sábado, 26 de setembro de 2020


26 DE SETEMBRO DE 2020
DAVID COIMBRA

A decepção de "O Dilema das Redes"

Instado por dezenas de recomendações entusiasmadas ("Tu tens que ver! Tu tens que ver!"), assisti a O Dilema das Redes.

Fiquei decepcionado com o tom conspiratório do filme. E com sua aparente ingenuidade: alguém não sabia que as redes sociais se esforçam para conquistar o maior pedaço da atenção de seus usuários? Alguém não sabia que elas vivem disso?

O que as redes sociais fazem com bom sucesso sempre foi o sonho de todos os empresários, de todos os comerciantes, de todos os políticos, de todos os pregadores: elas ganharam a fidelidade do seu público. Que empresário não gostaria de ver o seu produto transformado numa espécie de febre de consumo interplanetário? Que líder não gostaria de guiar manadas de povo como se fossem rebanho?

No meio do filme, há uma cena teatralizada: uma mãe chega à conclusão de que o uso dos celulares está prejudicando a convivência da família e toma uma medida drástica. Durante as refeições, ela tranca os celulares de todos em um pote de vidro que tem uma tampa controlada por cronômetro: a tampa só se abre depois que é transcorrido determinado tempo. Já no começo do jantar, uma das filhas se impacienta com a restrição, apanha um martelo e quebra o vidro do pote para retomar o celular. Com ele nas mãos, marcha para o quarto, em silêncio.

É evidente que o filme pretende demonstrar, com isso, o nível de dependência da menina. Na verdade, mostrou o nível de educação que seus pais lhe dão. Meu filho estava assistindo ao filme comigo e, ao ver a cena, virou-se para mim, riu e perguntou:

"O que tu farias, se eu fizesse isso, hein, papai?".

Sorri de volta e nem precisei responder. Era uma pergunta retórica. Ele sabe o que eu faria.Aí é que está: o fato de as pessoas se viciarem nas redes sociais demonstra menos a força das redes sociais e mais a fraqueza das pessoas. O homem gosta de ser manipulado, gosta de ser mandado, gosta de ter um guia. Isso lhe dá uma agradável sensação de pertencimento. Ele é membro de uma comunidade, ele tem em quem se apoiar.

Pensar por si mesmo, tirar suas próprias conclusões, analisar os fatos de forma isenta, sem dogmas e sem crenças, é algo muito, muito solitário.

"Livre pensar é só pensar", brincava Millôr Fernandes, fazendo um jogo de palavras com a figura do livre-pensador. Exatamente: o livre-pensador pensa, os outros seguem os instintos de rebanho do animal humano. Mas, precisamente por ser livre, o livre-pensador é só. O pressuposto da liberdade é a solidão. Quanto maior liberdade o homem tem, mais sozinho ele está. Por isso, as pessoas se deixam conduzir. Por isso, elas querem ser cativas. Por isso, elas querem seguir um líder, uma ideologia, um partido, uma fé, uma causa. Por isso elas se deixam viciar e hipnotizar.

Fora das redes sociais, há livre pensar. Há liberdade. Mas também há solidão.

DAVID COIMBRA


26 DE SETEMBRO DE 2020
FLÁVIO TAVARES

O MENDAZ

O mendaz não tem limites pois é alguém incomum. Às vezes, é tão inventivo que chega a cativar, pois vê coisas e situações que não existem, como se feiticeiro fosse.

Na pobreza atual do nosso idioma, talvez não se saiba que "mendaz" é soma de mentiroso e megalômano que inventa realidades e ignora o verdadeiro. Existem mentirosos a granel, cuja mentira até diverte.

Mas há ambientes em que a mentira agride. Um presidente da República, por exemplo, não pode ser mendaz ao falar ao mundo na Assembleia Geral da ONU nem inventar situações para tentar "justificar" o injustificável, como fez Jair Bolsonaro, dias atrás.

A mendacidade atingiu o absurdo. O presidente disse que a imprensa politizou a tragédia do novo coronavírus e, numa tolice infantil, defendeu perante o mundo usar cloroquina contra a pandemia. Culpou "os caboclos e os índios" pelos incêndios que devastam a Amazônia e o Pantanal, e foi adiante no absurdo. Seu governo - disse ele - é vítima de uma "campanha de perseguição" que busca desprestigiar a imagem do Brasil com inverdades sobre as queimadas.

Ao fantasioso, só importa a "imagem". A realidade não conta. Se o presidente dissesse a verdade, confessaria o desastre que seu governo propicia ao meio ambiente. Mas isto é algo fora do estilo (ou manias) de quem fantasia um mundo fora do mundo. A ONU busca o entendimento e, assim, exige a verdade em busca da paz. Do contrário, seria fazer dela uma reunião de inimigos, pois só se engana ao inimigo em guerra.

Quando não nega a realidade, o mendaz se faz de esquecido. Nosso presidente diz, sempre, que no Brasil não houve ditadura e que a ditadura implantada em 1964 não perseguiu nem torturou ninguém.

Agora, porém, em São Paulo, a Volkswagen concordou em indenizar mais de uma centena de trabalhadores da empresa perseguidos, presos ou torturados durante a ditadura. No total, a VW pagará ao Ministério Público Federal e Estadual R$ 36,3 milhões, dos quais R$ 2 milhões serão destinados a investigar outras empresas (entre elas a Folha de S.Paulo) que apoiaram a repressão, e outros R$ 2,5 milhões para identificar as ossadas de presos políticos mortos na tortura e sepultados em valas comuns no cemitério paulista de Perus, como "indigentes".

Outros R$ 16,8 milhões indenizarão os trabalhadores demitidos e presos como "subversivos".

A decisão é histórica. Na cúpula da matriz alemã da Volkswagen, o diretor jurídico Hiltrud Werner lembrou que pela primeira vez a empresa "reconhece violações de direitos fora do nazismo, num capítulo negativo da história do Brasil".

Já não há espaço para a fantasia.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES


26 DE SETEMBRO DE 2020
ARTIGOS

SUICÍDIO E ESPIRITUALIDADE

Para uma aproximação séria e competente às questões acerca da conduta contemporânea autodestrutiva, concentradas no fenômeno do suicídio, faz-se necessário um amplo enfoque interdisciplinar, sem o qual toda análise ou discurso sobre o problema se revelará deficitário e ingênuo. Nessa abordagem ampla, há um lugar de destaque para a fé e a espiritualidade. A espiritualidade é um eficaz recurso no processo de ressignificação de uma vida que perdeu o sentido e tende ao risco suicida.

O ser humano é um ser aberto ao infinito; deseja sempre ir além, sente radical necessidade de transcender este mundo que passa. Esse "senso espiritual" pode ser um dos principais motivos que possibilitam à pessoa superar situações determinantes de crise, sofrimento, angústia, depressão e desespero.

Para prevenir, é preciso "cuidar". No caso específico do comportamento suicida, é necessário cuidar da dor, isto é, recompor uma visão integral da pessoa, que a prepare para enfrentar e administrar situações inevitáveis de sofrimento.

