sábado, 12 de setembro de 2020



12 DE SETEMBRO DE 2020
J.J.CAMARGO

A LIBERDADE DE ESCOLHA TEM LIMITES


Todos defendem, com veemência, o direito à liberdade de cada um, e ninguém contesta porque este é o mais elementar sustentáculo da democracia. O problema é que, tendo de ser, necessariamente, equânime para ser justo, esse direito esbarra no direito do vizinho sempre que ameaçar ou constranger a outrem. Porque, afinal, exercer a cidadania em sociedade significa que todos devem exigir o respeito mútuo.

Nesse sentido, é assustador o índice de brasileiros que se declararam contra a vacina, e nem estou incluindo neste contexto a declaração ambígua do presidente ("Ninguém será obrigado a vacinar!"), porque fosse qual fosse a resposta, ele seria acusado de irresponsável ou de ditador. Era só uma questão de escolha, e ele preferiu ficar com a lei.

A bizarra experiência brasileira do início do século 20 não parece despegar da nossa sina de subdesenvolvimento crônico. As epidemias davam ao Rio de Janeiro, àquela época, a fama de cidade empesteada e mortífera, afastando os estrangeiros, receosos de contrair doenças, especialmente a febre amarela e a varíola. Por outro lado, o planejamento urbano herdado do período colonial e do império não condizia mais com a condição de capital e centro das atividades econômicas do Brasil daquele período. Ela já era linda, mas precisava de um bom banho se sonhasse vir ser maravilhosa.

No dia 9 de novembro de 1904, foi publicado no jornal A Notícia (Rio de Janeiro) um plano de saneamento da cidade, incluindo a regulamentação da aplicação da vacina obrigatória, liderado pelo Dr. Oswaldo Cruz. O projeto oferecia a opção de vacinação por médico particular, mas o atestado teria de ter firma reconhecida. Além disso, haveria multas aos refratários e se exigiria o atestado de vacinação para matrículas em escolas, acesso a empregos públicos e trabalho nas fábricas, hospedagem em hotéis e casas de cômodo, viagem, casamento e voto. 

Para demonstrar que social e politicamente permanecemos irretocavelmente iguais, também há 116 anos houve politização da mídia e ameaças de impeachment - que naquela época não usava essa nomenclatura sofisticada para definir o que era mesmo uma rasteira no governo. Nos cinco dias de revolta contra o que se planejou como a reabilitação sanitária da então capital do Brasil, habilitando-a a receber turistas e operários contratados para a modernização do porto, houve protestos e tiroteios com mortos e feridos. As residências das autoridades envolvidas foram alvejadas e a imprensa, considerada governista, sofreu depredações.

Dias depois de decretado o estado de sítio, a obrigatoriedade da vacina foi abolida e a revolta arrefeceu. A contabilidade das mortes decorrentes dessa permissividade do direito de escolha nunca foram publicadas.

Mas como outra vez é lembrado o direito individual, incluindo a patética opção pela doença e a liberdade de infectar seus contemporâneos, que pelo menos se negue atendimento pelo SUS aos que escolherem o vírus como parceria mais amistosa.

Não vejo melhor maneira de tratar tamanha irracionalidade.

J.J.CAMARGO


12 DE SETEMBRO DE 2020
DAVID COIMBRA

Uma nostalgia de Porto Alegre

Na sexta mesmo pensei no sanduíche das Lojas Americanas. Curioso isso, não sou um adepto das comidas rápidas, mas aquele sanduíche era especial. Porque era delicioso, sim, foi o melhor sanduíche que já comi na vida, mas também porque simbolizava algo maior. Direi o que é.

Naquela época, minha mãe trabalhava como professora do Estado. Graças sobretudo à valorização que lhes havia dado o Brizola, os professores não ganhavam mal. Então, no dia em que ela recebia o salário, tomava pelas mãos eu e meus irmãos e nos levava para passear na Rua da Praia.

Hoje, as pessoas não fazem ideia do que era a Rua da Praia. Era uma rua sofisticada, com prédios de arquitetura neoclássica e vitrines em que coruscavam as tentações do capitalismo mundial. O Centro todo tinha um ar europeu, era um prazer andar por aquelas ruas e apreciar o desfile dos tipos humanos da Capital.

Lá no alto, na Senhor dos Passos, morava Oswaldo Rolla, o "Foguinho", o inventor do estilo gaúcho de jogar futebol. Quando jovem, ele descia todos os dias a pequena colina da Praça Dom Feliciano para ir trabalhar na Alfaiataria Aliança, no meio da Rua da Praia. Ainda na parte de cima da rua havia o famoso cachorro-quente da Princesa, depois a Galeria Malcon, onde as gatinhas ondulavam de minissaia, em seguida a classuda Casa Masson com seu relógio quadrado e, importante!, a Livraria do Globo.

Erico Verissimo, Josué Guimarães e Dyonélio Machado podiam ser encontrados na Livraria do Globo. Lá, Mario Quintana traduziu quatro dos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust. A Livraria do Globo não era uma loja, era um templo. O certo seria você entrar de joelhos na Livraria do Globo, em sinal de reverência, seu infiel!

A Rua da Praia inteira era uma diversão, mas, quando passeava de mãos dadas com a mãe, minha grande expectativa era a visita às Lojas Americanas. Sabe o que é que tinha nas Lojas Americanas? Escada rolante! Tenho a impressão de que foi a primeira de Porto Alegre. Nós nos sentíamos muito tecnológicos, subindo na escada rolante. Sei de histórias de pessoas que vinham do Interior só para vê-la. Chegavam ao pé dos degraus e hesitavam. Algumas senhoras sentiam medo e não se aventuravam a subi-la. Outros, mais intrépidos, iam em frente com denodo. A alegria deles era visível. Você olhava e sentia vontade de sorrir com eles.

No segundo andar, quando você "desembarcava" da escada rolante, havia a lancheria. Nós nos sentávamos e sempre fazíamos o mesmo pedido: sanduíche americano com suco de laranja. Depois de alguns minutos salivando, víamos aterrissar na nossa frente pratos com o sanduíche cortado em triângulos e o suco denso, de laranjas espremidas na hora, a vitamina C saltando das bordas do copo.

Tínhamos direito àquele lanche uma única vez por mês, no dia do pagamento da mãe. Esse é um dos motivos para que uma refeição que hoje soa tão trivial ainda me pareça extraordinária. Mas não é só por isso. É por causa, também, do significado daquele dia. Era um momento de afetividade entre mim, meus irmãos e minha mãe, e também entre nós e a cidade. Aquela Porto Alegre era uma cidade de se fazer a pé. De caminhar e se deter diante de alguma novidade faiscante. De parar para conversar e ver quem passava. Uma cidade amena, de pequenos prazeres mundanos. Uma cidade que nos dava certo orgulho e que nos fazia sonhar com as coisas boas que oferecia. Uma cidade que não existe mais.

DAVID COIMBRA


12 DE SETEMBRO DE 2020
O PRAZER DAS PALAVRAS

Dúvidas da pandemia

Entre as inúmeras alterações que esta pandemia trouxe para nossa vida, as que mais afetaram esta coluna foram as aulas à distância (é assim mesmo, sabidinho - com acento de crase). Já explico. Com toda a família confinada, pais e mães, querendo ou não, vêm acompanhando as aulas dos filhos; de certa forma, voltam a ser alunos, mas com a grande desvantagem de não poder falar com o professor para resolver as dúvidas que as aulas acabam despertando. Não sei como se arranjam com as outras disciplinas, mas, no que tange ao Português, uma das saídas é sempre escrever para este seu criado. Abaixo, caro leitor, você verá algumas das muitas consultas que me enviaram - e o curioso é que em quase todas se percebe um sentimento prévio de desconfiança com relação ao que o professor ensinou - totalmente injustificado, como veremos. Para evitar constrangimentos, não dou o nome nem a cidade.

1 - "Minha filha está aprendendo o alfabeto e ouvi a professora falar na letra H. Faz muitos anos que estudei isso, mas fiquei em dúvida: H conta como letra mesmo?".

Resposta - É claro que o H é uma letra, computada entre as 26 letras que compõem o nosso alfabeto (é só contar). Por isso, ela merece ter uma seção própria em todos os dicionários, que fica depois da seção do G e antes da seção do I; além disso, dizemos "esta palavra se escreve com a letra H", "a velha máquina de escrever não tinha a letra H", "procura na enciclopédia, no volume da letra H", e assim por diante. O que ela não tem é som, mas isso já são outros quinhentos.

