sábado, 9 de abril de 2022


09 DE ABRIL DE 2022
INFORME ESPECIAL

Já ouviu falar em Panc?

Em tempos de comida cara, inflação alta, fome e insegurança alimentar, esse deveria ser um tema "da moda", mas ainda é pouco falado e mesmo conhecido por muitos de nós. As Plantas Alimentícias Não Convencionais - ou simplesmente Panc - são frutas, folhas, flores, rizomas, sementes e outras partes de vegetais que podem ser consumidas, mas que a gente às vezes nem imagina.

A sigla foi cunhada em 2008 pela nutricionista Irany Arteche, mestre em Fitotecnia pela UFRGS, a partir de estudos do biólogo Valdely Kinupp, professor do Instituto Federal de Educação do Amazonas. De lá para cá, a ideia vem ganhando novos sentidos.

- Costumo dizer que a Panc da vez é o pensamento alimentar não convencional. Chegamos a um ponto em que precisamos repensar a forma como comemos - resume Irany, que vive em Porto Alegre.

Muitos exemplares de Panc são chamados de "erva daninha" ou de "inço". Sabe aquele "matinho" ali no terreno baldio ou na fresta da calçada? Pois é. Pode ser uma Panc das mais saborosas e nutritivas, tanto quanto algumas velhas conhecidas do nosso paladar.

Quer um exemplo? A bananeira é uma PANC, não pelo uso corriqueiro (dos frutos maduros), mas pela casca, pelos frutos verdes e pelo mangará (coração). É possível preparar ótimos pratos com esses ingredientes, aproveitando tudo, sem desperdício - como faziam nossos avós.

- Não é comida de marciano nem de ecochato. É um conhecimento ancestral, um patrimônio que se perdeu com o processo de industrialização. Passou da hora de resgatarmos isso - defende a nutricionista.

JULIANA BUBLITZ


CARTA DA EDITORA Um RS inovador e tecnológico

Na semana em que a serra gaúcha reuniu milhares de visitantes para a Gramado Summit, evento voltado ao empreendedorismo, à tecnologia e à inovação digital, Zero Hora também publicou reportagem mostrando a instalação de duas empresas associadas ao desenvolvimento de chips e semicondutores no Parque Científico e Tecnológico da PUCRS (Tecnopuc). Porto Alegre foi escolhida para sediar as unidades latinas da inglesa Ensílica e da norte-americana Impinj. São duas ações, entre tantas outras recentes, que levam o Estado a se transformar em um polo de tecnologia e inovação.

Ao dar mostras concretas para o país e para o mundo de que o desenvolvimento passa também por apostar nos segmentos de tecnologia e inovação, o Rio Grande do Sul começa a atrair novos investimentos e a reter seus talentos.

Para nós, da Redação Integrada de ZH, GZH, Rádio Gaúcha e Diário Gaúcho, esse é um dos temas prioritários. É também nosso papel como jornalistas expor ao público ações que contribuam para colocar o Estado em um patamar de protagonismo.

Abaixo, cito exemplos recentes de reportagens que focam em iniciativas criativas e empreendedoras.

- Campus no 4º Distrito está em obras para propiciar treinamentos em TI e nova economia

- Empreendedores e agentes culturais comemoram revitalização do 4º Distrito e citam desafio social

- Pacto Alegre planeja divulgar marca da Capital "em tudo que é canto" em 2022

- Porto Alegre "deve se apressar" para virar smart city, diz futurólogo que fará palestra no Instituto Caldeira

- Pesquisa mostra que 61% das startups do RS estão em Porto Alegre

- Como Porto Alegre se tornou referência na nova economia e os desafios daqui para a frente

- Governo do RS anuncia R$ 62,4 milhões em editais para clusters tecnológicos, bolsas e projetos inovadores

- Porto Alegre se prepara para explorar South Summit turisticamente e atrair visitantes ao longo do ano

- Conheça as empresas de tecnologia do RS em ascensão no país e no mundo

Os conteúdos podem ser acessados pelo site ou pelo aplicativo de GZH.

DIONE KUHN 

sábado, 2 de abril de 2022


02 DE ABRIL DE 2022
ENTREVISTA

Gaslighting: como identificar este abuso psicológico

Pesquisadora explica como funciona a manipulação que confunde a vítima, deixando-a em constante estado de dúvida sobre suas capacidades

Um termo em inglês e de difícil pronúncia esteve nos assuntos mais comentados das redes sociais nos últimos dias: o gaslighting. A procura pelo significado da palavra aumentou depois de um Jogo da Discórdia no Big Brother Brasil 22, quando alguns internautas sugeriram que um participante homem teria praticado abuso psicológico contra uma mulher na casa. Mas, na prática, como identificar este tipo de comportamento?

Para esclarecer dúvidas sobre o assunto, conversamos com a coordenadora da ONG Emancipa Mulher, Joanna Burigo. Bacharel em Publicidade Propaganda, ela estuda e trabalha com questões que envolvem este universo, e sua bagagem inclui mestrado em Gênero, Mídia e Cultura pela London School of Economics. Confira a seguir.

O que é gaslighting?

É uma forma específica de abuso psicológico, na qual o abusador distorce ou inventa informações com a intenção de fazer com que a vítima duvide da própria sanidade e da capacidade de ler a realidade. Em português, a palavra pode também ser substituída por "manipulação", mas é um jeito específico de fazer isso.

Qual a origem da palavra?

A palavra vem de uma peça de teatro, que depois virou um filme noir bem famoso do diretor George Cukor, lançado em 1944, À Meia-Luz. No longa, que originalmente se chama Gaslighting, Gregory, interpretado por Charles Boyer, é casado com Paula, vivida por Ingrid Bergman, e planeja internar a mulher como mentalmente incapaz para poder tomar conta de sua fortuna.

Para gerar essa impressão de insanidade, ele manipula as lâmpadas de gás da casa, para que balancem quando ela está sozinha. Ele usa isso como motivador para dizer que ela está maluca. É daí que a expressão vem. Acho importante fazer esse discernimento, de que a palavra tem uma origem na cultura. É uma expressão metafórica.

Pode ser praticado por qualquer pessoa?

A técnica de manipulação com o intuito de fazer com que uma pessoa questione sua própria leitura de realidade pode ser feita por qualquer sujeito. Não é um abuso exclusivo de uma ou outra relação. Não é exclusivo de gênero ou de raça. É uma relação entre pessoas. Pode ter pais que fazem gaslighting com os filhos, irmãos que fazem uns com os outros, amigos... Mas é mais comum encontrar relatos de gaslighting em relacionamentos românticos. Mas não existe um dado cientificamente comprovado de que um ou outro tipo de relacionamento produza mais ou menos interações que podem ser enquadradas como gaslighting. Pode ser feito por qualquer pessoa.

