalistas que não permitiam que a infeliz princesa tivesse vida privada. Ele comentou que era irônico que a mulher que tinha o nome da deusa caçadora (Diana) fosse a mais caçada do mundo de então. O público concordou e ficou horrorizado com a fúria dos paparazzi que lutavam por fotos indiscretas que o mesmo público horrorizado consumia avidamente. Hipnose de dois lados, espelho duplo, comida e fome em um looping. O Templo de Diana foi queimado por um louco por notoriedade e Diana Spencer lutou para chegar à fama e queimou-se porque havia devotos da deusa da caça travestidos de caçadores.

Ganharemos em profundidade percebendo que o site de fofocas precisa de três ângulos para formar a figura equilátera: a entidade pública que busca (com sofreguidão) o néctar da fama; o público faminto que deseja ver para saber e para criticar e, por fim, o repórter/fotógrafo/editor que identifica a dupla necessidade e contata os polos que reclamam. O triângulo do jogo da fama é um polígono estável. Uma constante? Atribuir o mal ao vértice oposto: "Eles não me deixam em paz" complementa "esta gente só quer flashes" e "o público tem direito à informação e eu, ao dinheiro".

A fama nunca incomoda. Claro que sim. Uma vez, em um programa de televisão, Sidney Magal me confessou que não pode mais dormir em um voo. Não importa a duração de viagem, se ele cochilar, virará vídeo no YouTube. Como cantor profissional há décadas fazendo sucesso, Magal precisa de imprensa e de público. Não existe um botão on/off da celebridade. Bruna Lombardi disse, certa feita, que levara seu cachorro ao veterinário. O animal sangrava e ela estava angustiada. Algumas pessoas queriam selfies quando ela entrou no consultório. É difícil equilibrar o triângulo.

Reflito e acho que não tem solução. Cada parte gostaria de enquadrar a outra em algum cercadinho de controle. Todos (celebridade, fã, imprensa) são humanos com carências e necessidades. Circulando entre eles, uvas verdes e maduras. Por um instante, o famoso quer anonimato e paz; o anônimo anela haurir do prestígio com a fama, e o paparazzo quer ganhar dinheiro com ambos. Todos, conhecidos ou obscuros, sofremos de "síndrome de Heróstrato". Tantas coisas a conhecer em nós e lutamos para descobrir a vida alheia. Talvez, como a personagem Kurtz de Coração das Trevas (Joseph Conrad), o horror do mundo distante distraia sua escuridão interna. Em resumo, autoconhecimento ajudaria a raposa, melhoraria a qualidade da uva e, de sobra, tornaria o texto de La Fontaine melhor. Esperança para o inverno que se aproxima.

LEANDRO KARNAL


20 DE JUNHO DE 2020
FRANCISCO MARSHALL

A CRISE E OS SONHOS


Oneirocrítica é o título do célebre tratado grego de interpretação dos sonhos, de Artemidoro de Éfeso (ou Daulis), do século II d.C.. Crítica, aqui, prende-se ao verbo krino, e significa discernir e aplicar critérios, ou seja, interpretar. A obra testemunha uma das culturas mais fascinantes do mundo clássico, a das relações entre história e sonho, em grego, oneiros. Para os antigos, a dimensão dos sonhos era parte do universo em que viviam, porém em contato com o espaço onde atuam as deidades e potências reveladoras. 

Na visão panteísta, o mundo é todo sagrado, está interconectado e é prenhe de sinais que importa identificar e interpretar. Esse aspecto da mentalidade mítica produziu tanto a fortuna de adivinhos, interpretando entranhas de animais, voos de aves e movimentos afins, como uma sensibilidade muito aguçada para todos os sinais do mundo, fundamento de várias ciências, sobretudo a astronomia, a medicina, o direito e a história. E se as atividades mentais são parte do mundo, o que significam os sinais dos sonhos? Eis o que a Oneirocrítica tenta responder.

