sábado, 18 de julho de 2020



18 DE JULHO DE 2020
DRAUZIO VARELLA

A máscara

Sete razões que justificam a revolta de quem vê, nas ruas, gente sem proteção contra o vírus
Médico, cientista e escritor | drauziovarella.com.br

Dizem que Deus limitou a inteligência dos homens para que não invadissem Seus domínios. Por que diabos não estabeleceu limites também para a ignorância?

É revoltante ver tanta gente sem máscara pelas cidades. Qual é a dessas pessoas? Não sabem que há uma pandemia? É por que não acreditam em vírus, seres minúsculos que os olhos não enxergam?

Andar sem máscara no meio dos outros revolta as pessoas de bom senso, pelas seguintes razões:

1) Em 50 anos de medicina, vi chegar diversas epidemias, mas nenhuma em que o microrganismo provocasse tal variedade de apresentações clínicas: até 40% dos infectados permanecem sem desconfiar que carregam o vírus. Entre os demais, o quadro vai da tal "gripezinha" oligossintomática, a uma doença grave que evolui com insuficiência respiratória, intubação, ventilação mecânica e, eventualmente, morte.

2) Nesse cenário, prezado leitor, você considera a obrigatoriedade da máscara um desrespeito à sua liberdade? É mesmo? Medidas sanitárias que proíbem esvaziar os intestinos nas ruas também devem ser revogadas? Você reivindicaria no prédio em que mora, o direito de urinar no elevador?

3) Embora a mortalidade seja mais alta entre os que fazem parte dos chamados grupos de risco (mais de 60 anos, pressão alta, diabetes, obesidade, etc.), também morrem jovens saudáveis, com peso corpóreo na faixa da normalidade. Você decerto acha que só acontece com os outros.

4) Você é defensor convicto do isolamento vertical, em que crianças voltam para a escola e os jovens podem se expor à vontade, desde que os mais velhos fiquem em casa? Que ideia brilhante. Incrível como Alemanha, França, Itália, Noruega e a Nova Zelândia não pensaram nisso. Não seria por que crianças e jovens podem ter irmãos obesos, pais e avós?

5) Quem sabe, você é um daqueles iluminados que diz: "E daí? Se eu pegar o vírus, o problema é meu". Não é apenas seu. Mesmo se tiver a sorte de ficar assintomático, você garante que não será um transmissor ambulante que levará sofrimento e morte aos mais vulneráveis?

6) Se, por acaso, você for daquelas pessoas meio azaradas que pegam o vírus e acabam nos hospitais, quem arcará com as despesas? Sua família? O SUS? O plano de saúde? Em qualquer caso, cairá nas costas de alguém a conta da sua irresponsabilidade.

7) Desculpe, mas não te incomoda pegar o vírus por um capricho pessoal e expor ao contágio seus familiares, os amigos e os profissionais de saúde que vão atender no hospital um egocêntrico como você?

Quando a epidemia chegou, já sabíamos que havia quatro medidas de prevenção com eficácia comprovada nos países que nos antecederam: testagem, isolamento social, higiene das mãos e uso de máscaras.

É evidente que caberia ao Ministério da Saúde a coordenação de um esforço nacional, em conjunto com os governadores e prefeitos, para acompanhar a disseminação da doença, equipar e preparar o SUS da melhor forma possível e orientar a população para impedir a falência dos serviços de saúde.

Nessa hora crucial, no entanto, não dispúnhamos de testes para identificar os infectados e os que haviam adquirido o vírus no contato com eles, para que pudéssemos isolá-los de modo a interromper a transmissão em cadeia.

Para complicar, a autoridade máxima da República concluiu por conta própria que a fome seria mais mortal do que o coronavírus, condenou o isolamento, menosprezou a gravidade da doença, propôs que saíssemos às ruas de peito aberto, promoveu aglomerações políticas, eximiu-se de qualquer responsabilidade em relação às mortes, adotou a cloroquina como arma de combate e fez questão de exibir o rosto sem máscara.

Ao ultrapassarmos 60 mil mortes, está evidente que a volta das aglomerações promove o colapso do sistema de saúde e aumenta o número de óbitos de forma tão direta, que várias cidades têm sido forçadas a decretar a volta do confinamento, depois da abertura do comércio.

Não é o isolamento social, mas o coronavírus, o causador da crise que fará o PIB brasileiro regredir a níveis de uma década atrás. Em pleno surto epidêmico, imaginar que a população irá às compras para ativar a economia é pensamento mágico.

Há poucos dias, ao som de um sanfoneiro aprendiz, com a emoção de quem lê um extrato bancário, o presidente manifestou pela primeira vez solidariedade às famílias dos que perderam a vida. Antes tarde.

DRAUZIO VARELLA


18 DE JULHO DE 2020
JJ CARMARGO

O punhal da palavra

As piores frases para se começar uma conversa. Uma das experiências mais ricas que se pode enfrentar no mundo encantado da dialética é a dissecção das frases, em qualquer idioma, assumindo que nenhum instrumento de corte pode ser tão afiado quanto a palavra.

Se não bastasse a gravidade do que se diga, ainda se pode atormentar o interlocutor com o jeito de dizer, onde a linguagem corporal pode ser o camaleão do serial killer da comunicação, e tudo de um jeito angelical, como convém aos dissimulados. Os sádicos, na tendência espantosa de tornar pior o que já está péssimo, se servem de metáforas, verdadeiros punhais que brilham sedentos aos olhos atônitos da vítima, que daria tudo para ter certeza do que realmente está sendo dito. E o cérebro mediano, estarrecido pela ameaça latente, mas ainda incerta, finge sorrir para aparentar firmeza, e tudo o que se vê é o medo da notícia, que agora já aperta a garganta de terror. Se não fosse tão vergonhoso, ele choraria.

Há uns quatro anos, a New Yorker publicou uma pesquisa feita em rede social para determinar qual seria a pior frase para se iniciar uma conversa. Uma relação de 10 sentenças foram oferecidas como sugestão, e os leitores do semanário puderam votar. Com mais de 75% dos votos, a frase selecionada foi: "Eu posso ser sincero com você?". Em tese, estamos todos de acordo que nada de bom poderá vir depois desta introdução. Em termos gerais, a vitória por goleada se justifica. Mas também é verdade que existem frases, em situações específicas, que mereceriam, pelo menos, uma menção honrosa:

O chefe da seção interpelando o funcionário novato: "Não é que eu não confie em você, mas você poderia me explicar...".

O paciente pergunta ao médico se o caso dele é muito grave e ouve uma resposta preocupante: "Eu só espero que o senhor tenha um bom plano de saúde!".

A esposa, na incontrolável necessidade de discutir a relação, anuncia ao maridão, com frases silabadas, que: "Nós precisamos ter uma conversa". Se este primor de amabilidade conjugal for acrescido do adjetivo "séria", já pode ser classificada como ameaça de morte.

O patrão, preocupado com o desequilíbrio financeiro da empresa, convida o funcionário mais antigo para um inesperado primeiro cafezinho depois de décadas, e meio constrangido dispara: "Estamos numa fase de contenção de despesas e preciso que você me ajude a te ajudar!".

O marido, depois de mais uma sessão de bate-boca, anuncia que não está mais aguentando aquele casamento e que o melhor é ir cada um para o seu lado. E a esposa, com o mórbido olhar de superioridade de quem sabe do que está falando, antecipa: "Por mim, tudo bem, mas eu sei dos meus direitos!".

O guarda de trânsito, colocado estrategicamente logo depois da sinaleira, com um ar de falsa curiosidade: "O elemento é daltônico?".

Nesta altura da crônica, me dei conta de que a lista é infindável, e poderíamos inaugurar uma pesquisa, por e-mail, de diferentes frases, vividas ou ouvidas, que tenham, por cinismo, deboche ou crueldade, condições de serem classificadas como AS PIORES. Os interessados poderão se servir do endereço no alto da página. A pesquisa pretende apenas aprender um pouco mais sobre as múltiplas formas de anunciar o que ninguém quer ouvir, mas tantas vezes ouve, simplesmente porque não podemos escolher o que os outros são capazes de dizer. E, claro, os colaboradores terão a confidencialidade preservada.

