sábado, 15 de maio de 2021



15 DE MAIO DE 2021
MARCELO RECH

Os senhores da guerra

A operação na favela do Jacarezinho, que deixou 28 mortos, entre eles um policial, reabriu um dilema que volta e meia desafia o país: como incorporar ao território sob o império das leis as zonas urbanas do Rio de Janeiro que vivem há décadas sob domínio paramilitar? Nas áreas ocupadas por traficantes ou milícias, uma força policial não entra livremente e, se assim o fizer, será recebida à bala pelos que impõem sua constituição paralela. Armas não faltam. Em seu arsenal, os donos do pedaço exibem para quem quiser ver fuzis de combate, metralhadoras, granadas e munição antiaérea e antitanque, coisa que só se encontra em zonas conflagradas.

Para se impor, os criminosos não hesitam em torturar desafetos e traidores, eliminar prisioneiros adversários ou os que resistem a suas ordens. Também controlam a venda de serviços, como internet, gás e TV a cabo e autorizam o funcionamento ou não de outras atividades e do comércio, cobrando taxas de proteção. Enfim, definem suas leis e estabelecem um regime de terror, no qual prendem, julgam e executam quem os contraria, e distribuem benesses com o dinheiro das atividades ilegais para conquistar silêncios e apoios entre a população.

Na prática, algumas áreas do Rio são submetidas à tutela de facções similares à de mini-Estados Islâmicos. No Rio Grande do Sul, registre-se, não há notícia de que a polícia seja impedida de circular em alguma região ou que precise recorrer a helicópteros blindados e carros de combate em suas incursões. No Rio, não. A secular liberalidade com delitos de toda ordem, a promiscuidade de políticos e policiais com bandidos, a leniência com as drogas e fatores como corrupção em larga escala, abismos sociais e até a topografia criaram e mantêm territórios subjugados pelo crime.

A operação no Jacarezinho, porém, evidencia que as forças de segurança estão muito longe de vencer essa guerra não declarada, sentem-se à vontade para cometer atos de barbarismo semelhantes aos que pretendem combater e estraçalham assim quaisquer chances de angariar a colaboração de moradores.

A desenvoltura do tráfico e das milícias deixa claro que invadir áreas urbanas, abrir fogo, colocar vidas em risco, incluindo a dos próprios policiais, e depois abandonar a população à própria sorte é também uma inutilidade estratégica. Antes, é preciso sufocar economicamente, julgar e condenar os chefões que substituem da noite para o dia soldados do tráfico e milicianos mortos por policiais ou facções rivais. Mas para tanto é melhor olhar para além das ruelas e casebres de tijolos à vista. Os senhores da guerra, a exemplo dos que os financiam e realimentam com drogas, armas e olhos fechados, vivem em tranquilidade bem longe dos focos de conflito.

MARCELO RECH

15 DE MAIO DE 2021
J.R. GUZZO

O que os "justiceiros sociais" ignoram

A guerra que o crime move há anos contra a população do Rio de Janeiro é uma história que tem um lado só - o lado dos bandidos. Nas classes intelectuais, na bolha em que vivem os políticos e na maioria dos meios de comunicação - para não falar numa vasta porção do aparelho judiciário - os criminosos são tratados oficialmente como mártires de uma "luta social" dirigida contra os pobres, os negros e os favelados.

Não importa, nunca, o que eles tenham feito: todas as vezes que trocam tiros com a polícia, o Brasil "que pensa" diz automaticamente que houve um massacre - como se as forças da ordem tivessem entrado numa "comunidade" pacífica e começado a matar gente a torto e a direito.

Não se diz, jamais, que a polícia se apresentou para cumprir o dever legal de combater o crime e cumprir ordens da Justiça. Nunca se diz, também, que os policiais foram recebidos à bala pelos bandidos, nem que os mortos eram criminosos; são apresentados ao público, simplesmente, como "pessoas" ou "moradores".

Aconteceu o mesmo com a operação policial que deixou 28 mortos na favela do Jacarezinho. Desses 28, só um não era criminoso - justamente, um policial civil que participou das ações. Três dos que morreram estavam denunciados pelo Ministério Público e eram procurados pela Justiça.

Parece perfeitamente justo que a autoridade policial tente fazer alguma coisa para combater uma opressão particularmente cruel como essa. É compreensível, também, que abram fogo se são recebidos com granadas e tiros de fuzil automático. Só que não.

A reação da elite foi a mesma de sempre: Mais uma vez "a polícia massacra cidadãos da comunidade". Segue-se, até o caso cair no esquecimento, uma maciça campanha de propaganda na mídia, no mundo político e na elite, pedindo "punição para os culpados" e verbas para "atender aos interesses da população das comunidades".

Não se diz uma sílaba, entre os militantes da "justiça social" e nos telejornais do horário nobre, sobre o sofrimento eterno da maioria da população das favelas. As pessoas, ali, vivem sujeitas à morte, o tempo todo, nos tiroteios entre as quadrilhas (nesse caso, a mídia não fala em "massacre"; são "confrontos", ou "trocas de tiro"). Suas casas podem ser confiscadas para servir como depósitos de drogas. Sofrem todo tipo de extorsão. São agredidas, roubadas e humilhadas. Vivem o terror constante de ver as suas filhas adolescentes, e mesmo crianças, serem escolhidas como vítimas de estupro por parte dos chefes. Sofrem, agora, com o recrutamento dos filhos para a função de "soldados" do tráfico.

Deveria estar muito claro qual é o lado certo e qual é o lado errado nesta história. Mas não está; a verdade, aliás, está cada vez mais escondida.

J.R. GUZZO

15 DE MAIO DE 2021
CARTA DA EDITORA

O papel do GDI

Quando veio a público, no dia 19 de março, a informação de que seis pacientes vítimas da covid-19 haviam morrido por asfixia no Hospital Lauro Reus, em Campo Bom, os experientes e premiados repórteres do Grupo de Investigação da RBS (GDI) Adriana Irion e Humberto Trezzi passaram a se debruçar sobre o caso e a acompanhar as sindicâncias e investigações oficiais para tentar entender o que levou a essa tragédia. Por que falhou o fornecimento de oxigênio? Houve omissão? Quem são os responsáveis?