O tratado de Artemidoro examina tradições gregas, romanas e orientais, certa variedade de autores e muitos casos oníricos, entre os quais o sonho com relações sexuais com a mãe. Segundo o autor, neste caso importa não a ocorrência desse sonho, muito comum, mas em que posições dava-se o sexo, e o que poderiam significar. Seis séculos antes, Sófocles já apontara o assunto, na passagem da tragédia Édipo Tirano em que Jocasta responde ao temor de Édipo, então ainda identificado como filho de outra mulher (Mérope, esposa do rei Pólibo, de Corinto), e diz a ele: "Não temas, pois em sonhos muitos mortais já compartilharam o leito da mãe" (v. 980-1). 

Essa passagem e o fascínio com o livro de Artemidoro foram parte da inspiração de Freud ao escrever A Interpretação dos Sonhos (1899/1900), a obra fundadora da psicanálise. Freud compreendeu que os versos de Sófocles apontavam para outra qualidade dos sonhos, como reveladores de desejos inconscientes, e estes, de traumas típicos da formação da personalidade, desde que saímos do útero materno. Eis o melhor encontro entre mito e literatura clássicos e ciência contemporânea.

A mudança súbita nos ritmos e estilos de vida, a angústia diante de ameaças trágicas, o peso do presente assombrando passado e futuro e a maior disponibilidade de tempo para o sono têm produzido nesta pandemia o fenômeno que está sendo chamado de "sonhos coronavírus": numerosos relatos de maior intensidade nos sonhos e pesadelos. Como isso é parte de um processo de adaptação diante da nova realidade, especialistas, atualizando a lição dos antigos e de Freud, recomendam procurar comunicar com o mundo desperto as visões dos sonhos, rememorando, anotando, conversando com pessoas próximas, ou realizando como arte as imagens desse mundo de fantasia misteriosa.

Em todo o planeta e particularmente no Brasil, muitos encontram despertos algo pior do que pesadelo, e querem logo voltar aos sonhos. Sonhemos e tratemos dos sonhos, pois deles provêm sinais para iluminar os desafios da vida.

FRANCISCO MARSHALL


20 DE JUNHO DE 2020
DRAUZIO VARELLA

TRANSMISSÃO DO CORONAVÍRUS

Por que algumas pessoas infectam muitos e outras sequer passam o vírus adiante? Da mesma forma que diante das leis, nem todos são iguais na transmissão do coronavírus.

Numa igreja de Washington, dos 61 participantes do coro, 53 foram infectados por um único cantor com sintomas da covid-19. Em Singapura, ocorreu um surto que infectou cerca de 800 trabalhadores migrantes, num dormitório.

Surtos epidêmicos semelhantes foram descritos em shows musicais, frigoríficos, restaurantes, hospitais, prisões e em instituições de longa permanência para idosos, estabelecimentos que contribuíram com mais da metade das mortes nos países europeus e pelo menos 30% das que aconteceram nos Estados Unidos.

Em artigo para a revista Science, Kai Kupferschmidt, analisou as epidemias dos coronavírus causadores da sars e da mers, que também se disseminaram principalmente entre os contatuantes. Entender as circunstâncias em que ocorrem essas infecções em grupo, é crucial para reduzir seu impacto na disseminação do novo coronavírus.

A discussão tem se concentrado no número médio de novas infecções que cada paciente é capaz de causar (R). Sem medidas de isolamento social, o R é aproximadamente igual a 3, isto é, cada pessoa infectada transmite o vírus para mais 3.

O problema é que esse número traduz a média das novas infecções, mas na prática algumas pessoas transmitem mais, enquanto outras simplesmente não o fazem. O virologista Lloyd-Smith, da Universidade da Califórnia, afirma: "O padrão mais consistente é aquele em que o valor de R é igual a zero. A maioria das pessoas não transmite".

Por essa razão, os epidemiologistas calculam o fator de dispersão (índice k), que caracteriza como a doença forma grupos (clusters) de infectados. Quanto mais baixo o k, menor é o número de transmissores do vírus.

Gabriel Leung, da Universidade de Hong Kong, defende que o novo coronavírus provoca uma concentração de "clusters" sugestiva de que um pequeno número de "supertransmissores" seja responsável por grande parte das infecções. Há estimativas de que apenas 10% dos infectados sejam responsáveis por 80% das transmissões. Essa heterogeneidade explicaria porque a doença não se espalhou pelo mundo imediatamente depois dos primeiros casos na China.

