sábado, 23 de abril de 2022


22 DE ABRIL DE 2022
EDUARDO BUENO

A luz de Seu Aurora

Nunca terceirizei esse espaço durante os pares de anos em que ando por aqui. Chegou a hora de fazê-lo. Não só porque o texto a seguir foi redigido por meu irmão, Fernando Bueno, mas também porque ele faz as vezes de convite, alerta, convocação e última chamada para que você aproveite esse feriado fajuto e o final de semana que se segue para visitar - e deixar-se encantar com - a fabulosa exposição de um ucraniano que escapou da invasão russa, refugiou-se em Porto Alegre e virou um dos maiores fotógrafos da cidade. História atualíssima que se deu em... 1922.

Sim, Sioma Breitman fugiu dos pogrons russos na Ucrânia - e para nós, gaúchos, sua desdita foi uma bênção. Leia o texto de Fernando, vá à exposição (com curadoria dele e de Andrea Pires, produção da Prana e em cartaz só até domingo, no Farol Santander) e você verá, com os olhos da cara e da alma, o porquê:

"Sioma Breitman foi um grande homem. Tinha quase 1m90cm de altura. Sioma era ucraniano, judeu e imigrante. Sioma foi desenhista, retocador, escritor, cineasta, pintor e professor. E fotógrafo, óbvio.

Sioma foi grande, um dos maiores, senão o maior fotógrafo que já viveu no Rio Grande do Sul, Estado que adotou como seu. Percorreu a terra gaúcha em lombo de burro, de trem e de carro. Abriu estúdios no Interior e na Capital, sempre à procura da melhor luz para suas fotos.

Até que se tornou o Seu Aurora.

Nada mais apropriado, pois sua fotografia é pura, inconfundível, tal como os primeiros raios de sol da manhã. Sua obra tem várias vertentes e é especial em todas elas. Sioma foi surrealista, modernista, às vezes renascentista, noutras construtivista.

Sioma foi Yousuf Karsh, foi Man Ray. Sioma foi Robert, às vezes Frank, outras Capa. Sioma incorporou Pierre Verger. Sioma encarnou Dorothea Lange e fez até selfies de Rollei, como Vivian Maier.

Sioma foi amigo, sócio e trabalhou com os grandes Olavo Dutra, Pedro Flores e Léo Guerreiro. Foi fotoclubista, participou e foi premiado em mais de 400 salões no Brasil e no Exterior. Foi classista, lutou pelos direitos dos fotógrafos, fundou escolas e associações ligadas à fotografia. Organizou dezenas de exposições, levando a imagem do Rio Grande mundo afora.

Sioma é Sioma. Único, como a luz da aurora.

Gostaria de tê-lo encontrado mais, de ter conversado mais com ele: foram só duas vezes. Mas, depois de dois anos mergulhado na sua obra, de conhecer sua família através de sua fotografia, de ter viajado com ele pelo mundo, posso afirmar, sem sombra de dúvida: Sioma é grande, Sioma é monumental, tanto que virou fototeca, transformou-se em rua e hoje é prêmio.

Kol Hakavod, Sioma. Viva a Fotografia!"

Assino embaixo. E lembro que os curadores aguardam parceria para expor os amplos painéis da mostra em algum outro espaço de Porto Alegre. Antes que virem luz.

EDUARDO BUENO

22 DE ABRIL DE 2022
ACERTO DE CONTAS

Hotel repaginado

Mais um hotel em Porto Alegre terá novo nome, mudando de bandeira: o Radisson, na Rua Cel Lucas de Oliveira, no bairro Bela Vista. Da hotelaria tradicional, o empreendimento de 25 anos passará a ter uma nova proposta e se chamar e/pic people & arts, administrado pela Atlantica Residences, que integra rede internacional e tem 165 hotéis no Brasil. A operação segue com o Grupo SmithCo, comandado, por sua vez, pelo empresá­rio Carlos Smith.

A opção por hotelaria e residencial ocorre pela busca por custos operacionais menores, além de preços mais baixos para hóspedes, sejam moradores ou inquilinos. É possível comprar um apartamento inteiro para moradia a partir de R$ 669 mil ou cota de investimento a partir de R$ 167 mil para renda por aluguel. O investimento na transformação do Radisson em e/pic people & arts é de R$ 20 milhões, com mudanças tanto nos quartos quanto nas áreas comuns e de lazer.

São 132 unidades, de 30 a 46 metros quadrados. O número de empregos deve se manter ou até aumentar. O lançamento tem a gestão da 2day Consultoria. Mais detalhes e imagens: gzh.rs/hotelpoa.

Começa a chegar o alívio da melhora do clima nos preços dos hortigranjeiros. Na Ceasa, aumentou nesta semana o número de produtos com reduções. Na tabela enviada à coluna pelo secretário Estadual da Agricultura, Domingos Velho Lopes, 19 itens ficaram mais baratos, 13 tiveram estabilidade e apenas três subiram. Alface, vagem, tomate e agrião tiveram queda de preço acima de 25%. O mamão, que chegou a virar meme de internet de tão caro, caiu 22%. Couve, cenoura, batata-doce, aipim e brócolis também se destacaram com redução no valor. Saiba mais em: gzh.rs/preçodelegumes.

462 empregos em atacarejos

Santa Cruz do Sul comemora a criação de 462 empregos pela instalação de atacarejos, megalojas de redes de supermercados. Em uma unidade do Via Atacadista, o Grupo Passarela, de Santa Catarina, investirá R$ 40 milhões, com início das obras em abril. O Grupo Imec abriu um Desco Super&Atacado e o Comercial Zaffari, um Stok Center. A prefeita Helena Hermany destaca que 2 mil novos empregos foram impulsionados pelo incentivo do programa Desenvolve Santa Cruz. O secretário de Desenvolvimento Econômico, Márcio Martins, lembra também dos investimentos da fábrica de fumo UTC, da concessionária Rota de Santa Maria e da Sacyr Construções, gerando valor adicionado de ICMS ao município de R$ 250 milhões.

GIANE GUERRA

22 DE ABRIL DE 2022
OPINIÃO DA RBS

OS LIMITES DA DEMOCRACIA

O país acompanha, perplexo, mais um confronto entre os poderes da República, agravado pelo recente julgamento de um parlamentar que agride a democracia com o apoio explícito do governo. Por maioria significativa de 10 votos a 1, o plenário do Supremo Tribunal Federal condenou, na última quarta-feira, o deputado federal Daniel Silveira (PTB/RJ) a prisão em regime fechado, multa, perda do mandato e dos direitos políticos, por ataques reiterados à democracia e ameaças a ministros da Corte. 

Embora ainda caiba recurso - e a excepcional intervenção do presidente Jair Bolsonaro coloque em suspenso a condenação -, o julgamento embute uma advertência do STF a setores da política e da sociedade que desacatam sistematicamente as instituições democráticas e desrespeitam o Estado de direito. Ao mesmo tempo, o julgamento reacende debates sobre independência dos poderes, liberdade de expressão e imunidade parlamentar, temas amplamente regrados pela Constituição, mas que continuam suscitando controvérsias, especialmente em períodos de polarização política como o atual.