J.J. CARMARGO

18 DE JULHO DE 2020
ARTIGOS

MUITO MAIS DO QUE UMA VACINA

O primeiro semestre de 2020 passou e levou muito de todos nós. Planos, experiências e as condições de vida com as quais estávamos acostumados. Rápido, silencioso e doloroso, levou também a nossa saúde, mental e física, por vezes em definitivo. Mas a tristeza nos fez seguir adiante, com a missão de encontrar saídas para uma crise global de saúde nunca antes sentida na contemporaneidade.

Os efeitos de tudo isso têm intensidades diferentes em cada um. Embora isso nos preocupe do ponto de vista social, chama atenção a forma com que nos aproximamos enquanto seres humanos. Sim, a vida foi posta em jogo. E quando nos vimos impactados por um turbilhão de fatos negativos, não conseguimos recorrer como gostaríamos àqueles que amamos. O abraço entrou em compasso de espera.

Viver a experiência de enfrentar uma pandemia dentro de um complexo hospitalar é algo que não se esquece. Além da batalha contra a covid-19, as demais doenças não param. O reflexo está nos rostos do dia a dia, que carregam medo, insegurança e incerteza. Mas não é só isso. Também emerge dos ambientes clínicos um chamado ainda maior à vida. Está nas mãos, mentes e sobretudo corações dos profissionais da saúde, que na assistência, no atendimento clínico ou na pesquisa se tornam ainda mais fundamentais. Nesses momentos, percebemos que juntos somos mais fortes.

Se os primeiros meses do ano foram de luta, o último semestre nos encoraja a colher o resultado de tanto esforço. É tempo de se fazer presente, reunir forças e alimentar a esperança de que podemos alcançar nosso resultado. Nosso ponto de partida é a testagem da vacina contra o coronavírus, que se iniciará nas próximas semanas em nosso centro de pesquisa. Estaremos em sintonia com todos, sobretudo os gaúchos, para que em breve seja possível retomar o normal que conhecemos.

Sabemos que essa luta tem diversas frentes. Por isso, até que a vacina seja eficaz e possa ser distribuída, precisamos seguir com todos os cuidados de prevenção e distanciamento, sempre refletindo sobre como as nossas atitudes podem impactar o outro. Por mais que muitas vezes a vida esteja sob cuidado dos médicos, até chegar a eles, a responsabilidade é de todos nós.

Diretor-geral do Hospital São Lucas da PUCRS leandro.firme@pucrs.br
LEANDRO FIRME


18 DE JULHO DE 2020
FLÁVIO TAVARES

NÓS, OS MACACOS...

A grande habilidade dos macacos é imitar o que veem. No horror do contágio da covid-19, estamos aprendendo a ser decadentes símios ao imitar o desnecessário e piorá-lo até.

O presidente do Brasil imita o presidente dos EUA, trata a peste com desdém e as mortes crescem. E, se não bastasse a pandemia em si, para tratar dela, abandonamos o idioma português e adotamos o inglês.

Colonizar a linguagem é sinal de servilismo, num exibicionismo que nos faz meros macaquinhos incapazes de criar, apenas repetindo o que ouvimos.

Em vez de "bloqueio total" ou "fecha tudo", dizemos "lockdown", como se a língua nacional não soubesse se expressar por si própria. Ou "drive-thru" para as provas médicas feitas "na direção do carro". Já antes, em vez de "telentrega", alguns diziam "delivery". Agora, não há "trabalho no lar" ou "em casa", mas "home office", como se esse tal de "ofício de homem" fosse coisa de macaco imitando humano.

Será que substituir o português pelo inglês nos salva da pandemia?

Os meios de comunicação, em especial a TV e o rádio, são responsáveis diretos por essa progressiva dissolução do idioma. Esquecem que o poeta Fernando Pessoa (mesmo alfabetizado em inglês na África do Sul) dizia com orgulho: "Minha pátria é a língua portuguesa".

Nós, porém, desprezamos a língua materna e nos tornamos servos de um colonialismo tão opressivo quanto no tempo do Brasil Colônia, pois espolia e rouba nossas raízes culturais. E nos faz simples bonecos de ventríloquo, sem raciocínio ou iniciativa, repetindo sons sem saber o significado.

Por que preocupar-se com isso, porém, se há males piores?

A covid-19 coroa o horror, mas outros absurdos evitáveis ampliam o desastre. Na Amazônia, o governo federal vai dar "títulos de propriedade" a grileiros que invadiram uma área equivalente à soma dos Estados do Rio de Janeiro e de Sergipe e nela devastaram florestas.

Os ex-ministros da Fazenda e presidentes do Banco Central a partir do governo Sarney alertaram o presidente da República sobre a urgência de implantar "desmatamento zero" na Amazônia, e, assim, evitar um boicote mundial ao nosso comércio. Duas dezenas de grandes investidores internacionais advertiram o presidente Bolsonaro de que abandonariam o país devido ao descaso na preservação do meio ambiente.

As mudanças climáticas nos ameaçam mais do que a covid-19, mas fingimos não saber. E passamos a infestar o que nos rodeia, como, aqui, na pretendida mina de carvão a céu aberto, à beira do Rio Jacuí, a 12 quilômetros de Porto Alegre, que poluirá o ar e fará do Guaíba um lago podre, deixando a Capital sem água. E daí??

Bonecos ou macacos, nos diferenciamos deles, porém, por ver o crime.

FLÁVIO TAVARES

18 DE JULHO DE 2020
ARTIGOS

FAKE NEWS E VINGANÇA

O polêmico projeto para regular as redes sociais no Brasil (PL 2.630/2020), mais conhecido como projeto das fake news, no texto em que está, não pretende combater as notícias falsas em sua essência. No seu âmago, o projeto aprovado em açodada votação remota no plenário do Senado - e que agora está sob análise da Câmara - busca, sim, colocar em marcha a vingança de figuras poderosas da República contra críticas políticas que recebem de cidadãos e eleitores conectados à internet.

A canhestra proposta se traduz num duro golpe contra a liberdade de expressão garantida pela Constituição. A impropriedade fica evidente quando se sabe que já existem na legislação penal brasileira meios para vítimas se defenderem dos abusos de calúnia, injúria e difamação cometidos online. Na prática, o que se quer é a instalação de grande e permanente vigilância sobre manifestações e conversas de pessoas nas suas comunidades virtuais.

Os protestos da sociedade confirmam o aspecto extremamente autoritário do projeto pouco discutido e sem respaldo no Brasil contemporâneo e democrático. É de se estranhar que dispositivos que interferem na rotina de 140 milhões de usuários cotidianos das redes sociais no país fossem aprovados sem audiências públicas e sem debates presenciais. A população merecia mais respeito do Legislativo.

Com normas previstas também para serviços de mensagem, o projeto fixa condições para provedores atuarem, exige identificação e monitoramento de usuários e facilita retirada de conteúdo. Assim, não só a opinião do cidadão corre risco, mas também seus dados pessoais. Como se não bastasse esse regramento de censura e insegurança sem paralelo em democracias, o texto ainda amplia a chance de perseguição com um conselho para decidir o que é ou não fake news.

Nenhum parlamentar pode ser a favor da mentira e do ódio, mas também não pode concordar com barreiras que contrariem o próprio sentido de ser das redes sociais, que é a liberdade para todos se manifestarem. É por isso que se esperam correções dos deputados e, assim, o monstrengo possa ser reavaliado pelos senadores, de preferência na volta das sessões presenciais. Só assim, com responsabilidade para com o público inconformado pelo rumo das coisas, será possível barrar os abusos iminentes num retrocesso movido pelo fígado.