Não está clara a razão pela qual os coronavírus formam esses "clusters" de infectados. É possível que esteja ligada não só à concentração viral nas gotículas eliminadas ao falar, tossir ou espirrar, mas à capacidade de formar aerossóis que podem permanecer dispersos no ar o tempo suficiente para provocar infecções múltiplas. Em vários dos "clusters" descritos, as transmissões parecem estar ligadas a esses aerossóis.

Características individuais ajudam a explicar a existência de supertransmissores. Um estudo de 2019, conduzido entre pessoas saudáveis, mostrou que algumas eliminam mais gotículas enquanto falam (provavelmente por falar mais alto), e que cantar libera mais gotículas. O comportamento também influencia, na medida em que a falta de higiene das mãos, lugares fechados e os contatos sociais aumentam a probabilidade de transmissão.

DRAUZIO VARELLA

20 DE JUNHO DE 2020
J.J. CAMARGO

AFETOS DESPERDIÇADOS

Nada nos machuca mais do que o amor reprimido. Ainda por estes dias disse a uma paciente que a tosse devia ser da sua bronquite em conflito com o inverno, que justo agora bateu à porta, quando já havia quem cogitasse que ele nos tivesse esquecido. E que me ligasse se sentisse alguma dificuldade respiratória, ou algum aperto no peito.

Ela ficou quieta um tempo, ajeitou a máscara e anunciou:

- Aperto no peito eu sinto desde o dia 12 de março, quando abracei meus netos e meu velho me levou para Gramado para uma quarentena, que ninguém podia prever quanto duraria. Desde então, a bombinha só me acelera o coração, mas o aperto nunca mais foi embora!

É possível que, ao final deste tempo maluco, descubramos coisas boas que herdamos da amargura. Mas por ora, o que percebemos é o que perdemos, e nada nos machuca mais do que o amor reprimido.

Um amigo querido, com dois filhos pequenos, organizou uma excursão generosa em que os filhotes seriam levados para serem vistos pelos avós que lamentavam a insuportável saudade deles. O encontro foi na frente da casa dos velhinhos, com a cerca metálica impondo a distância regulamentar e contendo a vontade desesperada de abraçar. Depois de uns 15 minutos de um falatório desorganizado que misturava promessas e declarações de amor, o ritual terminou com muitos beijos gesticulados.

No dia seguinte, ele ligou para a casa dos pais. Quando quis saber como estavam, a mãe confidenciou:

- Eu estou bem, meu filho, mas me preocupa teu pai. Desde que vocês foram embora, ontem, ele não parou mais de chorar. E quando lhe perguntei o que ele sentia, ele me disse: "Nenhuma dor. Eu choro de pura tristeza!".

As perdas afetivas, dolorosas em qualquer idade, são multiplicadas na velhice, quando a noção inevitável da proximidade do fim dos tempos elimina a resiliência. E deixa exposto o nervo do tempo perdido, numa fase da vida em que se pode aparentar serenidade, mas no fundo não se tolera desperdício de afeto. De nada serve argumentar que tudo passará e que, se Deus quiser, (e como saber se Ele, quererá?), poderemos compensar esta espera sofrida com abraços redobrados.

A pressa afetiva é uma marca da velhice sensível, e a promessa de resgate do tempo perdido não convence, não numa fase em que cada semestre conta. Porque afeto transferido é amor desperdiçado. Ficou doendo em mim a tristeza do choro daquele avô, que não precisei conhecer para me identificar com seu sofrimento. Com tão boa causa, choraríamos juntos.

J.J. CAMARGO

20 DE JUNHO DE 2020
DAVID COIMBRA

Para os amantes de cães

Tem um cachorrinho que fica na janela do vizinho. Vejo-o todos os dias, enquanto escrevo, aqui, no remanso do meu isolamento social. É um cachorrinho branco, parecido com o Milu, o cachorro do Tintim.

Hoje a maioria dos leitores não sabe quem é o Tintim. É um personagem da história em quadrinhos do belga Hergé. O Tintim era um repórter que viajava por todo o mundo levando o Milu junto. O Milu era um fox-terrier branco. Ele falava, era cínico e bebia uísque. Um bom cachorro.

