sábado, 10 de outubro de 2020


10 DE OUTUBRO DE 2020
FLAVIO TAVARES

PREFEITÁVEIS?

O título deste artigo não aparece nos dicionários, mas é real. Há uma enxurrada de pretendentes à prefeitura de Porto Alegre, imitando a chuva e o frio fora de época. A julgar, porém, pelo primeiro debate na TV, dias atrás, não há quem veja nem fareje os problemas da cidade.

As deficiências da vida urbana foram citadas só de passagem, como se os candidatos fossem turistas recém chegados, que conheceram apenas o pôr do sol no Guaíba. Nosso rio (ou lago) é a joia maior que coroa a cidade, mas sequer foi citado, como se fosse um trambolho incômodo.

Em apenas 10 ou 15 anos, o Guaíba estará sob ameaça de virar pestilenta massa líquida, se a pretendida mina de carvão a céu aberto, em terras de banhado à beira do Jacuí e a 12 quilômetros da Capital, for licenciada pela Fepam, mas nenhum dos "prefeitáveis" sequer pensou nisso. Dirão que "é atribuição do governo estadual" e, assim, lavam as mãos, como Pilatos.

O palavreado foi constante mas genérico e tolo, com meras intenções, nunca planos concretos. Essa pífia visão do que seja governar domina, hoje, os aglomerados que se autodenominam "partidos", num embuste ao que devia ser a função da política em democracia.

Sim, pois democracia não é só votar, mas penetrar a fundo nos problemas e apontar soluções para o futuro. A tragédia de Brumadinho (MG), onde a mineração matou gente e esterilizou rios e terras, não é modelo a seguir.

Mas não foi só isso que os "prefeitáveis" não viram no debate. Esqueceram-se, até, da pandemia. Não apontaram sequer os símbolos do descaso - os buracos das ruas e a voracidade dos "azuizinhos", que se limitam a multar sem ajudar no trânsito.

Sem ideias, os "prefeitáveis" se mostraram inigualáveis e isto, pelo menos, rima.

Tudo isto, porém, nada é, comparado à nova e lúcida encíclica do papa Francisco. Todos irmãos critica o egoísmo do neoliberalismo e apela a sepultar o individualismo da sociedade de consumo, que se guia só pelo lucro, nunca pela fraternidade solidária.

O Papa aponta a deformação e manipulação de conceitos como democracia, liberdade ou justiça, além da perda do sentido social e da consciência histórica como causas diretas do desastre atual, que a pandemia revela. Mas alertou que, após controlada a covid-19, persistirá o perigo de "cairmos num consumismo febril e em novas formas de egoísmo".

Sobre a responsabilidade social dos governos, o Papa lembrou que "ajudar os pobres com dinheiro é remédio provisório nas emergências. O objetivo deve ser consentir uma vida digna através do trabalho". E frisou: "Não há pobreza pior do que privar a dignidade do trabalho". 

Jornalista - FLÁVIO TAVARES

10 DE OUTUBRO DE 2020
OPINIÃO DA RBS

MAIS PERTO DA VACINA 

O grande anúncio esperado pela humanidade neste sombrio 2020 parece enfim estar se aproximando. O Brasil e o mundo podem receber, antes do final do ano, a tão aguardada notícia da aprovação de ao menos uma vacina segura e eficaz contra o novo coronavírus. A esperança de que a imunização contra a doença que até agora vitimou mais de 1 milhão de pessoas ao redor do planeta se fortaleceu na última semana pelas declarações do diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, e do diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom.

A chegada da vacina contra a covid-19 será o divisor de águas deste capítulo marcante da História. Ao mesmo tempo que permitirá pôr um freio na escalada de mortes, deverá colocar um fim no doloroso período de imposição de afastamento social entre famílias e círculos de amizade. Injetará maior confiança na retomada da economia e na recuperação dos empregos perdidos ao longo da pandemia. Significará uma espécie de início de uma era voltada a curar todas as feridas socioeconômicas e emocionais abertas pela grande crise sanitária em um século.

Desenvolver uma substância capaz de evitar infecções pelo novo coronavírus é o primeiro e mais importante passo, mas não é tudo. Provavelmente, ao longo dos próximos meses um número maior de laboratórios e de países vai anunciar a aprovação de novas vacinas e, por isso, é preciso evitar que a possível multiplicidade de opções se transforme em uma guerra entre governos e empresas. Desconfianças ideológicas, assentadas apenas sobre a nacionalidade da vacina, também são inoportunas. Somente a luz da ciência deve ser seguida. O segundo ponto é o acesso universal. A imunização tem de ser assegurada às populações de todas as nações, a preços justos e, em alguns casos, como nas regiões mais pobres, até subsidiada. É uma questão de segurança planetária e de humanidade. Não se trata de um fármaco qualquer obtido por grandes corporações.

Assim que a vacina estiver disponível, devem ter prioridade, como está previsto, os grupos considerados mais sensíveis à doença ou expostos ao vírus, como idosos, profissionais de saúde, pessoas com comorbidades, grávidas e povos vulneráveis, como os indígenas. Até que toda a população possa ser imunizada. Mesmo assim, ficarão lições que precisam ser aprendidas por governos e sociedade para o enfrentamento de outras pandemias no futuro. 

No caso de países como o Brasil, a desordem causada pela eclosão do novo coronavírus serviu para escancarar as desigualdades sociais, o péssimo sanea- mento e a gritante assimetria no acesso à internet, com impactos profundos na educação. São problemas, aliás, que nem sequer precisariam de uma crise da magnitude da atual para serem atacados. Como agora estão mais evidentes, fica a expectativa de que o país possa encontrar a rota para formular e administrar os remédios adequados para curar a vergonhosa chaga do subdesenvolvimento.

 


Papel do síndico é "meter a colher"

Projeto de lei aprovado pelos deputados gaúchos prevê que responsáveis por condomínios comuniquem a polícia sobre agressões

O que você faz se souber que um vizinho bate na mulher ou maltrata os filhos ou um idoso? O correto é denunciar. Esta é uma das mais eficazes medidas para combater a violência doméstica. E foi pensando em reforçar essa cultura que deputados gaúchos aprovaram o projeto de lei que determina que responsáveis por condomínios comuniquem a polícia sobre agressões contra mulheres, idosos, crianças e pessoas com deficiência. Só na Capital, a determinação atinge a cerca de 14 mil síndicos. O anonimato está garantido nas denúncias.

Autoridades comemoram mais essa iniciativa, mas alertam: essa não deve ser uma obrigação apenas de síndicos, mas de todos moradores, de toda a sociedade.

- Independentemente de lei, toda pessoa deve ter essa iniciativa. A gente tem de meter a colher. Na situação do marido com a mulher, do idoso com o filho, tem de haver a participação da sociedade para proteger a pessoa vulnerável. Entendo essa legislação nesse contexto, da necessidade de que possamos juntos colaborarmos para evitar essas agressões - destaca a promotora Angela Salton Rotunno, coordenadora do Centro de Apoio Operacional de Defesa dos Direitos Humanos do Ministério Público.

Quando foi proposto, o PL 71, de autoria da deputada Franciane Bayer (PSB), assustou a categoria de gestores de condomínios pela multa que previa para casos de descumprimento. Mas a sanção foi retirada antes da aprovação. Além de determinar que síndicos ou administradores denunciem situações de violência, o projeto prevê que cartazes sejam afixados para divulgar o teor da norma.