LASIER MARTINS


18 DE JULHO DE 2020

O PRAZER DAS PALAVRAS


Fostes tu


A pergunta vem de uma colega, professora de Português, que pede para não ser identificada: "Professor, estou numa saia-justa. A coordenação de nossa cadeira produziu uma aula de atividades sobre a música Dinamarca, do Gilberto Gil e do Milton Nascimento, que eu amo de paixão. Contudo, só ao preparar a aula em casa foi que notei que eles erram a conjugação do TU. Na letra, eles se dirigem todo o tempo a um capitão de navio usando a segunda pessoa, mas lá pelas tantas escrevem "Depois do dia em que tu partistes". Fui conferir na música e é assim mesmo que eles cantam, com aquele S no fim. E agora? Se um aluno perguntar, digo que isso é licença poética ou admito que os compositores erraram mesmo?"

Cara colega, há muito venho usando aqui uma distinção que, apesar de jocosa, tem valor universal: há duas atitudes básicas no que se refere ao idioma que usamos - ou pertencemos ao bloco dos despreocupados ou ao bloco dos aflitos. Os primeiros não têm consciência da linguagem que utilizam; contentam-se em usá- la, trinando como os pássaros, e vivem muito bem com isso, desde o primeiro choro até o silêncio final.

Os outros, ao contrário, numa atenção (e tenção) constante, jamais deixam de se preocupar com a observância daquilo que se convencionou chamar língua padrão. Trazem o olho e o ouvido sempre ligados, abrem o dicionário, consultam a gramática, inquietam-se quando o corretor automático sublinha alguma coisa no seu texto - e até destinam alguns minutos à leitura destas colunas, em que eu, aflito em tempo integral, converso com os demais membros da tribo.

Nos pontos em que a linguagem popular se afasta muito do que é considerado correto pela língua padrão, o aflito, ao contrário do despreocupado, assume uma atitude tensa, de autovigilância constante, por considerar - e com toda a razão - que qualquer desses erros considerados clássicos vai prejudicar sua imagem social ou profissional, ou mesmo manchar o seu cartaz nos sites de relacionamento (é só perguntar às frequentadoras do Tinder, por exemplo, a decepção que sentem quando o possível galã espanca impiedosamente o idioma...).

Pois é exatamente nesses pontos de gelo fino que pode ocorrer, entre os aflitos, uma curiosa maneira de errar, chamada de ultracorreção ou hipercorreção pelos linguistas. Ficamos tão ansioso por evitar um erro para o qual fomos alertado que terminamos aplicando a regra onde não devia ser aplicada, corrigindo o que não era para corrigir. No fundo, estamos cometendo um erro novo ao tentar evitar um erro velho.

Este é exatamente o caso da letra de Dinamarca, onde aparece um desses pontos "minados" de nosso idioma: o uso do TU. Este pronome pode tornar-se uma armadilha fatal para recém-chegados, como é o caso de Gil e do Milton Nascimento, que usam você desde que nasceram. Ao escolherem aqui o tratamento na segunda pessoa, vieram pisando em ovos, cautelosos, cientes (ambos têm sólida formação escolar) dos perigos que isso implica - e erraram por excesso de cautela.

A desinência característica da segunda pessoa do singular é sempre o S (partes, partirás, partirias, partisses, partias), exceto num único tempo, o pretérito perfeito, em que este S é cedido à segunda pessoa do plural: tu fizeste, vós fizestes; tu partiste, vós partistes. Ora, aqui no Sul criou- se uma combinação alternativa do pronome tu com a forma verbal do você (tu vai, tu foi, tu é), usada naturalmente pelos despreocupados mas evitada pelos aflitos enquanto não obtiver a chancela dos guardiões da língua-padrão.

E é nesse exato momento que ataca a hipercorreção: esforçando-se em falar certo, o pobre aflito muitas vezes se esforça demais e dá tanto impulso para montar no cavalo que vai cair do outro lado. Para não dizer *tu foi, *tu veio ou *tu disse (o asterisco assinala as formas condenadas pela gramática), ele acaba saindo com *tu fostes, *tu viestes, *tu dissestes, também erradas. Acho que deves explicar isso tintim por tintim aos teus alunos sem arranhar o talento do Gil e do Milton Nascimento; afinal, a boa intenção dos aflitos sempre serve para atenuar um pouco os seus pecados.

CLÁUDIO MORENO


18 DE JULHO DE 2020
RESTRIÇÕES EM PORTO ALEGRE

"Próximo passo é lockdown"

Nelson Marchezan foi enfático em pronunciamento: se não cair a circulação de pessoas, Capital pode parar na próxima semana

Após ouvir de gestores de hospitais que há pouca margem para novas ampliações em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) em Porto Alegre, em reunião realizada na sexta-feira, o prefeito Nelson Marchezan admitiu a possibilidade de a Capital adotar lockdown nos próximos dias caso o índice de isolamento social não aumente e force diminuição no ritmo de internações de pacientes graves.

Marchezan argumentou que a maior parte dos administradores de hospitais informou estar "no limite" do atendimento, com dificuldades para conseguir novos profissionais habilitados, equipamentos e medicamentos, a exemplo de anestésicos. Isso poderia exigir a imposição de medidas ainda mais rigorosas de restrição à circulação "na semana que vem", afirmou o prefeito quase ao final da live iniciada pouco depois das 17h.

A intenção é adotar essa medida com uma mínima base de apoio social, incluindo população, imprensa e representantes do empresariado. Por isso, na reunião com os gestores hospitalares, pediu que eles ajudem a conscientizar as pessoas sobre a gravidade do atual estágio da pandemia. Em seguida, se reuniu com líderes de entidades empresariais para detalhar a situação e preparar o caminho para eventual lockdown.

A avaliação é de que não há como continuar acompanhando o ritmo de hospitalizações pelo coronavírus desde que a covid-19 passou a ganhar força na primeira quinzena de junho - mesmo com acréscimo superior a 220 vagas de terapia intensiva. Na sexta, havia 748 leitos operacionais na cidade, contra 525 disponíveis no final de março. Segundo Marchezan, Porto Alegre é hoje a segunda capital com maior proporção de vagas de UTI por habitante.

O problema é que, apenas ao longo da última semana, o avanço na demanda por UTIs foi de 24% em um cenário já sobrecarregado. Na tarde de sexta, havia um recorde de 260 pessoas com covid-19 sob tratamento intensivo, e em meio a uma ocupação geral de 88,8%. Essa quantidade supera o teto intermediário de 255 leitos previstos para covid no plano de contingência, e projeções indicam que o limite máximo de 383 pode ser ultrapassado no dia 30 de julho se a atual velocidade do vírus se mantiver.

No momento, mesmo sob a vigência de decretos que restringiram o funcionamento de setores econômicos como comércio e indústria, além de impor limitações à circulação como o bloqueio de parques e de parte do vale-transporte, o índice de isolamento entre a população segue em patamares insuficientes para cortar as linhas de transmissão do coronavírus.

A taxa de isolamento em Porto Alegre ficou em 47,8% na quinta- feira, enquanto a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) entende que o mínimo necessário para reduzir a velocidade de contágio seria 55%.

Gre-Nal

Marchezan argumentou que a situação atual justifica o veto ao clássico Gre-Nal marcado para a próxima quarta-feira.

- É por isso que tivemos de dizer não à realização dos jogos do Campeonato Gaúcho em Porto Alegre. Qual cidade gaúcha ou brasileira não iria gostar de ter um Gre-Nal no seu território? Mas essa não é uma mensagem adequada ou respeitosa à situação que estamos impondo aos profissionais da saúde e a todos os trabalhadores e empresários da cidade - justificou Marchezan, que ainda apelou para que as pessoas fiquem em casa. - Ou diminuímos a circulação a ponto de conter a proliferação do vírus, ou os médicos terão de decidir quem vai viver e quem vai morrer.

MARCELO GONZATTO*


18 DE JULHO DE 2020
REFORMA TRIBUTÁRIA NO RS

Como o ICMS pode gerar renda

Piratini promete distribuir a famílias que ganham até três salários um valor anual que chegará a R$ 450 milhões a partir de 2023

Em tentativa de tornar mais justo o sistema tributário estadual, o governo Eduardo Leite propõe a devolução de ICMS para 1,1 milhão de famílias de baixa renda no Rio Grande do Sul - 30% do total. Inédita no Brasil, a iniciativa é defendida no Palácio Piratini como forma de corrigir o efeito regressivo do imposto (ou seja, que onera mais quem ganha menos), mas será preciso convencer os críticos de que a operação é viável e de que não se traduzirá em ônus aos demais contribuintes e a setores estratégicos.