2 - "Sempre que começa a aula da minha filha, aparece uma tela em que está escrito "Bom dia, turma!". Achei estranho e fui conferir no dicionário Houaiss. Lá está escrito bom-dia, com hífen. No Vocabulário Ortográfico, da Academia, idem. Como a professora é muito boa, resolvi escrever para o senhor antes de reclamar"

Resposta - Caro amigo, os dicionários devem ser lidos com atenção aos mínimos detalhes. Nos dicionários, o bom-dia hifenizado vem assinalado com a abreviatura s.m., ou seja, trata-se do substantivo (que tem, inclusive, o plural bons-dias): "Ela me recebeu com um sonoro bom-dia". Todavia, na saudação que aparece na tela do computador, temos uma simples expressão e não um vocábulo composto (que exigiria o hífen): "Bom dia, turma!" - da mesma forma que "Bom jantar!", "Boas festas!", "Boas férias!" ou "Bons sonhos!".

3 - "Sigo uma regra infalível: mal está para bem assim como mau está para bom. Por isso, bom humor, mas mau humor; bem-estar, mas mal-estar. Porém, a professora do meu filho deu como certa a frase "O mal é a falta de chuva". Não concordo, pois o contrário seria "O bom é falta de chuva". Posso entrar com um recurso?".

Resposta - Não, amigo, não pode. Como era de esperar, a professora está correta. Aqui entra em cena um terceiro, um personagem que escapa à tal regra infalível: trata-se do substantivo mal ("doença, desgraça"), que tem o plural males: "Até o séc. 19, o câncer era um mal incurável"; "Há males que vêm para o bem". Logo, "O mal é a falta de chuva".

4 - "O professor estava dando um sermão contra o bullying nas redes sociais e falou em lacração, palavra que, não sei se o senhor sabe, os jovens usam muito quando se dão bem ou arrasam em alguma discussão. Fiquei pensando: se vem de lacre, não deveria ser lacreação? Se estou viajando, pode me dizer."

Resposta - Conheço bem o termo, sim - tenho uma filha adolescente. E vou ser franco: você está realmente "viajando". Colocar o lacre é lacrar. Ora, os substantivos terminados em -ção derivam de verbos: cassar, cassação; datar, datação; lacrar, lacração. Para que existisse "lacreação", deveria existir, antes, o verbo "lacrear".

5 - "Passei pelo quarto do filho e ouvi, no computador, o professor avisar: "Depois que vocês virem o filme, podem preencher o questionário". Não é do verbo ver que ele estava falando? Não deveria ser verem? Virem não é do verbo vir?"

Resposta - Prezada leitora: vou trocar o verbo ver por fazer, para facilitar a explicação (ambos são irregulares e se comportam de forma idêntica nesta construção): "Depois que vocês fizerem o trabalho". Como podemos perceber, nessa frase o verbo fazer está no futuro do subjuntivo; se colocarmos em seu lugar o verbo ver, a conjugação correta é mesmo "depois que virem o filme" - que é o fut. subj. de ver: quando eu vir, quando tu vires, quando você vir.

CLÁUDIO MORENO

12 DE SETEMBRO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

O GUARDIÃO DA CONSTITUIÇÃO


Espera-se do cidadão carioca Luiz Fux, 67 anos, com sólida carreira como magistrado, professor universitário e jurista, uma gestão à altura da inadiável missão de fazer o Supremo Tribunal Federal (STF) recuperar a sua imagem perante a sociedade brasileira, um tanto desgastada nos últimos anos. Como novo presidente da mais alta instância do Judiciário nacional, caberá a Fux conduzir a Corte na tarefa de livrar-se de vícios recentes, como decisões monocráticas em demasia, excesso de intervenção em outros poderes, atuações questionáveis como o controverso inquérito das fake news e, se possível, iniciar uma era em que vaidades pessoais não se sobreponham à boa justiça.

O STF é o guardião da Constituição e deve se ater à carta. Seu poder não deve mais ser usado para criar mecanismos corporativistas, como fez o próprio Fux, ao ser o responsável por estender o auxílio-moradia para magistrados de todo o país, ao longo de quase quatro anos. Tampouco ser abrigo para voluntarismos personalistas, como se a Corte fosse formada por 11 nichos de soberbas e decisões extravagantes. É preciso, sobretudo, revigorar a força do colegiado e reforçar a segurança jurídica, algo em que o Supremo tem pecado nos últimos anos por decisões conflitantes em pouco espaço de tempo, como o caso da prisão em segunda instância.

Será responsabilidade do STF sob novo comando zelar por uma relação harmoniosa com os demais poderes. Mas, ao mesmo tempo, sabe-se que, nos dias estranhos vividos pelo Brasil, é inevitável que a Corte continue a ser acionada como parte fundamental do sistema de freios e contrapesos da democracia, mantendo-se firme para repelir arroubos autoritários e retrocessos civilizatórios. Um bom augúrio veio da insistência de Fux, em seu discurso de posse, de assegurar que será um aliado do combate à corrupção que ainda grassa no país. 

A afirmação se reveste de importância ainda maior pelo contexto de ataques e derrotas recentes da Lava-Jato. Mesmo passível de reparos e críticas, por erros de seus principais condutores, a operação vem deixando um grande legado na luta contra os malfeitos e desvios de dinheiro público. É preciso manter-se atento às articulações no mundo jurídico e político que visam minar a força- tarefa. Considerado linha- dura e aliado da Lava-Jato, Fux deverá saber equilibrar o apoio indispensável à tarefa de enfrentar a corrupção, sem deixar que se perpetuem novos abusos.

O ministro Dias Toffoli, que deixa o comando do STF, teve um mandato controverso e uma aproximação além da apropriada principalmente com o Executivo, mas pode-se dizer que teve a sensibilidade para agir como algodão entre cristais em momentos mais tensos, funcionando como uma espécie de apaziguador político, embora tenha sido firme quando o STF e seu ministros foram alvos de ataques oriundos do submundo das redes sociais bolsonaristas. A aspiração é de que, sob a condução de Fux, a corte constitucional corrija as rotas necessárias, mas ao mesmo tempo mantenha-se aferrada na missão de ser esteio da estabilidade nacional e da pulsação democrática do país.


12 DE SETEMBRO DE 2020
CARTA DA EDITORA

Na antessala da eleição

Não fosse a pandemia, neste momento os 5.568 municípios brasileiros estariam em plena campanha eleitoral, com candidatos a prefeito e a vereador buscando os votos do eleitor por meio da propaganda de rádio e TV, pelas redes sociais e, principalmente, no corpo a corpo, com apertos de mão e distribuição de santinhos.

A poucos mais de dois meses do primeiro turno (15 de novembro), não sabemos ainda como se dará a campanha nas ruas - que oficialmente se inicia no dia 27 - em razão do risco de contágio da covid-19. Porém, para a Justiça Eleitoral e os partidos políticos a jornada já começou. Assim como para ZH e GZH, que têm dedicado cada vez mais espaço a conteúdos de serviço, definição de candidaturas e formação de coligações.

Destaco duas reportagens que exemplificam os diversos ângulos da nossa cobertura eleitoral. Na quarta-feira, o repórter Fábio Schaffner contou como foram os bastidores do acordo entre os vereadores para levar adiante o processo de impeachment do prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan, e que tinha como pano de fundo a sucessão no paço municipal. Fábio, um profissional nativo do jornalismo político, entrevistou vários parlamentares para conseguir montar o quebra-cabeça dessa negociação, até então desconhecida na sua totalidade pela população.

Nesta edição, a repórter Juliana Bublitz - uma jornalista acostumada a destrinchar números - mostra o resultado do mergulho que fez nos dados do Tribunal Superior Eleitoral para traçar o perfil do gaúcho apto a votar. Com a consultoria da analista Gabriela Schmidt, que integra a área de Inteligência de Mercado da RBS, a reportagem traz dados relevantes, e até curiosos, que farão mais adiante a gente entender melhor os resultados das urnas.