No caso específico, ainda que a chamada dosimetria da pena possa ser questionada, não há dúvida de que o parlamentar agiu dolosamente ao incitar agressões aos integrantes da Suprema Corte em frequentes e repetidas manifestações públicas. Mais do que isso: pregou a invasão e o fechamento do Congresso e do STF, além de sugerir uma confrontação entre as Forças Armadas e as instituições civis. Como bem disse o ministro Alexandre de Moraes ao examinar tais atos na condição de relator, a liberdade de expressão não pode ser escudo protetivo para discursos de ódio contra a democracia e as garantias constitucionais. Portanto, o crime de incitação ficou cabalmente configurado - resultando daí a inequívoca legitimidade da punição.

No atual contexto político do país, porém, não há como ignorar que a sentença provoca desconforto nos simpatizantes do deputado punido, entre os quais a cúpula do governo, além de acirrar um indesejável antagonismo entre os poderes da República. Antes mesmo do decreto de "graça constitucional" do presidente da República, o presidente da Câmara, deputado Arthur Lira (Progressistas-AL), já havia demandado o STF para que o Poder Legislativo tenha a palavra final em casos de cassação de parlamentares nos julgamentos da Corte.

Independentemente das motivações, que dificilmente incluem a alegada comoção da sociedade contra a punição do parlamentar, o contra-ataque do presidente Jair Bolsonaro ao Supremo só agrava um conflito com potencial para perturbar o ambiente democrático do país. Princípios e valores da democracia não podem ser agredidos, boicotados e menosprezados sem que os agressores sejam devidamente responsabilizados de acordo com a legislação. Da mesma forma, a democracia tem limites que devem ser observados por todos, cidadãos comuns e autoridades, sem imposições autoritárias e golpes de esperteza.


22 DE ABRIL DE 2022
DAVID COIMBRA

A cadeira de plástico

Se penso nas mazelas de Porto Alegre, sempre me ocorre a mesma questão:

"A cadeira de plástico é inevitável?". Poderia acrescentar aí também a mesa de plástico e, Cristo!, o copo de plástico. Admito que já me vi assim, e não poucas vezes: sentado em uma cadeira de plástico, em frente a uma mesa de plástico, tendo sobre ela um copo de plástico e uma garrafa de cerveja invariavelmente contida dentro de um triste cooler de? plástico.

Por que, meu Deus?

Sei o que responderão: porque é barato. Cadeira, mesa e copos plásticos, bem como tantos outros objetos desse material maldito, saem mais em conta e são insuportavelmente duráveis, levam séculos para se decompor. Mas será que vale a pena? Será que uma cadeirinha de palha e uma mesinha de imitação de madeira custam tanto a mais? Não é melhor pagar um preço levemente maior por algo que seja imensamente melhor no conforto e na estética?

Tais ponderações não são feitas por quem confunde pobre com pobreza. Para esses, o pobre se contenta com o ruim e o feio, desde que gaste menos. Se é obra para pobre, não precisa o arremate de delicadeza, não precisa a curva do requinte. Pode ser tudo reto, duro e cinza, se for barato.

Essa estética da pobreza devastou Porto Alegre e isso nem foi culpa apenas das administrações públicas. Isso se transformou numa crença. Numa filosofia.

Até os anos 1960, Porto Alegre era uma cidade de óbvia inspiração europeia, com alguns surpreendentes arrojos arquitetônicos, como o Viaduto da Borges, que é diferente de todos os outros viadutos. O da Borges se integra com harmonia ao seu naco de cidade, se ergue com leveza e inclui os pedestres em sua concepção. Os demais, levantados com fúria pelas administrações das décadas de 1970 e 1980, são assassinos da paisagem urbana.

Foi por volta dos anos 1970 e 1980, aliás, que se cometeu o grande erro da Salgado Filho.

Essa avenida era um bulevar refinado, dava gosto de flanar por suas calçadas reluzentes de belas vitrines ou por seus canteiros arborizados. A Salgado Filho tinha cinema de rua, tinha bares, tinha animação. Aí, algum bidu decidiu que ali era o lugar ideal para acomodar os pontos finais dos ônibus. Assim, monstrengos de lata passaram a obstruir as fachadas das lojas, que perderam clientela e foram fechando uma a uma. O raciocínio (equivocado) era de que os usuários de ônibus (os pobres) se beneficiariam desembarcando numa das artérias mais importantes do Centro. Na verdade, os pobres foram prejudicados, porque perderam emprego com o fechamento das lojas, além da perda de um belo local de convivência.

Depois, no final dos anos 1980 e começo dos 1990, os camelôs foram se adonando da Rua da Praia, a mais importante do Rio Grande do Sul. Como eles eram pobres e dependiam daquele comércio para sobreviver, a prefeitura não somente os tolerou, como os legalizou. Quem perdeu? Os pobres que ficaram sem trabalho na Casa Massom, na Livraria do Globo, na Sloper e tantos outros pontos comerciais que pagavam impostos e foram à bancarrota porque os fregueses simplesmente não conseguiam entrar em seus estabelecimentos.

Lembro de velhos dezembros, de anos dourados, quando meu avô, de repente, anunciava:

- Vamos passear na Rua da Praia! E nos reunia a todos e lá íamos nós, e nos admirávamos com a beleza das vitrines natalinas como só fiz de novo décadas depois, na Quinta Avenida, em Nova York.

Sim, senhor, Porto Alegre era um pouco de Nova York.

Mas Porto Alegre se submeteu à ideia de que o que é bom e belo não é para o pobre. E, assim, a cidade se contaminou com a maior pobreza de todas: a pobreza de espírito. Terrível. Porque não existe miséria maior do que um espírito pobre.

DAVID COIMBRA

quinta-feira, 21 de abril de 2022


21 DE ABRIL DE 2022
DAVID COIMBRA

O homem que sabe ser rejeitado

Todo homem que um dia se dedicou às mulheres está acostumado com a rejeição. O que significa "dedicar-se às mulheres"?

Bem, eu e meus velhos amigos do IAPI crescemos encantados por elas. E, quando digo "encantados", é encantamento mesmo. As mulheres, para nós, eram seres misteriosos e, sem dúvida alguma, superiores. Claro, naquela época não existiam redes sociais, ninguém se expunha. Você precisa ouvir alguém falando para se desiludir.

Então, nós as desejávamos em silêncio, sabendo que a decisão não era nossa; elas é que escolhiam. Nós esperávamos. Se déssemos sorte, aquela morena de pernas de seda repararia em nós e emitiria uma breve risada a uma gracinha que disséssemos. Ah, sim, o riso de uma mulher abre uma fresta no seu coração, disso nós sabíamos.