Nesta edição, nas páginas 16 a 19, Adriana e Trezzi fazem um inventário da Associação Beneficente São Miguel (ABSM), que administra o hospital. Para chegar a esta reportagem que aponta um histórico de problemas envolvendo a ABSM, Adriana e Trezzi leram trechos de ações judiciais que têm a entidade como ré, cobrada por antigos parceiros ou por hospitais por onde passou. Conversaram com pessoas que conhecem os sócios, examinaram contratos, buscaram documentos da própria ABSM. Também rastrearam junto a órgãos de controle (polícias Civil e Federal, Ministério Público Estadual, Ministério Público Federal e MP de Contas) a situação da associação. Em Campo Bom, mergulharam em atas de reuniões do Conselho Municipal de Saúde, que já mostravam que o hospital estava endividado e sendo cobrado por problemas de atendimento, falta de pessoal e sobrecarga de trabalho. Entrevistaram funcionários de hospitais por onde a entidade passou. Por fim, ouviram o presidente da própria ABSM, que por duas horas explicou os problemas e defendeu a entidade.

- A atuação de entidades que administram os serviços de saúde é cada vez mais frequente. Só que algumas delas deixaram, Brasil afora, um rastro de fraudes e desvios, prejudicando o atendimento em hospitais - diz Adriana, explicando o que a levou a investigar a ABSM, nascida há pouco mais de quatro anos, no RS.

Para Trezzi, a terceirização dos serviços surgiu como grande alternativa para o poder público, que costuma não ter dinheiro sequer para pagar a folha do funcionalismo. Porém junto vieram problemas como os relatados na reportagem:

- A terceirização atrai tanto entidades sérias quanto organizações sem tradição e expertise necessárias para tocar algo complexo como o gerenciamento da saúde.

Desde que foi criado, em 5 de dezembro de 2016, o GDI já abriu mais de uma centena de novas frentes de apuração. Sempre que um repórter investiga uma denúncia, o objetivo não é só trazer à tona a irregularidade. É também fazer com que autoridades e órgãos responsáveis corrijam o erro. Esperamos, com esta reportagem, colocar mais uma peça no quebra-cabeça deste triste episódio de Campo Bom.

DIONE KUHN

sábado, 8 de maio de 2021

 
08 DE MAIO DE 2021
LYA LUFT

Sobre amor e morte

O mar dos meus amores é turvo de desencanto. Não é azul nem verde: é marinho.

Na crista do sonho, um raro gesto faz desmaiar sereias no mar das minhas dores, escuro do naufrágio do mundo. O cavalo da espuma deixa pelo caminho a luz dos momentos que são mais que muito: são tanto e tão fundo.

O que não posso dizer, o que não cabe em palavras, o que não é para olhares profanos; o que é calado e remoto, meu mais secreto destino como o reverso das ilhas; maremoto mar marinho calado alado e sonoro: mais que navego, imagino.

Pintei o cenário, varri a plateia, arrumei os bastidores. No camarim, frutas e champanha: eu seria a personagem principal.

Depois me sentei no palco. Repassei minhas falas, provei minhas fantasias - e me pus a chorar: nada fazia sentido, nada era meu. (Eu não era eu.)

Viver é todos os dias partejar a vida. Ela nasce com cabeça grande demais, muitos braços. (Às vezes sem pernas.)

Abro meu ventre e minha alma se arreganha como o corpo de uma parturiente. Dar à luz dói e faço isso todos os dias: abro os olhos para a manhã no quarto e começo a parir. Mas nem tudo é ruim. Posso escolher o sexo e a cor dos olhos de cada momento. (Mas nem sempre.)

A parte dura desta humana lida é dizer sim na hora do não, escolher mal entre silêncio e grito, entre a noite e a explosão do dia; ceder quando devíamos negar, dizer não em lugar de afirmar, partir quando era bom amar, fechar-se em vez de abrir a alma toda, e confiar. Sermos tão incertos e indecisos, perdendo o trem, a hora, o agora - mas a gente não sabia.

Então sento-me aqui, neste refúgio, abro a gaveta, e salta uma palavra: dança sedutora sobre o meu cansaço, veste-se de indefinições, vagueia no labirinto das ambiguidades. Acha graça de mim, que espero à frente encontrar a solução dos meus enigmas. Tento uma geometria que a contenha no espaço entre dois silêncios quaisquer, mas ela decide meus passos: peso de fruta no sono da semente, assiste à minha luta quando a desejo aprisionar e, às vezes, até finge que sou eu a senhora, a domadora, a fonte.

Quando entre as almas estarrecidas de se precisarem tanto só restar a dimensão da pele irredutível; quando bocas mastigarem as raízes da paixão; quando não se distinguir o dar do receber; quando entre um e outro desejo se altear o derradeiro grito da consciência e a solidão tranquilamente vier se desnudar: não haverá mais que anjos delirantes e tristes, amando-se infinitamente pelos cantos, a chorar.

As palavras riem dos poetas, pois são livres: nós, mediação incompetente. Porque vemos pouco, vemos insuficiente, vemos errado, plantados num ponto cego.

(O ponto cego é um fenômeno da visão humana segundo o qual, conforme convergência e refração, pode-se ver o que habitualmente permanece oculto: a possibilidade além da superfície, o concreto afirmado na miragem. Assim eu inventei, assim eu decretei, assim é. Isso, para mim, é arte.)

LYA LUFT

08 DE MAIO DE 2021
MARTHA MEDEIROS

Mães pandêmicas

Todas as mães merecem beijos, mimos, afagos neste domingo, mas presto reverência, hoje, às mães que ficaram mais de um ano com crianças em casa, crianças estudando a distância, crianças sem praticar esportes, crianças sem ver os amigos, crianças que ainda não entenderam direito o que está acontecendo.