A espiritualidade não pode negar a dor, a perda e a frustração. Mas pode ajudar a revisar os conceitos impostos pela sociedade sobre essas condições, que são inerentes à vida humana. Para isso, é necessário libertar-se do mito da atual sociedade, quando apregoa que só vale a pena viver se há garantias de ter, poder e aparecer. Nega-se toda dor e espera-se o máximo de um prazer duradouro. As provações da vida, contudo, possibilitam a purificação de ilusões sobre a existência. Elas podem mostrar o que realmente tem valor na vida; de forma extremamente eficaz, elas ajudam a discernir o que é secundário e o que é essencial.

Somente a esperança no futuro pode devolver o sentido perdido, talvez, num presente de extremo sofrimento. A fé abre as portas do tempo presente ao futuro, à vida que há de vir. Na vida, tudo passa, até mesmo a dor e o desespero. Também a presunção e a frustração têm vida curta. Enquanto se tem vida, há esperança!

LEOMAR BRUSTOLIN

26 DE SETEMBRO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

EQUILÍBRIO E FOCO NO ELEITOR

 A exemplo do que faz a cada ano eleitoral, o Grupo RBS torna públicas suas orientações e normas editoriais, visando apresentar de forma transparente para eleitores, candidatos e partidos os conceitos que norteiam a cobertura de veículos e profissionais. A intenção do conjunto de ações não é o engessamento de opiniões ou de abordagens - ao contrário, a RBS defende e pratica a pluralidade. O objetivo do ideário é explicar ao público uma série de conceitos específicos para as eleições, que se somam às normas já consubstanciadas no Guia de Ética e Autorregulação Jornalística a que os profissionais da RBS aderem quando se juntam à empresa.

Como em todas as eleições, o Grupo RBS reafirma que não tem candidatos ou preferências partidárias. Mais do que apresentar uma mera disputa entre nomes e siglas, o foco principal da cobertura eleitoral é, com independência, equilíbrio e apartidarismo, colaborar para que o eleitor faça suas escolhas da melhor forma possível, fortalecendo a cidadania, a democracia e o desenvolvimento das comunidades.

Alinhado ao propósito da RBS de fazer jornalismo e entretenimento que conectem os gaúchos e contribuam para uma vida melhor, a cobertura dá prioridade ao chamado jornalismo de soluções. Por meio dessa abordagem, levantam-se problemas e desafios, mas também apresentam-se possíveis caminhos para equacioná-los e as possibilidades reais de serem colocados em prática, além de se discutirem os resultados esperados. Outro eixo de cobertura são a apresentação de biografias de candidatos e as comparações de propostas e programas pela perspectiva do eleitor. Desta forma, os veículos da RBS buscam atender à expectativa do público ao procurar saber de candidatos não apenas o que pretendem fazer, se eleitos, mas sobretudo como planejam transformar seus planos em realidade. Confrontar promessas com sua exequibilidade é parte da tarefa jornalística responsável que move os veículos da RBS.

Especialmente em razão dos grandes impactos produzidos pela pandemia de covid-19, a cobertura se concentra em apresentar perspectivas para o futuro e em discutir temas da chamada vida real, ou seja, questões prementes e concretas como saúde, educação, segurança, economia, emprego e renda, relegando ao plano secundário ataques, ameaças, ofensas e acusações entre candidatos, que em nada contribuem para o esclarecimento do eleitor.

Com essa linha em mente, os veículos adotam também os seguintes conceitos e normas durante o período eleitoral:

- As redes sociais fazem parte do processo eleitoral e devem ser compreendidas como um espaço público de debate, sobretudo em uma campanha como a deste ano, quando há uma série de restrições para atividades políticas de forma presencial. As redes são também importantes ferramentas de trabalho para o jornalismo, por ampliar o alcance da mensagem jornalística, pela identificação de tendências e pelas janelas de interação com o público.

- Apesar dessas características positivas, parte considerável dos conteú- dos das redes pode ser classificada como ativismo a serviço de causas e interesses partidários, obrigando a cautelas adicionais no seu tratamento. As redes e grupos de mensagens são territórios propícios à disseminação de desinformações e agressões que não raro distorcem o processo democrático de escolha pelo voto. Cabe ao jornalismo promover a devida apuração sobre conteúdos que circulam em redes. Para isso, os veículos do Grupo RBS recorrem a fontes, estatísticas e informações de alta confiabilidade, e promovem repetidas verificações, para que delas eventualmente se extraiam matérias jornalísticas de interesse coletivo e público.

- Em um cenário eleitoral permeado pela difusão proposital de desinformações e de extratos de falas retiradas de contexto, cabe ao jornalismo profissional, com técnica, independência e equilíbrio, unir esforços para estabelecer a verdade dos fatos e colaborar para que a informação correta prevaleça no processo de escolha pelo eleitor.

- A fim de ressaltar sua isenção, a RBS não promove pesquisas eleitorais próprias e divulga apenas aquelas devidamente registradas na Justiça Eleitoral e realizadas por institutos com reconhecida tradição e credibilidade. As pesquisas são parte natural do ecossistema eleitoral por retratarem um momento da campanha, mas a RBS as considera um elemento acessório da cobertura, uma vez que o foco é nos programas e biografias de candidatos, com a respectiva verificação das soluções propostas. Da mesma forma, a RBS não divulga enquetes e sondagens nem pesquisas com conotação eleitoral contratadas por partidos, candidatos ou governos, por virem à tona com objetivos políticos predefinidos.

- A cobertura dos veículos da RBS se guia pelo interesse jornalístico, conforme a evolução das candidaturas e o desenrolar da campanha. As candidaturas de baixa representatividade, respeitada naturalmente a legislação eleitoral específica, têm, portanto, cobertura de acordo com sua dimensão.

- A RBS considera incompatível a atividade de profissional da comunicação com a política partidária. Assim, devem se afastar de suas atividades os profissionais que porventura aceitem convites para disputar um cargo político ou que participem da propaganda eleitoral.

Com estes conceitos e sua cobertura, a RBS espera, mais uma vez, poder contribuir para que as eleições representem não só um momento marcante e positivo da democracia mas que, ao fim do processo, a sociedade possa também identificar e superar seus desafios.


26 DE SETEMBRO DE 2020
ACERTO DE CONTAS

Nova fábrica, novo e-commerce 

Aos 60 anos, o Grupo Herval deu início à construção de uma nova fábrica em Dois Irmãos, no Vale do Sinos. A ideia é usar a estrutura já na metade de 2021. Ela ficará junto à sede atual, que seguirá em operação. Com cerca de 7 mil funcionários, a empresa contratou 417 pessoas de maio até agora.

- Se todo mundo voltar agora do home office, não tem cadeira para todos - brinca o presidente do grupo, Agnelo Seger, contando que também será ampliado o espaço destinado ao administrativo.

O grupo trabalha com 20 marcas em 14 empresas que incluem indústria, comércio e serviços, como consórcios, seguros e construção. Entre elas, estão taQi e iPlace. O aporte financeiro é de R$ 75 milhões, destinado à operação industrial do grupo e de olho em boas perspectivas para a exportação. Segundo Seger, aumentou a demanda pelos mais diversos produtos, mas a Herval também enfrenta falta de matéria-prima e teve que suspender as vendas da indústria ainda em agosto.

- Há carência no mundo inteiro. Falamos com fornecedores na Alemanha, Espanha, México. Houve um represamento de consumo. O ajuste ocorrerá ao longo de 2021 - diz o executivo.