Havia chance de que tudo desse certo, portanto. Quem sabe, até engatava um namoro. Mais tarde, porém, podia acontecer de o olhar dela ficar embaçado quando você dizia outra gracinha e aí, inevitavelmente, por algum motivo insondável, chegaria o dia em que ela anunciaria:

- Não quero mais.

É um momento dramático. Você tenta, você implora, você rasteja feito um verme, você se arrisca a fazer poesia, só que não adianta mais. A mulher, quando decide desistir, não volta atrás.

Esse sofrimento pelo qual você passa é muito didático, exatamente porque você aprende a ser rejeitado, e o mundo está sempre nos rejeitando. Assim, da próxima vez que você for dispensado, esquecido, chutado ou desprezado, você poderá até se entristecer por algum tempo, mas saberá que conseguirá superar a dor, que irá em frente e que ali adiante novas oportunidades surgirão. É possível, inclusive, que, no futuro não muito distante, você olhe para a sua ex e se pergunte:

- Mas como é que eu pude sofrer por essa mala?

Essa é a atitude certa. A rejeição tem de ser usada a seu favor. Você vai se entender melhor e melhor entenderá o mundo. Os americanos dizem: "No pain, no gain". E é isso mesmo: sem dor, não há ganho. Sinta a dor. E aprenda.

Alguns homens, no entanto, são orgulhosos. Por não compreenderem o valor da rejeição, não compreendem que eles não têm controle nem sobre suas próprias vidas, quanto mais pela vida dos outros. São esses seres inferiores que saem por aí matando as mulheres que os rejeitaram.

Um homem que nunca foi rejeitado é um homem incompleto. É um homem que nunca esfolou o joelho jogando bola, que nunca caiu de bicicleta, que nunca foi barrado na entrada, que nunca se dedicou às mulheres.

Quando eu era guri, os mais velhos diziam que servir ao Exército fazia muito bem ao jovem. Porque ele aprendia a obedecer, aprendia a se conformar, aprendia que a humilde aceitação é a maior força de que um homem pode dispor no enfrentamento da vida. Uma boa rejeição faz o serviço de um ano de quartel. Não se envergonhe da rejeição. Não se envergonhe de ouvir não. Quem está vivo está sempre ouvindo não.

Texto originalmente publicado em 10 de janeiro de 2019 - DAVID COIMBRA


21 DE ABRIL DE 2022
OPINIÃO DA RBS

A FATURA DAS BONDADES

Há abundância de sinais do aumento de riscos fiscais para o país em 2023. As razões não são desconhecidas pelos brasileiros: as gastanças e sinecuras de anos eleitorais, à caça de votos, como se não existisse amanhã. Mas existe. E a fatura dos pacotes de bondades é sempre apresentada e, ao fim, paga pela população.

Empenhado em aumentar a sua popularidade para elevar as chances de reeleição, o presidente Jair Bolsonaro tem recorrido a uma série de benesses e promessas que, se cumpridas, farão do próximo ano - e talvez de outros exercícios à frente - um período em que será necessário um duro ajuste nas contas. São medidas que tanto elevam os gastos quanto afetam as receitas, como desonerações, aumento salarial para servidores e outros benefícios, além da correção da tabela do imposto de renda. 

Algumas dessas medidas até contêm certa justiça, como a relacionada ao IR, devido à grande defasagem. O problema é que foram, nos últimos meses, recorrentes as escolhas ruins para o uso do limitado dinheiro do orçamento, fazendo com que inexista espaço para o que seria legítimo. A abundância de recursos para as nada transparentes emendas de relator e o vitaminado fundo eleitoral são exemplos de má alocação. Assim, novos favorecimentos, à medida que se aproxima outubro, se mostram meras estratégias populistas e eleitoreiras.

O caso da proposta de reajuste linear de 5% para o funcionalismo é ilustrativo. É resultado de uma confusão criada pelo próprio governo, que fez acenos somente para servidores da área de segurança, desagradando outras categorias. A saída foi propor um aumento para todas as funções, o que apenas gerou descontentamento generalizado e, agora, faz o Planalto cogitar elevar também o valor de diárias e de vale-alimentação. Ocorre que o governo reservou para 2023, no Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), R$ 11,7 bilhões para reajustar o salário do funcionalismo. Cálculos indicam que faltaria cerca de R$ 1 bilhão. Se existirem mais favorecimentos, o rombo será maior. A intenção dos verdadeiros mandachuvas, atropelando Paulo Guedes, é dar o aumento já a partir de julho.

No final de fevereiro, o governo federal anunciou corte das alíquotas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), abrindo mão de R$ 20 bilhões - metade com o chapéu alheio, uma vez que Estados e municípios também têm direito a essa receita. A justificativa é o aumento da arrecadação, mas é preciso atentar que grande parte dessa elevação se deve a efeitos inflacionários, que, para o bem dos brasileiros, deveriam ser menores no futuro, afetando por outro lado o recolhimento de impostos pelo governo. Resta ainda apresentar a solução para o Auxílio Brasil a partir do próximo ano. O presidente da Câmara, Arthur Lira, também admitiu a possibilidade de uma medida provisória para elevar o valor do pagamento aos beneficiários. Na tentativa de evitar novos aumentos nos combustíveis, houve ainda medida que zerou as alíquotas de PIS/Cofins sobre diesel e gás até o encerramento de 2022.

O presidente a partir de 2023, Bolsonaro ou outro escolhido nas urnas, provavelmente não terá saída para desarmar a bomba fiscal a não ser promover um grande corte de gastos ou aumento de impostos. Se optar por afrouxar regras fiscais, a reação do mercado financeiro tende a ser ruim, com reflexos nefastos para a população. Especialistas cada vez mais elevam as apostas de que o teto de gastos será demolido de vez para ser possível acomodar as despesas. 

No momento, enquanto o governo promove a gastança, o Banco Central batalha sozinho contra a inflação, com o remédio amargo da alta dos juros, que, por sua vez, prejudica perspectivas mais robustas de reação da economia. O melhor seria o governo sinalizar um compromisso com a responsabilidade, preservando os interesses de médio e longo prazos do país e dos brasileiros, e não priorizar os proveitos eleitorais de ações casuísticas. Caso contrário, a conta volta mais salgada em forma de juro alto, inflação e economia estagnada.

O melhor seria o governo sinalizar com um compromisso com a responsabilidade, preservando os interesses de médio e longo prazos do país e dos brasileiros

OPINIÃO DA RBS

21 DE ABRIL DE 2022
+ ECONOMIA

Como está a produção de chips em tempos de escassez

A expressão do secretário especial de Desestatização, Desinvestimento e Mercados do Ministério da Economia, Diogo Mac Cord, de que a Ceitec "fabricava Fuscas enquanto o mundo dirige BMWs" incomodou a associação de funcionários da empresa. Ao dar voz à outra parte, a coluna aproveitou para esclarecer o que, afinal, acontece na fabricante de chips de Porto Alegre enquanto faltam semicondutores.

