sábado, 3 de outubro de 2020


03 DE OUTUBRO DE 2020
BRUNA LOMBARDI

O DESPERTAR DA PRIMAVERA 

Chega a primavera e estamos em crise. Toda crise traz momentos de reflexão. A gente se questiona e procura respostas. Estamos vivenciando mudanças e precisamos saber como mudar. Vivemos um isolamento, cheios de estresse, medo e ansiedade diante do desconhecido.

E como administrar essas emoções? Pensamentos negativos nos atingem, tudo é incerteza. O que vai acontecer com os nossos sonhos, nossas paixões?

O que está acontecendo dentro de nós? Como organizar esse turbilhão de ideias e emoções que mexem com o nosso espírito? Uma sensação de solidão invade os nossos dias.

Precisamos compreender o que sentimos, mas os sentimentos parecem estagnados. O que fazer para desatar esses nós e buscar mais equilíbrio emocional e espiritual nessa nova estação?

Interromper a conversa negativa consigo mesmo é um dos passos mais importantes. Quanto mais falamos mal de nós, da situação em que estamos, mais nos enfraquecemos e fortalecemos as coisas que não queremos.

É bom ter certeza daquilo que a gente quer e não do que achamos que a sociedade espera de nós.

Um exercício para testar a nossa força de vontade é detectar maus hábitos. A gente sempre percebe a indulgência e tudo o que acreditamos ser uma recompensa. Reconhece a falta de disciplina, a procrastinação e as desculpas que inventamos. A gente quer mudar, mas mudar requer uma nova atitude.

Não adianta fugir dos problemas, porque eles sempre vão junto a gente. A única saída é enfrentar, resolver e superar. Mesmo se as tentativas não dão certo, não existe fracasso, são nossos pequenos passos na etapa de evolução.

Sucesso não é um lugar de chegada, é o nosso estado de espírito durante o percurso. Saber reagir ao que acontece, é determinante na jornada. Sempre existem alternativas, opções e escolhas. Novos caminhos e novas descobertas.

Ajuda muito ter alguém com quem conversar de verdade. Alguém que te quer bem e em quem você pode confiar.

Ah, e não se compare com os outros, nem julgue as pessoas. Aliás, não julgue você mesmo. Nada disso é construtivo, pelo contrário, só vai minar a sua auto estima.

Evite o jogo da culpa. Culpar alguém do que acontece com a gente não ajuda em nada. Mesmo que tenham te machucado, desiludido, decepcionado, a responsabilidade pelo que você se sente é sempre sua.

Desapego é necessário e a gente sabe que pra mudar precisamos abrir mão de algumas coisas que temos e somos.

Vivemos em constante fluxo, nada é estático, tudo está em movimento, tudo muda o tempo todo. Heráclito, um pensador grego, dizia que não podemos entrar duas vezes no mesmo rio, pois da segunda vez nós já mudamos e as aguas do rio também.

A serenidade vem de saber que tudo o que acontece é necessário e chega na hora certa. Esse é o despertar de um novo ciclo, nova estação. Um momento propício para reavaliar o que queremos ser na vida.

Preste atenção no momento presente, siga sua intuição, escute o seu coração. Toda crise nos revela e nos renova. Uma feliz primavera para você.

BRUNA LOMBARDI

03 DE OUTUBRO DE 2020
J.J. CAMARGO

JUNTANDO OS CACOS 

"Eu preciso de um médico que trate a alma das pessoas! Podes me indicar alguém?"

Esta frase foi colocada logo depois do "em que posso te ajudar" quase sempre acrescido do recomendável "eu preciso saber um pouco mais, então me conte o que só contarias ao teu melhor amigo!".

Essa consulta pode ter acontecido ou, simplesmente imaginada, como introdução para discutir uma situação comum nestes tempos de rabugice coletiva, com todo mundo exasperado pelo demora do fim dessa pandemia, enquanto alguns ironizam que o pico da doença está previsto para o final de 2021, ou não. O certo é que esta experiência insólita de pânico generalizado mexeu com as pessoas de uma maneira inusitada, constrangendo os pretensos poderosos com a democratização do medo, esse sentimento que melhor define a nossa vulnerabilidade.

O confinamento desde cedo começou a cobrar seu preço, e a companhia sem tréguas dos cônjuges, privados até das novidades trazidas da rua, remexeu em mágoas represadas e estimulou um previsível acerto de contas. Muitos casamentos ruíram porque um acabou dizendo "o que precisava ser dito", e o outro, sempre tolerante, agora como um animal ferido e enjaulado, retribuiu.

Alguns, sem ânimo para dissecção de relações eternizadas pela mesmice, se deram conta do quanto estavam desorganizados e, com a morte sempre rondando por perto, ficaram chocados com a consciência de não estarem prontos.

Esses cenários resumidos aqui foram tantas vezes levados pelos pacientes aos consultórios dos médicos antigos, esses antiquados que consideram que ouvir é parte essencial da relação entre duas pessoas, mesmo quando a doença de uma delas não provoca nenhuma dor física.

A expressão de extremo descompasso afetivo justifica a demanda por divórcios, e a insegurança em relação a um futuro sem limites estabelecidos tem multiplicado o trabalho dos cartórios onde desaguam os processos dos requerentes de testamentos, pelos tipos que recém descobriram a finitude, sempre mantida distante, como se fosse uma improbabilidade.

Como as glamourosas estratégias de comunicação virtual já esgotaram seus limites de competência, ninguém mais aguenta os abraços virtuais, nem as telas do computador cheias de carinhas amorfas, olhando para lugar nenhum, e sempre alguém perguntando: "Vocês me ouvem?".

É certo que sairemos dessa pandemia mais espertos em comunicação remota, mas o retorno à vida que consideramos de fato normal vai nos encontrar muito diferentes. Quem dera, melhores, apesar de completa incerteza. Para não deixar a paciente do início desta crônica sem resposta, digo que não tenho ideia de para quem encaminhá-la, mas que pode me ligar se a solidão parecer insuportável.

Sei que vai ser difícil assimilar tantas perdas, mas confio que passar por uma experiência tão surreal também é viver. E com uma intensidade insuspeitada no nosso antigo modelo de convívio despreocupado. Historicamente, as tragédias são transformadoras, e pode ser que no fim de tudo cheguemos à conclusão de que as nossas vidas já estavam a exigir uma mudança, desde antes da doença aparecer.

Talvez o mais chocante acabe sendo o quanto demoramos a perceber esta necessidade. Então, vamos juntar os cacos e recomeçar.

Por absoluta falta de alternativas.

J.J. CAMARGO

03 DE OUTUBRO DE 2020
DAVID COIMBRA

O céu laranja de Porto Alegre

Porto Alegre amanheceu com o céu cor de laranja na sexta-feira. Um céu que Van Gogh gostaria de pintar. Há coisa de seis anos, depois de uma nevasca, a primeira nevasca da minha vida, vi a noite da Nova Inglaterra luzindo quase que no mesmo tom.

Quando digo nevasca, não me refiro a uns flocos de neve flutuando preguiçosamente, fazendo a gente ter vontade de cantar Noite Feliz. Não. Estou falando de tempestade de neve. O que eles chamam de blizzard.

Essa minha primeira blizzard foi assustadora. Os americanos são alarmistas. Uma semana antes, TVs, rádios e sites já anunciavam que aconteceria, pediam que tomássemos o máximo cuidado e passavam instruções: fiquem em casa, abasteçam a despensa, comprem cobertores e lanternas. Falavam muito nisso de lanternas. Alertavam que poderia faltar energia elétrica.