- Nossa preocupação era a multa, pois obrigações já existem previstas no Código Civil. Aliás, são obrigações para todos os moradores, todos são corresponsáveis - diz Mauren Gonçalves, presidente da Associação de Síndicos e Subsíndicos de Condomínios (Assosindicos-RS).

No cargo há quatro anos, Mauren recorda de apenas três casos em que síndicos buscaram orientação sobre como agir em relação a situações de violência entre vizinhos. No conglomerado onde Mauren é síndica, desde o começo da pandemia já existem cartazes com telefones para este tipo de denúncia.

- O projeto é bom, pois reforça a obrigatoriedade de colocar cartazes e circulares para conscientizar toda a comunidade - atesta a presidente da Assosindicos.

Anonimato

Estatísticas realçam a importância de cada um estar atento ao que acontece na vizinhança: segundo o MP, entre 80% e 90% desse tipo de caso de violência, contra pessoas vulneráveis, ocorre dentro dos lares. Para quem tem medo de se identificar, se envolver em processo judicial ou se indispor com o vizinho, a boa notícia é de que o anonimato segue garantido. O delegado Thiago Albeche, do Departamento Estadual de Proteção a Grupos Vulneráveis, diz que a maior parte das denúncias são anônimas.

- Todas as formas de incentivo a denúncias são bem-vindas - diz o policial sobre o projeto de lei.

Quanto a eventual responsabilização de síndicos com base no projeto de lei, o delegado explica que não existe responsabilidade penal objetiva por parte deles, ou seja, não basta que exista crime no condomínio para que, caso não notificado, gere a responsabilidade criminal automática dele:

- É preciso omissão voluntária e, ainda, avaliação sobre o quanto essa omissão possa contribuir para casos de violência. Esse, pelo menos, é o aspecto penal que é analisado. Ainda não sabemos ao certo como será controlada essa obrigação que está sendo criada.

O projeto foi aprovado no dia 30 de setembro e está na fase de redação final na Assembleia Legislativa para depois ser enviado ao governo para análise e sanção do governador Eduardo Leite. A expectativa é de que isso ocorra nos próximos dias.

- Estou otimista pela sanção do governador e acredito que vai dar grande diferença nos condomínios com a denúncia pelo síndico. Mas todos nós podemos e devemos fazer a denúncia. As pessoas ficam com receio de estar interferindo no convívio da família, mas temos de entender que a violência doméstica está acima disso. Essa violência está na sociedade e nossa denúncia pode salvar uma vida - explica a deputada Franciane Bayer.

ADRIANA IRION 



10 DE OUTUBRO DE 2020
+ ECONOMIA

Cultura home office "É bom limpar também o lixo interno" 

Pouco antes da pandemia, Lara Piccoli e o sócio, Fábio Bernardi, assumiram o controle de uma agência de propaganda. Em plena quarentena, mudaram o nome de Morya para House of Creativity (HOC, que eles pronunciam como 'rock', não só por coincidência). E tudo isso aconteceu com um bebê, Santiago, agora com um ano e nove meses, em casa. Lara ri:

- Brinco que estamos superfelizes, com um punhado de sonhos em uma mão e boletos para pagar na outra. 

Isolamento

"Estamos em home office desde 16 de março. Somos 80 pessoas trabalhando de casa. Fico absorvida com o Santiago, mas trabalho, faço reuniões. A rotina está diferente, até porque sempre fui superorganizada. Em casa, está tudo misturado, rotina doméstica, cuidado com o bebê, o trabalho. Na empresa, fizemos pesquisas. Na segunda rodada, ninguém disse querer voltar ao escritório até o final do ano. Vamos nos estruturar para não precisar voltar todos os dias. Vamos reforçar a estrutura nas casas para estudar um rodízio, ver uma nova rotina."

Leitura e lazer

" Sempre tive certa mania por livros, transferi parte para o aprendizado digital. Tenho uma fila de cursos, desde educação positiva para pais e professores até uma pós-graduação na PUCRS em psicologia positiva. De séries e filmes, vi Dilema das Redes. Como gosto de ler mais de um livro de uma vez, estou com Reinventando as Organizações (de Frederic Laloux), que fala da nova era das empresas, e Qual seu Modelo Digital de Negócio (de Peter Weill e Stephanie Woerner)."

Combate ao coronavírus

"Achei muito confuso. Sou uma pessoa orientada a buscar soluções, não a remoer problemas. Como não consigo chegar a uma conclusão, isso tirou meu chão. Entre as fontes consolidadas de conhecimento e informação, não existe um diagnóstico uníssono. É muito difícil lidar com essa incerteza. Até com a restrição de liberdade já aprendi a lidar, mas a falta de respostas cansa demais."

Aprendizado

"Além de tentar conviver com a incerteza, teve um lado muito positivo: rompeu uma barreira que há muito tempo queríamos quebrar. Estamos todos mais flexíveis. A falta de alternativa nos fez avançar sem parar para pensar no esforço de romper a rotina. De certa forma, foi libertador. E aconteceu de uma forma que não tem culpado, ou tem, mas é o coronavírus. Temos uma cultura de apontar o erro, culpar. Precisamos mudar."

Reflexões

"Lidar com a incerteza e a falta de controle foi o mais impactante. Outra foi aprender a distinguir o que importa de verdade na vida. Obrigou a pensar no que a gente realmente precisa para viver e o que faz falta. Tem a ver com relações humanas, familiares, amigos, colegas. A gente acumula muito lixo, é bom limpar o lixo interno, a pandemia nos ajudou a fazer essa higienização."

Largada em projeto de 19 torres 

A reação do mercado imobilário fez a Multiplan retomar um dos mais ousados projetos da história da Capital: o Golden Lake, que prevê até 19 torres no entorno do BarraShoppingSul e do Jockey Club. Na Avenida Diário de Notícias, estão sendo plantadas dezenas de palmeiras. Na entrada, está quase pronta uma construção que deve servir como plantão de vendas. A Multiplan, dona do centro de compras, ainda não dá detalhes sobre data e condições, mas fontes ligadas à empresa confirmam que sim, o Golden Lake será lançado em breve. Com investimento estimado em R$ 2,5 bilhões, prevê até canais navegáveis.

É inspirado no Golden Green, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, que foi o último com jardins projetados por Burle Marx, e tem 14 torres, dois clubes e um campo de golfe. O projeto já foi autorizado pela prefeitura de Porto Alegre, com contrapartidas que alcançam R$ 84 milhões caso o planejamento inicial seja todo executado. Quando detalhou o Golden Lake à coluna, o presidente do grupo Multiplan, Isaac Perez, disse que a intenção era construir as torres de acordo com a demanda. Se houver muita procura, a construção terá ritmo mais rápido. Se não for tão alta, a implantação será em fases.

MARTA SFREDO 


10 DE OUTUBRO DE 2020
J.R. GUZZO*

O plágio do dr. Kassio 

Esse dr. Kassio, o jurista do Piauí e do "centrão" que o presidente Jair Bolsonaro indicou para ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal Federal pelos próximos 27 anos, está dando mais trabalho do que se poderia esperar. O homem, segundo Bolsonaro, foi escolhido porque tomou "muita tubaína" com ele, não se chama Sergio Moro e, no entender do presidente, é um homem "leal" à sua pessoa - algo que jamais fez parte dos requisitos exigidos para o cargo.

