sábado, 16 de abril de 2022


16 DE ABRIL DE 2022
DRAUZIO VARELLA

ATÉ QUANTOS ANOS UMA PESSOA PODE VIVER?

O limite de duração da existência humana divide os pesquisadores: para uns, estamos perto do teto; para outros, não há evidências de que exista um teto

Ao morrer, em 1997, a francesa Jeanne Calment tinha 122 anos e cinco meses. É considerada a pessoa mais longeva. Sua competidora mais próxima foi Sarah Knauss, que morreu em 1999, com 119 anos.

No início do século 20, a expectativa média de vida nos países mais ricos da Europa mal chegava aos 40 anos. Quando o século acabou, estava perto dos 80. O mesmo fenômeno se repetirá na passagem para 2100?

Em 1825, o demógrafo britânico Benjamin Gompertz enunciou a "lei da mortalidade", segundo a qual ao redor dos 30 anos de idade o risco de morrer começa a aumentar de forma exponencial, até um horizonte em que o risco final alcança 100%.

O limite de duração da existência humana divide os pesquisadores em dois grupos: os que julgam estarmos nas imediações do teto e os que defendem não haver evidências de que exista essa limitação.

Em janeiro deste ano, a Nature trouxe uma discussão sobre esse tema. Tomo a liberdade de resumir a opinião de alguns especialistas ouvidos pela revista.

Um estudo conduzido entre italianos com 105 anos ou mais pelo grupo de Elizabetta Barbi, da Universidade Sapienza, de Roma, mostrou que a curva de Gompertz atinge um platô nessa idade, isto é, para de aumentar exponencialmente. Embora estável, a taxa de mortalidade a partir dos 105 é alta: 50% a cada ano que passa.

Você, leitor otimista, pode interpretar esse dado com boa vontade. Se a cada ano morrem 50%, a outra metade sobrevive sem que seja possível estabelecer um limite claro para a duração da vida.

Uma análise matemática de Caleb Finch, da Southern California University, calculou que esse limite seria de 120 anos. A estimativa é compatível com o recorde estabelecido por Jeanne Calment.

Progressos capazes de estender a expectativa média de vida da população aumentam as chances de alguns privilegiados alcançarem idades extremas. A mortalidade infantil e os acidentes, por exemplo, impedem que uma pessoa com genética favorável complete cem anos.

A expectativa média de vida na Suécia e no Japão tem aumentado três meses por ano, desde 1840. Esse aumento persistirá? A julgar pelos dados obtidos no Reino Unido e nos Estados Unidos, não, já que neles a expectativa média cresceu pouco nos últimos 10 anos. Foi encurtada pelas mortes prematuras por abuso de álcool, drogas ilícitas, suicídios, obesidade e transtornos psiquiátricos.

Em 2020, a ONU estimou em 573 mil os centenários do mundo. Esse número é 20 vezes maior do que o de 50 anos atrás. Em 1946, as 30 pessoas mais longevas do mundo tinham em média 99 anos. Em 2016, essa média atingiu os 109 anos. Continuará a crescer nesse ritmo?

É provável que não. Hoje, os que ultrapassam cem anos chegam a tal idade em maior número e em melhores condições de saúde. Mas nesse grupo a expectativa de vida remanescente tem se mantido a mesma nos últimos 80 anos.

Você, leitora inconformada, poderá argumentar: se a expectativa média de vida duplicou no decorrer do século passado, por que não poderei viver 150 anos?

Vamos deixar claro dois conceitos. A expectativa média de vida se refere à média de anos vividos por determinada população. Essa expectativa no Brasil, em 1940, não passava de 45 anos, enquanto em 2019 atingia 76, ganho obtido às custas da redução da mortalidade infantil e das mortes na infância e na juventude - graças às vacinas, ao soro caseiro, aos antibióticos, às melhores condições de higiene e à assistência médica.

A longevidade só leva em conta o grupo que viveu mais tempo em determinado grupo populacional.

Considere o caso das mulheres japonesas. É a maior expectativa média de vida na Terra: 87 anos. Como esse número se refere à média, o número das que passam dos cem anos é maior do que o de brasileiras ou de moçambicanas, mas isso não impede que uma moçambicana quebre o recorde mundial de longevidade.

Mesmo que não exista um limite fisiológico formal para a duração da vida, cruzar as fronteiras atuais da longevidade vai requerer grandes avanços nas ciências médicas.

Não se tratará apenas de reduzir a mortalidade infantil e evitar as mortes precoces, mas de encontrar soluções para doenças cardiovasculares, reumatológicas, câncer, diabetes e ainda ter que lidar com degenerações neurológicas, como a doença de Alzheimer.

Você quer viver muito, não quer? Eu também, mas não a qualquer preço.

DRAUZIO VARELLA

16 DE ABRIL DE 2022
BEM-ESTAR

A PERCEPÇÃO DAS PALAVRAS

As palavras carregam sua história, seus significados, mas para cada um de nós elas trazem um sentimento, uma conotação e mexem de uma forma particular no nosso emocional.

Existe uma estranheza nas palavras, no que elas escondem. Como uma flor selvagem e rara, um animal à espreita que se deixa entrever, mas não se revela enquanto não sente confiança e intimidade.

Existe uma beleza de assombro nas palavras, quase um susto que nos intimida diante da força desse esplendor. Existem dores, tragédias, ofensas, segredos que se ocultam, existem vozes que sussurram juntas em cada palavra. Mesmo quando elas são solitárias, esquecidas em algum banco de jardim, em volta de cada palavra esvoaçam sentidos, como borboletas invisíveis. Circulam fantasmas, sombras, medos.

Com palavras, formamos nossos pensamentos, tentamos traduzir sentimentos, explicar nossas razões, compreender o intrínseco e complexo da natureza humana. E mesmo assim as perdemos, elas evaporam diante de nós e somos abandonados sozinhos numa estrada que nunca alcança o invisível, impalpável, o éter das palavras.

A metafísica do mundo busca palavras. A concepção do mundo precisa delas. O desejo de explicar o inexplicável, o inenarrável, o que existe dentro ou fora de nós e que não está em nenhum lugar.

Caminhamos no deserto das palavras e não há direção possível. Não há mapa e nem mesmo as estrelas nos orientam. E vamos enfrentar o que vier, cavar com as mãos na areia, tentar abrir túneis submersos, passagens subterrâneas, recuperar o oculto, manuscritos antigos que se dissolvem ao contato da luz.

As palavras são feitas dessa matéria sem nome e atravessam o tempo. Passam por gentes e gentes e gentes e se modificam sem perder a essência, aquilo que são no cerne, no ponto mais profundo, onde não se chega.

No fundo do conceito da palavra existe uma ética, uma beleza que se transforma conforme quem a toca e nem sempre se entrega a quem a pronuncia.