Entretanto, tendo em vista, primeiramente, a origem da expressão, e tendo o conhecimento de violência de gênero nas relações heterossexuais, é bastante plausível dizer que existem bastante instâncias de gaslighting em relacionamentos deste tipo. Não é exclusivo, mas é mais comum vermos acontecer na direção de um homem para uma mulher.

Como identificar?

Existem muitos jeitos de uma pessoa fazer gaslighting com outra porque existem muitos jeitos de viver. Mas, em geral, o que qualifica é o abusador oferecer para a vítima uma perspectiva da realidade que é manipulada. Ele disputa a realidade com a pessoa. No filme, a personagem da Ingrid diz: "Mas as lâmpadas balançam", ao que ele responde: "Querida, você está imaginando, porque toda vez que eu estou aqui, elas não balançam".

Um dos primeiros sinais (e dos mais fortes) é a pessoa com quem você está interagindo estar te oferecendo informações que são contraditórias com o que você enxerga como realidade. Faz você questionar a sua sanidade. Ficar constantemente questionando se a sua leitura de mundo é genuína porque contradiz o que outra pessoa diz a seu respeito é um sinal muito forte de gaslighting. É difícil dar um exemplo específico, porque pode ser de várias maneiras. A pessoa pode dizer, por exemplo, que você não fez uma atividade que você já tenha feito.

A vítima do gaslighting costuma se sentir confusa, em dúvida sobre si mesma. Se questiona sobre si, se é suficiente, constantemente justifica suas ações. Também pode ter medo de pensar e agir sozinha e estar sempre pedindo desculpas para essa pessoa (abusadora). Alguns sinais para ficar atenta na pessoa que faz o gaslighting: ela mente descaradamente, nega ou troca informações sobre a realidade, é incoerente, faz chantagem emocional, humilha. Todo o objetivo da pessoa que está fazendo o gaslighting é confundir a percepção que a vítima tem da realidade e de si mesma.


02 DE ABRIL DE 2022
LEANDRO KARNAL

Eu tenho um ponto de vista que tem o dom de angariar ódios da esquerda e da direita. É uma convicção que, desde o tempo da graduação em História, causava reações adversas. Explico-me: tenho horror a ditaduras, sejam revestidas do rótulo de esquerda ou de direita. Impera, nos dois campos, uma moral seletiva. Ditador sanguinário e insuportável é o outro, do polo oposto. Quando o governo autoritário é do grupo que eu milito, começam as relativizações.

Tenho a experiência há décadas. Ataco a violência da ditadura chilena sob Pinochet. Meus alunos se emocionam, aplaudem, concordam com olhares e sabem que eu estou ao lado deles. Faço reflexões duras sobre ações criminosas como a Operação Condor que reuniu bandidos a serviço do Estado no Cone Sul e mesmo efeito: sou o herói do dia, o bom professor, o pensador claro e crítico. Ao final da aula, analisando os horrores das ditaduras conservadoras, de Rafael Trujillo a Alfredo Stroessner, viro o historiador bom e exato. Alunos chegam até minha mesa e pedem mais bibliografia e indicações de nomes para pesquisa. Fico feliz: jovens são sensíveis à violação dos direitos humanos, abominam tribunais de exceção e condenam a tortura.

Avançamos o semestre. Chega a hora de pensar o governo monocrático da Cuba de Fidel ou as limitações aos direitos de expressão na Nicarágua de Daniel Ortega. Pronto! Há protestos: "Mas eles acabaram com o analfabetismo! Houve distribuição de terras! Há pressão dos EUA nos bloqueios e há sabotagem contra esses governos". Aprendi cedo que existem malvados favoritos. A moral é relativizada por conquistas sociais (algumas muito reais como o salto de alfabetização em Cuba) e as ações a favor de alguma distribuição de renda. Assim, como a polícia de Nicolau II era violenta e torturava metodicamente na Rússia, a repressão sob Lênin ou Stálin é menos ruim porque seria apenas defesa contra os inimigos russos brancos ou agentes imperialistas. O mesmo do outro lado: Pinochet matou, mas modernizou o país! "Ética de Bolsa de Valores", eu penso.

Se eu retirar o verniz ideológico de gente de extrema direita e de extrema esquerda, posso identificar fatores comuns: violência é uma defesa contra um inimigo externo (comunistas ou agentes do imperialismo), estamos a serviço dos verdadeiros interesses do povo (o povo visto como conservador e cristão ou o povo visto como idealização de camponeses e operários), as conquistas justificam alguma violência para combater os resistentes e, enfim, é uma guerra e, se não tivéssemos atacado o inimigo, ele teria nos atacado. Nada novo: Maquiavel na veia, clássico e prático.

Causa-me espanto como historiador: os jovens que desfilavam em Paris criticando tudo que viviam elegiam a China de Mao (e da Revolução Cultural) como ideal. Bem, se Paris fosse governada por Mao, o movimento de 1968 teria sido eliminado na primeira reunião em Nanterre.

Eu já imagino as reações. Identifico duas tradicionais: 1) Leandro: ao atacar ditaduras de esquerda e de direita, você mostra que está "sobre o muro"; 2) ditaduras como a chinesa executaram dezenas de milhões de pessoas de forma direta e indireta, isso é muito maior do que a ditadura civil-militar no Brasil (1964-1985).

Nunca fui neutro. Tenho valores muito claros. A vida não pode ser elemento negociável na obtenção de valores políticos ou mesmo de desenvolvimento. Sim, a China matou mais do que a ditadura em Santo Domingo por motivos óbvios, inclusive. Porém, um assassino assume o conceito quando mata uma única pessoa. Quando elimina cem, continua sendo assassino. Sim, genocídio é mais grave do que mortes aleatórias. Os nazistas mataram quase 6 milhões de judeus. Os turcos provocaram o desaparecimento de 1,5 milhão de armênios. Stálin tem nas costas mais de 20 milhões de mortos. Eu não convidaria nenhum daqueles governantes para um fim de semana comigo... Sou um humanista e defensor intransigente dos direitos humanos.

Valorizo governantes que conservam o Estado Democrático de Direito. Acho uma conservadora como Angela Merkel e uma mulher ligada à esquerda como Michelle Bachelet admiráveis em vários sentidos. Perseguiram objetivos distintos, por vias quase opostas, e ambas defenderam liberdade de expressão, habeas corpus, pluripartidarismo e direitos humanos. Posso negociar reforma agrária e seus mecanismos, cotas universitárias e outras questões. Não posso tergiversar sobre tortura, quebras constitucionais e existência de polícia secreta. Como de hábito, em nome "da pátria", "das tradições cristãs" ou "do risco comunista", eu revisto de um verniz positivo o que é, apenas, a odiosa vontade de controle e de poder. Não existe causa boa para o assassinato. Nunca aceitarei ditaduras, independentemente dos eufemismos que esquerda e direita usarem para caracterizar um regime de força.