Conforme Silvio Luís dos Reis Santos, presidente da ACCeitec, depois do decreto de extinção e antes da paralisação do processo pelo Tribunal de Contas da União (TCU), os funcionários fizeram uma força-tarefa para atender pedidos, porque ainda havia material disponível.

Nessa fase, relata, foram feitas etiquetas eletrônicas do tipo RFID (Radio Frequency Identity and Identification), conhecidas como tags, para veículos que passam direto pelo pedágio.

A partir de janeiro, a produção parou. Só ocorre manutenção:

- Uma planta como essa não pode ser desligada. Precisa que circulem água, ar e produtos químicos. Se desligar, os equipamentos se degradam.

Reis Santos pondera que "qualquer pessoa informada" sabe que semicondutores não são sinônimos de processadores Intel ou AMD, mas componentes com milhares de aplicações:

- Cada uma necessita de diversos tipos de semicondutores que não precisam ser feitos em fábricas de última geração, como Intel ou TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company). Existem no mundo várias com o mesmo nó tecnoló­gico da Ceitec, como ON Semiconductors, Silex, Simpore e Ibsen Photonics. Seriam todas fábricas de Fuscas?

Conforme o presidente da associação dos funcionários, uma das causas da trava no TCU são falhas no estudo:

- O terreno é apenas um item. O TCU fez vários questionamentos simples ao PPI (Programa de Parceiras de Investimentos), que foram parcialmente respondidos e colocados no processo como sigilosos. Estão escondendo o quê? Inventar teorias sem fundamento ou jogar falácias para a torcida não fará que o TCU se desvie de seu dever constitucional de zelar pelo patrimônio público.

A netflix teve ontem queda histórica de 35% em suas ações em um só dia. Foi reação à perda de 200 mil assinantes no primeiro trimestre, mas também de inquietação com o futuro de operações baseadas em cobrança muito baixa. Cresce, mas não se estabelece.

R$ 1,11 tri

foi o valor em ativos geridos por fundos de pensão em 2021, segundo dados informados ontem pela Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp). Equivale a 12,8% do PIB e é resultado de crescimento de 6% e rentabilidade de 5,88%.

+ ECONOMIA


21 DE ABRIL DE 2022
CARPINEJAR

Mentir é furar a fila da existência

Não existe mentira para poupar o outro. Você mente para proteger a si mesmo. Mentir com a intenção de não magoar é magoar depois com juros. Você destrói todas as verdades passadas e todas as verdades futuras. Perde a integridade da memória e o crédito do futuro. Não sobra nada para exercer a lealdade do presente.

Só que o mentiroso não é um ingênuo, no máximo, um preguiçoso. Atalha as suas vitórias. Sabe bem o que está fazendo ao encurtar distâncias. Mente porque quer algum privilégio, um benefício, ou para não ser julgado e assegurar a impunidade de suas falhas.

Mentir é furar a fila da existência, é roubar o lugar de alguém. Seja por inveja, seja por ciúme, seja por insegurança, o mentiroso busca ostentar méritos que não foram conquistados pelo próprio esforço. Rompe o senso democrático de igualdade, de respeitar o tamanho da sua condição atual. Tenta parecer quem não é pelas facilidades da convivência.

A mentira é o lucro indevido da experiência, o ágio das amizades, o leilão da família, o desvio do pedágio dos amores. Porque sinceridade é humildade, é reconhecer os seus limites, é dizer "sou o que posso".

Quem mente segue o propósito de passar um afeto para trás, dar uma rasteira emocional. Além de evidenciar a arrogância de subestimar o interlocutor - afinal, acredita que este não conta com a capacidade de descobrir a distorção.

Há um padrão de comportamento patológico de desvalorizar a companhia, subestimar a inteligência alheia, partindo do princípio de que é infinitamente melhor do que os demais. Se a mentira dura mais do que 24 horas, significa que ela não é um descuido, uma distração, um lapso. Sua duração pode ser para a vida inteira. Foi arquitetada com plena consciência das consequências. Predominou um claro interesse de substituir um acontecimento autêntico, de fraudar o que é legítimo.

Quanto mais tempo você demorar para desfazer um equívoco, mais difícil será o perdão. Porque faltou compaixão com as pessoas ao seu lado: desfrutou de dias e dias inumeráveis para não induzir ninguém ao erro.

A mentira jamais é solitária. Mentindo, você quer que o outro erre junto. Arrasta álibis para dentro de seus desastres. É a solidariedade do mal. E pode até usar atenuantes, alegando que são mentirinhas. Mas mentirinhas também não existem. A mentira é um enorme vazio emprestado.

CARPINEJAR


21 DE ABRIL DE 2022
INFORME ESPECIAL

Um alerta para os municípios

Quando se fala em transparência - e este ano a Lei de Acesso à Informação (LAI) completa uma década _, há um tema que merece atenção redobrada: as relações entre municípios e Organizações da Sociedade Civil (OSCs). Elaborado pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE), um estudo sobre os portais das 497 prefeituras do RS concluiu que há muito a avançar nesse assunto.

Entidades sem fins lucrativos, as OSCs podem, por lei, prestar determinados tipos de serviços públicos. Muitas atuam, por exemplo, auxiliando municípios na área da saúde. Na tentativa de impor regras mais claras aos convênios e coibir fraudes, o Congresso aprovou, em 2014, o Marco Regulatório das OSCs.

Segundo a legislação, uma das diretrizes fundamentais desses contratos é o "estabelecimento de mecanismos que ampliem a gestão de informação, transparência e publicidade". Levando em conta as exigências, o TCE analisou os sites das gestões municipais e concluiu que, nos portais das 167 cidades gaúchas com mais de 10 mil habitantes, 54% dos quesitos avaliados foram cumpridos em 2021. Nos demais 330 municípios (com população menor), o percentual foi mais baixo: somente 37% de atendimento à legislação. Foram examinados itens como transparência na seleção das OSCs, justificativas para dispensas de licitação e informações atualizadas sobre cada processo. Nada menos do que 63% dos portais sequer disponibilizavam os editais.

Os gestores foram avisados e receberam prazo para fazer ajustes. Houve melhorias, mas o cenário ainda preocupa, por dificultar o controle social.

- Percebemos que há um desconhecimento grande sobre o tema, que é bastante complexo. O não atendimento dos itens avaliados, muitas vezes, decorre disso. Nosso objetivo, com o estudo, foi conhecer o cenário, identificar as dificuldades para atender a lei e orientar os gestores - diz Ítalo de Castro Rodrigues, integrante do GT de Transparência do TCE.

Moinhos em destaque

O Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, recebeu, nesta semana, o diretor médico da Johns Hopkins Medicine International, entidade ligada à famosa rede de saúde norte-americana. Responsável pelos hospitais afiliados ao grupo (o Moinhos é um deles), Daniele Rigamonti veio à Capital para participar do Simpósio de Qualidade e Segurança e elogiou os colegas gaúchos.