Tem o orgulho de ser entidade, verbo do divino. E desde o início era o verbo. Por isso exige imensa devoção. Exige mergulho, prostração.

Quem quer tocar a palavra, mesmo que não alcance a magnitude em que ela se dissolve, precisa se despojar de total maneira para se entregar à mercê de seus caprichos sutis.

Precisa ser leve e ficar em suspenso para se deixar levar pelo fluxo de sua correnteza. Assim, as palavras nos transportam e nos surpreendem. Essa viagem me comove, porque quando deixo de ser e sigo o movimento que elas traçam, uma dança invisível no ar, eu que não existo e em volta brilha translúcida cada partícula.

Tudo desaparece para que as palavras sejam soberanas, donas da fatalidade, e a elas obedecemos.

Nossa entrega é plena. Elas, como fadas de luz, descortinam universos. Percorrem planos que existem desde o começo do mundo, tudo o que se conheceu, se conhece e se perdeu na memória.

Elas se revelam e nos fazem descobrir paixão e êxtase. Elas nos prendem e nos tornamos espíritos livres.

BEM-ESTAR

16 DE ABRIL DE 2022
J.J. CAMARGO

A MALDADE DEVIA, AO MENOS, TER LIMITE

Em nome da ciência, muitas atrocidades já foram cometidas. Com surtos de exacerbação bem definidos na história, a maldade sempre acompanhou o homem, em todas as épocas e sem discriminar nenhuma civilização.

Alguns exerceram-na ao extremo, sem qualquer preocupação com julgamentos. Eram maus e pronto. Logo abaixo, na graduação da psicopatia, sempre estiveram os cínicos, que se serviram de sofismas e dissimulações para o exercício ominoso e repulsivo do que pretendiam como arte ou ciência.

Assim aconteceu com alguns anatomistas alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Ao festejarem o fim da escassez de cadáveres, usaram do prestígio acadêmico para mudar, por exemplo, o horário do sacrifício dos condenados, argumentando que a execução matinal lhes assegurava cadáveres frescos, muito mais propícios aos estudos anatômicos.

Muitas dessas atrocidades foram reveladas pelo Tribunal de Nuremberg, outras vieram à tona de maneira fortuita.

O professor Hermann Stieve, chefe do Instituto de Anatomia da Universidade de Berlim, alegou que dissecava apenas cadáveres de "criminosos perigosos", mas foi preciso que Charlotte Pommer, uma estudante de Medicina, identificasse em dezembro de 1942, na mesa de dissecção onde estudava anatomia, uns dissidentes do nazismo conhecidos seus para que caísse a máscara de uma pesquisa abjeta. Stieve, um curioso nato, interessado em avaliar se o estresse intenso diminuía a ovulação, selecionou mulheres que estavam prestes a ovular e as enviou para as câmaras de gás, com intuito de trazê-las de volta depois de um simulacro de execução, apenas para verificar o efeito que um susto, daquele tamanho, causava sobre seu padrão de ovulação. Tudo em nome da ciência.

Crianças com deficiência mental serem excluídas de programas de vacinação infantil, para observar como evoluiria uma doença prevenível, foi outra iniquidade inominável.

Por alguma razão, na minha escala de atrocidades nada supera o protocolo para que ao longo de 40 anos, a partir de 1932, a sífilis, uma doença sexualmente transmissível, pudesse ser estudada in anima nobili: homens negros no sul dos Estados Unidos. Tudo planejado para que os médicos pudessem acompanhar as consequências da doença e, mais tarde, dissecar seus corpos, segundo a Associated Press.

O condado de Macon, um dos lugares mais pobres de Alabama, foi a comunidade escolhida a dedo. No início do século, a população majoritária de negros tinha altos índices de sífilis, que atingia 35% dos moradores em idade reprodutiva. Sem que tivessem conhecimento do que estava acontecendo, cerca de 400 homens afro-americanos passaram pela seleção, em que recebiam placebo e não eram informados de que tinham sífilis, apenas que eram portadores de "sangue ruim". O inconcebível foi negar-lhes o tratamento depois que surgiu a penicilina, uma droga curativa, visando manter o estudo com essas pobres cobaias humanas. O terrível experimento ficou conhecido como "Estudo de Sífilis de Tuskegee".

"O caso Tuskegee é paradigmático pois foi elaborado por pesquisadores supostamente preparados e com supervisão e respaldo de organismos governamentais", segundo José Roberto Goldim, professor de Bioética da UFRGS.

Quem publica em revistas científicas ou envia trabalhos para serem apresentados em congressos médicos menos entende como um atropelamento moral desse porte passou incólume pelos filtros éticos de então.

Mas, de qualquer forma, se subtrairmos da contemporaneidade o obscurantismo dos que escolheram negar a vacina para ver no que vai dar (como se alguém ainda não soubesse), e carentes como estamos de transformações positivas, talvez devêssemos comemorar com o ufanismo permitido que eticamente estejamos avançando. A repulsa que sentimos ao ouvir estes relatos é a melhor prova disso. Até quando? O tempo dirá.

J.J. CAMARGO

16 DE ABRIL DE 2022
DAVID COIMBRA

Ressurreição

Um dia, Dostoievski foi condenado à morte por fuzilamento. Aconteceu quando ele ainda não havia alcançado os 30 anos, a idade que, antes, era da maturidade e, hoje, é o do fim da adolescência. Dostoievski já escrevia, publicava suas histórias em revistas literárias, mas estava longe de ser o gênio que se tornou.

Deu-se que, naquele tempo, ele andava frequentando umas rodas de rapazes metidos a revolucionários. Havia muito disso na Rússia do século 19. A intelectualidade, em especial a intelectualidade estudantil, vivia discutindo como derrubar o regime despótico do czar.

Mas, e aí está o curioso, não era o caso de Dostoievski. Ele era um conservador. Admirava o czar e se dizia devoto da Igreja Ortodoxa. Mas reunia-se com os rebeldes, levado por amigos, talvez, ou talvez por singela curiosidade intelectual. A polícia secreta russa, porém, estava atenta a essas reuniões. Numa delas, os meganhas invadiram o recinto e prenderam todos. Arrastado para os calabouços do czar, Dostoievski foi interrogado brutalmente por sete meses, ao cabo dos quais ele e seus companheiros viram-se condenados à pena capital.

Na manhã aprazada para a execução, Dostoievski e seus companheiros fizeram a última refeição e, em seguida, foram conduzidos à praça pública e divididos em grupos. Um sacerdote lhes ministrou a extrema-unção. O primeiro grupo foi colocado diante do pelotão de fuzilamento. Os outros assistiam, angustiados, sabendo que não lhes restava mais do que cinco minutos de vida. Rufaram os tambores.