Mas ele próprio, Kassio Nunes Marques, já foi além. Cinco dias depois de ser anunciado o seu nome, comprovou-se que ele copiou e colou na "tese" que apresentou na "Universidade Autônoma de Lisboa" (escola particular paga; não confundir com a verdadeira Universidade de Lisboa) trechos inteiros (incluindo os erros de português) do trabalho escrito por um advogado do Piauí que é seu amigo. Não citou em nenhum lugar o nome do amigo; chama-se a isso de "plágio".

Não que a descoberta vá atrapalhar a sua vida em alguma coisa. O dr. Kassio conta com o apoio integral e simultâneo do presidente Bolsonaro, do ministro Gilmar Mendes e da massa de políticos enrolados com o Código Penal - que, como se sabe, são os que resolvem as coisas na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, a quem cabe aprovar o nome indicado. Daria na mesma, exatamente, se revelassem que ele é o verdadeiro Jack, o Estripador, ou algo assim.

Bolsonaro, o mundo político da extremaesquerda à extrema-direita e mais tudo o que passa por gente "responsável" neste país estão convencidos de que a sua nomeação é essencial para a "governabilidade" do Brasil. Diante desta evidência, quem é que vai ficar regulando detalhes como "plágio" etc. etc.?

A realização mais decisiva do dr. Kassio Nunes como jurista foi ser indicado para a magistratura federal por Dilma Rousseff; ali, manifestouse contra a prisão de criminosos condenados em segunda instância e a favor da compra de lagostas, com dinheiro do erário público, para os seus futuros colegas do STF. Sabe-se, agora, como foi escrita a sua "tese".

A sua indicação, pelo que se pode observar dos fatos como eles são, foi péssima; ele está conseguindo fazer com que fique mais péssima ainda.

*Conteúdo distribuído por Gazeta do Povo Vozes

J.R. GUZZO*

sábado, 3 de outubro de 2020


03 DE OUTUBRO DE 2020
LYA LUFT

Um mundo não deserto 

Aí a gente acorda, pelas vidraças percebemos que está mais escuro do que deveria nesta época do ano: para quem, como eu, ama chuva, trovões e a sensação de abrigo que isso me dá - porque ando presa em casa -, maravilha.

Quando precisava ir à escola, em criança, e patear na lama vermelha da rua ainda não calçada na frente de casa, eu odiava. Mas agora, reclusa, vejo com certa alegria que vai chover. Seguidamente, aliás, quando mais aborrecida ou inquieta, me pego pensando, "se ao menos chovesse".

Nem eu sei que ritual psíquico remoto isso significa, mas é real. Claro que aí também penso nos pobres, nos desalojados, nos removidos de suas casas, nas aflições do mundo em geral, coisas que desde menina me atormentam. "Essa guria pensa demais", era uma das coisas que diziam de mim, além de "está sempre no mundo da lua" e "não aprende disciplina".

Mas o consolo que a chuva me dá, esse é verdadeiro e me faz um bem danado nestes tempos, repito, mais do que esquisitos. Vários amigos doentes; um ou outro entubado; um, queridíssimo, que chamo irmão, com sequelas permanentes, no Rio. Muito me ajudou, me salvou, mas agora, se pudesse decidir, talvez quisesse ir embora para esse lugar que ninguém sabe o que é, mas todo mundo espera que seja pelo menos melhorzinho.

Como disse Sócrates, quando mulher e discípulos se desesperavam ao seu redor, ele tendo de beber cicuta (porque afinal a democracia nem entre os gregos foi perfeita): "Por que estão chorando? Se morrer for um sono sem sonhos, que bom. E se morrer for reencontrar os amados que já se foram, que bom".

Não estou escrevendo sobre morrer, ou, como já escrevi em algum poema, sempre que digo morte, falo na vida. Então, por favor, há que viver direito, ao menos decentemente. Difícil, meio isolados. Difícil, preocupados com as pessoas queridas. Difícil, sem uma boa perspectiva para o fim da Peste do milênio, e com gente ainda achando tudo isso bobagem.

Mas há que viver, mesmo com o pai da Mafalda morrendo, 88 anos não está mal, e tanto de bom, inteligente, engraçado e verdadeiro nos deixou. Mesmo o pai da Mônica sendo injuriado com uma tirinha fake e besta, Mônica com piupiu de fora. Mesmo com gente incendiando de propósito um pedaço de floresta: mostraram claramente um imbecil criminoso caminhando pela beira da mata ressequida, puxando atrás de si o que parecia um trapo inflamado e tocando fogo nas macegas.

Há que viver e querer ser decente, direito, não bobo, mas um pouco otimista, nunca amargurado demais porque amargura contagia todos ao redor, mau humor da mesma forma. Não que a gente deva fingir, mas levantar o queixo, respirar fundo, pensar que, como dizia meu pai quando eu reclamava em criança "na guerra é muito pior", e torcer para que, além da guerra dos insultos, burrices, notícias fake e pequenas grandes maldades, as coisa não piorem ainda mais por aqui.

A gente precisa acreditar que, mesmo nas partes mais remotas, mais sofridas, não existe só deserto de árvores e gentes, mas que as gentes sempre vão acorrer, as árvores reflorescer -, se não formos demais ignorantes, metafisicamente burros, e permitirmos que as coisas, afinal, endireitem.

LYA LUFT

03 DE OUTUBRO DE 2020
MARTHA MEDEIROS

Os padrões 

Ela tem 26 anos, é formada em Direito e trabalha num importante escritório. Namora um engenheiro de 28, os pais de ambos são amigos e a festa de casamento já está sendo planejada pelas duas famílias. Deram entrada num apartamento e dentro de dois anos ela quer engravidar. Enfim, é uma garota fora do padrão, pois, hoje, quem está na casa dos 20 e 30 se encontra mais perdido que cebola em salada de frutas. Entrou numa faculdade e desistiu, tentou montar uma confecção e não deu certo, namorou cinco anos e não se envolveu, namorou três semanas e foi morar junto, separou e foi viver fora, voltou e continua sem planos, mas tudo bem, é uma criança, recém fez 40. Seria este o novo padrão?

Mas tem aqueles que não se sentem perdidos, apenas não têm como meta juntar dinheiro, preferem realizar um trabalho que faça diferença na sociedade. Não pretendem se sacrificar para comprar um teto próprio. Não sonham em ter carro. Não planejam formar família, ainda que, um dia, possa acontecer. Pra já, querem apenas estabelecer conexões, viajar, ter experiências.

Talvez seja este o novo padrão: jovens atuantes, mas que não almejam chegar lá, pois "lá" é uma abstração. Diferente dos paralisados. Estes também sonham em produzir alguma coisa, só não sabem por onde começar. Grudam o rosto no celular, só se relacionam de forma virtual, deixaram os amigos de infância pelo caminho e andam no máximo com um ou dois apáticos que também não sabem onde fica a saída de emergência dessa bolha. Precisam de um empurrão imediato.

Parece uma sorte termos superado esta fase, não? Crescemos. Hoje temos uma vida estruturada e resolvida. Relação estável, endereço fixo, salário digno. Fazemos terapia, praticamos esportes e postamos maravilhas nas redes sociais: somos o protótipo da pessoa ajustada.

Tão ajustada quanto a arquiteta que se divorciou do marido e hoje se relaciona com uma parceira do mesmo sexo. Tão ajustada quanto o jornalista que abandonou a profissão para se aventurar na política. Tão ajustada quanto o avô que fuma baseado, o padre que corre maratona escutando rock, a filósofa que dá cursos de sexo tântrico. A maturidade também não tem uma única face.

