sábado, 11 de julho de 2020



11 DE JULHO DE 2020
BEM-ESTAR

A TRISTEZA FAVORECE O VÍRUS

ENTREVISTA: Nilton Bonder, Rabino e escritor, autor de "Cabala e a Arte de Preservação da Alegria"

Muita gente confunde alegria com felicidade. Como diferenciá-las?

Trato no livro a alegria como uma das três partes de Eros - o impulso de vida -, juntamente com a ambição e a sexualidade. A ausência de um desses pilares compromete a qualidade da vida. Os três não são sentimentos, mas disposições. Portanto, você não está nunca alegre, você é alegre ou não é, ou soube preservar sua alegria inata ou não soube. A ideia de que a alegria possa ser um estado pressupõe que seja a reação a algo, quando ela é uma essência, um humor. A felicidade, por sua vez, é justamente o contrário: um estado de contentamento. A felicidade depende de interações com a vida, enquanto a alegria independe. Ela é um ânimo, um desejo e uma curiosidade que nascem do âmago do ser vivo.

Para o senhor, a alegria não pode ser fotografada, mas filmada, porque não é o resultado, mas o processo. É isso o que caracteriza, por exemplo, as pessoas que se consideram felizes no trabalho?

Essa cinética da alegria resulta do fato de que ela é infantil, ela salta de interesses constantemente. A tentativa de se apegar a uma alegria que brotou é o início da perda da capacidade de preservá-la. A alegria é momentânea e ela deve estar pronta para buscar uma novidade ou uma nova experiência. Desapegar-se do lugar bom com fé de que existem outros lugares bons é a natureza da alegria. Fotografá-la é tentar percebê-la estática numa posição. Uma criança como modelo alegre não para quieta. Ela larga o brinquedo que antes deslumbrava e logo vai em busca de algo novo. O adulto acha que ela se entediou, mas ela na verdade está neste "filme dinâmico" atrás da alegria, desejo profundo de sentir e vivenciar emoções.

O senhor diz que o ser humano nasce alegre e que alegria não tem causa externa, mas interna. Mas há pessoas que não são alegres, não? O que aconteceu com elas?

Todos nascem alegres. Uma criança que nasce com insuficiências de saúde luta para ficar por aqui. Seu desejo pela vida é a alegria. Por isso o livro não é sobre os alegres e os não alegres, mas entre os que souberam preservar sua alegria inata e os que não conseguem. E isso acontece no processo de formação, quando muitas das continências e dos aprendizados da civilidade estabelecem, ao tentar ensinar sobre o certo e o errado, também o bom e o ruim, o alegre e o triste. Quando conhecemos o conceito de triste, tornamos a alegria o seu contrário. A alegria até então não tinha antônimo. Uma criança ri alegre e chora alegre. Quando ri, há alegria por acolher prazer e sucesso; quando chora, há alegria por acolher limite e derrotas. Ambas experiências são igualmente ricas e potentes do ponto de vista das emoções e das vivências. As pessoas que entristeceram tentaram controlar ou manipular a alegria. Não souberam preservá-la.

No fim de 2019, em entrevista a ZH, o senhor disse que a ampliação da vida (tanto pela longevidade quanto pelo "monte de cacarecos" que ficamos olhando) provocou uma grande angústia existencial. O quanto o coronavírus veio para bagunçar ainda mais o coreto ou por ordem na casa?

O mundo materialista e capitalista em que vivemos equiparou a alegria ao consumo e ao sucesso. Assim, a epidemia do coronavírus que, além da ameaça à saúde, é um revés às liberdades, às economias e aos projetos, parece um cenário perfeito para a tristeza. Por isso as pessoas acorrem aos shoppings. Elas não estão indo comprar itens de primeira necessidade, estão indo comprar alegrias. Mas a alegria não está nas coisas ou nos resultados, a alegria está nas experiências. Sob este prisma, 2020 é profundamente rico nas vivências internas que estamos conhecendo, nas oportunidades de sentir empatia e novas emoções. E esta será uma prova à nossa civilização e espécie. Se voltarmos a um normal ainda mais sedentos por comprar e consumir alegrias, sairemos mais insatisfeitos e maior será a quantidade de quinquilharia a poluir o mundo. Há uma profunda conexão entre sustentabilidade e alegria. Colocar ordem na casa exige um resgate da verdadeira alegria. Esta não consome, mas se deixa consumir; seu foco não é o controle, mas a interação.

Como, em um período como o da pandemia, preservar a alegria?

Como disse, a alegria independe de fatores externos. Eles demandam atenção, cuidado e proatividade, mas não precisam da tristeza. Muito pelo contrário, a tristeza é uma apatia e uma procrastinação que é muito perigosa em tempos de zelo e aplicação. Tristeza pode funcionar a favor do vírus.

Neste contexto, os alegres são bem-vindos ou podem ser encarados como alienados?

Esta alegria superficial, de acorrer a espaços inseguros ou ir a festas nitidamente interditadas, está mais para o "bobo alegre", sinônimo de idiotice. Mas da maneira como estou definindo a alegria, ela é item essencial junto com a máscara. Não é o sorriso falso, uma máscara debaixo de outra, mas a capacidade emocional de interagir profundamente com a vida como momentos de crise e perigo demandam.

Como o senhor resumiria para uma criança os quatro tipos de alegria - física, emocional, intelectual e espiritual?

Eu resumiria não para uma criança, porque ela já sabe, mas para a criança já em formação ou para o adulto. No plano físico, reinicie a vida a cada dia; no emocional, fique desperto e não esperto; no intelectual, seja genuíno e não se troque por olhares falsos das expectativas suas e dos outros; e no espiritual, nunca perca a graça que é fazer coisas gratuitamente muito grato.

Há horas em que é importante e salutar manifestar a tristeza, certo? Como encontrar o equilíbrio? Como não deixar a tristeza dominar?

A alegria é sempre positiva e a tristeza, sempre negativa. Mas há momentos onde o sentimento alegre está em viver uma emoção difícil ou com características de tristeza, como em perdas ou frustrações. O alegre, ele apenas vive qualquer emoção plenamente, e o triste se esquiva de vivê-las. Não é um conceito simples e é bastante contraintuitivo. Leia o livro!

Ao observar o título do novo livro do rabino Nilton Bonder, um porto-alegrense de 62 anos radicado há muito tempo no Rio, o psicanalista Abrão Slavutzky expressou a surpresa que pode ser comum a outros leitores. "No ano de 2020, uma obra sobre a preservação da alegria choca-se com o peso da tristeza", afirmou o médico e escritor em sua resenha sobre Cabala e a Arte de Preservação da Alegria: Preservando o Gosto, a Sinceridade, a Autenticidade e a Graça, um lançamento da editora Rocco (leia o texto completo na página 6).

Sendo assim, de cara o livro - gestado antes e concluído durante a pandemia - já alcança um de seus objetivos: provocar reflexão. No contexto do coronavírus, a alegria é possível?

- Da maneira como estou definindo a alegria, ela é item essencial, junto com a máscara - responde Nilton Bonder, em entrevista por e-mail (leia, ao lado, a íntegra). - Não é o sorriso falso, uma máscara debaixo de outra, mas a capacidade emocional de interagir profundamente com a vida como momentos de crise e perigo demandam..

Com orelha assinada pelo humorista Marcelo Madureira, do Casseta & Planeta, o livro é o terceiro da série Reflexos e Refrações, em que Bonder une a Cabala - ensinamentos presentes no judaísmo - a questões cotidianas (os anteriores foram Cabala e a Arte de Manutenção da Carroça: Lidando com a Lama, o Buraco, o Revés e a Escassez e Cabala e a Arte do Tratamento da Cura: Tratando a Dor, o Sofrimento, a Solidão e o Desespero). No volume atual, o rabino lança mão de parábolas, contos e vivências pessoais para falar, por exemplo, sobre como podemos sentir alegria em meio ao luto.