E para quando a engrenagem da oferta e demanda se ajeitar, Seger projeta o lançamento de uma nova plataforma de e-commerce, que foi um diferencial na pandemia para manter a venda do braço de varejo do grupo. Ele avalia que parte do consumo continuará online.

Paranaenses na hotelaria gaúcha 

A Slaviero Hotéis passará a administrar, a partir de 1º de outubro, dois empreendimentos em Bento Gonçalves, na serra gaúcha. Um deles é o Slim Bento Gonçalves, que tem cem apartamentos e fica no km 219 da BR-470, na entrada do Vale dos Vinhedos. Voltado para turistas de negócios e lazer, terá diária média de R$ 180. O outro será uma pousada dentro de um vinhedo que passará a se chamar Fornasier by Slaviero Hotéis. A hospedagem fica próxima do Caminhos de Pedra e do Parque da Ovelha.

Serão os primeiros empreendimentos que a rede opera no Rio Grande do Sul. Com 39 anos de mercado, a Slaviero inaugurou o seu primeiro hotel em 1981, em Curitiba, no Paraná. Hoje, tem 30 unidades em operação e oito novas aberturas previstas.

GIANE GUERRA

26 DE SETEMBRO DE 2020
CARTA DA EDITORA

Força-tarefa da Redação 

Jornalistas costumam atuar em áreas especializadas (que chamamos de editorias). Um repórter esportivo tem mais propriedade para falar de futebol porque lida diariamente com o assunto, cria fontes que o subsidiam na construção de uma reportagem, acompanha partidas e competições com olhar de repórter e não de torcedor. Temos profissionais especializados em segurança pública, política, economia, cultura, comportamento, tecnologia. É dessa forma que conseguimos trazer conteúdos diferenciados e dar informações com exclusividade. Mas há momentos em que essas fronteiras internas de uma redação são derrubadas porque um grande fato ou evento jornalístico se sobrepõe aos demais, exigindo a montagem de uma força-tarefa.

Foi o que fizemos neste ano, com a chegada do coronavírus, que levou o país ao fechamento de escolas e comércio, a alterar a rotina de hospitais, a cancelar jogos e shows, a bloquear parques, a obrigar as pessoas a se manterem distantes do convívio social. Por mais de quatro meses tudo girou em torno das questões sanitárias e dos impactos econômicos. Montamos um time capaz de atuar em todas as frentes desta pandemia. Jornalistas costumam ser versáteis porque sabem que a qualquer momento serão requisitados para algo diferente, inesperado. Uma redação vive sempre de prontidão.

Apesar do ano atípico, teremos eleições para prefeitos e vereadores. Tradicionalmente a Redação Integrada de ZH, GZH, Rádio Gaúcha e Diário Gaúcho monta forças-tarefa robustas para acompanhar o desenrolar da campanha. Para 2020, preparamos uma série de produtos e conteúdos especiais que o assinante pode conferir nas páginas 8 a 10.

A largada dessa mobilização será nesta segunda-feira, com o debate na Rádio Gaúcha entre os candidatos a prefeito de Porto Alegre. E de um jeito inovador: em formato drive-in. Tudo preparado ao longo de mais de dois meses. E, mais uma vez, derrubamos as fronteiras da Redação Integrada para unir esforços dos nossos melhores profissionais.

DIONE KUHN

26 DE SETEMBRO DE 2020
J.R. GUZZO

Judas de sábado de aleluia 

jrguzzo43@gmail.com

O Brasil não tem nenhum problema de verdade com a Amazônia, o Pantanal e o restante das regiões de vegetação nativa que cobrem uma extensão tão grande do território nacional. É o exato contrário. Os agricultores brasileiros podem dar lições ao resto do mundo em matéria de preservação do ambiente em que trabalham e produzem.

O Exército Brasileiro é um exemplo de competência, eficácia e empenho na defesa da floresta amazônica - sem ele, a região já teria virado há muito tempo um amontoado de enclaves tão sem lei como as favelas do Rio de Janeiro - entregues ao tráfico de drogas, à mineração clandestina, ao corte ilegal de madeira e outras desgraças. Todo cidadão que já saiu um dia do seu asfalto natal sabe que as leis brasileiras estão entre as mais rigorosas do mundo no controle das alterações que afetam a natureza.

O que o Brasil tem - mas, aí, tem que não acaba mais - é um problema na sua imagem internacional em matéria de ecologia. O nome deste problema é Jair Bolsonaro.

O problema não é que o presidente viva tocando fogo na Amazônia ou no Pantanal, caçando onça ou garimpando diamante - nunca fez nada disso, nem deixa fazer, mas é Bolsonaro, e sendo quem é, sempre servirá de judas de sábado de aleluia para a militância ambientalista do mundo inteiro. Pode passar o resto da vida plantando uma árvore por dia; não vai adiantar nada.

As ONGs, os partidos verdes, as universidades de país rico, a mídia internacional etc., etc., querem usar Bolsonaro como uma bandeira para as suas causas, ou para defesa dos seus interesses. Não vão mudar de ideia só por estarem dizendo uma mentira. Na verdade, acharam no presidente do Brasil uma figura ideal, que junta a sua fome com a sua vontade de comer.

Querem guerrear contra Bolsonaro porque ele é de direita - e aí clamam pelo santo nome das florestas para turbinar a sua ação política. Querem manter viva a pregação ecológica, com boas ou más intenções - e aí se servem da imagem direitista do presidente para construir uma espécie de Coringa pró-destruição do planeta. Sempre é uma mão na roda ter um satanás para promover o evangelho.

Não há milagre capaz de resolver esse tipo de situação. Mas sempre existe o recurso de combater a mentira com a divulgação sistemática da verdade. Basta, para isso, agir com inteligência, profissionalismo e perseverança - além de trabalho duro, é claro. Não vai convencer quem não quer ser convencido. Mas com certeza ajudará a mostrar a realidade para milhões de pessoas, em todo o mundo, que estão dispostas a ouvir a razão.

O problema é que não passa pela cabeça do governo brasileiro fazer nada remotamente parecido com esse esforço. A atitude oficial é sair para a briga de rua, xingar a mãe e gritar pátria amada Brasil. Resumo da ópera: vai continuar como está, com viés de piora.

J.R. GUZZO

sábado, 19 de setembro de 2020


 

19 DE SETEMBRO DE 2020

LYA LUFT

Podemos escolher

Quando os assuntos espiam nos cantos da casa e do mundo e não sabemos o que escolher. Os otimistas tão raros hoje em dia? Os pessimistas maioria, ou os pavorosos? Lembrei de um filme de Woody Allen em que ele definia os humanos em duas turmas: "Os horríveis e os miseráveis".

Por muito tempo achei graça sempre que lembrava da frase. Mas houve fases em que a comicidade me pareceu menor, até grosseira. E hoje? Onde estamos, a que ponto chegamos no meio de uma pandemia que destrói pessoas, famílias, economias, enquanto muitos ainda dão risada e sacodem a cabeça como se nós, os preocupados, fôssemos uma tropa de imbecis, coitados, apavorados, que acreditam na imprensa a serviço do sistema, seja lá o que isso significa.