- Conhecer esses dados e traduzi-los para o leitor é fundamental, porque mostram como o eleitorado evoluiu e como isso deveria impactar nas campanhas. Por exemplo: se os votantes estão envelhecendo, os candidatos precisam incluir no seu rol de propostas ideias voltadas a esse grupo - conta Juliana.

Como ressaltei acima, são apenas dois exemplos do que temos feito. A partir de agora, com maior frequência, falarei de eleições neste espaço. Muitos conteúdos diferenciados estamos preparando para nossos assinantes.

DIONE KUHN


12 DE SETEMBRO DE 2020
J.R. GUZZO

Ensinando a votar 

É sempre muito difícil fazer bem uma tarefa que é ruim pela própria natureza. No caso, a tarefa bichada é essa campanha da Justiça Eleitoral, mais uma, para ensinar aos eleitores como votar direito nas eleições para prefeito. A intenção, em si, é um disparate: de onde os ministros do Tribunal Superior Eleitoral tiram a ideia de que são capazes de ensinar alguém a exercer "bem" o seu direito de votar - ou a fazer "bem" qualquer outra coisa?

É a incurável compulsão das autoridades públicas em tratar a população como um bando de débeis mentais, necessitados da ajuda da madre superiora para pensar, escolher e decidir. Além de absurda, a ideia é inútil. Se os sermões de campanha do TSE servissem para alguma coisa, o Brasil deveria ter os melhores políticos no mundo, não é mesmo? Tem esses que estão aí.

Na opinião dos arquiduques dos nossos tribunais, aliás, o atual governo federal, saído das últimas eleições de 2018, é o pior que o país já teve em sua história. O que é que adianta, então, toda essa conversa de "voto consciente"? Há 31 anos, desde 1989, o Brasil faz eleições diretas para presidente da República. Há 38, desde 1982, faz eleições diretas para governador. Já deveria ter dado tempo para o brasileiro "aprender a votar" - ou tudo isso aí ainda é muito pouco? Quantos anos mais, segundo o TSE, serão necessários para essa gente entender como é que se vota do jeito que suas excelências querem?

Naturalmente, não existe uma única democracia no mundo onde se faça qualquer coisa parecida com essas campanhas pró-virtude que nos enchem a paciência há décadas. Também não existe democracia onde o voto seja obrigatório - ou seja, onde os políticos transformaram um direito constitucional em uma obrigação. É lógico: nossas "instituições", a "Constituição Cidadã" etc, são muito superiores a tudo o que existe no resto do planeta.

Na hora da execução, a ideia ruim fica pior. Na atual campanha, o TSE convocou para nos dar instrução moral e cívica algumas dessas figuras que têm a profissão de "especialista"; sua especialidade é especializar-se em ser ouvido pela mídia como "especialistas". Um deles, chamado para advertir os eleitores do perigo das "fake news", é o mesmo que disse que haveria "1 milhão de mortes" no Brasil por causa de covid-19 se não fosse adotado um fechamento extremo de tudo, por tempo indeterminado: afirmou, até, que estava sendo otimista.

Não foi feito o fechamento exigido. O número de mortos está abaixo de 130 mil. Se isso não é notícia falsa, o que seria? Outro especialista, para quem sair de casa é praticamente um crime de lesa-pátria, quer que os mesários não deixem de participar da maior "aglomeração" de gente desde o início da epidemia - as próximas eleições. É esse o nível de qualidade da campanha de propaganda do TSE.

Além de ser obrigado a ouvir isso tudo, você ainda tem de pagar - cada tostão gasto nas aulas dadas pelo TSE no rádio e na televisão sai do seu bolso, através dos impostos que a máquina do Estado extorque a cada vez que o cidadão acende a luz, fala no celular ou põe um litro de combustível no carro. Qual a novidade? Se o brasileiro já paga os serviçais que puxam a cadeira dos magistrados "top de linha" na hora em que se sentam para as reuniões, as suas lagostas, os seus planos médicos cinco estrelas e tanta coisa mais, por que não teria de pagar pelas lições do TSE? É a beleza das nossas instituições.

*Conteúdo distribuído por Gazeta do Povo Vozes - J.R. GUZZO


12 DE SETEMBRO DE 2020
LYA LUFT

Amenidades

Tempos esquisitos, idas e vindas, confusões, tragédias e indigências mentais ou morais... dramas de gente como esta que escreve há seis meses enclausurada. Haja paciência, haja bom senso, haja internet.Outro dia, Vicente estranhou meio divertido: sempre entretida na maquininha?

Pois nela escrevo, pago e recebo, converso, consolo e me consolo, pesquiso, descubro, assisto, aprendo coisas até incríveis, controlo os horários dos jogos de tênis, enfim, o smart é minha janela pro mundo e pras pessoas.

Certamente estou viciada nele.

Certamente quando A VACINA me liberar, se ainda viva e lúcida, será difícil abrir portas e janelas normais e viver de novo, de um jeito parecido ao velho jeito antes da máscara, da cotovelada ou patada, da infinita chatice com a qual vamos - tristemente - nos acostumando.

Protestei, reclamei, bufei e esperneei como aos cinco anos, quando as coisas não eram como eu queria... Incomodei meio mundo feito uma imbecil, passei pessimismo e negatividade inúteis, mas finalmente me convenci do que me escrevia uma amiga sábia: "A idade devia nos ensinar a entender que há coisas no mundo que não podemos mudar como achávamos na juventude e aceitar a circunstância do momento, salvando nossa saúde mental e a paz interior. Um dia vai passar".

Foi mais ou menos isso que me disse.

Prometi a mim e a minha gente que iria tentar, porque do jeito que estava, estava chato demais.

Verdade que sempre fui mais para otimista nas rasteiras que a vida passa em todos nós, não me senti vítima, mas acreditei em alguma coisa como "mistérios do destino", mesmo aos prantos eu cerrava os dentes e tocava a vida, apoiada em amores fiéis como amizades e família. E na crença de que, sim, somos transcendência mais do que miséria humana.

Mas esta fase atual no começo me intrigou, depois me assustou, depois me irritou infantilmente como se o cosmos tivesse aprontado essa brincadeira sinistra pra mim, não para todo o pobre planeta.

Às vezes me divertia um pouco com minha birra diante de uma peste mundial: quem você pensa que é?

Por fim nem eu mesma aguentava minha ridícula resistência a qualquer bom senso, e foi quando chegou o abençoado Whats, que foi simples sabedoria lúcida, mas me atingiu como uma descoberta repentina e original. Remédio certo na hora certa.

E foi então que, ao acordar com o barulho da chuva que tanto amo, escutei, primeiro tímido, depois glorioso, o canto dos primeiros sabiás anunciando que ainda teremos, provavelmente, uma primavera.

LYA LUFT

12 DE SETEMBRO DE 2020
MARTHA MEDEIROS

Medo de quem pensa

Caetano Veloso tem medo de barata. Declarou durante Narciso em Férias, documentário em que relata, de forma detalhada, como foram os 54 dias em que esteve preso pela ditadura militar, no final dos anos 1960. Um trabalho pontuado por revelações ora sentimentais, ora aflitivas. Os primeiros dias isolado numa solitária, sem entender a razão de ter sido detido. A caminhada no pátio com um guarda armado atrás dele, que o ameaçava de morte caso parasse ou conversasse com alguém. 

O alívio de sair da solitária e dividir uma cela com outros presos, sendo que alguns deles eram Perfeito Fortuna, Ferreira Gullar, Paulo Francis. A dor de escutar, por trás das paredes, os gritos dos torturados e de testemunhar a absurda prisão de um rapaz paraplégico que era homônimo de Antonio Callado. A informação, por fim, do "crime" que havia cometido: o de ter, supostamente, cantado o Hino Nacional em forma de paródia durante um show na boate Sucata, no Rio. O interrogatório, totalmente nonsense, o acusava de fazer música "desvirilizante" - nem o Aurelião conhecia essa palavra.

Durante a hora e meia que dura o filme, temos a oportunidade de escutar a narrativa franca e os temores de um artista de 26 anos cuja maior culpa era o de ser livre. É isso que dói. A liberdade é intolerável aos imbecis, que por não compreenderem o que se passa numa cabeça capaz de criar, transgredir e expandir a realidade, tentam aprisioná-la e impedi-la de contagiar outras pessoas. Naqueles anos de chumbo, nosso país tinha medo de gente que pensava. O medo do Brasil de hoje, qual seria? Dou-lhe uma, dou-lhe duas...

