sábado, 19 de setembro de 2020


 

19 DE SETEMBRO DE 2020

DRAUZIO VARELLA

FARINGITE POR ESTREPTOCOCO

O estreptococo do grupo A é responsável por 20% a 30% das faringites nas crianças e por 5% a 15% dos casos em adultos. Além de provocar uma doença aguda que evolui com febre e dor de garganta, a faringite por estreptococo está associada a complicações pós-infecciosas, como a glomerulonefrite que compromete a função renal e a febre reumática, que além de dores articulares, deforma as válvulas cardíacas.

Os sintomas de faringite geralmente são de início abrupto: dor de garganta, febre alta, calafrios, dores musculares e dor de cabeça. Nas crianças mais novas, podem surgir dores abdominais, náuseas e vômitos. Algumas vezes, aparece uma vermelhidão na pele, que poupa a face, fica mais intensa nas dobras de pele e chega a descamar na fase de convalescença, quadro que recebe o nome de escarlatina.

A dor costuma ser mais forte de um dos lados da garganta. Quando é intensa a ponto de impedir a deglutição e instala-se de um só lado da faringe, faz suspeitar da existência de abscesso no local, principalmente quando o quadro já tem diversos dias de evolução.

Tosse, coriza e conjuntivite associadas à dor de garganta não são sintomas típicos da faringite por estreptococo; quando presentes, sugerem infecção por vírus. A febre costuma durar três a cinco dias, e a dor de garganta diminui gradativamente de intensidade até desaparecer depois de uma semana.

O diagnóstico clínico é feito com base nos seguintes sinais e sintomas: temperatura acima de 38ºC, ausência de tosse, presença de linfonodos (gânglios) aumentados, amolecidos e dolorosos no pescoço, aumento do volume das amígdalas ou presença de uma camada esbranquiçada na superfície delas (exsudato). A confirmação laboratorial é obtida a partir da cultura da secreção local, colhida por meio da raspagem das amídalas com cotonete ou espátula. Como o tempo que o estreptococo requer para crescer em cultura é de pelo menos um a dois dias, existe um teste rápido que identifica certas proteínas da bactéria em alguns minutos.

Se a doença é autolimitada na maioria dos casos, vale a pena tratá-la com antibióticos? Embora a antibioticoterapia não afasta a possibilidade de glomerulonefrite, existem outras vantagens no tratamento. Estudos realizados já nos anos 1950 demonstraram que o uso de antibiótico reduz a incidência de febre reumática, a principal causa de comprometimento das válvulas cardíacas, principalmente em países como o nosso. Uma análise conjunta de nove desses estudos (metanálise) mostrou que a administração de penicilina por via intramuscular diminui a incidência de febre reumática em 80%, quando comparada à ausência de tratamento.

Os antibióticos reduzem o risco de formação de abscessos purulentos na faringe e nas amídalas e o aparecimento de otites médias. Além desses benefícios, há o da erradicação da bactéria. Sem nenhum tratamento, em 80% dos casos o estreptococo persiste na faringe por até seis semanas. Essa característica da infecção tem implicações importantes na transmissão, especialmente entre crianças em idade escolar. Quando a criança recebe antibiótico, as culturas se tornam negativas em 24 horas, período depois do qual estará autorizada a retornar à escola. Os antibióticos também encurtam a duração dos sintomas, principalmente quando administrados nas primeiras 24 horas.

A penicilina é o antibiótico de escolha. Na forma oral deve ser administrada durante 10 dias. A preparação injetável por via intramuscular de penicilina benzatina tem a vantagem de ser barata, aplicada em dose única e proporcionar níveis sanguíneos duradouros, adequados para a erradicação do estreptococo.

Se por alguma razão a penicilina não puder ser utilizada, existem outras opções: cefalosporinas, clindamicina, azitromicina, etc. O tratamento deve ser mantido por dez dias, com exceção da penicilina benzatina (dose única) e da azitromicina (apenas cinco dias).

DRAUZIO VARELLA

 19 DE SETEMBRO DE 2020

BRUNA LOMBARDI

A ARTE É FEITA DE MOMENTOS ROUBADOS

O artista espera quando o momento exato se ilumina e ele o rouba. Ele registra aquela imagem na sua memória, se apropria daquela emoção e a guarda em algum lugar da alma, onde se armazenam as coisas que nos marcam.

Mais tarde, quando finalmente está sozinho no seu espaço, ele usa sua criação e transforma aquela amálgama de sensações em algum coisa que parece próxima, íntima, parece que agora não será mais perdida. E cada momento roubado ganha magia, nova vida, novo significado.

Aquele instante de vida, que passaria despercebido pra maioria, agora vai se tornar permanente. Tem agora outra tradução, vira história, foto, quadro, música, poesia. Aquele momento que quase não se notaria de tão sutil, invisível, desimportante, agora se torna forte, grande, tem luz própria, desafia seu criador.

Aquela emoção ali guardada está segura, se redimensiona e ousa atravessar o tempo. Vai do passado onde aconteceu e foi capturada pelo artista, para o presente da obra e depois, em seguida, vai se projetar e continuar até encontrar seu público e através de cada um vai se multiplicar em milhares de novas sensações individuais.

Já não pertence ao artista que a criou, agora pertence a um futuro infinito, atingindo todos nós que teremos a emoção de vivenciar esse momento que nunca vimos. E não será mais um momento perdido.

Todo artista é uma espécie de Prometeu, que rouba o fogo sagrado dos deuses e o oferece aos mortais. O seu castigo é que todos os dias sua arte o devora e sua busca continua. Mas essa é também a sua benção. Distribuir generosamente sua alma é o trabalho do artista.

Ele rouba as emoções do mundo e nos devolve o que sem querer perdemos.

Às vezes, uma doce capacidade de observar o imperceptível, a delicadeza do olhar, uma sensação antiga, uma memória. Uma música ao longe, uma voz cantando pra ninguém. Um sabor, um cheiro, uma brisa no rosto, um gesto esquecido. Um trem que deixa uma estação, alguém acenando, alguém chorando, lugares onde pessoas deixaram um sentimento.

Alguém que espera alguém, um amor que não se revela, um abraço, um café, uma guitarra. Uma lembrança que nem é nossa, um amigo que não tivemos, a nudez de uma mulher que nunca conhecemos.

Atrás das janelas dos apartamentos, existem milhões de desejos, segredos e histórias que se escondem na cidade. Existem mistérios nas noites, paixão, dor, intimidade. Existem destinos. Em cada um a solidão e a solidariedade. Escolhas. O medo da impossibilidade e a esperança de que tudo é possível.

Todos os dias tecemos o fio da vida com essa realidade que nos embrutece, endurece nossos sentimentos, intoxica nossos pensamentos. A arte nos traz a beleza, o conhecimento, a sensibilidade que podem servir de contraponto e equilíbrio pra isso tudo,

Quando o artista rouba momentos da vida e os transforma, ele nos transforma a todos. Traz um novo significado ao que vemos, uma nova perspectiva. Nos faz lembrar que somos todos feitos da mesma matéria que são feitas as estrelas.

BRUNA LOMBARDI

 

19 DE SETEMBRO DE 2020

J.J. CAMARGO

PARA ONDE VAMOS COM ESSA PRESSA?

Era previsível que houvesse algum prejuízo para uma geração condicionada a viver no embalo da instantaneidade.

Esta forma acelerada de convívio, por quem ainda nem teve tempo e oportunidade de entender o que se perde com a pressa sem bagagem, induz os jovens a confundir informação com sabedoria e cria a sensação curiosa de que tudo o que é novo, sim, vale a pena, e que aqueles veteranos que aprenderam antes estão ultrapassados, porque nada mais é como pareceu àqueles olhos cansados de nostalgia. Por conta dessas mudanças, o mundo passou a ser chamado, convenientemente, de moderno. Sem nenhuma certeza que isso queira dizer, melhor.