Sou mãe de adultas - a essa altura, uma sorte. Se fosse mãe de pequenos, não sei se teria conseguido, talvez tivesse entrado em curto-circuito, sei lá. Que bom que as mães são fortes e seguram a barra (claro, os pais têm participação nisso, mas é maio, não agosto, aguardem sua vez).

Parabéns, mães de crianças de dois anos que providenciaram máscaras divertidas e inventaram "bailes à fantasia" em plena segunda-feira à tarde. Parabéns, mães que não puderam festejar o aniversário de cinco anos de seus pimpolhos e providenciaram encontros por Zoom com tios e primos segurando balões e assoprando velinhas. Parabéns, mães de filhos de sete anos que tiveram que lidar com a interrupção do ano letivo, com a frustração da garotada por não começar a trajetória escolar, por não socializar, por não fazer novas amizades, iniciação fundamental de todo ser humano.

Parabéns, mães de meninas que sonhavam em dançar balé, que queriam aprender a jogar tênis, que já tinham descoberto a porta da rua e tiveram que voltar para dentro de seus quartos e aguardar por um tempo indefinido.

Parabéns às mães que tiveram que explicar aos filhos que existe outro tipo de cancelamento: o dos sonhos, o dos projetos, o do crescimento através das vivências fora do lar, em bairros vizinhos. Parabéns às mães que conseguiram fazer com que eles se interessassem por livros, uma escapada que trará consequências magníficas no futuro.

E o que dizer sobre aulas online? Meu respeito às mães sem opção: tiveram que sair para trabalhar, deixando os jovens alunos se virarem em frente ao computador. E também às que puderam trabalhar em home office e que arranjaram uma horinha para fazer os deveres do colégio com seus filhos desmotivados, que deram a eles explicações a fim de ajudá-los a amadurecer em meio ao caos.

Parabéns às mães de adolescentes que os seguraram em casa, que evitaram que eles aglomerassem, que tentaram proporcionar bons momentos entre quatro paredes que substituíssem os encontros da turma, as festas de 15 anos, as viagens para a praia. Parabéns às mães com imaginação, às mães com paciência, às mães que se empenharam além de seus limites, ao contrário de mães que foram desafiadas de outra forma - são muitas as que, como eu, estão há mais de ano sem ver um filho ou filha que vive fora do país.

É dia de celebrar todas as mães e sua sanidade colossal para enfrentar esse período tão enlouquecedor.

PS: Beijo especial à mãe de Paulo Gustavo e a todas que vêm passando por perdas semelhantes. A essas, resta o consolo de terem feito sua parte com todo amor.

MARTHA MEDEIROS 


08 DE MAIO DE 2021
CRISTINA BONORINO

CARTAS

Escreve D. Fulana (representando aqui diferentes mensagens): "Cara Dra. Cris, leio sempre sua coluna; me vacinei, fiz o teste de anticorpo neutralizante e deu positivo? negativo? - isso varia. Isso quer dizer alguma coisa?". Cara Fulana, nenhum dos testes oferecidos atualmente medem a proteção gerada pela vacina. Não foi determinado ainda o que chamamos "correlato de proteção" para as vacinas contra a covid-19. Isso vai demorar alguns anos para estabelecer com clareza.

Nos EUA, onde as vacinas são da mesma plataforma, vai ser mais simples. Aqui, cada vacina é diferente, e não serão os mesmos correlatos. Cada teste atual mede coisas distintas. Se positivo, não se sabe se é suficiente ou quanto dura. Parafraseando a consultora Keila Mallman, personagem da genial Ilana Kaplan: "Quer fazer o teste da IgG? Faz... Vai te dizer algo concreto? Não. Não vai te dizer nada". Sugestão do meu amigo Martin Bonamino, cientista do Instituto Nacional do Câncer (Inca): se você pode dispor do valor do teste, compre uma cesta básica e doe para alguém que precisa muito - e que provavelmente não está vacinado.

Um segundo caos foi criado dentro do caos que já vivíamos na pandemia. Para as pessoas que têm acesso às poucas vacinas disponíveis no Brasil, a ausência de uma fonte informações seguras - que deveria ser o Ministério da Saúde - serviu não apenas para desinformar sobre medição de anticorpos neutralizantes, mas também criou dúvidas sobre vacinas, culminando na normalização da falta de segunda dose. Quem hesita em se vacinar por receio de supostos eventos adversos numa proporção de um ou dois casos por 1 milhão de vacinas, por que nunca hesitou com uso de anticoncepcionais, que geram problemas circulatórios em uma a cada 200 mulheres? Ou mesmo heparina, que causa tromboses em um a cada 500 ou 1 mil tratados?

Finalmente, é criminosa a orientação de vacinar ao máximo com a primeira dose sem viabilizar a segunda, que é o que efetivamente concretiza a proteção evidenciada por estudos clínicos. Quem apregoa que está "tudo bem" em atrasar a segunda dose ou está mal informado ou mal intencionado, ou ambos. A eficácia de cada vacina é baseada no intervalo usado no ensaio clínico fase III. Fora disso, é achômetro, aliás muito usado no Brasil para gerenciar a pandemia. Outra carta: "Dra Cris, o Ministério quer estender para 12 semanas o intervalo entre doses da vacina Pfizer". Vacina que é 95% eficaz se a segunda dose é dada após três semanas. Quer estender? Estende. Vai funcionar? Não. Não vai funcionar.


08 DE MAIO DE 2021
CLAUDIA TAJES

Um dia de mumu

E ele chegou outra vez, o Dia das Mães. Que a propaganda, com boas intenções e uma premente necessidade de vender no ano inteiro, diz ser todos os dias. Sei. Almoço especial de domingo a domingo. Filhos sem brigar por um turno, pelo menos. Alguém ajudando na louça. O nome disso seria milagre.

Brincadeiras à parte, sempre gostei do Dia das Mães quando era filha. Desde que eu não tinha um centavo e ia ao minimercado Pegue Pague (acho que era isso) com a missão de comprar o pão nosso no fim de cada dia. Lembro de olhar possíveis presentes para a minha mãe por um longo tempo, enquanto os seis cervejinhas esfriavam no embrulho de papel pardo. Pratinhos desemparceirados. Um copo colorido. Um sabonete. 

Aos sete anos, eu não tinha dinheiro para essas extravagâncias. Só via algum no sábado, quando o pai dava um troquinho para comprar lanche no colégio. Devia ser uma estratégia motivacional para nos acordar cedo no sábado, e a gente pulava da cama já pensando no cachorro-quente da cantina na hora do recreio. Quando chegou a minha vez, meu filho não gostava de cachorro-quente, e o despertar para a aula de sábado foi sempre um parto que se repetiu do fundamental ao último minuto do ensino médio.

Não lembro de que jeito, mas no fim eu sempre arrumava uns trocados para o presente do Dia das Mães. Prova disso foram os pratinhos desemparceirados, os copos coloridos e os sabonetes que minha mãe ganhou ao longo dos anos. Em uma das ocasiões, a Selma, que trabalhava lá em casa, foi ao Pegue Pague para me ajudar a decidir. O Pegue Pague era o meu shopping, distante uns três prédios do meu, e do mesmo lado da calçada.

Depois de mexer em todos os produtos possíveis de serem comprados, dos indefectíveis panos de prato a grampos de cabelo, a Selma descobriu um perfume em uma embalagem linda, toda trabalhada no cristal. Eu tinha dois dinheiros, sei lá de qual moeda, e o perfume custava 1,90. Quase chorei, seria o presente mais sensacional que eu jamais teria imaginado dar para a minha mãe. Mais: seria o presente mais sensacional que ela jamais teria recebido na vida, aí incluídos os perfumes franceses que o meu pai comprava de um contrabandista. Sim, meu pai tinha um contrabandista que vendia de cosméticos a calças Lee. Acho que vinha tudo da Argentina, e era uma festa quando ele chegava com as novidades. Na época, se me perguntassem se eu preferia ser médica ou contrabandista, escolheria a segunda opção certo.

Fomos ao caixa pagar, eu mais feliz que abelha na ambrosia. E a moça, implacável:

- São 11,90.

A Selma e eu nos olhamos. Ela era a adulta, e tomou a frente.

- Como assim, 11,90? É 1,90.

- Um perfume desses por 1,90? Vocês duas querem mumu? São 11,90.

Resumindo, a Selma viu o preço errado. Devolvemos o perfume e, provavelmente, saí do Pegue Pague carregando um pano de prato, mais o que ainda não sabia denominar de frustração no último grau.

Mais tarde perguntei para a minha mãe o que significava "querer mumu". Ela disse que era querer moleza, explicação que demorei a entender de fato.

Quando esta coluna for publicada, estarei aproveitando meu mumu: alguns dias no Rincão do Inferno, paraíso para as bandas de Bagé, em uma das poucas interpretações felizes de distanciamento social. Ideia do meu filho, aquele que não acordava cedo no colégio, mas que vem se mostrando bem aceso na vida. Já eu, que não tenho mãe para presentear desde 2005, consolo-me vendo as mães de quem conheço, e de quem nunca vi, tomando suas vacinas em busca de tempos melhores. Queria que esse fosse o presente de todas - e aí me incluo. O jeito é ficar forte e esperar a nossa vez.

Para as mães, um dia feliz e um pouquinho de mumu. Pelo menos hoje.

CLAUDIA TAJES

08 DE MAIO DE 2021
DRAUZIO VARELLA

A PANDEMIA E A FOME

Deu no que deu: mais de 400 mil brasileiros mortos e colapso do sistema de saúde.

Desde que surgiram os primeiros casos no Brasil, infectologistas, epidemiologistas e muitos especialistas ligados à academia advertiram a sociedade de que o caminho seguido pelo governo federal nos levaria ao colapso do sistema de saúde e causaria uma tragédia sem precedentes.

Infelizmente, nossas previsões mais pessimistas se confirmaram: o número de mortes bateu recordes mundiais e UTIs ainda estão superlotadas. Pela primeira vez, começamos uma campanha de vacinação sem vacinas em número suficiente.

Não há perspectiva de melhora a curto prazo, o mês de maio ainda nos reserva muitas tristezas. Colapso do sistema de saúde significa viver num país sem hospitais para ricos ou pobres (claro que pior para estes), tenham covid ou outra doença.

O Brasil estava fadado a ser um dos principais epicentros da pandemia. Um vírus que se transmite pelas gotículas que expelimos ao falar, cantar, tossir ou espirrar exige afastamento social para ser contido. Mesmo que tivéssemos agido de acordo com as melhores recomendações da Organização Mundial da Saúde e os exemplos dos países que conseguiram controlar a pandemia, seria muito difícil manter em casa os 50 milhões de brasileiros pobres que vivem nas periferias das nossas cidades, cerca de 10 milhões dos quais preenchem os critérios para a classificação de pobreza extrema.

Num dos países mais desiguais do mundo, essas pessoas dependem do trabalho informal diário para alimentar a família. Com a debacle econômica dos últimos anos agravada pela pandemia, a única possibilidade de sobrevivência foi o auxílio emergencial. A ajuda de R$ 600 por mês garantiu pelo menos a alimentação básica de milhões de pessoas.

O fim do auxílio em dezembro passado e a atual retomada na faixa de R$ 200 provocaram o retorno da fome epidêmica em nosso país, flagelo do qual custamos a nos libertar nas últimas décadas do século 20. Os mais velhos devem se lembrar das campanhas contra a fome lideradas por Betinho, nos anos 1980.

Os relatos que tenho ouvido de lideranças comunitárias insuspeitas são de assustar. Não será possível convivermos com a fome que se espalha nos cinturões periféricos das cidades, como fizemos em séculos anteriores com as crianças desnutridas e com os retirantes que morriam nas estradas do Nordeste para fugir das secas.

Dizer que o presidente da República foi o grande responsável pela disseminação do coronavírus, promovendo aglomerações sem usar máscara, não resolverá a emergência atual. Deixemos que a Justiça criminal se encarregue de julgá-lo. O momento é de agir.

É fundamental que a sociedade distribua cestas básicas e ajuda financeira aos mais necessitados. Num país de dimensões continentais, com tantos entraves burocráticos, não é tarefa corriqueira catalogá-los, mas, se houver organização e transparência na aplicação dos recursos, as empresas e a população brasileira não se furtarão a esse dever.

DRAUZIO VARELLA

08 DE MAIO DE 2021
MONJA COEN

MAMÃE

"Minha filha pequenina

Hoje é maior do que eu.

Como a plantinha franzina,

Que do meu amor nasceu,

Minha filha pequenina

Hoje é maior do que eu."

Minha mãe morreu, faz algum tempo. Deixou esse poema acima para mim, na puberdade. Era dinâmica, forte, decidida. Adorava estudar, filosofar. Foi envelhecendo, aquietando, silenciando.

Pude acompanhar seus últimos anos. Assisti-la na velhice, como eu me comprometera na infância. Certo dia, com surpresa, a vi engolir um caroço de azeitona. Ela me parecia tão bem, comia na mesa com todos. Alguns meses depois, não consegui ampará-la de volta à cama, depois do banheiro, deixando-a deitada no carpete enquanto fui buscar ajuda na vizinhança. Acompanhei ela ir se calando e responder monossilábica "é", "é", "é". Depois, nem isso.

Uma dentista veio em casa arrancar os últimos dentes. As amigas, as alunas de declamação, as primas e sobrinhas já não mais visitavam dizendo: "Ela não está mais aí". Ela estava, sim. Sem falar, sem responder, mas estava.

Meu pai vinha. Morava com sua segunda esposa a alguns quarteirões. No início dizia para ela ler o jornal, ver TV. Quando ainda respondia, ela dizia: "É tudo igual".

O que sentiria minha mãe, além da dor, que a fazia soltar gritos ao trocar as roupas, as fraldas? Artrose na junção da cabeça do fêmur. Havia operado de um lado e quase morrera. Nada de outra cirurgia.

Mamãe viveu 96 anos. Saudades.

Eu me deitava na cama, ao seu lado, e a observava. Conversava, mesmo sem respostas nos últimos meses, semanas. Rezava as rezas que ela gostava e as minhas preces budistas. Fazia o arrependimento de todo carma prejudicial.

Às vezes ela me parecia um lama tibetano. Por quê? Não sei.

Parou de comer, parou de beber. O médico desistiu do soro, que já não entrava, as veias tão finas e frágeis. Viveu assim cerca de 15 dias. "No hospital, teria morrido em cinco dias", uma médica me falou. Um senhor espírita comentou: "Ela está fechando todos os chacras conscientemente. Isso é raro e é bom".

Morreu em casa, como sempre me pedira. Sem ser entubada.

A vida é um período em si mesma. A morte é um período em si mesma.

Mamãe estava sentada próxima da janela. Sua mão - aquela mão que me ensinou a escrever meu nome como um trenzinho, na mesa da copa, a mesma mão que gesticulava ao declamar poesias lindas e fortes, a mão que me acariciava e uma vez me deu uma sova, essa mesma mão, agora marcada pela artrose, estava lá, solta, largada.

Médicos, óbitos, funerária, caixão, enterro, preces. Mamãe morreu.

Entrei no seu quarto vazio, ao voltar do cemitério e a ouvi falar dentro de mim: "Há uma coisa sua no meu armário, pegue". Abri e encontrei um rosário budista branco. Nunca mais falou comigo.

Obrigada, mamãe, por ser quem foi e me fazer quem sou.

Mãos em prece

MONJA COEN

08 DE MAIO DE 2021
J.J. CAMARGO

SENHORES JURADOS, TOMEM CUIDADO

Como toda crise se encarrega de expor o que temos de melhor e de pior, é impressionante o tamanho da legião de híbridos que reúnem num único exemplar promotor e juiz, desprovidos naturalmente de qualquer resíduo de empatia ou generosidade.

Quem se der ao trabalho de passear pelas redes sociais (um passeio temerário pelo risco de contaminação!) ficará impactado pela incapacidade de dar chance ao contraditório e revelar um mínimo de tolerância.

Na formatação de um simpósio sobre liberdade de opinião como critério de diferenciação social, coube-me eleger situações que revelassem o quanto podemos estar enganados com o juízo açodado. Uma dessas estórias viralizou nas redes sociais, como a mostrar que no mesmo universo há veneno e antídoto.

Uma velhinha, na preparação para uma viagem de trem, comprou um pacote de bolachas com recheio de chocolate, daquelas que nunca podia comer em casa, sob a vigilância implacável da filha, uma animada voluntária da guerrilha antidiabetes. Enquanto esperava o trem, acomodou-se na extremidade de um banco de pedra na plataforma, ocupado na outra ponta por um jovem cabeludo que cantarolava uma música que chegava pelo fone de ouvido. Apesar do espaço entre eles ser pequeno, não se animou a encará-lo, até que foi despertada pelo som inconfundível de um pacote sendo manipulado. Não acreditou quando percebeu que o cara de pau estava comendo uma das suas bolachas.

Depois de uma encarada feroz, enfiou a mão no pacote e apanhou uma bolacha, sem desviar o olho, como a mostrar que estava demarcando seu território. Mais furiosa ficou quando o descarado sorriu. E então iniciou-se o que parecia uma disputa de poderes. A cada bolacha que ele mastigava debochado, ela retribuía em fúria crescente. Até que chegaram à última bolacha, quando ele se excedeu: partiu-a ao meio e ofereceu-lhe a outra metade.

Quando finalmente o trem chegou, ela carregou bolsa e fúria até a escada de acesso e sentou-se no primeiro banco disponível. Uma rápida olhada pela janela completou o estoque de ódio, pois o cretino continuava acompanhando com a cabeça o ritmo de sua música estúpida, com o mesmo sorrisinho idiota. Quando o cobrador pediu-lhe passagem, ela abriu a bolsa e teve um choque: o seu pacote de bolachas estava lá, intacto. O trem já arrancava, não havia tempo para desculpas, e sem olhar para trás agradeceu que a celeridade da locomotiva arrastasse para longe a vergonha do julgamento precipitado.

Outra estória em um cenário parecido: em um domingo ensolarado do outono de Nova York, o metrô deslizava silencioso, até que os ocupantes daquele vagão tiveram o sossego interrompido pela entrada de um homem com seus quatro filhos, com idade presumida entre sete e 11 anos, e com eles uma balbúrdia inesperada. O pai sentou-se ao lado de uma senhora e pareceu cochilar enquanto os moleques infernizavam a vida dos passageiros, correndo, gritando, interrompendo os que queriam ler e despertando os sonolentos.

Quando a arruaça chegou ao máximo, a senhora tocou o pai com o cotovelo e descarregou sua irritação: "O senhor não acha que já é hora de educar os seus rebentos? Ninguém os suporta mais!". O pobre homem, despertado pelo comentário agressivo, concordou: "Desculpe, estou sem dormir desde ontem, mas acho que a senhora tem razão. Só lhe peço que seja tolerante com meus meninos porque eles perderam a mãe há duas horas, e nem eu, nem eles, estamos sabendo como lidar com isso".

A pressa em julgamento, de qualquer tipo e sobre qualquer atitude, é uma temeridade, com alto risco de injustiça, sempre punida pelo constrangimento do afobado!

E provavelmente todos sentiríamos mais vergonha do que desagravo se soubéssemos o que o outro pensava ou sofria, quando disse ou fez o que fez ou disse.

J.J. CAMARGO

08 DE MAIO DE 2021
OPINIÃO DA RBS

FÔLEGO NA INDÚSTRIA

A indústria é o setor que, ao longo da última década, vem sofrendo mais. Primeiro com a lenta desaceleração da economia, ao mesmo tempo que era castigada por uma forte concorrência dos importados, e depois com a recessão e a letárgica recuperação da atividade no país. Não deixa de ser uma boa notícia, portanto, o fato de as fábricas serem as responsáveis pela metade do saldo positivo de 75,4 mil vagas formais de trabalho criadas no primeiro trimestre do ano no Rio Grande do Sul, de acordo com os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

Claro que há fatores sazonais a serem considerados, mas o mais importante é a sinalização de que o setor encontrou um piso de atividade e, agora, há uma tendência de reação - mesmo que lenta e às vezes errática - iniciada a partir do final do ano passado. Não se deve esperar para logo uma geração de postos de trabalho com carteira assinada no mesmo ritmo dos três primeiros meses do ano, avisa a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), mas as projeções seguem sendo de mais admissões do que demissões. Diante da dura realidade de altíssimo desemprego no país, é um sinal positivo, uma vez que o Estado tem um dos principais polos manufatureiros do Brasil e o segmento costuma ter salários em média mais altos, além de um grau maior de formalidade.

A mais recente sondagem da Fiergs confirma o viés para cima. O índice de produção de março - mês com o maior número de restrições a atividades no Estado - ficou em 56,8 pontos, acima de fevereiro e da média histórica do período, de 52,8 pontos. A utilização da capacidade instalada, outro indicador importante, chegou a 76%, enquanto a média para o terceiro mês do ano é de 70,7%. Bons resultados, é preciso ressaltar, a despeito do período recheado de adversidades.

Mesmo assim, dificuldades não faltam. Uma delas é o aumento do custo das matérias-primas, decorrente da desorganização da cadeia global de fornecedores, consequência da pandemia, mas também da disparada dos preços das matérias-primas. Há outros entraves, como a própria situação de dificuldade da Argentina, principal cliente das fábricas gaúchas. A recuperação também não é igual para todos os subsetores.

Mas há sinais que dão esperança de um novo ímpeto, a médio prazo, quando o país e o mundo vencerem a pandemia. Quanto ao mercado interno, é essencial avançar na vacinação, para que os demais segmentos, como comércio e serviços, possam voltar a algo mais próximo do normal em termos de nível de atividade, disseminando benefícios e aumentando a renda da população. Significará maior demanda para as indústrias. Ao mesmo tempo, espera-se que o Congresso e o governo federal encontrem consensos para avançar com a reforma tributária. São passos essenciais para que este novo impulso possa ser sustentável e vigoroso, contribuindo para o crescimento da economia do Rio Grande do Sul.


CAMISA 1

Eram do Pão dos Pobres, e resolveram montar um time de futebol. Jogo tinham. Um era o Aírton Pavilhão da bola de meia, outro o cerebral Larry do terreno baldio. Faltava, sim, arrumar o dinheiro do fardamento, das botinas, da bola de couro. Para time de vila isso é sempre difícil, e mais difícil ficava em 1963.

Que jeito? Saíram a vender garrafa e jornal velho e a espremer limonada e a engraxar sapato. Deu. Encomendaram o uniforme. Uma beleza. Listradinho. Pena ninguém ter máquina para bater a foto. O time até parecia que jogava melhor, corria mais, que se entendia mais assim, todo mundo igualzinho. O campinho era ali no Pão dos Pobres mesmo, de chão batido, de goleira de sarrafo. Campinho glorioso, de onde saíra Salvador, aquele centromédio do Inter dos anos 1950.

Bom. Uma manhã de inverno, domingo, fazia um frio bárbaro. O tal de renguear cusco. O minuano uivava lá para os lados do rio. Entortava as paineiras. Fazia levantar as golas. E tinha jogo no campinho. Jogo brabeza, jogo duro. De campeonato.

Meia hora antes, estava todo mundo lá - o adversário olhando feio, o pessoal do time saltitando de braços cruzados. Faltava só o goleiro. Onde andava? Ele era fome, não perdia nem jogo de três dentro três fora. Não ia pipocar justo naquela partidona.

O tempo ia passando, já estava na hora do jogo, o juiz consultando o cebolão dele, cismado, e nada do goleiro. Cadê o desgranido? Reserva, reserva, não havia, mas um beque lá até atacava no gol, quando tinha que atacar. O negócio era botar o becão debaixo dos paus mesmo. Mas, e a camiseta? O goleiro morava pertinho, ali na Baronesa, era só buscar a camiseta, e pronto. Resolvido. Quem vai? Quem vai?

Decidiram ir todos. Combinaram com o juiz, com os adversários, e saíram, o time inteiro. Foram correndinho até a Baronesa. Cada vez mais frio, cada vez mais frio. Chegaram lá azoando no paralelepípedo das ruazinhas, a trote, puf, puf, xingando cachorro, chutando lata, rindo, rindo, chamando o goleiro de sacana. Pararam diante da casa dele. Uma casinha. Casebre. De madeira. Até meio torta para um lado.

Estava fechada. Bateram.

Nada.

Bateram de novo. Esperavam. Lá de dentro vieram uns passos fraquinhos e uma tosse comprida. A porta se abriu devagar. O escuro da casinha foi iluminado pela luz cinza do inverno de Porto Alegre. Sob o vão da porta surgiu uma mulher, uma senhora, toda encolhida, coitadinha, meio que gemendo de frio, o nariz fungando, os olhos vermelhos, a mão esquerda na maçaneta e a direita apertando o braço esquerdo. Fitou-os com seus olhos tristes de vira-lata pidão. Ciciou um bom-dia entre os dentes. Perguntou o que queriam. Ninguém respondeu. Olhavam para ela, mudos, de boca aberta. Ficaram assim alguns segundos, até que o centroavante atinou em gaguejar:

- Desculpa. Foi engano.

Foram embora cabisbaixos. Era a mãe do goleiro. Ela e sua sainha rota, seus chinelos de dedo. Ela e a camisa número 1 do time, camisa de bom tecido e mangas compridas. Quentinha, decerto. Bem quentinha. E preta, como toda camisa de goleiro tinha de ser, nos anos 1960.

Naquele dia, o goleiro reserva do time do Pão dos Pobres jogou com uma camiseta vulgar, de manga curta e o 1 das costas riscado a carvão. Tudo bem, sem problemas. Sem problemas.

Esta coluna foi originalmente publicada em 15 de abril de 2000

DAVID COIMBRA 

08 DE MAIO DE 2021
MARCELO RECH

Os que falam demais

Com seu doutorado em Chicago, o ministro da Economia, Paulo Guedes, pode dominar as ciências econômicas, mas sua verborragia incontrolável seria reprovada em um cursinho pré-vestibular de comunicação. Na voz de um czar da economia, uma frase mal colocada tem o condão de alterar os rumos do mercado, e Guedes não só fala sem script, pausa para reflexão e respiração: ele inventa analogias ruinosas para tentar vender seu peixe e acaba entregando um produto estragado.

Muitas das bobagens de Guedes teriam sido evitadas se ele soubesse que o sentido da comunicação não é o que se quer dizer, e sim o que se compreende da mensagem. A desastrosa fala sobre empregadas domésticas viajarem à Disney, por exemplo, poderia ter sido substituída pela menção de que, no passado, o real superapreciado tornava de fato mais barato passar férias na Flórida do que no Nordeste, com evidentes prejuízos para a economia brasileira. Ou o mais recente tropeço, sobre filhos de porteiros com nota zerada ingressarem em faculdades mediante o Fies, poderia ter alguma serventia se ele colocasse o dedo direto na ferida, sem referências demofóbicas. É verdade que alguns donos de faculdades ganharam mesmo muito dinheiro abrindo e inchando cursos com baixo nível de exigência porque o governo garantia as mensalidades em dia, mas ninguém assimilou o que o ministro pretendia criticar.

Ministros da Economia e presidentes de Banco Central deveriam ser modorrentos, parcimoniosos e econômicos não só nas despesas, mas principalmente nas palavras. Pedro Malan passou oito anos no Ministério da Fazenda, e enquanto corcoveava no lombo das crises, transmitia sonolência e tranquilidade ao país. E Henrique Meirelles, no Banco Central e na Fazenda, se notabilizou como um bem-vindo soporífero sempre que havia um sobressalto nas finanças. Já Guedes parece encantado com sua própria voz e descarrega a arma contra o próprio pé quando diz coisas como, se fizesse muita besteira, o dólar chegaria a cinco reais.

Ainda que involuntariamente, Guedes emula seu chefe, Jair Bolsonaro, que se vale de disparates para incendiar a audiência e provocar tanto indignação quanto apoios apaixonados. Lula, Dilma e Bolsonaro falam muito e de improviso, o que é uma porta aberta a sandices, gafes e analogias pobres.

O problema é que, na economia, não há margem para manifestações estapafúrdias.

Aliás, é como age o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, calejado pelo comportamento obsequioso dos banqueiros que sabem que a discrição, como o silêncio, vale literalmente ouro.

MARCELO RECH

O abismo

Entre tantos outros ensinamentos, a pandemia mostra que reduzir as desigualdades nunca foi tão necessário, no Brasil e no mundo. O debate esbarra em um preconceito antigo, moldado no sequestro do tema por correntes ideológicas. Diminuir as barreiras sociais entre camadas da população não é bandeira de esquerda, de direita ou de centro. 

É uma imposição humana e econômica que se justifica por qualquer viés de avaliação. Basta olhar para as economias e para as democracias mais desenvolvidas, nas quais inexiste esse vergonhoso abismo entre os mais ricos e os mais pobres. Incluir pessoas no mercado de consumo, dar a elas oportunidades e dignidade é a mais efetiva ferramenta de desenvolvimento econômico e humano, dimensões que só fazem sentido se caminharem juntas.

A receita é fácil, mas não é simples. Começa pelo investimento em educação e passa pela reforma do Estado. Investir em educação não é apenas alocar verbas. É ter clareza do porquê e do como, com definições de novos modelos pedagógicos, alinhados com as necessidades de um novo mundo. Reformar o Estado significa descentralizar recursos, decisões, cortar e mudar estruturas ineficientes. Mas seria necessário contrariar poderosos interesses de curto prazo.

A desigualdade dificulta o estabelecimento de políticas públicas. As políticas públicas dificultam o combate à desigualdade. Interromper esse looping é um dos nossos grandes desafios.

Com Raíssa de Avila | raissa.avila@gruporbs.com.br - TULIO MILMAN Nenhum comentário:

08 DE MAIO DE 2021
JR.GUZZO*

Inflação volta a dar as caras

Os juros voltaram a subir. Em março, após um longo período de taxas reduzidas a níveis mínimos, houve um primeiro aumento – já uma pancada de 0,75 ponto percentual de uma vez, levando a taxa de 2% para 2,75% ao ano. Agora o Banco Central dá um segundo aumento consecutivo: outros 0,75 pp, o que coloca os juros brasileiros a 3,50% anuais.

É um sinal claro de que a inflação voltou a roncar.

Os preços, que pouco se mexeram nos últimos dois anos – apesar de surtos localizados neste ou naquele produto – estão de novo numa curva que aponta para cima, e o governo decidiu ir adotando, desde já, o aperto financeiro como resposta à subida dos índices inflacionários.

O Brasil tem uma história de horrores com a inflação – tão ruim, na verdade, que ninguém é mais capaz de apontar com certeza qual foi o momento pior.

É compreensível, assim, que as autoridades econômicas fiquem inquietas quando veem os preços darem sinais de aumento constante – mesmo nos modestos patamares de agora. Para um país que já teve mais de 80% de inflação num único mês, março de 1990, o equivalente a quase 5.000% ao ano, os números de hoje são nada.

Só que não são nada; podem ser muito. Inflação começa em 1% ao ano – a partir daí, o programa é livre.

De 1% passa-se ao dobro, depois ao triplo, de taxa anual passa-se à taxa mensal, depois à taxa diária e, quando se nota, o bicho está fora de controle, como foi durante as décadas de 1980 e 1990, em seus primeiros anos. Foram tempos de desordem.

Os governos montaram sete “planos econômicos” para combater a inflação, todos eles inúteis. Não havia cartão de crédito. Para comprar dólar era preciso pedir licença ao Santo Padre, o Papa, em três vias. A certa altura, um dos presidentes de passagem pelo Palácio do Planalto achou que era uma boa ideia congelar todo o dinheiro que a população tinha na poupança. Nunca a economia do Brasil passou tão mal.

Hoje quem tem 40 anos de idade, completos, não sabe o que é inflação – ainda era criança quando o Plano Real, em 1994, colocou um fim à hiperinflação da era anterior. Passou a vida tendo cartão de crédito e de débito, aumentos só anuais, ou nem isso, juros baixos no crediário.

Mas para todos os demais a inflação foi um pesadelo real.

É natural que a qualquer sinal de perturbação nos preços as preocupações reapareçam – e façam surgir medidas restritivas e o encarecimento do crédito.

Do jeito que estava – e ainda está – com certeza não dá para ir adiante. Juros de 2% ou 3% ao ano, com a inflação no nível atual, se tornam negativos; qualquer investimento financeiro, ou qualquer poupança, se transforma em prejuízo. A expectativa é de mais um aumento, de novo de 0,75 pp, na próxima reunião do Banco Central para tratar do assunto, em junho. Os dias de dinheiro barato podem estar fazendo a sua despedida.

*Conteúdo distribuído por Gazeta do Povo - J.R. GUZZO*

sábado, 1 de maio de 2021


01 DE MAIO DE 2021
LYA LUFT

E se a vida fosse diferente

E se a vida fosse diferente... seríamos melhores, mais alegrinhos, mais generosos, menos materialistas, menos invejosos, menos rancorosos, menos caluniadores, menos ignorantes e menos fingidos... isto é, menos infelizes?

Se a vida fosse diferente, acho que talvez, em parte, seríamos iguais. Talvez. Ou: como somos diferentes dependendo das diferenças de nossas famílias, educação, oportunidades, força de vontade, escolaridade, decência nas condições de vida... quem sabe seríamos melhorzinhos?

Os grandes milionários, desde os grandes imperadores, e, mais atrás, desde Átila, Gengis Khan e outros figurões poderosíssimos, que tinham à disposição toda a riqueza do mundo de então, seriam melhores do que seus cidadãos, ou servos, ou adversários?

Tenho grandes dúvidas. Acho, sim, que no fundo somos animais predadores com aquela casquinha de civilização, mais ou menos grossa, mais ou menos rachada, conforme as circunstâncias... mas também conforme nossa personalidade inata. Pois acredito que nascemos com uma bagagem psíquica que nos definirá basicamente para sempre, ainda que, de novo: família, educação, condições de vida, desejo de mudar e força de vontade tenham sua influência.

Sei de ótimas famílias que tiveram filhos drogados graves ou criminosos, tendo causando grande sofrimento a si próprios e aos que os amavam, conheço famílias humildes cujos filhos acabaram pessoas de bem em qualquer profissão, de pedreiro a senador.

Lógico: se vivo entre bandidos, mais fácil virar um deles. Mas onde está o Estado, que permite que a bandidagem tome conta de bairros inteiros, cidades inteiras, e que ninguém consiga respirar sem dobrar o pescoço a esses tiranetes modernos, cruéis e espertos, e mais ou menos protegidos?

Se a vida fosse diferente, talvez todos nós entendêssemos que ser feliz não é amar-se, curtir-se, ser atlético e magro e belo e rico, mas viver conforme um ser humano: generoso, cúmplice do bem, atento aos que precisam de um empurrãozinho para se arranjar na vida e ter emprego, pão para os filhos, algum lazer, e não ficar em infinitas filas para ganhar uma quentinha, uma garrafa de água, uma vacina que seja... filas de centenas de idosos para se protegerem da Peste, e chegando sua vez veem que não há vacina... e que se arranjem.

Não sei como a vida poderia ser diferente, mas com certeza o primeiro sonho de cada um não seria o vazio "ser feliz", mas ser bom, ser útil, ser generoso, ser parceiro, amar sua gente, sua família, amigos, alunos, professores, médicos, policiais, funcionários, vizinhos e até adversários políticos, sem fingimento mas sem rancor.

Se a vida fosse diferente, quem sabe: ao menos boa parte de nós, pobres humanos, seríamos um pouco diferentes: uma gota de otimismo, hoje, é preciso.

LYA LUFT