A alegria, nas palavras do rabino, não é um estado ou uma condição, "e sim o próprio sopro da vida" - um dom que nasce com cada um, mas que algumas pessoas não souberam preservar. "Você é alegre ou não é", diz Bonder.

Um símbolo gaúcho de pessoa alegre, a jornalista Tânia Carvalho, 77 anos, concorda:

- Tem quem olhe para frente, outro, para trás. Tem quem se delicie com um laguinho no meio do campo, outro que ache bobo.

Tânia diz que seu trabalho sempre foi "passar um alto astral" ao público. Entende que a alegria facilita tudo na vida. Ultimamente, ela admite que tem adotado mais o silêncio, refugiando-se na leitura de dois a três livros por semana, como um jeito de se apaziguar "nessa loucura toda".

- As pessoas estão muito tristes. É preciso contaminá-las com a alegria. Se você não consegue ser alegre, que pelo menos se cerque de pessoas assim. Gente triste que procura gente triste não dá! - vaticina. - Vamos ser mais otimistas, ter esperança no futuro, exercitar um pouquinho de bom humor, demonstrar um pouquinho de alegria por estar vivo, né?!

u "temos a doce ilusão de ficar só sentindo a emoção boa"

Sobrevivência tem sido uma palavra-chave neste momento que alguns encaram como um apocalipse lento e silencioso. O "clima de fim do mundo", como diz a instrutora de yoga Cintia Warmling, 29 anos, parece nos obrigar a ver as coisas apenas em preto e branco. Ela contesta:

- Estamos tendo de encarar que não existe felicidade total nem tristeza total. Estamos tendo de equilibrar, mas isso também não significa ficar nos 50% para cada lado. É uma oscilação.

A pandemia mudou bastante os planos de Cintia para 2020. O local onde daria aulas de yoga foi fechado. Ela chegou a ingressar em uma iniciativa via Instagram, mas percebeu que a exposição não lhe fazia bem ("Fico nervosa") e deu uma parada em junho.

- Este é um dos ensinamentos da pandemia: a pausa pode ser um pouco maior do que os cinco minutos para o café. Temos de aprender a parar. Na yoga, no momento do relaxamento final, há uma posição chamada savasana, que é a postura do cadáver. Sempre notei a dificuldade das pessoas em completar a savasana, porque as pessoas não param! É hora de uma reconexão literal com o corpo, voltar a entender que somos mortais. No oposto, estão os que seguem achando que são imortais, os que negam os riscos e lotam as calçadas dos bares, as pessoas que não conseguem parar.

O que Cintia diz conversa com o que pensa o escritor e professor de Literatura Jeferson Tenório, autor do romance O Avesso da Pele (Companhia das Letras), que está sendo lançado (leia resenha na página 12 do caderno DOC). Para ele, a pandemia mostrou o quanto somos frágeis e nos iludimos.

- Queremos controlar tudo. Até o que não podemos. Acreditamos em saídas mágicas. O cerceamento da liberdade é uma violência. No entanto, não estamos presos. Estamos nos salvando. E sorte daqueles que podem se salvar. É preciso ressignificar a casa. Reconhecer nela os espaços de afetos perdidos.

Conforme Tenório, sentir-se triste é inevitável e necessário.

- E talvez, por isso, a felicidade consista, em última análise, em termos a habilidade de administrar a tristeza. A alegria é minimalista, por isso exige cuidado e atenção com o presente. É o futuro que nos desabriga. Domar nossas expectativas é o que se pode fazer pela felicidade. Olhar para futuro com o eterno pensamento de "quando isso acabar" nos impede de viver o que precisa ser vivido.

Controle - ou a fantasia do controle - e expectativas são obstáculos que nós mesmos colocamos à frente, segundo a psicóloga Mara Lins, diretora do Centro de Estudos da Família e do Indivíduo (Cefi).

As emoções, diz Mara, são como uma forma de comunicação do nosso corpo com o que está acontecendo, dentro e fora de nós. Cada emoção tem um impulso importante. A vergonha, por exemplo, faz a gente se fechar. O medo, se proteger: tem quem lute, quem fuja, quem congele... O nojo faz a gente rechaçar, a raiva, atacar. A culpa ajuda a reparar algo que deu errado. A tristeza convida a se retrair, um momento de parar e avaliar a vida. E a alegria, "prima da felicidade", tem a função de aproximar e é a que mais traz bem-estar, inclusive biologicamente.

- Vale recapitular - sugere a psicóloga: - Quantas emoções, entre aspas, ruins de sentir, né e só uma, com os seus derivados, boa, né? Eis a grande questão que nos atrapalha enquanto seres humanos pensantes: temos a doce ilusão de ficar só sentindo a emoção boa, a alegria, e isso é impossível.

A vida, reforça Mara, é diferente daquela imagem que a cultura e a sociedade tentam fazer colar. Aquela pressão de que temos de ser ou estar felizes o tempo todo.

- Sou terapeuta de família e, por vezes, ouço pais dizendo: "Eu quero que meu filho seja feliz". Claro que eles estão falando de bem-estar e de amor, mas chega a me dar um frio na barriga. A gente está passando uma ideia errada. O filho vai ficar com uma expectativa e isso pode não acontecer, porque não somos felizes o tempo todo. Ensinam que a tristeza deve ser evitada, como se coisas ruins não fizessem parte da vida.

É uma imagem falsa da vida, afirma Mara, e isso gera confusão. Expectativas mais realistas podem contribuir para a conquista de um senso de felicidade.

- Tem um conto budista que diz mais ou menos assim: "Se você tem cabras, você vai ter problema de cabras. Se você tem trabalho, vai ter problemas de trabalho. Se você estuda, vai ter problemas de estudo. Se você está em um relacionamento conjugal, vai ter problemas de relacionamento conjugal. Se você é pai, vai ter problemas de pai. Se você é filho, vai ter problemas de filhos". Temos problemas. Viver é a arte de resolver problemas. É assim. Não existe nada perfeito. Somos imperfeitos. 

TICIANO OSÓRIO


11 DE JULHO DE 2020
J.J. CAMARGO

CONSOLAR NÃO É PARA PRINCIPIANTES

O solidário na dor fala pouco, abraça muito, se comunica com o coração e tudo soa verdadeiro
Como consolar exige uma interação afetiva e temporal de sentimentos, e a empatia, que sempre foi escassa, nos últimos tempos encolheu, tudo passou a contribuir para fazer do consolo, como gesto humanitário, um grande desafio de sensibilidade.

Essa dificuldade faz com que rituais, como por exemplo o velório, que só se justifica pelo exercício do consolo e da solidariedade, se transforme, na maior parte do tempo, em suplício para quem tem que ouvir e desespero para quem se dispôs a falar, e antes de terminar a frase já percebe que o discurso não encaixou.

Grande parte do problema decorre da independência de sentimentos. O solidário na dor fala pouco, abraça muito, se comunica com o coração e tudo soa verdadeiro. Quem está apenas cumprindo a agenda da formalidade, não consegue parar de falar, e como, de fato, não tem o que dizer, se socorre do instrumento mais pobre da linguagem oral: a frase feita. Esta é a maior tortura para o consolado e uma angústia para o consolador, que sempre termina a arenga com a sensação de alívio pelo fim da provação.

A frase mais ouvida, "Tenha força!", não faz o menor sentido, porque estar muito triste não tem nada a ver com sentir-se fraco.