Preparar! Apontar!

E eis que surge um mensageiro a galope, brandindo um documento na mão: o czar Nicolau I havia comutado a sentença de morte para um brando período de degredo na Sibéria. Era um chiste cruel. Era uma farsa.

Os momentos de aflição em que Dostoievski se achou na iminência de morrer mudaram-lhe a alma. Foi a partir daquela morte em vida que nasceu o escritor imortal. Suas grandes obras foram todas escritas depois do episódio, e em praticamente todas se percebe a influência do drama enfrentado pelo autor. Em O Idiota, esses últimos minutos da vida de um homem são descritos em pormenores. Em Recordações da Casa dos Mortos, ele conta o que viveu em seu período siberiano. No superclássico da literatura mundial de todos os tempos, Crime e Castigo, há uma intensa passagem pelo lugar que outro escritor russo igualmente sofredor chamaria de Arquipélago Gulag.

E assim por diante.

A literatura e a vida pessoal de Dostoievski foram transformadas radicalmente pelo período na prisão. Transformadas para melhor. Na Sibéria, Dostoievski adquiriu estofo para compor algumas das maiores obras de arte tecidas pelo espírito humano e, enfim, conheceu uma mulher que o amava, que aceitava seu vício pelo jogo e o acalentava quando sofria seus ataques de epilepsia.

A quase morte foi o que de melhor aconteceu na vida de Dostoievski.

E é assim que é. Os fortes podem extrair o melhor mesmo quando se lhes oferece o que há de pior.

É o princípio da Páscoa. Da ressurreição. Da vida renovada depois da morte aparente.

Texto originalmente publicado em 24 de abril de 2011

DAVID COIMBRA

16 DE ABRIL DE 2022
ARTIGOS

IPE SAÚDE: UM PATRIMÔNIO DOS GAÚCHOS

O IPE Saúde completa, neste mês, quatro anos como autarquia independente. Embora recente em sua constituição jurídica, é caracterizado pela trajetória histórica de um sistema que se consolidou na assistência à saúde de quase um milhão de gaúchos. Seus serviços estão presentes em todas as regiões do Estado, com mais de 7 mil médicos, 323 hospitais, 762 clínicas e 732 laboratórios entre outros agentes credenciados que atuam diretamente na promoção do bem-estar de nossos cidadãos.

A magnitude dos números, que expressa a capilaridade desse sistema, também traz à tona a complexidade da sua gestão, que deve atuar em consonância com as práticas de mercado sem perder a essência de ser parte da administração pública, em um cenário de crescente envelhecimento populacional. Aos desafios inerentes à natureza da autarquia, somam-se as adversidades impostas pelo coronavírus, com crescimento de mais de meio bilhão nos valores de contas apresentadas pelos prestadores no período da pandemia.

A reestruturação do IPE Saúde, visando ao equilíbrio do sistema, envolve uma série de medidas que já vêm sendo adotadas no atual governo, como a análise da matriz de custos, o pagamento de cotas patronais atrasadas de outras gestões, a realização de concurso público, bem como a implantação do Programa Facilitadores, que prevê atendimento presencial em parceria com prefeituras.

A continuidade das mudanças em curso envolve, ainda, outras frentes: inicialmente, uma ampla revisão da despesa do instituto, com ajustes das tabelas de valores; além disso, a modernização operacional da estrutura interna, com fortalecimento da auditoria e melhorias no atendimento aos usuários; por fim, uma avaliação das fontes de financiamento, de modo a identificar alternativas para o reequilíbrio. Nosso objetivo é avançar nas transformações necessárias, com medidas estruturantes e sustentáveis, em prol deste que é um verdadeiro patrimônio em favor da vida de todos os gaúchos.

Presidente do IPE Saúde - BRUNO JATENE

16 DE ABRIL DE 2022
OPINIÃO DA RBS

AGÊNCIAS REGULADORAS NA BERLINDA

Está em curso em Brasília uma articulação para viabilizar uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) destinada a esvaziar uma série de funções das agências reguladoras. É uma intenção que precisa ser mais bem analisada e ter suas razões entendidas. Não se deve simplesmente interditar o debate, mas é preciso ter cuidado para não ser produzida uma desidratação prejudicial aos interesses da sociedade. 

As agências reguladoras são autarquias criadas no governo Fernando Henrique Cardoso, a partir do início das privatizações. São fruto do amadurecimento institucional do país e essenciais para que os setores sob sua influência tenham garantias e prestem bons serviços aos cidadãos em áreas como energia elétrica, telefonia, medicamentos e aviação civil, entre outras. Para isso, têm asseguradas autonomia administrativa, funcional, financeira e de decisão, sem precisar obedecer, por exemplo, a ministérios.

Um exemplo fresco na memória dos brasileiros da relevância dessa independência é o da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ao longo da pandemia. A despeito de pressões, teve uma atuação impecável na análise e na aprovação das vacinas, inclusive para o público infantil. Mesmo desagradando ao Planalto, seu diretor-presidente, Antonio Barra Torres, com mandato fixo, não poderia ser demitido. Ganhou a população com a garantia de que a agência, imune a ingerências políticas, conseguiria continuar trabalhando pautada pelos ditames da ciência.

Noticia-se agora que a referida PEC retiraria das agências o papel de regulamentar decretos e leis e de deliberar se as regras estão sendo seguidas pelo setor e pelas empresas. As tarefas passariam para conselhos criados nos ministérios. É preciso evitar que essas possíveis alterações, se a ideia prosperar, transformem-se em uma porta aberta para decisões contaminadas por outros interesses que não sejam uma regulação justa que equilibre a sustentabilidade dos serviços prestados com o melhor atendimento possível das expectativas dos usuários. Deve haver garantias, por exemplo, de que essas novas instâncias não serão manipuladas pelos governantes de turno. O presidente Jair Bolsonaro voltou a criticar, há poucos dias, a independência das agências. A busca por manietá-las, aliás, sequer é nova e foi também tentada nas gestões petistas.

É preocupante, ainda, o pacote de indicações de 21 nomes para diretorias de agências encaminhado pelo governo federal no início do mês para apreciação do Senado. A lista era composta por uma série de apadrinhados pelo centrão. Foram sabatinados de maneira rápida e superficial pelos parlamentares e protocolarmente aprovados. Eleva-se assim o risco de aparelhamento das autarquias, colocando em dúvida o estrito cumprimento de suas missões. Agências reguladoras são essenciais para o bom funcionamento e a fiscalização de serviços concedidos e atividades privatizadas. Deveriam ser preenchidas com nomes técnicos e de competência comprovada e protegidas de tentativas de manipulação.