Não estou entre os apavorados, mas confesso que esse vírus, que há meses me prende em casa, me deixa pensativa e um pouco melancólica. A doença se politizou em muitos lugares do mundo, ou em todos, e a dor serve para jogos e manipulações. Mas eu quero mudar de assunto, virar a chave, abrir outra porta: a que dá para o nevoeiro de uma manhã, por exemplo, que mergulha o mundo numa nuvem maravilhosa da qual, aqui e ali, espia a ponta escura de uma árvore.

Ou admirar alunos e professores, que com difícil disciplina dão aulas, estudam, trabalham, no conforto de casa sim, mas com todas as limitações da ausência física. Sem esquecer de todos aqueles incontáveis, que mal têm água para lavar as mãos, quanto mais internet para aulas online.

Também posso pensar em todo o tesouro de afetos que tantas décadas de vida acumularam na minha alma; nas curiosidades e belezas que vi e vivi nas viagens longas ou num cantinho do jardim onde um carrinho de mão muito velho se enfeita de mil cores dos vasos floridos que a gente inventou de botar ali.

Mas também posso abafar por momentos as notícias tristes ou trágicas ligando para alguma amiga querida, ou conversando com a família no Whats, ou curtindo um livro que me apaixona, ou simplesmente ficando quieta, olhos fechados, ouvindo uma música que me encanta, ou em silêncio sentindo a tranquila, profunda respiração da vida - que é enigma e não cessa de produzir beleza, apesar dos desastres humanos.

LYA LUFT

19 DE SETEMBRO DE 2020

MARTHA MEDEIROS

Vai, amor 

É difícil, mas essa hora sempre chega: a de abandonar, deixar partir. Quando começa, confiamos que tudo será cristalino e empolgante. Fazemos o nosso melhor e acreditamos que nada, nenhum outro irá superá-lo. As ideias deslizam, o olhar brilha, mal controlamos o sorriso no rosto: está dando certo. Está funcionando. Você não sabe direito aonde irá chegar, mas já sente o imenso prazer em debulhar suas emoções sem pudor, dividir suas reflexões, abusar da argúcia, do humor, e se congratula: está correndo melhor do que o esperado.

Aí acontece.

De uma hora para outra, a magia embesta de falhar. Acho que foi quando você se levantou para buscar um copo d´água na cozinha. Ou talvez você não devesse ter tido o ímpeto de interromper o que está fazendo para descer até a garagem, só porque havia esquecido a máscara no console do carro. Você volta para o apartamento e ele não parece mais o mesmo. Como é que uma impressão muda tão rápido? Você não deveria ter se mexido, saído do lugar, mas ninguém pode ficar refém de uma atenção plena. Telefones tocam, uma amiga chama, alguém distrai você com outro assunto, e quando você tenta retomar de onde estava, ele já não se parece com o jeito que era.

A noite cai e você vai dormir, descansar. É provável que tenha sido apenas um pressentimento que sumirá ao amanhecer.

Mas o dia amanhece, e a realidade se sobrepõe às ilusões. Nada se mantém com o frescor do início, você já deveria saber. É mais uma relação que, como todas, dará trabalho. Você usará uma palavra que não caiu bem e terá que voltar atrás. Você insistirá, teimosa, numa ideia que não será bem compreendida. Você se sentirá desestimulada e cogitará não levar a história adiante, pensa em começar algo totalmente diferente, mas depois repensa: já chegou até aqui, investiu tanto tempo, vai dar tudo certo no final. E insiste mais um pouco.

Você gostaria que fosse perfeito, mas a perfeição é uma medida só almejada pelos tolos, você sabe perfeitamente disso, você, inclusive, declara isso aos sete ventos, por que então essa insistência em tentar corrigir até os detalhes insignificantes? Ele se tornou quem é, por mais que você ainda tente mudá-lo. E ele precisa ir ao encontro de outros olhos, você não pode mais retê-lo. Acabou. Aceite. Deixe-o partir.

É mais ou menos assim, caro leitor, que me relaciono com cada texto que escrevo. Chega a hora em que é preciso abandoná-lo, ou perderei o prazo de entrega para o jornal. Não é fácil, sempre fica no ar a sensação de que eu poderia ter me esforçado mais. E só no fim de semana seguinte, quando o reencontro alheio a mim, em meio a outros, é que descubro onde foi que eu errei.

MARTHA MEDEIROS

19 DE SETEMBRO DE 2020

CLAUDIA TAJES

O prazer saiu da fogueira 

"O prazer vem diretamente de Deus, não é católico, nem cristão, nem nada ligado a isso, é simplesmente divino." Pode parecer que o autor da frase é Caetano Veloso, que sempre pensou a favor da liberdade.

Ou, quem sabe, de algum filósofo progressista - para não dizer esquerdista e correr o risco de um cancelamento. Ou, ainda, um ator desbundado (palavra bem anos 1970), uma atriz feminista ou, simplesmente, um/uma artista. Nos dias que correm, se há atividade enxovalhada, desrespeitada e desconsiderada, é a arte.

Se você escolheu uma das alternativas acima, a resposta está er-ra-da. Quem acaba de dizer que o prazer sexual vem de Deus, e mais, que os cristãos devem aproveitá-lo, é o Papa Francisco.

Caiu o queixo? Pois foi o Santo Homem em pessoa quem falou.

Em um livro de entrevistas que saiu agora mesmo na Itália, o Papa que gosta de futebol - argentino, por supuesto - surpreendeu a turma conservadora nos costumes com uma ideia que passa longe dos conceitos da Inquisição. Alguns bem caros, ainda hoje, para a turma conservadora nos costumes. Além de tirar o prazer sexual da fogueira, o Papa também liberou a boa mesa da culpa. Pena que justo no momento em que ficou mais difícil sustentar uma mesa farta, com a especulação e o preço dos alimentos. Ir ao supermercado virou uma experiência de terror.

"O prazer de comer serve para manter uma boa saúde, da mesma forma que o prazer sexual serve para embelezar o amor e garantir a continuidade da espécie." Francisco, que não é o Buarque de Holanda, concluiu: "O prazer de comer e o prazer sexual vêm de Deus".

Claro que a ala medieval não curtiu as declarações do Papa, assim como não tem gostado de outras atitudes dele. Por exemplo, o fim do segredo pontifício sobre crimes de pedofilia dentro da Igreja. Ou a publicação de um manual para os eclesiásticos com diretrizes sobre o procedimento a seguir "na delicada tarefa de levar adiante corretamente os casos de abuso sexual contra menores que impliquem religiosos quando são acusados". Essa é uma ferida que a Igreja não pode mais ignorar.

Enquanto isso, no Brasil, autoridades como a ministra Damares e suas ideias carolas e retrógradas ganham cartilhas. O ministro da Educação, um pastor que já defendeu castigos físicos para as crianças, vai a um evento de prevenção ao suicídio pregar que os jovens se matam porque, sem religião e sem propósitos, viram zumbis existenciais. E o próprio presidente, não que surpreenda, não deixa passar a oportunidade de repetir que família é marido, esposa e filhinhos. Fraquejadas são admitidas, mas só eventualmente.

Voltando ao Papa, que é mais interessante. Ele já defendeu, por exemplo, que a comunidade LGBT seja respeitada e acolhida na igreja. Já chamou o capitalismo de "ditadura sutil" e pediu atenção para o aquecimento global. Sobre a pandemia, insiste que pessoas são mais importantes que a economia. É um líder espiritual humano, enfim, mesmo que isso pareça uma contradição em termos. O que não deixa de ser incomum em época de moralistas de fachada.