Alguns, percebendo que a tristeza é o problema, resolvem distrair o sofredor, contando histórias divertidas, presumivelmente vividas com o morto, e se sentem estimulados a acrescentar graça e proeza ao relato, porque a única testemunha possível não volta para confirmar. Nem a cara de desconfiança do filho, como a dizer "se isso tivesse ocorrido, eu saberia", consegue frear o falastrão, determinado a demonstrar, com ares de homenagem, que "um tipo com esta esperteza e coragem não enterramos todos os dias".

Um grupo especial é representado pelos mortos idosos, em que há uma tendência irrefreável de usar como consolo o argumento de que "afinal ele teve uma vida longa e feliz". Impossível saber quem deu início a este coronavírus da idiotice. Sem querer ofender o vírus, a referência é por conta da rapidez comparável da propagação.

Sempre que se ouvir esta frase num velório, pode ter certeza de que este consolador merecia um crachá que prevenisse o interlocutor da perda de tempo, anunciando: não tenho nada a ver com o seu sofrimento! Essa racionalização em velório de velhos só tem sentido para quem está afetivamente descomprometido, a ponto de considerar, inconscientemente, que tendo vivido mais do que a média, e não pretendendo tripudiar os mortos precoces, uma iniciativa bem razoável, reservada ao velhinho, é morrer!

Ignoram, os rígidos de afeto, que não se mede o significado da perda de alguém pelo que ele fez na sua vida, mas pela falta que fará na dos seus amados.

Mas essa percepção é uma exclusividade de quem amou e perdeu. Menos mal que enquanto os que amam com os olhos podem esquecer, os que amam com o coração, não.

J.J. CAMARGO


11 DE JULHO DE 2020
DAVID COIMBRA

Como será o novo normal

Sinto cada vez mais simpatia por essa história de "novo normal". Na última semana mesmo, enquanto escrevia minha crônica, bem no meio da tarde, me deu uma vontade irrefreável de beber um vinho. Foi uma vontade tão irrefreável, que não a refreei. Abri uma garrafa de malbec, servi-me de um cálice e voltei a escrever, levando, junto com a garrafa, um meio sorriso. A Marcinha veio de lá e postou-se na minha frente com as mãos na cintura, como se fosse um bule:

"Vinho no meio da tarde, David???". Dei de ombros: "Esse é o novo normal".

Ela ficou piscando, sem saber o que dizer. Estou muito feliz. O "novo normal" é um conceito que nos abre muitas possibilidades. Posso usar o meu moletom do Mickey quando entrevistar um ministro do Supremo, por exemplo. Se o Potter vier me criticar, rebato:

"Não enche. Esse é o novo normal".

Quando preparar a minha deliciosa massa com sardinha e pessoas com paladares exigentes, como Admar Barreto, vierem me criticar, explicarei, com certo fastio:

"Meu caro, essa é a culinária do novo normal".

O novo normal no futebol será o antigo normal: os jogadores deixarão de ser profissionais. Serão todos amadores, como nós, nos tempos do Alim Pedro. Eles trabalharão em outros lugares e jogarão bola nas horas de folga. Qual será a paga para que vistam as camisas do Grêmio e do Inter? A glória, apenas a glória. Precisa mais?

Os políticos também viverão esse novo normal. Nada de salário para eles. Se quiserem prestar serviços à pátria, que seja por amor, não por interesse. Eles continuarão com suas profissões e uma ou duas vezes por semana irão ao parlamento para discutir algum projeto. E, neste caso, da frequência ao parlamento, o novo normal deles nem trará grandes mudanças, eles que não reclamem.

Nós poderíamos fazer umas alterações no esquema de fim de semana, no novo normal. Porque é muito desgastante ter de trabalhar até a noitinha de sexta-feira para retornar nos albores da manhã de segunda. Vamos tornar isso mais humano: o trabalho terminará ao meio-dia de sexta e recomeçará ao meio-dia de segunda. Pensando bem, depois do almoço de segunda.

No novo normal, nós voltaremos a tomar café da tarde.

No novo normal, salada com fruta, só salada de fruta.

No novo normal, as rádios não poderão tocar funk ou rap ou música sertaneja.

No novo normal, não pode canal de TV de igreja.

As mulheres têm que entender que, no novo normal, os homens precisarão de mais tempo só com os amigos - eles (nós), homens, se estressaram muito com o confinamento da pandemia, agora têm de relaxar contando algumas piadas e falando amenidades.

Amenidades! Esse será o grande tema do novo normal. Nada de política partidária, nada de comunistas versus fascistas, nada de ideologias, de julgamentos comportamentais, nada de patrulhas morais, nada de bullying ou de opressão. Seremos amenos, no novo normal. Vamos nos ocupar, sobretudo, das coisas boas. Vamos rir da vida. E de nós mesmos. Não nos levaremos a sério, no novo normal. Mas continuaremos bebendo chopes cremosos, dourados e gelados, continuaremos rindo com os amigos, continuaremos aproveitando a vida, que nem tudo tem de ser novo no novo normal.

DAVID COIMBRA


11 DE JULHO DE 2020
FLAVIO TAVARES - Jornalista e escritor

UM FEITICEIRO?

Os velhos provérbios de nossos avós (mesmo esquecidos) ressurgem em plena tragédia da covid-19 para alertar que "não há mal que sempre dure" e que a vida é irônica em si mesma. Aquele ditado de que "o feitiço se vira, sempre, contra o feiticeiro", por exemplo, ressurgiu agora quando Jair Bolsonaro revelou ter contraído a covid-19.

A "gripezinha" que o presidente da República sempre desdenhou como algo à toa, fez dele próprio, agora, um doente obrigado a ter cuidados especiais com aquilo que ele próprio dizia não existir. E dizia com a ênfase e autoridade de presidente da República, fazendo milhões de pessoas pensarem que a pandemia é algo "ideológico" ou "político", sem o poder de contágio apontado pela imprensa.

Depois de forçar a demissão de dois ministros da Saúde, deixou o cargo, nos últimos dois meses, nas mãos de um general da arma de Intendência que, por melhor intenção que possa ter, desconhece o ofício por "não ser do ramo".

Agora, o feitiço derrubou o feiticeiro, mostrando que a invencionice é o fruto predileto do autoritarismo que se crê capaz de opinar (ou mandar) até naquilo que ignora por completo. Infelizmente, é o caso de Bolsonaro, que, no horror da pandemia, se comporta como um adolescente que desafia tudo e se diz forte para ser visto como adulto e não mais como um guri.

Mas a imagem que melhor retrata o presidente é a da avestruz, que enterra a cabeça na areia para não ser avistada. A tudo isso, some-se a insensatez do presidente ao vetar trechos essenciais da lei aprovada pelo Congresso que, na pandemia, obrigava a usar máscaras nos presídios. Ou não sabe que o contágio se acelera nas prisões, núcleos das mais variadas doenças?

Nem tudo, porém, é feitiço ou feitiçaria. Gestos e atos positivos iluminam a escuridão e apontam caminhos.

Diretores de 29 grandes empresas brasileiras e multinacionais advertiram o governo sobre a necessidade urgente de proteger a Amazônia e a população indígena, ameaçadas pelas queimadas dos grileiros, pela mineração e pelos garimpos. Só isto impedirá - frisaram - que os demais países desistam de consumir produtos do Brasil.

Não se trata, porém, só da perda econômica, mas da devastação da natureza, como advertiram 12 procuradores da República, ao pedirem que o Supremo Tribunal suspenda Ricardo Salles das funções de ministro do Meio Ambiente por "desestruturação dolosa e esvaziamento" das políticas ambientais que, hoje, favorecem interesses opostos às finalidades do próprio ministério.

Quando a Justiça tem de ser acionada para que o governo cumpra sua finalidade, não será sinal de que estamos nas mãos da bruxaria de feiticeiros? E que eles nos atiraram num caldeirão fervente?