Houve polêmica envolvendo as histórias de Tintim, acusadas de racismo. Se olharmos sob a perspectiva atual, são racistas mesmo. Mas quem vai ler precisa compreender que Hergé escreveu sob o ponto de vista belga nos tempos do imperialismo europeu. Se houver essa contextualização, as historinhas de Tintim são ótimas de ler e sorver.

Mas isso não interessa aqui. Aqui o que interessa é o cachorro do meu vizinho, que fica o dia inteiro na janela. O dia inteiro, por Deus. Ele veste uma roupa de cachorro e se debruça no parapeito como se fosse uma pessoa. Passa o tempo todo olhando para a rua com grande interesse. Às vezes, quando outro cachorro caminha lá embaixo, na calçada, ele se projeta um pouco mais, bota meio corpo para fora e late, muito brabo.

Isso é uma coisa que os cachorros têm. Se um cachorro está passando na rua com o seu dono humano e vê outro atrás de uma cerca, ele se põe a latir furiosamente. O outro, por sua vez, late de volta com mais raiva. E, se há mais cachorros nas imediações, todos latem de um jeito belicoso, aqueles cachorros estão se desafiando, estão discutindo como se estivessem na Câmara dos Deputados.

Não entendo isso do mundo canino. Os cães não deveriam ser amigos? Não há solidariedade entre a espécie? Porque, se um ser humano passa, eles não ligam, mas se tem um cachorro junto, pronto: é a maior confusão, todo mundo latindo e brigando. Francamente.

Pois esse cachorrinho na janela faz isso. Ele não é grande, mas não se intimida com pastores-alemães ou dobermanns. Ele late mesmo.

Aqueles latidos me irritam. Estou escrevendo, ouço os latidos, paro tudo e olho pela janela. Às vezes levanto e vou até o parapeito, para conferir quem ou o que está na calçada. O cachorro me desconcentra. Pior: ainda que ele não faça barulho, me acostumei a olhá-lo. Tornou-se um hábito. Vejo-o quieto do outro lado e me intrigo: por que esse cachorro está tão quieto?

Assim foram-se as semanas e os meses de isolamento. Eu escrevendo aqui e o cachorro na janela ali. Mas, um dia, a janela do cachorrinho amanheceu fechada. Achei estranho. Calculei: vai ver dormiram até mais tarde e vão abri-la perto das 10h. Mas as 10h chegaram, as 10h passaram e a janela não se abriu. Estávamos já perto do meio-dia, e nada de a janela se abrir. Ué? Será que aconteceu alguma coisa?

Durante toda a tarde eu escrevia um pouco, parava e olhava para fora, para ver se o cachorrinho estava do outro lado da rua. Que nada. Foi-se o dia, chegou a noite, e a janela permaneceu fechada.

Na manhã seguinte, a primeira coisa que pensei ao acordar foi: será que aquele cachorro chato vai estar na janela? Foi com alguma ansiedade que caminhei até a minha mesa, espiei para fora e... ele não estava. A janela do vizinho continuava fechada e o bairro continuava em silêncio.

Passei todo o dia com a sensação estranha de que algo estava faltando. À noite, cheguei à conclusão óbvia: eu não apenas me acostumara com o cachorrinho na janela, como gostava dele! Mas, que droga, e agora ele se foi. Será que morreu? Será que se mudou? Será que caiu da janela?

No terceiro dia, ao deparar com a janela mais uma vez fechada, suspirei de tristeza. Cheguei a pensar em ir até o prédio do vizinho, bater na porta do apartamento e perguntar o que tinha acontecido, mas me contive. Melhor não se meter com os cachorros alheios.

Paciência. Suspirei de novo, resignado. Peguei meu café e de ombros baixos, liguei o computador, para escrever minha crônica. Mas não tinha ideias. Deu-me um branco. Pensando no cachorro, não conseguia me concentrar. Bebi o resto do café. Ia me erguer para buscar outra xícara, quando... ele latiu! Corri para a janela e o vi no prédio do outro lado da rua, debruçado no parapeito, dentro de sua roupinha, latindo ardorosamente para um guaipeca que vagabundeava perto de um saco de lixo. Sorri. Fiquei feliz. Sentei-me para escrever, revigorado. E, embora estivesse sozinho, falei bem alto, como em comemoração:

- Late, cachorrinho! Late!