"Ah, mas o regime fez crescimento econômico ou alfabetizou a maioria." Seria como o marido que bate na esposa, mas... dá bons presentes de aniversário? Jamais entendi essa síndrome de Estocolmo que identifico entre simpatizantes dos polos extremos. Nenhum sistema é perfeito, porém a democracia é perfectível e a única viável. Relativizar a vida humana é argumento de canalhas autoritários. Isso desafia meu senso de esperança.

LEANDRO KARNAL

02 DE ABRIL DE 2022
ELIANE MARQUES

MÃES, NÃO APENAS DE LEITE

Desde o período formal de colonização até a segunda metade do século 19, no Brasil, as famílias casagrandistas, ou nem tanto, serviam-se da "mãe preta", escravizada feita ama de leite, para fazer viver a prole alheia enquanto sua prole mesma morria. Depois do período, a nascente classe média urbana passa também a se servir de ex-escravizadas domésticas, tornadas amas secas e retornadas babás. Na atualidade, o trabalho não remunerado de "mães de criação", realizado por meninas enegrecidas, diz não apenas da continuidade histórica, mas da constituição psíquica des sujeites brasileires no seio literal de um conflito mal resolvido pelo imperativo categórico amefricano - "age como se tua mãe fosse uma só".

Contudo, assim como entre os povos das Ilhas Trobriand, o pai se desdobra em três - o jurídico, o marido da mãe e o genitor - descoincidentes no dizer de Malinowski; no Brasil, a maternidade se desdobra em duas ou três. Quando me refiro a duas maternidades, falo da mama África ou da mãe Europa; de Maria (a mãe virgem) ou de Iemanjá (a mãe estuprada). Agora, quando me refiro a três mães, evoco a biológica ou a jurídica ou a da criação e do cuidado, como diz Rita Segato em O Édipo Brasileiro: a Dupla Negação de Gênero e Raça. Entre o que afirmo aqui e o clássico de Malinowski, há diferença de uma ou de duas letras: os pais trobriandeses são unidos por uma conjunção aditiva (e); as mães brasileiras são separadas por uma conjunção alternativa (ou).

Se, para a psicanálise, o pai presenta vários nomes que chegam pela boca da mãe, se ele é o estrangeiro que responde pelo rompimento da unidade "mãebebê", um legítimo país das maravilhas; a "mãe preta", por sua vez, responde pela instauração de outra crise, qual seja, a de tornar incerta a maternidade e a filiação des sujeites que se querem super(eu)ropeus a qualquer custo. A "mãe preta" rompe com a fantasia de que os nomes de pais por ela transmitidos sejam tão brancos quanto seu leite (dela). Essa mulher quebra com o ideal de mesmidade em que a amefricanidade, desde seus inícios, quis se banhar. Nesse sentido, no campo da psicanálise amefricana, sua função de constituição des sujeites na alteridade equivale à do Moisés Africano.

O discurso centrado na transmissão de doenças que os higienistas da época associavam às "mães pretas" teve como impacto a substituição delas pelas amas secas. A "preta" (com seu leite) foi jogada para escanteio, como diria Lélia Gonzalez. Contudo, ainda que escanteada, ela está aí. Nada que foi um dia objeto de gozo é abandonado. Mas qual a doença tão temida pelos higienistas e transmitida pelas "mães pretas"? Certamente eles foram criados por essas mulheres. Certamente a doença por elas transmitida se constituía e ainda se constitui naquele conjunto de sintomas que nos nega a pretensa unidade fundante. Por isso, para eles e ainda para nós, mãe deverá ser uma só, ainda que sejam múltiplas. Essa é uma das facetas da denegação do buraco que há em nossas identidades.

ELIANE MARQUES

02 DE ABRIL DE 2022
EUGÊNIO ESBER

O BIGMEC

Há mais de três décadas, a educação brasileira é repasto para discursos estridentes, mas rasos, sobre o país que queremos e precisamos construir nas décadas seguintes. De um modo geral, as abordagens que ganham o debate público são aquelas de proveito político-eleitoral, como a desta semana, que culminou na saída do ministro - e lá se vão para o fim da fila, outra vez, as questões que realmente deveriam mobilizar a todos que pretendem legar a seus filhos e netos um país melhor. A primeira delas é: por que existir um Ministério da Educação?

Pode-se alegar que, ora bolas, outros países têm, mas e o que dizer de nações bem-sucedidas que não precisaram criar um mastodonte burocrático federal semelhante ao que temos no MEC? Algum nível de coordenação sempre será necessário, claro, ainda mais em uma república com as dimensões do Brasil, mas a própria circunstância de sermos um país com contrastes regionais recomenda, a meu ver, uma abordagem descentralizada, aderente às realidades locais e a suas demandas específicas de ensino.

O peso excessivo do MEC, com sua estrutura de quase 380 mil servidores, acabou levando o país a um paradoxo. O grande desafio brasileiro está no Ensino Básico e Fundamental, mas a maior parte do orçamento do MEC está voltado ao Ensino Superior. É uma equação que não faz sentido porque condena boa parte das crianças e dos jovens brasileiros a um desempenho ridículo nos certames internacionais, ocupando os últimos lugares em provas que avaliam conhecimentos em matemática e interpretação de texto.

Não surpreende, assim, que muitos jovens cheguem à universidade com dificuldades de compreensão e de raciocínio lógico. Pesquisas que medem os índices de analfabetismo funcional têm colocado, nessa categoria, um terço dos brasileiros. Como esperar ascensão social e econômica nesse contexto? Que chances estamos dando a jovens que frequentam nossas escolas públicas de fazer uma carreira, prosperar na vida, dar um basta no mapa da desigualdade social brasileira?

Já em 2004, o economista Gustavo Ioschpe publicava um livro essencial, A Ignorância Custa um Mundo, no qual, servindo-se de estudos internacionais aplicáveis à realidade brasileira, demonstrava quão urgente era a revisão profunda e corajosa do modelo educacional brasileiro. Entre várias outras constatações, ao comparar o Brasil a países da OCDE Ioschpe fulminou a crença - que alimenta o discurso oco de políticos e de grande parte de nossa intelligentsia - de que o Brasil investe pouco em educação. Nosso problema não é investir pouco, é investir mal, muito mal, e estabelecer as prioridades erradas. Erradas sob a perspectiva de necessidades dos brasileirinhos mais humildes, que não é a mesma dos sindicatos e outros grupos de interesse que se nutrem de um Estado imenso, cartorial e tentacular.

O modelo atual, e que vem de décadas, precisa ser revisto. Um MEC gigantesco e centralizador - bigMEC - não nutrirá de modo saudável o intelecto de nossas crianças e jovens.