O padrão único era cômodo. Jovens e adultos habitando um mundo previsível e imutável, testado e aprovado, que duraria para sempre, não tivessem sido atropelados pelo alcance ilimitado da informação, pela instantaneidade do tempo, pela diversidade dos costumes. Adeus, padrão. Não existe mais padrão. Agora cada um vive a seu modo, cada um inventa seu próprio destino. É um universo mais difícil, nem testado, nem aprovado, onde tudo pode ser realizado e não há garantia de final feliz, mas o durante tem sido inspirado. Não sei por que acho isso bom, mas acho.

MARTHA MEDEIROS

03 DE OUTUBRO DE 2020
CLAUDIA TAJES

Não chame gente de animal 

Estou em campanha para que nenhum ser humano, homem ou mulher, desses que a gente vê a toda hora sendo violento, grosseiro, desrespeitoso, corruto e etc., seja chamado de animal.

Animal por quê? Animal parte para a ignorância sem motivo?  Destrói o lugar onde vive?

É racista?

Preconceituoso? Acaba com o futuro dos outros? Trata a fêmea feito lixo?

Se diverte com a desgraça alheia? Humilha? Espezinha?

Não há injustiça maior com um animal do que compará-lo aos incivilizados dos nossos dias. E nunca é demais lembrar que a falta de civilidade não tem nada a ver com classe social ou grana, como se viu no fim de semana passado, nas cenas do restaurante Gero, em São Paulo, e no Leblon, no Rio de Janeiro. Caiu o queixo até de quem já viveu bastante e viu de (quase) tudo.

Baixaria na Alta Roda, Elite Transviada, Se Minha Mercedes Falasse. Vergonha alheia em cartaz.

A nossa mania de chamar os piores humanos pelos nomes de espécies animais: que equívoco. Por que um sujeito que não vale nada é chamado de cachorro se os cães são os bichos mais fiéis que existem? Para protestar - por exemplo - contra um ministro do Meio Ambiente que decidiu passar a boiada e acabar com os critérios de preservação de áreas naturais, a turma se exalta: esse ministro é um cachorro!

Cachorro, vírgula. É um homem. Desprezível como os piores homens.

E o caso da galinha e da vaca? Bichos simpáticos e eternamente a serviço dos humanos. Nem vamos falar aqui dos maus-tratos que sofrem em situações de exploração para não estragar o dia dos leitores. Fato é que, para ofender uma mulher - e são muitos os motivos, como comportamento sexual, atuação política, atitudes de liderança, defesa de causas, para ficar nos mais comuns -, pessoal não deixa barato. Fulana é uma baita de uma galinha! Beltrana é uma vaca mesmo.

Não basta ofender as gurias pelas desrazões acima, ainda tem que botar dois animais dos mais dóceis e úteis no meio. Xingamento 100% sem noção.

Agora, enquanto o Pantanal queima, as imagens dos animais são de partir o coração. Bichos feridos, sem abrigo, sem água, sem comida, sem rumo. Mães tentando salvar suas ninhadas. Onças, jacarés e jiboias atravessando a estrada por instinto, só que não existe mais para onde fugir. Os macacos, que em outros tempos se diria que parecem gente, o que seria ofensivo a eles na atual situação, reagem com desespero. Isso tudo para alguns aumentarem seus já imensos, extensíssimos pastos.

O fogo também revelou a situação do Parque das Onças, no Mato Grosso, perto de onde ficam (ou ficavam) as pousadas mais caras. A região toda tinha um só funcionário para cuidar do único parque de preservação da onça pintada no mundo.

Orçamento: R$ 45.120 por ano. Ou R$123,60 por dia. Quantas outras reservas devem estar na mesma penúria?

É preciso dar o nome certo para quem está promovendo a tragédia no Pantanal, na Amazônia, no Brasil. Não são ratos, abutres, urubus, cobras, burros, nada disso. Não vamos ofender os animais.

O criminoso que está acabando com a natureza é o homem, sempre ele. Sempre miseravelmente humano.

CLAUDIA TAJES

03 DE OUTUBRO DE 2020
LEANDRO KARNAL

O ÓDIO MAGNÉTICO 

Há muitas maneiras de conceber. Posso supor que exista, entre duas pessoas que se enfrentam, um magnetismo cármico. Coisas acumuladas, asseveram alguns, em outras vidas. Viram, tornam a virar e reencontram quem detestam. Podemos supor, saindo do campo religioso, que seja um tipo específico de identidade. Ninguém ama ou odeia sem que exista alguma projeção. De forma quase matemática, também posso elaborar a teoria de que, se não gosto de alguém, cada vez que vejo a pessoa ela me incomoda. Assim, acabo imaginando que exista uma coincidência em constantes reencontros daquele ser em uma festa ou ao longo da vida. Talvez seja apenas o fato de que eu noto quando reencontro e suponho, de forma narcísica, que exista um plano acima de mim que me faz rever o rosto rejeitado. Deve ser como um farol vermelho: eu acho que pego muitos porque só noto o vermelho e considero o verde natural e adequado a minha impaciência. Por fim: seria apenas um acaso entre o bizarro e o poético?

Jürgen Stroop (1895-1952) foi um dos tantos canalhas nazistas que a guerra empoderou. Membro da SS, teve o trágico papel de reprimir o levante do Gueto de Varsóvia, em 1943. Não bastava matar os habitantes do gueto. Ele, pessoalmente, explodiu a Grande Sinagoga de Varsóvia a 16 de maio daquele ano. Ao apertar o botão dos explosivos, gritou Heil Hitler! A folha criminal do monstro cresceu: massacrou civis poloneses, foi repressor na Grécia e mandou executar prisioneiros norte-americanos. Esse humano infeliz e racista terminou preso após a guerra. Foi julgado no campo de Dachau e enviado para a Polônia, agora um país controlado pelo regime comunista que ele tanto odiou. Novo julgamento e abundantes provas do sadismo de Stroop. Neste momento, voltaremos ao primeiro parágrafo.

Com quem o monstruoso nazista dividiu cela? Kazimierz D. Moczarski (1907-1975) foi participante da resistência polonesa contra o nazismo. Tinha tentado matar Stroop mais de uma vez. Foram inimigos declarados nos anos da ocupação alemã. Enfim, estavam juntos, o nativo e o invasor.

O resultado dos meses de convívio na prisão Mokotów virou um livro: Conversas com um Carrasco (Conversations with an Executioner). Interessante comparar esse texto com a análise de Hannah Arendt sobre Eichmann.

Stroop foi dependurado em uma corda no dia 6 de março de 1952. Moczarski passou mais um tempo encarcerado e, depois da desestalinização, acabou sendo perdoado e solto. Os encontros dos dois foram publicados em uma revista e, depois da morte do polonês, surgiu o livro. Traduzido para o alemão, o francês e o inglês, virou um sucesso. Com o tempo, foi adaptado para a televisão polonesa, tornou-se documentário britânico e foi para o teatro dos EUA pela criação de Philip Boehm.

Stroop e Moczarski não se conheciam até a idade adulta. Durante a guerra, viraram inimigos absolutos. Se um dos dois tivesse conseguido, teria assassinado o outro com prazer. Ambos foram prisioneiros do mesmo regime polonês stalinista e conviveram por meses na mesma cela, na mesma prisão, na mesma cidade onde o ódio de um pelo outro tinha vicejado. No futuro, o polonês seria conhecido pela obra sobre o homem que mais tinha odiado e seu nome, per omnia saecula saeculorum, continuará associado ao do carrasco. Era a coincidência ou magnetismo cármico de que eu falei ao começo?