No dia em que ocorreria a blizzard, recebi uma ligação da Defesa Civil, repetindo as recomendações, encerrando com gravidade: "Não se esqueça de comprar lanternas!"

A cidade inteira estava agitada, todo mundo correndo, apressado. A Marcinha foi fazer rancho no supermercado, eu fui pegar o Bernardo na escola e, depois, saímos a procurar as benditas lanternas. Quem disse que encontramos? Todas tinham sido vendidas. Por Thomas Edison, será que ficaríamos no escuro? Finalmente, depois de muito bater perna, achei três lanternas tipo caneta à venda numa famosa ferragem chamada True Value. Comprei-as sofregamente.

Nunca as usei.

Nos seis anos em que vivi em Boston, só uma vez faltou energia, durante 15 minutos, por causa de uma obra que estavam fazendo no prédio em que morava. Mas antes da blizzard eu não sabia disso, então fiquei bem contente com as minhas lanternas e orgulhoso de tê-las achado.

Os canais de previsão de tempo marcaram para o meio da tarde o começo da tempestade, e a tempestade obedeceu. O dia havia começado claro e foi se tornando opressivo, as nuvens se aproximando do solo com jeito de brabas. Depois do almoço, o céu estava lilás. A temperatura foi baixando. Baixando... Na hora aprazada, flocos de neve do tamanho de moedas de um real começaram a cair como folhas mortas, pousando devagar no chão, juntando-se uns aos outros. No começo da noite, se você saísse à rua, afundaria até os joelhos no colchão de neve fofa e branca.

Nós, eu, a Marcinha e o Bernardo, estávamos no calor da nossa casa, jantando e apreciando a paisagem lá fora. Podíamos fazer isso, porque o apartamento era dotado de uma enorme porta de vidro que se abria para a sacada. Não me cansava de olhar para aquele cenário bucólico, em que sobressaía um robusto carvalho que nos abraçava todos os dias. Sério, ele nos abraçava. Era como se nos protegesse. Desenvolvi uma inexplicável afeição por aquela árvore poderosa. No dia em que voltaríamos em definitivo para o Brasil, eu e o Bernardo fizemos questão de ir até o pé dela e abraçar seu tronco. Fiz isso, confesso, e quero fazer de novo, quando estiver lá outra vez.

Naquela noite, a neve foi embranquecendo os galhos nus do imenso carvalho e também os telhados das casas, o gramado da praça, o chão das ruas. A cidade ficou inteiramente branca. E então, quando a luz da Lua conseguiu furar a massa de nuvens, tudo, chão, casas, árvores e céu, tudo ficou cor de laranja. Foi tão lindo, que parei diante da porta envidraçada em silêncio, o peito cheio de alguma emoção entre a alegria de ver e o agradecimento por estar vendo, e aí falei. Sem deixar de mirar a rua, chamei a Marcinha e o Bernardo: "Olhem..." E eles olharam.

Lembrei dessa noite ao ver o amanhecer laranja de Porto Alegre na sexta-feira. Era bem cedo ainda, estava meio escuro. Até parecia noite, mas era o dia que vinha. Chovia uma chuva silenciosa e boa e foi bonito. Fiquei pensando que você pode encontrar belezas em qualquer parte do mundo, em qualquer pedaço de tempo. Basta querer ver. Torci para que meus irmãos porto-alegrenses estivessem contemplando o mesmo céu, mas calculei que a maioria da cidade continuasse sob os lençóis. Senti vontade de despertar a todos. Queria poder convocá-los a admirar aquela cena que Van Gogh pintaria. Queria poder pedir: "Olhem..." E eles olhariam.

DAVID COIMBRA

03 DE OUTUBRO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

Ameaça em ondas 

Trazem esperança mas também devem ser recebidos com comedimento os números que mostram arrefecimento dos casos, das internações em UTI e das mortes por covid-19 no Rio Grande do Sul, assim como estudos indicando a possibilidade de ter ficado para trás o período mais grave da pandemia. O momento mais crítico teria sido no início de setembro e, agora, o Estado estaria ingressando em uma fase de lento declínio da enfermidade, que já ceifou a vida de mais de 4,8 mil gaúchos. A cautela não tem qualquer relação com questionamento às estatísticas ou à pesquisa que aponta a tendência. 

A parcimônia é baseada na simples constatação de que o quadro pode mudar, com um recrudescimento da enfermidade, caso a população relaxe no distanciamento social, na postura de evitar aglomerações, e nas atitudes pessoais como usar máscara, álcool gel e o ato de lavar as mãos constantemente. Mesmo com o cansaço de mais de seis meses de restrições, afastamento de familiares e amigos, o comprometimento individual segue decisivo na batalha para manter os números em trajetória consolidada de queda.

O Brasil, na média, também vem apresentando nas últimas semanas uma curva descendente de infecções e óbitos, após um longo platô, mas este movimento, da mesma forma, não deve se tornar motivo para a população negligenciar medidas essenciais ao combate da disseminação do agente infeccioso. A retomada gradual das atividades econômicas não prescinde de todos os cuidados, cautelas e limitações, como é o caso das escolas, com o retorno às aulas presenciais compondo uma das fases de flexibilização mais sensíveis em todo o mundo.

O exemplo de quanto o novo coronavírus é traiçoeiro e oportunista, sempre à espreita de descuidos e comportamentos inapropriados, vem de alguns pontos do próprio Brasil, da Europa, dos Estados Unidos e de Israel. Manaus, que gerou cenas dramáticas nos primeiros meses da pandemia no país, atravessa período de novo aumento de mortes e a possibilidade de uma segunda onda, embora a situação ainda gere discordância entre especialistas. Na cidade do Rio, as internações em UTIs voltaram a subir nas últimas semanas. Vários países europeus observam a elevação de casos e, em Madri, a capital espanhola, foi preciso aumentar as restrições à circulação da população de algumas regiões. Na Espanha e na França, ficou claro que os jovens são agora os principais vetores da doença e, como não vivem isolados, os que se arriscam ao contágio acabam mantendo o vírus circulando intensamente.

Diante do perigo de uma segunda onda, é preciso renovar o apelo para a manutenção das atenções básicas e do distanciamento social para que o Estado e outras regiões do Brasil não vejam a repetição de imagens de cidades esvaziadas, em um momento de esgotamento social e econômico. Do governo federal já se viu que não se pode esperar muito em termos de incentivo a comportamento seguro. Como ainda não há vacina segura e de eficiência comprovada, negligências podem colocar a perder meses de protocolos rígidos e forçar a necessidade de retornar algumas casas na caminhada das flexibilizações. O mais robusto obstáculo a uma nova onda é a consciência e a responsabilidade de cada cidadão. Afrouxar os cuidados poderá significar ver o mapa do Rio Grande do Sul outra vez pintado de vermelho.



03 DE OUTUBRO DE 2020
+ ECONOMIA

Risco Trump com covid-19 se soma a temor sobre Guedes 

Causou susto nos mercados, na sexta-feira, o diagnóstico de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está com covid-19. Na economia, a situação eleva a já alta incerteza, desde como o governo americano vai se comportar agora até o futuro da eleição para a Presidência dos EUA. Está em dúvida a realização de debates e outros atos de campanha nas próximas duas semanas, metade do tempo que falta para o dia da votação.

Considerando os resultados do primeiro embate com o democrata Joe Biden, pode até beneficiar Trump. Apesar do bate-boca desastrado, pesquisas mostraram leve vantagem para o democrata. Se antes era difícil de prever resultado, agora se tornou quase impossível.