Se você nasceu lá pela metade do século passado e cultivou com carinho suas preferências musicais e literárias, responderá com naturalidade à qualquer pesquisa que pretenda determinar seu ranking das obras memoráveis. E sem pensar muito, porque as lembranças que tocaram o fundo da alma dormem na ponta da língua.

Repita a experiência com uma galera jovem, e ela só lembrará das músicas deste semestre, o que convenhamos talvez seja uma sorte, por não desperdiçar córtex cerebral com aquela enxurrada de mau gosto.

Um dia desses, na espera por uma live, um grupo de estagiários quis saber o que eu consideraria valer a pena nas tardes frias e chuvosas dessa infindável quarentena. Estimulado pela curiosidade deles, assumi que colocar o celular no modo avião e durante duas horas me dedicar a reler os Funerais de Mamãe Grande de Gabriel García Márquez, e a ouvir a Aracy Balabanian recitando, como ninguém, textos de Clarice Lispector como Tentação ou Felicidade Clandestina (meu preferido) tinha sido o melhor de uma semana de emoções amordaçadas pelo confinamento. Ninguém comentou nada, o que é sempre ruim para um professor carente. Pior foi a intuição do que eles estavam pensando: mas que tipo esquisitão! Foi estranha a reação deles, como se introspecção fosse tempo desperdiçado.

Se essa superficialidade afetiva ficasse limitada à interação, por exemplo, com seus grupos de WhatsApp, tudo bem, os amigos são feitos também para suportar as nossas chatices, mas não, a ansiedade de ter tudo agora, e antes do que o colega, sem o tempo mínimo de elaboração e triagem do que é relevante, está comprometendo-lhes a capacidade cognitiva. A comprovação dessa sequela mental do mundo líquido, em que nada tem consistência nem durabilidade, se revela na incapacidade de redigir um texto que expresse algum sentimento ou emoção, e muito especialmente, na fugacidade e no descompromisso das relações amorosas.

Quando esse comportamento é transferido para a discussão do futuro profissional, e eu sempre provoco o assunto, porque tenho algumas premissas inarredáveis sobre construir uma carreira baseado no prazer de fazer o que se faça, seja lá o que for, lá está ela outra vez: a instantaneidade, como protagonista de todas as escolhas, muitas delas com exigências tão discrepantes, que revelam não haver nenhuma convicção, só pressa.

Mas é deprimente que a principal preocupação, aos 20 anos, seja o jeito de ficar famoso mais rapidamente, como se houvesse uma fórmula que dispensasse esforço, trabalho e persistência.

E penso na depressão que será a descoberta de que o sonho da instantaneidade milagrosa era uma fraude, por ignorar que a pressa de ir só tem sentido se antes for definido aonde se quer chegar. E com que gana.

J.J. CAMARGO

19 DE SETEMBRO DE 2020

DAVID COIMBRA

Seis caras vindo em minha direção

Lá adiante, na calçada, vinham seis caras bem na minha direção. Seis caras grandes. De imediato, lembrei de uma noite em que estávamos voltando de uma festa no Gondoleiros, eu e os amigos do IAPI. As festas no Gondoleiros eram as melhores, principalmente as comandadas pelos Discocuecas - os Discocuecas eram o Pretinho Básico da época.

Vivíamos a era dos Embalos de Sábado à Noite. "Discoteque", dizia-se. Criaram-se mitos em torno da discoteque depois do filme do Travolta. Mulheres sinuosas. Prazeres mundanos. Loucuras. Para nós, guris do subúrbio, a vida acontecia em meio às luzes estroboscópicas da discoteque. O problema é que estávamos sempre do lado de fora, a não ser quando conseguíamos furar as festas do Gondoleiros. Caso daquela noite.

Foi mesmo uma noite divertida, inclusive conseguimos dançar com algumas gurias e o Plisnou, se não me engano, até beijou uma delas, o que, naquele tempo, se tratava de uma façanha.

Então, alta madrugada, umas quatro ou cinco horas, por aí, nós começamos a viagem de volta para casa. Tomamos um ônibus que nos deixou na boca da Industriários, perto do bar Amarelinho, e por ali tocamos. Caminhávamos devagar, porque o Fernando Araújo estava se recuperando de um acidente de carro e precisava se mover apoiado em um andador.

Aí, pouco antes de chegarmos ao Alim Pedro, vimos que, a duas quadras de distância, vinha um bando de, sei lá, algo que nos pareceu uns 30 ou 40 sujeitos. Eles gritavam e corriam em nossa direção e, por Deus!, alguns levavam TOCHAS nas mãos. Tochas! O que era aquilo?

"Vamos correr!", propôs o Jorge Barnabé, sensatamente, uma vez que nós éramos seis e, eles, dezenas. Se estivessem mal intencionados, não teríamos chance.

"Vamos correr! Vamos correr!", concordamos. Menos o Fernando, com aquele andador:

"Eu não vou correr".

Olhamos melhor. Era um grupo formado por negros. Velhos cronistas diriam que eram negros altos, fortes e espadaúdos. Todos podiam jogar na zaga do Guarany de Bagé. Eram o dobro do nosso tamanho. Transformariam nossas caras em xis-búrguer, se quisessem bater em nós.

"Vamos correr!", insistiu o Amilton Cavalo.

"Vamos! Vamos!"

"Eu não vou correr", repetiu o Fernando, e acrescentou uma frase imortal: "Me deixem apanhar descansado".

Diante desse apelo, nos comovemos. Mas advertimos:

"Nós vamos ficar contigo, Fernando. Mas, se nós apanharmos deles, depois tu vai apanhar DE NÓS".

Pois os caras vieram, fazendo alarde, com aquelas tochas nas mãos. Vieram e vieram e vieram... Nós nos encolhemos na calçada. Eles chegaram, por fim. E... passaram por nós como se não existíssemos. Nem nos olharam. Por que iam dar bola para aqueles ratos?

Pois foi no que pensei quando vi aqueles seis caras vindo em minha direção, dias atrás. Não porque temesse ser espancado ou assaltado ou qualquer coisa do gênero, e sim porque eles estavam sem máscara. Nenhum usava máscara e um deles, um gordo, tossia. Cristo! Olhei para os lados, procurando uma rota de fuga. Não havia saída. Os carros zuniam pelo leito da rua, não tinha como atravessar, nem desviar. E eles já estavam perto, cada vez mais perto.

Observei com mais atenção: mais um tossia. Um que puxava uma perna. Já deviam ter contaminado uns aos outros e agora respiravam impunemente, exalando coronas pelo ar. Li que o corona é bem leve e fica flutuando por algum tempo, depois de voar da boca de um infectado. Ele pode boiar no oxigênio por até 20 metros, mesmo ao ar livre. Li isso.

Estremeci.

Quase que podia ver aqueles seis tipos rodeados por nuvens pestilentas de coronas. E eu teria de passar entre eles. O vírus maldito ia se impregnar no meu rosto, ia colar na minha roupa, nem adiantava eu estar de máscara, como estava, porque ele ia se infiltrar por meus olhos, grudar em meus cabelos, até pelos ouvidos me invadiria. Oh, Deus!

Eles se aproximando e se aproximando. Tossiam. E tinham uma aparência de contaminados. A maior cara de contaminados, se você quer saber. Estávamos a dois ou três metros de distância, quando tomei uma decisão. "Vou reagir!", disse para mim mesmo. E girei nos calcanhares e corri. Corri covardemente. Confesso que corri. Não iria repetir o Fernando. Não iria me infectar descansado. Porto Alegre já foi mais segura, francamente.