DAVID COIMBRA


20 DE JUNHO DE 2020

ARTIGOS


Novo normal, novos gestos


As estruturas sociais que nos mantêm funcionando como sociedade são mantidas por muitas normas não escritas de cordialidade e boa convivência. Uma das normas mais comuns é o aperto de mãos, tradicionalmente realizado com a mão direita. O gesto se originou na Grécia antiga como um gesto de paz para mostrar que a mão dominante estava desarmada. Os romanos aperfeiçoaram o gesto movimentando os braços para cima e para baixo para se certificar de que não existiam armas guardadas nas mangas. Este gesto sobrevive até hoje, apesar de pouquíssimos de nós corrermos perigo de sermos atacados pelas pessoas que cumprimentamos.

Ao longo da História, esse gesto salvou milhares de vidas, não por ter evitado ataques diretos de pessoas armadas, mas pela coesão social que gerou e que em muito ultrapassou o motivo pelo qual ele foi inicialmente planejado.

A atual pandemia está trazendo novas normas sociais - apertar a mão já não é mais sinal de respeito e foi substituída por um tocar de cotovelos. Já tossir sem botar o braço na frente é visto como uma agressão, quase comparável a puxar uma arma. No entanto, o gesto que mais representa esta pandemia é a ação de usar máscara, pois ela protege mais a outra pessoa do que a nós mesmos, por ser eficiente em reduzir a liberação de gotículas da nossa respiração que podem conter o vírus infectante.

Assim como o aperto de mãos, que deixou de ser um método para indicar se a outra pessoa está armada e passou a ser um símbolo de coesão social, o uso de máscara, mais do que filtrar nossas gotículas, é um símbolo de que nós nos importamos com o próximo e faremos o pequeno sacrifício de usar uma máscara para evitar que outros sejam infectados. Com isto estamos também contribuindo para gerar uma nova norma de coesão social que salvará muitas vidas pelo efeito direto, mas principalmente pelo efeito indireto de indicar que por trás da máscara, mesmo que encoberto, está um sorriso de alguém que se importa com o próximo e que quer lutar por uma sociedade melhor, para o bem de todos.


GUIDO LENZ, PROFESSOR, PESQUISADOR E DIRETOR DO CENTRO DE BIOTECNOLOGIA DA UFRGS

20 DE JUNHO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

Novo rumo na educação

Abraham Weintraub não vai deixar nenhuma saudade de sua passagem pelo Ministério da Educação, ao menos para aqueles que verdadeiramente se preocupam com o ensino no Brasil. Mas, independentemente de quem fique à testa do MEC a partir de agora, será preciso uma guinada que faça a pasta retomar o foco para a sua função precípua de formular políticas de aprendizagem para dezenas de milhões de crianças e jovens, deixando de lado polêmicas inúteis.

Os últimos 18 meses, primeiro com Ricardo Vélez Rodríguez e depois com Weintraub, foram um tempo precioso desperdiçado com controvérsias dispensáveis em torno de questões superficiais, confrontos estéreis e discussões ideo- lógicas por meio de redes sociais, enquanto o mais relevante, a urgência em melhorar a qualidade da educação no país, foi ficando à deriva.

Não há milagre capaz de levar o Brasil a um outro patamar de desenvolvimento. Os degraus do progresso, como mostram os exemplos de todas as nações que lograram melhores condições de vida para sua população, foram escalados pela via da educação. O drama nacional é que pequenas correções de rumo não são suficientes, como atestam as avaliações internacionais em que o desempenho dos alunos brasileiros é comparado com o de estudantes de outros países. Enquanto o Brasil fica estagnado, os demais, principalmente os pares emergentes, avançam celeremente, o que no fim significa uma mão de obra mais produtiva em todas as áreas e uma economia mais competitiva e forte, capaz de uma inserção altiva na era do conhecimento, sem apenas ir a reboque da ciência e do conhecimento alheios.