As novas declarações do Papa estão em um livro que reúne uma série de entrevistas feitas pelo jornalista Carlo Petrini. Na obra, Francisco critica a rejeição à noção de prazer que a Igreja vem difundido ao longo dos séculos, "uma interpretação errada da mensagem cristã" que "causou enormes danos, ainda perceptíveis em alguns casos". "A Igreja condenou os prazeres desumanos, grosseiros, vulgares, mas, por outro lado, sempre aceitou os prazeres humanos, sóbrios, morais", na interpretação dele.

O livro, que se chama TerraFutura: Conversas com o Papa Francisco Sobre Ecologia Integral, não tem previsão de lançamento no Brasil. Ecologia integral. O que Francisco deve pensar quando vê a Amazônia e o Pantanal em chamas?

Deus - mas o Deus do Papa, esse que é tolerante e justo - defenda a nossa natureza. Porque o homem, esse está passando a boiada. E com muito prazer.

CLAUDIA TAJES

 

19 DE SETEMBRO DE 2020

LEANDRO KARNAL

DUAS LIVRARIAS E UMA CIDADE

A cidade era famosa pela população ordeira e leitora. Na rua principal, duas livrarias alimentavam a avidez do povo de Santa Cruz com ideias impressas. Eram separadas por poucos metros e, talvez, por milhares de quilômetros. Explico-me.

A livraria Cruzador Aurora sempre apostou no discurso engajado Colocou cartaz dizendo que ali não se admitia racismo ou misoginia! A trilha sonora interna tocava Violeta Parra. A cada semana, a vitrina anunciava uma promoção: "Compre seus autores aqui, 10% do lucro será dirigido para quilombolas". Alunos de humanas e algumas ovelhas desgarradas das engenharias compravam e davam preferência por levar os livros em sacolas feitas por comunidades com materiais orgânicos. Todos os clientes recebiam a atenção especial de um grupo simpático de vendedoras, vendedores e "vendedorxs". Uma severa política de cotas no RH privilegiava mulheres negras nas contratações. Transgêneros e imigrantes também encontravam abrigo trabalhista. O espaço tradicional era quase um soviet harmônico, uma república feliz no coração de uma Woodstock que nunca se encerrava.

A outra, oposta, era a livraria Ordem e Progresso. Livros bem encadernados, obras completas de Plínio Salgado, grandes romances clássicos, best-sellers de denúncias contra ONGs e contra a esquerda. Na entrada, em destaque, o cliente era apresentado ao Livro Negro do Comunismo, um libelo contra regimes vermelhos. Metros adiante, na rival, exibia-se, com o mesmo destaque, O Livro Negro do Capitalismo.

Desejava adquirir algo sobre Von Mises e suas ideias econômicas? Sempre havia boas ofertas na Ordem e Progresso. Faltava-lhe algum volume de Marx ou Foucault? A rival era seu destino. As Veias Abertas da América Latina? Encabeçava a lista dos mais vendidos na rubra. Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano era avidamente consumido pela outra.

As duas ilhas conviviam quase sempre de forma tranquila. Tinham seu público. Uma não roubava clientes da outra. Viviam em dois planetas distintos, cada qual com seu sol, como o de Krypton era vermelho e o da Terra sempre seria amarelo.

A partir de 2013, a tensão entre as lojas aumentou. Por um gesto extraordinário de marketing, a Aurora (como era conhecida pelos fãs) conseguiu uma palestra de Judith Butler. Foi a declaração de guerra. Cartazes, acusações recíprocas, fake news, manifestações: os grupos elevaram o tom quase às vias de fato. A vingança veio um mês depois: a Ordem e Progresso (não tinha apelido porque seus leitores detestavam informalidades) convidou Roger Scruton, um ano antes do falecimento do britânico. A cenografia antípoda se repetiu. "Vai para Cuba, comunista safado" era jogado ao sol de outono. "Fascista lambedor de coturno", vociferava o grupo oposto.

A pequena cidade de Santa Cruz oscilava entre os dois núcleos comerciais. Famílias inteiras eram devastadas porque se descobria que uma parte comprava no reduto "conservador" e outra na "vanguarda dos povos". Natais foram estragados. Grupos de WhatsApp eram feitos a partir da opção de compra. Quase toda família tinha um só com os parentes que frequentavam uma livraria e outro com os leitores que estavam na outra. Não se permitiam trânsfugas. Quem decidisse ler outra coisa ou dizer que amava Machado de Assis apenas, sem ideologias políticas, sem panfletos, era apupado como "isentão"!

A cizânia era tão venenosa, que o juiz local decidiu convidar os donos dos estabelecimentos para uma conversa franca. Não era possível transformar a rua principal de Santa Cruz em uma fronteira armada da Guerra Fria. "Basta", bradou dr. Sanderson Turlan. Aproveitou-se de uma queixa formal, decidiu assumir um papel moderador. Pediu a presença do delegado como testemunha para o choque de duas placas tectônicas bibliográficas.

No dia do encontro, com pontualidade de fazer corar um calvinista de Zurique, entrou um simpático senhor de meia-idade. A roupa e os modos anunciavam dinheiro sólido. "Sou o proprietário", anunciou com voz de barítono. "De qual delas?", perguntou o juiz sob olhar atento do delegado. "De ambas", ele respondeu com serenidade. Houve prolongado silêncio na sala de móveis austeros. "Como assim?", disseram, quase ao mesmo tempo, os dois. Estavam atônitos! O desconhecido arrumou os óculos e narrou que o mercado estava polarizado. Apostar em um segmento era invalidar o outro.

Assim, com promoções aparentemente rivais, ele conseguia atender as duas torcidas e manter um excelente capital de giro. Havia momentos (como no governo Lula) em que uma livraria "bombava". Em outros, como nos anos Bolsonaro, fortalecia-se o plantel da outra. "Nunca sabemos quem estará no poder, assim, decidimos apostar nos dois setores." "Qual seu nome, meu senhor?", perguntou o delegado. Sou Joseph Itadesco, disse o homem pigarreando em um lenço de tons alaranjados e com borda vermelha.

Nunca tivera partido, afirmava. Era a favor do país.

A audiência informal foi encerrada. Não havia crime em ter duas lojas e os impostos estavam em dia. O zeloso empreendedor agradeceu e se retirou. Já na porta, voltou-se e anunciou uma terceira livraria: a Rosa Cálida. Ela venderia apenas livros de autoajuda e romances espíritas e declararia, desde a porta, sua absoluta neutralidade política. Por que brigar se você pode optar agora por três projetos distintos? Esperança tem CNPJ?