DAVID COIMBRA

19 DE SETEMBRO DE 2020

ARTIGOS - Secretária da Cultura do Rio Grande do Sul | gabinete@sedac.rs.gov.br

GAÚCHOS SEM FRONTEIRAS

"O sertão é dentro da gente", escreveu Guimarães Rosa, mineiro de Cordisburgo. Internalizar o território, as vivências, é uma capacidade da alma humana. Os criadores nos ajudam a revelar aquilo que não percebemos a olho nu. "Por maior que tu sejas, Rio Grande, caberás sempre dentro de mim", cantou Paixão Côrtes, sintetizando o que sentimos por nossa terra querida.

O fronteiriço escritor bilíngue Aldyr Garcia Schlee se dedicou, durante toda a vida, ao estudo do léxico de João Simões Lopes Neto, nos deixando em sua vasta obra a tradução da cultura pampeana sul-rio-grandense, consolidada no seu dicionário, o qual pode ser acessado em www.dicionariopampeano.com.br

Para concretizar seu dicionário, Schlee se debruçou sobre expoentes da literatura platina e descreveu milhares de verbetes, buscando traduzir-se e traduzir- nos. O mundo do gaúcho teve suas características ligadas à sociedade que aqui se estabeleceu, seus modelos econômicos e culturais, sua rebeldia. E sempre os contrastes: as derrotas e as vitórias. Precisamos compreender este mundo em sua complexidade, incorporando diferenças e uma visão plural do passado. Dar voz àqueles ainda não ouvidos, como fizeram Simões Lopes Neto com o vaqueano Blau Nunes, Guimarães Rosa com seu Riobaldo e Schlee com seus personagens rejeitados da sorte.

No universo pampeano, Schlee afirma que as linhas divisórias separaram impérios, países, mas não foram empecilho ao surgimento de uma cultura comum, evidenciada nos modos de ser e fazer e na recriação linguística.

Valho-me de algumas das contribuições de Schlee. Palavras vivas no vocabulário de hoje, contrastes que nos definem. Farrapo: trapo, andrajo, pedaço de pano cheio de fiapos ou farpas. Nome dado pelos imperiais legalistas a cada um dos insurretos republicanos, no Rio Grande do Sul, durante a chamada Revolução Farroupilha (de 1835). Farroupilha: denominação dada pelos imperiais aos insurgentes sul-rio-grandenses. Façanha: proeza impressionante, ato de coragem, determinação que ultrapassa os limites habituais.

Em 2020, comemoramos os festejos farroupilhas com o tema "Gaúchos sem fronteiras". Muitos gaúchos estão distantes, em diferentes partes do mundo. A história, a força de nossos mitos e da nossa memória compõem um patrimônio interior que nos leva a crer que o Rio Grande é dentro da gente.

BEATRIZ ARAUJO

19 DE SETEMBRO DE 2020

FLÁVIO TAVARES

NOVAS FAÇANHAS

Todo 20 de setembro nos remete à Guerra Farroupilha e ao Hino Rio-Grandense para que "sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra". Hoje, porém, ser fiel à tradição do que fomos não é pilchar-se ou dançar a chula nem sequer construir a bela réplica do barco de Garibaldi, mas defender a integridade e o estilo de vida livre e sã que fez surgir a gesta de 1835.

No século 19, o tacão do Império nos aviltava. Hoje, somos ultrajados pelos que degradam a natureza e, assim, nosso modo de viver.

Mas continuamos a resistir. Um dos exemplos concretos (de fato, modelo a toda a Terra) é a mobilização do povo dos oito municípios do Alto Camaquã para impedir a abertura de uma mina de chumbo, cobre e zinco, que degradará a região melhor preservada do bioma Pampa. Gente de fora (a paulista Votorantim e a Iamgold, do Canadá) quer explorar por 20 anos a região das Guaritas, que reúne a mais bela paisagem do Pampa, com suas elevações rochosas encontradas apenas ali em todo o planeta. Trata-se de um dos 21 "territórios montanhosos inigualáveis" reconhecidos pela World Famous Mountain Association (WFMA), que, em apenas 20 anos, seriam só imensos buracos, contaminando o ainda límpido Rio Camaquã com metais pesados (que atacam o sistema nervoso) e chegando à Lagoa dos Patos.

Na Serra do Sudeste, a indescritível beleza das "Guaritas" se complementa em ativa pecuária e agricultura familiar, além do belo artesanato em lã, pele e doces da região do Alto Camaquã.

A mineração só deixou tragédias por lá. Em 1981, vazou mercúrio da mina da Cia. Brasileira de Cobre, em Caçapava, matando peixes e gado. Sugiro ver (pela internet) o filme documentário Dossiê Viventes - O Pampa Viverá, do diretor Tiago Rodrigues e roteiro de Ingrid Birnfeld, para conhecer, de um lado, a beleza das Guaritas e, de outro, o horror que os habitantes de Bagé, Caçapava, Camaquã, Encruzilhada, Lavras, Piratini, Pinheiro Machado e Santana da Boa Vista repudiam, numa nova façanha, como a do hino.

Uma sanha mais cruel que a do Império hoje rodeia certos "empreendimentos", contrariando os alertas da ciência, da ONU e do Papa sobre a degradação do planeta.

Como se não bastasse o horror de pretender explorar carvão à beira do Rio Jacuí, em área de banhados (onde se cultiva arroz orgânico), a 15 quilômetros da Capital, e que poluirá o Guaíba, há outras insânias. Em São José do Norte, querem extrair 600 mil toneladas de titânio e zinco, contaminando com metais pesados a faixa entre a Lagoa dos Patos e o mar. Em Lavras, querem explorar fosfato a céu aberto, contra a opinião dos ruralistas. Derrotar o horror é a nova façanha.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

 

19 DE SETEMBRO DE 2020

OPINIÃO DA RBS

A DOENÇA DA CORRUPÇÃO

A descoberta e o desmantelamento de inúmeros esquemas de corrupção nos últimos anos no país, como os desnudados pela Lava-Jato e outras operações, parecem não ter surtido um efeito pedagógico a ponto de inibir novos malfeitos e a continuidade de outra série de crimes contra o erário. Tampouco as condenações exemplares de figurões da política e do mundo empresarial, antes vistos como intocáveis, tiveram o condão de intimidar as comunhões espúrias de larápios de colarinho branco operando dos dois lados do balcão. É assombroso que diversos casos de corrupção brotem e vicejem em vários governos espalhados pelos país, como se houvesse certeza da impunidade.

O caso mais emblemático é o do Rio de Janeiro, Estado que passa a impressão de ser tristemente amaldiçoado por uma peste que contamina todos os seus governantes mais recentes e os leva inexoravelmente à perda de mandato ou para a cadeia. Ao menos, após flagrados, tiveram de prestar contas à Justiça ou ainda estão por sofrer consequências. Antes de Wilson Witzel, afastado pelo Judiciário e às vésperas de sofrer impeachment, cinco de seus antecessores foram presos. Sérgio Cabral está atrás das grades desde 2016 e Moreira Franco, Anthony Garotinho, Rosinha Matheus e Luiz Fernando Pezão recorrem em liberdade.

Diante de tantos exemplos nefastos pregressos, é preciso entender como e por que no Rio de Janeiro - que é espécie de caixa de ressonância de todo o Brasil - se mantêm estruturas arraigadas de corrupção que contagiam todos os poderes e se espalham rapidamente por boa parte do organismo do Estado. No Rio, os desvios endêmicos vêm desde as facilidades vendidas pela corte portuguesa, em um sistema de trocas que privilegia os amigos do poder e permite a convivência da contravenção e agora do crime organizado e das milícias com a política. As suspeitas avançam para a administração municipal da cidade do Rio de Janeiro, atingem ex-prefeitos, vereadores, deputados estaduais e membros do Tribunal de Contas.