- Entre os nossos afiliados, o Moinhos é o que nos envia os relatórios mais transparentes. As equipes admitem que falhas e eventos adversos podem ocorrer, registram os erros, buscam entender por que aconteceram e têm planos e estratégias de prevenção. Em grande parte das instituições, as pessoas não assumem essa responsabilidade - diz o médico.

JULIANA BUBLITZ

sábado, 16 de abril de 2022


16 DE ABRIL DE 2022
MARTHA MEDEIROS

Reconhecimento

Caetano Veloso tem viajado pelo Brasil lançando o disco Meu Coco. Em Porto Alegre, onde o assisti, uma coisa me chamou a atenção. No exato segundo em que ele entrou no palco, o entusiasmo com que foi recebido calou a cidade lá fora. Eram mais que aplausos, era o clamor de uma admiração que transbordava, milhares de corações disparados, afeto sonoro e gigantesco. 

Bom, até aí, é o que se espera do contato inicial entre o artista e seu público, só que a efervescência não diminuiu no decorrer do show, o auditório manteve a fervura, jamais esfriou: declarações de amor eram gritadas de três em três minutos e todos pareciam querer abraçar aquele homem de quase 80 anos que estava ali, a poucos metros de distância. Não era um fanatismo adolescente, como nas plateias dos Beatles, e nem desafogo depois da tranqueira imposta pela pandemia. Era algo maior e mais bonito. Era um país grato.

Sei que o Brasil não é homogêneo em seus gostos musicais e nem mesmo alguém da estatura de Caetano é uma unanimidade, o que não impede de eu escrever aqui sobre a vasta parcela da população que, gostando ou não do que ele diz e canta, de quem ele apoia ou deixa de apoiar, reconhece a importância que a arte de qualidade tem para a construção de uma nação. Esse reconhecimento é um pilar, sustenta o nosso futuro. Ai de nós se desaprendermos a dar valor ao que é fundamental.

Em um país que tem se dedicado mais a destruir do que a construir, mais a mentir do que enfrentar os desafios, é obrigatório reverenciar os que nos ajudam a largar a barra da saia da mãe. A arte nos amadurece. Ela confia que podemos ir além do pensamento médio. Ela nos ajuda a vencer o medo das mudanças. Tira as rodinhas das nossas bicicletas, para que possamos avançar por nós mesmos.

De que vale uma vida intelectualmente preguiçosa, que se recusa a ir ao encontro do conhecimento, que não se deixa tocar pelo sagrado que há também fora das igrejas? Teatros, cinemas e livrarias são templos. Existir, a que se destina: não à alienação, nem à covardia.

Cada vez que morre um João Gilberto, uma Elza Soares, uma Lygia Fagundes Telles, nós, que tanto aprendemos com eles sobre a beleza e a dor dos sentimentos, e que através deles confirmamos o quão transformador é o saber, deveríamos manifestar nosso profundo agradecimento sempre que a ocasião permitisse - e aos vivos, o tempo todo.

As pessoas se tornam mais interessantes através da arte. Ela é o único poder que emociona e salva. O resto são podres poderes, ridículos tiranos, capatazes com sua burrice fazendo jorrar sangue demais. Que as plateias sigam dando seu próprio show de calor humano e coloquem o coração na mão por aqueles que ainda mantém nossa esperança.

MARTHA MEDEIROS

16 DE ABRIL DE 2022
CLAUDIA TAJES

Para curar as dores com Vitor e Angélica

Nesses dois anos vivendo de máscara, saindo pouco e fugindo das aglomerações, não peguei covid e nunca mais tive nada, gripe, tosse, qualquer dessas doenças que se espalham pelas gotículas e pela convivência. Isso até a semana passada, quando a garganta começou a doer.

Primeira coisa que a pessoa pensa: peguei a maldita. E já começa a levantar hipóteses: onde? No supermercado, agora que alguns clientes - usando de seu direito - vão sem máscara? No cinema, que nem estava cheio? No teatro, onde estive para ver O Inverno do Nosso Descontentamento - Nosso Ricardo III, o maravilhoso espetáculo de Luciano Alabarse, Marcelo Ádams e Margarida Peixoto? Sei que a peça volta em maio no Festival Palco Giratório e preciso recomendar: assistam.

Entre desconfiar que se pegou covid e ter, só o teste para confirmar. Positivo, na forma de uma gripe que mais pareceu um caminhão descontrolado me pegando de jeito. Santas três doses de vacina. Para não contaminar geral, o jeito foi recolher o facho e ficar na companhia dos livros e das redes, a forma da sociedade não sair da gente, mesmo que a gente saia dela.

Foi lá que fiquei sabendo, por exemplo, que a Cíntia Moscovich abriu uma nova turma da sua Oficina do Subtexto. A partir do dia 10 de maio, 12 encontros remotos, sempre às terças, com a publicação de um livro no final. Informações e inscrições aqui: oficinadosubtexto@gmail.com.

Estava difícil de fazer tudo, até de ler. Consegui ir até o fim, com prazer, de dois livros que estavam me olhando da mesa de cabeceira há alguns dias. Em Rato de Redação: Sig e a História do Pasquim (Matrix Editora), o jornalista Márcio Pinheiro recupera a trajetória e revela potins desconhecidos até dos leitores mais fiéis do Pasquim. Em A Batalha, (Companhia das Letras), um episódio pouco conhecido da nossa história, a batalha fluvial de Mbororé, é contada por Fernanda Verissimo e ilustrada por Eloar Guazelli. Impossível não torcer pelos índios a cada quadrinho.

Mas a grande companhia desses dias febris foi Avenida Angélica, o novo álbum de Vitor Ramil, lançado na semana passada. Era para ter sido um show viajando pelo país, virou uma gravação nas obras do Theatro Sete de Abril, em Pelotas, por conta da pandemia. Vitor musicou poemas da conterrânea Angélica Freitas e o resultado é pop, amoroso, lírico, surpreendente, lindo. Ouvir na voz de Vitor os versos de Rilke Shake, Vida Aérea, Mulher de Rollers, Família Vende Tudo, Treze de Outubro e tantos mais, embola de vez a velha discussão sobre letra de música ser ou não poesia, agora que a poesia virou letra. Avenida Angélica está inteirinho aqui: gzh.rs/AvenidaAngélica.

E se vale um conselho, não esqueçam de tomar o reforço da vacina, e a vacina contra a gripe, também. Nos ambientes fechados, mesmo que não seja mais obrigatório, a máscara protege, inclusive de quem não se protege. Sua saúde, penhorada, agradece: obrigada, obrigada.

CLAUDIA TAJES

"Chegou meu dia. Todo cronista tem seu dia em que, não tendo nada a escrever, fala da falta de assunto. Chegou meu dia. Que bela tarde para não se escrever."