Medo das piadas do Porta dos Fundos, das imitações do Marcelo Adnet, das reportagens em frente a hospitais, de perguntas irrespondíveis, dos memes que se reproduzem aos milhares nas redes sociais, de forma criativa e insolente. Medo da reação diante do apogeu da mediocridade e de uma política "desraciocinante" (deu vontade de inventar um adjetivo também), imbuída em destruir qualquer possibilidade de evolução intelectual.

Parte do Brasil está desiludida com a outra parte, a que elege tementes a Deus - aliás, temor sem razão, já que Deus, salvo engano, é amor. Devemos temer é o fanatismo religioso. Temer a obsessiva reverência à família padrão, o que desautoriza a legitimidade de todas as outras. Temer a atrofia da mente e do espírito. Temer quem não pensa, apenas se deixa seduzir pela promessa de atingir o reino dos céus e outras abstrações alienantes. Esses, sim, são os perigosos, pois não se defendem com ideias, e, sim, com armas, insultos e repressão.

Barata é fichinha. Caetano contou sua história para repartir conosco o medo de insetos bem mais nocivos - e que estão se alastrando assustadoramente pelas frestas do país.

MARTHA MEDEIROS


12 DE SETEMBRO DE 2020
CLAUDIA TAJES

Seja livre, leia um livro

Para quem anda com saudade de flanar, ideias para viajar sem sair da sala. São lançamentos, mas vale qualquer livro já publicado - e até emprestado. Se for comprar, não esqueça das livrarias pequenas. Elas contam com a gente para continuar a viagem.

Canções de Atormentar, Angélica Freitas. Quem leu Um Útero é do Tamanho de um Punho já deve ter comprado o novo livro da Angélica. Se não, pode aproveitar para ler agora, de carreirinha, esses dois livros da poeta nascida em Pelotas. Canções de Atormentar traz recordações da infância e dores de hoje em forma de poesia fina e rica. Na apresentação do livro, que saiu pela Companhia das Letras: "Canções de Atormentar reúne poemas ora ferozes, ora desiludidos, sem nunca perder de vista a urgência, a vivacidade, o humor e o tom incisivo (...)".

O Avesso da Pele, Jeferson Tenório. Romance que trata de um dos temas mais doídos desses nossos tristes dias, o racismo. Embora a brutalidade do assunto, é um livro que fala de sentimentos delicados e da obstinação de um filho que busca resgatar o passado de sua família após o assassinato do pai em uma truculenta ação policial. Também saiu pela Companhia das Letras.

Vida de Adotivo: Livro de Relatos, Alexandre Lucchese. Segundo livro em que o Alexandre trata do assunto, dessa vez na visão de outros filhos adotados - assim como ele. Editado a partir de financiamento coletivo, os volumes artesanais são um capricho só, impressos em serigrafia e costurados um a um. Para comprar: vidadeadotivo.lojaintegrada.com.br/vida.

Vila Sapo, José Falero. O autor da Lomba do Pinheiro volta e meia é comparado com o paulista Ferréz ou com o carioca Anderson França, também escritores da periferia. Essa mania que o mundo literário tem de dizer que fulano é o novo isso e fulana é a nova aquilo. Vila Sapo traz contos sobre o cotidiano da Lomba, com personagens que já entraram nas nossas casas para prestar algum serviço, ou com quem já cruzamos, mas sem ver. Em novembro sai Os Supridores, primeiro romance de Falero - que todas as semanas publica uma crônica na revista Parêntese.

Verissimo Antológico - Meio Século de Crônicas, ou Coisa Parecida. Cinco décadas de crônicas de LFV. Um livro que já chega desatualizado, porque agora há pouco saiu o texto em que o padre Alonso prevê a segunda vinda de Cristo, e a cidadezinha não tem um lugar para hospedá-lo - o motel Happy Hour parece pouco adequado. "E tudo se resolveu quando o padre Alonso contou que Deus fizera contato com ele para dizer que a segunda vinda do Cristo fora cancelada. Tinham concluído que não era a hora."

Dicionário da Independência - 200 Anos em 200 Verbetes, Eduardo Bueno. Aleluia, ele voltou. Não Cristo, mas Peninha, que conta em verbetes o turbulento processo que resultou na separação do Brasil de Portugal. E que pode ter se dado por meio de ações, mas se concretizou por meio de palavras: "Independência ou morte". Lançamento da valente editora Piu, lindamente ilustrado por Paula Taitelbaum (ao lado). Pré-venda aqui: editorapiu.com.br.

A Claridade Lá Fora, Martha Medeiros. Grande notícia para os milhares de leitores da Martha. A editora L&PM lança em outubro o novo romance da autora. Sem spoiler, uma partezinha da apresentação: "(...) uma história que trata dos tênues alicerces das relações humanas, da maternidade à amizade, da culpa à atração sexual. Porque aquilo que mais tentamos esconder, quando se revela, não vem como uma onda, mas como um tsunami". Pre-pa-ra.

CLAUDIA TAJES


12 DE SETEMBRO DE 2020
LEANDRO KARNAL

CONHECEREIS A VERDADE


Henry saiu do culto em silêncio. Já ouvira a passagem do oitavo capítulo do Evangelho de João muitas vezes. Com o tom solene da Bíblia, ele repetia que o conhecimento da verdade poderia libertar: And ye shall know the truth, and the truth shall make you free. Eram três núcleos na frase: conhecimento, verdade e libertação. A primavera reverberava naquele sábado em Massachusetts. A cidade de Woburn estava repleta de flores e o caminho para as terras de Henry parecia uma sinfonia de plantas e pássaros. Ele seguia cabisbaixo, não triste, de fato, porém flutuando entre a voz de Jesus e a realidade do povoado. As pessoas de Woburn não eram livres. Viviam presas a convenções, cenas públicas, declarações formais e gentilezas ensaiadas. A palavra do Evangelho não poderia falhar. Conclusão inescapável? O solo se manifestava adverso à semente.

A sopa do jantar foi tomada em silêncio. Henry deu graças, pegou um pedaço de pão e serviu à esposa, que tinha o piedoso nome de Faith. Conversaram trivialidades sobre a plantação e os animais. Os filhos não tinham permissão para conversar à mesa, como em todas as casas da Nova Inglaterra naquele ano da encarnação de Nosso Senhor de 1742. Faith recolheu os pratos, e, como sempre, por volta das 19h, estavam todos na cama. O coração inquieto do marido continuou pulsando em torno do tema. O homem, irremediavelmente pecador, era insuficiente para atingir a verdade. A graça estava perdida no lodo da humanidade. Henry aprendera a confiar no poder redentor de Cristo. Mais de uma vez, andando ao longo do Mystic River que o levava a Boston em ocasiões especiais, ajoelhava-se na relva e agradecia o sangue que o tinha redimido de forma imerecida. A terra era boa, a esposa, honesta e dedicada, os filhos tinham sobrevivido sem doenças graves. Teriam sido sinceros sempre? Estariam livres?

Henry acordou antes de todos. Ao tratar os animais ainda no escuro da madrugada, percebeu que seu pequeno rebanho era totalmente honesto. Comiam e urinavam, mugiam e acasalavam sem nenhum obstáculo de etiqueta ou de pudor. Eram criaturas de Deus, salvos como a família de Noé. Ali, no campo onde corriam seus dois cavalos e três vacas, Henry ajoelhou-se ao amanhecer e implorou ao Senhor que tornasse a ele e a todos de Woburn devotos da verdade absoluta como queria Jesus. "Seremos livres e salvos!", ele gritou para o tom malva do sol raiante. O relinchar da égua da família e o grasnar de um grupo de gansos selvagens pareceram ser a confirmação natural de que sua prece fora ouvida.

O desjejum foi trivial. Faith cozinhou mingau de aveia e cortou fatias grossas do pão caseiro. A filha mais velha agradeceu e, com o olhar dócil de sempre, comentou sem agressividade: "Mamãe: seu pão não tem gosto e é duro!". Houve um silêncio aterrador. O casal nunca tinha ouvido uma rebeldia ingrata. A menina também estava assustada. Surpreendera-se com a frase que tinha emitido. Foi tão fora do padrão que não houve reprimenda ou castigo, apenas silêncio. A verdade antiga sobre o péssimo pão da esposa tinha sido enunciada. Ela lançou um olhar de súplica ao marido que, também, embasbacado, confirmou a opinião da primogênita. O mundo estava fora do eixo! No constrangedor intervalo de tempo seguinte, Henry se lembrou da oração feita: que todos fossem verdadeiros.