Esse aumento de incerteza faz investidores se refugiarem em mercados mais seguros. Países com economia fragilizada, como o Brasil, tendem a ser mais afetados. Em setembro, houve saída de R$ 2,4 bilhões de estrangeiros da bolsa brasileira. E o fato inesperado colhe o país em momento difícil, com endividamento crescente e dúvidas sobre o compromisso do governo Bolsonaro com o ajuste fiscal.

A bolsa caiu 1,53% na sexta-feira, enquanto o dólar fechou quase estável, mas em R$ 5,666, cotação mais alta desde 20 de maio. Isso ocorreu um dia depois que Bolsonaro afirmou que o ministro da Economia, Paulo Guedes, tem 99,9% de sua confiança. O que tornou a declaração necessária foi o desgaste de Guedes na discussão sobre como financiar um programa social mais robusto do que o Bolsa Família. E o clima que já não era bom entre Guedes e o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, azedou mais na sexta-feira. Em reunião com bancos, Marinho disse que o colega havia perdido a confiança do relator do orçamento no Congresso, Márcio Bittar (MDB-AC), por ter revisto sua posição sobre os precatórios como fonte para o Renda Cidadã.

Ao saber, Guedes afirmou que não devia ser verdade, porque, se fosse, Marinho seria "despreparado, desleal e fura-teto". A piora global e a desconfiança interna fizeram o economista-chefe da corretora Necton, André Perfeito, revisar sua projeção para o dólar no final de ano de R$ 5,90 para R$ 6.

"No mundo anormal, mais mudanças" 

Andrea Kohlrausch havia se tornado presidente da Bibi Calçados há menos de um ano quando a pandemia a obrigou a mudar todos os planos em poucos dias. A empresa, que emprega 1,2 mil funcionários, não fez demissão em massa. Com indústria e uma rede de franquias, já abriu quatro lojas na retomada e prevê mais três no Exterior ainda neste ano.

Distanciamento

"Neste momento, estou em casa, porque meu esposo testou positivo para covid-19. Faz uma semana, ele tem sintomas bem leves, mas nos isolamos. Antes, alternava entre casa e empresa. Demos férias coletivas, depois adotamos jornadas reduzidas. Em agosto, conseguimos retomar 100% da produção. Setembro foi o primeiro mês completo. Aderimos ao movimento Não Demita e mantivemos cerca de 1,2 mil empregos, incluída a unidade da Bahia."

Leitura e lazer

"Participei de muitas lives, vi algumas séries e filmes, como O Dilema das Redes. Estou lendo agora Avalie o que Importa (Bruno Menezes e John E. Doerr), sobre gestão de OKRs (Objectives and Key Results, metodologia adotada pelo Google). Também estou passando um momento único com meus filhos Luísa, de 11 anos, e Augusto, de três. Fizemos uma escala familiar para que possam brincar e socializar. Levamos para andar de bicicleta. Haja criatividade. Eu estava mais sedentária e retomei a corrida."

Combate ao coronavírus

"Não há solução ainda, mas já estamos voltando às atividades. Exportamos para mais de 60 países, lidamos com situações muito diversas, como no Peru, onde houve dias que os homens não podiam sair, e na Argentina, que segue muito fechada. Não dá para se desmotivar, tem de buscar a solução. Atuamos muito no apoio a nossa rede de franquias. Orientamos sobre como atuar no e-commerce, orientamos sobre as MPs e prazo para recolher impostos, apoiamos negociações com shoppings. Ajudamos a ativar o delivery, adotar mecanismos antifraude, a trabalhar nas redes sociais."

Aprendizado

"A Bibi tem 71 anos porque sempre teve coragem de inovar. Vai intensificar a inovação. Temos foco em sustentabilidade e buscamos o equilíbrio com todos com quem trabalhamos. Acreditamos na empatia e na disposição de aprender sempre, e a pandemia reforçou esses princípios."

Reflexões

"Uma das frases que uso é ?quem tem um porquê enfrenta qualquer como?. A empresa tem propósito claro, que é contribuir para o desenvolvimento feliz e natural das crianças. É importante que cada pessoa busque seu propósito. Não há um novo normal, vamos ter um mundo anormal, em que as mudanças vão se acelerar. Com tanta informação disponível, o que vai importar é a capacidade de execução. Nessa retomada, já inauguramos quatro lojas, abrimos a segunda no Equador, a primeira internacional do ano, e ainda devemos abrir mais três no Exterior neste ano. Ainda não vencemos o coronavírus, mas estamos retomando com prevenção e segurança."

Indústria de alimentos para cães e gatos de Garibaldi, a Nutrire ampliou seu plano de expansão para o Exterior. A empresa passa a fornecer produtos para o Catar. Vai começar com o envio de um contêiner com 12 toneladas de ração. A empresa gaúcha já vende para outros oito países árabes.

A embalada na construção civil também chegou a Gramado. Entre abril e agosto, a Scalla Incorporações vendeu 70% das unidades de um novo prédio na cidade da Serra com 20 apartamentos.

Depois de gerar 1,14 mil postos em julho, o setor calçadista criou outros 6,3 mil em agosto. É uma reação depois de quatro meses seguidos de perda de empregos, mas ainda faltam 36,6 mil para voltar ao nível de dezembro de 2019 (269 mil postos de trabalho).

MARTA SFREDO

03 DE OUTUBRO DE 2020
J.R. GUZZO

Bolsonaro vai se arrepender 

O nome que se deu como o escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro para a vaga que está sendo aberta por estes dias no Supremo Tribunal Federal é o que os agentes das companhias de seguro chamam de "P.T." - desastre com "perda total". Em relação a ele, a única coisa que o presidente poderia fazer de útil é dizer que foi tudo um mal-entendido - o tal Kassio Nunes Marques, o homem preferido pelas gangues que operam no Congresso e no baixo mundo do Poder Judiciário em Brasília, "garantista" ao gosto da esquerda e abençoado por Gilmar Mendes, Toffoli e seus parceiros, tem tudo para ser o herói do pior momento dos quase dois anos do governo Bolsonaro.

A reação ao anúncio divulgado no noticiário foi mais uma dessas anomalias que a vida pública brasileira de hoje oferece. A maior parte dos que de uma forma ou de outra apoiam o governo achou que o nome é um horror; sua indignação com ele, e com Bolsonaro, ficou evidente de imediato nas redes sociais.

Quem gostou, vice-versa ao contrário, foi o bonde que circula entre a esquerda nacional e a "Confederação Brasileira da Corrupção Responsável": PT, centrão, OAB, escritórios milionários de advocacia criminal, garantistas, intelectuais orgânicos, inimigos da Lava-Jato, os ministros do STF que se especializam em proteger acusados de corrupção, a mídia que condena tudo o que Bolsonaro faz etc. Uns, é claro, não dizem em voz alta que apoiam; mas ficam quietos, o que dá na mesma.

O apoio mais chocante ao nome de Kassio Nunes - que nunca foi juiz, está na magistratura por nomeação de Dilma Rousseff e ficaria no STF pelos próximos 27 anos, até 2047 - veio do seu conterrâneo Ciro Nogueira, senador pelo Piauí e denunciado formalmente em fevereiro de 2020 pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, caso que está enfiado numa gaveta do STF. Precisa dizer mais alguma coisa?

O preferido do senador, além dessa qualificação, tem uma soma de realizações profissionais como jurista equivalente a três vezes zero. É contra a prisão de criminosos após a sua condenação em segunda instância (segundo ele, é preciso "justificar" por que o sujeito teria de ir para a cadeia só porque foi condenado duas vezes) e a favor da construção de mais prédios para esses tribunais superiores que se multiplicam por aí; acha que os seus palácios atuais não são suficientes.