LEANDRO KARNAL

 

19 DE SETEMBRO DE 2020

COM A PALAVRA - Marco Nanini - Ator, 72 anos

Lineu tinha a integridade que está faltando no Brasil

Eternizado como o Lineu do seriado "A Grande Família", vai receber o Troféu Oscarito no Festival de Cinema de Gramado, que começou nesta sexta-feira e vai até o dia 26

De 2001 a 2014, Marco Nanini foi o paizão (ou o "popozão") Lineu de A Grande Família. Era um personagem sério e centrado, mas de coração enorme. Em 2019, chegou aos cinemas Greta, dirigido por Armando Praça e estrelado por Nanini. Em uma atuação visceral e com cenas delicadas de sexo, o ator foi bastante elogiado por esse drama sobre um enfermeiro gay e solitário. Até o início de setembro, Nanini estava no ar em Vale a Pena Ver de Novo pela novela Êta Mundo Bom! (2016), no duplo papel de Pancrácio e Pandolfo.

Agora, aos 72 anos, vai receber o Troféu Oscarito no Festival de Cinema de Gramado. A homenagem é entregue a grandes nomes do cinema nacional. Seja em filmes, na televisão ou no teatro, Nanini tem uma carreira exitosa, com mais de 50 anos. Em entrevista a ZH, ele falou sobre seu trabalho, sobre A Grande Família, sobre a pandemia e sobre o estado das coisas no país.

Você vai receber o Troféu Oscarito no Festival de Cinema de Gramado. O que significa para você esse reconhecimento?

É muito interessante. Esse troféu vem de um festival muitíssimo importante, que nos dá muita visibilidade. Já fui algumas vezes ao festival, fiquei meio à parte, apenas observando como era. Agora estou me sentindo bastante honrado e homenageado com esse troféu.

Até recentemente, Êta Mundo Bom! estava no ar pelo Vale a Pena Ver de Novo. Na novela, você se destacou vivendo Pancrácio. Como foi fazer um personagem tão querido, com tantos recursos e disfarces?

O personagem me foi oferecido pelo Walcyr Carrasco logo após o término de A Grande Família. Eu li a sinopse e gostei do papel. Só pedi algumas coisas técnicas para poder desenvolver o personagem. Cada disfarce do Pancrácio era gravado num dia inteiro. Só ele. Senão, tinha que ficar mudando de maquiagem. Comecei a interpretá-lo e logo caiu no gosto do público. Era uma figura muito do bem. Ainda tinha aquela magia da teatralidade dos personagens que ele encarnava para poder pedir dinheiro. Êta Mundo Bom! tinha um elenco muito interessante. A começar pelo Sérgio Guizé (Candinho), que é um ator extraordinário. O mesmo vale para a Eliane Giardini (Anastácia), que é fantástica. Tinha muita gente lá me apoiando. Era uma relacionamento excelente. Foi tudo muito bom, graças a Deus.

Você já comentou em mais de uma oportunidade que a rotina de gravação era puxada para interpretar o Pancrácio, que ainda teria o acréscimo do irmão gêmeo Pandolfo.

Depois que entrou o irmão gêmeo, eu tinha que fazer os dois ao mesmo tempo. Não era sempre, mas às vezes os dois se encontravam. Daí tinha de interpretar os dois personagens no mesmo dia, pois dependia de um efeito especial. De qualquer maneira, todo o trabalho foi muito divertido. Era uma novela muito leve. Eram personagens muito gostosos de fazer. Terminou tudo feliz.

No final de 2019, Greta chegou aos cinemas. você se entregou ao personagem em uma interpretação bastante elogiada. Como foi se conectar com esse texto?

Eu gosto muito de conviver com a equipe que vai fazer o papel comigo. A atuação é uma arte de conjunto. Você não vive sozinho em cena. Mesmo quando está fazendo um monólogo, você depende muito dos outros. Gosto de trabalhar assim, coletivamente. Em Greta, o diretor Armando Praça me visitou em casa e me explicou como era o projeto. Fiquei com uma impressão muito boa dele no primeiro encontro. Depois que li todo o roteiro, vi que era um papel muito bacana para o momento que eu vivia. Pronto, aceitei e fui. Cheguei lá e tive um período de ensaio com a equipe, que foi muito profundo. E o Armando é um diretor de muito bom gosto. Tive a coragem e a liberdade que ele me propiciou. Não tive nenhum problema para fazer as cenas de nudez, pois eram todas muito bem cuidadas e adequadamente iluminadas. Achei que seria bacana eu fazer um personagem mais velho, um drama. Era um momento que eu estava me recuperando de um problema na coluna, mas deu tudo certo. Nos organizamos de modo que não fosse muito puxado.

Como foi fazer as cenas de nudez e sexo?

Súper tranquilo. Era uma equipe muito respeitosa e profissional. Eu brinquei com o Armando que o máximo que ele estava fadado a fazer era enquadrar a minha barriga, pois estava muito grande (risos).

Greta é um filme LGBT+ sobre uma faixa etária que raramente é protagonista no cinema. É um retrato da solidão de uma pessoa com idade avançada. Como é seguir em atividade com mais de 70 anos?

Para quem gosta e tem vocação, é muito bom poder trabalhar com mais de 70 anos. Estou agora com 72, mas eu costumo contabilizar que estou no percurso dos 73, pois estou chegando lá. Quando eu completar 73, passo a contar que estou no percurso para os 74 (risos). Eu não acreditava que ia chegar nessa idade. Sequer achava que ia passar o milênio. Sempre imaginava quando era jovem como seria a passagem de milênio. Pensava: "Poxa, dever ser uma loucura isso". Mas foi uma decepção enorme, pois ninguém ao meu redor sabia quando começava exatamente o milênio, se era dia 31 ou 1º de janeiro. Me decepcionei com as festividades (risos). De qualquer maneira, não imaginava que ia chegar, mas passei e muito. Na minha infância, as pessoas morriam muito mais cedo.

em 2019, a Ancine cortou o apoio financeiro para a participação de Greta no Festival Internacional Queer Lisboa. A agência justificou que houve um corte de R$ 13 milhões nas despesas gerais. Haveria uma ajuda de custo de R$ 4,6 mil para a produção dos longas participarem do evento. Como você avaliou esse corte na época? Foi um boicote?

Foi um tipo de boicote. Foi um tipo de censura. No final, a produção do filme conseguiu uma ajuda participar do festival.

No ano passado, o governo Bolsonaro suspendeu um edital com séries LGBT+ para TVs públicas. Você teme que a censura atinja a produção audiovisual e artística no Brasil?

Claro, com esse governo que está aí tudo é possível. Hoje li um artigo do Ruy Castro dizendo que todo mundo esperava que o Bolsonaro fosse dar um golpe, mas que ele próprio é o golpe. Está sendo uma loucura isso na política. Muitos cargos ocupados por militares, que não são especializados. Uma coisa Moral e Cívica (disciplina escolar instituída durante a ditadura) demais. Se não houver reviravolta, nosso destino é terrível. É muito desagradável ver a violência que se forma contra negros e pobres. Muito desagradável para pessoas como eu, que gostam de discutir a democracia, que gostam de discutir ideias. Há um cerceamento e uma obscuridade que fomos no meter.

Na sua avaliação, a que se atribui essa obscuridade?

Isso é tudo uma camiseta dos líderes do governo. Por exemplo, o aborto. Uma menina capixaba de 10 anos foi chamada de assassina por interromper a gravidez em decorrência de um estupro. Olha onde nós estamos? Não é possível, a menina teve que entrar no porta-malas do carro no hospital para fazer uma coisa que é determinada por lei. Há um moralismo cego que rege essa obscuridade. Abrir o jornal todos os dias e deparar com histórias como essa é para quem tem muito estômago. Todo dia tem uma novidade desagradável nesse setor.