Ainda imerso na surpresa da conversa matinal, ele foi levar alguns produtos primaveris da horta para a casa do pastor Matthew. Era um hábito. No caminho, encontrou a vizinha que plantava no jardim. Saudaram-se formalmente, apesar de serem conhecidos desde a infância. Ela, após o tradicional e distante "bom dia", perguntou através da cerca florida: "Por que você não casou comigo e escolheu a Faith?". Henry já tinha percebido que aquele dia seria diferente. E, não conseguindo controlar a boca, disse o que jamais tinha conseguido enunciar: "O seio dela era bem maior do que o seu e isso me excitava muito". Os dois vizinhos se olhavam como se tivessem sido possuídos por algum espírito maligno. Vermelhos como as frutas que Henry carregava, afastaram-se. Seria a prece?

Sim, era ela, a oração. A visita ao pastor foi tomada de confissões sobre como Henry achava os filhos do reverendo insuportáveis. O piedoso Matthew concordou e disse que pelo menos eram alegres, já a esposa era de um azedume indescritível. "Meu casamento foi um equívoco", completou o líder. A cada frase, os dois ficavam impressionados como se tivessem sido transformados em marionetes e dominados por algum ventríloquo malicioso. Porém, cada frase era verdadeira. Henry arrependeu-se da súplica. Estava livre, a verdade imperava e o mundo tinha ficado inviável.

No caminho para casa, ajoelhou-se novamente e pediu para não ser mais livre. Pediu para não conhecer a verdade ou, pelo menos, não a declarar. Orou, e o crocitar de um corvo grande pareceu confirmar que Deus o ouvira pela segunda vez naquele dia Ao abrir o portão da sua sempre cuidada casa, os filhos o receberam com alegria e informaram que uma nova fornada de pães tinha sido terminada. Contrito e agradecido, Henry comentou que Faith era a melhor padeira da região. As crianças concordaram e todos ficaram felizes. À noite, tomando o pão insosso e compacto nas mãos, o pai deu graças com intensidade e agradeceu que só Deus fosse a Verdade. É preciso ter esperança. E sempre pensar naquilo que desejamos. Quando Deus quer punir, por vezes, Ele atende a oração.

LEANDRO KARNAL

12 DE SETEMBRO DE 2020
FRANCISCO MARSHALL

INIMPUTABILIDADE

Lisarb é um sìap oa oiràrtnoc. Lá chove pra cima, cacoete é virtude, água derrete fogo, passado é futuro, a Terra é plana e não orbita; lá "es lo mismo un burro que un gran profesor". É Lisarb. Um dia, seria um país, tinha boa música e poesia, arquitetos inspirados, problemas com solução futurista, sem catástrofe natural, faltavam pequenos e grandes ajustes, mas tinha sua beleza e prometia. O destino perdeu-se, desatino triunfou. O que houve, que tudo se inverteu, é o que muitos se perguntam, atônitos, vendo a bigorna cair no vácuo infinito, e longe vagar a esperança. Pode não ter fim. Se até Roma caiu, por que um projeto de país da periferia não viraria caricatura pútrida, para riso e choro próprios e globais?

Deu na imprensa de Lisarb, nota liberada após 89 carimbos: "Hoje pela manhã, nos estúdios da TV Educativa, o presidente estuprou dois de seus filhos, matou a repórter, comeu-lhe as entranhas, arrotou, bateu no peito e saiu carregado por assessores e assessoras em delírio festivo. Foi tudo transmitido ao vivo para a rede escolar". Horas depois, o presidente do Sublime Tribunal declarou que "as instituições funcionam perfeitamente, nada ameaça nossa dementocracia". Faceiro, o presidemente atravessou a praça dos poderes, deu-lhe um piparote na orelha esquerda, roubou-lhe a caneta e voltou ao trono, de onde liderava nação de milhões de zumbis. Era assim o cotidiano de Lisarb, e amanhã tem mais, todos sabiam.

Este estado de coisas resultara da mais sórdida invenção da elite de Lisarb: a cláusula de inimputabilidade. O líder nem conseguia pronunciar esta palavra, mas sabia gozar de seu mágico favor. Já saciados pelo pacto oligárquico, em que a mesma classe permutava privilégios, por séculos, violava o povo e perpetrava delitos sem pudor, os urubus da República tiveram a genial ideia desta figura jurídica, com que sonharam todos os tiranos desde a Grécia arcaica: o soberano ungido seria inimputável. Nenhuma acusação seria jamais aceita contra o fantoche enfaixado, nem mesmo o escandaloso crime de pedalada fiscal. Todavia, se a democracia é o regime dos cidadãos responsáveis, seu oposto é a tirania do inimputável. E para isso não há nome grego ou latino.

Soube-se que um assassino foragido depositara dinheiro, por meio de sua mãe, na conta de um delinquente preso, a mesma de onde bufunfa boa partia para o bolso do tirano inimputável, na conta laranja de sua esposa. Tudo evidente, a pegada financeira que derrubou até à Máfia americana. Mas não em Lisarb, onde isso é normal. Viu-se o soberano reverenciar a bandeira de outra nação, viu-se o povo morrer aos milhares, por negligência genocida, viram-se escândalos de insensatez, mentiras, falta de decoro e longo rol de delitos, viu-se a mata arder com sopro oficial, e a morte de mais índios e negros, e viu-se o tirano prosseguir incólume, garantido pela cláusula de inimputabilidade.

Que tal, então, todos os cidadãos tornarem-se inimputáveis? Uma lei que revoga qualquer lei, sonho selvagem do liberal. Seria este o bom futuro da nação que avança regredindo?

FRANCISCO MARSHALL


12 DE SETEMBRO DE 2020
DRAUZIO VARELLA

SEQUELAS DA COVID


Nunca vi epidemia de um vírus esquisito como esse. A variedade de quadros clínicos é enorme. Cerca de 40% dos infectados permanecem assintomáticos; outros 40% desenvolvem sintomas leves semelhantes aos das viroses respiratórias corriqueiras ou aos das gripes fortes que nos jogam na cama. Em ambos os casos, regridem espontaneamente em duas ou três semanas.

O perigo corre por conta dos outros 20%, que exigirão internação hospitalar e até ventilação mecânica em unidades de terapia intensiva. Nessas eventualidades, a fase de recuperação passa de um mês.

Começamos a aprender, no entanto, que mesmo naqueles com poucos sintomas e evolução benigna a doença pode causar complicações tardias que se arrastam por semanas. Um estudo publicado no Morbidity Mortality Weekly Report, dos Estados Unidos, mostrou que 14 a 21 dias depois do diagnóstico de COVID, 35% dos pacientes se queixavam de não ter voltado às condições de saúde de antes.

No Reino Unido, o UK COVID Symptom Study revelou que 10% relataram sintomatologia persistente por mais de três semanas. Os resultados foram publicados no British Medical Journal. Os três sintomas mais comuns nesses casos foram tosse seca, febre baixa e fadiga, que evoluíram com períodos de remissão e de reagudização, durante semanas ou meses. Fôlego curto, dores no tórax, cefaleia, dificuldades neurocognitivas, dores musculares, fraqueza, alterações gastrointestinais, lesões dermatológicas, dificuldade para controlar o diabetes, tromboses, embolias pulmonares, depressão, ansiedade e outros transtornos psiquiátricos tiveram frequência variável.

Sintoma comum na fase aguda, a sensação de fôlego curto pode durar mais de duas semanas. A recomendação é controlar a oxigenação do sangue com os oxímetros, dispositivos simples de usar, à venda em farmácias e disponíveis nas Unidades Básicas de Saúde. Colocado na ponta do dedo, o oxímetro mede a saturação de oxigênio na corrente sanguínea. Valores de 95% ou mais, são considerados adequados, abaixo desse número há necessidade de avaliação médica e suplementação de oxigênio.

Manifestações cardiopulmonares estão presentes em pelo menos 20% dos pacientes hospitalizados. As mais comuns costumam ser miocardites, pericardites, infartos do miocárdio, embolias pulmonares, insuficiência cardíaca e arritmias. São mais prevalentes quando existe doença cardiopulmonar prévia.