Se a proposta for aprovada como está na reforma tributária, o governo planeja iniciar a restituição em 2021, começando por famílias com até um salário mínimo e ampliando o alcance de modo gradativo até 2023. A reposição terá valor fixo mínimo de R$ 30 mensais e poderá ser ampliada de acordo com o consumo, com limites preestabelecidos.

Em 2021, a Secretaria da Fazenda estima devolver R$ 150 milhões aos mais pobres - a título de comparação, o Estado arrecadou R$ 36,5 bilhões em ICMS em 2019. A meta, até 2023, é triplicar o valor revertido, atingindo núcleos familiares de até três salários mínimos.

Para bancar o ressarcimento, o governo pretende criar o Fundo Devolve ICMS, que será alimentado com contribuições de setores contemplados por benefícios fiscais. O principal deles deve ser o agronegócio, o que preocupa representantes do segmento.

- A reforma é necessária e a ideia da devolução de ICMS a partir da criação de um fundo é positiva. Está em linha com a literatura e segue as melhores práticas internacionais. A questão é como isso será financiado. A conta não pode pesar sobre um setor, e nós já avisamos o governador que vamos propor alterações - afirma Antônio da Luz, economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado (Farsul).

Questões

Há dúvidas, ainda, sobre outros dois aspectos: como as classes média e alta vão reagir à proposta, e como será a operacionalização da medida. Além de envolver grande número de pessoas, há o risco de fraudes, como se viu no caso do auxílio emergencial, pago pela União.

- A Receita Estadual já trabalha com menos da metade do contingente de pessoal. É praticamente impossível levar adiante algo assim sem estrutura adequada. Além disso, a proposta beneficia apenas um estrato social. Talvez fosse melhor, nesse momento, concentrar a reforma na simplificação e modernização do sistema - pondera Marcelo Ramos de Mello, presidente da Associação dos Auditores Fiscais da Receita Estadual (Afisvec), que reivindica a nomeação de 150 profissionais na área.

Esforço

Secretário da Fazenda no governo Yeda Crusius, Aod Cunha discorda das ressalvas. O economista considera "justo pensar no alívio dessas famílias" e, embora reconheça as dificuldades de implantação, avalia que não há empecilhos à mudança.

- Isso não deve ser colocado como obstáculo intransponível. A gestão pública precisa se debruçar sobre o tema. Também diziam que era impossível fazer o Bolsa Família e o programa foi implementado - destaca Aod.

À frente da Receita Estadual, Ricardo Neves Pereira garante que, no conjunto de ações previstas, haverá "redução da carga tributária para todas as famílias". Ele também afirma que os setores chamados a colaborar com o fundo serão compensados de outras maneiras.

- O que estamos propondo é o melhor caminho dentro do que era possível fazer. A carga tributária é redistribuída com pequena contribuição dos vários segmentos. E, no caso do setor produtivo, a contribuição voltará na forma de investimentos em infraestrutura agropecuária, inovação e em consumo. Projetamos vários cenários e esse é o que tem o menor impacto na sociedade, com elementos que estimulam a economia e recolocam o Rio Grande do Sul no patamar de competitividade esperado há anos - diz Pereira.

JULIANA BUBLITZ

18 DE JULHO DE 2020

PELA VIDA

Parques tecnológicos desenvolverão respiradores


Os quatro principais parques tecnológicos de Porto Alegre e Região Metropolitana receberão financiamento do governo do Estado para pesquisar e desenvolver respiradores de baixo custo, que possam ajudar a salvar vidas em meio à batalha contra o coronavírus.

Um consórcio formado pelos parques Zenit (da UFRGS), Tecnosinos (Unisinos), Tecnopuc (PUCRS) e Feevale Techpark receberá R$ 150 mil para adequar seus laboratórios e criar peças e equipamentos hospitalares.

A rede de instituições foi selecionada em um edital lançado em abril e com resultados definidos no final de junho. A proposta do projeto, capitaneada pela Secretaria Estadual de Inovação, Ciência e Tecnologia (SICT), é que estes centros aproveitem o conhecimento reunido nas startups e nas oficinas 3D e de prototipagem para criar ventiladores de baixa e média complexidades. Os equipamentos poderão ser utilizados em UTIs para complementar o tratamento de pacientes com covid-19 submetidos aos respiradores de alta complexidade.

- É um movimento importante porque une a força do setor tecnológico do Estado para buscar soluções para a área da saúde em um momento que se precisa ampliar a produção de respiradores - explica o titular da SICT, Luís Lamb.

A fase de pesquisas nos parques irá durar 12 meses. Depois que forem desenvolvidos os protótipos, as universidades deverão firmar parcerias para iniciar a produção em massa dos respiradores. Estes deverão ser implementados, inicialmente, nos hospitais universitários.

Outra frente de trabalho será desenvolver as válvulas de duplicação, usadas nos equipamentos de tratamento de pacientes em fases menos críticas da covid-19.

- Um dos avanços deste projeto é a redução de dependência do Brasil em peças, componentes e equipamentos do exterior - afirma a diretora do Tecnosinos, Susana Kakuta.

ERIK FARINA

18 DE JULHO DE 2020
RODRIGO CONSTANTINO

Patota do selo azul

Walter Duranty foi um jornalista que atuou como chefe do escritório de Moscou do New York Times por 14 anos após a vitória bolchevique. Suas "reportagens" enalteciam o regime comunista, e ele chegou a ganhar um Prêmio Pulitzer em 1932. Mas seus textos eram uma fábrica de mentiras e deturpações, para colocar a ditadura soviética sob uma luz favorável.

Esse caso é um dos mais escandalosos, mas nem de perto o único. O NYT sempre teve forte viés de esquerda, apesar de se vender como imparcial. Não há nada de novo, portanto, na denúncia feita pela editora de opinião Bari Weiss, que pediu demissão do jornal expondo o ambiente asfixiante e persecutório mesmo para moderados de centro na redação do Times.

Weiss alegou sofrer forte bullying dos colegas por conta de suas opiniões. Ela era chamada de "racista" e "nazista" só por não rezar totalmente a cartilha do politicamente correto. Seus pares pressionavam o jornal para demiti-la, e faziam isso abertamente em redes sociais. Ela lamenta a covardia dos chefes, que em privado elogiavam sua coragem, mas nada fizeram contra os ataques.

Para Weiss, o Times perdeu de vista seus princípios, traiu seus padrões, virou as costas para o público, deixando-se levar pelas redes sociais. De que adianta o compromisso com a verdade se alguém pode prosperar lá dentro só demonizando Trump? Essa questão mostra como o viés ideológico tem falado mais alto do que a busca pelos fatos. E, como se viu, não é de hoje.

Não obstante, muitos ainda fingem que o NYT é um jornal muito sério e imparcial, negando-se a enxergar a realidade. Um dia depois da carta de Weiss, um vídeo do youtuber Felipe Neto foi publicado na página do jornal, distorcendo os fatos para disseminar uma narrativa partidária contra Trump e Bolsonaro, responsabilizados pelas mortes por coronavírus.

Chamo de "patota do selo azul" essa turma, em referência ao selo de verificação do Twitter, que também possui claro viés ideológico. O problema dessa postura é que há a internet hoje. As mentiras e distorções não resistem ao ambiente de maior transparência. Por isso, aliás, querem censurar as redes sociais...

RODRIGO CONSTANTINO

sábado, 11 de julho de 2020



11 DE JULHO DE 2020
LYA LUFT

Sem assunto

Alguém vai pular e dizer: ué, essa doida começa a escrever dizendo que não tem assunto?