O encontro de dois inimigos em situação distinta magnetizou muitas narrativas. O cartaginês Aníbal e o romano Cipião travaram uma guerra acirrada por anos. Plutarco comparou as virtudes cívicas e militares de ambos. O ódio entre os dois generais parece tão impressionante que chegou a ter curso uma história apócrifa de que no final da vida, exilados, eles teriam compartilhado muitos momentos de conversas sobre os impérios que defenderam e que agora os rejeitavam.

Sabemos que o mundo político dá voltas surpreendentes e a ciranda dos holofotes é caprichosa. Quando um papa era coroado, alguém dizia ao recém-eleito que a glória do mundo era passageira (Pater Sancte, sic transit gloria mundi!). Algo similar era dito aos generais romanos em triunfo. Seria uma boa frase para todos que assumem cargos. Poderiam dizer algo mais desenvolvido ao que toma posse em qualquer cargo: "Você está no topo agora. O trono já pertenceu a gente que te combatia e em breve o poder voltará a ser dos teus inimigos. Cuidado! A cadeira do poder queima. Quem alto sobe alto cai. A glória política é a mais passageira de todas".

As frases poderiam ser entendidas com dois sentidos. Um homem sábio, porventura, pensasse: "É verdade, preciso pensar que a impermanência domina tudo". Se houvesse a remota hipótese de um menos consciente ser eleito ou indicado para um cargo, a reação poderia ser oposta: "Já que passa, vou aproveitar para enriquecer rápido e proteger minha família". Qual pensamento teria ocorrido ao ex-poderoso Stroop ao ser enforcado? É preciso ter esperança, e ela, geralmente, não está no poder.

LEANDRO KARNAL

03 DE OUTUBRO DE 2020
FABRO STEIBEL

A UNIVERSIDADE DO ESPAÇO 

A Estação Internacional Espacial (ISS) está estudando lançar a Universidade Orbital. O projeto está em fase bem inicial, mas já mostra o quanto o modelo de universidade aqui na Terra é limitado. Falta a universidade, no Brasil e no mundo, aprender com as lições que nos levaram à órbita. Uma delas é usar a internet para avançar nos desafios do milênio.

Se há uma coisa que a covid-19 nos ensina é que modelos híbridos precisam ser adotados por todos. Modelo híbrido é a forma de pensar o mundo considerando o mundo físico e o mundo digital como lados da mesma moeda. Pensamento híbrido é deixar de falar em "educação online" ou "ensino a distância" para pensar em "ensino". É parar de imaginar sala de aula para pensar em espaço de aprendizagem, online ou não.

As universidades são pouquíssimo abertas ao digital, quiçá ao pensamento híbrido. Prova disso é o quanto as faculdades (mesmo aquelas com anos de experiência em Ensino a Distância) suaram para não perder o ano acadêmico no primeiro semestre. No corre-corre de escolher plataformas para dar aulas online, e de saber quem tinha internet suficiente em casa, demos nosso jeitinho brasileiro. Mas ninguém estava preparado para usar internet para o ensino. Ninguém.

Se temos coworking de escritórios, por que não temos colaboratórios de medicina? Se temos marketplaces de saúde ou de eletrônicos, por que não temos o mesmo de cientistas? Se temos homeschooling para menores de idade, porque tão poucos professores usam ferramentas como Miro e Trello para "prototipar" soluções com os alunos entre as aulas? Mesmo as férias da graduação, duas vezes ao ano, poderiam ser híbridas. Até porque as aulas param, mas a pesquisa, não. Com isso, deixamos de ocupar o campus com mais pessoas, justo quando temos espaço para promover inclusão.

A ISS orbita sobre nossas cabeças com seis cosmonautas por vez. O que ela nos ensina sobre universidades? Primeiro, que tudo o que é teórico deve ser prático, aplicado. Exatas ou filosofia, a ciência espacial usa de tudo. Segundo, que países podem colaborar. Se na Guerra Fria todos trabalham em separado, a governança da ISS já é compartilhada (inclusive com o setor privado). E, por fim, a ISS é pensada com cabeça de interoperabilidade. Assista ao filme Apollo 13, com Tom Hanks, para entender o conceito e como um parafuso sem interoperabilidade nos fez fracassar na última tentativa de ir à Lua.

O exercício da Universidade Orbital está só no começo e é acompanhado de dois outros desafios, um relacionado à criação de negócios e outro aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. A solução criada deve funcionar como um satélite, uma plataforma, de conexão de atores e práticas. A Universidade Orbital não será um campus no Espaço (a tecnologia não nos permite isso). Mas ela já nos ensina que nosso sistema de educação precisa dar mais voltas na órbita para se inspirar, e ser diferente. Para o infinito e além, onde nenhuma universidade jamais esteve.

FABRO STEIBEL


03 DE OUTUBRO DE 2020
COM A PALAVRA - CLAUDIA COSTIN - professora e pesquisadora, 64 anos

É PREFERÍVEL VOLTAR ÀS AULAS AGORA DO QUE ESPERAR A VACINA

Ex-ministra e hoje diretora de Inovação e Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas, é uma referência em políticas públicas na área de educação no Brasil

Mesmo tendo atuado por muito tempo no serviço público, a professora e pesquisadora Claudia Costin ainda se impressiona com a atuação do governo federal na educação. E não de forma positiva: é a falta de protagonismo do Ministério da Educação (MEC) que a preocupa, sobretudo durante a pandemia. Ao menos, observa, a inércia federal deu espaço para que Estados e municípios arregaçassem as mangas e dialogassem. Claudia é um dos maiores nomes brasileiros quando se pensa em políticas públicas na área: foi professora-visitante da Universidade de Harvard, diretora Global de Educação do Banco Mundial e ministra da Administração e Reforma do governo Fernando Henrique Cardoso. Hoje, é diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV) e presta mentoria a três secretários estaduais e 50 municipais de educação de todo o Brasil. Nesta entrevista concedida por Skype, ela fala sobre a volta às aulas na pandemia, as boas práticas de países-modelo e sua recusa em ser ministra da Educação do governo Jair Bolsonaro.

O BRASIL VOLTA ÀS AULAS, MAS EM MUITOS ESTADOS A EPIDEMIA NÃO ESTÁ CONTROLADA NOS PARÂMETROS QUE OUTROS PAÍSES ESTAVAM QUANDO RETOMARAM. VOLTAMOS NA HORA CERTA?

Não sou epidemiologista, o que faço é ajudar secretários a preparar a escola para a retomada. O que certamente não queremos é voltar com escolas despreparadas. Por outro lado, surgiu uma narrativa de voltar só com vacina. Conversei muito com epidemiologistas e todos me disseram: vacina para amplas massas não aparecerá antes de 2022. Temos de organizar como fizeram países com cultura de contato físico como a nossa. Hoje, há a consciência de que, se as condições epidemiológicas melhoram, é preferível voltar às aulas do que esperar a vacina. Especialmente se olharmos para crianças de maior vulnerabilidade. Elas estão pior do que se estivessem na escola. Estão na rua, sem a rede de proteção social oferecida pela escola. Dentre as 79 economias que participaram do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), o Brasil tem a segunda maior desigualdade educacional. Precisamos lidar com isso.