De rachadinhas a assassinatos, o grau de deterioração do Rio, um Estado que está no coração de todos os brasileiros e amantes do Brasil, deve servir de alerta permanente sobre os tentáculos da corrupção e do crime mimetizado nas estruturas públicas. Extirpar esse câncer da vida fluminense e impedir que o mau exemplo se repita no país, onde já há sinais preocupantes de metástases, é um dever e uma obrigação moral urgente de todas as instituições sérias do país, independentemente de onde se localizem. Mas nenhuma solução de longo prazo será possível se a sociedade não repudiar de fato a corrupção, inclusive aqueles pequenos delitos e irresponsabilidades do dia a dia, e der em uníssono cartão vermelho àquela politicagem que, apenas mudando o figurino para iludir os eleitores a cada pleito, se adonou do Estado.

19 DE SETEMBRO DE 2020

SOPRO DE OTIMISMO

Alívio somado a desafios para estimular indústria

O aumento na capacidade de conexão do sistema elétrico traz alívio a empresários do Estado. Na visão deles, as novas linhas de transmissão e subestações podem representar o pontapé inicial para o desenvolvimento de todo o setor eólico nos próximos anos.

Ou seja, com a elevação no potencial de geração de energia, o Rio Grande do Sul teria mais condições de atrair, por exemplo, empresas que montam equipamentos usados em parques eólicos, incluindo aerogeradores. Mas, para isso, ainda há desafios no radar.

- É importante que haja uma política pública de estímulo à fabricação de aerogeradores no Estado - diz Ricardo Pigatto, presidente do conselho de administração da Associação Brasileira de Geração de Energia Limpa (Abragel).

Para estimular o desenvolvimento do setor, o governo estadual aposta em uma combinação de fatores. Um deles é o lançamento, junto ao BRDE, de linha de crédito voltada a projetos de energia eólica, aponta o secretário do Meio Ambiente e Infraestrutura, Artur Lemos Júnior.

O secretário acrescenta que mudanças no código ambiental do Estado, sancionadas em janeiro, buscam facilitar a instalação de empreendimentos. Lemos ainda menciona que a reforma tributária proposta pelo Piratini pretende incentivar negócios ao simplificar a cobrança de impostos.

- Se conseguir movimento de expansão e investimentos em energia eólica, o Estado terá capacidade de se apresentar a fabricantes, para que as empresas tenham pontos de montagem em locais estratégicos do Rio Grande do Sul - analisa o secretário.

Tendência

Nos últimos meses, o consumo de energia, gerada por diversas fontes, sofreu redução com a crise do coronavírus. Apesar de a pandemia ainda espalhar incertezas, a tendência é de reação na demanda em 2021, o que também pode beneficiar o segmento eólico, frisa Guilherme Sari, presidente do Sindicato das Indústrias de Energias Renováveis do Rio Grande do Sul (Sindienergia-RS).

- O ano de 2020 é bastante complicado, mas 2021 tende a ser um período de retomada. Esperamos um aumento natural no consumo de energia - afirma o dirigente.

Em razão das novas linhas de transmissão e subestações, Sari projeta maior interesse de empreendedores pelo setor eólico no Estado. Segundo ele, já existem movimentos nessa direção.

O mais recente, diz o dirigente, é a compra de parques eólicos que pertenciam à Eletrobras em Santa Vitória do Palmar e Chuí, no sul do Estado. A Omega Geração é a responsável pela aquisição. Anunciado no fim de julho, o acordo foi fechado por R$ 1,5 bilhão, incluindo a absorção de dívidas da estatal.

- Isso mostra o olhar de investidores para cá. Há um interesse de empresas em ampliar o portfólio no Sul. Todos estão na expectativa de que as obras de transmissão sejam finalizadas - pontua Sari.


19 DE SETEMBRO DE 2020

J.R.GUSSO*

Duas classes de brasileiros

Todos os dias, ou quase isso, o público recebe provas e contraprovas de que há dois Brasis vivendo no mesmo espaço, na mesma época e sob a mesma Constituição, mas com direitos diferentes entre os seus habitantes. Uns são cidadãos de primeira classe; formam cerca de 5% da população e têm empregos na máquina do Estado. Os outros 95% são de segunda classe; têm de sobreviver à custa do seu próprio esforço e pagam pelo sustento, pelos benefícios, pelos privilégios e pela segurança dos primeiros. Sua vida, entre outras coisas, é muito mais arriscada.

O mais recente demonstrativo dessa realidade é o que está acontecendo com os funcionários da Volkswagen em São Paulo e no Paraná. Ninguém pode nem sequer pensar, por dois minutos que seja, em congelar os salários do funcionalismo. Não se trata de reduzir, mesmo com redução de horas trabalhadas, e muito menos de mandar alguém embora – trata-se apenas e tão somente de não aumentar os salários, e assim mesmo só por um período limitado de tempo, enquanto durar a devastação econômica da covid-19. Não pode: a lei não deixa, mesmo porque isso aí é ideia “fascista, contra a democracia e contra as instituições”.

Já os sindicatos de trabalhadores da Volkswagen, cujos associados fazem parte dos 95% de cidadãos de segunda categoria mencionados acima, acabam de aceitar uma proposta para ganhar menos em troca de uma garantia temporária de emprego.

Ao contrário dos sindicatos de professores públicos (que, por sinal, ameaçam fazer greve contra a reabertura das escolas), de juízes de Direito, de empregados dos correios etc. etc. etc, as organizações de cidadãos privados não se podem dar ao luxo de escolher suas condições de trabalho; vivem no mundo real da economia, e adaptar-se a ele é uma questão de sobrevivência. Não têm quem pague os seus boletos, nem garanta os seus empregos até a aposentadoria, com vencimentos integrais.

A Volkswagen, que já teve na casa dos 40 mil funcionários aqui no Brasil, está hoje com 15 mil, por conta do avanço da automação e de condições de mercado. Pode ainda cortar um terço disso. Também não tem escolha: ou reduz ou vai à falência, num país que já produziu mais de 3,7 milhões de veículos num ano, menos de 20 anos atrás, e que em 2019 ficou abaixo de 3 milhões de unidades. 

Esta é a vida como ela é, no Brasil que vive fora da reserva ecológica do funcionalismo público, protegida por todas as leis e por todos os direitos.

*Conteúdo distribuído por Gazeta do Povo Vozes

J.R. GUZZO*

sábado, 12 de setembro de 2020



12 DE SETEMBRO DE 2020
LYA LUFT

Amenidades

Tempos esquisitos, idas e vindas, confusões, tragédias e indigências mentais ou morais... dramas de gente como esta que escreve há seis meses enclausurada. Haja paciência, haja bom senso, haja internet.Outro dia, Vicente estranhou meio divertido: sempre entretida na maquininha?

Pois nela escrevo, pago e recebo, converso, consolo e me consolo, pesquiso, descubro, assisto, aprendo coisas até incríveis, controlo os horários dos jogos de tênis, enfim, o smart é minha janela pro mundo e pras pessoas.

Certamente estou viciada nele.

Certamente quando A VACINA me liberar, se ainda viva e lúcida, será difícil abrir portas e janelas normais e viver de novo, de um jeito parecido ao velho jeito antes da máscara, da cotovelada ou patada, da infinita chatice com a qual vamos - tristemente - nos acostumando.

Protestei, reclamei, bufei e esperneei como aos cinco anos, quando as coisas não eram como eu queria... Incomodei meio mundo feito uma imbecil, passei pessimismo e negatividade inúteis, mas finalmente me convenci do que me escrevia uma amiga sábia: "A idade devia nos ensinar a entender que há coisas no mundo que não podemos mudar como achávamos na juventude e aceitar a circunstância do momento, salvando nossa saúde mental e a paz interior. Um dia vai passar".