EUGÊNIO ESBER

02 DE ABRIL DE 2022
BRUNA LOMBARDI

TEMPOS TUMULTUADOS

Não é por acaso que essa última cerimônia do Oscar foi a mais caótica da história. Vivemos tempos tumultuados. Polarizações se tornam agressões, divergências são perigosas, discursos enfrentam censura e discussões acaloradas podem acabar em crimes. O quadro de manifestações de violência atinge todos. As bruxas estão soltas.

Na verdade, bruxas continuam sendo queimadas vivas em fogueiras nas praças públicas, diante da raiva coletiva. Soltos estão os criminosos, os mandantes, os que querem a destruição. E você, quer essa destruição?

No mundo, se instaura o espírito da guerra, a propagação do ódio, a ideia do poder a qualquer preço, a mentalidade do abuso.

São tempos de energias conturbadas e isso gera tumulto geral. Na história da humanidade, esses períodos são consequências do fanatismo de líderes que incitam o ódio e alastram o mal de forma devastadora. São movidos pelos piores princípios, querem o poder a qualquer preço, corrupção, abuso, a ganância absoluta da supremacia.

Yuval Harari diz que ditadores usam sempre o mesmo velho truque: dividir para governar. A verdadeira democracia busca o difícil equilíbrio da união entre as pessoas para construir uma sociedade pacífica. Os regimes totalitários querem que o povo se divida em facções inimigas que se odeiem e se destruam.

Assim, ficamos todos mais fracos, todos com muito medo e extrema insegurança. Um país corroído é mais fácil de ser dominado. E a regra é: quanto pior, melhor.

Esses ditadores geram crise, perigo,, impunidade, escassez, pânico, justamente para que eles possam se apresentar como salvadores da pátria.

Hipocritamente, fingem defender uma moral que não possuem, um direito que não aplicam, uma mentira cruel diluída em centenas de milhares de fake news, fabricadas e espalhadas na estratégia do terror.

E começam o combate constante, a caça exterminadora aos inimigos, que são todos os que não pensam como eles.

São regidos pela estupidez do ego, se expressam pela força bruta, agressão, hostilidade. Pregam a brutalidade e o embrutecimento. Espalham racismo, machismo, misoginia, homofobia, truculência, xenofobia. Ignoram os direitos do outro, a liberdade do outro. O outro. Odeiam a liberdade de expressão e pensamento.

Nos desenhos animados que eu via quando criança, um reino era tomado pelo Mal e se iniciava o período das Trevas. De repente, tudo ficava escuro e seco e em todos os lugares se espalhava fome, escassez e sofrimento.

E quando finalmente o Bem vencia, tudo voltava a florescer e um novo reino renascia sobre as cinzas.

A batalha entre o Bem e o Mal é a luta entre Ignorância e o Conhecimento. Entre um mundo em ruínas e flagelo no Obscurantismo da Era das Trevas e os valores humanitários do Renascimento e do Iluminismo.

O Conhecimento vence a Ignorância. Precisamos acreditar que o Bem existe e depende de nós. Que vão soprar os ventos da solidariedade, união e resistência. Que vamos transformar o espírito do nosso tempo e pacificar os ânimos acirrados.

Não deixe que o mundo te transforme naquilo que você não é.

BRUNA LOMBARDI

02 DE ABRIL DE 2022
J.J. CAMARGO

O ESCASSO LIMITE DA TOLERÂNCIA

"Guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que o outro morra" (autor desconhecido)

Como era de se esperar, a minha ideia de velhice, por crescente proximidade com a causa, tem se modificado ao longo dos anos. Mas de qualquer maneira, aqueles dois senhores parceiros na intimidade e na surdez que dividiam espaço na fila do supermercado eram velhos há muito mais tempo. E devem ter envelhecido juntos, porque havia entre eles aquela cumplicidade dos confidentes que aprenderam a respeitar as pausas silenciosas do outro antes da enxurrada de queixas novas.

A despedida com o "não sei até quando vou aguentar" devia ter-se acompanhado, ao menos, de um toque solidário no ombro, mas o queixoso tinha acelerado o passo, e a mão nodosa do consolador, não alcançou.

Apostaria que a amargura da velhice expressa naquele desencanto ia assegurar que o papo continuaria no dia seguinte, e novas versões da velha tristeza seriam compartilhadas, comprovando que a capacidade humana de aguentar o sofrimento, se este puder ser fragmentado no dia a dia, é ilimitada. Fiquei pensando na infelicidade de envelhecer tendo que tolerar e quase certamente ser tolerado por alguém.

A tragédia pessoal de ser tolerado com grande frequência permeia as relações humanas, tanto pessoais, por ausência de reciprocidade afetiva, quanto profissionais, pela falta de encanto no que se faça.

Na medicina, a tolerância é o castigo mais comum destinado a quem não tem prazer em cuidar de ninguém e não consegue evitar que o outro perceba o quanto ele adoraria estar fazendo outra coisa. De antemão, este infeliz está desperdiçando uma das maiores maravilhas de ser médico: a alegria de ser escolhido por quem precise ser cuidado.

Muitas vezes, o paciente, por limitações do seu plano de saúde, também não tem liberdade de escolha, e se estabelece então a mais deprimente das relações pessoais, aquela regida pela tolerância bilateral e simétrica. E este sentimento é indisfarçável: o médico que tolera o paciente inevitavelmente perceberá que é tolerado por ele.

Nenhuma autoestima resiste à percepção de que, na relação vazia por falta de vínculo afetivo, não há mais do que tolerância. E o fato desta resignação ser mútua não ajuda nada, porque, tal qual o ódio e a vingança, a indiferença mais agride o odioso do que o odiado.

Todos reconhecem que, quando adoecemos, multiplicamos vulnerabilidade e carência, talvez até com mais intensidade do que outros, mas em todas as áreas da atividade humana encontramos tolerantes e tolerados, num revezamento degradante de amargura, transferência de culpa, agressividade, ódio e ressentimento.

A tolerância às circunstâncias desagradáveis amordaça o espírito, submetendo-o ao contínuo exercício da humilhação, que mutila sua vítima no plano individual e, quando transferido para o coletivo, é responsável pela mais degradante das tragédias sociais: a perda da capacidade de indignação. Sem esta válvula de escape, perde sentido toda a preocupação com o futuro, entorpecido pela náusea constante de que pior não pode ficar.

Que isto sirva de alerta aos redatores dos discursos políticos do futuro próximo: nossa tolerância acabou.