O vírus pode induzir um estado de hipercoagulabilidade sanguínea, causadora de tromboses, embolias pulmonares e AVCs isquêmicos. Sequelas neurológicas são mais raras. Entre elas, tonturas, fadiga, convulsões, neuropatias e a sensação descrita como "lentidão de raciocínio".

A simples possibilidade de ser infectado provoca ansiedade, depressão, estresse, solidão, isolamento social, insônia, quebra da rotina diária, estresse pós-traumático. Nas pessoas que ficaram doentes esses transtornos se tornam mais evidentes e duradouros.

Definitivamente, a covid-19 não é uma gripezinha.

DRAUZIO VARELLA


12 DE SETEMBRO DE 2020
ESPIRITUALIDADE

O DESABROCHAR DA FLOR

A maneira comum de falar e de pensar é que na primavera as flores desabrocham. Se pudermos considerar que o desabrochar da flor é a primavera, saímos do pensamento comum e adentramos a mente desperta. É uma diferença sutil e ao mesmo tempo profunda.

Setembro, no Hemisfério Sul, é geralmente o mês das flores. Aqui, no templo Tenzui Zenji de SP, há um ipê amarelo - o símbolo do Brasil.

O ipê amarelo desabrochou uma, duas três flores. Logo ficou em plenitude. Agora essas mesmas flores estão murchando. O chão se cobre por um tapete dourado.

Setembro amarelo - setembro de vida se reproduzindo incessantemente. Setembro do não suicídio.

Gente, não há nada pelo qual matar e ou morrer. Há muito pelo que viver.

Se você ainda não vê a luz no final do túnel, é porque não chegou ao meio do túnel. Talvez tenha até chegado, mas pode haver uma curva e você ainda não vê a solução, a saída dos seus temores, desamores, exclusões, desrespeitos, tristezas.

Há muita tristeza no mundo e também há muitas alegrias. Quem conhece a satisfação é feliz mesmo sem ter posses, amores, sucessos, empregos, propriedades, fartura de alimentos e bebidas, sexualidade, reconhecimentos e muita dormida.

Buda dizia que há cinco desejos que nos impedem de adentrarmos o estado de satisfação plena. Todos ligados à nossa individualidade, a um eu que quer mais e mais, que precisa ser reconhecido, amado, aprovado, incluído. A falsa noção de separatividade. Somos um só corpo e uma só vida.

Quando vamos além dos apegos e das aversões, quando nos tornamos dourados com a luz dos ensinamentos, quando abandonamos os apegos e os desejos, as aversões e as repulsas - tanto do corpo quanto da mente , quando nos reconhecemos em cada partícula e no todo, despertamos e sentimos prazer na existência.

Mesmo que não tenhamos promoções nem medalhas, brindes ou prêmios especiais, empregos ou perspectivas de trabalho futuro, podemos nos tornar uma das pétalas da flor de um ipê amarelo, que suavemente se desdobra e parece nos dizer:

Sou a primavera. Sou a luz e a sombra, o sol e a lua, o dia e a noite. Sou o resultado de milhões de anos de tradição sendo transmitida de um ipê a outro ipê. Sou a vida.

E, mesmo quando o pequeno botão se torna flor dourada, e mesmo quando murchar e cair, continuará anunciando a vida.

Não se apresse em murchar. Você murchará, com certeza. Não arranque botões e flores com ciúmes e invejas, raivas e rancores. Estes terão seu tempo de surgir e de desaparecer, mas a vida continuará.

Admire, seja, penetre esse amarelo dourado das riquezas incomensuráveis. Sorria.

A pandemia ainda está nos assolando. Mantenha distanciamento social e se puder, isolamento. Use máscara, lave bem as mãos. Proteja a si e a todos.

Lembre-se: você é a primavera. Você é o som das águas dos rios e a forma das montanhas.

Viva com plenitude. Aprecie sua vida. Aguarde a luz. Ela está sempre presente. Basta que você desenvolva a paciência e a resiliência. Desenvolva a capacidade de ver, ouvir, perceber, sentir que entre dores e perdas, ganhos e lucros, intersomos, coexistimos com todas as formas de vida e podemos encontrar satisfação na existência.

Como? Primeiro passo: respire conscientemente. Mãos em prece.

MONJA COEN


12 DE SETEMBRO DE 2020
J.J.CAMARGO

A LIBERDADE DE ESCOLHA TEM LIMITES


Todos defendem, com veemência, o direito à liberdade de cada um, e ninguém contesta porque este é o mais elementar sustentáculo da democracia. O problema é que, tendo de ser, necessariamente, equânime para ser justo, esse direito esbarra no direito do vizinho sempre que ameaçar ou constranger a outrem. Porque, afinal, exercer a cidadania em sociedade significa que todos devem exigir o respeito mútuo.

Nesse sentido, é assustador o índice de brasileiros que se declararam contra a vacina, e nem estou incluindo neste contexto a declaração ambígua do presidente ("Ninguém será obrigado a vacinar!"), porque fosse qual fosse a resposta, ele seria acusado de irresponsável ou de ditador. Era só uma questão de escolha, e ele preferiu ficar com a lei.

A bizarra experiência brasileira do início do século 20 não parece despegar da nossa sina de subdesenvolvimento crônico. As epidemias davam ao Rio de Janeiro, àquela época, a fama de cidade empesteada e mortífera, afastando os estrangeiros, receosos de contrair doenças, especialmente a febre amarela e a varíola. Por outro lado, o planejamento urbano herdado do período colonial e do império não condizia mais com a condição de capital e centro das atividades econômicas do Brasil daquele período. Ela já era linda, mas precisava de um bom banho se sonhasse vir ser maravilhosa.

No dia 9 de novembro de 1904, foi publicado no jornal A Notícia (Rio de Janeiro) um plano de saneamento da cidade, incluindo a regulamentação da aplicação da vacina obrigatória, liderado pelo Dr. Oswaldo Cruz. O projeto oferecia a opção de vacinação por médico particular, mas o atestado teria de ter firma reconhecida. Além disso, haveria multas aos refratários e se exigiria o atestado de vacinação para matrículas em escolas, acesso a empregos públicos e trabalho nas fábricas, hospedagem em hotéis e casas de cômodo, viagem, casamento e voto. 

Para demonstrar que social e politicamente permanecemos irretocavelmente iguais, também há 116 anos houve politização da mídia e ameaças de impeachment - que naquela época não usava essa nomenclatura sofisticada para definir o que era mesmo uma rasteira no governo. Nos cinco dias de revolta contra o que se planejou como a reabilitação sanitária da então capital do Brasil, habilitando-a a receber turistas e operários contratados para a modernização do porto, houve protestos e tiroteios com mortos e feridos. As residências das autoridades envolvidas foram alvejadas e a imprensa, considerada governista, sofreu depredações.

Dias depois de decretado o estado de sítio, a obrigatoriedade da vacina foi abolida e a revolta arrefeceu. A contabilidade das mortes decorrentes dessa permissividade do direito de escolha nunca foram publicadas.

Mas como outra vez é lembrado o direito individual, incluindo a patética opção pela doença e a liberdade de infectar seus contemporâneos, que pelo menos se negue atendimento pelo SUS aos que escolherem o vírus como parceria mais amistosa.

Não vejo melhor maneira de tratar tamanha irracionalidade.

J.J.CAMARGO


12 DE SETEMBRO DE 2020
DAVID COIMBRA

Uma nostalgia de Porto Alegre

Na sexta mesmo pensei no sanduíche das Lojas Americanas. Curioso isso, não sou um adepto das comidas rápidas, mas aquele sanduíche era especial. Porque era delicioso, sim, foi o melhor sanduíche que já comi na vida, mas também porque simbolizava algo maior. Direi o que é.

Naquela época, minha mãe trabalhava como professora do Estado. Graças sobretudo à valorização que lhes havia dado o Brizola, os professores não ganhavam mal. Então, no dia em que ela recebia o salário, tomava pelas mãos eu e meus irmãos e nos levava para passear na Rua da Praia.