FLAVIO TAVARES

11 DE JULHO DE 2020
RODRIGO CONSTANTINO

Garbage truck: por uma limpeza geral


Meu filho, com quase três anos, está obcecado com o "garbage truck". Ele já acorda pedindo para ver cenas de caminhões de lixo. Vai entender! Deve achar o bicho interessante, e vale um parêntese: aqui nos Estados Unidos tem um só funcionário, controlando o troço de dentro, no ar condicionado, e apertando botões para recolher todos os lixos em frente às casas. Dignidade capitalista.

Mas divago. O fato é que, ao colocar o vídeo para ele, fiquei com essa mania de limpeza na cabeça, e daí saiu o gancho para este texto. Por ossos do ofício, preciso estar antenado aos "acontecimentos" recentes, da política principalmente, e chafurdar nas redes sociais e na grande imprensa. Quanto lixo, meu Deus!

Muitos falam da podridão da internet, dos "discursos de ódio" nas redes sociais, e é verdade que tem muito disso, sim. Mas quando é na mídia tradicional devemos ignorar? Vimos um colunista e editor da Folha de S.Paulo desejando abertamente a morte do presidente na última semana. Ele fez isso com base na filosofia amoral do "consequencialismo", pois é muito racional e científico. Mas é puro ódio mascarado de altruísmo. Como vem do "gabinete do amor", porém, está valendo: é o "ódio do bem".

Já o governador de São Paulo, João Doria, em entrevista para a CNN internacional, afirmou que está combatendo o "vírus do Bolsonaro". Não querem que falemos em "vírus chinês", sendo que o maldito veio da China mesmo. Mas associar a pandemia ao presidente, isso também está valendo. Mais um caso de "ódio do bem".

E Sergio Moro? Esse é "fofo", virou uma espécie de tucano "lacrador" de rede social. Mas resolveu aliviar para Glenn Greenwald, o militante disfarçado de jornalista que tentou destruí-lo com material roubado por hackers. Moro acha Bolsonaro, seu ex-chefe há poucos meses, um extremo tão ruim quanto Lula. Falta só o mensalão, o petrolão, o Foro de São Paulo...

Vim de 2022 para avisar que Moro já é amigo de Greenwald, a quem nunca acusou de crime algum, e ambos, ao lado de Mandetta, detonam Oswaldo Eustáquio, esse, sim, um militante perigoso, da "quadrilha cibernética" bolsonarista. Preciso de um "garbage truck" com urgência...

RODRIGO CONSTANTINO

sábado, 4 de julho de 2020



04 DE JULHO DE 2020
LYA LUFT

Quando não tem mãe

Todo mundo tem, na sua bagagem de memória ou no presente, coisas, pessoas, momentos que seria melhor não lembrar.

Hoje, no meio dessa tormentosa doença que se espalha sobre o mapa do mundo como um mal escuro e espesso, um grande animal que estende seu corpo e patas repulsivas sobre tudo e todos, eu mesma às vezes penso, ou digo: Nossa! Quero esquecer este horror todo, este medo, essas ameaças, esses sofrimentos, em milhares e milhões pelo mundo, ninguém sabendo direito, direito mesmo, do que se trata - e como se combate. Ainda por cima vendo que continuam corrupção, desvios, politicagens, interesses muito abaixo do interesse do povo, que somos nós, cada um de nós.

Além disso, se alguns estão mais compassivos, parceiros, bondosos, por vulneráveis, de olhos abertos além e acima de um cotidiano corrido, tantas vezes superficial e louco, existem aqueles que se irritam contra tudo e todos, os mal-educados, os grosseiros, ou, por medo, possivelmente, e por impotência, latem, mordem, se pudessem destruiriam quem anda por perto.

Muito ruim este tempo de pandemia. Cheio de insegurança, limitações, separações. Não consigo abraçar netas e netos, filha, filho, amigas. Não consigo nem o simples comer fora com marido ou alguma amiga, ou levar a família se houvesse algo a celebrar - coisas que sempre tanto me alegraram.

Mais que tudo, não consigo fechar coração, ouvidos, olhos, aos tormentos do mundo. Antes eram desinformação, fome, sujeira, abandono pela coisa pública. Agora, soma-se a tudo isso a chamada pandemia, que alguns ainda diminuem como histeria, ou manipulação de entidades mundiais querendo dominar o mundo. Quem haveria de querer o mundo pobre, doente, aflito, que estamos nos tornando, em parte porque nem todos querem aceitar restrições e tomar cuidado? O assunto de hoje está muito ruim, eu sei, batido, irritante. Eu também acho, quero de volta minha vida, aquela vidinha normal, de uma velhice em paz, com afetos bons, livros, amizades, paisagens bonitas e um certo sossego na alma.

Não tenho grandes esperanças. Nem adianta dizer que cansei, que quero mudar, quero apagar, quero esquecer. Estamos todos - não no mesmo barco, pois esse é diferente conforme pessoa, família, lugar, possibilidades -, mas estamos na mesma tempestade, que pode nos levar, agora, amanhã ou depois. Pior ainda, levar alguém muito amado. E certamente desconserta tudo o que a gente conhecia, o habitual, o tranquilo, o familiar.

Não tenho nem a luzinha de um "quando" a que a gente se agarre como criança em colo de mãe.
Para este momento, não tem mãe.

LYA LUFT


04 DE JULHO DE 2020
MARTHA MEDEIROS

Sublinhados

Eu não parava de elogiar o livro. Afirmei que havia sido uma de minhas leituras mais desconcertantes, que vários trechos haviam mexido demais comigo, e minha amiga ali, de boca aberta, testemunhando meu entusiasmo. Eu estava de fato empolgada, tanto que, quando percebi a bobagem que estava fazendo, era tarde demais. "Me empresta?", ela perguntou.

Não que ela fosse do tipo que some com os livros da gente. É ajuizada, devolve. Mas aquele exemplar específico estava todo sublinhado. Eu havia destacado longos parágrafos, distribuído pontos de exclamação nas margens, feito anotações próprias acerca das ideias do autor. Ou seja, eu não havia lido o livro, eu havia me relacionado com ele. Intimamente. E isso iria parar nas mãos de uma pessoa com quem eu não tinha a mesma intimidade.

O vínculo que estabeleço com meus livros está longe de ser solene. Eu não só sublinho bastante (à caneta!), como dobro as pontas das páginas e anoto, no reverso branco das capas, coisas aleatórias que me passam pela cabeça durante a leitura: lembranças de sonhos, números de telefone, listas de tarefas, enfim, sou uma herege completa. Meus livros, minhas regras.

Empresto-os, fazer o quê, mas não é uma situação confortável. Se um nude meu vazasse, não me sentiria tão exposta.

Estou exagerando? Muito, é um cacoete. Sei que nada disso é uma tragédia. Foi o que eu disse a uma amiga, na vez em que a indiscreta fui eu: pedi emprestado um livro dela, sem saber que tínhamos o mesmo hábito. O livro revelava sua alma atormentada, marcada a esferográfica vermelha.

Tentei convencê-la: "fique tranquila, você acha que prestarei atenção no que você sublinhou?" Claro que prestei atenção nos sublinhados dela, ora. Fiz conjecturas. Especulações. Por que, santo Cristo, uma passagem violenta havia calado fundo em seu coração? Perdi a concentração na história, de tão envolvida que fiquei com os impactos que ela teve durante o decorrer da narrativa. Era justo com a pobrezinha?

Ter tido acesso a seus sublinhados foi um voyeurismo culposo, sem intenção de futricar, mas aconteceu, acidentalmente. É sempre acidental, o que não deixa de ser invasivo. Portanto, vida longa aos sebos. O primeiro proprietário do livro, se também era dado a rabiscos, terá seu anonimato protegido, o que é bem diferente de emprestar o livro para um conhecido e, ao recebê-lo de volta, ter que enfrentar aquele olhar cúmplice de quem gostaria de dizer, mas não diz: "eu sei o que perturbou você".