J.J. CAMARGO

02 DE ABRIL DE 2022
OPINIÃO DA RBS

EXALTAÇÃO EQUIVOCADA

Foi descabida a "Ordem do dia alusiva ao dia 31 de março", divulgada pelo Ministério da Defesa, em alusão à passagem dos 58 anos do golpe de 1964. Assinado pelo agora ex-ministro Walter Braga Netto, o texto faz o desserviço de acirrar ainda mais os ânimos no país, já exausto pela polarização destrutiva. Não bastasse a consequência infausta, costura uma série de retalhos argumentativos torcidos que, em conjunto, forçam a interpretação de que a ruptura institucional ocorreu em nome da democracia e, nos anos seguintes, a fortaleceu. Trata-se de conclusão fantasiosa sem amparo nos fatos e, por isso, é estéril como tentativa de recontar a História.

Tem respaldo a afirmação de que a deposição de João Goulart, executada pelos militares, contou com o apoio de parcela considerável da população, de organizações religiosas e empresariais, da mídia e de outros segmentos à época. É verdadeiro ainda que o Brasil experimentou, nos primeiros anos, um período de acelerado crescimento econômico.

O que se seguiu no país, entretanto, foi desastroso em todos os aspectos. A ditadura mergulhou os brasileiros em uma noite de trevas autoritárias que perdurou por 21 anos. Mortes, desaparecimentos, tortura, censura implacável à imprensa e às artes, perseguição política, cassação de mandatos e outros direitos civis, cidadãos e políticos no exílio, Congresso fechado e Judiciário amordaçado. Na economia, o regime legou altíssimo endividamento externo, hiperinflação e aumento da concentração de renda. Algumas dessas mazelas apenas a volta da democracia foi capaz de contornar, embora persista o desafio de diminuir a desigualdade social.

Mesmo que o mundo, quase seis décadas atrás, vivesse sob a sombra da Guerra Fria, é equivocado sustentar que a derrubada de Jango seria justificada por um risco de o Brasil cair nas garras do comunismo. Democracias têm os remédios legais, que não os da força, para uma eventual substituição de governantes. Ao se optar pelos tanques, não se restabeleceu a paz nem a estabilidade institucional, como sustentou a "ordem do dia" de Braga Netto. Pelo contrário. Além dos arbítrios, suscitou a mobilização também violenta e armada de opositores do regime, tampouco comprometidos com a democracia.

É possível encontrar na história das nações inúmeros episódios lamentáveis que então pareciam legitimados pelas circunstâncias e, assim, até angariaram adesões, para depois serem percebidos como erros graves. Reconhecê-los é sinal de amadurecimento de uma sociedade e de grandeza. Exaltá-los significa o contrário. O enaltecimento extemporâneo do regime militar não interessa inclusive à ampla maioria da geração atual integrante das Forças Armadas, compromissada com sua verdadeira missão constitucional e que presta relevantes e reconhecidos serviços ao país. A população brasileira, por sua vez, fez uma opção inequívoca pela democracia, pela prerrogativa de votar, pela liberdade de se expressar e pelos direitos civis. Ditaduras escancaradas ou disfarçadas, de qualquer espectro ideológico, devem ser sempre condenadas. Nunca celebradas. 


02 DE ABRIL DE 2022
FLÁVIO TAVARES

A RENÚNCIA

A renúncia do governador Eduardo Leite é insólita e inexplicável. Afinal, ele não detalhou por que deixa o governo e abandona as responsabilidades que lhe deu o povo.

Renunciar a algo pode ser gesto altruísta. Assim ocorreu ao longo dos séculos com santos e sábios, que renunciaram às facilidades do mundo para dedicar-se ao próximo. Com isso, passaram do menor ao maior, tal qual servos da humanidade toda.

Renunciar é altruísta quando se desprezam as honrarias, sejam quais forem. Em qualquer caso, porém, é sempre um gesto pessoal. No Brasil de 1961, a renúncia de Jânio Quadros, antes de completar sete meses de governo, gerou uma crise que quase nos levou à guerra civil. Só décadas mais tarde, ele confessou ao neto que a renúncia fora uma manobra para tentar obter "plenos poderes" e tornar-se "ditador constitucional".

Não é este o caso da renúncia de Eduardo Leite. Pelo contrário, ao renunciar, ele passa de general a soldado raso, para seguir como aspirante a candidato presidencial na eventual desistência de João Doria.

Mas a renúncia é insólita, porque Leite não era proprietário do cargo, só exercia um mandato que lhe deu o povo, o único que, nas democracias, tem poder soberano. Cada eleitor tinha um quinhão naquilo que, mesmo inadequadamente, chamamos de "propriedade do cargo".

Até quem nele não votou também era mandatário, pois se governa para todos. As diferenças são apenas no processo eleitoral. Empossados, os eleitos servem a todos.

Assim, pergunto-me se a renúncia não soa como desprezo ao mandato conferido pelo povo.

Pergunto-me também quais as orientações que nos dão as tais "pesquisas" sobre a eleição presidencial feitas por telefone em rápidas consultas a 2 mil pessoas, como se fossem a tendência de milhões de eleitores.

Não serão um embuste que induz a votar em X ou Y, sem explicar o que são ou propõem? Calam-se sobre planos de governo ou o passado de cada um. Tudo se reduz a números ocos, que não ajudam a decidir sobre o voto.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

02 DE ABRIL DE 2022
INFORME ESPECIAL

O lustre

São mais de 30 mil cristais, 96 lâmpadas, 600 quilos e quatro metros de comprimento. Como uma joia fulgente, o lustre do Theatro São Pedro, em Porto Alegre, fascina expectadores e ilumina um dos mais tradicionais palcos do Brasil.

A cada início de temporada (e sempre que necessário), o gigante dourado é levado até o solo com o auxílio de cabos de aço - e da força física de quatro a cinco homens. Neste ano, o ritual acaba de se repetir (veja as fotos ao lado).

- As lâmpadas foram revisadas e os cristais, lavados e recolocados no lugar. É sempre especial ver as pedras de perto, tocar nelas. É uma honra cuidar de algo tão precioso - diz o diretor operacional da casa, João Antônio Pires Porto, que trabalha há 35 anos no local.

De certa forma, o lustre do São Pedro, inaugurado em 1858, simboliza a história de resiliência e regeneração do próprio teatro.

Nos idos de 1880, o candelabro original - um presente do governo francês à Província de São Pedro do Rio Grande do Sul - sumiu. Não se sabe bem como, mas o objeto com 68 mangas de cristal (e um dispositivo para evitar que a cera das velas caísse sobre o público) teria sido encontrado em Rio Pardo, sem parte dos pingentes. O atual candeeiro é uma reprodução dele, confeccionada na Capital, na última grande reforma do espaço cultural.