Pois é, meus leitores, meus amados amigos imaginários (nem todos me amam de volta), eventualmente se começa assim o dia, o livro, o trabalho, o roteiro nas ruas, o artigo novo. Se temos assuntos demais, escolher o quê? A pandemia tão espantosa sobre a qual já nem se sabe o que dizer exceto "se cuida, usa máscara, evita grupos maiores, fica em casa se puder"? Ou os desgovernos pelo mundo, com alguns líderes bizarros que levam muita gente a atitudes ruins?

Não sei, ainda não achei direito o assunto desta coluna, mas, isso eu sei, ele está dentro de mim como um passarinho no seu toco de árvore ou ninho, esperando que eu me distraia pra voar e pousar aqui, no teclado do meu computador.

Claro que não é sempre assim: na maioria das vezes, eu sento aqui com ideia clara do que vou escrever, ou dois, três assuntos para escolher na hora. Mesmo não sendo dos escritores mais disciplinados e organizados, dos respeitáveis que escrevem certo número de páginas por dia mesmo sem ter assunto algum, não sou totalmente caótica.

Porque também trabalho com arte - literatura é arte, gente... - precisa certa arrumação para que palavras e frases não saiam voando feito um bando de morcegos atabalhoados. Aliás, corrijo: parece que os bichinhos famigerados voam em absoluta ordem com seus radares pela noite onde tudo enxergam e sentem. Ao contrário de nós, tantas vezes andando às cegas, nos debatendo, esperneando, errando o caminho e teimando em ficar naquela direção... às vezes, sim, voltando pro rumo melhor quase sem acreditar que, sozinhos ou com ajuda, enfim vamos em frente para algum tipo de destino.

Talvez eu esteja falando em destino. Esse novelo estranho que se arma quando somos concebidos, e se desenrola a vida inteira, às vezes amarrado em nossos tornozelos e nos fazendo cair, e por fim acaba, último milímetro de fio, no chamado último suspiro.

Somos essa duplicidade: destino e escolhas. Não somos inteiramente inocentes, bem que seria bom, alguém ser o culpado de tudo, não nós, com nossa teimosia, arrogância, ignorância, precipitação ou apenas fragilidade, porque somos umas frágeis criaturas mesmo quando gritamos e batemos pé. Talvez, quando mais frágeis, mais gritamos e nos debatemos. Porque o comecinho da sabedoria de vida, que em geral vem com a idade - mas à vezes nem com ela aparece - e é tranquila e discreta quando se afirma.

Destino, sim: às vezes a vida parece uma tragédia grega, vemos isso não só na nossa particular, mas em milhares neste mundo, com gente morrendo, vários de uma família, com essa Peste ainda enigmática que nos assola. Outras vezes, por exemplo, quando nos recusamos a nos cuidar, a nos preservar, a praticar alguns pequenos incômodos como usar máscara ou ficar em casa se não é essencial sair: aí, meus amados, a escolha é nossa, e não é tragédia: é ignorância.

E não é que tive assunto?

LYA LUFT

11 DE JULHO DE 2020
MARTHA MEDEIROS

A vida e o tempo

As pessoas têm reclamado da quantidade de vida que estão desperdiçando durante o isolamento social. A sensação é de que 2020 já era, foi um ano morto. Há quem inclusive faça piada dizendo que não trocará de idade, manterá a do ano passado, até que possa festejar seu aniversário de novo.

É natural acreditar que a vida é o que acontece enquanto estamos ocupados. Ao cumprir inúmeras tarefas, utilizando todas as horas do dia com atividades práticas, parece que conseguimos manter a morte a distância - brincando de Deus, nosso hobby.

Mas aí vem essa crise sanitária que nos paralisa e nos joga na cara, diariamente, um número preocupante de óbitos. Manter a morte a distância não está mais relacionado com agitação, e sim com ficar paradinho dentro de casa, por mais que tanta gente não consiga compreender e tirar proveito disso.

Poderíamos ser menos obtusos se Filosofia fosse matéria escolar obrigatória, mas os alunos continuam tendo acesso apenas ao pensamento de seus ídolos, que certamente não são Aristóteles, Platão, Nietzsche ou Sêneca, que nunca gravaram uma live.

Nietzsche, por exemplo, dizia: "Aquele que não dispõe de dois terços do dia para si é um escravo". Deveríamos trabalhar oito horas e dedicar as outras 16 ao ócio, ao lazer, ao sono, à meditação. Tão lindo e tão irreal. Até início de março, gastávamos as 16 horas restantes em congestionamentos, farmácias, mercados, cartórios, bancos, lojas, consultórios, filas. Mas o cenário já não é este. Muita gente ainda precisa ir para a rua (pessoal da saúde dando expediente diário de 14h, 16h), mas eu e tantos outros estamos em home office e finalmente dispomos de dois terços do dia para fazer as refeições com mais calma, para ler, para "desperdiçar" com aquilo que equivocadamente chamamos de fazer nada.

Sêneca complementa: "Pequena é a parte da vida que vivemos. Pois todo o restante não é vida, mas somente tempo". Ou seja: nada está mais longe da vida do que o homem superocupado, que nunca se detém, não contempla seu passado, não desfruta o presente e está sempre de mãos vazias em relação ao futuro.

Filosofia em plena pandemia, sim. Temos que extrair algo bom desse período. Antes, sobravam só uns minutinhos para o que realmente valia a pena - telefonar para os avós, preparar um suco de laranja, contar uma história para uma criança. Mudou. Podemos adicionar mais plenitude a este tempo que parece não passar. Não há pressa nem excesso de compromissos. A tarefa mais urgente é prestar atenção aos nossos sentimentos internos, que ficavam sem ser observados. Os dias andam repetitivos? Pois eles têm tudo para ser mais vívidos do que aquela agenda empanturrada que, por ora, deixou de nos atazanar.

MARTHA MEDEIROS


11 DE JULHO DE 2020
CLAUDIA TAJES

Memórias do corpo na quarentena

A gente, que tem casa e condições para sobreviver, se queixa da quarentena por razões bem diferentes daquelas de quem não consegue sequer sacar o tal auxílio emergencial - e são muitos os que não conseguem. Mães solo com filhos, conheço várias. Um amigo que passou todo o ano de 2019 sem emprego não teve direito porque, em 2018, ainda trabalhando, teve renda. Nossos governantes consideram que alguém nessa situação fica olhando para os contracheques passados e se alimenta deles, só pode.

No meio de tudo isso, a psicóloga e roteirista Gabriela Altaf, mineira de Juiz de Fora que vive há 22 anos no Rio de Janeiro, começou um projeto a partir, justamente, de um inesperado desemprego. Ela conta: "O programa de TV em que eu trabalhava foi suspenso por causa da pandemia. E Copacabana, o bairro onde eu e meus pais vivíamos, tinha o maior número de vítimas fatais pelo coronavírus. Decidimos ir para Juiz de Fora, passar a quarentena na cidade da nossa família. Assinei a rescisão do contrato pela manhã e, à tarde, chegamos em Minas, para ficar no apartamento onde meus avós, já falecidos, moravam".

Foi depois de higienizar e arrumar tudo, vendo uma pintura no banheiro da casa dos avós, que ela teve um estalo. "Era uma pintura que povoou a minha infância inteira. E que acionou uma série de lembranças do meu corpo de criança. Eu achava que aquela pintura fosse um portal para algum castelo e agora estava ali, no meio de uma quarentena, preocupada em ajudar meus pais e a fazer o possível para sairmos dessa vivos."

A pintura - que, no fim das contas, continuava a ser um portal, mas agora para uma possibilidade de sobrevivência na vida adulta - foi o ponto de partida para o projeto Memórias do Corpo na Quarentena. "Quis pensar quais seriam as memórias que os nossos corpos estariam arquivando neste momento. Saudades, lembranças, dores, superações, angústias? O que, para além do medo da contaminação, estaria sendo arquivado em nossas peles durante o período de confinamento?". Foi nesse momento que nasceu o documentário agora em produção.

"Bell Hooks, a autora feminista, pondera que transitar entre o silêncio e a fala é um gesto desafiador, que cura. Eu venho da Psicologia e a fala, para mim, realmente tem esse poder libertador. Quis, então, convocar as pessoas a falarem sobre seus corpos e sua relação com eles neste momento que estamos passando."