Por essas e outras, está lançada a campanha #compreseusproprioslivros. Ou, ainda mais importante: #frequentebibliotecas.

Assim, você fará a suprema gentileza de não se intrometer na mais fechada relação a dois.

MARTHA MEDEIROS


04 DE JULHO DE 2020
CLAUDIA TAJES

De live presencial à internet

Uma vez por ano, no começo de julho, a multicomunicadora Katia Suman e o multiprofessor Luís Augusto Fischer se olham, apertam as mãos e dizem: é nois. Ou isso ou algo mais culto, mas com esse significado. A cada começo de julho, os dois não deixam de se espantar com a longa vida do evento que criaram em 1999. Sem imaginar que, na Porto Alegre em que as coisas surgem e desaparecem com igual velocidade, passariam tantos aniversários do Sarau Elétrico juntos.

É nois. É eles - como se diz no dialeto que o próprio profe Fischer colocou no mapa com o seu seminal Dicionário de Porto-Alegrês.

O que é, quase todo mundo sabe. Antes da pandemia, na alegria e na tristeza (foram algumas), em noite de Libertadores ou com um megashow na cidade, no bafo de Forno Alegre ou na friaca de renguear cliente, o Sarau Elétrico não falhou sequer uma terça-feira em 21 anos de apresentações no bar Ocidente. Sentados nos banquinhos, com convidados e diante de um público fiel que comparecia para ouvir literatura e música boa no final, a Katia e o Fischer resistiram a mudanças de governo, a oscilações econômicas e a crises pessoais sem jamais fechar a lojinha. Muito antes de "vai passar" virar o mantra de 2020, era o que os dois diziam cada vez que algum problema ameaçava o Sarau.

E assim se passaram esses 21 anos.

O primeiro companheiro de bancada da dupla foi Frank Jorge, el Grande, que daqui a pouco lança um superdisco novo - e aqui vai um recado particular para ele: não esquece do nosso clipe, seu maldito. Em seguida entrou o professor Cláudio Moreno, e o Sarau Elétrico ganhou a Coluna Grega, com Zeus, Hera e grande elenco fazendo misérias no palco do Ocidente. Quando o Frank precisou sair - porque não é fácil ir aonde o povo está e não faltar ao trabalho na terça -, e reconhecendo que o público perdeu, eu entrei. E lá fiquei por sete anos, até mudar de cidade, mais ou menos na mesma época em que o profe Moreno também precisou sair. Foi quando chegou o terceiro elemento perfeito, o poeta Diego Grando, lirismo e picardia na medida.

É assim que o Sarau Elétrico chega aos 21 anos.

Diz o Diego: "Entrar para o Sarau foi uma grande sorte minha. Primeiro, enquanto espectador, por ele ter participado da minha formação de leitor (os primeiros anos do Sarau coincidem com minha entrada no curso de Letras), me mostrado outras formas de ver, ouvir e encarar a literatura. Segundo, enquanto integrante, pela diversão que é poder fazer as coisas que eu mais gosto (ler, ler em voz alta, ler em voz alta para o público) com dia e hora marcada, e sem perder a ternura jamais. Ou seja, tenho o privilégio de assistir ao Sarau Elétrico sempre da melhor posição e ainda dar os meus pitacos".

E o professor Fischer: "Meus últimos 21 anos se confundem com o Sarau. Não sei dizer o que seria da minha vida se não tivesse tudo isso, toda essa experiência de, a cada terça, fazer uma live ao vivo - a legítima. Se não tivesse, o tempo todo, essa ideia de conversar sobre literatura de uma maneira franca e aberta, sem frescura e, pelo contrário, tirando a frescura do cenário. Eu convivi nesse tempo todo com a Katia, já há vários anos convivo com o Diego, com os ex-integrantes, com os vários convidados, gente bacana. Tem sido rigorosamente isso, um aprendizado enorme, porque todas as semanas eu preciso pensar no que eu vou dizer lá, e eu sempre digo pensando em coisas, e pensando em apresentar livros, promover gente interessante, oferecer experiências de leitura bacanas. É um negócio sem tamanho de tão bom tudo isso que foi, que tem sido".

Com o isolamento social, o Sarau Elétrico trocou momentaneamente (espera-se) o bar Ocidente pela internet. Todas as terças, às 21h, é transmitido pelo YouTube.com/katiasuman25 e pela radioeletrica.com. E é pela internet que vai rolar a comemoração de 21 anos no próximo dia 7 de julho, uma edição especial de aniversário com muitos dos que participaram do bololô todo reunidos, via zoom, para celebrar a vida, a literatura. Ser feliz por uns instantes.

E bora lá ser feliz por mais muitos e muitos anos.

CLAUDIA TAJES


04 DE JULHO DE 2020
LEANDRO KARNAL

Festa todo dia!

Historiador, professor da Unicamp, autor de, entre outros, "Todos Contra Todos: o Ódio Nosso de Cada Dia".

O mês de julho começou e, como todos os seus irmãos de calendário, tem muitas datas comemorativas. Há os fatos históricos e seus jubileus. É o caso do dia 4 de julho, independência dos Estados Unidos. Cinco dias depois, os paulistas lembrarão sua luta contra a ditadura de Getúlio Vargas. Será o feriado do Movimento Constitucionalista de 1932, já antecipado por conta da epidemia. Dia 20 é o aniversário da chegada do primeiro homem à Lua, em 1969. Qualquer dia do ano tem uma celebração festiva.

Toda função possui data própria. No dia 2 de julho, celebramos os bombeiros brasileiros, categoria notável de defesa da vida e da segurança da nossa população. No dia 4, juntamente com a independência das 13 colônias, os sempre sacrificados operadores de telemarketing encontram sua data. No dia 8, você pode dar um alô especial ao seu diligente padeiro. Os cantores entoarão músicas especiais no dia 13 e podem fazer uma semana de comemorações se juntarem-se a outro artista: 18 é o dia nacional do trovador. Cantores em geral e trovadores podem se preparar para mais festa: quando chegar 22 de julho, os cantores líricos soltarão sua garganta privilegiada para uma ária de alegria. O propagandista de laboratório sorrirá mais no dia 14 diante do médico que tem pressa em atendê-lo. Dia 22, lembramos dos trabalhadores domésticos cuja importância nem sempre é acompanhada de respeito.

No mesmo mês que assinala o dia de proteção às florestas (17 de julho), identificamos o dia do agricultor (28 de julho) e o bravo engenheiro florestal será lembrado em 12 de julho. As datas tão próximas poderiam ser um indicativo interessante de responsabilidades.

Gulosos da Terra de Santa Cruz: 7 de julho é o dia mundial do chocolate! Três dias depois, a pizza é celebrada em data especial. Dia 20 de julho, orgulhosos, pirulito e sorvete dividem a festa. Incrível! Há um dia do pirulito! Comida tem todo ano para soltar o cinto e comprar calça com elástico: 4 de janeiro foi dia do espaguete, o pastel ganhará recheio especial em 4 de outubro, o churrasco reuniu amigos em 24 de abril e a coxinha cantou parabéns no dia 15 de março. Até o bolinho da sorte tem data: 13 de setembro. Para descer tudo: uísque em 16 de maio e cachaça em 13 de setembro. Champanhe? Claro! Um brinde ao dia 31 de dezembro. A primeira sexta-feira de agosto é a data internacional da cerveja, em evento criado na Califórnia. Porém, gente que gosta de beber não pode ficar limitada: o dia 5 de junho celebrou antigo mestre cervejeiro brasileiro (Rupprecht Loeffler) e é o dia nacional da bebida. Assim, patriotas e cosmopolitas têm duas datas para abrir sua(s) garrafa(s).