Quem redige assim é Rubem Braga, um dos maiores nomes da crônica nacional. O texto abre a coletânea brilhante que Augusto Massi elaborou pela editora Autêntica: Os Sabiás da Crônica. A antologia reúne, além do homem sem assunto, Vinicius de Moraes, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Stanislaw Ponte Preta e José Carlos Oliveira. Uma aula completa de escrita e de pensamento. Para melhorar, o volume é precedido de um estudo no qual Augusto Massi faz um panorama da crônica, da cultura e da imprensa brasileira. Texto brilhante pela síntese e pelas ideias.

Volto à falta de assunto. Braga confessa que deve ser o Carnaval ou o calor. A busca de um tema também está no texto inicial de Vinicius de Moraes. Diz o poeta: "Coloque-se porém o leitor, o ingrato leitor, no papel do cronista. Dias há em que, positivamente, a crônica ?não baixa??". Parece mal coletivo, pois o primeiro texto escolhido de Fernando Sabino trata do "estranho ofício de escrever" e daqueles "condenados à crônica diária". Mais: o livro confessa que alguns dos grandes cronistas citados chegavam a pedir texto de outro para emergências!

Logo, você já percebeu, dileta leitora e estimado leitor: nomes brilhantes e de primeira linha reclamam da falta de assunto. Uma coisa é o literato bissexto que, um dia, ao entardecer, senta-se ao computador e, tomado de uma centelha divina, rabisca seu texto e depois vai limando, escandindo, reequilibrando e, por fim, considera terminada a obra. Aproveitou uma inspiração e teve muito tempo para decantá-la. É a situação ideal: o texto flui dentro do espaço amplo e cômodo do momento.

O escritor descrito nas linhas anteriores, provavelmente, não é um escritor profissional. Pode até ser muito bom, porém, vive de outra fonte. Namora quando a libido está em alta. O profissional namora porque chegou o horário de beijar, independentemente do desejo.

A crônica da falta de assunto do capixaba Rubem Braga é de 1934. Fará, em breve, 90 anos. O livro me impressionou por vários motivos, inclusive pelas dificuldades confessadas de grandes nomes da cultura brasileira. Outra coisa: mudou a liberdade com o público. Talvez seja efeito da nossa "felicidade tóxica" ou do "politicamente correto". O grande Braga pertencia a outra cepa e, notando o texto emperrado, ataca o... leitor: 

"Eu quero, pelo menos hoje, dizer o que sinto todo dia: dizer que, se eu os aborreço, vocês me aborrecem terrivelmente mais. Amanhã, eu posso voltar bonzinho, manso, jeitoso: posso falar bem de todo mundo, até do governo, até da polícia. Saibam desde já que eu farei isto porque sou cretino por profissão; mas que, com todas as forças da alma, eu desejo que vocês todos morram de erisipela ou de peste bubônica. Até amanhã. Passem mal".

Acho que estamos em outro momento. Não se pode desejar que o leitor morra ou tenha doenças graves. O escritor deve captar a benevolência do público, como definem as normas da retórica clássica. Quando Bernardo Carvalho disse, em mesa da Festa Literária de Paraty (Flip), em 2016, que "não me interessa o leitor", causou um alvoroço. A demanda do público e do mercado contaminaria a boa produção e ele, bom autor da chamada "alta literatura", queria estar um pouco distante das pressões. É um gesto ainda mais elaborado do que o desejo cheio de fígado de Rubem Braga.

Impossível não pensar com certa melancolia. Os escritores reunidos na coletânea estavam juntos para uma foto na cobertura de Rubem Braga, em Ipanema, no Rio de Janeiro. O ano era 1967. Um jovem estava junto do evento: Chico Buarque. Ele já começava os preparativos da célebre peça Roda Viva. O evento da foto era a recém-fundada editora Sabiá. Muita gente talentosa e inteligente reunida. Talvez seja a eterna melancolia do momento presente retratada no filme Meia-Noite em Paris (Woody Allen, 2011): o passado parece mais interessante e com gente mais brilhante pela perspectiva que a distância nos oferece. Retrocedo 250 anos e vejo Thomas Jefferson, John Adams e Benjamin Franklin discutindo uma nova república. Analiso o jornal de hoje e noto o embate entre Donald Trump e Joe Biden. Pior: vejo o toque genial de autores que, se sentindo esmagados pela falta de assunto, fazem ótimos textos sobre o vazio e, hoje, ao passar os olhos pela internet, percebo que o vazio virou ponto de honra, motivo de vaidade e até de exibição orgulhosa.

Encerro com um toque dos velhos cronistas menos voltados ao ibope: a culpa é sua, leitor/leitora, exclusivamente sua. Trump, textos ruins, falta de gente brilhante no mundo: tudo culpa sua. Se você fosse realmente agudo e voltado ao crescimento da espécie humana, estaria relendo Rubem Braga e Fernando Sabino e nunca Leandro Karnal! Viu no que dá a falta de assunto? Hoje estou sem esperança.

LEANDRO KARNAL 

16 DE ABRIL DE 2022
ELIANE MARQUES

FILHOS DO ESTUPRO

Estamos no tempo da psicanálise, um tempo situado entre os mitos mortos, pois não contados, e o primeiro ou o último mito contado e interpretado, posto no t=0, tempo de fundação. No tempo dos mitos mortos, o assento da cultura não parte do assassinato do pai da horda primitiva como constituinte do sentimento de culpabilidade que engendrará leis simbólicas; o pai já está morto e seu assassinato torna impossível o gozo. 

Na singularidade americana, o crime primordial é o do estupro da mãe (preta). E não afirmo isso numa dimensão sociológica ou histórica, mas numa pergunta sobre o quê faz laço social. No sonho freudiano contado, os irmãos mataram quem os queria devorar e estabeleceram leis em comum proibindo a devoração. O banquete totêmico era a única ocasião em que se permitia a quebradura das leis, de modo que o famoso Édipo freudiano e a criança, não apenas a cronológica, alucinam intensamente o gozo.

Quando afirmo singularidade americana, refiro-me ao que não é particular e nem universal, embora esteja em relação a eles. O singular se inscreve num tempo e num espaço, ainda não sabido, mas igualmente enseja laço social (ainda que nada se saiba dele).

De forma diversa do narrado em Totem e Tabu, os filhos e as filhas do estupro primordial continuam incapazes de construir uma tradição simbólica inclusiva a partir do lodo da violação, como evidencia a frase "Somos filhes de um estupro". Se, com esse enunciado, queremos nos mover para além do sadomasoquismo gilbertofreyriano, fracassamos, pois repetimos, sem recordar, parte dos mitos mortos.

"Somos filhes de um estupro" escamoteia o pai contra a mãe. Na enunciação, negamos a estuprada e o estuprador, afirmando nossa descendência (de branqueados, enegrecidos e indianizados) de um puro crime, como se nossa vida envergonhada estivesse apenas no seu repetitivo acontecer. A vergonha corresponde à subjetividade voltada para o apagamento dos traços da singularidade que engendra uma degenerescência daquilo que deveria nos mover.