OPINIÃO DA RBS

Falta de chips já afeta 70% das empresas que usam o produto

Saída para reduzir dependência externa exige políticas de estímulo e reforço na formação de profissionais especializados

Agravada pela pandemia e pela guerra na Ucrânia, a falta de materiais semicondutores utilizados em larga escala em componentes eletrônicos, desde celulares até automóveis, já afeta 70% das empresas gaúchas que usam esses itens, provoca aumento de custos, atrasos na entrega de encomendas e reduz a oferta de produtos ao consumidor.

A expectativa de normalização desse cenário, que atinge países no mundo inteiro, foi adiada deste ano para 2023 e não há perspectiva de curto prazo para que o Estado, em particular, ou o Brasil como um todo deixem de depender do mercado externo. A boa notícia é que o esforço global para reduzir o peso da Ásia no fornecimento dessa tecnologia abre espaço para o crescimento de novas empresas voltadas ao desenvolvimento de chips em um período mais longo - e os gaúchos ocupam posição de destaque nessa área no cenário nacional. Mas, para isso se concretizar, é preciso investir em políticas públicas e formação de profissionais especializados.

Semicondutores são um tipo de elemento químico, com destaque para o silício, adequado para a produção de circuitos como microprocessadores, "cérebros" que controlam todo tipo de dispositivo eletrônico, ou a memória utilizada em equipamentos como computadores, entre outros fins. Geralmente conhecidas como chips, as peças minúsculas são desenvolvidas principalmente na Ásia e, com a eclosão da pandemia e do conflito na Ucrânia, passou a haver uma escassez mundial desses artigos. Esperava-se o restabelecimento das cadeias de produção neste ano, mas as sucessivas ondas de coronavírus, a alta na demanda global e a invasão promovida pelo Kremlin fizeram o cenário se agravar em vez de melhorar - Rússia e Ucrânia são exportadores de matérias-primas usadas na produção dos circuitos, como o gás xenônio e o paládio.

- Desapareceram os chips de média e grande complexidade. Produtos que eram comprados por US$ 14 agora saem por até US$ 150, quando se encontra. É um problema sério, cujas perspectivas de solução estão nebulosas - afirma o diretor da empresa gaúcha BCM Automação, José Bozzetto, que fornece equipamentos para sistemas de automação industrial, elétrica, predial, entre outras finalidades.

Reprojetos

Um recorte regional da pesquisa feita em todo o país pela Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) aponta que sete em cada 10 companhias gaúchas do setor estão enfrentando dificuldades para adquirir semicondutores, ligeiramente acima da média nacional de 68%.

- Chips que eram entregues em 15 semanas agora demoram 40, 45 semanas para chegar. Começamos a pagar até 10 vezes mais. Por isso, estamos reprojetando equipamentos para poder usar chips alternativos, de outros fabricantes. Nos últimos meses, 80% do nosso tempo é investido para reprojetar, em vez de criar novos produtos - complementa o empresário Aderbal Fernandes Lima, sócio e presidente do conselho da Novus, de Canoas, que exporta equipamentos para mais de 60 países.

O Estado importou R$ 172 milhões em circuitos e dispositivos semicondutores no ano passado. O fornecedor de maior peso é a Coreia do Sul, com 62% das remessas de circuitos e conjuntos eletrônicos - rubrica que respondeu por R$ 131,3 milhões das compras feitas pelos gaúchos. Em seguida aparecem Singapura, Taiwan, China e Tailândia, conforme dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério da Economia.

Para o consumidor comum, o impacto dessa desorganização global pode ser percebido por falta e encarecimento de produtos que utilizam essas tecnologias. A redução na oferta de celulares pode chegar a 10% neste ano, por exemplo, e a produção de veículos caiu 7,8% no país no mês passado em comparação com igual período do ano anterior. Ao mesmo tempo, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nos últimos 12 meses, a inflação dos produtos eletroeletrônicos ficou em 14,3%, conforme o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) - acima da média geral de 11,3%.

- Estamos com dificuldade muito grande de aquisição, e também para substituir fornecedores, porque, às vezes, não entregam com a mesma qualidade ou com o mesmo prazo. O mundo inteiro se deu conta de que era muito dependente da Ásia, e agora pensa em iniciar investimentos nessa área. Mas, no curto prazo, tem muito pouco que se possa fazer - sustenta o economista-chefe da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), André Nunes de Nunes.

O levantamento da Abinee revela que 45% do empresariado brasileiro projeta uma normalização do setor eletrônico em meados ou no final do ano que vem, mas outros 19% nem mesmo têm previsão de quando chegará ao fim a atual crise.

MARCELO GONZATTO 


16 DE ABRIL DE 2022
MARTHA MEDEIROS

Reconhecimento

Caetano Veloso tem viajado pelo Brasil lançando o disco Meu Coco. Em Porto Alegre, onde o assisti, uma coisa me chamou a atenção. No exato segundo em que ele entrou no palco, o entusiasmo com que foi recebido calou a cidade lá fora. Eram mais que aplausos, era o clamor de uma admiração que transbordava, milhares de corações disparados, afeto sonoro e gigantesco. 

Bom, até aí, é o que se espera do contato inicial entre o artista e seu público, só que a efervescência não diminuiu no decorrer do show, o auditório manteve a fervura, jamais esfriou: declarações de amor eram gritadas de três em três minutos e todos pareciam querer abraçar aquele homem de quase 80 anos que estava ali, a poucos metros de distância. Não era um fanatismo adolescente, como nas plateias dos Beatles, e nem desafogo depois da tranqueira imposta pela pandemia. Era algo maior e mais bonito. Era um país grato.

Sei que o Brasil não é homogêneo em seus gostos musicais e nem mesmo alguém da estatura de Caetano é uma unanimidade, o que não impede de eu escrever aqui sobre a vasta parcela da população que, gostando ou não do que ele diz e canta, de quem ele apoia ou deixa de apoiar, reconhece a importância que a arte de qualidade tem para a construção de uma nação. Esse reconhecimento é um pilar, sustenta o nosso futuro. Ai de nós se desaprendermos a dar valor ao que é fundamental.

Em um país que tem se dedicado mais a destruir do que a construir, mais a mentir do que enfrentar os desafios, é obrigatório reverenciar os que nos ajudam a largar a barra da saia da mãe. A arte nos amadurece. Ela confia que podemos ir além do pensamento médio. Ela nos ajuda a vencer o medo das mudanças. Tira as rodinhas das nossas bicicletas, para que possamos avançar por nós mesmos.

De que vale uma vida intelectualmente preguiçosa, que se recusa a ir ao encontro do conhecimento, que não se deixa tocar pelo sagrado que há também fora das igrejas? Teatros, cinemas e livrarias são templos. Existir, a que se destina: não à alienação, nem à covardia.