Logo no começo do governo Bolsonaro, circulou no mundo político a notícia de que um dos seus filhos estava para ser nomeado embaixador do Brasil nos Estados Unidos - nada menos do que isso. Foi um espanto tão grande, que a ideia acabou sendo abandonada. Para o bem-estar de todos e felicidade geral da nação, o arrependimento, como aconselhava Santo Agostinho, veio antes do pecado. Aguarda-se, agora, o momento em que Bolsonaro vai se arrepender - se antes ou depois do desastre.

*Conteúdo distribuído por Gazeta do Povo Vozes

J.R. GUZZO

03 DE OUTUBRO DE 2020
CARTA DA EDITORA

O repórter 

A função mais nobre do jornalismo e, ao mesmo tempo, a mais complexa e desafiadora é a do repórter. Nove em cada 10 recém-formados começam na profissão nessa atividade. É como se fosse um rito de passagem para quem quer seguir na carreira. Não é uma regra - e há exceções que desmentem o que acabei de dizer -, mas o recomendável é não queimar essa etapa. Parte, depois de um tempo, vira editor, gestor, colunista, apresentador. Mas uma grande parcela opta por continuar na reportagem, de tão apaixonante que é.

A Redação Integrada de ZH, GZH, Rádio Gaúcha e Diário Gaúcho tem um dos melhores times de repórteres do país, não apenas pela excelência mas também pela abnegação. Um dos mais experientes e versáteis dessa equipe é Humberto Trezzi. É o que chamamos no jornalismo de repórter puro-sangue. São quase quatro décadas fazendo reportagens que já lhe garantiram 74 prêmios, internacionais, nacionais e estaduais.

Há 32 anos em Zero Hora, Trezzi coloca entusiasmo e dedicação em tudo o que faz. Como integrante do Grupo de Investigação da RBS (GDI), fez reportagens como as que revelaram o poder das facções criminosas instaladas no Rio Grande do Sul, a indústria da falsificação de cigarros e a venda de casas ilegais em áreas ambientais. Fez coberturas internacionais nas guerras civis de Angola (1996) e da Líbia, durante a Primavera Árabe (2011), e dos cartéis no México (2009), entre outras. Além de repórter, é também colunista de segurança, área na qual sempre teve forte atuação como repórter.

Trezzi costuma dizer que uma das maiores gratificações para um repórter é ver que uma investigação jornalística teve consequências, que ajudou a contribuir para uma sociedade melhor. Em junho, no auge da pandemia, ele e o colega da RBS TV Giovani Grizotti mostraram casos de pessoas com poder aquisitivo que estavam requisitando o auxílio emergencial de R$ 600 do governo federal, dinheiro destinado a parcela da população carente. Até uma noiva, que se casaria no Caribe, e uma empresária, dona de um Mustang, estavam na lista.

Depois da reportagem, alguns dos beneficiados devolveram o dinheiro. O material publicado em ZH e GZH e veiculado na RBS TV serviu de base para investigações criminais e cíveis da Polícia Federal e do Ministério Público Federal. Na quinta-feira, a PF desencadeou um mutirão para interrogar suspeitos de fraudar o auxílio emergencial. Dos 172 suspeitos, 36 foram revelados pelo GDI.

- Comprovamos mau uso do dinheiro público e, o que é ainda melhor, nossa reportagem induziu pessoas a devolverem os recursos recebidos de forma indevida e ajudou nas investigações dos órgãos competentes - conta Trezzi, que já trabalha em outras frentes de investigação, sempre com a disposição de quem está começando na profissão de repórter.

DIONE KUHN

sábado, 26 de setembro de 2020


26 DE SETEMBRO DE 2020
LYA LUFT

Conviver, o aprendizado

Um dos problemas de conviver, em casa, no trabalho, em qualquer lugar, é a nossa impaciência com o outro.

Porque conosco mesmos em geral somos bem condescendentes: estou cansado, sobrecarregado, o patrão é um tirano, a mulher é uma chata, os filhos uns demônios, meu pai bebia, minha mãe me batia, não tenho sorte na vida... por isso tenho tolerância comigo mesmo.

Acontece que, nestes tempos confusos e às vezes assustadores, o convívio fica quase obrigatório, pois existe uma pandemia, existe uma doença que em alguns casos fica muito grave, existe a necessidade de ficar em casa junto com pessoas que, antes não sabíamos, amávamos muito ou detestávamos.

A habitual correria do cotidiano da maior parte das pessoas, a urgência do tempo, o medo do desemprego, a necessidade de competir e ser eficiente, nossa própria falta de algo que chamo de "filosofia ou sabedoria de vida" (porque não nos permitimos o tempo da reflexão), nos levam a usar a casa não como lar, refúgio, lugar de afetos e parceria, mas lugar de comer, tomar banho, dormir, brincar com o cachorro, passar a mão na cabeça dos filhos, e dar aquele beijo distraído na mulher. Atualmente, eu diria também "no marido", porque mulheres trabalham, correm e competem, se exaurem.

Hoje temos licença de também chegar em casa com pressa, notebook na pasta, horários, compromissos, e o resto que até alguns anos atrás atormentava os homens. Porque a entrada da mulher no universo antes dito masculino trouxe consigo, além de todas as coisas positivas, como dinheiro próprio, autoestima, convívio social e de trabalho, realizações, também essa sobrecarga que muitas vezes não permite refletir, contemplar, curtir o tempo de não fazer nada além de estar com a família, as amigas, os velhos pais, ou consigo mesma - o que é essencial.

Nestes dias meio insanos, com notícias pesadas de todos os lados, e campanhas pró e contra cuidados com o vírus, além de tudo, ficamos confusos, muita contradição, muita ciência boa ou nem tanto, opiniões e sentenças sem tempo para sérios estudos científicos, que em geral levam tempo, ah, o tempo.

Estou há seis meses em casa, desço de vez em quando para a garagem, de máscara, entro no meu carro e vou para nossa casinha de Gramado, onde também fico quieta. Sinto uma enorme falta de conviver com família, netas, netos, amigas, a vidinha simples, e normalzinha, de antes. Mas me cuido porque sei que, além de ser preciso mesmo, sou de alto risco, 82 anos e enfartada. É ruim, é meio sem luz no túnel tão cedo, mas cumpro. Porque gosto de viver, em resumo. E não entro no elevador sem máscara porque também respeito os outros. De vez em quando a gente esquece, ah, a minha máscara. Por sorte, sempre tenho uma na bolsa.

Escrevo esta matéria já repetida porque em tudo há um lado positivo, ou em quase tudo. Nesse convívio forçado, talvez a gente descubra que, afinal, como algumas pessoas têm me dito, o parceiro até que é interessante, a mulher é divertida, os filhos companheiros, e a casa, por mais simples que seja, é o nosso lugar no mundo.

Quem sabe, de uma obrigação penosa, conviver se torne uma arte, ou, melhor ainda, um prazeroso aprendizado.

LYA LUFT



26 DE SETEMBRO DE 2020
MARTHA MEDEIROS

O dilema das redes 

Não sou das mais obcecadas por redes sociais. Se, ao sair de casa, percebo que esqueci o celular, não volto, nem sofro. Aceito apenas amigos no meu perfil no Facebook. Não deixei de ler livros. Não levo o celular para a aula de pilates nem jamais o deixo em cima da mesa de um restaurante. Quase não compartilho o que vejo no perfil dos outros, e quando o faço é algo relacionado à cultura - raramente passo adiante comentários sobre política. Ainda assim, o diagnóstico universal serve pra mim também: fiquei viciada, como qualquer outro usuário. Consulto os meus perfis com frequência para contar quantas curtidas, quem curtiu, o que comentou, essa egotrip vergonhosa que nos estimula e limita ao mesmo tempo. Doping, sem dúvida.