Gabi postou um convite no Instagram e, para surpresa dela, começou a receber relatos não apenas de amigos, mas de desconhecidos de dentro e fora do Brasil. "Eu estudo o corpo há quase 10 anos. Foi tema do meu mestrado, da minha primeira série de documentário, do meu primeiro curta-metragem. O projeto veio da necessidade de tentar transformar a tristeza pela demissão, e por tudo o que esse momento tem trazido, todas as mortes, todo o descaso e irresponsabilidade deste governo, em alguma ação que me ajudasse a não paralisar diante da tragédia. Era preciso canalizar a energia para tentar criar algum sentido no meio desse caos que é a pandemia e que é o Brasil hoje."

"Temos quase 70 relatos já, das mais diversas e impensáveis vivências. Desde as mudanças físicas - no cabelo, na menstruação, na pele, no intestino, às mais subjetivas...Tem a menina que, longe dos olhares de preconceito, descobriu que seu corpo gordo, como ela o descreve, ama dançar e passou a soltar a franga em frente ao espelho. Já Flávio, jovem gay, vive a casa na quarentena como prisão, pois, não sendo assumido para a família, narra como tem tido que controlar seu corpo, seus gestos mais espontâneos, para não dar pinta."

Além de documentário, Memórias do Corpo na Quarentena também vai ser um livro, com renda revertida para as famílias afetadas pela covid-19. Gabriela já está em busca de uma editora parceira para entrar na empreitada.

Quer mandar um relato? É só entrar no Instagram @memoriasdocorponaquarentena. E deixar o seu corpo falar.

CLAUDIA TAJES


11 DE JULHO DE 2020
MÔNICA SALGADO

Amar o que não gosta

A coisa mais difícil é amar o que a gente não gosta. Porque assim: a gente ama uma pessoa, mas a gente não ama TUDO numa pessoa. Mesmo que a pessoa em questão seja pai, mãe, irmã, marido, filho... pera aí: filho? Mas e o tal amor incondicional mágico da maternidade, cantado em verso e prosa há séculos? Bem, digamos que todo amor - inclusive esse - é construção. E ele pode se construir imenso, cheio de potência, maior até que o amor a si mesmo. No entanto, 100% puro, desinteressado, não condicionado a nada - nem reciprocidade? Duvido.

Nascemos bicho, puro instinto. E então vamos nos humanizando. A partir disso, surgem necessidade de atenção, vontade de se destacar, urgência em satisfazer nossas necessidades, competição por afeto. Raiva, insegurança e frustração quando esses intentos não são atingidos. Toda sorte de afetos desagradáveis humanos - basta observar o comportamento de um bebê.

Daí que a mágica acontece justamente quando a gente consegue amar o todo - ou amar o que a gente gosta e tolerar o que a gente não gosta. Desde que a primeira coluna seja a maior. Aí reside a beleza do amor e do autoamor. Mas como é difícil, senhoras e senhores.

Claro que, quando se trata dos nossos queridos, temos uma tolerância maior ao que a gente não gosta. Você corta um colega da sua vida porque ele agiu assim e assado, mas não corta o filho, o marido. A corda do perdão pode ser beeem elástica, não?

Meu filho tem só nove anos, mas já o chamamos de "professor de Deus". Ele "sabe" absolutamente tudo de todas as coisas. Há quem diga que a culpa é dos astros - ele é de Sagitário, célebre sabe-tudo do Zodíaco. Outros alegam que o fato de ele ser filho único não ajuda em nada, o que tendo a concordar. Com ele é assim: você explica, você acessa o Google, você cita Einstein, você recorre à ajuda de uma terceira pessoa para confirmar o que está dizendo... em vão. Ele se fecha na sua convicção, alheio a fatos e argumentos. Também é capaz de dizer, com sorrisinho no canto da boca e tudo, que superjoga tênis depois de ter feito uma aula experimental. E se julga hábil baterista após desistir das aulas na terceira sessão. Autoconfiança é coisa boa, porém autoconfiança demais (o que dirá autoconfiança não embasada em algo concreto...) vira arrogância rapidinho. E cegueira, e ilusão.

Sou o oposto disso - e obviamente isso também é um problema per se. Digamos que eu tenha certeza de uma coisa. Se você me perguntar três vezes se eu tenho certeza, na terceira já estarei totalmente descrente da minha própria certeza. Não tenho culhões pra dizer que sei tocar bateria mesmo depois de dois anos de aula e, se alguém questionar se jogo tênis, só digo "ah, eu brinco", ainda que troque bola desde os meus 18 anos. Sou bastante influenciável e acho que não passei na fila da autoconfiança - síndrome da impostora é comigo mesma. E como a gente só consegue enxergar o mundo pelas nossas lentes e toda crítica é uma confissão... imaginem como me sinto (irritada, indignada, frustrada) a cada episódio do parágrafo acima. Sim, meu menino tem mil qualidades. É o ser que mais amo na face da terra. Mas como é difícil a gente amar o que a gente não gosta! Ou o que a gente não é.

Meu marido é a pessoa mais correta, honesta e trabalhadeira que se pode imaginar. Porém... ô bichinho rabugento. É o cara do copo meio vazio, meu ranzinza favorito. Eu voo; ele me aterrissa. Eu brinco; ele bronca. Eu festa; ele sofá. Eu terapia; ele silêncio. Eu exposição; ele resguardo. Eu gasto; ele poupa. Eu sonho; ele vida real. Estamos juntos há mais de 20 anos e, cada vez que um vulnerabiliza, as diferenças gritam a um nível quase ensurdecedor. Opostos complementares pode ser bom, mas como é difícil a gente amar o que a gente não gosta! Ou o que a gente não é.

A vida é cheia disso. Um eterno exercício de amar o que não é espelho. De amar o real, e não o idealizado. De amar também o feio, o diferente, o difícil. De amar o todo, e não as partes. Nos outros e em nós. Se não amar, aceitar. Faz seu drama, seu número de vítima, manda um "oh, céus, oh, vida" e siga em frente. É difícil, mas não impossível, amar o que a gente não gosta.

MÔNICA SALGADO
11 DE JULHO DE 2020

LEANDRO KARNAL

O VALOR DE TUDO


Em 1987-88, eu era um jovem estudante que morava em uma pensão da Rua Bahia, em Higienópolis, São Paulo. Trabalhava em escolas de Ensino Fundamental e supletivos, com uma renda escassa e muito entusiasmo. Vivi anos que considero extraordinários. Mais de uma vez, terminou o dinheiro das passagens de ônibus antes do novo pagamento e eu voltava a pé da USP até a pensão. Desde os 23 anos de idade, nunca mais recebi um centavo do meu pai. Eu me sustentava inteiramente com bastante empenho. Não havia dor ou ressentimento: eu era jovem e estava descobrindo São Paulo, a USP e o mundo.


Os colegas pensionistas eram estudantes ou trabalhadores em começo de carreira, a maioria de classe média. Convidavam-me para sair. Uma vez, fomos a uma casa noturna. Pedi um drinque simpático e comentei: "É uma hora-aula"! Aquela era a minha medida de valor: a hora-aula, o montante que um professor da rede privada recebe por 45 ou 50 minutos de trabalho. Aquela bebida tinha custado uma hora de pé lutando com uma então "sexta série" na Escola Irmã Izabel de Nossa Senhora de Sion. Tomei o drinque lentamente: ele deveria durar ao menos... uma hora-aula. O valor deveria combinar com o tempo para obtê-lo. Quando alguns pediram nova rodada, aleguei um limite baixo. Não especifiquei que o "baixo" se referia ao limite financeiro, não ao álcool.

Eu vivia pela hora-aula. Entrando em faculdades particulares, a primeira informação que buscávamos na entrevista era "quanto é a hora-aula aqui?". Éramos trabalhadores movidos a essa medida.

Anos mais tarde, percorrendo a Ásia em viagens culturais, um amigo oftalmologista observou sobre um jantar em Dubai: "Isto são duas cataratas!", explicou o valor da cirurgia de catarata e que ele avaliava algo por essa unidade. Há hora-aula e existe a hora-catarata. Eu suspirei pelo valor superior e também porque os pacientes dele eram sedados e vinham voluntariamente; os meus alunos, não.