Cada vez que morre um João Gilberto, uma Elza Soares, uma Lygia Fagundes Telles, nós, que tanto aprendemos com eles sobre a beleza e a dor dos sentimentos, e que através deles confirmamos o quão transformador é o saber, deveríamos manifestar nosso profundo agradecimento sempre que a ocasião permitisse - e aos vivos, o tempo todo.

As pessoas se tornam mais interessantes através da arte. Ela é o único poder que emociona e salva. O resto são podres poderes, ridículos tiranos, capatazes com sua burrice fazendo jorrar sangue demais. Que as plateias sigam dando seu próprio show de calor humano e coloquem o coração na mão por aqueles que ainda mantém nossa esperança.

MARTHA MEDEIROS

sábado, 9 de abril de 2022


09 DE ABRIL DE 2022
MARTHA MEDEIROS

Silêncio em movimento

Esta é uma crônica para ser lida ouvindo Bach. Essa é uma crônica que trocou o massacre das notícias diárias pela Suíte nº1 para Violoncelo. Essa é uma crônica instrumental que está nascendo às sete horas de uma manhã em preto e branco. Chove.

Coloquei o celular no silencioso. Afasto o mundo de mim. Aproximo de mim meu universo. Aceito, finalmente, que ninguém jamais me compreenderá, não me conhecem por dentro.

Estou por um instante a salvo da vulgaridade. Enterneço. Percepções imprecisas se transformam em poesia. Wagner. De repente um coral começa a cantar. Me transporto. Aconteceu uma vez de eu entrar numa pequena igreja de uma vila italiana e eles estavam lá, dialogando com os deuses bem na minha frente. A beleza secreta de ser uma intrusa. Meu silêncio, minha rendição, e aquelas vozes.

Sem espalhafato, o céu desse início de manhã se torna cinza-claro, e encontro no meu escuro algo que não estava procurando. Choro.

Violino. Não sinto nenhuma revolta. Estou em casa como tenho estado poucas vezes, apesar de estar sempre aqui. Estou em casa como se não tivesse saído jamais de dentro de mim. A janela está aberta, o dia está molhado, mas não sinto frio. É meu lugar de pausa.

Estou em segurança nessa tranquila solidão. Piano. Parece um castelo vazio, o palco de um teatro, a trilha sonora de um filme, mas sou eu, apenas, me escutando.

Calma. Sei que o sossego dessa inércia não vai durar, que as horas seguintes violarão a sacralidade que há nos recolhimentos, que alguém irá me chamar e terei que dar respostas, analisar contratos, cumprir o combinado. Por enquanto, fecho os olhos. Este momento ainda é só meu.

Liszt. Chopin. Debussy. Inspiro no profundo de mim, longamente. Expiro. É como se eu me despisse inteira para desconhecidos. O dia inaugura assim, musical, sem emergências. Não há o que possa me doer.

A vida não é real. Vida é fascínio, êxtase, elevação. A realidade tem a respiração curta, anda rente às calçadas. Falta pouco para o barulho da obra ao lado começar e me tirar dessa paz sem esforço. Erik Satie. A rotina está chegando perto como eu não queria que chegasse, ainda não. Me dê mais cinco minutos.

Parou de chover, mas segue nublado. Réquiem. Pertenço a esse gênero de música também, a clássica. A essa desaceleração, a essa epifania. Sou uma orquestra de vários instrumentos, nem sempre intensa. Volto amanhã, quando despertarei cedo outra vez, antes da violência dos hábitos. Minha funcionária acaba de chegar. Os operários da obra já manejam seus guindastes e betoneiras. Meu celular não está mais no silencioso. Camille Saint-Saëns é interrompido pelo interfone, Brahms é cortado pelo sinal de WhatsApp. Preciso ir.

MARTHA MEDEIROS

09 DE ABRIL DE 2022
CLAUDIA TAJES

Já tirou teu título, meu jovem?

Há milhões de anos, uma propaganda na televisão convocava: jovem, ao completar 18 anos, aliste-se no serviço militar. A partir daí apareciam imagens de jovens se arrastando no chão em exercícios, cantando o hino ao lado da bandeira e etc. Para os que ambicionavam a carreira militar, era um convite. Para os que não serviriam a Pátria, se pudessem escolher, era uma ameaça que podia durar até o dia do exame médico e do veredito: apto.

Pois agora os jovens de todos os sexos e orientações estão sendo convocados outra vez. Em lugar da voz quase caricata do locutor da velha propaganda das Forças Armadas, são muitas e diversas as vozes que martelam nas redes sociais: jovem, se você vai completar 16 anos até o dia 2 de outubro, tire já seu título de eleitor.

É a grande tarefa de agora, porque logo ali tem uma eleição que pinta desde já como a mais importante desses nossos conturbados tempos.

Entre os que compraram a causa, Anitta tem feito um trabalho e tanto para convencer a gurizada. Milionária, poderosa, dona de carreira internacional, primeiro lugar nas plataformas digitais, amada por milhões e odiada pela Damares, tudo isso aos recém-completados 29 anos. Gostem ou não dela, Anitta é uma embaixadora legítima do voto jovem, e seu engajamento na campanha movimentou os números - que andavam meio parados.

E não só a Anitta tem se mexido para convencer a turma dos 16 em diante a fazer logo esse título, pelamor. Zeca Pagodinho está na batalha também. E mais Luísa Sonza, Juliette, GKay, Whindersson Nunes, Gil do Vigor, Bruna Marquezine, Casimiro, Felipe Neto, Larissa Manoela e muitos outros artistas e influenciadores. Se você não sabe quem são alguns dos citados acima, não tem problema. Seu filho e sua filha sabem.

Fato é que tirar o título de eleitor é a coisa mais fácil que há. Lembra que precisava ir ao cartório eleitoral da Praia de Belas e pegar uma fila imensa, já que a gente sempre deixava para a última hora? Pois agora é tudo pela internet. Dá para tirar o título a qualquer hora do dia ou da noite, depois e até durante uma festa, trabalhando, estudando, namorando, azoeirando. Basta entrar em bit.ly/titulofacil, escolher a opção NÃO TENHO quando abrir a tela de identificação do requerente, preencher tudo, anexar foto do documento de identidade, comprovante de endereço - que pode estar no nome dos pais ou do responsável -, uma selfie segurando o RG, e pronto. Prontíssimo.

A coisa é simples, mas tem prazo: até as 23h59min do dia 4 de maio. Deixar para os últimos minutos é correr os conhecidos riscos do mundo digital, internet que cai, página que não carrega, sem falar na luz, que anda faltando a qualquer vento ou chuva. Melhor procrastinar até o fim da tarde, no máximo dos máximos.

Procrastinar, se algum jovem leitor não entender, é fazer qualquer coisa, até mesmo nada, antes do que precisa ser feito.