O GOVERNADOR DO RIO GRANDE DO SUL, EDUARDO LEITE, CONCLUIU QUE NÃO HAVIA CONSENSO SOBRE SE SERIA ADEQUADO OU NÃO RETOMAR AS AULAS PRESENCIAIS. EXISTE ALGUM CONSENSO?

Há dois consensos. O primeiro é que é fundamental usar máscara. A decisão do governador deve se basear em uma pesquisa recente, segundo a qual crianças com menos de 10 anos são vetores muito mais fracos de transmissão a adultos. Por serem geralmente assintomáticas, não tossem nem espirram, então não contaminam tanto. A segunda questão fundamental é ter retorno escalonado: não dá para ter uma turma de 35 alunos. Geralmente, outros países começaram a retomada com os alunos mais velhos.

A SENHORA VEM ACOMPANHANDO O TRABALHO DO GOVERNO GAÚCHO NA EDUCAÇÃO DURANTE A PANDEMIA?

Pouco. No Rio Grande do Sul, sou mentora apenas do secretário de Educação de Esteio. Conversei com o governador há dois meses.

SOBRE O QUÊ?

Se a volta deveria começar pela Educação Infantil e pela creche. Falei que achava muito arriscado crianças de dois anos ou menos voltarem. Aliás, saiu na resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE) que é melhor deixar para mais tarde. As pesquisas mostram que a transmissibilidade é baixa, mas com criança muito pequena é difícil ter distanciamento. Acho que o ideal é creche não voltar agora.

HÁ VÁRIOS PROTOCOLOS CRIADOS NAS ESCOLAS, DESDE A OFERTA EM ÁLCOOL EM GEL ATÉ TAPETE SANITÁRIO E MEDIÇÃO DE TEMPERATURA NA ENTRADA. O QUE É BOBAGEM E O QUE FAZ DIFERENÇA?

O mais importante é organizar cozinhas, refeitórios e recreio para todo mundo não ficar junto - o ideal é cada classe ter o recreio separadamente. Ter tapetes faz algum sentido, mas é muito visual. A pia na entrada da escola faz muita diferença, assim como ver se a criança tem febre. Algo interessante é ensinar às crianças o distanciamento social, como brincar de aviãozinho sem encostar as mãos no coleguinha, ou ainda ensinar formas de manifestar afeto, na qual a criança toca o coração e fala que gosta da outra. Sei que não tem a ver com nossa cultura, mas vivemos um tempo de emergência, então teremos de viver outros hábitos. Valerá a pena se salvarmos vidas, e quem sabe as crianças levem um pouco de seriedade aos pais... Porque o que vemos de pais na praia ou em barzinhos. Quer dizer, só a escola é perigosa?

INCOMODA À SENHORA O FATO DE ESCOLAS ABRIREM DEPOIS DE BARES?

Me incomoda a educação não ser considerada um serviço essencial. É uma visão de que escola é lugar para deixar os filhos para serem cuidados. E a visão de não mandar o filho para a escola até ter vacina esquecendo o que isso significa para as crianças mais pobres em termos de alimentação, cuidado e aprendizagem. Dizer que precisa esperar a vacina é particularmente cruel com as crianças mais pobres.

COMO A PANDEMIA DEVE ACENTUAR A DESIGUALDADE SOCIAL? O QUE DEVE OCORRER NOS PRÓXIMOS ANOS NO BRASIL?

Há um brutal aumento da desigualdade social. Os pais das crianças mais pobres estão perdendo fonte de renda. Além disso, somos um país com alta defasagem idade-série. Ou seja, temos um jovem que deveria ter 11 anos no 6º ano, mas tem 15, por repetir muito. Se o jovem com 17 perde o ano por conta da pandemia, as chances de seu pai, que perdeu renda, pôr o filho para trabalhar são imensas. E, se lembrarmos que vivemos a quarta revolução industrial, na qual a inteligência artificial vem substituindo o trabalho humano, é uma situação muito ruim não concluir o Ensino Médio. As chances de não ter empregabilidade ou capacidade de empreender são enormes. Os jovens têm chance de serem uma geração perdida. Vivemos tempos tristes.

O QUE DEVE SER FEITO PARA AMENIZAR ESSE IMPACTO?

Saber o momento de voltar, e voltar de forma escalonada. Mas é preciso começar. Alguns secretários trabalham com a hipótese de, no Ensino Médio, só ir para a escola quem não tem equipamento em casa. Os professores ficam em casa transmitindo as aulas e, na escola, ficam diretor, diretor-adjunto e coordenador pedagógico organizando o ambiente. Mas todos os secretários estaduais preparam um retorno. Onde a coisa está pegando? Municípios. Nesse período de eleições municipais, dá medo a prefeitos de acontecer algo errado e a oposição acusá-los de não terem sido suficientemente cautelosos.

A SENHORA JÁ CITOU ALEMANHA, FRANÇA E PORTUGAL COMO EXEMPLOS. O QUE ELES FIZERAM E QUE PODERÍAMOS FAZER?

África do Sul também. Todos voltaram com protocolos. Não é que não teve nenhum novo caso. Teve, mas o que se faz: se aparece um caso em uma turma, a turma fica 14 dias em casa. Se aparece em mais de duas turmas, a escola fecha por 14 dias. Chegaram a falar que 70 escolas fecharam na França. Não. É o seguinte: tem 3,6 mil escolas na França e, ao longo do período, aparecerem casos de covid e 70 fecharam por 14 dias. Acho surpreendente a Espanha, onde já chegou a segunda onda e mantiveram as escolas abertas. Não sei se conseguirão manter isso. Eu preferiria ser mais assertiva, mas a realidade é que estamos tateando. Hoje, restaurantes estão abertos, sendo que os riscos são significamente maiores, já que as pessoas não usam máscara. Temos barzinhos e centros comerciais abertos. Só as escolas que não estão.

POR QUE A SENHORA ACHA QUE SE OPTOU POR ABRIR COMÉRCIOS E NÃO ESCOLAS?

Pela crise econômica, que tira emprego de muita gente. Também porque, nas escolas, o maior número de professores é da rede pública, ainda que escolas particulares precisem reabrir porque tem muito professor sendo demitido. Por fim, há uma visão dos sindicatos de que não é hora de se abrir.

O MINISTRO DA EDUCAÇÃO, MILTON RIBEIRO, DECLAROU QUE NÃO CABE AO MEC ORGANIZAR A VOLTA ÀS AULAS PORQUE QUEM DECIDE ISSO SÃO ESTADOS E MUNICÍPIOS. QUAL É O PAPEL DO MEC?

Ele está profundamente errado. O papel de um Ministério da Educação, mesmo em uma República Federativa, é coordenar a política educacional nacional. Se não, não faz sentido existir. O ministro disse isso, mas seu ministério preparou um protocolo biossanitário para apoiar as redes na volta às aulas. Só que, quando ele divulgou esse protocolo, o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime) já tinham espalhado protocolos para todo o mundo. Houve um protagonismo de ambas as entidades na resposta à covid, ocuparando um espaço não ocupado pelo MEC. O MEC fez muito pouco. O ministro está errado e mostrou que está interessado na continuidade de uma certa guerra ideológica que não ajuda em nada.

COMO A SENHORA CLASSIFICA A DECLARAÇÃO DO MINISTRO DE QUE A HOMOSSEXUALIDADE É UMA OPÇÃO E QUE OCORRE EM FAMÍLIAS DESAJUSTADAS?