A vida roda rápida, rodopia por vezes, galopa e até pode parar em algum ponto. Em 2020, incorporei a unidade monetária "live". "A viagem de fim de ano custará tantas lives". Aumentei a renda, claro, todavia, como todas as pessoas que envelhecem, expandi os gastos e os dependentes diretos. Por vezes, imagino que há 30 anos eu tinha menos água e muito menos sede do que hoje, o que parecia compensar. A sede dispara, e os sedentos, também. Envelhecemos como uma cornucópia abundante que saiu do isolamento pobre da juventude com mais recursos e muito mais desejo. A ascensão é melhor do que o declínio, porém os jovens precisam saber que o aumento do valor obtido no seu numerador virá acompanhado do aumento de pessoas no denominador.

O isolamento social na quarentena fez com que meus gastos despencassem. Houve uma lição: eu posso e quero viver com menos. A outra lição, além de racionalizar o consumo, é que, apesar de eu ser prudente, o mundo demanda reservas ainda maiores para períodos de estiagem. Qual o tamanho delas? Tenho medo daquela síndrome de "faraó" que vi em amigos empresários. Vivem para sua tumba-pirâmide.

Acumulam dentro da área que cerca a morte. Viver para morrer é fascínio funerário, investimento no fim e pouca atenção para a vida do meio. Não quero tal projeto. O oposto é perigoso: viver como se não houvesse amanhã. O amanhã vem e pode vir com um novo vírus. Gosto do pensamento que já vi atribuído a Jim Brown e ao atual Dalai-lama, logo vai aqui como sabedoria pura de autoria duvidosa: "Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro esquecem-se do presente de forma que acabam por não viver nem no presente nem no futuro. E vivem como se nunca fossem morrer. E morrem como se nunca tivessem vivido".

Talvez, seja de um terceiro autor, é uma diretiva sábia. Viver plenamente, com base em hora-aula, catarata ou "live". Saber que tempo tem custo e que não somos imortais. Pensar na velhice como um novo período de novos desafios e necessidades. Avaliar o denominador sempre. Viver estrategicamente e levar em conta que o valor da vida supera os outros custos. Pensar que as coisas mais importantes são gratuitas. Evitar o arrependimento de uma vida voltada ao que era secundário deixando de lado o central. Em resumo: a crise me fez pensar em viver de outra forma, ainda melhor, com menos, com mais pessoas importantes de fato, com bons momentos gratuitos e uma mudança de valor, de hora-aula para hora-vida. A hora-vida não pode aumentar; a fruição dela sim.

Sei que irei morrer. Isso é irrelevante. O significativo é o que farei até aquela data. Morrer é inevitável. Viver é uma arte que exige empenho e sabedoria. Nada do que eu fizer pode impedir que encerre minha existência um dia. Tudo o que eu fizer a tornará significativa, transformadora, agradável a mim e luminosa para outros. A escuridão da epidemia e a dor que me cercava pelo país fizeram com que eu buscasse mais luz. O que você aprendeu com o período? É preciso ter esperança. A falta de esperança emperra tudo, independentemente da renda.

LEANDRO KARNAL


11 DE JULHO DE 2020
FABRO STEIBEL

A MODA COVID E A SUA PRIVACIDADE

Mais de 50 países já lançaram aplicativos de celular para verificar a proximidade com pessoas infectadas pela covid-19. Crescem agora soluções de vestir (os wearables), que permitem controlar a pandemia misturando roupas, acessórios, computadores e internet. O próximo desafio é claro: descobrir como desenvolver essa tecnologia sem comprometer a privacidade.

A tecnologia de vestir é uma promessa antiga do universo da Internet das Coisas (IoT). O mercado de werables ainda é pequeno, mas cresce rápido. No Brasil, ano passado, foram vendidas mais de 300 mil unidades desse tipo de tecnologia. Parece pouco, mas os números são quase três vezes maiores do que os do ano anterior.

Há wearables com os quais você já deve ter cruzado por aí, como os relógios inteligentes da Apple e as pulseiras fitness que monitoram seus exercícios. A tecnologia disponível é muito mais limitada do que a do celular (até porque a bateria é sempre limitada), mas o que temos no mercado já nos permite imaginar a quantidade de dados que geramos sobre nós sem perceber.

Estamos vendo uma nova onda de wearables inspirados nos desafios do coronavírus. Atletas da NBA adotaram anéis inteligentes para medir a saúde física, e há pulseiras que agora vem com oxímetro para antever quadros graves de infecção. Uma solução simples e interessante foi proposta pela Nasa: um colar que vibra quando você vai encostar a mão no rosto. Já se sabe de testes clínicos de vacinas que vão exigir aos pacientes uso de pulseiras para monitorar sintomas, e de governos, como o de Singapura, que criou um chaveiro mandatório para quem sair na rua tendo risco de exposição ao vírus.

Com a popularização da tecnologia, acende-se a luz amarela sobre formas de combater o vírus e proteger a nossa privacidade. Uma pesquisa realizada por iniciativa da Anistia Internacional mostrou que aplicativos de celular criados por governos para monitorar o vírus representam, em diversos países, uma grave ameaça aos nossos direitos. O estudo mostra que está em risco quem mora em países que gozam de confiança do cidadão, como a Noruega, tanto quanto os cidadãos de países menos transparentes, como Kuwait. Não à toa a Noruega repensou sua posição e não só abandonou o aplicativo como decidiu deletar todos os dados coletados.

Grandes crises tendem a justificar o aumento da vigilância sobre nós. Foi assim no 11 de Setembro e é assim nessa pandemia que atravessamos. Mas, passada a urgência, a tendência é o monitoramento em massa virar o novo normal. Foi o legado do ataque às Torres Gêmeas, que levou o governo norte-americano a vigiar toda comunicação mundial, fatos revelados por Edward Snowden que afetaram inclusive o Brasil, e é nessa linha que a China está justificando o monitoramento feito a quem mora em Hong Kong. Há formas seguras de criar tecnologias que sirvam ao nosso bem. Mas, antes que a moda de wearables pegue de vez, ou que seja um anel a solução infalível para controlar a pandemia, cabe lembrar: o vírus vai passar, mas nossos dados tendem a permanecer por aí.

FABRO STEIBEL

11 DE JULHO DE 2020
JULIA DANTAS

NÓS E OS OUTROS

As mulheres tiveram seu status na sociedade definido em oposição ao homem. Se o homem era considerado racional, objetivo e equilibrado, as mulheres eram emocionais, selvagens e instáveis. As mulheres serviam de Outro para a delimitação de quem era o centro. O mesmo ocorre entre brancos e não brancos. As normas sociais, a cultura e as leis são criadas a partir de um centro branco. É por isso que há batidas policiais para procurar drogas em bailes funk, mas não em boates caras: já temos preestabelecidos quais são os espaços de crime.

Muitas vezes, quem está no centro nem se dá conta disso. É por isso que é recorrente que pessoas brancas - mesmo bem intencionadas - usem expressões como "precisamos cuidar dos nossos índios", mas nos soaria bastante estranho se um índio dissesse "temos que ficar de olho nos nossos brancos".

Uma divisão similar ocorre hoje na demarcação de quem é brasileiro. Um aspecto perverso de certo tipo de patriotismo é a defesa da pátria, mas com ódio aos compatriotas. O Brasil está cheio de patriotas que desprezam uma parcela enorme de brasileiros. Sabemos quem são: dizem que se trocássemos a população por japoneses esse país ia para a frente, pois o problema do Brasil é o brasileiro; afirmam que brasileiro pula em esgoto e não acontece nada; que não pode receber auxílio emergencial ou nunca mais vai querer trabalhar; que não produz conhecimento nem boa arte. É assim que esses patriotas enxergam os Outros: seres animalescos que sobrevivem à degradação, incapazes, descartáveis. São preconceitos que nos acompanham desde o Brasil colônia. Defendia-se que os negros eram menos humanos, logo, podiam ser escravizados. Dizia-se que os índios eram preguiçosos e não serviam para o trabalho.