O voto das pessoas de 16 anos em diante é importante para definir de que jeito temas muito sensíveis aos jovens serão conduzidos nos próximos anos. A Educação talvez seja o mais gritante, junto com a reconstrução de uma economia abalada pela pandemia e por medidas duvidosas, para se dizer o mínimo. Também tem a Saúde. A Cultura. As questões sociais e ambientais. Trabalho é o que não falta.

Quem já foi jovem lembra bem de como a gente odiava que decidissem as coisas por nós. No máximo, aceitava dentro da máxima aquela, o respeito é bonito e conserva os dentes. Agora a gurizada está sendo chamada a participar de uma escolha que vai decidir a vida de um país inteiro.

Presidente, Congresso, Senado, governador, Assembleia. Sejam quem forem os eleitos, serão democraticamente respeitados, como é do jogo. Mas jura que, tendo a chance de participar, tem jovem que vai deixar esse cavalo encilhado passar?

No meu tempo (tem coisa mais antiga do que dizer "no meu tempo"?), eu não deixaria. Bora fazer esse título de eleitor, meu povo.

CLAUDIA TAJES

09 DE ABRIL DE 2022
LEANDRO KARNAL

Memórias de família são uma fonte inesgotável para a televisão e o cinema. A série This Is Us (criada por Dan Fogelman, seis temporadas, 2016-2022) foi concebida a partir dos Pearsons, um bravo casal que luta para manter sua prole tripla.

Não sei se foi intencional fazer um jogo de palavras com o título: sim, "estes somos nós" (us) e "estes são os estadunidenses" (U.S.). Varia a pronúncia e abunda o desejo de um grupo com quem todos possam se identificar.

Um homem que não gosta do pai violento e alcoólico, possui traumas com o Vietnã e deseja sair de casa. Uma mulher cheia de sonhos com música e que topa com ele e, dali, surge um amor intenso. Um casal lutando financeiramente e que recebe a notícia de que a gravidez originará três crianças. Reviravoltas na narrativa marcam a série. Somos levados a um caminho e, quando chega o desenlace, aparece uma surpresa total.

O mais interessante é o plano da memória e da sobreposição de tempos. Estamos acompanhando o casal protagonista se conhecendo, tendo os filhos, os rebentos já adultos e, de repente, voltamos à infância de Rebecca (a mãe). Leva um tempo para você pegar o "traquejo" de perceber que a narrativa vai e volta como no cérebro humano que quebra linearidades de antes e depois. A memória talvez seja a matéria-prima da série.

Há três filhos de Rebecca e Jack. O mais velho é o americano loiro, bonito e inseguro quanto a sua capacidade e inteligência. A segunda é uma moça que luta com o peso a vida toda, afetiva e inteligente, insegura com sua forma física. O terceiro é um menino negro que foi adotado pelo casal. É o mais brilhante, focado ao extremo, o mais correto eticamente e sempre se achando deslocado. Ele se achava muito negro para uma família branca e muito branco para a comunidade negra na qual tentará se inserir. 

Há três insatisfeitos lutando: um que quer ser levado a sério pelo talento, outra que deseja ser bem considerada independentemente do corpo e um terceiro que deseja que o vejam além da epiderme. A maneira como cada um batalha suas feridas narcísicas é parte da graça da série. São todas pessoas que buscam ressignificar suas sombras.

O roteiro tem traços brilhantes e está muito acima do gênero "drama familiar". Os episódios apresentam muitos turning points (como na série Game of Thrones). A memória remete um pouco ao Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, com planos sobrepostos. Não existe monotonia para quem acompanha.

Objetos viram amuletos, talismãs carregados de conteúdo. Somos informados da história de cada item um pouco depois, criando certa tensão narrativa. Coisas (cinzas de um ente querido, colares, uma fita de vídeo, bonecos de Star Wars, tradições de Thanksgiving) simbolizam universos inconscientes e definem a ação. Como existe uma quase generalizada dificuldade de acessar seu próprio sentimento ou transmitir suas emoções a alguém, os objetos viram personagens fundamentais com poder de comunicação enorme.

A obra trata de vícios (cocaína, álcool, comida, analgésicos). Há pessoas workaholics. Existe uma cena em que a esposa de Randall (o adotado) diz que o marido é viciado em bondade e que ela deve protegê-lo disso.

Pais e mães podem ser bons ou terríveis, sempre são importantes. Não seria errado apontar um ponto de vista psicologizante em tudo. Mesmo a Guerra do Vietnã é refeita a partir de relações com o irmão ou as memórias do filho ator que retorna ao Sudeste Asiático em busca do mundo em que o pai viveu. A carreira política de Randall também passa por considerações mais pessoais do que a grande visão aristotélica do poder. Existe meio social, todavia ele só pode ser superado a partir da família ou da falta dela.

Há trechos que me fizeram recordar das considerações de Tocqueville sobre a família em um mundo democrático.

As personagens, inclusive as muito boas, são marcadas por cicatrizes. O aleatório faz a função de despertar os traumas ocultados. O mundo randômico desestrutura o esforço de normalidade de alguns. Como no famoso episódio da Odisseia sobre a cicatriz de Ulisses, a história daquela marca evoca um fio amplo de pretéritos organizados ou esquecidos.

Já que citei Homero, há uma reflexão final para pensar a série. A poesia épica implica muito tempo e alguma erudição para ser lida e entendida. Dizemos que o romance moderno é uma resposta também a uma demanda de coisas mais curtas, mais unificadas e com menos demanda de conceitos eruditos. Ler As Viagens de Gulliver (Jonathan Swift, 1726) geralmente implica menos dedicação do que a Eneida, de Virgílio. E cada vez mais há pessoas que se inclinam ao conto, mais curto e muito mais direto, produzindo obras-primas. 

Vou pular etapas intermediárias do gosto cultural. Vamos ao ponto: há gente maratonando séries e não conheço quem o faça com poesia épica. Serão as séries o interesse possível do século 21? Se assim for, que pelo menos seja com obras de qualidade como This Is Us. Quem sabe, depois de ver seis temporadas sobre uma família como os Pearsons, você deseje ler sobre outra, Os Maias, de Eça de Queiroz. Eis uma boa esperança.

LEANDRO KARNAL

09 DE ABRIL DE 2022
FRANCISCO MARSHALL

FILISTEUS!

Em meados do século XII a.C., ocorreu no Mediterrâneo a Catástrofe, a maior quebra na história da civilização, uma crise, por incrível que pareça, ainda maior do que a eleição do miliciano em 2018. Foi processo com muitos fatores, que levaram à queda de impérios e à perda da escrita, da arte, da arquitetura, das relações internacionais e de estilos de vida sofisticados, que hoje conhecemos pelas arqueologias de Creta e de outros sítios da Idade do Bronze. 