Atenção torcedores do meu Brasil varonil: 19 de julho é o dia nacional do futebol! A pátria de chuteiras, em decisão da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), escolheu a data em 1976. Motivo? Homenagear o Sport Clube Rio Grande, fundado nesse dia, em 1900. Esse foi o primeiro time registrado no Brasil e é o clube há mais tempo em atividade. E já que a pelota rola pelo campo: você, homem que reclama que há um dia internacional da mulher, saiba que o dia 15 de julho é o dia do homem no Brasil (o internacional é 19 de novembro). No dia 15, exija não lavar louça, não varrer a casa e comer fora para não cozinhar. É seu direito!

O dia dos avós de Jesus, 26 de julho, é, por consequência, o dia dos pais dos nossos pais. São Joaquim e Santa Ana são celebrados para que possamos sempre ter presente, em ano de risco à vida dos idosos, a fundamental presença deles nas famílias.

Além das datas que indicam fatos, você sabe que existem santos e seus protegidos. Dia 25 de julho é o dia de São Cristóvão. Por ter carregado Cristo às costas, tornou-se o padroeiro dos motoristas. Assim, quem pega no volante celebra sua função e, se for católico, o santo que a ampara. Dois dias depois, a data de outro condutor por vezes em atrito com os filhos de São Cristóvão: é o dia do motociclista. Que ambos não se esqueçam: dia 23 de julho é o dia do guarda rodoviário. Cuidado!

O citado dia 25 de julho é muito importante para mim. Dirijo, logo, é meu dia. Estudei a vida de São Cristóvão e de outro grande santo da data: São Tiago, aquele de Compostela, cidade que quero muito conhecer. É também o dia do colono em virtude da fundação da minha cidade natal, São Leopoldo. Por fim, é o dia do escritor, função que também exerço. Em resumo, queridas leitoras e estimados leitores, passarei o dia em festa.

Por fim, claro, você poderia estar pensando: "Mas esse cronista não tem nada mais relevante para escrever do que esse emaranhado de datas?". Sim, entendo sua indignação. Contra ela, dileta leitora e prezadíssimo leitor, invoco outra data. Dia 14 de julho é o dia da liberdade de pensamento. É relacionada à queda da Bastilha, em 1789. Graça aos processos que começaram naquele dia, não existe mais censor e todo ser humano é livre para dizer, ler, falar e escrever o que pensa, inclusive bobagens. Melhor: você é livre para ler ou não. Talvez essa seja a grande data a celebrar sempre. Não está convencido da relevância da crônica? Só resta lembrar: em 19 de julho, celebramos o dia da caridade. Assim, por caridade, tenha esperança na vida e neste cronista.

"Dia 14 de julho é o dia da liberdade de pensamento. É relacionada à queda da Bastilha, em 1789. Graça aos processos que começaram naquele dia, não existe mais censor e todo ser humano é livre para dizer, ler, falar e escrever o que pensa, inclusive bobagens.

LEANDRO KARNAL

04 DE JULHO DE 2020
FRANCISCO MARSHALL

A morte e o filósofo


Na última quarta-feira, a artista Maria Tomaselli e um punhado de amigos e parentes próximos demos adeus à parte corpórea do filósofo e professor Carlos Roberto Cirne-Lima. Diante da estátua de uma pranteadora, no Cemitério da Santa Casa, o frio do inverno e as angústias atuais calaram-se para ampararmos a amiga e despedirmo-nos de uma personalidade grandiosa, que partiu aos 89 anos, após enfrentar penosa e imerecida enfermidade. Pode-se parafrasear para esse jazigo a lápide que Willibald Pirkheimer escreveu para seu amigo, o artista Albrecht Dürer (1471-1528): "O que quer que dele houvesse de mortal, aqui jaz".

A parte imortal foi a luz do pensamento e a grandiosidade humana que o filósofo emanou em sua pródiga vida, a inteligência compartilhada em lições e escritos admiráveis, o brilho nos olhos de quem amava as nobres ideias e as examinava como as verdadeiras entidades com que devemos conviver, o amor de quem compartilhava com encanto e amizade generosa. É isto a filosofia, o amor ao conhecimento, e é isto que reluz no momento melancólico do ocaso e sobrevive à poeira dos corpos e dos tempos.

No diálogo Fédon, Platão romantiza os últimos momentos de Sócrates, que então encara com serenidade o destino que levava aos prantos seus amigos atenienses, a morte iminente. O Sócrates ali descrito acreditava na imortalidade da alma e que o filósofo, que ornou sua alma "com o que é propriamente seu (?), com a temperança, a justiça, a coragem, a liberdade e a verdade", avançará com confiança e coragem no caminho do Hades. Afinal, "quando uma pessoa se dedica à filosofia no sentido correto do termo, os demais ignoram que sua única ocupação consiste em preparar-se para morrer e em estar morto!", como traduziu José Cavalcante de Souza, helenista admirável, mestre dos mestres, recentemente finado. Esse diálogo, uma das mais belas obras de Platão, é legado da filosofia diante das fronteiras da condição humana.

Conquanto tenha sido admirável leitor de Platão e da literatura grega nos seus textos originais, Cirne-Lima defendia tese mais ousada para o destino após a morte. O mestre via o cosmos como unidade de toda a matéria e, nesta, um ciclo eterno, em que as partes alimentam a totalidade. Desse modo, ao morrermos, nossos vestígios integram-se ao universo; eis nossa imortalidade. Essa realidade dos corpos não invalida a nobreza da imortalidade cultural, que nos faz perpetuar as ideias e os sentimentos elevados, da filosofia, da ciência, da arte e do amor, como a parte iluminadora da condição humana, de que tanto precisamos. O filósofo é núncio dessa luz máxima, e assim enfrenta vida e morte como partes do mesmo ciclo, sem ilusões ou narcisismo vão.

Entre sofrimentos e prazeres, fainas e encantos, agarramo-nos aos fios da vida e cercamos a morte com mitos, ritos, temores e mistérios. Ei-la hoje, como nunca, à espreita, e eis um grande filósofo, que ultrapassa vida e morte e deixa lição imperecível, o amor ao conhecimento semeado no coração dos seus. Obrigado, Carlos.

Historiador, arqueólogo e professor da UFRGS - FRANCISCO MARSHALL

04 DE JULHO DE 2020
CORONAVÍRUS

Ação germicida do sol tem baixo poder


Estudo chinês indica que clima quente e radiação solar não influenciam as taxas de contágio. Um grupo de pesquisadores que usou dados de mais de 200 cidades chinesas não encontrou efeito da temperatura ou da radiação solar na eliminação do coronavírus ou na diminuição do contágio. A descoberta contraria artigos publicados nos últimos meses que apresentaram essa possibilidade com base em cálculos teóricos e experimentos em laboratório.

A ação germicida do sol existe porque a estrela emite radiação ultravioleta. O raio ultravioleta do tipo C (UVC) é o mais potente, e pode eliminar mais de 90% dos coronavírus alojados em superfícies em poucos segundos, de acordo com experimentos em laboratórios com lâmpadas especiais. A radiação ultravioleta age no material genético do vírus, causando um dano que impede a multiplicação do micro-organismo. Mas o UVC emitido pelo sol fica retido na atmosfera antes de atingir o solo. Ainda bem: a exposição direta por um período prolongado pode causar de queimaduras a câncer.

Aparelhos que usam o UVC artificial emitido por lâmpadas especiais para desinfecção de ambientes já são vendidos no Brasil para a eliminação de micro-organismos no transporte público e em ambientes fechados.