Em 1973, corroído por cupins, o edifício teve de ser fechado. À época, coube a Eva Sopher (1923-2018) liderar a recuperação, junto do arquiteto Carlos Antônio Mancuso. Todo o miolo do teatro foi refeito. O forro recebeu nova pintura, com exemplares da flora e da fauna nativas (na última foto ao lado), e o velho lustre foi recriado. Na reinauguração de 1984, o castiçal renasceu ainda mais belo e reluzente, tal qual o Theatro São Pedro.

a saber

Na próxima reforma do teatro (que deve começar em 2023, para adaptar a casa às atuais exigências de acessibilidade e prevenção contra incêndio), o mecanismo de tração do candelabro de cristais ganhará um motor. A medida vai facilitar a conservação.

INFORME ESPECIAL

sábado, 26 de março de 2022


26 DE MARÇO DE 2022
MARTHA MEDEIROS

Onde foi parar minha vida?

Procuro embaixo do tapete, dentro do açucareiro... cadê? Ainda ontem ela estava aqui, diante dos meus olhos, anotada nas páginas da agenda, o passo a passo dos meus dias, com horários regulados, almoço e jantar, reuniões de trabalho, namorado no fim de semana.

"Ainda ontem" é vício de linguagem. Não faz tão pouco tempo assim, já que entrementes houve uma pandemia que nos paralisou por dois anos, e quando ela começava a ser controlada, veio essa guerra que alterou os batimentos cardíacos de todos, então não foi ainda ontem que eu tive uma vida medianamente organizada, mas lembro bem dela, não pode estar tão longe. Atrás da geladeira, esquecida na garagem... cadê?

Todas as lives começavam com a mesma pergunta: qual será o legado dessa crise, como vai ser quando o vírus deixar de ser uma ameaça, que pessoas nos tornaremos depois dessa experiência? Ah, seremos mais solidários, levaremos em conta o coletivo, teremos mais consciência da nossa fragilidade, inventaremos novas profissões para impulsionar a economia, tudo vai mudar, nada vai mudar. Foi chute para tudo que é lado e ainda aguardo as confirmações dos prognósticos. De certo, mesmo, é que a vida que eu tinha aproveitou que eu estava distraída com o rebuliço do mundo e picou a mula.

Restou essa desatinada buscando a si mesma. Na gaveta do banheiro... será?

Olha eu ali no posto abastecendo o carro para dirigir 800 quilômetros, sem medo do cansaço ou do preço da gasolina. Olha eu em frente ao computador pesquisando uma passagem barata para voar até um país caro (Paris e Londres não pareciam tão distantes). Olha como eu dormia mais de cinco horas por noite e tinha cinco quilos a menos: lembranças enviadas pelo Facebook, tentando me convencer que aquela continua sendo eu mesma (coitado, até ele ficou no passado).

Nos álbuns de fotografias, escondida nas páginas de um livro... onde ela se esconde de mim, a vida que era minha e que não sei onde foi parar?

Mas parou. É fato. Paralisou no sinal vermelho e o motor apagou. Alguns veículos passam por mim em baixa velocidade e gritam pela janela que estou atrapalhando o tráfego. Outros estão apagados também, ao meu lado, aguardando reboque. Parei, paramos. Você não?

Pode ser apenas um longo agora, reflexão necessária sobre este vácuo entre o que fomos e o que seremos. No fundo é a mesma vida, ainda que pareça vida nenhuma. Talvez tenhamos alcançado o tão desejado "depois da pandemia", mas não consigo retomar do mesmo ponto onde parei, nem realizar um novo parto de mim mesma, desaprendi a partir e acho tudo bem estranho: sério que usei a palavra entrementes nesse texto? Vou continuar procurando, a vida de antes deve estar em algum lugar.

MARTHA MEDEIROS

26 DE MARÇO DE 2022
CLAUDIA TAJES

Nosso porto

A primeira lembrança: não lembro.

Talvez seja a Redenção, mas também pode ser a pracinha perto de casa ou mesmo o pátio da casa da avó. Uma coisa era certa: tinha um cheiro que até hoje algumas ruas de Porto Alegre têm, cheiro que não se sente em nenhum outro lugar. Tempero? Chá? As flores ficando amareladas no vaso da sala?

Por um bom tempo, todas as lembranças são de Porto Alegre.

Sorvete com a família na sorveteria Nevada, da Cristóvão Colombo. No verão de calor quase sólido, o meio da rua tomado por cascudos - fora os que vinham voando e entravam no cabelo, para pavor das crianças.

E o sorvete no Mercado Público. A taça de creme, chocolate e morango sempre aos sábados, com o pai.

Os jogos no Olímpico. Depois do almoço de domingo, minhas irmãs - uma delas virou casaca e hoje é colorada -, eu e o pai nas cadeiras. Enquanto ele tentava ver Espinosa e Ivo Wortmann em campo, as filhas pedindo para comer absolutamente tudo o que estivesse à venda. Overdose de cachorro-quente com churros com pipoca com picolé. Sobre a bola rolando, nada a declarar. Daí nasceu meu irmão e nós três fomos para o banco.

As lojas do centro com a mãe. Não que ela gostasse de me levar, já que a objetividade não existe quando se vai às compras com uma criança pequena a tiracolo, coisa que a gente só descobre mais tarde, com os próprios filhos. As lojas preferidas: todas. De tecidos, roupas, quinquilharias, ferragens, farmácias. As bijuterias da Sloper, praticamente uma Disneylândia na Rua da Praia. A Livraria do Globo, de onde ninguém saía sem um livrinho de colorir com água, que fosse.

Ipanema, para onde nos mudamos no início da minha adolescência, o que me obrigou a deixar uma vida de 12 anos para trás. Parece pouco, mas é uma história. De repente, o nada. O colégio desconhecido, o medo de não fazer novos amigos. Mudar de bairro é mudar de planeta, quando se tem 12 anos.

O tempo sendo contado pelo que já podia fazer sem a tutela dos pais. Pegar ônibus, linhas Serraria e Juca Batista, a parada na frente da nossa casa. Sair de noite para as festinhas na AABB e no Clube do Professor Gaúcho. Daí para a primeira cerveja e o primeiro beijo, não necessariamente nessa ordem, a vida foi um pulo.

Engraçado como a Zona Sul era muito mais longe, naquele tempo. De lá até a Fabico, nas vizinhanças do Planetário, levava-se a eternidade. Entre uma e outra, havia a Osvaldo Aranha, os cinemas e os bares. Era preciso ser forte para ir às aulas. Nem sempre eu fui.

Então, um dia, a pessoa acorda adulta e tudo vira uma lembrança só. Trabalho, morar sozinha, amores que depois a gente renega, outros que renegam a gente. Encontrar um caminho, trocar de caminho, não se achar nunca. Quando se conhece outros lugares, Porto Alegre perde um tanto da mágica que tinha lá no início. Não se envelhece sem realidade, o que vale para pessoas e para cidades. De qualquer jeito, voltar para Porto Alegre é sempre um respiro. Algo como sentir, outra vez, o cheiro de tempero, de chá, das flores ficando amareladas no vaso da sala. O cheiro de casa.