Sucederam-se então mais de 300 anos sem o esplendor de outrora. Além da crise ambiental e de novas tecnologias mudando as relações sociais, houve migrações que desacomodaram populações; pressionados, alguns grupos partiram do Mar Egeu no rumo do Oriente (os Povos do mar), entre os quais, os filisteus, que aportaram na costa Sul do Levante (Galileia). Consta que outros filisteus, figurativos, chegaram também a Porto Alegre, onde ora regalam-se como porcos na lama. Quem são, antigos e modernos filisteus?

Não sabemos como os próprios filisteus se designavam (seu endônimo), mas uma palavra comum foi usada por egípcios, assírios, gregos e hebreus para designar o povo que chegara àquele teatro da civilização. No Museu de Israel, em Jerusalém, vê-se como os filisteus revolucionaram a cultura regional, com sua linda cerâmica pintada. Esse povo sofisticado, de origem indo-europeia, tornou-se o principal oponente dos hebreus, como aparece nas fábulas bíblicas de Sansão (filisteu) e Dalila e de David e Golias. Ao final do século VII a.C., os filisteus sucumbiram à conquista babilônica e desapareceram; há quem os relacione aos modernos palestinos, pela similaridade do nome e outros fatores políticos, mas isso é improvável.

No final do século XVII, em meio a uma intriga, estudantes da Universidade de Jena (Alemanha) passaram a chamar o povo da cidade de filisteu (Philister), com desdém. Desde então o uso figurativo difundiu-se para indicar pessoas que não compreendem arte, boa música, literatura e o conhecimento. Sim, você imagina que Elenão seja filisteu, mas isso lembra da injustiça de difamar aquele povo culto só por seu conflito com indígenas semitas, pois, afinal, os filisteus não eram filisteus! Quando passamos para o uso figurativo, porém, o bom Aurélio esclarece o que é filisteu: "Burguês de espírito vulgar e estreito". Assim fica fácil chegar a Porto Alegre, não?

Aqui falta Dalila para podar a juba de filisteus que entopem a cidade de prédios anglófonos, destruindo o patrimônio dos tempos em que esta era uma urbe charmosa, machucando a orla, devorando área pública, e sobram filisteus para venerar o estômago e dar-lhe altares na área em que já muito brilharam e podem brilhar as artes: o Cais do Porto, ora reduzido a barzinhos, ou no que foi o orquidário da Redenção, ou o antigo Ginásio da Brigada, que cedem terreno de flores e esportes para você já pode imaginar o quê - comilões forrarem pança, com as bênçãos de governantes e especuladores pobres de espírito. Eis os filisteus do lago Guaíba, aviltando uma cidade que pode ser bela.

Porto Alegre, diz um filho teu: nós podemos muito mais, sempre.

FRANCISCO MARSHALL

09 DE ABRIL DE 2022
DRAUZIO VARELLA

ATENÇÃO PRIMÁRIA

A faixa etária da população brasileira que mais cresce é a que está acima dos 60 anos. Esse fenômeno, que levou um século para ocorrer na Europa, aconteceu aqui em 50 anos.

Doenças cardiovasculares e câncer tornaram-se as principais causas de morte, padrão idêntico ao dos países industrializados. Nas fases mais avançadas, o tratamento dessas doenças exige internações hospitalares, medicamentos caros, exames de imagem, cirurgias agressivas e acompanhamento ambulatorial com equipes multidisciplinares.

Além de elevados, os custos da assistência médica são crescentes. É uma das únicas áreas da economia em que a incorporação de tecnologia aumenta o preço do produto final.

É preciso encarar a realidade: o SUS e a Saúde Suplementar não dispõem de recursos para absorver esses custos. Para o SUS, é mais simples: quando as verbas se esgotam, o atendimento é interrompido. Como a legislação não permite que os planos de saúde façam o mesmo, só lhes resta a alternativa de aumentar as mensalidades, expediente de eficácia limitada num país com 13 milhões de desempregados.

Não há saída: ou investimos na atenção primária para diminuir a demanda, ou os mais pobres e a classe média ficarão à margem dos serviços de saúde. Por essa razão, a iniciativa do Ministério da Saúde de aumentar o investimento e melhorar a gestão do programa Estratégia Saúde da Família deve ser elogiada.

A expansão da rede de atenção primária fez a mortalidade infantil cair de 53/1.000 nascidos vivos, em 1990, para 14, em 2015. No mesmo período, a mortalidade materna caiu de 104/100 mil nascimentos, para 44.

Arno Harzheim, secretário de Atenção Primária do ministério, calcula que os 16,6% do orçamento da pasta destinados hoje para o programa, aumentarão para 20,5%, até 2022. Ao mesmo tempo, serão implantadas medidas para avaliação da qualidade dos serviços prestados.

Criado em 1991, o programa contava com cerca de 2 mil equipes, em 1998. Atualmente, são 43 mil equipes que visitam de casa em casa 135 milhões de brasileiros, distribuídos principalmente pelo Interior e nas cidades menores. Cada equipe é formada por pelo menos cinco agentes comunitários, dois auxiliares de enfermagem, uma enfermeira, um médico e um técnico em saúde bucal.

A expansão da rede de atenção primária fez a mortalidade infantil cair de 53/1.000 nascidos vivos, em 1990, para 14, em 2015. No mesmo período, a mortalidade materna caiu de 104/100 mil nascimentos, para 44. Houve, ainda, diminuição da mortalidade por doenças cardiovasculares e infecciosas e do número de internações hospitalares. Os técnicos calculam que o programa tenha potencial para reduzir até 80% das demandas por atendimento médico.

Os brasileiros envelhecem mal. Metade da população chega aos 60 anos com hipertensão arterial, 15 milhões ou mais sofrem de diabetes, o excesso de peso e a obesidade afligem 54% da população adulta, e o sedentarismo é praticamente universal. Ainda fumam 17 milhões a 18 milhões de brasileiros. Das parturientes atendidas pelo SUS, 20% são adolescentes com menos de 20 anos.

O desafio para tratar tanta gente é enorme. Se não houver prevenção através da atenção primária, milhões ficarão sem atendimento.

DRAUZIO VARELLA

09 DE ABRIL DE 2022
MONJA COEN

BUDA NASCE QUANDO VOCÊ DESPERTA

Buda nasce quando você desperta. Buda se manifesta em cada mente que se desdobra e se expande. Buda, aquele ou aquela pessoa que despertou, vive em cada um de nós, quando nos revelamos ao mundo de forma ética. Ou seja, quando pensamos no bem coletivo antes do nosso bem individual, quando queremos o bem de todos os seres incluindo o nosso ser.

Onde está Buda agora? Nesta folha, neste texto, no seu olhar, no seu pensar.