Foi mais ou menos isso que me disse.

Prometi a mim e a minha gente que iria tentar, porque do jeito que estava, estava chato demais.

Verdade que sempre fui mais para otimista nas rasteiras que a vida passa em todos nós, não me senti vítima, mas acreditei em alguma coisa como "mistérios do destino", mesmo aos prantos eu cerrava os dentes e tocava a vida, apoiada em amores fiéis como amizades e família. E na crença de que, sim, somos transcendência mais do que miséria humana.

Mas esta fase atual no começo me intrigou, depois me assustou, depois me irritou infantilmente como se o cosmos tivesse aprontado essa brincadeira sinistra pra mim, não para todo o pobre planeta.

Às vezes me divertia um pouco com minha birra diante de uma peste mundial: quem você pensa que é?

Por fim nem eu mesma aguentava minha ridícula resistência a qualquer bom senso, e foi quando chegou o abençoado Whats, que foi simples sabedoria lúcida, mas me atingiu como uma descoberta repentina e original. Remédio certo na hora certa.

E foi então que, ao acordar com o barulho da chuva que tanto amo, escutei, primeiro tímido, depois glorioso, o canto dos primeiros sabiás anunciando que ainda teremos, provavelmente, uma primavera.

LYA LUFT

12 DE SETEMBRO DE 2020
MARTHA MEDEIROS

Medo de quem pensa

Caetano Veloso tem medo de barata. Declarou durante Narciso em Férias, documentário em que relata, de forma detalhada, como foram os 54 dias em que esteve preso pela ditadura militar, no final dos anos 1960. Um trabalho pontuado por revelações ora sentimentais, ora aflitivas. Os primeiros dias isolado numa solitária, sem entender a razão de ter sido detido. A caminhada no pátio com um guarda armado atrás dele, que o ameaçava de morte caso parasse ou conversasse com alguém. 

O alívio de sair da solitária e dividir uma cela com outros presos, sendo que alguns deles eram Perfeito Fortuna, Ferreira Gullar, Paulo Francis. A dor de escutar, por trás das paredes, os gritos dos torturados e de testemunhar a absurda prisão de um rapaz paraplégico que era homônimo de Antonio Callado. A informação, por fim, do "crime" que havia cometido: o de ter, supostamente, cantado o Hino Nacional em forma de paródia durante um show na boate Sucata, no Rio. O interrogatório, totalmente nonsense, o acusava de fazer música "desvirilizante" - nem o Aurelião conhecia essa palavra.

Durante a hora e meia que dura o filme, temos a oportunidade de escutar a narrativa franca e os temores de um artista de 26 anos cuja maior culpa era o de ser livre. É isso que dói. A liberdade é intolerável aos imbecis, que por não compreenderem o que se passa numa cabeça capaz de criar, transgredir e expandir a realidade, tentam aprisioná-la e impedi-la de contagiar outras pessoas. Naqueles anos de chumbo, nosso país tinha medo de gente que pensava. O medo do Brasil de hoje, qual seria? Dou-lhe uma, dou-lhe duas...

Medo das piadas do Porta dos Fundos, das imitações do Marcelo Adnet, das reportagens em frente a hospitais, de perguntas irrespondíveis, dos memes que se reproduzem aos milhares nas redes sociais, de forma criativa e insolente. Medo da reação diante do apogeu da mediocridade e de uma política "desraciocinante" (deu vontade de inventar um adjetivo também), imbuída em destruir qualquer possibilidade de evolução intelectual.

Parte do Brasil está desiludida com a outra parte, a que elege tementes a Deus - aliás, temor sem razão, já que Deus, salvo engano, é amor. Devemos temer é o fanatismo religioso. Temer a obsessiva reverência à família padrão, o que desautoriza a legitimidade de todas as outras. Temer a atrofia da mente e do espírito. Temer quem não pensa, apenas se deixa seduzir pela promessa de atingir o reino dos céus e outras abstrações alienantes. Esses, sim, são os perigosos, pois não se defendem com ideias, e, sim, com armas, insultos e repressão.

Barata é fichinha. Caetano contou sua história para repartir conosco o medo de insetos bem mais nocivos - e que estão se alastrando assustadoramente pelas frestas do país.

MARTHA MEDEIROS


12 DE SETEMBRO DE 2020
CLAUDIA TAJES

Seja livre, leia um livro

Para quem anda com saudade de flanar, ideias para viajar sem sair da sala. São lançamentos, mas vale qualquer livro já publicado - e até emprestado. Se for comprar, não esqueça das livrarias pequenas. Elas contam com a gente para continuar a viagem.

Canções de Atormentar, Angélica Freitas. Quem leu Um Útero é do Tamanho de um Punho já deve ter comprado o novo livro da Angélica. Se não, pode aproveitar para ler agora, de carreirinha, esses dois livros da poeta nascida em Pelotas. Canções de Atormentar traz recordações da infância e dores de hoje em forma de poesia fina e rica. Na apresentação do livro, que saiu pela Companhia das Letras: "Canções de Atormentar reúne poemas ora ferozes, ora desiludidos, sem nunca perder de vista a urgência, a vivacidade, o humor e o tom incisivo (...)".

O Avesso da Pele, Jeferson Tenório. Romance que trata de um dos temas mais doídos desses nossos tristes dias, o racismo. Embora a brutalidade do assunto, é um livro que fala de sentimentos delicados e da obstinação de um filho que busca resgatar o passado de sua família após o assassinato do pai em uma truculenta ação policial. Também saiu pela Companhia das Letras.

Vida de Adotivo: Livro de Relatos, Alexandre Lucchese. Segundo livro em que o Alexandre trata do assunto, dessa vez na visão de outros filhos adotados - assim como ele. Editado a partir de financiamento coletivo, os volumes artesanais são um capricho só, impressos em serigrafia e costurados um a um. Para comprar: vidadeadotivo.lojaintegrada.com.br/vida.

Vila Sapo, José Falero. O autor da Lomba do Pinheiro volta e meia é comparado com o paulista Ferréz ou com o carioca Anderson França, também escritores da periferia. Essa mania que o mundo literário tem de dizer que fulano é o novo isso e fulana é a nova aquilo. Vila Sapo traz contos sobre o cotidiano da Lomba, com personagens que já entraram nas nossas casas para prestar algum serviço, ou com quem já cruzamos, mas sem ver. Em novembro sai Os Supridores, primeiro romance de Falero - que todas as semanas publica uma crônica na revista Parêntese.

Verissimo Antológico - Meio Século de Crônicas, ou Coisa Parecida. Cinco décadas de crônicas de LFV. Um livro que já chega desatualizado, porque agora há pouco saiu o texto em que o padre Alonso prevê a segunda vinda de Cristo, e a cidadezinha não tem um lugar para hospedá-lo - o motel Happy Hour parece pouco adequado. "E tudo se resolveu quando o padre Alonso contou que Deus fizera contato com ele para dizer que a segunda vinda do Cristo fora cancelada. Tinham concluído que não era a hora."

Dicionário da Independência - 200 Anos em 200 Verbetes, Eduardo Bueno. Aleluia, ele voltou. Não Cristo, mas Peninha, que conta em verbetes o turbulento processo que resultou na separação do Brasil de Portugal. E que pode ter se dado por meio de ações, mas se concretizou por meio de palavras: "Independência ou morte". Lançamento da valente editora Piu, lindamente ilustrado por Paula Taitelbaum (ao lado). Pré-venda aqui: editorapiu.com.br.