É disso que trata o documentário The Social Dilemma, da Netflix, que mistura um pouco de dramaturgia com impressionantes depoimentos de ex-diretores de Google, Facebook, Twitter, Instagram e demais empresas que lidam com inteligência artificial. Enquanto assistia, me dei conta de que meu coração disparava, parecia que estava diante de um filme de terror.

Quando a gente era criança, nossas mães nos proibiam de aceitar balas de estranhos: vá que dentro houvesse alguma substância tóxica. Dessa maneira, evitavam que nos tornássemos vítimas de traficantes imaginários. Mas foi questão de tempo até que outro tipo de intoxicação nos contaminasse. Somos a última geração a vivenciar a era analógica antes de entrar na era digital. As crianças de hoje não tiveram a mesma sorte, se lambuzam com tecnologia desde cedo, e quem vai tirar o doce da mão delas? Tente.

Não desgrudamos das redes por medo de perder alguma coisa, seja um convite, uma cantada, uma fofoca, um elogio, como se não pudéssemos ser alcançados de outra forma e dependêssemos de gigas para existir. O problema é que a perda já se deu - não dentro das redes, mas fora. Conversas presenciais, observação do entorno, contato visual com outras pessoas, ouvido atento para os ruídos externos, tempo para leitura e introspeção, capacidade de chegar a conclusões por raciocínio lógico, e não por indução. Perdemos a paz. Somos fisgados e manipulados de manhã, à tarde e à noite, freneticamente. Vídeos, fotos, memes, propaganda, todas essas postagens "casuais" são programadas para atender a corporações que comandam o mundo através de nossas clicadas. Não sou eu que estou dizendo. São os especialistas que criaram o bicho e desistiram dele ao ver que o monstro estava fora de controle.

Alarmismo ou não, assista ao documentário, você não ficará tão aterrorizado a ponto de jogar seu celular no lixo depois dos créditos finais. Mas já será uma grande coisa se aprender a diminuir a ansiedade e mostrar quem é que manda.

MARTHA MEDEIROS

26 DE SETEMBRO DE 2020
CLAUDIA TAJES

Aos olhos de Ana 

A cineasta Ana Luíza Azevedo passou longos anos desenvolvendo o projeto do filme Aos Olhos de Ernesto - que fala, em sua essência, sobre envelhecer. "É um assunto que me encanta pelos desafios, pelas escolhas difíceis, pelas limitações impostas e pela possibilidade de, mesmo com tudo isso, viver."

O filme conta a história de Ernesto, um velho uruguaio solitário, fotógrafo que quase não enxerga mais. O que tira dele as imagens, os livros e a correspondência que troca com um ex-amor que permaneceu no Uruguai. "Eu tenho uma relação com a velhice muito positiva", diz Ana. "Meu pai está com 94 anos, minha mãe com 89, e eles são pessoas que seguem fazendo projetos de vida. Independentemente das tuas limitações, tu precisas ter projetos. É muito triste deixar de ter vontade. E, às vezes, não precisa chegar na velhice para desistir da vida."

A essas questões, dramaticamente muito ricas, Ana juntou a ideia de um estrangeiro vivendo longe de sua terra. "O psicanalista Contardo Calligaris, italiano, disse que, uma vez estrangeiro, sempre estrangeiro. Mesmo que tu adotes outro país, ele não é o teu. E, se tu voltas para o teu país, também não pertences mais àquele lugar. Então esse é um sentimento que eu quis trabalhar no meu personagem, um uruguaio que está aqui, tão perto, como tantos outros uruguaios e argentinos que vieram para o Brasil em decorrência da diáspora provocada pelas ditaduras militares, e que ficaram. Eu quis trazer isso para o personagem, e também trabalhar a cultura uruguaia, que é tão próxima de nós, tem tanta coisa em comum, e é tão pouco vista no cinema brasileiro."

O ator que interpreta Ernesto foi, desde sempre, a primeira e única opção de Ana Azevedo. Jorge Bolani, o maior ator uruguaio, já havia encantado a diretora no teatro e em filmes como Whisky. "Mandei o argumento e fomos a Montevidéu, eu e a (produtora) Nora Goulart, conversar com o Bolani. Ele não tem nada a ver com o Ernesto, mas entendeu perfeitamente o que eu queria. Era como se o personagem estivesse ali, na minha frente." A admiração pelo escritor uruguaio Mario Benedetti foi outro ponto de contato entre os dois. "Bolani tinha montado no teatro A Trégua, do Benedetti, e quando leu uma referência ao livro no roteiro, imediatamente já gostou."

Aos Olhos de Ernesto mostra a cumplicidade entre dois abandonados, o senhor de mais de setenta e uma garota de pouco mais de vinte. "Eu sempre pensei na Gabriela Poester, que é uma excelente atriz, para fazer o papel da Bia. O entrosamento entre o Bolani e ela foi perfeito. Eles são extremamente generosos e curiosos. O Bolani tem uma larga estrada de trabalho e de vida, mas em nenhum momento demonstra qualquer pretensão. Ele parece estar sempre aprendendo, jogando com o parceiro, para o parceiro, o que é muito bonito - e nem sempre é comum no trabalho do ator."

Produzido pela Casa de Cinema, com roteiro de Ana Luíza Azevedo e Jorge Furtado e colaboração de Vicente Moreno e Miguel da Costa Franco, Aos Olhos de Ernesto estava pronto para ser lançado quando veio a pandemia. "Ninguém sabe quanto tempo isso vai durar, e pior, sem uma política sanitária no Brasil." Sem políticas públicas em geral, como se vê em praticamente todos os setores. "A gente está vivendo a destruição das universidades, da educação, da ciência, do meio ambiente, da cultura. É tão absurdo que se fica sem reação. Há quanto tempo nós estamos nisso e ainda somos surpreendidos a cada dia com o que acontece?"

Ana cita o caso da dentista que vai dirigir o Centro Técnico do Audiovisual, que já foi um importante instrumento para a viabilização do cinema brasileiro. Sem falar na Cinemateca Brasileira, aquela que foi prometida como prêmio de consolação para a ex-secretária Regina Duarte, hoje fechada, sem direção, sem funcionários. "Nós corremos um sério risco da memória do cinema brasileiro, do audiovisual brasileiro, se perder."

"Dói ver políticas de incentivo que levaram décadas para serem implantadas desaparecendo assim. Destruir é muito rápido. É como passar na frente de uma casa, imaginar quanto tempo ela demorou para estar ali, com toda uma história, com os seus significados, e saber que em um dia é possível botar tudo abaixo. É isso que está acontecendo com a política cultural brasileira. Só que a nossa cultura é muito mais forte que qualquer governo, e vai sobreviver."

Para assistir a um filme que não termina quando o FIM aparece na tela, é só entrar nas plataformas Now, Vivo Play e Oi Play. Para sorte do público, Aos Olhos de Ernesto entrou em cartaz no streaming - e, desde 18 de julho, também está em exibição em várias salas no Japão. O que, por enquanto, está mais longe que o Japão para nós.

Apague as luzes e boa sessão.