Como nasceu, onde e como vive e viveu e será que morrerá? Buda é imortal? Seria um super-herói? Seria deus? Quem é Buda? O que é um Buda?

Onde está? Como se manifestaria hoje nas ruas? Usaria ternos de luxo, sapatos de couro especial? Estaria também nos pobres de roupas simples e alpargatas ou sandálias de dedo? Será que Budas escolhem cor de pele, formato de olhos, altura e peso?

Será que nascemos Buda ou nos tornamos Budas? Alguém nos entrona como Buda ou há infinitos Budas sem tronos, sem reinados, sem luxos e sem servos, sem seguidores? Sem se tornar influenciadores de multidões, mas vivendo em simplicidade no compartilhar e acolher, compreender e cuidar...

Há Budas mulheres, homens, crianças, idosos, travestis, trans e o que mais houver. Pois é um estado de paz, de sabedoria, de ternura, de cuidado amoroso e gentileza, capaz de mudar a realidade através do diálogo e do amor, apresentando a verdade assim como a realidade é. Sem fantasias, sem lentes coloridas de bonito ou feio, de certo ou errado. Capaz de atuar e transformar, sempre para o bem do maior número de seres.

Realmente existiu um Buda histórico há 2.600 anos ou foram e são vários budas? Foi feita alguma imagem de mármore, gesso, madeira? Algum desenho quer fosse colorido, branco e preto, que pudesse revelar um homem de braços longos como é descrito no Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa? Orelhas grandes, enormes simbolizariam a capacidade de ouvir para entender?

Teria sido alto ou baixo? Gordo ou magro? Há imagens de um careca gordinho, barrigudo, que representa Hotei, uma deidade chinesa da fartura. É confundido com Buda e alguns o chamam de Maitreia Buda, o Buda do futuro. Um futuro desejável quando todos poderão ser felizes, pois haverá paz e fartura, respeito e harmonia.

Será que essa utopia vai acontecer? Quando? Quando irão cessar as guerras, as violências, os abusos?

Xaquiamuni, filho de rei e rainha, nasceu no que seria hoje o dia 8 de abril. Ainda não era Buda, era Sidarta, um bebê. Cresceu, foi educado e treinado a ser rei. Abandonou tudo, pois passou a se questionar sobre o sofrimento humano - haveria como evitar tanta insatisfação que acompanham o nascer, envelhecer, adoecer e morrer?

Foi peregrino, retirante, questionador, pacifista, filosofou com os grandes sábios da época. Fez jejuns, abstinências. Sentou-se em meditação profunda, depois de muitas questões e perguntas, sua mente silenciou e ficou absolutamente presente e aberta...

Foi assim que despertou. Teria exclamado: "Eu, a grande Terra e todos os seres, juntos, simultaneamente nos tornamos o Caminho". Só depois dessa imersão o chamaram Buda.

Você já percebeu que estamos juntos e interligados a tudo que é, foi e será? Por isso você cuida com ternura e sabedoria de si e de tudo que há? Ou bombardeia, destrói, queima matas, territórios indígenas e quilombolas? Fique atenta, criatura. Discernimento correto é sua missão, condição e capacidade, direito e dever. Preste atenção em sua fala, ação e pensamento. Escolha despertar. Que surjam Budas e Budas e Budas...

MONJA COEN

09 DE ABRIL DE 2022
J.J. CAMARGO

CUIDE DA SUA PRÓPRIA MORTE

Cada vez que seu Antônio internava na UTI do Pavilhão Pereira Filho, nos primórdios dos anos 1980, era uma chance imperdível de renovar o fascínio que envolve alguns casais encantados que alcançaram a plenitude do carinho compartilhado. O desvelo da Maria do Carmo comovia e estava explícito nos gestos mais simples, como pentear o cabelo ralo com os dedos magros, ou desfazer cada dobra indesejada no lençol.

Naquele ano, o enfisema progressivo chegara ao limite, e o encurtamento entre as internações prenunciava o fim. Mesmo assim, cada alta para casa merecia uma comemoração das enfermeiras, capitaneada pela Do Carmo, que se despedia com olhos de gratidão e palavras de esperança que cada vez mais pareciam distantes da realidade.

Em geral, tínhamos duas semanas de sossego, anunciando aquela pausa que todas as doenças crônicas dão - e das quais o enfisema é, sem dúvida, a mais cruel.

E então, numa noite de sábado, o Antônio, arroxeado, trêmulo e confuso, foi outra vez admitido, daquela vez sem o sorriso com que sempre avisava: "Não se assustem, só vim matar a saudade de vocês!". Nunca antes a tristeza tinha sido maior do que a esperança. Mas, ainda assim, a pergunta da Do Carmo me chocou: "Desta vez ele não escapa, não é, doutor?".

Parecia muito improvável a sobrevivência, mas cadê a parceria que todo mundo invejava?

Nunca discuti a reação dela com os colegas de atendimento, mas a mim impactou muito, porque na imaturidade da juventude aquilo me pareceu puro desapego, e o seu Antônio, um queridão feito poço de afeto, não merecia aquele abandono.

Demorei um tempo, e foram exatamente as doenças crônicas que me ensinaram que o sofrimento extremo e sem redenção invariavelmente desperta nos cuidadores mais amorosos a consciência de que a morte, com todo o flagelo da perda, pode ser, sim, a última e a mais dramática das formas possíveis de compaixão. Enquanto toda a dor se tolera quando representa uma barganha para o retorno à vida normal, o sofrimento unicamente como antessala da morte é uma crueldade. Soube, tempos depois, que a Do Carmo tinha morrido subitamente, rodeada de filhos e netos, que a idolatravam. E com isso perdi a última oportunidade de agradecer-lhe a lição.

Mas lembro dela sempre que convivo com o sofrimento desmedido de pessoas boas, em algum desses martírios que até os deuses teriam dificuldade de explicar.

E foi inevitável evocá-la ao ler a história de desespero de Alain Delon, uma figura mítica que no século passado representou o modelo de deslumbramento das meninas e de inveja dos meninos da minha geração, e agora delegara ao filho a responsabilidade de organizar a interrupção assistida de uma sobrevivência que perdera o sentido.

Nas redes sociais, os juízes de plantão, com a maldade sempre engatilhada, ignoram nos vereditos cruéis uma peculiaridade do seu sofrimento: o acidente vascular cerebral que lhe roubou muitas funções orgânicas e, principalmente, motoras não lhe afetou a cognição, de modo que ele, em fraldas, se tornou um testemunho compulsório dos seus escombros deploráveis.

Acho que merece empatia quem sempre se deu ao luxo de escolher os melhores papéis e agora se nega à condição de espectador da sua infinita desgraça.

J.J. CAMARGO