O desastre da educação brasileira, é preciso admitir, não começou no atual governo. Mas se agravou, piorando o que já era deficiente, pelo absoluto desperdício de energia em temas secundários. O imenso atraso do Brasil, agora, exige uma revolução que plante as sementes de um amanhã mais promissor. A pasta da Educação, na verdade, é um ministério do futuro, que infelizmente ficou mais distante com a atual inépcia que domina o MEC. Mas sempre há tempo de reencontrar o rumo.

A questão, de qualquer forma, vai muito além da figura de um ministro. Todo cidadão, com ou sem filho na escola, deve se engajar de corpo e alma na batalha para a educação se transformar de fato em uma prioridade. E não se trata apenas de direcionamento de mais recursos, mas de uso adequado dos orçamentos, criatividade e vontade de mudança. Os ganhos, ao longo dos anos, se multiplicam, materializando- se em um desenvolvimento mais robusto, duradouro e, principalmente, inclusivo. Como está o ensino em todos os níveis e esferas, o verdadeiro progresso continuará sempre uma quimera no Brasil.

20 DE JUNHO DE 2020
RODRIGO CONSTANTINO

O mito do jornalista imparcial

Uma reportagem deveria sempre buscar a imparcialidade, relatar os fatos com a maior objetividade possível, e escutar os diferentes lados sobre a questão. Isso, no mundo ideal. Na realidade, o viés ideológico já começa na escolha das pautas, depois é estampado na manchete, no tom dado à matéria, na seleção dos "especialistas" que vão comentar o caso etc. E isso vale para reportagens.

Quando o assunto é comentarista de opinião, o background fala ainda mais alto, pois todos nós temos uma visão de mundo. O mais transparente, nesse caso, seria o leitor conhecer essa visão, saber de onde o comentarista parte para fazer suas análises, sem a pretensão de que se trata de alguém totalmente desprovido de preconceitos, voltado estritamente para uma análise fria sem qualquer preferência.

O que escrevo é bastante óbvio para o público, mas curiosamente um tabu para os jornalistas. Entendo. Aquele ideal descrito acima é uma imagem bela de se preservar. Mas, quando fica cada vez mais evidente para o público a distância entre meta e resultado, a consequência é a perda de credibilidade do veículo. A patota não se dá conta disso e depois culpa o público pela queda de audiência.

Debatia com um colega na última semana sobre o caso Queiroz e ele, irritado e mesmo ofendido, rebateu que não era esquerdista quando apontei seu viés, mas sim um jornalista. Ora, e por acaso uma coisa impede a outra? E jornalistas não são seres humanos com suas visões políticas, suas ideologias até? A obsessão do colega em atacar sempre Bolsonaro e jamais conseguir elogiá-lo trai o viés que ele nega.

Outra jornalista, famosa, chegou a comparar o ex-ministro Weintraub, no dia de sua saída, a um vírus, considerando-o pior! Isso em época de pandemia, que já tirou a vida de mais de 40 mil brasileiros. E olha que ela é da turma do "fiquem em casa" e da quarentena gourmet. Mas parece que a paixão domina a objetividade na hora de comentar a queda do ministro.

Todo mundo é livre para ser de esquerda, por mais que eu julgue isso um equívoco. Mas pega mal quando o esquerdista militante se passa por jornalista imparcial. O leitor percebe...

RODRIGO CONSTANTINO

20 DE JUNHO DE 2020
INFORME ESPECIAL

O vírus sacudiu a burocracia

Centenas, se não milhares, de regras e leis inúteis foram varridas pela pandemia no Brasil. Melhor que não fosse desse jeito, mas que bom que aconteceu. De licenças para fabricar produtos a carimbos estapafúrdios, a burocracia bateu de frente com a sua própria imobilidade, muitas vezes a serviço de interesses privados e da reserva de mercado a poderosos e privilegiados.

Tomara que, nesse aspecto, o normal de antes fique para sempre no passado. Acelerar processos e criar ambientes simples e seguros para empreender e viver deveriam ser dois dos focos mais relevantes da atuação do Estado - o que, muitas vezes, seria a não atuação em nome do bem comum.