Talvez esse tipo de reação possa ter se intensificado com a pandemia. Como tem sido o período de pandemia para você?

Eu sou grupo de risco. Então, me embuti da ideia de não sair de casa para nada (Nanini vive no Rio de Janeiro). Só saio para ir a um médico ou outro, mas daí me encho de máscara (risos). Estou confinado há muitos meses. Ainda bem que tem bichos aqui em casa, tem alguma planta, o que dá alguma alegriazinha. Não tem outro jeito, tenho que ficar aqui dentro. As informações são tão desencontradas também, você fica sem saber o que fazer.

Como assim?

Ministério da Saúde não existe, praticamente. Nenhum ministério mais existe direito. Governo diz que não é bem assim, que tem que tomar cloroquina. Ou seja, isso tudo confunde o cidadão. É uma confusão danada. Algumas autoridades usam o bom senso. Daí vem uma contraofensiva do governo federal, com uma desmoralização de quem está falando o certo. Há um descrédito do governo com a Organização Mundial da Saúde, de todos os protocolos do mundo inteiro que está empenhado em resolver essa situação. Mas aqui no Brasil é salve-se quem puder. O cidadão fica completamente desorientado. Ele tem que decidir por ele mesmo e Deus que proteja.

Com tantas notícias negativas circulando, o que te traz otimismo? Ao que você recorre para aliviar a mente?

Olha, é difícil esse tempo. O que atenua bastante para mim é ver a natureza, ver as coisas mais significativas do ser humano.

vamos falar um pouco sobre A grande Família. Há uma geração que cresceu assistindo ao programa. Uma reflexão recorrente entre esse público, que é comum ser repetida nas redes sociais, diz o seguinte: "Estou virando o Lineu de A Grande Família"...

(Interrompe em risos) Nunca tinha ouvido falar! Incrível!

Até hoje há um culto muito grande ao seriado, especialmente na internet. Até hoje é mencionada com bastante carinho, com cenas sendo revisitadas em memes. A que você atribui esse sucesso longevo de A Grande Família?

É muito difícil você atribuir a um fator específico para o sucesso. O programa sempre teve muita simpatia do público. A Grande Família já era sucesso em sua primeira versão, na sua versão setentista (foi ao ar pela TV Globo entre 1972 e 1975). Quando retornou, voltou com muita força. Nós tivemos um trabalho de preparação muito grande. Fazíamos o programa sempre com muita seriedade. Só terminamos quando ninguém mais aguentava, quando já estava no limite. Eu era pai, virei avô. Teve passagem de tempo. Para continuar, eu teria que ficar com cento e tantos anos. Não dava, tinha que terminar. Mas até o último momento a gente se dedicou muito ao programa, tínhamos muito amor por ele. Evidentemente, recebia também muito carinho do público quando saíamos para algum lugar, o que até dava vontade de ficar mais tempo nesse trabalho. Fui muito feliz com A Grande Família. Durou o que tinha que durar. Terminou tudo de comum acordo. Pronto. Estamos seguindo.

Você já se sentiu parecido com o Lineu no seu cotidiano?

De alguma maneira, você busca na sua fonte os sentimentos para o personagem. Todo mundo que chegava perto de mim dizia: "Ah, meu pai é igual ao Lineu!". Isso acontecia porque era característica, mesmo. Lineu não era um personagem que fazia rir toda hora. Ele era uma personagem de centro e circunstância. Lineu tinha principalmente toda aquela característica de integridade, que é o que está faltando hoje no Brasil.

Há uma cena do Lineu que vez ou outra é resgatada nas redes sociais. é o episódio que ele come um biscoito de maconha e fica ouvindo Roundabout, do Yes. como foi construir esse capítulo?

Esse tema era uma coisa que nós queríamos falar no programa. Mas não foi fácil, já que a televisão aberta chega a muitos lares. Então, a TV tinha isso de não deixar acontecer imediatamente. Com o passar do tempo, a gente conseguiu realizar esse episódio. Foi um capítulo muito bom. Lineu come o biscoito inadvertidamente. Ele não sabe que está ficando louco. Começa a fazer coisas que nunca imaginou. Foi muito legal. Era preciso de uma concentração muito grande porque nesse tipo de humor você não pode querer fazer graça. Você tem que fazer com verdade. A graça vem da situação. Isso a gente levava muito a sério. Quem fazia a graça pelo próprio personagem era o Agostinho (Pedro Cardoso). Então, sempre levávamos esses climas que a gente encontrava às últimas consequências. No caso aí, a pessoa mais séria comeu o biscoito de maconha e ficou doidão. Foi uma cena muito bem aceita.

Um exercício de imaginação: como você acha que o Lineu estaria se comportando na pandemia?

Acho que seria muito engraçado. Tomaria todas as providências possíveis de desinfestação de tudo. Ele seria quase um bedel (chefe de disciplina em escolas) em casa. Lineu ia levar muito a sério a quarentena.

Quais são os seus próximos projetos?

Eu estava esperando o meu momento de trabalhar, aí veio essa pandemia. Os teatros fecharam, e a TV foi muito afetada. A novela para que eu estaria reservado, de autoria do Gilberto Braga e da Denise Bandeira, vai entrar sabe-se lá quando. Está na fila. Há muitas produções paradas. Quanto ao teatro, estou estudando com o Fernando Libonati, meu sócio, sobre o que fazer e como fazer. Só achar o que fazer já era difícil, agora é preciso pensar como se pode apresentar o trabalho. Não é nada certo ainda. Com certeza não será uma live.

O formato de live não te atrai? Não, eu não me sinto à vontade. Sou muito tímido. Não sou dado a isso. Gosto de ensaiar, de fazer personagens. Não vejo lives. Adoro ver o Marcelo Adnet, por exemplo. Morro de rir! Outro que adoro também é o Pedroca Monteiro.

Como você acompanhou as tensões entre o Marcelo Adnet e o secretário especial da cultura, Mario Frias (o humorista parodiou uma campanha da Secretaria de Comunicação da Presidência e Frias o criticou)?

Que tristeza. Que coisa mais cafona, puxa vida! Como é que pode isso, ele é um artista. Agora vão proibir os caricaturistas de trabalhar nos jornais porque produzem críticas em seus desenhos? Isso não é possível, não pode acontecer em uma democracia. A Secretaria Especial da Cultura virou um abacaxi. Secretaria de nada. Cultura de nada. Só para atrapalhar. O que o Mario Frias vai fazer? Por enquanto está fazendo figuração, o que está dando certo.

Você chegou a conhecer o Mario Frias? Não, não conheci.

Mas a ex-secretária Regina Duarte sim, certo? Já trabalhei com ela, mas, sei lá, há 40 anos.

Regina Duarte passou por poucas e boas enquanto esteve na secretaria. Ela foi bastante criticada por conta de uma entrevista em que minimizava a ditadura.

Aquilo foi um absurdo também! Que entrevista infeliz foi aquela! Regina foi descartada também, foi humilhada. Eu, hein! Ela era uma pessoa diferente da entrevista quando você a conheceu?