A Claridade Lá Fora, Martha Medeiros. Grande notícia para os milhares de leitores da Martha. A editora L&PM lança em outubro o novo romance da autora. Sem spoiler, uma partezinha da apresentação: "(...) uma história que trata dos tênues alicerces das relações humanas, da maternidade à amizade, da culpa à atração sexual. Porque aquilo que mais tentamos esconder, quando se revela, não vem como uma onda, mas como um tsunami". Pre-pa-ra.

CLAUDIA TAJES


12 DE SETEMBRO DE 2020
LEANDRO KARNAL

CONHECEREIS A VERDADE


Henry saiu do culto em silêncio. Já ouvira a passagem do oitavo capítulo do Evangelho de João muitas vezes. Com o tom solene da Bíblia, ele repetia que o conhecimento da verdade poderia libertar: And ye shall know the truth, and the truth shall make you free. Eram três núcleos na frase: conhecimento, verdade e libertação. A primavera reverberava naquele sábado em Massachusetts. A cidade de Woburn estava repleta de flores e o caminho para as terras de Henry parecia uma sinfonia de plantas e pássaros. Ele seguia cabisbaixo, não triste, de fato, porém flutuando entre a voz de Jesus e a realidade do povoado. As pessoas de Woburn não eram livres. Viviam presas a convenções, cenas públicas, declarações formais e gentilezas ensaiadas. A palavra do Evangelho não poderia falhar. Conclusão inescapável? O solo se manifestava adverso à semente.

A sopa do jantar foi tomada em silêncio. Henry deu graças, pegou um pedaço de pão e serviu à esposa, que tinha o piedoso nome de Faith. Conversaram trivialidades sobre a plantação e os animais. Os filhos não tinham permissão para conversar à mesa, como em todas as casas da Nova Inglaterra naquele ano da encarnação de Nosso Senhor de 1742. Faith recolheu os pratos, e, como sempre, por volta das 19h, estavam todos na cama. O coração inquieto do marido continuou pulsando em torno do tema. O homem, irremediavelmente pecador, era insuficiente para atingir a verdade. A graça estava perdida no lodo da humanidade. Henry aprendera a confiar no poder redentor de Cristo. Mais de uma vez, andando ao longo do Mystic River que o levava a Boston em ocasiões especiais, ajoelhava-se na relva e agradecia o sangue que o tinha redimido de forma imerecida. A terra era boa, a esposa, honesta e dedicada, os filhos tinham sobrevivido sem doenças graves. Teriam sido sinceros sempre? Estariam livres?

Henry acordou antes de todos. Ao tratar os animais ainda no escuro da madrugada, percebeu que seu pequeno rebanho era totalmente honesto. Comiam e urinavam, mugiam e acasalavam sem nenhum obstáculo de etiqueta ou de pudor. Eram criaturas de Deus, salvos como a família de Noé. Ali, no campo onde corriam seus dois cavalos e três vacas, Henry ajoelhou-se ao amanhecer e implorou ao Senhor que tornasse a ele e a todos de Woburn devotos da verdade absoluta como queria Jesus. "Seremos livres e salvos!", ele gritou para o tom malva do sol raiante. O relinchar da égua da família e o grasnar de um grupo de gansos selvagens pareceram ser a confirmação natural de que sua prece fora ouvida.

O desjejum foi trivial. Faith cozinhou mingau de aveia e cortou fatias grossas do pão caseiro. A filha mais velha agradeceu e, com o olhar dócil de sempre, comentou sem agressividade: "Mamãe: seu pão não tem gosto e é duro!". Houve um silêncio aterrador. O casal nunca tinha ouvido uma rebeldia ingrata. A menina também estava assustada. Surpreendera-se com a frase que tinha emitido. Foi tão fora do padrão que não houve reprimenda ou castigo, apenas silêncio. A verdade antiga sobre o péssimo pão da esposa tinha sido enunciada. Ela lançou um olhar de súplica ao marido que, também, embasbacado, confirmou a opinião da primogênita. O mundo estava fora do eixo! No constrangedor intervalo de tempo seguinte, Henry se lembrou da oração feita: que todos fossem verdadeiros.

Ainda imerso na surpresa da conversa matinal, ele foi levar alguns produtos primaveris da horta para a casa do pastor Matthew. Era um hábito. No caminho, encontrou a vizinha que plantava no jardim. Saudaram-se formalmente, apesar de serem conhecidos desde a infância. Ela, após o tradicional e distante "bom dia", perguntou através da cerca florida: "Por que você não casou comigo e escolheu a Faith?". Henry já tinha percebido que aquele dia seria diferente. E, não conseguindo controlar a boca, disse o que jamais tinha conseguido enunciar: "O seio dela era bem maior do que o seu e isso me excitava muito". Os dois vizinhos se olhavam como se tivessem sido possuídos por algum espírito maligno. Vermelhos como as frutas que Henry carregava, afastaram-se. Seria a prece?

Sim, era ela, a oração. A visita ao pastor foi tomada de confissões sobre como Henry achava os filhos do reverendo insuportáveis. O piedoso Matthew concordou e disse que pelo menos eram alegres, já a esposa era de um azedume indescritível. "Meu casamento foi um equívoco", completou o líder. A cada frase, os dois ficavam impressionados como se tivessem sido transformados em marionetes e dominados por algum ventríloquo malicioso. Porém, cada frase era verdadeira. Henry arrependeu-se da súplica. Estava livre, a verdade imperava e o mundo tinha ficado inviável.

No caminho para casa, ajoelhou-se novamente e pediu para não ser mais livre. Pediu para não conhecer a verdade ou, pelo menos, não a declarar. Orou, e o crocitar de um corvo grande pareceu confirmar que Deus o ouvira pela segunda vez naquele dia Ao abrir o portão da sua sempre cuidada casa, os filhos o receberam com alegria e informaram que uma nova fornada de pães tinha sido terminada. Contrito e agradecido, Henry comentou que Faith era a melhor padeira da região. As crianças concordaram e todos ficaram felizes. À noite, tomando o pão insosso e compacto nas mãos, o pai deu graças com intensidade e agradeceu que só Deus fosse a Verdade. É preciso ter esperança. E sempre pensar naquilo que desejamos. Quando Deus quer punir, por vezes, Ele atende a oração.

LEANDRO KARNAL

12 DE SETEMBRO DE 2020
FRANCISCO MARSHALL

INIMPUTABILIDADE

Lisarb é um sìap oa oiràrtnoc. Lá chove pra cima, cacoete é virtude, água derrete fogo, passado é futuro, a Terra é plana e não orbita; lá "es lo mismo un burro que un gran profesor". É Lisarb. Um dia, seria um país, tinha boa música e poesia, arquitetos inspirados, problemas com solução futurista, sem catástrofe natural, faltavam pequenos e grandes ajustes, mas tinha sua beleza e prometia. O destino perdeu-se, desatino triunfou. O que houve, que tudo se inverteu, é o que muitos se perguntam, atônitos, vendo a bigorna cair no vácuo infinito, e longe vagar a esperança. Pode não ter fim. Se até Roma caiu, por que um projeto de país da periferia não viraria caricatura pútrida, para riso e choro próprios e globais?

Deu na imprensa de Lisarb, nota liberada após 89 carimbos: "Hoje pela manhã, nos estúdios da TV Educativa, o presidente estuprou dois de seus filhos, matou a repórter, comeu-lhe as entranhas, arrotou, bateu no peito e saiu carregado por assessores e assessoras em delírio festivo. Foi tudo transmitido ao vivo para a rede escolar". Horas depois, o presidente do Sublime Tribunal declarou que "as instituições funcionam perfeitamente, nada ameaça nossa dementocracia". Faceiro, o presidemente atravessou a praça dos poderes, deu-lhe um piparote na orelha esquerda, roubou-lhe a caneta e voltou ao trono, de onde liderava nação de milhões de zumbis. Era assim o cotidiano de Lisarb, e amanhã tem mais, todos sabiam.