Uso exemplos atuais para ilustrar essa análise. Até bem pouco, pensávamos que respiradores só podiam ser caros. Bastou a necessidade urgente bater às nossas portas para que centenas de universidades, empresas e empreendedores encontrassem maneiras mais baratas e simples de salvar vidas, mantendo o rigor técnico, mas sem que um cipoal até então insuperável de normas absolutamente desnecessárias atrapalhasse. Vale o mesmo para a fabricação de alguns tipos de máscaras, antes condicionada a rigores inexplicáveis. Conciliar velocidade e segurança é o grande desafio do presente e do futuro.

Essa é uma das boas lições da pandemia.

Do bem



Quatorze respiradores foram doados pelo Instituto Cultural Floresta e pelo Sindicato dos Hospitais e Clínicas de Porto Alegre para os hospitais Divina Providência e Ernesto Dornelles. O sindicato também forneceu 250 kits de higienização e EPIs para residenciais geriátricos. Desde abril, o Instituto investiu mais de R$ 15 milhões no combate à pandemia.

A Cruz Vermelha RS vai redirecionar medicamentos produzidos pelo Grupo RB - Naldecon e Strepsils - para comunidades, associações e postos de saúde. Doando mais de 484 mil produtos no Brasil, a empresa investiu mais de R$ 12 milhões no combate à covid-19.

Pelo menos 415 trabalhadores do setor da cultura começaram nesta semana a receber cestas básicas da Defesa Civil do Estado, que faz entregas na Capital e no Interior. A ação "Ventos de Solidariedade na Travessa dos Cataventos" segue arrecadando alimentos não perecíveis e produtos de higiene e limpeza na Casa de Cultura Mario Quintana.

Estão sendo distribuídas 42 mil máscaras pela rede CR Diementz em hospitais e unidades de saúde públicas nas 65 cidades onde tem lojas no RS e em SC.

Desde o início de maio, a empresa ZON Design, de Porto Alegre, está dando espaço nas suas redes sociais para que entidades assistenciais divulguem seus contatos e peçam as doações de que precisam. Para ajudar: @zondesignpoa no Instagram.

Para amparar instituições que resgatam cães e gatos abandonados em Porto Alegre e na Região Metropolitana, a seguradora Sabemi está fazendo uma campanha. Quem quiser contribuir pode acessar o site www.gelb.vc e financiar kits de ração que variam entre R$ 12 e R$ 44. Os voluntários da empresa serão os responsáveis por fazer a entrega das doações.

TULIO MILMAN

sábado, 13 de junho de 2020



13 DE JUNHO DE 2020
LYA LUFT

Estes estranhos tempos

Sim, estes são tempos estranhos. Esquisitos, bizarros, tristes, assustadores... desafiadores.

Exigem muito de nós. De alguns, exigem o máximo. E, de um jeito ou outro, nos tiram muita coisa. De alguns, tiram quase tudo. Há quem tenha perdido emprego, aulas, dinheiro, segurança, confiança, sonhos e futuro. Pior, há os que perderam a saúde, com grande sofrimento.

Pior ainda, há quem perca pessoas queridas levadas por esse mal ainda imbatível. O causador de tantos males é uma criaturinha minúscula, invisível, maligna e destruidora chamada vírus, com esse sobrenome até bonito: "corona".

E nos mostra, como um tsunami de confusões, contradições, medos e disputas, como um vento sinistro que deixa curvada toda uma humanidade, o quanto somos vulneráveis.

Todas as riquezas do mundo não resolvem o mal universal que nos assola. Podem, sim, financiar pesquisas dos melhores cientistas do mundo, que se empenham desesperadamente nelas. Precisamos conhecer esse inimigo mínimo e imenso, invisível e destruidor, temido como um deus do mal.

Estes são tempos de parar para pensar: difícil, eu sei. O que ando fazendo da minha vida, do meu dinheiro ou da minha necessidade, dos meus amores ou rancores, como estou construindo minha existência ou destruindo o que eu toco?

Estes são, para mim pessoalmente, tempos de impaciência: quero de volta a minha vidinha cotidiana, para receber família e amigos, para nossos almoços habituais, quero sair com alguma amiga, viajar com meu marido, ou simplesmente ficar em casa sem sentir os gemidos de um mundo subitamente atormentado.