Hoje, as pessoas não fazem ideia do que era a Rua da Praia. Era uma rua sofisticada, com prédios de arquitetura neoclássica e vitrines em que coruscavam as tentações do capitalismo mundial. O Centro todo tinha um ar europeu, era um prazer andar por aquelas ruas e apreciar o desfile dos tipos humanos da Capital.

Lá no alto, na Senhor dos Passos, morava Oswaldo Rolla, o "Foguinho", o inventor do estilo gaúcho de jogar futebol. Quando jovem, ele descia todos os dias a pequena colina da Praça Dom Feliciano para ir trabalhar na Alfaiataria Aliança, no meio da Rua da Praia. Ainda na parte de cima da rua havia o famoso cachorro-quente da Princesa, depois a Galeria Malcon, onde as gatinhas ondulavam de minissaia, em seguida a classuda Casa Masson com seu relógio quadrado e, importante!, a Livraria do Globo.

Erico Verissimo, Josué Guimarães e Dyonélio Machado podiam ser encontrados na Livraria do Globo. Lá, Mario Quintana traduziu quatro dos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust. A Livraria do Globo não era uma loja, era um templo. O certo seria você entrar de joelhos na Livraria do Globo, em sinal de reverência, seu infiel!

A Rua da Praia inteira era uma diversão, mas, quando passeava de mãos dadas com a mãe, minha grande expectativa era a visita às Lojas Americanas. Sabe o que é que tinha nas Lojas Americanas? Escada rolante! Tenho a impressão de que foi a primeira de Porto Alegre. Nós nos sentíamos muito tecnológicos, subindo na escada rolante. Sei de histórias de pessoas que vinham do Interior só para vê-la. Chegavam ao pé dos degraus e hesitavam. Algumas senhoras sentiam medo e não se aventuravam a subi-la. Outros, mais intrépidos, iam em frente com denodo. A alegria deles era visível. Você olhava e sentia vontade de sorrir com eles.

No segundo andar, quando você "desembarcava" da escada rolante, havia a lancheria. Nós nos sentávamos e sempre fazíamos o mesmo pedido: sanduíche americano com suco de laranja. Depois de alguns minutos salivando, víamos aterrissar na nossa frente pratos com o sanduíche cortado em triângulos e o suco denso, de laranjas espremidas na hora, a vitamina C saltando das bordas do copo.

Tínhamos direito àquele lanche uma única vez por mês, no dia do pagamento da mãe. Esse é um dos motivos para que uma refeição que hoje soa tão trivial ainda me pareça extraordinária. Mas não é só por isso. É por causa, também, do significado daquele dia. Era um momento de afetividade entre mim, meus irmãos e minha mãe, e também entre nós e a cidade. Aquela Porto Alegre era uma cidade de se fazer a pé. De caminhar e se deter diante de alguma novidade faiscante. De parar para conversar e ver quem passava. Uma cidade amena, de pequenos prazeres mundanos. Uma cidade que nos dava certo orgulho e que nos fazia sonhar com as coisas boas que oferecia. Uma cidade que não existe mais.

DAVID COIMBRA


12 DE SETEMBRO DE 2020
O PRAZER DAS PALAVRAS

Dúvidas da pandemia

Entre as inúmeras alterações que esta pandemia trouxe para nossa vida, as que mais afetaram esta coluna foram as aulas à distância (é assim mesmo, sabidinho - com acento de crase). Já explico. Com toda a família confinada, pais e mães, querendo ou não, vêm acompanhando as aulas dos filhos; de certa forma, voltam a ser alunos, mas com a grande desvantagem de não poder falar com o professor para resolver as dúvidas que as aulas acabam despertando. Não sei como se arranjam com as outras disciplinas, mas, no que tange ao Português, uma das saídas é sempre escrever para este seu criado. Abaixo, caro leitor, você verá algumas das muitas consultas que me enviaram - e o curioso é que em quase todas se percebe um sentimento prévio de desconfiança com relação ao que o professor ensinou - totalmente injustificado, como veremos. Para evitar constrangimentos, não dou o nome nem a cidade.

1 - "Minha filha está aprendendo o alfabeto e ouvi a professora falar na letra H. Faz muitos anos que estudei isso, mas fiquei em dúvida: H conta como letra mesmo?".

Resposta - É claro que o H é uma letra, computada entre as 26 letras que compõem o nosso alfabeto (é só contar). Por isso, ela merece ter uma seção própria em todos os dicionários, que fica depois da seção do G e antes da seção do I; além disso, dizemos "esta palavra se escreve com a letra H", "a velha máquina de escrever não tinha a letra H", "procura na enciclopédia, no volume da letra H", e assim por diante. O que ela não tem é som, mas isso já são outros quinhentos.

2 - "Sempre que começa a aula da minha filha, aparece uma tela em que está escrito "Bom dia, turma!". Achei estranho e fui conferir no dicionário Houaiss. Lá está escrito bom-dia, com hífen. No Vocabulário Ortográfico, da Academia, idem. Como a professora é muito boa, resolvi escrever para o senhor antes de reclamar"

Resposta - Caro amigo, os dicionários devem ser lidos com atenção aos mínimos detalhes. Nos dicionários, o bom-dia hifenizado vem assinalado com a abreviatura s.m., ou seja, trata-se do substantivo (que tem, inclusive, o plural bons-dias): "Ela me recebeu com um sonoro bom-dia". Todavia, na saudação que aparece na tela do computador, temos uma simples expressão e não um vocábulo composto (que exigiria o hífen): "Bom dia, turma!" - da mesma forma que "Bom jantar!", "Boas festas!", "Boas férias!" ou "Bons sonhos!".

3 - "Sigo uma regra infalível: mal está para bem assim como mau está para bom. Por isso, bom humor, mas mau humor; bem-estar, mas mal-estar. Porém, a professora do meu filho deu como certa a frase "O mal é a falta de chuva". Não concordo, pois o contrário seria "O bom é falta de chuva". Posso entrar com um recurso?".

Resposta - Não, amigo, não pode. Como era de esperar, a professora está correta. Aqui entra em cena um terceiro, um personagem que escapa à tal regra infalível: trata-se do substantivo mal ("doença, desgraça"), que tem o plural males: "Até o séc. 19, o câncer era um mal incurável"; "Há males que vêm para o bem". Logo, "O mal é a falta de chuva".

4 - "O professor estava dando um sermão contra o bullying nas redes sociais e falou em lacração, palavra que, não sei se o senhor sabe, os jovens usam muito quando se dão bem ou arrasam em alguma discussão. Fiquei pensando: se vem de lacre, não deveria ser lacreação? Se estou viajando, pode me dizer."

Resposta - Conheço bem o termo, sim - tenho uma filha adolescente. E vou ser franco: você está realmente "viajando". Colocar o lacre é lacrar. Ora, os substantivos terminados em -ção derivam de verbos: cassar, cassação; datar, datação; lacrar, lacração. Para que existisse "lacreação", deveria existir, antes, o verbo "lacrear".

5 - "Passei pelo quarto do filho e ouvi, no computador, o professor avisar: "Depois que vocês virem o filme, podem preencher o questionário". Não é do verbo ver que ele estava falando? Não deveria ser verem? Virem não é do verbo vir?"

Resposta - Prezada leitora: vou trocar o verbo ver por fazer, para facilitar a explicação (ambos são irregulares e se comportam de forma idêntica nesta construção): "Depois que vocês fizerem o trabalho". Como podemos perceber, nessa frase o verbo fazer está no futuro do subjuntivo; se colocarmos em seu lugar o verbo ver, a conjugação correta é mesmo "depois que virem o filme" - que é o fut. subj. de ver: quando eu vir, quando tu vires, quando você vir.

CLÁUDIO MORENO

12 DE SETEMBRO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

O GUARDIÃO DA CONSTITUIÇÃO


Espera-se do cidadão carioca Luiz Fux, 67 anos, com sólida carreira como magistrado, professor universitário e jurista, uma gestão à altura da inadiável missão de fazer o Supremo Tribunal Federal (STF) recuperar a sua imagem perante a sociedade brasileira, um tanto desgastada nos últimos anos. Como novo presidente da mais alta instância do Judiciário nacional, caberá a Fux conduzir a Corte na tarefa de livrar-se de vícios recentes, como decisões monocráticas em demasia, excesso de intervenção em outros poderes, atuações questionáveis como o controverso inquérito das fake news e, se possível, iniciar uma era em que vaidades pessoais não se sobreponham à boa justiça.