CLAUDIA TAJES



26 DE SETEMBRO DE 2020
LEANDRO KARNAL

O CONTROLE 

Revolucionários antigos, do século 19 e início do 20, acreditavam na tomada do poder pela força, com uso explícito de violência. Teóricos como Marx e homens de ação como Lênin pensaram assim. Depois da Grande Guerra, houve mudança na concepção. Sim, o espírito de Lênin ainda podia inspirar movimentos armados como o chinês, porém, um sardo concebeu uma virada. Antônio Gramsci (1891-1937) desenvolveu o conceito de hegemonia cultural.

O controle de um grupo sobre outro raramente ocorria apenas por coerção e violência. Era necessário um consenso de quem era dominado. Só existiria uma hegemonia se ela pudesse lançar mão de recursos culturais que legitimassem o poder. Sim, no marxismo clássico existe a noção de ideologia como aquilo que vela a dominação. Gramsci aprofunda o tema. Intelectuais comprometidos com um ideal revolucionário deveriam fazer, em parte, o que já era feito na sociedade tradicional. 

O controle da universidade, da imprensa, do debate com o público ocorreria com o objetivo de atingir hegemonia cultural e que esta levaria a uma transformação do capitalismo para o socialismo. Influenciados por ideias similares, Theodor W. Adorno e Max Horkheimer escreveram sobre "Indústria Cultural" e afirmaram: "A produção capitalista os mantém tão bem presos em corpo e alma que eles sucumbem sem resistência ao que lhes é oferecido. Assim como os dominados sempre levaram mais a sério do que os dominadores a moral que deles recebiam, hoje em dia as massas logradas sucumbem mais facilmente ao mito do sucesso do que os bem-sucedidos. Elas têm os desejos deles".

Para ser simples, reduzi coisas complexas a descrições gerais. Gramsci deu um papel ao intelectual "orgânico" maior do que Marx imaginara. Preso pelo fascismo italiano e escrevendo seus Cadernos do Cárcere, ele pensou e desenvolveu uma estratégia de tomar o poder.

Nos últimos anos, desenvolveu-se uma quase acusação conservadora contra todos os intelectuais de esquerda: gramscianos. Toda pessoa que escrevesse contra o ponto de vista conservador seria um adepto da estratégia de hegemonia cultural. Como acontece com a obra de Nietzsche e de Freud, há mais gente falando sobre o italiano do que lendo seus textos.

O mundo do século 21 é o das redes sociais. Controlar a opinião pública já era importante na Roma Republicana. Hoje, é central em qualquer projeto político. Assim, o pensamento gramsciano foi e é seguido por muitos ativistas culturais de esquerda. O curioso e que já indiquei em crônicas anteriores é que despontam os "gramscianos de direita". São também, em certo sentido, "intelectuais orgânicos" no sentido de se sentirem incumbidos de uma missão, como seus adversários. A consciência da ação revolucionária implica, para gramscianos destros e sinistros, a ideia de que é mais importante controlar um diretório acadêmico ou um jornal do que armas no sentido literal. 

Todo "gabinete de ódio" é uma estratégia na luta pela opinião pública e pela militância de frases, destruição de reputações, deformação de ideias, etc. Está fora de moda fazer greves como os caminhoneiros no Chile contra o presidente Allende ou os metalúrgicos de SP contra a ditadura militar. Sim, querida leitora e estimado leitor: há greves e lockouts de direita. Porém, piquetes em porta de fábrica parecem antigos. Ainda que odiando o nome e o conteúdo, grande parte do sucesso da direita atual veio de uma estratégia gramsciana. Curiosamente, alguns retrocessos de táticas da esquerda no Brasil também nascem de diminuição da influência de... Gramsci.

Vamos ver um pouco de passado recente. A crítica ao regime militar fez surgir o livro Brasil: Nunca Mais, um chocante relato de torturas a partir de inquéritos militares. O livro tinha capa vermelha. Com o mesmo tipo gráfico só que com capa verde e amarela, surgiu o texto Brasil Sempre, de Marco Pollo Giordani.

Era uma resposta conservadora reafirmando os riscos da esquerda e o caráter "libertador" do movimento de 1964. Logo após a ditadura civil-militar, de 1985 até 1988, a opinião pública estava mais para Brasil: Nunca Mais do que seu oposto. Do ponto de vista gramsciano, a defesa de 1964 estava limitada a círculos pequenos.

A luta era mundial. Terminada a Guerra Fria na Europa, pesquisadores franceses organizaram O Livro Negro do Comunismo (1997). O objetivo era levantar o número de mortos dos movimentos ligados ao socialismo e ao comunismo. O livro fez sucesso entre conservadores, especialmente em países que tinham saído do controle soviético nos anos anteriores. Voltamos a Gramsci. A esquerda reagiu ao livro-denúncia com... outro livro negro: o do capitalismo. A obra analisava os interesses de nações capitalistas e da ação de interesses financeiros nas mortes e na fome do mundo.

Curioso que os dois livros descrevem (em textos de qualidade não uniforme) fatos reais de massacres feitos por capitalistas e comunistas. Alguns capítulos são bem documentados e plausíveis. Porém, em vez de lamentar a morte e violência em si feita por interesses de partidos, Estados ou empresas, ambos fazem crer que o problema é a ideologia. Penso na violência extrema de Mao fazendo campos de concentração de fazer corar um nazista. Penso na violência extrema dos EUA ao jogar napalm sobre uma aldeia ou no massacre de My Lai, em 1968. Os soldados norte-americanos que mataram 182 mulheres (17 delas grávidas) e 173 crianças de forma cruel não são, para mim, assassinos capitalistas; são assassinos apenas. Muitos militantes de esquerda fizeram a denúncia justa e merecida contra o caráter hediondo dos episódios do Vietnã. Era um crime!

Curiosamente, algumas centenas de quilômetros para o norte ocorria a Revolução Cultural Chinesa, com milhões de mortos, algo não denunciado pela maioria dos mesmos militantes. O que está em jogo para os gramscianos de esquerda e de direita não é a vida humana, porém o controle da opinião pública.

Se o meu lado mata e tortura, é algo "justificável". Se o outro lado mata e tortura, é uma monstruosidade. Pior, quando os dois lados são notórios assassinos, tratam apenas de discutir quem matou mais. Esse é o argumento par excellence da imbecilidade.

Morreram 10 milhões de chineses na Segunda Guerra. Isso não quer dizer que os capitalistas japoneses são benignos e os stalinistas de esquerda que mataram o dobro durante o regime bolchevique sejam os malvados de verdade. Ambos são assassinos. Entre 1904 e 1908, pelo menos 80 mil negros (etnias herero e nama) da atual Namíbia foram assassinados por alemães. Os criminosos do Segundo Reich seriam mais benignos do que os do Terceiro Reich? Imagine um negro do Congo Belga do século 19, tendo suas mãos amputadas e ouvindo do seu carrasco belga, capitalista e católico: "Vou cortar suas mãos, mas fique feliz, os comunistas farão coisas piores no futuro".

Seria um consolo fraco. Para cada vítima importa apenas o que seus assassinos e torturadores fazem naquele instante. O terror assírio na Antiguidade não é bom argumento para alguém sendo executado no "paredón" da ditadura de Fidel Castro. É preciso ter esperança e raramente ela está nos radicais.

LEANDRO KARNAL

26 DE SETEMBRO DE 2020
FRANCISCO MARSHALL

CUPIDEZ

 Será que nesta palavra o Cupido tem vez? Tem sim, o filhote de Vênus que faz corpos e mentes se moverem possuídos pelo desejo; seu nome é irmão da palavra latina cupido, desejo ou inveja, e de cupiditas, em forma mais violenta, ambição ou cobiça. Nossa palavra cupidez carrega estes significados e também algo da cultura herdada da Roma antiga, cujas elites, desde o final da República, foram profundamente influenciadas pelo epicurismo e pelo estoicismo. Vista por estas filosofias éticas de origem grega, a cupidez afasta-se do amor e aparece como o cacoete que submete aos homens escravos das ambições.