Olha, nunca tinha visto chegar a esse ponto. Mas ela era uma criatura mais conservadora, vamos dizer assim. Mas agora ela chegou a um ponto, dizer que não houve ditadura... Poxa, pelo amor de Deus, basta ler um pouco. Bom, que seja assim. Faça lá o que ela quiser.

 WILLIAM MANSQUE


 

19 DE SETEMBRO DE 2020

DRAUZIO VARELLA

FARINGITE POR ESTREPTOCOCO

O estreptococo do grupo A é responsável por 20% a 30% das faringites nas crianças e por 5% a 15% dos casos em adultos. Além de provocar uma doença aguda que evolui com febre e dor de garganta, a faringite por estreptococo está associada a complicações pós-infecciosas, como a glomerulonefrite que compromete a função renal e a febre reumática, que além de dores articulares, deforma as válvulas cardíacas.

Os sintomas de faringite geralmente são de início abrupto: dor de garganta, febre alta, calafrios, dores musculares e dor de cabeça. Nas crianças mais novas, podem surgir dores abdominais, náuseas e vômitos. Algumas vezes, aparece uma vermelhidão na pele, que poupa a face, fica mais intensa nas dobras de pele e chega a descamar na fase de convalescença, quadro que recebe o nome de escarlatina.

A dor costuma ser mais forte de um dos lados da garganta. Quando é intensa a ponto de impedir a deglutição e instala-se de um só lado da faringe, faz suspeitar da existência de abscesso no local, principalmente quando o quadro já tem diversos dias de evolução.

Tosse, coriza e conjuntivite associadas à dor de garganta não são sintomas típicos da faringite por estreptococo; quando presentes, sugerem infecção por vírus. A febre costuma durar três a cinco dias, e a dor de garganta diminui gradativamente de intensidade até desaparecer depois de uma semana.

O diagnóstico clínico é feito com base nos seguintes sinais e sintomas: temperatura acima de 38ºC, ausência de tosse, presença de linfonodos (gânglios) aumentados, amolecidos e dolorosos no pescoço, aumento do volume das amígdalas ou presença de uma camada esbranquiçada na superfície delas (exsudato). A confirmação laboratorial é obtida a partir da cultura da secreção local, colhida por meio da raspagem das amídalas com cotonete ou espátula. Como o tempo que o estreptococo requer para crescer em cultura é de pelo menos um a dois dias, existe um teste rápido que identifica certas proteínas da bactéria em alguns minutos.

Se a doença é autolimitada na maioria dos casos, vale a pena tratá-la com antibióticos? Embora a antibioticoterapia não afasta a possibilidade de glomerulonefrite, existem outras vantagens no tratamento. Estudos realizados já nos anos 1950 demonstraram que o uso de antibiótico reduz a incidência de febre reumática, a principal causa de comprometimento das válvulas cardíacas, principalmente em países como o nosso. Uma análise conjunta de nove desses estudos (metanálise) mostrou que a administração de penicilina por via intramuscular diminui a incidência de febre reumática em 80%, quando comparada à ausência de tratamento.

Os antibióticos reduzem o risco de formação de abscessos purulentos na faringe e nas amídalas e o aparecimento de otites médias. Além desses benefícios, há o da erradicação da bactéria. Sem nenhum tratamento, em 80% dos casos o estreptococo persiste na faringe por até seis semanas. Essa característica da infecção tem implicações importantes na transmissão, especialmente entre crianças em idade escolar. Quando a criança recebe antibiótico, as culturas se tornam negativas em 24 horas, período depois do qual estará autorizada a retornar à escola. Os antibióticos também encurtam a duração dos sintomas, principalmente quando administrados nas primeiras 24 horas.

A penicilina é o antibiótico de escolha. Na forma oral deve ser administrada durante 10 dias. A preparação injetável por via intramuscular de penicilina benzatina tem a vantagem de ser barata, aplicada em dose única e proporcionar níveis sanguíneos duradouros, adequados para a erradicação do estreptococo.

Se por alguma razão a penicilina não puder ser utilizada, existem outras opções: cefalosporinas, clindamicina, azitromicina, etc. O tratamento deve ser mantido por dez dias, com exceção da penicilina benzatina (dose única) e da azitromicina (apenas cinco dias).

DRAUZIO VARELLA

 19 DE SETEMBRO DE 2020

BRUNA LOMBARDI

A ARTE É FEITA DE MOMENTOS ROUBADOS

O artista espera quando o momento exato se ilumina e ele o rouba. Ele registra aquela imagem na sua memória, se apropria daquela emoção e a guarda em algum lugar da alma, onde se armazenam as coisas que nos marcam.

Mais tarde, quando finalmente está sozinho no seu espaço, ele usa sua criação e transforma aquela amálgama de sensações em algum coisa que parece próxima, íntima, parece que agora não será mais perdida. E cada momento roubado ganha magia, nova vida, novo significado.

Aquele instante de vida, que passaria despercebido pra maioria, agora vai se tornar permanente. Tem agora outra tradução, vira história, foto, quadro, música, poesia. Aquele momento que quase não se notaria de tão sutil, invisível, desimportante, agora se torna forte, grande, tem luz própria, desafia seu criador.

Aquela emoção ali guardada está segura, se redimensiona e ousa atravessar o tempo. Vai do passado onde aconteceu e foi capturada pelo artista, para o presente da obra e depois, em seguida, vai se projetar e continuar até encontrar seu público e através de cada um vai se multiplicar em milhares de novas sensações individuais.

Já não pertence ao artista que a criou, agora pertence a um futuro infinito, atingindo todos nós que teremos a emoção de vivenciar esse momento que nunca vimos. E não será mais um momento perdido.

Todo artista é uma espécie de Prometeu, que rouba o fogo sagrado dos deuses e o oferece aos mortais. O seu castigo é que todos os dias sua arte o devora e sua busca continua. Mas essa é também a sua benção. Distribuir generosamente sua alma é o trabalho do artista.

Ele rouba as emoções do mundo e nos devolve o que sem querer perdemos.

Às vezes, uma doce capacidade de observar o imperceptível, a delicadeza do olhar, uma sensação antiga, uma memória. Uma música ao longe, uma voz cantando pra ninguém. Um sabor, um cheiro, uma brisa no rosto, um gesto esquecido. Um trem que deixa uma estação, alguém acenando, alguém chorando, lugares onde pessoas deixaram um sentimento.

Alguém que espera alguém, um amor que não se revela, um abraço, um café, uma guitarra. Uma lembrança que nem é nossa, um amigo que não tivemos, a nudez de uma mulher que nunca conhecemos.

Atrás das janelas dos apartamentos, existem milhões de desejos, segredos e histórias que se escondem na cidade. Existem mistérios nas noites, paixão, dor, intimidade. Existem destinos. Em cada um a solidão e a solidariedade. Escolhas. O medo da impossibilidade e a esperança de que tudo é possível.

Todos os dias tecemos o fio da vida com essa realidade que nos embrutece, endurece nossos sentimentos, intoxica nossos pensamentos. A arte nos traz a beleza, o conhecimento, a sensibilidade que podem servir de contraponto e equilíbrio pra isso tudo,

Quando o artista rouba momentos da vida e os transforma, ele nos transforma a todos. Traz um novo significado ao que vemos, uma nova perspectiva. Nos faz lembrar que somos todos feitos da mesma matéria que são feitas as estrelas.

BRUNA LOMBARDI