Estes são tempos de cifras dolorosas, mortes inacreditáveis e isolamento esquisito: semanas, meses já, muitos de nós fechados em suas casas, curtindo o conforto de seus lares, ou sofrendo horas de conflito e mágoa, agora que temos de estar juntos mesmo que a gente não se suporte.

Estes são dias de angústia e de esperança, de luzes no horizonte ou treva no túnel, notícias felizes ou adiamentos desanimados.

O que fazer em tempos de pandemia, dessa peste moderna?

Talvez o melhor seja cerrar os dentes e fechar as mãos, abrir bem os olhos, e os ouvidos, pois a verdade ajuda mais do que as ilusões.

Mascarados sem fingimento e alcoolizados sem prazer, enfrentamos o não saber cotidiano, de preferência com o coração aberto e o ânimo, seja como for, ainda firme. Até porque não temos outra saída a não ser um discreto, anônimo, surpreendente heroísmo que não sabíamos existir.

LYA LUFT



13 DE JUNHO DE 2020
MARTHA MEDEIROS

As fake news do amor

"Quando existe amor, a relação se torna fácil.". Nunca, jamé. É sempre um desafio, mesmo entre pessoas experientes e bem resolvidas. A maturidade ajuda, é verdade, mas supor que exista uma relação em que um não queira esganar o outro de vez em quando é acreditar muito em conto de fadas. Aliás, os contos de fadas só mostram o idílio pré-nupcial, nunca revelam as discordâncias, as concessões e a exaustão daquela parte chamada "felizes para sempre".

"Para sempre?"

Aos que conseguem se divertir e evoluir juntos por 40 anos, por 50 anos ou mais, meu respeito e minha admiração, mas a persistência pode ter motivos menos nobres, como preguiça, medo, preservação de patrimônio, manutenção do status social. "Duração" não é um valor em si. Quando temos coragem de encerrar um ciclo e nos abrimos para novos começos é que podemos de fato ir mais longe. Dois, três, quatro grandes amores durante a vida? Frivolidade nenhuma. Bendita oportunidade de expandir nosso autoconhecimento.

"Só relações sérias e firmes é que importam."

Todas as relações que nos emocionam de alguma forma e que aprimoram a arte da convivência amorosa são "sérias", incluindo as breves, soltas, leves, que não fazem a gente sentir que está arrastando uma bola de chumbo acorrentada aos pés.

"É num relacionamento que encontramos palavras de incentivo e carinho."

E é também onde somos mais atacados e criticados - intimidade demais dá nisso: bullying conjugal. O amor é para os fortes.

"O melhor de uma relação amorosa: sexo à vontade, quando quiser."

Você deve ser jovem, aproveite. Eu, que também já fui meio tarada, ultimamente ando a fim de lançar a campanha "Conchinha é o novo sexo". Meu namorado discorda 100%.

"É impossível ser feliz sozinho."

João Gilberto era um gênio, mas este romantismo às vezes confunde as pessoas. Muita gente ainda acredita que é preciso formar um casal a qualquer custo. Fundamental é mesmo o amor? Sim, mas só nos casos em que o amor é melhor do que a nossa solidão. Se não for, não é preciso se conformar com qualquer coisa.

"O amor é o lugar em que você pode ser absolutamente sincero."

Aconselhar, pedir, chorar, se abrir? Pode. Confidenciar seus traumas infantis? Que fofo. Pode. Dar uma opinião franca sobre os parentes um do outro, meter a colher sobre a educação dos enteados? Não pire. Narrar as fantasias eróticas que costuma ter com o garçom da churrascaria? Se você é do tipo que produz provas contra si mesmo, vá em frente. Falar tudo, tudo, tudo o que você pensa sobre sua alma gêmea, a fim de demonstrar a ela sua atenção plena? Acredite: ela prefere sua desatenção prudente e educada.

Um brinde ao fascinante amor de verdade, que não é menos amor, é apenas um amor mais generoso e eficaz. E alma gêmea não existe, também é boato.

MARTHA MEDEIROS