Feliz aniversário, meu porto.

CLAUDIA TAJES

26 DE MARÇO DE 2022
LEANDRO KARNAL

Os calores começam a amenizar, lentamente. No Centro-Sul do país, batem ventos que clamarão, em breve, por mangas compridas. Chegamos a mais um outono, época de criatividade e introspecção. Que tal ler um pouco? Lemos para analisar o real, para ter companhia e, inclusive, para conseguir olhar um pouco além do rema-rema cotidiano.

Estamos no ano do bicentenário da Independência. Muita gente dará opinião, surgirão reportagens e o tema pode aparecer de muitas formas. Não perca tempo: uma boa maneira de estar preparado para a data é ler o recente Independência do Brasil, de João Paulo Pimenta (Ed. Contexto). Obra geral, bem-feita para ter uma visão ampla que o professor da USP oferece ao grande público. Se você não conhece, aproveite também para explorar 1822, de Laurentino Gomes (Globo Livros). Sempre gostei muito da trilogia (1808, 1822 e 1889), bem como os recentes sobre Escravidão. Por fim, se quiser estar "afiado" para o evento, também pode conhecer duas biografias de protagonistas do processo de emancipação política: D. Pedro I, de Isabel Lustosa, e José Bonifácio, de Miriam Dolhnikoff (ambos da Cia. das Letras). Boas biografias são fascinantes e parecem prender a pessoa que lê de uma forma muito positiva.

Se o outono trouxe o desejo de boas narrativas literárias, Herança (Miguel Bonnefoy, ed. Vestígio) fará você passar horas agradáveis. O livro conheceu enorme sucesso na França. O autor faz um diálogo com as tradições da América e da Europa e mostra como a história afeta a percepção do mundo. Sempre gostei de autores com pés em dois mundos: Camus, Orwell, Carpentier...

Está com pensamentos densos sobre a busca da serenidade, o sentido da vida ou a necessidade de reorientar objetivos? Então, minha reflexiva leitora e meu meditabundo leitor: é hora de encarar três breves obras filosóficas. Estou falando de Grandes Mestres do Estoicismo (Edipro). Você vai descobrir muitas coisas bebendo das ideias Sobre a Brevidade da Vida (Sêneca); Meditações (Marco Aurélio) e o célebre Manual de Epicteto. Os estoicos quase sempre são muito práticos. A oportuna publicação da trilogia serve para amantes da filosofia e para o público em geral.

Comemos muito, pensamos sobre alimentação e usamos a boa mesa como fonte de sociabilidade. Jacques Attali traz ideias muito inovadoras no texto A Epopeia da Comida, uma Breve História da Nossa Alimentação (ed. Vestígio). Com frequência, volumes de história da alimentação trazem informações algo aristocráticas sobre as origens de um prato ou quando passamos a comer trufas. Grandes manuais do tema parecem ter um toque aristocrático-decadentista. O autor foge desse estereótipo. É uma viagem sobre a história da distribuição e elaboração de hábitos alimentares com partes analíticas da fome. Faz repensar a comida como fato geográfico, social e político.

O tema do machismo é fundamental para qualquer ideia educacional e de grupos de trabalho. Sugiro que as escolas, escritórios e as famílias façam grupos de estudos com o livro de Ruth Manus: Guia Prático Antimachismo para Pessoas de Todos os Gêneros (Sextante). Debater o machismo e a questão da mulher é uma aposta na civilização e na melhoria do nosso mundo. Ler o livro da Ruth, claro e contundente, é um ponto de partida.

Existe uma opção muito interessante. Só conhecemos um autor ou uma autora se entrarmos mais fundo no seu universo criativo. Que tal escolher um livro clássico e explorar mais obras de quem o concebeu? Deseja aceitar o desafio de entrar no cérebro de Clarice Lispector? Prefere Conceição Evaristo? Vai nadar de braçadas nos contos de Chekhov? Aceita o desafio de entender mais Ana Maria Gonçalves ou Itamar Vieira Júnior? Escolha alguém bom e pesquise sobre duas ou três melhores obras. Vá fundo! É uma viagem maravilhosa. Você verá repetição de alguns pontos e transformações de outros. Sua maneira de ler será transformada.

Quando eu estava no fim da minha graduação em História, a coletânea de Amin Maalouf foi uma descoberta. Ela apresentava as Cruzadas vistas pelas leituras de documentos árabes. Foi uma grande lição sobre fontes e a subjetividade das narrativas. Em 2011, o autor ingressou na Academia Francesa. Na obra O Naufrágio das Civilizações (Vestígio), ele analisa os conflitos identitários, o islamismo radical e o ultraliberalismo como riscos à civilização. O livro deu-me muitas pistas analíticas sobre o mundo em que vivemos. Concordando ou discordando, torna-se, desde o lançamento, obra fundamental para debater onde estamos na eterna encruzilhada da história.

Em resumo, minha sedenta leitora e meu ávido leitor: ler é uma chave que abre o mundo e útil, igualmente, quando o mundo perde sentido ou sabor. Leia para mudar tudo, leia para entender o que está acontecendo e leia, enfim, para sobreviver ao naufrágio das coisas e do sentido. As pessoas que amam o mundo e querem mudá-lo devem buscar livros. Aqueles que detestam o mundo necessitam isolar-se, igualmente, lancem-se aos autores. Leia sempre e cada vez mais. Invista em si. Um bom livro aberto é uma lufada de esperança.

LEANDRO KARNAL

26 DE MARÇO DE 2022
FRANCISCO MARSHALL

A AURORA DE PORTO ALEGRE

A lei municipal 3.609, de 29 de dezembro de 1971, oficializou o dia 26 de março de 1772 como data da fundação de Porto Alegre, que neste sábado celebra, portanto, 250 anos. Foi nessa data que uma Provisão Régia e uma Provisão Eclesiástica, expedidas no Rio de Janeiro, desmembraram Porto dos Casais de Viamão, capital da província desde que Rio Grande caíra nas mãos dos espanhóis, em 24 de abril 1763. Naquele ano de 1772, o vilarejo de Porto dos Casais foi elevado à condição de freguesia, termo derivado de filii ecclesiae, filhos da igreja, ou seja, os que habitavam em torno de uma capela, uma paróquia, e esta era forma elementar de circunscrição civil.

A igreja situava-se na margem do rio (Delta do Jacuí), onde hoje é a Praça da Alfândega. O nome dado à freguesia foi Porto de São Francisco dos Casais, mas em 18 de janeiro de 1773 este se alteraria para Nossa Senhora Madre de Deus de Porto Alegre, com homenagem à cidade de Portalegre, no Alto Alemtejo, Portugal. Ano que vem, portanto, à luz da documentação histórica, poderemos comemorar novamente os 250 anos de Porto Alegre.