Este estado de coisas resultara da mais sórdida invenção da elite de Lisarb: a cláusula de inimputabilidade. O líder nem conseguia pronunciar esta palavra, mas sabia gozar de seu mágico favor. Já saciados pelo pacto oligárquico, em que a mesma classe permutava privilégios, por séculos, violava o povo e perpetrava delitos sem pudor, os urubus da República tiveram a genial ideia desta figura jurídica, com que sonharam todos os tiranos desde a Grécia arcaica: o soberano ungido seria inimputável. Nenhuma acusação seria jamais aceita contra o fantoche enfaixado, nem mesmo o escandaloso crime de pedalada fiscal. Todavia, se a democracia é o regime dos cidadãos responsáveis, seu oposto é a tirania do inimputável. E para isso não há nome grego ou latino.

Soube-se que um assassino foragido depositara dinheiro, por meio de sua mãe, na conta de um delinquente preso, a mesma de onde bufunfa boa partia para o bolso do tirano inimputável, na conta laranja de sua esposa. Tudo evidente, a pegada financeira que derrubou até à Máfia americana. Mas não em Lisarb, onde isso é normal. Viu-se o soberano reverenciar a bandeira de outra nação, viu-se o povo morrer aos milhares, por negligência genocida, viram-se escândalos de insensatez, mentiras, falta de decoro e longo rol de delitos, viu-se a mata arder com sopro oficial, e a morte de mais índios e negros, e viu-se o tirano prosseguir incólume, garantido pela cláusula de inimputabilidade.

Que tal, então, todos os cidadãos tornarem-se inimputáveis? Uma lei que revoga qualquer lei, sonho selvagem do liberal. Seria este o bom futuro da nação que avança regredindo?

FRANCISCO MARSHALL


12 DE SETEMBRO DE 2020
DRAUZIO VARELLA

SEQUELAS DA COVID


Nunca vi epidemia de um vírus esquisito como esse. A variedade de quadros clínicos é enorme. Cerca de 40% dos infectados permanecem assintomáticos; outros 40% desenvolvem sintomas leves semelhantes aos das viroses respiratórias corriqueiras ou aos das gripes fortes que nos jogam na cama. Em ambos os casos, regridem espontaneamente em duas ou três semanas.

O perigo corre por conta dos outros 20%, que exigirão internação hospitalar e até ventilação mecânica em unidades de terapia intensiva. Nessas eventualidades, a fase de recuperação passa de um mês.

Começamos a aprender, no entanto, que mesmo naqueles com poucos sintomas e evolução benigna a doença pode causar complicações tardias que se arrastam por semanas. Um estudo publicado no Morbidity Mortality Weekly Report, dos Estados Unidos, mostrou que 14 a 21 dias depois do diagnóstico de COVID, 35% dos pacientes se queixavam de não ter voltado às condições de saúde de antes.

No Reino Unido, o UK COVID Symptom Study revelou que 10% relataram sintomatologia persistente por mais de três semanas. Os resultados foram publicados no British Medical Journal. Os três sintomas mais comuns nesses casos foram tosse seca, febre baixa e fadiga, que evoluíram com períodos de remissão e de reagudização, durante semanas ou meses. Fôlego curto, dores no tórax, cefaleia, dificuldades neurocognitivas, dores musculares, fraqueza, alterações gastrointestinais, lesões dermatológicas, dificuldade para controlar o diabetes, tromboses, embolias pulmonares, depressão, ansiedade e outros transtornos psiquiátricos tiveram frequência variável.

Sintoma comum na fase aguda, a sensação de fôlego curto pode durar mais de duas semanas. A recomendação é controlar a oxigenação do sangue com os oxímetros, dispositivos simples de usar, à venda em farmácias e disponíveis nas Unidades Básicas de Saúde. Colocado na ponta do dedo, o oxímetro mede a saturação de oxigênio na corrente sanguínea. Valores de 95% ou mais, são considerados adequados, abaixo desse número há necessidade de avaliação médica e suplementação de oxigênio.

Manifestações cardiopulmonares estão presentes em pelo menos 20% dos pacientes hospitalizados. As mais comuns costumam ser miocardites, pericardites, infartos do miocárdio, embolias pulmonares, insuficiência cardíaca e arritmias. São mais prevalentes quando existe doença cardiopulmonar prévia.

O vírus pode induzir um estado de hipercoagulabilidade sanguínea, causadora de tromboses, embolias pulmonares e AVCs isquêmicos. Sequelas neurológicas são mais raras. Entre elas, tonturas, fadiga, convulsões, neuropatias e a sensação descrita como "lentidão de raciocínio".

A simples possibilidade de ser infectado provoca ansiedade, depressão, estresse, solidão, isolamento social, insônia, quebra da rotina diária, estresse pós-traumático. Nas pessoas que ficaram doentes esses transtornos se tornam mais evidentes e duradouros.

Definitivamente, a covid-19 não é uma gripezinha.

DRAUZIO VARELLA


12 DE SETEMBRO DE 2020
ESPIRITUALIDADE

O DESABROCHAR DA FLOR

A maneira comum de falar e de pensar é que na primavera as flores desabrocham. Se pudermos considerar que o desabrochar da flor é a primavera, saímos do pensamento comum e adentramos a mente desperta. É uma diferença sutil e ao mesmo tempo profunda.

Setembro, no Hemisfério Sul, é geralmente o mês das flores. Aqui, no templo Tenzui Zenji de SP, há um ipê amarelo - o símbolo do Brasil.

O ipê amarelo desabrochou uma, duas três flores. Logo ficou em plenitude. Agora essas mesmas flores estão murchando. O chão se cobre por um tapete dourado.

Setembro amarelo - setembro de vida se reproduzindo incessantemente. Setembro do não suicídio.

Gente, não há nada pelo qual matar e ou morrer. Há muito pelo que viver.

Se você ainda não vê a luz no final do túnel, é porque não chegou ao meio do túnel. Talvez tenha até chegado, mas pode haver uma curva e você ainda não vê a solução, a saída dos seus temores, desamores, exclusões, desrespeitos, tristezas.

Há muita tristeza no mundo e também há muitas alegrias. Quem conhece a satisfação é feliz mesmo sem ter posses, amores, sucessos, empregos, propriedades, fartura de alimentos e bebidas, sexualidade, reconhecimentos e muita dormida.

Buda dizia que há cinco desejos que nos impedem de adentrarmos o estado de satisfação plena. Todos ligados à nossa individualidade, a um eu que quer mais e mais, que precisa ser reconhecido, amado, aprovado, incluído. A falsa noção de separatividade. Somos um só corpo e uma só vida.

Quando vamos além dos apegos e das aversões, quando nos tornamos dourados com a luz dos ensinamentos, quando abandonamos os apegos e os desejos, as aversões e as repulsas - tanto do corpo quanto da mente , quando nos reconhecemos em cada partícula e no todo, despertamos e sentimos prazer na existência.

Mesmo que não tenhamos promoções nem medalhas, brindes ou prêmios especiais, empregos ou perspectivas de trabalho futuro, podemos nos tornar uma das pétalas da flor de um ipê amarelo, que suavemente se desdobra e parece nos dizer:

Sou a primavera. Sou a luz e a sombra, o sol e a lua, o dia e a noite. Sou o resultado de milhões de anos de tradição sendo transmitida de um ipê a outro ipê. Sou a vida.

E, mesmo quando o pequeno botão se torna flor dourada, e mesmo quando murchar e cair, continuará anunciando a vida.

Não se apresse em murchar. Você murchará, com certeza. Não arranque botões e flores com ciúmes e invejas, raivas e rancores. Estes terão seu tempo de surgir e de desaparecer, mas a vida continuará.