Pesquisadores de universidades chinesas cruzaram dados de disseminação do Sars-Cov-2, temperatura e radiação solar de mais de 200 cidades da China. Os resultados, publicados na revista científica European Respiratory Journal, indicam que radiação solar e temperatura não influenciaram nas taxas de contágio. "É prematuro contar com o clima mais quente para controlar a doença", escreveram os autores.

Ainda que os banhos de sol possam estimular a produção da vitamina D, que tem potencial benéfico para o sistema imunológico, os cientistas descartam uma suposta função terapêutica para a covid-19, pois a radiação atua apenas na superfície sobre a qual incide e os vírus se multiplicam dentro das células, no interior do corpo.

Para Caetano Padial Sabino, doutorando na USP e pesquisador das aplicações da luz para a saúde, uma afirmação que circula nas redes sociais de que o risco de infecção pelo coronavírus é menor em dias ensolarados é perigosa.

- O Brasil tem uma taxa de incidência solar que está entre as maiores do mundo, e mesmo assim somos o epicentro da pandemia - diz o cientista, fundador de uma empresa que produz equipamentos de raios UVC para desinfecção.

EVERTON LOPES BATISTA


04 DE JULHO DE 2020
DRAUZIO VARELLA

Teste de longevidade

Estudo quer avaliar impacto de medicamento na prevenção ou no retardo de doenças em que a idade é o principal fator de risco
Em 2003, o National Institute on Aging (NIA), dos Estados Unidos, inaugurou um programa de experimentos em animais com o objetivo de avaliar a possibilidade de retardar o envelhecimento. Entre os tratamentos que não demonstraram eficácia, ficaram o óleo de peixe, os extratos do chá verde e da curcumina e o resveratrol, presente no vinho tinto.

Nos camundongos, cinco compostos mostraram efeitos positivos: ácido acetilsalicílico, 17-alfaestradiol (forma de estrogênio), acarbose (usada contra o diabetes), ácido nordi-hidroguaiarético (retirado de uma planta) e rapamicina (usada como imunodepressora nos transplantes de órgãos). A maior atividade foi encontrada na rapamicina, que não apenas aumentou a duração da vida dos animais, como o tempo que levaram para desenvolver complicações de saúde.

O grupo de Nir Barzilai, que conduz um inquérito com mulheres e homens centenários no Albert Einstein College of Medicine, em Nova York, escolheu avaliar a atividade da metformina. A droga não estava entre aquelas com resultados mais contundentes em animais, mas tem histórico promissor na experiência clínica, custo baixo e efeitos colaterais bem conhecidos, já que é empregada no controle do diabetes desde os anos 1960.

A intenção é testá-la em 3 mil pessoas entre 65 e 79 anos de idade, que serão acompanhadas durante cinco anos. A metade delas receberá metformina, enquanto a outra tomará comprimidos idênticos, porém inertes (placebo).

As dificuldades com esse tipo de avaliação são enormes. A maior delas consiste em encontrar marcadores confiáveis para estimar a longevidade, sem aguardar décadas até a morte de participantes em números estatisticamente significativos.

Barzilai e seus colegas propuseram uma estratégia nova ao FDA, a agência americana que fiscaliza medicamentos e alimentos: verificar se a administração continuada de metformina é capaz de retardar o aparecimento de enfermidades, cujas incidências aumentam dramaticamente com a passagem dos anos e encurtam a duração da vida, como é o caso de hipertensão, diabetes, doença cardiovascular, câncer, Alzheimer e outras.

Há indícios de que a metformina seja dotada dessa capacidade protetora. Em 1998, um relato do United Kingdom Prospective Diabetes Study Group concluiu que, além de reduzir em 32% a incidência das complicações do diabetes (incluindo morte), ela diminuiu os riscos de ataques cardíacos e derrames cerebrais. Em outro estudo, conduzido pelo Diabetes Prevention Program, ocorreram efeitos similares: queda de 31% na probabilidade de diabetes em pessoas de meia-idade em situação de risco para desenvolver a doença.

Diversos inquéritos epidemiológicos sugerem que a administração continuada de metformina faz cair o risco de câncer e de morte e preserva as funções cognitivas por mais tempo. Pesquisadores britânicos relataram, em 2014, que a análise retrospectiva de 78 mil adultos na faixa dos 60 anos de idade revelou que aqueles tratados com a droga viveram, em média, mais tempo do que uma população comparável de pessoas saudáveis.

Esses trabalhos, todavia, não constituem prova definitiva de que a metformina consiga adiar o aparecimento de enfermidades em que o principal fator de risco é o número de anos vividos. Nenhum deles identificou os mecanismos pelos quais o medicamento teria essa propriedade, embora saibamos que, além de controlar as taxas de açúcar no sangue, ele interfere com diversas reações moleculares envolvidas no crescimento celular, nas inflamações e no metabolismo. Jay Olshansky, da Universidade de Illinois, estima que, se houver retardo no envelhecimento, ainda que modesto, a expectativa de vida dos participantes poderá aumentar em média 2,2 anos.

O mérito desse estudo é propor, pela primeira vez, a avaliação do impacto de um medicamento na longevidade, por meio da prevenção ou do retardo na instalação de doenças em que a idade é o principal fator de risco. Um dia nascemos, noutro morremos, no intervalo ficamos mais velhos a cada dia vivido. Envelhecer não é sinônimo de adoecer.

Médico, cientista e escritor | drauziovarella.com.br - DRAUZIO VARELLA


04 DE JULHO DE 2020
JJ CAMARGO

Os donos do papo furado

Cuidado com quem declara, peremptoriamente, que alguma novidade veio para ficar

Aristóteles, o grande filósofo grego que viveu 350 a.C., definiu a política como a ciência da felicidade coletiva. O que aconteceu depois disso, a ponto de 24 séculos mais tarde esse núcleo ser apontado (salvo as honrosas exceções) como o menos confiável dos segmentos sociais, é uma construção de todos nós, os omissos.

O certo é que hoje ninguém quer que você acredite em coisa nenhuma, porque é a dúvida que deixa a massa maleável e suscetível a mudar de opinião. Isso em política é essencial para quem queira tocar o rebanho, mesmo sabendo que verdades de um dia podem se contradizer na próxima troca da guarda.

Então, cuidado com quem declara, peremptoriamente, que alguma novidade veio para ficar. E não se surpreendam se anúncios bombásticos não deem em nada. E sejam complacentes com aqueles que, confrontando o passado tem que admitir, ainda que em um acanhado sussurro: "Mas como é que eu fui dizer uma bobagem daquelas?".

Na revisão da história, o mundo digital tem sido implacável, criando inclusive uma verdadeira especialidade, a dos detetives da rede, dedicados a vasculhar o lixo do tempo em busca de uma estratificação social: de um lado, os farsantes, minoritários, mas tão barulhentos, que dão a falsa sensação de predominância. Do outro, uns tipos realmente estranhos, portadores de uma virtude cada vez mais rara entre os políticos: os que têm convicção e se orientam por ela. Como este comportamento anacrônico provoca desconforto nos oponentes, esses passaram a rotulá-los como sectários, jurássicos e, no máximo de ironia, de dementes. E entre os dois grupos, sobrevivem, com ar apatetado, os indiferentes, que, todos estão de acordo, é melhor que permaneçam assim.

A volubilidade da nossa política, onde moram de aluguel 35 partidos (até domingo passado) e nenhuma convicção, é a antítese de tudo o que creem os civilizados, que consideram a partidarização como uma escolha de vida, baseada em convicções elaboradas com muita reflexão, de modo a garantir estabilidade de conceitos e previsibilidade de atitudes.