Há, todavia, antecedentes a partir do pequeno porto situado na foz do Riacho, o atual Arroio Dilúvio, e que então desaguava no Lago do Viamão (Lago Guaíba) na região onde hoje há o aterro do Parque Harmonia. O Porto do Viamão passou a chamar-se Porto dos Dorneles a partir de 1740, em alusão ao sesmeiro Jerônimo de Ornelas Menezes e Vasconcelos, que deu origem à ocupação dessa região em 1732. Neste caso, em 2022 podemos comemorar também os 290 anos da cidade.

Em abril de 1751, o governador de Santa Catarina mandou para o Porto Dorneles casais açorianos recentemente radicados no Desterro (Florianópolis); em Rio Grande, porém, dispersaram-se e somente o casal de Francisco Antônio da Silveira (o Chico da Azenha) avançou para cá, e recebeu lote de terras junto ao Riacho; construiu sua casa no local onde depois ergueu-se o já destruído Cinema Castelo, e instalou um moinho (azenha) que resistiu até pouco tempo atrás no pátio do Hospital Ernesto Dorneles.

Ao final de 1751, nova leva de açorianos chegou ao Desterro e de lá partiu rumo ao Porto Dorneles, onde chegaram no final de janeiro de 1752, para ocupar, inicialmente, área junto ao Morro de Santana; diante da falta de água, porém, logo mudaram para as adjacências do porto. Eram 60 casais, dos quais sabemos os nomes de 59, e ocuparam os dois lados da península, dando origem à efetiva ocupação da região que um dia se tornaria o centro da cidade e logo ganharia a persistente urbanização em quarteirões. Praticaram boa agropecuária, desenvolveram-se e expandiram-se para chácaras no rumo de Viamão e para o Sul. Por essa razão, em janeiro poderíamos ter comemorado também os 270 anos desta cidade, com seu lindo nome de Porto dos Casais, e com a bela homenagem que lhes rendeu o escultor Carlos Tenius, no Monumento dos Açorianos (1974), que estiliza com corpos humanos o bojo do navio que trouxe os casais, com uma Vitória na proa e o arrojo de linhas modernas, apontando o futuro de uma cidade.

Felizes aniversários, Porto Alegre!

FRANCISCO MARSHALL

26 DE MARÇO DE 2022
DRAUZIO VARELLA

A INVISIBILIDADE DAS SEQUELAS

Epidemias de doença virais podem deixar pessoas com sequelas que não são levadas a sério, nem pelos médicos nem pela sociedade.

A covid-19 é mais um exemplo. Depois de sobreviver à fase aguda, os pacientes são considerados curados, mesmo que ainda apresentem sintomas, não importa se frustros ou exuberantes.

Esse fenômeno não é novo na história das epidemias, como discute Laura Spinney, no último número da revista Nature. A gripe espanhola, que se disseminou pelo mundo em 1918, deixou um rastro de quadros neurológicos compatíveis com uma doença conhecida como encefalite letárgica, que ganhou o nome de "doença do sono", por causa da sonolência que a caracterizava.

Das pessoas que se curavam dessa sequela, cerca de 80% desenvolviam quadros neurológicos muito semelhantes aos da doença de Parkinson.

Nunca ficou demonstrada a presença do vírus influenza no tecido cerebral, de forma a estabelecer uma relação clara de causa e efeito, mas o número de casos de encefalite letárgica e de doença de Parkinson aumentou de forma significativa ao redor do mundo, nos anos que se seguiram à pandemia.

Nas pandemias de influenza dos anos 1957 e 1968, também houve aumento da incidência de complicações neurológicas, entre as quais a encefalite letárgica. Como na gripe espanhola, também não foi possível comprovar relação de causa e efeito entre o vírus e o processo inflamatório que acomete o tecido cerebral na encefalite.

Apesar dessa dificuldade, está bem documentado que o vírus influenza infecta o tecido cerebral e provoca inflamações em diversos órgãos. Vários estudos detectaram ondas de ataques cardíacos e derrames cerebrais depois das temporadas de gripe. Crianças com encefalite pós-gripal são raras, mas podem desenvolver quadros fatais ou evoluir com danos neurológicos.

Influenza não é a única doença infecciosa capaz de deixar sequelas. O vírus do sarampo pode causar uma doença neurológica rara conhecida como pan-encefalite esclerosante subaguda, que pode cursar com quadros neurológicos graves.

Décadas depois de ter tido poliomielite, muita gente volta a se queixar de dificuldades respiratórias e motoras de grau variável, que podem eventualmente levá-los de volta para a cadeira de rodas e à dependência de suplementação de oxigênio (as estimativas variam de 20% a 85%). Durante muitos anos, esses casos ficaram sem explicação.

Tais reativações de sintomas de uma doença viral ocorrida muitos anos antes, foram incapazes de despertar a atenção dos médicos ou dos pesquisadores para explicá-las e descobrir formas de prevenção.

Cerca de seis meses depois do aparecimento dos primeiros casos de covid-19, vieram os primeiros relatos de sintomas que persistiam por semanas ou meses. Hoje, sabemos que a "covid longa" é uma síndrome caracterizada por cerca de 200 sintomas que envolvem pelo menos 10 órgãos e sistemas, entre os quais coração, cérebro, pulmões, pele, intestinos e nervos periféricos.

Queixas de fadiga, dispneia aos pequenos esforços, queda de cabelo, perda de olfato e paladar, fraqueza muscular, sensação de formigamento nas extremidades e um conjunto de alterações cognitivas que recebem o nome de "fog" cerebral são as mais frequentes. Podem durar semanas ou meses, como em outras síndromes pós-virais.

Embora corram mais risco de desenvolver covid longa os pacientes que tiveram manifestações graves na fase aguda, têm sido descritos inúmeros casos entre pessoas com apresentações pouco sintomáticas da doença.

Na história das epidemias, com a atenção voltada para as demandas médicas da fase aguda, os sistemas de saúde sempre negligenciaram os quadros crônicos provocados por elas. Desta vez, no entanto, a internet fez a diferença: grupo de pacientes com covid longa formaram comunidades online para compartilhar seus problemas e cobrar soluções para eles.

Em maio de 2021, economistas da London School of Hygiene & Tropical Medicine estimaram que as sequelas da covid consumiam 30% dos gastos de saúde com a epidemia. Essa avaliação inicial não levou em conta os custos com os transtornos psiquiátricos nem os das crianças com sintomas de longa duração.

As estimativas atuais são de que a pandemia deixará um rastro de doenças crônicas pós-virais que exigirão mais recursos do que o próprio tratamento da fase aguda em hospitais, à medida que a disseminação for controlada.

DRAUZIO VARELLA