Admire, seja, penetre esse amarelo dourado das riquezas incomensuráveis. Sorria.

A pandemia ainda está nos assolando. Mantenha distanciamento social e se puder, isolamento. Use máscara, lave bem as mãos. Proteja a si e a todos.

Lembre-se: você é a primavera. Você é o som das águas dos rios e a forma das montanhas.

Viva com plenitude. Aprecie sua vida. Aguarde a luz. Ela está sempre presente. Basta que você desenvolva a paciência e a resiliência. Desenvolva a capacidade de ver, ouvir, perceber, sentir que entre dores e perdas, ganhos e lucros, intersomos, coexistimos com todas as formas de vida e podemos encontrar satisfação na existência.

Como? Primeiro passo: respire conscientemente. Mãos em prece.

MONJA COEN


12 DE SETEMBRO DE 2020
J.J.CAMARGO

A LIBERDADE DE ESCOLHA TEM LIMITES


Todos defendem, com veemência, o direito à liberdade de cada um, e ninguém contesta porque este é o mais elementar sustentáculo da democracia. O problema é que, tendo de ser, necessariamente, equânime para ser justo, esse direito esbarra no direito do vizinho sempre que ameaçar ou constranger a outrem. Porque, afinal, exercer a cidadania em sociedade significa que todos devem exigir o respeito mútuo.

Nesse sentido, é assustador o índice de brasileiros que se declararam contra a vacina, e nem estou incluindo neste contexto a declaração ambígua do presidente ("Ninguém será obrigado a vacinar!"), porque fosse qual fosse a resposta, ele seria acusado de irresponsável ou de ditador. Era só uma questão de escolha, e ele preferiu ficar com a lei.

A bizarra experiência brasileira do início do século 20 não parece despegar da nossa sina de subdesenvolvimento crônico. As epidemias davam ao Rio de Janeiro, àquela época, a fama de cidade empesteada e mortífera, afastando os estrangeiros, receosos de contrair doenças, especialmente a febre amarela e a varíola. Por outro lado, o planejamento urbano herdado do período colonial e do império não condizia mais com a condição de capital e centro das atividades econômicas do Brasil daquele período. Ela já era linda, mas precisava de um bom banho se sonhasse vir ser maravilhosa.

No dia 9 de novembro de 1904, foi publicado no jornal A Notícia (Rio de Janeiro) um plano de saneamento da cidade, incluindo a regulamentação da aplicação da vacina obrigatória, liderado pelo Dr. Oswaldo Cruz. O projeto oferecia a opção de vacinação por médico particular, mas o atestado teria de ter firma reconhecida. Além disso, haveria multas aos refratários e se exigiria o atestado de vacinação para matrículas em escolas, acesso a empregos públicos e trabalho nas fábricas, hospedagem em hotéis e casas de cômodo, viagem, casamento e voto. 

Para demonstrar que social e politicamente permanecemos irretocavelmente iguais, também há 116 anos houve politização da mídia e ameaças de impeachment - que naquela época não usava essa nomenclatura sofisticada para definir o que era mesmo uma rasteira no governo. Nos cinco dias de revolta contra o que se planejou como a reabilitação sanitária da então capital do Brasil, habilitando-a a receber turistas e operários contratados para a modernização do porto, houve protestos e tiroteios com mortos e feridos. As residências das autoridades envolvidas foram alvejadas e a imprensa, considerada governista, sofreu depredações.

Dias depois de decretado o estado de sítio, a obrigatoriedade da vacina foi abolida e a revolta arrefeceu. A contabilidade das mortes decorrentes dessa permissividade do direito de escolha nunca foram publicadas.

Mas como outra vez é lembrado o direito individual, incluindo a patética opção pela doença e a liberdade de infectar seus contemporâneos, que pelo menos se negue atendimento pelo SUS aos que escolherem o vírus como parceria mais amistosa.

Não vejo melhor maneira de tratar tamanha irracionalidade.

J.J.CAMARGO


12 DE SETEMBRO DE 2020
DAVID COIMBRA

Uma nostalgia de Porto Alegre

Na sexta mesmo pensei no sanduíche das Lojas Americanas. Curioso isso, não sou um adepto das comidas rápidas, mas aquele sanduíche era especial. Porque era delicioso, sim, foi o melhor sanduíche que já comi na vida, mas também porque simbolizava algo maior. Direi o que é.

Naquela época, minha mãe trabalhava como professora do Estado. Graças sobretudo à valorização que lhes havia dado o Brizola, os professores não ganhavam mal. Então, no dia em que ela recebia o salário, tomava pelas mãos eu e meus irmãos e nos levava para passear na Rua da Praia.

Hoje, as pessoas não fazem ideia do que era a Rua da Praia. Era uma rua sofisticada, com prédios de arquitetura neoclássica e vitrines em que coruscavam as tentações do capitalismo mundial. O Centro todo tinha um ar europeu, era um prazer andar por aquelas ruas e apreciar o desfile dos tipos humanos da Capital.

Lá no alto, na Senhor dos Passos, morava Oswaldo Rolla, o "Foguinho", o inventor do estilo gaúcho de jogar futebol. Quando jovem, ele descia todos os dias a pequena colina da Praça Dom Feliciano para ir trabalhar na Alfaiataria Aliança, no meio da Rua da Praia. Ainda na parte de cima da rua havia o famoso cachorro-quente da Princesa, depois a Galeria Malcon, onde as gatinhas ondulavam de minissaia, em seguida a classuda Casa Masson com seu relógio quadrado e, importante!, a Livraria do Globo.

Erico Verissimo, Josué Guimarães e Dyonélio Machado podiam ser encontrados na Livraria do Globo. Lá, Mario Quintana traduziu quatro dos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust. A Livraria do Globo não era uma loja, era um templo. O certo seria você entrar de joelhos na Livraria do Globo, em sinal de reverência, seu infiel!

A Rua da Praia inteira era uma diversão, mas, quando passeava de mãos dadas com a mãe, minha grande expectativa era a visita às Lojas Americanas. Sabe o que é que tinha nas Lojas Americanas? Escada rolante! Tenho a impressão de que foi a primeira de Porto Alegre. Nós nos sentíamos muito tecnológicos, subindo na escada rolante. Sei de histórias de pessoas que vinham do Interior só para vê-la. Chegavam ao pé dos degraus e hesitavam. Algumas senhoras sentiam medo e não se aventuravam a subi-la. Outros, mais intrépidos, iam em frente com denodo. A alegria deles era visível. Você olhava e sentia vontade de sorrir com eles.

No segundo andar, quando você "desembarcava" da escada rolante, havia a lancheria. Nós nos sentávamos e sempre fazíamos o mesmo pedido: sanduíche americano com suco de laranja. Depois de alguns minutos salivando, víamos aterrissar na nossa frente pratos com o sanduíche cortado em triângulos e o suco denso, de laranjas espremidas na hora, a vitamina C saltando das bordas do copo.

Tínhamos direito àquele lanche uma única vez por mês, no dia do pagamento da mãe. Esse é um dos motivos para que uma refeição que hoje soa tão trivial ainda me pareça extraordinária. Mas não é só por isso. É por causa, também, do significado daquele dia. Era um momento de afetividade entre mim, meus irmãos e minha mãe, e também entre nós e a cidade. Aquela Porto Alegre era uma cidade de se fazer a pé. De caminhar e se deter diante de alguma novidade faiscante. De parar para conversar e ver quem passava. Uma cidade amena, de pequenos prazeres mundanos. Uma cidade que nos dava certo orgulho e que nos fazia sonhar com as coisas boas que oferecia. Uma cidade que não existe mais.

DAVID COIMBRA