Ele tem o direito de ter suas convicções religiosas. Mas elas ferem o que está na Constituição e os direitos humanos, uma causa muito querida à educação. E contrariam a ciência, que diz que ser homossexual não é uma escolha que a pessoa faz.

A SENHORA JÁ FOI MINISTRA. ATITUDES DOS ATUAIS MINISTROS, COMO ESSA, A CHOCAM?

Fui ministra em outro tempo. Vivemos uma era de conservadorismo na qual políticas públicas não são importantes. Tirando a política econômica, o resto parece não ser importante. Fico muito triste com isso tudo. Chego a pensar: puxa, o que fizeram com meu país.

O QUE ELEITORES DEVEM COBRAR NAS ELEIÇÕES MUNICIPAIS?

Desconfie de qualquer pessoa que só fala da agenda de costumes ou de corrupção. Eu sou contra a corrupção, mas ser contra a corrupção é pré-condição, não realização. Pergunte o que o candidato quer fazer na educação, dentro da folga fiscal, para que as crianças aprendam mais, e não só construir prédios bonitos. Como vamos recuperar o estrago da pandemia na aprendizagem das crianças? É importante se preocupar com a primeira infância, porque muito do que acontece depois vem após ter recebido alimentação correta, estimulação do cérebro e creche para quem precisa. Também se deve ter um elo entre desenvolvimento econômico e educação: mesmo que o Ensino Médio seja responsabilidade estadual, tem de buscar alternativas de renda para a juventude.

NO ÚLTIMO ÍNDICE DE DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO BÁSICA (IDEB), O BRASIL VIU UMA MELHORA EM TODAS AS ETAPAS, COM UM SALTO MAIOR NO ENSINO MÉDIO. O QUE EXPLICA ISSO?

É resultado de uma longa jornada. Começou quando decidimos ter um Ensino Fundamental com um ano a mais e quando começamos a avaliar a educação em todas as escolas no 5º e 9º ano. Quando, mais tarde, criamos uma cultura de monitoramento de aprendizagem em boa parte dos municípios e Estados, onde se fazem provas regulares a cada dois meses para ver se há evolução. E, também, quando você cria uma Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e define, com clareza, o que esperar que crianças e adolescentes aprendam. Ao fazermos a prova do Ideb em 2019, ainda não se tinha a Base traduzida em currículos estaduais para o Ensino Médio, mas o esforço de discutir o que precisa ser ensinado e a formação aos professores ajudou. Educação é política de Estado, não de governo. Engraçado que, na ausência do MEC, os secretários de Educação do Brasil inteiro têm se reunido o tempo todo. E vem sendo um trabalho bastante interessante.

ESPECIALISTAS ENTREVISTADOS POR ZERO HORA CITARAM ALGUMAS FORMAS DE MANTER OS AVANÇOS DO IDEB, COMO AUMENTAR O SALÁRIO DE PROFESSORES, MODERNIZAR O CURRÍCULO, MANTER UMA POLÍTICA EDUCACIONAL INDEPENDENTEMENTE DOS GOVERNOS, FORMAR PROFESSORES E MELHORAR A INFRAESTRUTURA DAS ESCOLAS. A SENHORA CONCORDA COM ESSES PONTOS?

Não tem bala de prata na educação, mas algumas coisas ajudam bastante. Melhorar o salário de professores é importante, porque precisa atrair os melhores alunos de Ensino Médio para a carreira. Evidentemente que salário não é tudo, mas, se o salário está em um patamar muito baixo, ainda que o jovem seja um idealista, há um limite. A formação de professores é outro ponto importante, porque universidades infelizmente formam professores não para a profissão. Não há nenhum diálogo entre teoria e prática. Os próprios concursos públicos reproduzem defeitos: há aula prática para ser professor de universidade federal, mas não para ser professor de criança e adolescente, que é muito mais complicado. Também é preciso ensinar o professor e o diretor a trabalharem com dados. Por fim, política de Estado é algo sagrado: não é que um prefeito ou governador novo não possa mudar alguma coisa, mas deve construir o que começou a ser montado lá atrás.

O PISA MOSTRA QUE AS ESCOLAS PARTICULARES BRASILEIRAS SÃO PIORES DO QUE AS ESCOLAS PÚBLICAS EUROPEIAS. O QUE EXPLICA O FRACO DESEMPENHO DAS INSTITUIÇÕES ONDE ESTUDA A ELITE DO BRASIL?

Temos uma desigualdade educacional profunda, mas as escolas particulares frequentadas pela elite se saíram melhor nesse Ideb do que no anterior. Só que, para escolas públicas e privadas, é a mesma baixa atratividade da carreira de professor e a mesma formação inadequada recebida na universidade. O livro A Grande Gripe, de John Barry, mostra que faculdades de Medicina nos EUA e em boa parte do mundo eram muito teóricas e facílimas de entrar porque não havia prestígio na profissão no século 19. Não se exigia conhecimento de biologia e não havia hospitais universitários. Em outros termos, não havia diálogo entre teoria e prática. Foi quando a Johns Hopkins foi criada que surgiu a ideia de um hospital universitário que conectasse à prática. A faculdade não preparava para a profissão, que não tinha prestígio.

É O CASO DAS LICENCIATURAS HOJE?

Sim. Não há preparação para a prática. O Chile, há sete anos, começou a fazer a mesma transformação e, não por acaso, é o país da América Latina com as melhores notas. Desde o primeiro ano da faculdade você está no chão de uma escola - não só para estágio, mas também assistindo à aula de professores. A grande transformação que houve na Finlândia começou por tornar a formação de professores profissionalizante, em guerra com universidades finlandesas. Teve conflitos, foi um caos há 40 anos. Para ser professor lá, não basta ter graduação, tem de ter mestrado profissional extremamente ligado à prática. Você não aprende a ser médico tendo palestras sobre Medicina, tem de estar no hospital universitário desde o primeiro ano. Mas a gente acha que professor não precisa ser conectado à prática...

O GOVERNO FEDERAL PLANEJA VOLTAR A TAXAR LIVROS, SOB O ARGUMENTO DE QUE É UM PRODUTO DAS ELITES. O BRASILEIRO LÊ EM MÉDIA 5,5 LIVROS POR ANO. QUE EFEITOS A TAXAÇÃO PODE TER NA EDUCAÇÃO?

Somos ainda um país de não leitores. O preço do livro é caro porque as tiragens não são grandes. A gente precisa sair desse ciclo vicioso. A própria maneira como trabalhamos a leitura na escola leva a não sermos um país de leitores. A Confederação Nacional de Trabalhadores em Educação (CNTE) elaborou, em 2002, uma pesquisa mostrando que 60% dos professores não tinham hábito de ler. Faz tempo, mas dá um indicativo de que somos um país de elites não leitoras. A conclusão do Paulo Guedes é o contrário: "A gente lê pouco, então vamos tornar o livro ainda mais caro porque é um produto das elites". Não! Vamos criar uma política de fomento à leitura, que comece na escola - mas não fique só na escola. É fundamental ter bibliotecas públicas em todos os municípios. Sou supercontra taxar os livros, só vai encarecê-los e tornar o Brasil menos leitor. Morei no Exterior várias vezes. O que me impressionou quando fui com quatro filhos para os EUA foi que, na matrícula da escola pública, davam a carteirinha da biblioteca municipal.