Somos filhes de uma mãe estuprada. Mas funcionamos como se fôssemos a vítima ao assumirmos seu lugar e a empurrarmos de volta para um porão negreiro. Esse ato dá conta de um masoquismo narcotizante, que talvez marque as subjetividades americanas, impotencializadas diante da marca mnêmica inaugural. A impotencialização é de tal monta que sequer chegamos à possibilidade da triangulação orungânica (Iemanjá, Aganju e Orungã). Negamos Iemanjá, Aganju e Orungã.

O mito "Iemanjá é violentada pelo filho e dá à luz os orixás", encerra dizendo "Cada filho de Iemanjá tem sua história, cada um tem seus poderes". O estupro marcou o início de certa cultura/civilização, assim como o assassinato do pai da horda primitiva também o marca no t=0. Se Freud se vale do crime de assassinato como fundante da cultura numa pretensão universal; o crime de estupro, com assento na frase objeto deste texto, é fundante da singularidade amefricana ainda carente de levantar seus mitos mortificados.

ELIANE MARQUES

16 DE ABRIL DE 2022
COM A PALAVRA

O MITO DO ETERNO RETORNO

Ticiano Paludo | Doutor em Comunicação, professor da PUCRS

O ano era 1999. Eu, então com 26 anos, iria realizar um sonho impensado: ver o Kiss ao vivo. Melhor do que isso: ver o Kiss ao vivo em Porto Alegre. Mais mágico do que isso: ver o Kiss, ao vivo em Porto Alegre, com a formação original.

Como muitos fãs, meu contato inicial com a banda se deu na adolescência. Estamos falando de uma época em que não existia internet, TV a cabo, nem sequer MTV. Portanto, naquele tempo, informações sobre eles eram esparsas e nebulosas. Lembro de chegar do Colégio Anchieta e me fechar no quarto para ouvir incessantemente Alive!, um álbum que pensávamos ser ao vivo e que, hoje sabemos, é mais um dos simulacros do Kiss, pois é de fato meio ao vivo, meio editado e regravado em estúdio. Esse é um dos truques que o Kiss usa para encantar e seduzir seu público: a simulação.

Se no Brasil da década de 1970 Ney Matogrosso e os Secos & Molhados usavam pintura e maquiagem para se mascarar como seres imaginários, nos EUA o Kiss fazia o mesmo. Alguém copiou alguém ou foi mera coincidência cósmica? Pouco importa. O efeito inebriante é muito bom em qualquer dos dois casos.

Quanto terminava a graduação em Publicidade e Propaganda na PUCRS, decidi fazer um TCC sobre minha paixão: o Kiss. Aliás, esse fato se deu justamente em 1998, um ano antes de o Kiss pisar em Porto Alegre pela primeira vez, sendo o TCC, inclusive, matéria de ZH. Naquela ocasião, com a profundidade que um aluno de graduação consegue ter, me interessava verificar se o Kiss poderia ser considerado um mito vivo, que basicamente consiste em fornecer modelos de conduta divinos a serem seguidos pelos mortais. O TCC revelou que era possível.

Já em 2017, lancei um livro, resultado da minha tese de doutorado, também na PUCRS, intitulado Mitologia Musical: Estrelas, Ídolos e Celebridades Vivos em Eternidades Possíveis (Appris). Nele, analisei o Kiss em perspectiva a David Bowie e Lady Gaga. Como é sabido, Bowie construía uma máscara social para cada álbum que lançava e depois a abandonava. Mesmo tendo enorme sucesso, nunca teve medo de cometer suicídios de suas personas para renascer em outras, sendo não Bowie, mas Bowies. Essa é uma tarefa corajosa e arriscada. Inegavelmente, ele a fez com maestria. Gaga, por sua vez, surge em um mundo que gira cada vez mais rápido, afogado pela economia da atenção, aquela maldição de Warhol dos 15 minutos de fama (que duram 15 minutos!), segundo o princípio de que, quanto mais se quer ter, menos se tem. Tempos líquidos enxaguando atenções líquidas.

A conquista do mundo pelo Kiss não foi imediata. Seu ponto de virada de reconhecimento se deu, justamente, a partir de Alive!, quarto álbum da banda, lançado em 1975. Como hoje fazem muitos artistas, um simulacro que constrói uma hiper-realidade mais real do que o real. O que demonstrei na tese é que, embora a certa altura o Kiss tenho tirado a máscara e tocado de cara limpa, os fãs estavam mais interessados em sua ressurreição mítica mascarada, que viria no fim dosa nos 1990. Se Gaga precisa matar um leão por dia para se reinventar (sendo atriz, cantando jazz ou vestindo carne), o Kiss assume a faceta de um verdadeiro mito - um mito circular, sempre previsível e confortável.

Como em um eterno retorno, a banda volta ao mito de origem fundador para assumir seu lado divino, voando pelo palco, cuspindo fogo e vomitando sangue. Da magia à sedução. É um pacto sagrado com os fãs. Mesmo que um de seus mentores, o empresário (mais do que músico) Gene Simmons (que nem é seu nome real, em outro simulacro) afirme que o grupo é um produto de marketing acima de tudo, e talvez por ser tão explicitamente sincero, eles continuam lotando os shows, em uma devoção herdada de gerações para gerações.

O Kiss é um trem fantasma com diversão garantida para toda a família.

Diferentemente de super-heróis tradicionais, o Kiss é um grupo de semideuses que se deixam tocar e fotografar, sempre mediante um bom pagamento de dinheiro real. Em uma época em que tantos tentam alcançar o estrelato, sentindo-se mais poderosos a partir das redes sociais digitais, o velho Kiss vem mais uma vez aí vigoroso demonstrar que um bom rock?n?roll ainda pode mover tantos corações quanto um influenciador digital. Vai ser meu quarto show do Kiss. Será o último? Lá estarão eles, vivos em eternidades possíveis. 


16 DE ABRIL DE 2022
DRAUZIO VARELLA

ATÉ QUANTOS ANOS UMA PESSOA PODE VIVER?

O limite de duração da existência humana divide os pesquisadores: para uns, estamos perto do teto; para outros, não há evidências de que exista um teto

Ao morrer, em 1997, a francesa Jeanne Calment tinha 122 anos e cinco meses. É considerada a pessoa mais longeva. Sua competidora mais próxima foi Sarah Knauss, que morreu em 1999, com 119 anos.

No início do século 20, a expectativa média de vida nos países mais ricos da Europa mal chegava aos 40 anos. Quando o século acabou, estava perto dos 80. O mesmo fenômeno se repetirá na passagem para 2100?

Em 1825, o demógrafo britânico Benjamin Gompertz enunciou a "lei da mortalidade", segundo a qual ao redor dos 30 anos de idade o risco de morrer começa a aumentar de forma exponencial, até um horizonte em que o risco final alcança 100%.