O STF é o guardião da Constituição e deve se ater à carta. Seu poder não deve mais ser usado para criar mecanismos corporativistas, como fez o próprio Fux, ao ser o responsável por estender o auxílio-moradia para magistrados de todo o país, ao longo de quase quatro anos. Tampouco ser abrigo para voluntarismos personalistas, como se a Corte fosse formada por 11 nichos de soberbas e decisões extravagantes. É preciso, sobretudo, revigorar a força do colegiado e reforçar a segurança jurídica, algo em que o Supremo tem pecado nos últimos anos por decisões conflitantes em pouco espaço de tempo, como o caso da prisão em segunda instância.

Será responsabilidade do STF sob novo comando zelar por uma relação harmoniosa com os demais poderes. Mas, ao mesmo tempo, sabe-se que, nos dias estranhos vividos pelo Brasil, é inevitável que a Corte continue a ser acionada como parte fundamental do sistema de freios e contrapesos da democracia, mantendo-se firme para repelir arroubos autoritários e retrocessos civilizatórios. Um bom augúrio veio da insistência de Fux, em seu discurso de posse, de assegurar que será um aliado do combate à corrupção que ainda grassa no país. 

A afirmação se reveste de importância ainda maior pelo contexto de ataques e derrotas recentes da Lava-Jato. Mesmo passível de reparos e críticas, por erros de seus principais condutores, a operação vem deixando um grande legado na luta contra os malfeitos e desvios de dinheiro público. É preciso manter-se atento às articulações no mundo jurídico e político que visam minar a força- tarefa. Considerado linha- dura e aliado da Lava-Jato, Fux deverá saber equilibrar o apoio indispensável à tarefa de enfrentar a corrupção, sem deixar que se perpetuem novos abusos.

O ministro Dias Toffoli, que deixa o comando do STF, teve um mandato controverso e uma aproximação além da apropriada principalmente com o Executivo, mas pode-se dizer que teve a sensibilidade para agir como algodão entre cristais em momentos mais tensos, funcionando como uma espécie de apaziguador político, embora tenha sido firme quando o STF e seu ministros foram alvos de ataques oriundos do submundo das redes sociais bolsonaristas. A aspiração é de que, sob a condução de Fux, a corte constitucional corrija as rotas necessárias, mas ao mesmo tempo mantenha-se aferrada na missão de ser esteio da estabilidade nacional e da pulsação democrática do país.


12 DE SETEMBRO DE 2020
CARTA DA EDITORA

Na antessala da eleição

Não fosse a pandemia, neste momento os 5.568 municípios brasileiros estariam em plena campanha eleitoral, com candidatos a prefeito e a vereador buscando os votos do eleitor por meio da propaganda de rádio e TV, pelas redes sociais e, principalmente, no corpo a corpo, com apertos de mão e distribuição de santinhos.

A poucos mais de dois meses do primeiro turno (15 de novembro), não sabemos ainda como se dará a campanha nas ruas - que oficialmente se inicia no dia 27 - em razão do risco de contágio da covid-19. Porém, para a Justiça Eleitoral e os partidos políticos a jornada já começou. Assim como para ZH e GZH, que têm dedicado cada vez mais espaço a conteúdos de serviço, definição de candidaturas e formação de coligações.

Destaco duas reportagens que exemplificam os diversos ângulos da nossa cobertura eleitoral. Na quarta-feira, o repórter Fábio Schaffner contou como foram os bastidores do acordo entre os vereadores para levar adiante o processo de impeachment do prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan, e que tinha como pano de fundo a sucessão no paço municipal. Fábio, um profissional nativo do jornalismo político, entrevistou vários parlamentares para conseguir montar o quebra-cabeça dessa negociação, até então desconhecida na sua totalidade pela população.

Nesta edição, a repórter Juliana Bublitz - uma jornalista acostumada a destrinchar números - mostra o resultado do mergulho que fez nos dados do Tribunal Superior Eleitoral para traçar o perfil do gaúcho apto a votar. Com a consultoria da analista Gabriela Schmidt, que integra a área de Inteligência de Mercado da RBS, a reportagem traz dados relevantes, e até curiosos, que farão mais adiante a gente entender melhor os resultados das urnas.

- Conhecer esses dados e traduzi-los para o leitor é fundamental, porque mostram como o eleitorado evoluiu e como isso deveria impactar nas campanhas. Por exemplo: se os votantes estão envelhecendo, os candidatos precisam incluir no seu rol de propostas ideias voltadas a esse grupo - conta Juliana.

Como ressaltei acima, são apenas dois exemplos do que temos feito. A partir de agora, com maior frequência, falarei de eleições neste espaço. Muitos conteúdos diferenciados estamos preparando para nossos assinantes.

DIONE KUHN


12 DE SETEMBRO DE 2020
J.R. GUZZO

Ensinando a votar 

É sempre muito difícil fazer bem uma tarefa que é ruim pela própria natureza. No caso, a tarefa bichada é essa campanha da Justiça Eleitoral, mais uma, para ensinar aos eleitores como votar direito nas eleições para prefeito. A intenção, em si, é um disparate: de onde os ministros do Tribunal Superior Eleitoral tiram a ideia de que são capazes de ensinar alguém a exercer "bem" o seu direito de votar - ou a fazer "bem" qualquer outra coisa?

É a incurável compulsão das autoridades públicas em tratar a população como um bando de débeis mentais, necessitados da ajuda da madre superiora para pensar, escolher e decidir. Além de absurda, a ideia é inútil. Se os sermões de campanha do TSE servissem para alguma coisa, o Brasil deveria ter os melhores políticos no mundo, não é mesmo? Tem esses que estão aí.

Na opinião dos arquiduques dos nossos tribunais, aliás, o atual governo federal, saído das últimas eleições de 2018, é o pior que o país já teve em sua história. O que é que adianta, então, toda essa conversa de "voto consciente"? Há 31 anos, desde 1989, o Brasil faz eleições diretas para presidente da República. Há 38, desde 1982, faz eleições diretas para governador. Já deveria ter dado tempo para o brasileiro "aprender a votar" - ou tudo isso aí ainda é muito pouco? Quantos anos mais, segundo o TSE, serão necessários para essa gente entender como é que se vota do jeito que suas excelências querem?

Naturalmente, não existe uma única democracia no mundo onde se faça qualquer coisa parecida com essas campanhas pró-virtude que nos enchem a paciência há décadas. Também não existe democracia onde o voto seja obrigatório - ou seja, onde os políticos transformaram um direito constitucional em uma obrigação. É lógico: nossas "instituições", a "Constituição Cidadã" etc, são muito superiores a tudo o que existe no resto do planeta.

Na hora da execução, a ideia ruim fica pior. Na atual campanha, o TSE convocou para nos dar instrução moral e cívica algumas dessas figuras que têm a profissão de "especialista"; sua especialidade é especializar-se em ser ouvido pela mídia como "especialistas". Um deles, chamado para advertir os eleitores do perigo das "fake news", é o mesmo que disse que haveria "1 milhão de mortes" no Brasil por causa de covid-19 se não fosse adotado um fechamento extremo de tudo, por tempo indeterminado: afirmou, até, que estava sendo otimista.

Não foi feito o fechamento exigido. O número de mortos está abaixo de 130 mil. Se isso não é notícia falsa, o que seria? Outro especialista, para quem sair de casa é praticamente um crime de lesa-pátria, quer que os mesários não deixem de participar da maior "aglomeração" de gente desde o início da epidemia - as próximas eleições. É esse o nível de qualidade da campanha de propaganda do TSE.

Além de ser obrigado a ouvir isso tudo, você ainda tem de pagar - cada tostão gasto nas aulas dadas pelo TSE no rádio e na televisão sai do seu bolso, através dos impostos que a máquina do Estado extorque a cada vez que o cidadão acende a luz, fala no celular ou põe um litro de combustível no carro. Qual a novidade? Se o brasileiro já paga os serviçais que puxam a cadeira dos magistrados "top de linha" na hora em que se sentam para as reuniões, as suas lagostas, os seus planos médicos cinco estrelas e tanta coisa mais, por que não teria de pagar pelas lições do TSE? É a beleza das nossas instituições.

*Conteúdo distribuído por Gazeta do Povo Vozes - J.R. GUZZO