COMO A SENHORA VÊ A NOMEAÇÃO, EM DIVERSAS UNIVERSIDADES FEDERAIS BRASILEIRAS, DE REITORES QUE NÃO FORAM OS ESCOLHIDOS POR VOTAÇÃO PELA PRÓPRIA COMUNIDADE ACADÊMICA?

O ideal e a tradição é nomear o mais votado. Não acho errado nomear o terceiro colocado, mas tem que ver quantos votos teve a pessoa. Já vi governador de São Paulo escolher o segundo colocado em uma lista tríplice, mas que teve uma votação importante. O que falamos agora é de uma votação completamente inexpressiva para um terceiro colocado.

A SENHORA FOI SONDADA PARA SER MINISTRA DA EDUCAÇÃO, MAS DECIDIU SEGUIR NA FGV E PRESTANDO MENTORIA EM EDUCAÇÃO. ESTÁ FELIZ?

Muito. Não foi a primeira vez que fui sondada para ser ministra, não só nesse governo. Nessa sondagem, eu logo de pronto falei que não. Estou muito contente com minha etapa de vida. Mesmo que eu tivesse afinidades com esse governo, e não tenho, acho que ajudo mais o Brasil onde estou agora do que como ministra.

MARCEL HARTMANN


03 DE OUTUBRO DE 2020
DRAUZIO VARELLA

A HIPÓTESE DAS AVÓS

Se a vida na Terra tem algum sentido é o crescei e multiplicai-vos. A maioria dos vertebrados morre quando o vigor reprodutivo chega ao fim. Seres humanos são uma das raras exceções.

Sob a perspectiva evolucionista, qual seria a explicação para que as avós, mulheres já estéreis que pouco contribuem para a produção de alimentos, permaneçam vivas e com a cognição preservada?

Um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) propõe uma explicação genética para esse fenômeno. Em 1998, um trabalho de campo havia mostrado que, no grupo Hazda de caçadores-coletores da Tanzânia, sobreviviam mais crianças nas famílias com avós que ajudavam a alimentá-los e lhes transmitiam tradições culturais e ensinamentos ecológicos. Graças a essa atuação, seus genes levariam vantagem na passagem para as novas gerações, teoria que ficou conhecida como "a hipótese das avós".

A deterioração da capacidade cognitiva associada ao envelhecimento, entretanto, compromete essas vantagens e se torna onerosa aos membros do grupo. No estudo da PNAS, o grupo de Aji Varki e Pascoal Gagneux, da Universidade da Califórnia, avaliou a contribuição de um gene (CD33) envolvido no controle das respostas inflamatória e imunológica às infecções e na doença de Alzheimer, enfermidade característica da fase pós-reprodutiva. Pesquisas anteriores haviam documentado que CD33 tem duas variantes (alelos), uma das quais predispõem à doença, enquanto a outra protege contra a proteína que se acumula no cérebro dos pacientes com Alzheimer.

Para elucidar o papel de CD33, o grupo comparou essas duas variantes com as dos chimpanzés e dos bonobos, nossos parentes mais chegados. Verificaram que seres humanos e chimpanzés apresentam níveis semelhantes da variante deletéria, enquanto a protetora atinge níveis quatro vezes mais elevados entre nós. Esse achado sugere que os chimpanzés, primatas em que a morte costuma coincidir com o fim do período de fertilidade, nunca viveram o suficiente para usufruir as vantagens da variante protetora. De fato, entre eles não são encontrados os transtornos cognitivos típicos do Alzheimer.

Pesquisando em bancos de dados do Projeto Genoma, os autores encontraram a variante protetora em etnias africanas, americanas, europeias e asiáticas. CD33 protetora, no entanto, não está presente em todas as pessoas. Conhecê-la em profundidade pode levar a medicamentos que mimetizam seus efeitos.

De qualquer forma, é muito interessante descobrir que nossa espécie selecionou uma variante para nos proteger de uma doença que só se instalará na oitava ou nona década de vida, fase distante da seleção reprodutiva. Esse mecanismo seletivo operaria no sentido de maximizar as contribuições de indivíduos em idade pós-reprodutiva para a sobrevivência dos mais novos.

Os autores concluem que "as avós são tão importantes, que nós evoluímos genes para proteger suas mentes".

DRAUZIO VARELLA

03 DE OUTUBRO DE 2020
BRUNA LOMBARDI

O DESPERTAR DA PRIMAVERA 

Chega a primavera e estamos em crise. Toda crise traz momentos de reflexão. A gente se questiona e procura respostas. Estamos vivenciando mudanças e precisamos saber como mudar. Vivemos um isolamento, cheios de estresse, medo e ansiedade diante do desconhecido.

E como administrar essas emoções? Pensamentos negativos nos atingem, tudo é incerteza. O que vai acontecer com os nossos sonhos, nossas paixões?

O que está acontecendo dentro de nós? Como organizar esse turbilhão de ideias e emoções que mexem com o nosso espírito? Uma sensação de solidão invade os nossos dias.

Precisamos compreender o que sentimos, mas os sentimentos parecem estagnados. O que fazer para desatar esses nós e buscar mais equilíbrio emocional e espiritual nessa nova estação?

Interromper a conversa negativa consigo mesmo é um dos passos mais importantes. Quanto mais falamos mal de nós, da situação em que estamos, mais nos enfraquecemos e fortalecemos as coisas que não queremos.

É bom ter certeza daquilo que a gente quer e não do que achamos que a sociedade espera de nós.

Um exercício para testar a nossa força de vontade é detectar maus hábitos. A gente sempre percebe a indulgência e tudo o que acreditamos ser uma recompensa. Reconhece a falta de disciplina, a procrastinação e as desculpas que inventamos. A gente quer mudar, mas mudar requer uma nova atitude.

Não adianta fugir dos problemas, porque eles sempre vão junto a gente. A única saída é enfrentar, resolver e superar. Mesmo se as tentativas não dão certo, não existe fracasso, são nossos pequenos passos na etapa de evolução.

Sucesso não é um lugar de chegada, é o nosso estado de espírito durante o percurso. Saber reagir ao que acontece, é determinante na jornada. Sempre existem alternativas, opções e escolhas. Novos caminhos e novas descobertas.

Ajuda muito ter alguém com quem conversar de verdade. Alguém que te quer bem e em quem você pode confiar.

Ah, e não se compare com os outros, nem julgue as pessoas. Aliás, não julgue você mesmo. Nada disso é construtivo, pelo contrário, só vai minar a sua auto estima.

Evite o jogo da culpa. Culpar alguém do que acontece com a gente não ajuda em nada. Mesmo que tenham te machucado, desiludido, decepcionado, a responsabilidade pelo que você se sente é sempre sua.

Desapego é necessário e a gente sabe que pra mudar precisamos abrir mão de algumas coisas que temos e somos.

Vivemos em constante fluxo, nada é estático, tudo está em movimento, tudo muda o tempo todo. Heráclito, um pensador grego, dizia que não podemos entrar duas vezes no mesmo rio, pois da segunda vez nós já mudamos e as aguas do rio também.

A serenidade vem de saber que tudo o que acontece é necessário e chega na hora certa. Esse é o despertar de um novo ciclo, nova estação. Um momento propício para reavaliar o que queremos ser na vida.

Preste atenção no momento presente, siga sua intuição, escute o seu coração. Toda crise nos revela e nos renova. Uma feliz primavera para você.

BRUNA LOMBARDI