O limite de duração da existência humana divide os pesquisadores em dois grupos: os que julgam estarmos nas imediações do teto e os que defendem não haver evidências de que exista essa limitação.

Em janeiro deste ano, a Nature trouxe uma discussão sobre esse tema. Tomo a liberdade de resumir a opinião de alguns especialistas ouvidos pela revista.

Um estudo conduzido entre italianos com 105 anos ou mais pelo grupo de Elizabetta Barbi, da Universidade Sapienza, de Roma, mostrou que a curva de Gompertz atinge um platô nessa idade, isto é, para de aumentar exponencialmente. Embora estável, a taxa de mortalidade a partir dos 105 é alta: 50% a cada ano que passa.

Você, leitor otimista, pode interpretar esse dado com boa vontade. Se a cada ano morrem 50%, a outra metade sobrevive sem que seja possível estabelecer um limite claro para a duração da vida.

Uma análise matemática de Caleb Finch, da Southern California University, calculou que esse limite seria de 120 anos. A estimativa é compatível com o recorde estabelecido por Jeanne Calment.

Progressos capazes de estender a expectativa média de vida da população aumentam as chances de alguns privilegiados alcançarem idades extremas. A mortalidade infantil e os acidentes, por exemplo, impedem que uma pessoa com genética favorável complete cem anos.

A expectativa média de vida na Suécia e no Japão tem aumentado três meses por ano, desde 1840. Esse aumento persistirá? A julgar pelos dados obtidos no Reino Unido e nos Estados Unidos, não, já que neles a expectativa média cresceu pouco nos últimos 10 anos. Foi encurtada pelas mortes prematuras por abuso de álcool, drogas ilícitas, suicídios, obesidade e transtornos psiquiátricos.

Em 2020, a ONU estimou em 573 mil os centenários do mundo. Esse número é 20 vezes maior do que o de 50 anos atrás. Em 1946, as 30 pessoas mais longevas do mundo tinham em média 99 anos. Em 2016, essa média atingiu os 109 anos. Continuará a crescer nesse ritmo?

É provável que não. Hoje, os que ultrapassam cem anos chegam a tal idade em maior número e em melhores condições de saúde. Mas nesse grupo a expectativa de vida remanescente tem se mantido a mesma nos últimos 80 anos.

Você, leitora inconformada, poderá argumentar: se a expectativa média de vida duplicou no decorrer do século passado, por que não poderei viver 150 anos?

Vamos deixar claro dois conceitos. A expectativa média de vida se refere à média de anos vividos por determinada população. Essa expectativa no Brasil, em 1940, não passava de 45 anos, enquanto em 2019 atingia 76, ganho obtido às custas da redução da mortalidade infantil e das mortes na infância e na juventude - graças às vacinas, ao soro caseiro, aos antibióticos, às melhores condições de higiene e à assistência médica.

A longevidade só leva em conta o grupo que viveu mais tempo em determinado grupo populacional.

Considere o caso das mulheres japonesas. É a maior expectativa média de vida na Terra: 87 anos. Como esse número se refere à média, o número das que passam dos cem anos é maior do que o de brasileiras ou de moçambicanas, mas isso não impede que uma moçambicana quebre o recorde mundial de longevidade.

Mesmo que não exista um limite fisiológico formal para a duração da vida, cruzar as fronteiras atuais da longevidade vai requerer grandes avanços nas ciências médicas.

Não se tratará apenas de reduzir a mortalidade infantil e evitar as mortes precoces, mas de encontrar soluções para doenças cardiovasculares, reumatológicas, câncer, diabetes e ainda ter que lidar com degenerações neurológicas, como a doença de Alzheimer.

Você quer viver muito, não quer? Eu também, mas não a qualquer preço.

DRAUZIO VARELLA

16 DE ABRIL DE 2022
BEM-ESTAR

A PERCEPÇÃO DAS PALAVRAS

As palavras carregam sua história, seus significados, mas para cada um de nós elas trazem um sentimento, uma conotação e mexem de uma forma particular no nosso emocional.

Existe uma estranheza nas palavras, no que elas escondem. Como uma flor selvagem e rara, um animal à espreita que se deixa entrever, mas não se revela enquanto não sente confiança e intimidade.

Existe uma beleza de assombro nas palavras, quase um susto que nos intimida diante da força desse esplendor. Existem dores, tragédias, ofensas, segredos que se ocultam, existem vozes que sussurram juntas em cada palavra. Mesmo quando elas são solitárias, esquecidas em algum banco de jardim, em volta de cada palavra esvoaçam sentidos, como borboletas invisíveis. Circulam fantasmas, sombras, medos.

Com palavras, formamos nossos pensamentos, tentamos traduzir sentimentos, explicar nossas razões, compreender o intrínseco e complexo da natureza humana. E mesmo assim as perdemos, elas evaporam diante de nós e somos abandonados sozinhos numa estrada que nunca alcança o invisível, impalpável, o éter das palavras.

A metafísica do mundo busca palavras. A concepção do mundo precisa delas. O desejo de explicar o inexplicável, o inenarrável, o que existe dentro ou fora de nós e que não está em nenhum lugar.

Caminhamos no deserto das palavras e não há direção possível. Não há mapa e nem mesmo as estrelas nos orientam. E vamos enfrentar o que vier, cavar com as mãos na areia, tentar abrir túneis submersos, passagens subterrâneas, recuperar o oculto, manuscritos antigos que se dissolvem ao contato da luz.

As palavras são feitas dessa matéria sem nome e atravessam o tempo. Passam por gentes e gentes e gentes e se modificam sem perder a essência, aquilo que são no cerne, no ponto mais profundo, onde não se chega.

No fundo do conceito da palavra existe uma ética, uma beleza que se transforma conforme quem a toca e nem sempre se entrega a quem a pronuncia.

Tem o orgulho de ser entidade, verbo do divino. E desde o início era o verbo. Por isso exige imensa devoção. Exige mergulho, prostração.

Quem quer tocar a palavra, mesmo que não alcance a magnitude em que ela se dissolve, precisa se despojar de total maneira para se entregar à mercê de seus caprichos sutis.

Precisa ser leve e ficar em suspenso para se deixar levar pelo fluxo de sua correnteza. Assim, as palavras nos transportam e nos surpreendem. Essa viagem me comove, porque quando deixo de ser e sigo o movimento que elas traçam, uma dança invisível no ar, eu que não existo e em volta brilha translúcida cada partícula.

Tudo desaparece para que as palavras sejam soberanas, donas da fatalidade, e a elas obedecemos.

Nossa entrega é plena. Elas, como fadas de luz, descortinam universos. Percorrem planos que existem desde o começo do mundo, tudo o que se conheceu, se conhece e se perdeu na memória.

Elas se revelam e nos fazem descobrir paixão e êxtase. Elas nos prendem e nos tornamos espíritos livres.

BEM-ESTAR