Ainda não superamos esses preconceitos. Os negros são criminalizados, os índios, considerados um entrave ao progresso. Já os brancos são o centro e, por isso, perfeitamente capazes de separar-se dos horrores cometidos por sua raça (usando raça como conceito cultural, uma vez que geneticamente essa separação não existe). Não generalizamos a experiência das pessoas brancas; não dizemos que são todos corruptos, lavadores de dinheiro, bandidos de colarinho branco, por mais que a maioria das pessoas que cometam esses tipos de crimes sejam brancas. Enxergamos raça apenas no Outro.

Por isso desconfio dos patriotas raivosos. Eles se colocam no centro e aceitam só um tipo de brasileiro, e sei que não cumpro os requisitos, pois sou mulher, estou no campo político da esquerda, estou em uma universidade e a defendo. Mas, gostemos ou não, ainda respondemos às fronteiras. Gostem ou não, sou brasileira, eu e mulheres, negros, indígenas, pobres, gays, socialistas, conservadores, religiosos e brancos que nascemos aqui.

Espero que algum dia sejamos incluídos quando os detentores do poder falarem sobre o Brasil. Até lá, mesmo que um pouco expatriados por esses conterrâneos seletivos, sejamos brasileiros incômodos. E fiquemos de olho nos nossos brancos.

JULIA DANTAS


11 DE JULHO DE 2020
DRAUZIO VARELLA

SINTOMAS DA COVID-19

Oito sinais do corpo aos quais devemos prestar atenção, segundo o CDC, dos Estados Unidos.

Numa epidemia tão disseminada como a do atual coronavírus, qualquer mal estar assusta. O Center for Diseases Control (CDC) dos Estados Unidos publica uma síntese dos sintomas mais característicos e a frequência com que se manifestam no curso da infecção.

1) Febre: pode ser intermitente ou prolongada. Costuma ficar entre 37° e 38°, mas há casos em que ultrapassa 39°. Na maioria das vezes não dura mais do que dois ou três dias, mas algumas pessoas mantêm picos diários com mais de uma semana de duração.

Nessas situações, é importante afastar a concomitância de infecção bacteriana secundária. A medida da temperatura com esses termômetros que parecem revólveres, apontados para a fronte das pessoas em aeroportos e entradas de shoppings é inútil. A febre nem sempre está presente, nunca é constante, geralmente dura poucos dias e o doente pode estar sob o efeito de antitérmicos.

2) Tosse: os estudos mostram que está presente em 59% a 86% dos pacientes. Quando se manifesta, é seca em 80% das vezes, do tipo irritativo. Nos demais vem acompanhada de secreção escura ou amarelada. Secreção esverdeada sugere complicação bacteriana e necessidade de antibioticoterapia. Em algumas pessoas já curadas da infecção, a tosse pode persistir por semanas ou meses.

3) Fadiga de intensidade variável está presente em 44% a 70% dos doentes. Dores musculares e dor no peito ocorrem em 11% a 35%.

4) Dor de garganta, congestão nasal e perda do olfato costumam estar entre os primeiros sintomas.

5) Coriza e sangramento nasal manifestam-se em menos de 10% dos casos.

6) Comprometimento pulmonar, que cursa com insuficiência respiratória e queda da saturação de oxigênio na circulação, ocorre em até 20% dos doentes sintomáticos. Essa porcentagem chega a 50% quando os sintomas são de maior intensidade.

7) Náuseas, vômitos, diarreia e dores abdominais são pouco comuns, ao contrário da perda de apetite, que às vezes se manifesta mesmo em pessoas com poucos sintomas.

8) Manifestações menos comuns incluem as neurológicas: tonturas, confusão mental, alterações da sensibilidade, crises de ansiedade, acometimento de nervos periféricos, síndrome da Guillain-Barre e acidentes vasculares cerebrais, entre outras.

Como o vírus se dissemina pela corrente sanguínea, pode acometer qualquer órgão ou sistema: coração, rins, pele, sistema nervoso central.

Cerca de 35% das pessoas infectadas não apresentam sintomas. Nas demais, eles surgem dois a 14 dias depois de adquirir o vírus (em média 4 a 5 dias).

Quando a doença se manifesta, é importante anotar o dia em que surgiu o primeiro sintoma. Se quatro ou cinco dias mais tarde houver melhora do mal-estar, dos sintomas e da indisposição, a doença costuma evoluir para a cura. Se depois desse período, no entanto, os sintomas se agravarem, há necessidade de procurar atenção médica, porque é maior o risco de complicações.

DRAUZIO VARELLA


11 DE JULHO DE 2020
BRUNA LOMBARDI

VOCÊ CONHECE ÉRIS, A DEUSA DA DISCÓRDIA?

Na mitologia grega, Éris é conhecida como a deusa da discórdia: em tudo o que toca ou participa, inevitavelmente gera antagonismo, confronto, disputa, ódio, violência e destruição. Sua simples presença vai sempre prejudicar alguém. Suas palavras trazem brigas, desavenças, discussões. Seu poder vem da desgraça, e seu destino é espalhar desarmonia pelo mundo.

E ela não se sente culpada, não assume seus estragos, não tem a menor empatia por suas vítimas, jamais se desculpa ou sensibiliza. Éris jamais pede perdão. Apenas lança seu pomo da discórdia e observa a cólera que causou.

A lenda mais famosa conta como ela provocou a guerra de Troia. Não sendo convidada para o casamento de Peleu e Tétis (quem quer chamar a discórdia pra sua festa?), resolveu, indignada, dar as caras, independentemente da rejeição.

Ela foi mais pra se vingar, pois a vingança é um dos maiores prazeres dessa deusa competitiva. Com uma raiva danada das mulheres, ofereceu para Hera, Atenas e Afrodite, deusas que detestava, uma maçã de ouro.

- Essa maçã é um presente para a mais bela - lançou já sabendo da polêmica discussão que causaria.

Zeus, todo poderoso, pede para Príamo, rei de Troia, intervir na competição. O rei, por sua vez, designa seu filho Páris para resolver a questão e fazer a tal escolha.

As deusas se alvoroçam, vaidosas como todas as deusas, e cada uma oferece à Páris um presente para ser a escolhida.

Hera, também chegada a uma intriga, oferece a ele o poder político e a astúcia de ser o mais forte.

Atenas, figura guerreira e dona de vários atributos, lhe promete estratégia e habilidade na batalha e a possibilidade de ser o mais sábio.

Finalmente Afrodite, dona de beleza inigualável, oferece à Páris a mais bela de todas as mulheres do mundo, Helena.

Atraído pelo poder de tamanha sedução, Páris escolhe Afrodite pra receber a maçã, oficializando a deusa como a mais bela e afrontando (para a delícia de Éris) a imediata ira e inveja de Hera e Atenas.

O truque da nossa deusa da discórdia era o fato de Helena ser casada com o rei Menelau de Esparta. Lembrando aqui que o exército espartano era de arrasar qualquer um.

Páris então rapta Helena e começa assim a famosa guerra de Troia, onde o príncipe destrói a sua própria cidade. Tudo isso decorrência do poder maligno da Mãe dos Males, a deusa da discórdia, que cada vez que aparece torna tudo pior.

E é bom lembrar que essa energia ruim continua se alastrando em volta de nós, se espalhando pelo mundo, assumindo vários disfarces e provocando uma série de nefastos eventos. Preste atenção: se você detectar alguma pessoa com as características de Éris, se afaste imediatamente.

Detecte gente que se alimenta da maldade, que prejudica os outros, estimula a violência e não tem empatia por ninguém. Gente que não se arrepende, não sente remorsos, gente falsa que mente descaradamente, gente que seca plantas, que quer que todos se danem.

Gente que traz o mal, a égide de Éris e a capacidade de acabar com a sua vida.

Quando encontrar uma pessoa assim, fuja. Preste atenção nos sinais antes que seja tarde demais.

BRUNA LOMBARDI