Para a filosofia de Epicuro (341-270 a.C.) e para os estoicos, a felicidade era alcançada pelo controle das paixões que perturbam a serenidade do espírito. Contra os sofrimentos provocados pelos desejos e pelos acidentes da vida, celebravam o ideal de ataraxia - a impassibilidade, distanciamento e controle dos impulsos pela prudência e pela temperança. Em Roma, a principal voz desta ética foi Tito Lucrécio Caro (c. 99-55 a.C.), poeta e filósofo contemporâneo de Cícero (106-43 a.C.) e Júlio César (99-44 a.C.), autor do poema filosófico De rerum natura (Sobre a natureza das coisas), em que expõe o atomismo como ciência capaz de dissipar os temores das superstições e, assim, abrir caminho para a felicidade. Lucrécio via com cautela as ambições políticas, e alude à "cega cupidez de honras" (honorem caeca cupido, 3, 59), frase que reverbera Cícero, que fala da "cupidez, cega senhora da alma" (caeca dominatrix animi cupiditas, Inv., 1, 2). Estavam atentos, ambos, para um dos grandes males que degradam a história, a desmedida ambição de homens de escassa moralidade.

Há nisso um paradoxo, pois o desejo e a ambição são também necessários e causa de prazeres, de nossa perpetuação como espécie e do desenvolvimento que nos levou a compor sinfonias e ir à Lua; trata-se, porém, de compreender sua razão e medida, antes que se tornem pulsões deseducadas, sem parâmetros. É assim que a ambição aparece na ideologia do empreendedorismo, como virtude soberana, do mesmo modo que a cupidez anima os insensatos em sua cega busca de riquezas e honras. Quem paga por isso é o mundo e a sociedade e, no tempo e formas devidas, os próprios cúpidos sujeitos.

É para saciar a cega ambição de bens e honras que homens sem qualidades lutam pelo poder, na academia ou na política, por todos os meios, da demagogia à corrupção, tramoias e golpes. Com esta penúria moral, nada têm a oferecer, especialmente quando abrem mão da legitimidade e do saber cooperativo propiciados pela democracia; é apenas nesta que um Eros eficiente pode agregar e realizar ambições pelo bem comum. A cegueira revela-se ainda na dificuldade desses sujeitos em compreender sua improdutiva estupidez, e suporem que logo será esquecida a gravidade trágica dos atos em que sucumbem um homem e valores nobres da sociedade.

Conquanto vendado e disparando setas errantes, o Cupido tem certamente dons mais doces a nos oferecer, o prêmio para quem sabe reconhecer quais são os gratos desejos que podem nos unir.

FRANCISCO MARSHALL

26 DE SETEMBRO DE 2020
COM A PALAVRA

PRECISAMOS CRIAR REGRAS BÁSICAS DE TRÂNSITO NAS REDES SOCIAIS

DEBORA SPAR, ESCRITORA, 57 ANOS

Professora de Administração da Harvard Business School, é uma das maiores especialistas norte-americanas em questões de gênero, feminismo e do impacto da tecnologia nos relacionamentos sociais. Foi CEO do Lincoln Center for the Performing Arts, em Nova York, de 2017 a 2018.

Frequentadora assídua dos populares talk shows da TV norte-americana e das páginas mais respeitadas do jornal The New York Times, a escritora Debora Spar equilibra a linguagem acessível a um público sedento por conselhos sobre como criar filhos conectados 24 horas às telas dos smartphones com o debate profundo com seus pares, acadêmicos de Harvard, preocupados com o impacto da tecnologia na sociedade e na evolução do ser humano. Seus livros O Negócio dos Bebês - Como o Dinheiro, a Ciência e a Política Comandam o Comércio da Concepção e Wonder Woman - Sex, Power, and the Quest for Perfection são best-sellers. 

No primeiro, ela pesquisou o surgimento de um grande mercado da fertilidade in vitro. No segundo, debruçou-se sobre as exigências impostas às mulheres no século 21, na vida pessoal e profissional. No mais recente, Work, Mate, Marry, Love - How Machines Shape Out Human Destinity, a escritora enfoca questões de gênero e tecnologia, e a interação entre as mudanças tecnológicas e estruturas sociais. Crítica das redes sociais, Debora comenta, nesta entrevista, como a pandemia nos forçou a uma reflexão necessária e urgente sobre nossas relações com as plataformas digitais.

Em episódios históricos como a Primavera Árabe, as redes sociais desempenharam um papel importante e passaram a ser vistas como canais que possibilitaram a libertação de regimes ditatoriais no Oriente Médio. No entanto, escândalos como Cambridge Analytica e, mais recentemente, a disseminação de discursos de ódio e notícias falsas nas redes sociais mostraram o quão nocivas essas mesmas mídias podem ser. Descobrimos o outro lado da rede social?

Absolutamente. E a tragédia é que não previmos isso, nem fizemos nada para impedi-lo. Já em meados da década de 1990, muitas pessoas, eu entre elas, alertavam que uma internet sem regras quase certamente geraria o caos. Em particular, não ter nenhuma orientação para coisas cruciais como privacidade e direitos de propriedade significava que empresas iniciantes seriam capazes de acumular uma enorme quantidade de poder e de controlar a comunicação entre indivíduos em todo o mundo. Estamos vendo isso agora e, infelizmente, será muito difícil colocar esse gênio em particular de volta na garrafa.

Nas redes sociais falta clareza sobre o que é notícia, o que é opinião ou notícia falsa?

Sim. Como as redes sociais são tratadas nos Estados Unidos e em outros lugares como plataformas em vez de veículos de comunicação, elas não têm responsabilidade legal de filtrar ou selecionar o material que é postado. Portanto, há uma total falta de clareza, e de fato uma falta de clareza explícita, sobre o que constitui notícia versus opinião. As formas mais antigas de mídia, como os jornais, precisam diferenciar o que é notícia e o que é opinião. Mas como essas distinções não se aplicam ao ciberespaço, empresas como o Facebook não têm obrigação legal (na maioria dos países) de censurar até mesmo os exemplos mais flagrantes de notícias falsas.

Diante da falta de responsabilidade por parte do Facebook, Google e outras grandes empresas de tecnologia sobre o conteúdo que publicam, Estados Unidos e Europa têm buscado regulamentar a operação das plataformas. Este é o caminho?

Acredito que a regulamentação é a única resposta. Deixadas à própria sorte, as empresas privadas nunca estarão em posição de se autorregulamentar de forma a atender melhor os interesses da sociedade. As formas precisas de regulamentação podem e irão variar entre os países, mas mesmo diretrizes básicas ajudarão a fornecer formas mais claras e, em última análise, mais seguras de se fazer negócios. Pense em uma analogia com os automóveis: uma vez que eles se tornaram predominantes, os governos precisaram intervir para estabelecer "regras de trânsito", questões como limites de velocidade e sinais de pare, que permitiram a todos dirigir com mais segurança.

Na política, observamos o uso de robôs para campanhas de difamação. Como tornar esse ambiente menos tóxico sem abrir mão da tecnologia?