Os historiadores, que aprenderam que a melhor maneira de prever o futuro é garimpar o passado, porque adaptado ao momento novo tudo se repete, se deliciam com rompantes ingênuos ou cínicos dos pretensos arautos da nova ordem. Que na verdade não são mais do que bisonhos subestimadores da perspicácia e da memória daqueles que envelheceram, sem jamais abrir mão da coragem de pensar por conta própria.

Alguns, para fugir da chateação recorrente de serem confrontados com discursos antigos e contraditórios, apelam logo para a clemência improvável da mídia com um descarado "esqueçam tudo o que eu escrevi", mesmo sabendo que os traídos pela falsidade da atitude resistem à amnesia, com bravura. Mas o tempo passa, e como se o remoto tivesse sido posto para dormir, os donos do papo furado voltam e se sentem tão confortáveis, que passam a recomendar atitudes que, por preguiça ou cinismo, nunca praticaram. E pretendem que esqueçamos as bravatas que a indignação arquivada se nega em sepultar.

J. J. Camargo é cirurgião torácico da Santa Casa de Porto Alegre e membro titular da Academia Nacional de Medicina | jjcamargo.vida@gmail.com
JJ CAMARGO


04 DE JULHO DE 2020
DAVID COIMBRA

A bunda, que engraçada

Houve tempo em que era proibido escrever a palavra bunda no jornal. Pelo menos em jornal, digamos, respeitável, como a Zero Hora. Esse interdito, para mim, era revoltante, porque bunda não é calão; bunda é a designação popular para essa tão apreciada parte da anatomia humana. Seu sinônimo mais sisudo, "nádegas", não diz tudo o que a bunda quer dizer.

Para contestar o veto abjeto, escrevi, um dia, uma crônica narrando a história da palavra bunda. Que é desbundante. Ocorre que milhares dos escravos trazidos para o Brasil eram os "bundos", que falavam a língua "quimbundo". Uma das características dessa etnia era a beleza empinada das nádegas de suas mulheres, que os portugueses muito admiravam. E, como os portugueses sabiam que se tratava do povo bundo, passaram a se referir àquelas mulheres como bundas, e como as bundas das bundas eram belas como a de nenhuma europeia podia ser, bunda virou sinônimo para qualquer bunda.

O título da minha crônica era, e só podia ser, "A bunda", palavra que repeti dezenas de vezes no texto. Assim, julgo que contribuí um pouco para a liberdade da bunda na imprensa brasileira.

Conto isso porque li, nesta semana, uma matéria sobre uma bunda ilustre: a da Paolla Oliveira. Ela, Paolla, disse ter ficado decepcionada com a repercussão da série Felizes Para Sempre?, que estrelou há cinco anos, porque toda gente só falava em sua bunda, e não em sua atuação.

A cena a que Paolla se refere, de fato, ficou famosíssima: a câmera a filma de costas, caminhando só de calcinhas em direção a uma janela. Sem se virar, ela abre as cortinas de par em par e observa a paisagem lá fora, com a sinuosa silhueta iluminada pelo sol.

"A gente pensa em tantas outras camadas que aquela personagem tem e aí vira uma cena de bunda...", desabafou a triste atriz.

É uma reação clássica de pessoas que são muito elogiadas pela beleza física. E um melancólico preconceito. Porque a beleza física não é apenas presente da natureza. Ela também é conquistada. Uma pessoa que nasce bonita tem de se manter bonita. Tem de trabalhar para isso.

Mais: diariamente, o caráter da pessoa vai-se imprimindo em seu rosto e em seu corpo. Você olha para alguém e, por suas expressões e por sua postura, adivinha se essa pessoa é boa ou maliciosa ou segura ou ingênua. É uma primeira impressão que, às vezes, pode até se desfazer, mas que em geral se confirma.

Uma bonita bunda também confere personalidade a quem a possui. Pessoas retas, sem bunda, parecem amargas. Não é por acaso que a bunda é uma preferência estética do brasileiro, esse povo tão irreverente.

Paolla deveria ter se sentido orgulhosa da celebridade de sua bunda, principalmente numa época como a nossa, em que todos se levam tão a sério e em que o noticiário só dá conta de coisas sombrias, como coronas, gafanhotos, discos voadores e ciclones-bomba.

Não, Paolla, não rejeite sua bunda. Festeje-a. E deixe que todos nós a festejemos também, como espectadores agradecidos que somos. Desta forma, em sua homenagem, reproduzirei aqui o poema imortal do imortal Carlos Drummond de Andrade, que leva o título de A Bunda, que Engraçada:

A bunda, que engraçada.

Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai pela frente do corpo. A bunda basta-se.

Existe algo mais? Talvez os seios.

Ora - murmura a bunda - esses garotos ainda lhes falta muito estudar.

A bunda são duas luas gêmeas em rotundo meneio. Anda por si na cadência mimosa, no milagre de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte por conta própria. E ama.

Na cama agita-se. Montanhas avolumam-se, descem. Ondas batendo numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz na carícia de ser e balançar.

Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda, redunda.

DAVID COIMBRA


04 DE JULHO DE 2020
FLÁVIO TAVARES

ENGANAR É LEMA

As grandes tragédias alteram de tal forma a visão da vida e os critérios da História, que é difícil prever o que virá depois delas.

A ideia, ou esperança, de que as agruras da covid-19 nos farão mais solidários pode ser uma bela profecia, mas, também, só um devaneio ou sonho. Os horrores da História foram sempre dúplices. Geraram gestos e hábitos coletivos de compreensão e, até, de ternura, mas também abriram caminho à maldade do oportunismo.

Sem pessimismo mas com o realismo dos fatos, basta o dia a dia atual para observar que a expansão do coronavírus criou uma confusão que abarca desde incompreensíveis aumentos de preços em alimentos e produtos essenciais até "descobertas" de falsos medicamentos de cura, além do desdém do governo federal. Vivemos num "salve-se quem puder", que a TV, o rádio e a imprensa tentam atenuar indicando cuidados para evitar o contágio.

Essa mensagem otimista, porém, não consegue barrar a volúpia de enganar o próximo aproveitando-se da situação de fragilidade que chega a todos.

O súbito aumento de preço dos alimentos nem sequer remunera o sacrifício dos produtores (grandes ou pequenos) que se expõem ao contágio para que nada falte em nossa mesa, mas se esvai em interminável intermediação. Pode ser inconsciente, até, mas é um jeito de enganar.

Há, ainda, as consequências do necessário isolamento atual numa sociedade habituada a não estar só nem a conviver no lar.

Agora, a investigação policial crê que o isolamento "tem a ver", também, com a morte do menino Rafael, de 11 anos, provocada pela própria mãe, num tosco surto psicótico. O horror da cidade de Planalto supera todos os crimes. Conhecia-se o parricídio, não o inverso. Lembro-me, nos anos 1950, de um caso em Bento Gonçalves, em que os filhos envenenaram os pais. Ou do casal Von Richthoffen, anos atrás em São Paulo, mortos pela filha por pressão do namorado "para desfrutar da herança".

Tudo partiu do engano, que constrói a maldade sem que se perceba. O engano não pode ser o lema a nos guiar agora nem, especialmente, após a pandemia.

A demissão do terceiro ministro da Educação do governo Bolsonaro, antes de tomar posse, mostra a orgia de enganos cometidos na área federal.

Recebido ao início com elogios, seu currículo mostrou apenas um reles mentiroso, que não tinha o doutorado nem o pós-doutorado que inventou ter feito na Argentina e na Alemanha. Seus trabalhos de tese na respeitada FGV eram plágios, copiados, até, de análises do nosso Banrisul sobre a situação financeira do país.

Penso nas realizações do grande Darcy Ribeiro, ministro da Educação no início do governo deposto em 1964, e comparo com os dias atuais, em que enganar é o lema.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES