sábado, 26 de março de 2022


26 DE MARÇO DE 2022
FRANCISCO MARSHALL

A AURORA DE PORTO ALEGRE

A lei municipal 3.609, de 29 de dezembro de 1971, oficializou o dia 26 de março de 1772 como data da fundação de Porto Alegre, que neste sábado celebra, portanto, 250 anos. Foi nessa data que uma Provisão Régia e uma Provisão Eclesiástica, expedidas no Rio de Janeiro, desmembraram Porto dos Casais de Viamão, capital da província desde que Rio Grande caíra nas mãos dos espanhóis, em 24 de abril 1763. Naquele ano de 1772, o vilarejo de Porto dos Casais foi elevado à condição de freguesia, termo derivado de filii ecclesiae, filhos da igreja, ou seja, os que habitavam em torno de uma capela, uma paróquia, e esta era forma elementar de circunscrição civil.

A igreja situava-se na margem do rio (Delta do Jacuí), onde hoje é a Praça da Alfândega. O nome dado à freguesia foi Porto de São Francisco dos Casais, mas em 18 de janeiro de 1773 este se alteraria para Nossa Senhora Madre de Deus de Porto Alegre, com homenagem à cidade de Portalegre, no Alto Alemtejo, Portugal. Ano que vem, portanto, à luz da documentação histórica, poderemos comemorar novamente os 250 anos de Porto Alegre.

Há, todavia, antecedentes a partir do pequeno porto situado na foz do Riacho, o atual Arroio Dilúvio, e que então desaguava no Lago do Viamão (Lago Guaíba) na região onde hoje há o aterro do Parque Harmonia. O Porto do Viamão passou a chamar-se Porto dos Dorneles a partir de 1740, em alusão ao sesmeiro Jerônimo de Ornelas Menezes e Vasconcelos, que deu origem à ocupação dessa região em 1732. Neste caso, em 2022 podemos comemorar também os 290 anos da cidade.

Em abril de 1751, o governador de Santa Catarina mandou para o Porto Dorneles casais açorianos recentemente radicados no Desterro (Florianópolis); em Rio Grande, porém, dispersaram-se e somente o casal de Francisco Antônio da Silveira (o Chico da Azenha) avançou para cá, e recebeu lote de terras junto ao Riacho; construiu sua casa no local onde depois ergueu-se o já destruído Cinema Castelo, e instalou um moinho (azenha) que resistiu até pouco tempo atrás no pátio do Hospital Ernesto Dorneles.

Ao final de 1751, nova leva de açorianos chegou ao Desterro e de lá partiu rumo ao Porto Dorneles, onde chegaram no final de janeiro de 1752, para ocupar, inicialmente, área junto ao Morro de Santana; diante da falta de água, porém, logo mudaram para as adjacências do porto. Eram 60 casais, dos quais sabemos os nomes de 59, e ocuparam os dois lados da península, dando origem à efetiva ocupação da região que um dia se tornaria o centro da cidade e logo ganharia a persistente urbanização em quarteirões. Praticaram boa agropecuária, desenvolveram-se e expandiram-se para chácaras no rumo de Viamão e para o Sul. Por essa razão, em janeiro poderíamos ter comemorado também os 270 anos desta cidade, com seu lindo nome de Porto dos Casais, e com a bela homenagem que lhes rendeu o escultor Carlos Tenius, no Monumento dos Açorianos (1974), que estiliza com corpos humanos o bojo do navio que trouxe os casais, com uma Vitória na proa e o arrojo de linhas modernas, apontando o futuro de uma cidade.

Felizes aniversários, Porto Alegre!

FRANCISCO MARSHALL

26 DE MARÇO DE 2022
DRAUZIO VARELLA

A INVISIBILIDADE DAS SEQUELAS

Epidemias de doença virais podem deixar pessoas com sequelas que não são levadas a sério, nem pelos médicos nem pela sociedade.

A covid-19 é mais um exemplo. Depois de sobreviver à fase aguda, os pacientes são considerados curados, mesmo que ainda apresentem sintomas, não importa se frustros ou exuberantes.

Esse fenômeno não é novo na história das epidemias, como discute Laura Spinney, no último número da revista Nature. A gripe espanhola, que se disseminou pelo mundo em 1918, deixou um rastro de quadros neurológicos compatíveis com uma doença conhecida como encefalite letárgica, que ganhou o nome de "doença do sono", por causa da sonolência que a caracterizava.

Das pessoas que se curavam dessa sequela, cerca de 80% desenvolviam quadros neurológicos muito semelhantes aos da doença de Parkinson.

Nunca ficou demonstrada a presença do vírus influenza no tecido cerebral, de forma a estabelecer uma relação clara de causa e efeito, mas o número de casos de encefalite letárgica e de doença de Parkinson aumentou de forma significativa ao redor do mundo, nos anos que se seguiram à pandemia.

Nas pandemias de influenza dos anos 1957 e 1968, também houve aumento da incidência de complicações neurológicas, entre as quais a encefalite letárgica. Como na gripe espanhola, também não foi possível comprovar relação de causa e efeito entre o vírus e o processo inflamatório que acomete o tecido cerebral na encefalite.

Apesar dessa dificuldade, está bem documentado que o vírus influenza infecta o tecido cerebral e provoca inflamações em diversos órgãos. Vários estudos detectaram ondas de ataques cardíacos e derrames cerebrais depois das temporadas de gripe. Crianças com encefalite pós-gripal são raras, mas podem desenvolver quadros fatais ou evoluir com danos neurológicos.

Influenza não é a única doença infecciosa capaz de deixar sequelas. O vírus do sarampo pode causar uma doença neurológica rara conhecida como pan-encefalite esclerosante subaguda, que pode cursar com quadros neurológicos graves.

Décadas depois de ter tido poliomielite, muita gente volta a se queixar de dificuldades respiratórias e motoras de grau variável, que podem eventualmente levá-los de volta para a cadeira de rodas e à dependência de suplementação de oxigênio (as estimativas variam de 20% a 85%). Durante muitos anos, esses casos ficaram sem explicação.

Tais reativações de sintomas de uma doença viral ocorrida muitos anos antes, foram incapazes de despertar a atenção dos médicos ou dos pesquisadores para explicá-las e descobrir formas de prevenção.

Cerca de seis meses depois do aparecimento dos primeiros casos de covid-19, vieram os primeiros relatos de sintomas que persistiam por semanas ou meses. Hoje, sabemos que a "covid longa" é uma síndrome caracterizada por cerca de 200 sintomas que envolvem pelo menos 10 órgãos e sistemas, entre os quais coração, cérebro, pulmões, pele, intestinos e nervos periféricos.

Queixas de fadiga, dispneia aos pequenos esforços, queda de cabelo, perda de olfato e paladar, fraqueza muscular, sensação de formigamento nas extremidades e um conjunto de alterações cognitivas que recebem o nome de "fog" cerebral são as mais frequentes. Podem durar semanas ou meses, como em outras síndromes pós-virais.

Embora corram mais risco de desenvolver covid longa os pacientes que tiveram manifestações graves na fase aguda, têm sido descritos inúmeros casos entre pessoas com apresentações pouco sintomáticas da doença.

Na história das epidemias, com a atenção voltada para as demandas médicas da fase aguda, os sistemas de saúde sempre negligenciaram os quadros crônicos provocados por elas. Desta vez, no entanto, a internet fez a diferença: grupo de pacientes com covid longa formaram comunidades online para compartilhar seus problemas e cobrar soluções para eles.

Em maio de 2021, economistas da London School of Hygiene & Tropical Medicine estimaram que as sequelas da covid consumiam 30% dos gastos de saúde com a epidemia. Essa avaliação inicial não levou em conta os custos com os transtornos psiquiátricos nem os das crianças com sintomas de longa duração.

As estimativas atuais são de que a pandemia deixará um rastro de doenças crônicas pós-virais que exigirão mais recursos do que o próprio tratamento da fase aguda em hospitais, à medida que a disseminação for controlada.

DRAUZIO VARELLA

26 DE MARÇO DE 2022
MONJA COEN

QUAL É O SEU PAPEL?

Hoje é hoje. Não é ontem nem amanhã. Entretanto, sem o que foi e o que será o que é não existiria. Você está lendo no futuro o que estou escrevendo no passado. E agora estamos no presente.

De presente a presente, desatamos nós e, delicada ou rudemente, desembrulhamos papéis. Alguns presentes chegam bem embrulhados, caixa dentro de caixa e no fim tudo vazio. Outros vêm de qualquer jeito, desalinhados, embrulhados em jornais velhos. Em cada presente, uma mensagem secreta e translúcida. Será que há algo a ser revelado?

Fotos estão presentes no negativo. De negativo a negativo revela-se no positivo. Menos e menos dá mais. Negar pode levar a afirmar.

Da Negação ao Despertar é o título de um novo livro meu. Não é a negatividade de quem jamais vê a luz no fim do túnel. Nem o negativismo de quem duvida da ciência, da realidade e da vida. Que, como a avestruz assustada, enfia a cabecinha num buraco e se sente protegida.

Há um negar que leva ao despertar. Tudo que não é leva ao que é. Nada tem uma autoidentidade substancial independente e separada. Tudo está em movimento, transformação. Eu você, esta página de jornal, que hoje nos faz ler, refletir e amanhã estará descartada. Entretanto, embora a impressão fique mais fraca e o papel amarelado, o que foi escrito e lido fica em nós guardado. As letrinhas causam alteração.

Há quem tenha boa memória e há quem de nada lembre. Preferiu fingir que esqueceu. O comediante se torna herói e o homem forte destrói. Qual o seu papel? Ontem foi diferente de quem é agora. Amanhã, domingo, o que acontecerá?

Cada acontecimento, experiência, visão, sentido, cheiro, audição transformam a nós e ao mundo. É impossível separar você de mim, eu de você, nós da Terra e de tudo que aqui vive e habita. Todos os seres do passado e do futuro neste instante aqui se manifestam: árvores e mares, rios e florestas, traidores e mendigos, sábios e poetas.

Qual o seu papel? Já experimentou mudar a fala, o olhar, o andar e representar outro personagem em outro lugar? Filho, filha, neto, bisneta, amigo, inimigo, amor, desafeto, pai, mãe, avô e avó - temos múltiplos papéis na família e no mundo, nos estudos e no trabalho. Vizinhança, parceria, plantação, cavalaria.

O laço bem jogado derruba e prende um boi ou um cavalo. Há quem prenda a si mesmo nas tramas de um abraço.

Tudo e o todo, em constante movimento. Há algumas mudanças decididas e orientadas por mentes despertas. Outras ocorrem sem direcionamento por pessoas distraídas, sem atenção, esburacando ruas e corações.

Você reconhece seu papel e posição? É capaz de estar presente no presente e ser excelente nas mais variadas funções? Não para se exibir e provar sua capacidade, mas para tornar a realidade mais agradável ao maior número de seres? Há tanto a ser feito...

Estamos chegando ao fim das águas de março, mas ainda haverá enchentes e desabamentos. Entramos no outono com uma brisa refrescante, mas ainda haverá dias quentes e úmidos. As homenagens às mulheres desencadearam respeito e consideração, mesmo assim ainda haverá feminicídios, abusos, exploração, salários inferiores e insegurança.

Ainda há guerras e violências, fome, miséria, drogas, armas e dependências. Há ternura e há fartura, há solidariedade e afeto, reconhecimento, singeleza e ternura. Escolha. O que fazer no presente para que seja um bom presente?

Mãos em prece.

MONJA COEN

26 DE MARÇO DE 2022
J.J. CAMARGO

ONDE ESTAMOS ERRANDO?

A Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro, criada em 1808 pelo príncipe regente Dom João VI, é a segunda mais antiga das faculdades médicas do Brasil. E tem uma histórica preocupação com a qualidade da formação profissional no nosso país.

O simpósio sobre educação médica girava em torno de uma pergunta central que todos tínhamos que, de alguma maneira, responder: "O que estamos errando na formação médica?".

O tipo de pergunta que desconserta porque naturalmente somos mais afeitos ao sucesso, qualquer que seja a tarefa.

Mas sem espaço para choramingar, havia de elencar as causas de um desempenho no qual, a julgar pelo produto final, estamos fracassando.

Certamente, de um tema tão multifacetado e complexo não se pode esperar uma resposta única e abrangente. É certo que professores, alunos e circunstâncias mudaram, e com uma velocidade estonteante capaz de triturar os conceitos mais enraizados e pretensamente definitivos neste mundo líquido, de transformações permanentes, em que a única certeza é a de que não sabemos como o amanhã será.

E claro, é sempre mais difícil assumir o quanto erramos, por imprevidência, inércia, boa-fé ou comodismo. Vendo retrospectivamente, foi uma ingenuidade imaginar que seria previsível o resultado da obra pronta, ignorando-se os indícios de que a qualidade da matéria-prima fosse duvidosa.

Impossível não evocar a parábola de Galeano, na qual um escultor famoso recebeu uma grande pedra e um pedido da prefeitura para produzir, com seu talento, um grande cavalo para colocar na praça central da cidade. Subido numa escada, pôs-se a trabalhar, a golpes de martelo e cinzel, sob os olhares curiosos dos meninos do bairro.

Dias depois, começaram as férias, e as crianças foram para as montanhas ou o litoral. Dois meses mais tarde, quando voltaram, um lindo corcel ocupava o ateliê do artista, e um dos meninos, com os olhos muito arregalados, perguntou: "Como é que você sabia que dentro daquela pedra havia um cavalo?".

Os tempos mudaram, as prioridades inverteram-se, a instantaneidade da informação induziu à ideia equivocada de que pressa é virtude, que o açodamento é sinônimo de inteligência, que a prudência é indício de insegurança, e que o número de seguidores é prioritário no currículo de qualquer candidato, para qualquer função.

A imaturidade decorrente passou a se manifestar na incapacidade cognitiva de redigir um texto que exprima emoção e, muito fortemente, na fugacidade das relações amorosas, como se amor e ciúme tivessem por súbito desencanto se tornado sentimentos obsoletos.

Na verdade, estávamos a caminho de descobrir que a falta de pertencimento afetivo é a mais aguda expressão de pobreza emocional, congênita ou adquirida pelo exercício da impessoalidade.

Com evidente repercussão na formação profissional, a hierarquia acadêmica começou a ser questionada, os influencers sentiram-se tratados como gurus, e ninguém se espantou diante da espantosa rotatividade desses virtuosos palpiteiros.

A inteligência emocional, reconhecida como indispensável para quem pretenda interagir com pessoas necessitadas de ajuda, passou a ser desprezada, ignorando-se que as diferenças individuais dos aprendizes exigem que cabeças sensíveis e experientes sirvam de modelo a quem se lança na difícil tarefa de cuidar de seres humanos, equiparados na ânsia pela felicidade, mas completamente diferentes nos atributos para alcançá-la.

Nós, professores, continuamos a receber pedras brutas de diferentes tamanhos, mas agora sem nenhuma certeza do que tenham dentro.

J.J. CAMARGO

26 DE MARÇO DE 2022
DAVID COIMBRA

A arte de tirar a sesta

Os espanhóis fazem a sesta. E fazem sem remorso. Das duas às cinco da tarde, boa parte do país simplesmente dorme. É admirável. Sempre quis cultivar o hábito da sesta, mas como lidar com o sentimento de culpa? Acho que foi o maldito sistema capitalista que inoculou na minha mente a irreprimível sensação de que a hora depois do almoço é para produzir.

Produção, produção, produção. Bens de consumo, é isso que vocês querem, não é? A mais valia. O negócio de vocês é a mais valia! Por causa dessa ardilosa filosofia calvinista, passei a vida reprimindo minha vontade de fazer a sesta. Mesmo assim, o corpo reivindica. O corpo não está nem aí para a ética burguesa.

Houve uma época, lá pelos 16 anos de idade, em que trabalhei no departamento de cobrança da J.H. Santos, uma grande loja de departamentos que havia em Porto Alegre. Eu não cobrava nada de ninguém, meu serviço era interno, de escritório. A sede ficava ali na Otávio Rocha, em frente à Renner. Começava o trabalho bem cedo, pouco depois das sete da madrugada. Tinha de chegar, bater o ponto no oitavo andar e depois descer para a minha sala. Se não batesse o ponto no horário, descontavam o dia. Quer dizer: trabalhava de graça.

Era terrível, porque morava lá no IAPI. Então, precisava acordar cedo, praticamente ainda noite, uma dor. Resultado: depois do almoço, dava-me um sono, mas um SONO. Era invencível. Não havia nada que resolvesse. Tomava café e dormia com a xícara na mão, ia lavar o rosto e dormia no banheiro. Eles me davam uns formulários para preencher, uma folha de papel com uns quadradinhos. Eu devia escrever uns números naqueles quadradinhos. Cristo! Os quadradinhos e os números começavam a se embolar na minha visão, as minhas pálpebras pesavam e a cabeça começava a se transformar numa bola de boliche. Estava quase afundando o queixo no peito e vinha o chefe de lá e desferia o maior tapa na mesa, PLÁ!

- Acorda, rapaz! Eu levava o maior susto, pedia desculpas e seguia preenchendo os quadradinhos.

Lembro que, na época, li uma reportagem sobre a tradição da sesta na Espanha. Contava que muitas empresas mantinham caminhas aconchegantes em uma sala escura para os funcionários descansar depois do almoço. Suspirei. A velha e boa Espanha.

O general Geisel fazia a sesta. Depois do almoço, ele subia para seus aposentos particulares no Alvorada, tirava o terno e a gravata, entrava em um pijama e dormia por exatos 30 minutos, ao cabo dos quais se levantava, vestia-se de presidente e ia

despachar. Pelé, no intervalo dos jogos, estendia-se no banco duro do vestiário e cochilava por 15 minutos. Em seguida, recomposto, voltava a campo e marcava mais dois gols. E Churchill, que era de dormir pouco à noite, mesmo durante os ardores da Segunda Guerra Mundial, parava tudo após o almoço, repousava por meia hora e retornava à lida de charuto empinado, disposto a dizimar nazistas. Já o meu avô, o sapateiro Walter, reservava 15 minutos para si mesmo depois da uma da tarde. Ele fechava a sapataria e ia para os fundos. Apagava as luzes, recostava-se em uma espreguiçadeira, ligava o rádio no Sala de Redação e adormecia ouvindo o Foguinho discutir com o Cid.

Pensando em tudo isso, convenci a mim mesmo de que devia vencer meus preconceitos e tentar praticar a sesta. Afinal, tenho repetido meus 16 anos e acordo para trabalhar, quando ainda é noite.

Certo. No primeiro dia, interrompi o texto bem na palavra "corajosamente", tomei de uma colcha macia como uma carícia de mãe e fui para o quarto. Fechei os olhos. Senti o torpor dominar meu corpo. Afrouxei a resistência. Mas, depois de cinco minutos, sentei na cama gritando:

- PRODUÇÃO! PRODUÇÃO!

Aqueles cinco minutos me fizeram mal e passei o resto do dia me sentindo estranho.

Não repeti a experiência durante toda a semana, mas, dias atrás, atravessei a manhã escrevendo e preparando um feijão com linguiça, temperado apenas com alho e sal. Imodestamente, afirmo que produzi um caldo cremoso, com sabor de comida da avó. Em 20 minutos, fiz um arroz soltinho, aliás ótimo arroz, vindo da Tailândia. Cortei um tomate em fatias da espessura de uma moeda de um real e temperei com sal, limão e azeite de oliva. Acompanhei o repasto de uma, uma única taça de tinto da Califórnia. Saí da mesa suspirando, levando no rosto meio sorriso e meio olhar. Então, sem nada premeditar, sem planejamento e sem solenidade, me estiquei no sofá da sala e, em um minuto, adormeci feito um gato no sol. Depois de um quarto de hora, despertei, sentindo-me muito, muito bem. Sentindo-me um espanhol.

Voltei para o computador sabendo-me renovado. Olhei para a tela. Ataquei o texto, murmurando suavemente:

- Produção... Produção...

Texto originalmente publicado na edição de 28 e 29 de janeiro de 2017 - DAVID COIMBRA


26 DE MARÇO DE 2022
FLÁVIO TAVARES

OS 250 ANOS

Tudo é tão imenso em Porto Alegre que até os 250 anos de existência, comemorados neste 26 de março, em verdade, vão muito além. O aniversário é apenas a data oficial de quando a aldeia foi elevada à condição de freguesia em 1772.

As 60 famílias açorianas que fundaram o Porto dos Casais desembarcaram aqui em 1751. Logo, ocuparam o morro de Sant´Ana e o vilarejo se expandiu. A sede da capitania era Rio Grande, que em 1763 é ocupada pela Espanha, e a capital transfere-se para Viamão. Mas é Porto Alegre que cresce e, no final de 1812, torna-se sede da capitania de São Pedro do Rio Grande.

Daí em diante, viveu diferentes situações. Na Revolução Farroupilha, só por poucos meses esteve em poder dos Farrapos, expulsos da vila pelas forças do Império. Por isso, em 1841, Dom Pedro II dá à cidade o título de "mui leal e valerosa", que até hoje está no brasão, equivocadamente.

Em 1855, a epidemia de cólera matou 1,4 mil pessoas. Em 1884, quatro anos antes da Lei Áurea, a cidade foi pioneira na libertação dos negros escravos. Tempos atrás, em pleno século 21, um negro foi morto a pancadas por "seguranças" de um supermercado, confundido com "ladrão" pela cor da pele.

Em 1950, quando vim estudar em Porto Alegre, a cidade tinha 600 mil habitantes. Hoje, tem mais de 1,5 milhão. Aqui formei minha visão de mundo e de vida. Morava na Casa da JUC, na Praça da Matriz, a catedral estava ainda em construção e, sábados e domingos, ouvia música erudita executada pela Banda Municipal no Auditório Araújo Vianna, onde hoje está a Assembleia Legislativa.

Antes, ainda guri, assisti a um jogo de polo no local onde hoje está o Hospital de Clínicas. Guardo na retina o prédio "rococó" do Colégio Júlio de Castilhos, na Avenida João Pessoa, que se incendiou no final de 1951.

Nessa Porto Alegre do passado, nos banhávamos no Guaíba, hoje poluído. O rio foi invadido e aterrado, mas a Orla atual virou belo ponto de lazer, descanso e exercício da população.

Enfim, como diz a canção, "Porto Alegre é demais".

FLÁVIO TAVARES

26 DE MARÇO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

PORTO ALEGRE, 250 ANOS

Porto Alegre alcança os 250 anos se reconciliando com a sua grande riqueza natural e vivendo uma nova efervescência urbana e econômica após os dias mais soturnos da pandemia. A revitalização da Orla, que segue em curso, devolveu a convivência da população com o Guaíba, o corpo hídrico que está na origem do nascimento e do desenvolvimento da cidade. Suas margens, agora dotadas de bela infraestrutura recém construída para lazer e prática de atividades físicas, renovaram o orgulho dos porto-alegrenses e, mais importante, tornaram-se um ponto de encontro democrático para cidadãos de todos os bairros em busca de momentos aprazíveis. Uma genuína redescoberta.

Há, ao mesmo tempo, uma ebulição que resplandece com a retomada das interações sociais, a volta dos eventos culturais e esportivos e com novos empreendimentos voltados à gastronomia e ao turismo. Regiões degradadas, como o Centro Histórico e o 4º Distrito, muitas vezes a primeira visão que o visitante tem da Capital, ganham projetos que prometem revigorá-las e torná-las outra vez pulsantes e dinâmicas. No quesito econômico, a Capital busca cada vez mais se firmar como polo de tecnologia e inovação, consolidando a sua vocação voltada aos serviços, em que despontam ainda áreas como educação e, sobretudo, saúde. São iniciativas e políticas que unem poder público, empreendedores privados e sociedade civil e vão na direção correta ao contribuir para uma Porto Alegre conectada com o futuro, retendo cérebros e impulsionando o desenvolvimento da cidade.

A Capital assiste no presente ao andamento de uma série de obras e planos para, assim como ocorreu no passado, moldar o porvir. Sejam na infraestrutura viária, no saneamento ou no embelezamento, essas iniciativas devem em sua essência ser voltadas à melhoria da qualidade de vida da população. Ao lado dessa remodelação dos aspectos físicos da cidade, um organismo dinâmico em constante transformação, não deve ser perdida de vista a importância de requalificar serviços essenciais, como transporte de passageiros, limpeza das vias e praças, recuperação ambiental de lugares como o Arroio Dilúvio, atenção às periferias e combate à desigualdade social. Uma revitalização plena da cidade não prescinde de cuidar dos invisíveis ou de quem vive em pontos mais afastados dos olhos da opinião pública que tem voz para reivindicar. São desafios, aliás, comuns a todas as metrópoles brasileiras.

Se o leitor atentar, acima e nas reportagens publicadas nesta edição de Zero Hora é marcante a presença de palavras com o prefixo "re", no sentido dar novo impulso a algo. Reconciliar, revitalizar, renovar, redescobrir, revigorar, remodelar e retomar são alguns dos verbos empregados. É uma prova de que Porto Alegre, ao longo de seus dois séculos e meio de história, conseguiu em diferentes momentos fulgurar, mas, por diversas razões, passou por períodos de certo abatimento, o que parece começar a ficar para trás, graças à mobilização de seus cidadãos e lideranças.

O destino da Capital não importa somente para os que vivem nela. Como maior cidade e centro administrativo, é uma espécie de símbolo da visão do Rio Grande do Sul. Une uma zona rural produtiva e diversificada, ímpar para grandes metrópoles, com o burburinho frenético do cotidiano citadino. Porto Alegre tem ao mesmo tempo um ar provinciano e uma atmosfera cosmopolita. São contrastes que se complementam. Alia a tradição e as maravilhas naturais - como o Guaíba e seu inigualável pôr do sol - à modernidade e à tecnologia de ponta. Com seu charme, feridas e variedade étnica, resume e dá os contornos da compreensão externa sobre o que é este Estado e quem é a gente do garrão do Brasil. Tornar a Capital um lugar mais próspero e agradável para viver, ao fim, se traduz em ganhos tangíveis e simbólicos não só para os porto-alegrenses, mas para os gaúchos de todos os rincões. 


26 DE MARÇO DE 2022
+ ECONOMIA

Dólar cai, mas juro vai subir mais Terreno na lua?

Nesta semana, a Federação das Indústrias do Estado (Fiergs) anunciou que pretende entrar no metaverso. Seria a primeira entidade a ingressar no mundo virtual, e ainda teria "sede própria". Em todo o mundo, já existem "imobiliárias" especializadas em vender terrenos digitais. Mas essa será uma nova versão dos "terrenos na lua", golpe que ganhou popularidade nos anos 1960, depois da primeira alunissagem da história, em 20 de julho de 1969? No caso da Fiergs, a proposta faz sentido: a entidade pretende usar o metaverso como canal de comunicação para temas institucionais e para promover marcas e produtos das indústrias gaúchas.

Existe um "mercado imobiliário" vendendo terrenos no metaverso, com "zonas nobres" - onde há maior quantidade de usuários ativos - e periféricas. A revista Fortune projetou que pode envolver "vários trilhões de dólares". Há relatos de "compra de terreno" por US$ 2,43 milhões.

Depois que o IPCA-15 ficou em 0,95% em março, "acima das expectativas mais pessimistas", como definiu um analista, o dólar acentuou a queda no mercado de câmbio no Brasil. É bom lembrar que o IPCA-15 é conhecido como "prévia da inflação" porque é uma pesquisa igualzinha à do índice considerado oficial no país, apenas em outro período.

Sinal de que mais inflação é bom e de que a economia brasileira vai bem? Não, ao contrário: as projeções agora embutem maior probabilidade de que a alta já prevista em um ponto percentual no início de maio não seja a última do atual ciclo de alta.

Nunca é demais repetir que a causa básica da valorização do real é a elevação do juro no Brasil. É fácil de entender: investidores são remunerados pela rentabilidade de suas aplicações e pela taxa de juro. Se só ao entrar no Brasil já garantem 11,75% ao ano, enquanto a taxa básica dos Estados Unidos está em 0,5%, é óbvio que a Selic virou um ímã de dólares. Isso é ruim? Não pela consequência, porque dólar mais barato ajuda a conter a inflação, mas pela causa.

Como se sabe, a função do juro em alta é reduzir consumo, investimento, crédito. Isso significa que a economia brasileira é obrigada a desacelerar, ou seja, a crescer menos. Então, se a inflação segue em alta, o mesmo ocorre com o juro, que tira velocidade da atividade produtiva.

Quem mencionou a inflação "acima das expectativas mais pessimistas" foi Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos. Sua projeção era de 0,81%, e atribui a diferença a uma dupla simbólica: gasolina e perfumes - depois do mega-aumento surgiram memes com gasolina vendida em pequenos frascos. O segundo item também apareceu como surpresa não computada na previsão de 0,85% de Felipe Sichel, estrategista-chefe do banco digital Modalmais. Conforme o economista, o item do grupo Saúde e Cuidados Pessoais subiu 12,84%.

Mas se bons odores pressionaram a inflação, inspiram mau cheiro logo ali adiante: conforme Sichel, o IPCA-15 mostra "dinâmica e composição ainda desfavoráveis, reforçando nossa tese de elevação de 100bps na Selic em maio" ("bps" são pontos básicos, que equivalem àquele um ponto percentual que o BC já avisou que deve levar a Selic a 12,75%).

+ ECONOMIA

26 DE MARÇO DE 2022 
CHAMOU ATENÇÃO

Quarta dose autorizada no RS

Em reunião realizada na sexta-feira, gestores estaduais e municipais da área da Saúde decidiram, na Comissão Intergestores Bipartite (CIB), que cidades com disponibilidade de vacinas contra a covid-19 já podem começar a aplicação em idosos a partir de 80 anos, respeitando o intervalo de quatro meses após a terceira dose.

A Secretaria Estadual da Saúde (SES) deve publicar, nos próximos dias, mais detalhes sobre a quarta dose. Idosos com alguma injeção em atraso devem, primeiro, cumprir o esquema previsto anteriormente, dentro dos prazos referentes a cada imunizante.

Novos repasses de vacinas estão previstos pelo governo do Rio Grande do Sul para as prefeituras, conforme as próximas remessas que chegarem do Ministério da Saúde.

O imunizante preferencial para a quarta dose é o da Pfizer, mas as vacinas da Janssen e da AstraZeneca também podem ser utilizadas.

No Estado, a população total acima de 80 anos é estimada em 326 mil pessoas - dessas, de acordo com a SES, cerca de 243 mil (74%) já têm o primeiro reforço. Fica o alerta para quem não está em dia: aproximadamente 26 mil pessoas não tomaram nem a primeira injeção. Em relação à segunda dose, 8,3 mil idosos dessa faixa etária precisam tomá-la, e outros 63 mil necessitam da terceira.

Quanto ao público com a vacinação completa, 180 mil pessoas já estariam habilitadas para a quarta dose. Até o final da primeira semana de abril, mais 28 mil terão cumprido o prazo de quatro meses e poderão receber esse segundo reforço.

Em Porto Alegre, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) avalia o estoque para definir o início da imunização dessa parcela da população. Os octogenários se somam agora aos imunossuprimidos de 18 anos ou mais, que já tinham a orientação de procurar pela quarta dose.

 LARISSA ROSO

sábado, 19 de março de 2022


19 DE MARÇO DE 2022
MARTHA MEDEIROS

Ouvi falar

Estava saindo para ir ao teatro quando entrou um WhatsApp da minha filha que mora na França. "Mãe, está circulando nas redes um vídeo com imagens de Paris sendo bombardeada. Bem realista, mas fake, não te estressa". Assisti ao vídeo, uma obra-prima da montagem. No final, revelava ser uma peça de propaganda pró-Ucrânia, mas, antes de chegar aos créditos, quem tivesse filhos morando em Paris já teria enfartado.

Ainda sobre a guerra, há quem tenha acusado a modelo ucraniana Marianna Podgurskaya, grávida, de posar sobre uma maca, fingindo ter sido atingida pelo bombardeio russo em uma maternidade (prédio que teria sido convertido em uma base militar). E há quem diga que não houve encenação nenhuma, que ela se feriu realmente, mas está tudo bem, deu à luz uma garotinha saudável dias atrás.

São dois exemplos bobos se comparados aos estragos gigantescos que a desinformação provoca. É ela que nos governa nesses tempos em que tuítes funcionam como mísseis virtuais, alcançando qualquer ponto do planeta. Nunca foi tão fácil viralizar uma mentira, nem tão rápido, nem tão devastador. De filtros fotográficos que alteram a aparência, até a indústria internacional das fake news, ressignificamos McLuhan: o meio é a mensagem, porém desvinculada da verdade, descomprometida com a realidade, vadia e livre para destruir reputações, eleger canalhas e enganar os trouxas.

Quem ganha com isso? Os criminosos organizados e ocultos que automatizam o boato a fim de manipular a opinião pública. Antes que sejam punidos, eles já se valeram da ingenuidade de uns, da ignorância de outros e da preguiça da maioria: quem tem disposição para checar uma notícia, buscar outras fontes, conversar com pessoas que dominam melhor o assunto? É tarefa que consome um tempo que não está sobrando pra ninguém, e assim o comodismo se torna um aliado do mal. Acreditar em tudo ou acreditar em nada nos desorienta da mesma maneira.

Ao eliminarmos a fronteira entre verdade e mentira, liberamos o tráfego para o desvario. Textos circulam com autoria trocada, notícias de sete anos atrás são veiculadas como se fossem atuais, bizarrices ganham status de fato importante e edita-se qualquer declaração, bastando, para isso, um celular. Continuamos brincando de telefone sem fio, quando sussurrávamos no ouvido do coleguinha: "Vou almoçar na casa do Alberto porque é dia de lasanha", para descobrirmos, às gargalhadas, que a frase original havia se transformado em "A moça tem um casamento aberto com sua tia baranga".

Hoje vale o que foi mal compreendido e quem não aprova casamento aberto ou se ofende com a palavra baranga abraça uma causa que não existe e assim justifica seu voto. Desvario é pouco.

MARTHA MEDEIROS

19 DE MARÇO DE 2022
CLAUDIA TAJES

Questionário Proust para realistas e sonhadores

Qual sua ideia de felicidade?

Realista: felicidade não existe, o que existe na vida são momentos felizes.

Sonhador: um mundo sem guerras.

Qual seu maior medo?

Realista: que o litro da gasolina passe de R$ 10.

Sonhador: viver sem medo.

Qual seu maior defeito?

Realista: sonhar (mas muito de vez em quando).

Sonhador: deixar a realidade me contaminar (mas muito de vez em quando).

O que você mais detesta nos outros?

Realista: falta de pragmatismo.

Sonhador: excesso de pragmatismo.

Quem é você depois da pandemia?

Realista: o mesmo de antes, agora com três doses de vacina.

Sonhador: alguém que acredita ainda mais na vida.

Qual seu prato preferido?

Realista: depende do que estiver em oferta no supermercado.

Sonhador: prato cheio para todos.

Qual seu sonho de consumo?

Realista: um botijão de 13 quilos.

Sonhador: se as pessoas consumissem menos, o planeta não estaria do jeito que está.

Uma crença?

Realista: urna eletrônica.

Sonhador: democracia.

Se pudesse nascer de novo, quem gostaria de ser?

Realista: reencarnação não existe.

Sonhador: Beyoncé, óbvio.

Em que lugar do mundo gostaria de morar?

Realista: com o dólar pela hora da morte, vou ficando por Porto Alegre mesmo.

Sonhador: tenho passaporte vacinal, vou para onde eu quiser.

Como gostaria de morrer?

Realista: dormindo.

Sonhador: vivendo.

Qual é o seu lema?

Realista: um dia de cada vez.

Sonhador: tem uma luz no fim do túnel - e não é a da concessionária, que nos deixou dias e dias sem energia.

Que conselho deixaria para seus filhos?

Realista: não tive filhos. Não transmiti a nenhuma criatura o legado da minha miséria.

Sonhador: olha lá em quem vocês vão votar.

CLAUDIA TAJES



19 DE MARÇO DE 2022
EUGÊNIO ESBER

SOPAPO NA TRISTEZA

O Carnaval passou triste, acabrunhado. Foi inda agora, caso o leitor não tenha se dado conta neste "novo normal" em que o Brasil não esquentou seus pandeiros nem iluminou os terreiros porque quase ninguém queria - ou podia - sambar. Com o pensamento explodindo no Leste Europeu, vaguei por ruas e becos da lembrança até que algum algoritmo mental muito bondoso me fez encontrar Cartola. "Deixe-me ir, preciso andar... Vou por aí a procurar rir pra não chorar. Se alguém por mim perguntar diga que eu só vou voltar... depois que eu me encontrar."

De Cartola e sua vozinha de sussurro, fui parar - e lá me deixei ficar - no pelotense Giba-Giba (1936-2014).

Sempre gostei muito de Feitoria ("Trabalhar, olê... Trabalhar até morrer!"). Um clássico, especialmente na voz rouca dele próprio. Gilberto Amaro do Nascimento gravou um único disco, Outro Um, que Maira e eu fomos logo comprar pela intuição de que teríamos, ali, uma relíquia. Foi 30 anos atrás. Muito de Giba e de sua história está ali - o samba vindo de Canguçu e Pelotas para tomar a Capital de um jeito altivo e humilde como Giba sabia ser. Nos longos telefonemas que vez em quando Maira e eu trocávamos com ele, ficava minha certeza de que falávamos com uma certa majestade, tão admirável como outros sambistas que cultuamos, merecidamente, nos grandes centros de reverberação musical do país.

- Bah, Giba... Aquela que começa assim... "No Areal, tinha samba todo dia"... sabe? Não me sai da cabeça. É uma crônica, Giba!

- Ahh.... Não fala assim que eu vou ficar convencido...

"Sambista" é pouco para Giba. Foi um pesquisador que trouxe para a cena cultural e etnográfica do Rio Grande e do Brasil o sopapo, o tambor compridão, corpulento e carismático como ele próprio era.

Já faz tempo, muito tempo, que peguei o telefone.

- Giba, penso em pautar uma entrevista contigo na Aplauso. Pode ser?

- Aí sim..., escutei, no jeito brejeiro e cheio de significados com que se expressava.

Era 2003, Giba atuava em uma seção de uma subpasta da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre.

- Como tá sendo lá, Giba?

- Bah... Complicado pra fazer qualquer coisa... A burocracia é o cemitério dos sonhos!

Não entendo como ele gravou só um disco, lá em 1992. A concentração de verbas das leis de incentivo à cultura em artistas bem posicionados no firmamento do marketing cultural e das relações com o poder ajuda a explicar - meramente explicar, porque justificar é impossível - como grandes talentos populares, sem poder de influência, ficaram ao relento, relegados àquela situação que Giba cantou na sua célebre Lugarejo: em um canto do mundo, perdidos, sem dinheiro. "Mas sem canga!", imagino Giba a me dizer, servindo-se de um outro verso de Lugarejo.

Não entendo, igualmente, como Giba Giba não recebeu o título de doutor honoris causa por alguma de tantas universidades à nossa volta. Aliás, entendo. Giba não fazia política, nem queria.

O que entendo, sim, e saúdo, é a implementação, em Porto Alegre, de um auxílio emergencial para acudir artistas em dificuldades financeiras e que leva o nome artístico deste memorável brasileiro do Sul, Gilberto Amaro do Nascimento.

Não acho que esteja de bom tamanho, ainda. Giba merece muitas outras homenagens. E elas virão. Para retumbar daquele jeito como ele fazia ao descer a mão espalmada no couro ancestralmente cúmplice do seu sopapo.

EUGÊNIO ESBER

19 DE MARÇO DE 2022
DRAUZIO VARELLA

MÉDICO CUBANO, APÓS FIM DO MAIS MÉDICOS, TRILHOU VIDA NOVA NO BRASIL

Negro alto e forte, José nasceu em Havana 34 anos atrás. Estudou enfermagem em Cuba e fez estágio obrigatório na Missão Milagres, convênio de assistência médica assinado entre Hugo Chávez, então presidente da Venezuela, e o governo cubano.

Quando voltou para casa, prestou exame para a faculdade de medicina. Completou seis anos de curso mais três de residência em medicina geral, há cinco anos. Em retribuição ao investimento do Estado em sua formação, precisou fazer novo estágio. Escolheu o programa Mais Médicos, no Brasil. Foi alocado para o município de Prainha, no Pará, às margens do Rio Amazonas, a 555 quilômetros de Belém.

Quando se apresentou na prefeitura, soube que havia sido designado para a comunidade Pacoval, a oito horas de barco.

Em Pacoval, recebeu uma casa despojada: quarto, sala, cozinha e banheiro; tudo pequeno, nenhum móvel. Com o salário de R$ 3.800, comprou fogão, geladeira, cama, colchão, mesa e duas cadeiras de plástico para sentar e pendurar as roupas.

A comunidade dependia dele e de uma enfermeira para todos os problemas de saúde: gravidez, partos, pediatria, hipertensão arterial, diabetes, doenças cardiovasculares, picadas de cobra, escorpião e arraia, peixe traiçoeiro que lacera o pé dos incautos nas praias de rio.

Estava à disposição as 24 horas do dia. As chamadas eram tão frequentes que ao ir para a cama perguntava a si mesmo: "Quantas horas me deixarão dormir esta noite". Até cirurgias foi obrigado a realizar, embora os médicos do programa não fossem autorizados: "Fazer o quê, deixar a pessoa morrer num parto ou de apendicite à espera de uma ambulância que podia não chegar?".

Era venerado pelos habitantes de Pacoval, comunidade que nunca tivera médico. Um dia, fez o parto de uma paciente que morava em outra cidade. A acompanhante era uma sobrinha que vivia com ela e o marido, ambos pastores evangélicos. José notou o interesse da moça, mas não se aproximou porque ela parecia menor de idade. Só quando soube que já completara 21 anos tomou coragem.

Encontravam-se todos os fins de semana, embora vivessem em cidades diferentes. Uma noite, ela telefonou: estava grávida. Ele respondeu: "Avisa seus tios que no fim de semana vou conversar com eles. Não sou homem de fugir das responsabilidades".

A reação do casal de pastores não foi amigável: "Disseram que todos os cubanos eram bruxos e macumbeiros. Não me ofereceram um copo d?água". Viam-se às escondidas. Ele estava apaixonado: "Pensava nela e na criança o tempo todo".

Quando a namorada avisou que entrara em trabalho de parto, ele solicitou uma semana de licença-paternidade e viajou no mesmo dia. Procurou a maternidade da cidade, mas os pastores tinham deixado uma atendente na recepção encarregada de dizer que a sobrinha não estava internada, caso ele aparecesse. José andou a cidade inteira à procura em todas as unidades de saúde.

Quatro meses depois, ela fugiu da casa dos tios com a criança. A vida mudou: "Aluguei uma casa maior, comprei móveis, eletrodomésticos, louça e tudo o que uma mulher e um bebê precisam para viver bem".

Em novembro de 2019, o governo de Cuba enviou uma mensagem avisando que o Mais Médicos tinha sido encerrado, por divergências com o governo brasileiro. Quem não retornasse seria considerado desertor.

Ele decidiu ficar. Como abandonaria mulher e filha sem saber se voltaria a vê-las?

Mudaram-se para Santarém, às margens do Tapajós. Sem autorização para exercer medicina, trabalhou como caixa de uma discoteca que fechou depois de três meses. Foi estivador no porto da cidade, vigia de uma serraria e carregador numa loja de material de construção para ganhar R$ 40 por dia. Trabalho bruto que o obrigava a sair de casa às cinco da manhã, para voltar às dez da noite, de segunda a sábado. Via a filha apenas aos domingos.

Em agosto de 2020, foi salvo pela pandemia que obrigou o governo do Pará a contratar os cubanos que permaneceram no país. Atendia de 80 a cem pacientes todos os dias, mas recebia um salário decente, pela primeira vez.

Acompanhei José nas visitas médicas que realiza no barco Abaré que leva atendimento médico às populações ribeirinhas do Tapajós. Quando chega nas comunidades, todos o tratam com o respeito e a admiração que ele merece.

DRAUZIO VARELLA

19 DE MARÇO DE 2022
BRUNA LOMBARDI

A ORQUÍDEA SEXUADA

Tirei uma foto de close de uma orquídea e quando fui postar me censurei. Levei um susto comigo mesma porque detesto todo e qualquer tipo de censura. E me perguntei: que grau de irracionalidade poderia censurar uma flor? Pode um inocente figo ser lascivo? Pode uma simples maçã induzir ao pecado?

A representação do sexo transborda em toda a natureza. A beleza dos desenhos é sugestiva, mas depende, é claro, da intenção do nosso olhar. Como aliás, tudo.

Atrás de todo julgamento existe um conceito de valores morais. E é justamente com isso que a gente precisa tomar cuidado. Nem sei como me deixei influenciar por uma censura que nem é minha e nem vou deixar que isso me acompanhe.

Na Grécia Antiga, todo desejo, mesmo ilícito, era atribuído diretamente aos deuses. Afrodite, deusa do amor, da beleza e da sexualidade, mãe de Eros, ele mesmo, deus do erotismo e da paixão - esses dois eram responsáveis por todos os nossos desvarios.

Se somos frutos do sexo e existimos graças a ele, como pode a natureza constranger? Como pode esse design divino tão belo ser visto com um olhar de tamanha distorção e má intenção?

Oscar Wilde dizia: "Os que só veem intenções vis nas coisas belas são uns depravados, destituídos de encanto".

A Origem do Mundo, um quadro de Gustave Courbet que em 1866 retratou o nu feminino frontal, foi banido e precisou ser escondido para que não o destruíssem. E só veio a ser exposto ao mundo mais de um século depois, em 1995, no museu D?Orsay, em Paris, onde atualmente está.

Por que algo tão natural pôde causar tamanha reação? Por que sentimos vergonha da origem da vida, do desenho do sexo de uma mulher, lugar de onde viemos, que nos trouxe para a luz? Como podemos nos desconectar assim da nossa própria natureza?

Na verdade, toda a censura, toda repressão acaba gerando uma reação maior e contrária, uma vulgarização generalizada. Nem Afrodite nem Eros saberiam o que fazer diante desse consumismo fast-food do sexo.

Não que isso seja uma coisa nova, a história é cíclica. Segundo a Bíblia, cidades inteiras, como Sodoma e Gomorra, foram destruídas pelo excesso de sexo, ganância e vício.

Valores distorcidos nos atiram desgarrados no vazio das almas, perdidos de nós mesmos. Depois do excesso e do desgaste, nenhum desejo se salva. Afinal, entre o cansaço insaciável dos sites pornôs e a imensa quantidade de nudes enviados nas mensagens, para onde vamos?

O bom é que a natureza e a arte se renovam constantemente, apesar de todos os ataques que recebem. O tesão também se renova, e é preciso renovar o olhar capaz de condenar a pintura de um corpo, a sexualidade de uma orquídea.

O erotismo é feito de delicadezas. Existe sim sensualidade no desenho divino de uma orquídea, na curva de um quadril, num ombro, na mordida de uma maçã. Um simples olhar dá tesão, um jeito de corpo, um senso de humor, um sorriso. Tesão nasce no pensamento, quem percebe isso me compreende.

Numa sociedade que embrutece no consumismo voraz do sexo, busco o equilíbrio entre a sutileza e a chama acesa.

BRUNA LOMBARDI

19 DE MARÇO DE 2022
J.J. CAMARGO

O QUE NÃO É PROGRAMÁVEL

"Nada na vida é programável, somos maleáveis como o vento: ora brisa, ora furacão." (autor desconhecido)

Os comportamentos diante de ameaças objetivas de morte são surpreendentes e imprevisíveis. E provavelmente nenhuma doença é capaz de provocar reações tão inesperadas e, às vezes, incongruentes quanto o câncer.

A insistência das escolas anglo-saxônicas de entregar, de chofre, e sem nenhum filtro de utilidade toda a informação, por mais cruel que ela seja, é anunciada com uma intenção nobre (se fosse completamente verdadeira) de dar ao paciente a oportunidade de exercer o decantado livre arbítrio. O que é cinicamente omitido, por conveniência, é o quanto essa atitude resulta da pressão dos advogados das companhias de seguro profissional, que sistematicamente recomendam que compartilhar com o paciente todas as decisões é minimizar o risco de demandas judiciais se as coisas não derem certo no futuro.

O temor histórico e a fantasia atávica de morte, variáveis em cada indivíduo, são fortemente influenciados por fatores como idade, sofrimento físico, qualidade de vida, reciprocidade afetiva, prole carinhosa e sensação de missão cumprida. A presença dessas condições, ou a ausência delas, determina, em grande medida, como reagiremos. E mesmo que as diferenças culturais imponham reações disparatadas, existe a tendência de estabelecer-se normas de conduta no manejo desses pacientes, de modo a assegurar-lhes conforto, controle da ansiedade e confiança na equipe médica.

Nesse sentido, a uniformidade da linguagem no grupo que assiste a um paciente com doença grave é decisiva para que nada do que se diga ou sugira inverta a corrente de confiança que deve prevalecer entre quem cuida e quem, desesperadamente, necessita ser cuidado.

Os médicos mais experientes não cansam de reportar as reações mais paradoxais dos pacientes diante, por exemplo, de informações estatísticas, uma prática muito usada em centros internacionais de oncologia, por médicos insensíveis que ignoram que, para o paciente, entre o 0% e o 100% não existem valores intermediários.

Afora essa desumanidade, é curiosa e imprevisível a reação dos pacientes diante de números, que em geral mais assustam do que tranquilizam. Já consolei paciente desesperada com a informação de que tinha 70% de chance de sobrevida depois de uma cirurgia, e ela, ignorando que poucos projetos da nossa vida pessoal (incluindo o casamento, o mais festejado dos projetos falíveis) têm um percentual tão alto de sucesso, chorava copiosamente, aterrorizada com a ideia de que ela pudesse cair no bloco infeliz dos 30%.

No outro extremo, um homem jovem, portador de um tumor raro e agressivo, voltou de uma consulta com especialista americano, por quem soube que com a combinação de quimioterapia associada à moderna imunoterapia ele tinha uma chance de 8% de estar vivo ao fim de cinco anos. E me confessou que estava constrangido: "Porque andei choramingando por aí, imaginando que a minha chance era zero".

Lembro de um paciente extremamente perspicaz, que, percebendo o quanto o seu quadro era grave, desviava do assunto sempre que pressentia que íamos falar da sua doença. Uma mensagem explícita: "Na impossibilidade de boas notícias, evitemos as notícias".

A oncologia, mais do que outras especialidades médicas, ensina que a esperança deve ser preservada mesmo quando a expectativa do paciente parecer irracional. O médico, com sensibilidade, deve ser mais do que um técnico que sabe todas as cifras. Deve conservar-se empaticamente atento às necessidades individuais, porque, sendo diferentes como somos, estamos mais propensos a insanáveis atropelamentos emocionais se formos tratados como iguais, obedecendo a essas normas rígidas que, recomenda-se, sejam por ora armazenadas naquele espaço vazio que oxalá seja preenchido por um coração no computador do futuro.

J.J. CAMARGO