Mais uma vez, é aqui que precisamos desenvolver "regras básicas". Por exemplo, não precisamos banir as redes sociais nem mesmo proibir anúncios políticos nas redes sociais. Poderíamos apenas ter regras que exigissem que os anunciantes políticos fossem identificados como tal. Se um anúncio está sendo colocado por um bot estrangeiro, ele deve informar isso.

Alexa, Siri... Essas assistentes de voz muitas vezes são criticadas por perpetuar visões sexistas, machistas, racistas. Qual é o papel das plataformas diante dessas manifestações sociais?

Pessoalmente, não acredito que Alexa ou Siri sejam projetados para perpetuar o sexismo, o racismo ou qualquer outra coisa. São inovações tecnológicas destinadas a aumentar os lucros das empresas que as empregam, e isso pode ter consequências indesejáveis, infelizes. Assim que começarmos a ter uma noção maior de quais podem ser essas consequências (por exemplo, treinar nossos ouvidos para associar as vozes das mulheres com ajuda ou inteligência com certos sotaques), podemos e devemos projetar conscientemente essas tecnologias para serem mais neutras em termos de valor.

A senhora costuma afirmar que as as mudanças tecnológicas não estão restritas apenas às salas de reuniões e nas empresas. Elas também impulsionam nossos relacionamentos pessoais. Em algum momento, nos esquecemos disso? Acabamos olhando excessivamente para o impacto da tecnologia nos negócios e agora estamos pagando o preço por isso?

Em geral, acho que esquecemos as maneiras complexas pelas quais a mudança tecnológica afeta nossos relacionamentos pessoais e estruturas familiares. É por isso que escrevi este livro (Work, Mate, Marry, Love - How Machines Shape Our Human Destinity), para examinar esses links. Mas eu não concordaria necessariamente que estamos pagando o preço. Acho que é mais, que precisamos olhar para esses links, focar neles e, em seguida, decidir como queremos agir sobre as escolhas pessoais que agora enfrentamos como resultado da mudança tecnológica.

A senhora costuma escrever que as diferentes tecnologias (arado, carro, avião) causaram mudanças comportamentais. Mas agora parece que todos os nossos relacionamentos são alterados por máquinas, o que é um pouco assustador. Ao entrarmos em uma era de inteligência artificial e robôs, como nossos sentimentos e desejos mais profundos irão evoluir?

Bem, ainda não sabemos totalmente. Mas minha previsão é de que nossos sentimentos mais profundos permanecerão em grande parte inalterados: como espécie, parecemos programados para ansiar pelo amor e pela conexão. O que vai mudar é como esses desejos se manifestam. Acredito que formaremos ligações emocionais com seres robóticos. De certa forma, já temos: pense em como todos nós já dependemos de nossos smartphones, por exemplo. Pense em como já nos comunicamos com nossos entes queridos por meio de canais mediados por computador, como o Zoom. Pense, de forma mais mundana, em quantos de nós temos profundas conexões emocionais com nossos animais de estimação. Não estou dizendo que substituiremos nossos amores humanos por amores mecânicos. Mas iremos interagir cada vez mais emocionalmente com as máquinas inteligentes que criamos juntos.

no livro Work, Mate, Marry, Love - How Machines Shape Our Human Destinity, a senhora afirma que, no passado, os modos de produção predominantes produziram um mundo dominado por famílias heterossexuais, em sua maioria monogâmicas, com dois pais. "No futuro, porém, é quase certo que esses padrões serão remodelados, criando normas inteiramente novas para o sexo e o romance, e para a construção de famílias e a criação dos filhos. Evitando a euforia tecnológica e o alarmismo". A senhora oferece visão ousada e inclusiva de como nossas vidas podem ser mudadas para melhor. Parece otimista com relação à tecnologia.

Estranhamente, sim. Acho que a história da tecnologia nos oferece duas lições abrangentes: primeiro, que não podemos reverter a história. Uma vez que criamos nossas máquinas, nós as usamos. Em segundo lugar, depois de um período inicial de euforia, caos e medo e depois de aprendermos a colocar as proteções apropriadas no lugar, aprenderemos a conviver com as máquinas que criamos. Acredito que a tecnologia continuará permitindo que as pessoas se apaixonem e formem famílias de maneiras novas e sem precedentes. Para ser claro, precisamos ter certeza de que essas tecnologias são usadas com segurança, que, por exemplo, protegemos a saúde das mulheres submetidas à fertilização in vitro ou garantimos os direitos daquelas que servem de mães de aluguel para outras pessoas. Precisamos, como eu disse antes, estabelecer regras básicas de trânsito e nos concentrarmos em garantir que as novas tecnologias não aprofundem as desigualdades que já assolam nossas sociedades. Mas, presumindo que façamos isso, me sinto otimista sobre a capacidade de nossa espécie de viver de forma mais justa e inclusiva no futuro.

a senhora disse que a invenção do arado levou ao início da monogamia e do casamento. No século 20, máquinas de lavar, automóveis e anticoncepcionais ajudaram na emancipação das mulheres do "culto da domesticidade". Como a senhora avalia o feminismo hoje, 50 anos depois do início do movimento?

É uma questão complicada. A boa notícia é que as mulheres avançaram muito desde o advento do feminismo. Temos muito mais mulheres em posições de poder e várias gerações de mulheres que conseguiram combinar uma vida gratificante no trabalho com uma vida gratificante em casa. A má notícia, porém, é que as mulheres ainda estão muito sub-representadas nessas posições de poder e ainda lutam para conciliar as demandas conflitantes do local de trabalho e do lar. Elas ainda precisam lidar com o abuso e o assédio sexual e têm mais probabilidade do que os homens de viverem na pobreza.

A senhora geralmente pensa sobre o que acontecerá com o amor, o sexo e o romance à medida que nossos relacionamentos migram do mundo real para o virtual. O que acontecerá com nossas noções mais básicas de humanidade à medida em que enredarmos nossas vidas e emoções com as máquinas que criamos. Conversei recentemente com o historiador norte-americano Timothy Snyder e ele disse que a internet nos fez esquecer nossas habilidades humanas. A pandemia mostrou como somos vulneráveis como seres humanos?

A pandemia definitivamente nos lembrou de nossa fragilidade humana, bem como de nossa necessidade de permanecer conectado com aqueles que amamos. Ao mesmo tempo, porém, também nos lembrou de como já nos tornamos dependentes de nossos computadores e de nossas conexões com a internet. E para o bem e para o mal, nos obrigou a nos tornarmos radicalmente mais dependentes dessas tecnologias.

Frequentemente, ficamos preocupados com as desvantagens da tecnologia, como crianças passando muito tempo nas telas, fazendo com que os pais se sintam culpados. Como equilibrar a necessidade de algum controle, mas sem afastar os filhos da conexão com a tecnologia?

Em primeiro lugar, para as pessoas que cuidam de crianças durante essa pandemia, a culpa não é uma coisa boa. Ser pai é difícil em qualquer circunstância. É extremamente difícil agora. Portanto, os pais precisam abolir o fardo adicional da culpa. Em segundo lugar, as telas em si não são más. E os pais terão um controle limitado sobre o que seus filhos assistem e fazem online. O mais importante é ajudar as crianças a se envolverem com conteúdo que as ajudará a aprender e ter sucesso. Usar o Zoom para se comunicar com a família e amigos é quase sempre uma coisa boa. Assim como descobrir novos hobbies ou aprender novas habilidades. Em tempos de pandemia, prefiro muito mais que um filho se conecte a outras pessoas online do que se isole. É apenas uma luta, e presumivelmente sempre será uma luta, para manter as crianças longe do conteúdo ou de pessoas que poderiam prejudicá-las.

RODRIGO LOPES