sábado, 21 de maio de 2022


21 DE MAIO DE 2022
MARCELO RECH

Pugilato virtual

Quando foi que os países começaram a parecer terem se partido em dois, com cada metade achando que precisa salvar a nação da outra metade? Para o psicólogo social Jonathan Haidt, professor da New York University, o início do grande cisma, definido por ele como a queda da Torre de Babel, pode ser datado em 2009, quando o Twitter criou o botão de endosso e compartilhamento de posts, logo seguido pelo Facebook e sua obsessão por likes.

O mecanismo se mostrou tão diabolicamente eficaz quanto perverso. Para extrair dados dos usuários e vendê-los aos anunciantes, as mídias sociais precisam estimular ao máximo a interação com os conteúdos. A cada clique, as preferências vão sendo consolidadas, e hábitos, gostos, vida privada e aspirações vão sendo entregues aos donos das redes. Logo, as mídias sociais descobriram que conteúdos que despertam emoções, como raiva e indignação, geram mais interações e dados. E assim os algoritmos foram calibrados para colocar diante dos olhos dos incautos usuários mais e mais conteúdos que disseminam teorias da conspiração, fomentam a descrença nas instituições e ridicularizam ou brutalizam grupos sociais, transformados em inimigos.

Em artigo na revista The Atlantic, Jonathan Haid nota que, nas redes, mesmo frivolidades se tornaram objeto de discussões grosseiras e cita estudos que mostram a captura das discussões por pequenos grupos de "idiotas" que afugentam do debate a grande maioria que se guia pelo bom senso e pela racionalidade. Boa parte dos que mantêm o conflito digital constante sequer se dá conta de que foi recrutado como soldado a serviço de causas alheias, trabalhando de graça para as redes e os senhores da guerra. Como disse um ex-engenheiro do Twitter citado por Haidt, "ao criarmos o botão de compartilhamento, demos um revólver carregado para uma criança de quatro anos".

O ambiente de mútua hostilidade é mais uma exacerbação produzida pelas redes sociais. Uma pesquisa de dezembro passado, realizada pelo DataSenado e divulgada nesta semana, mostrou que 21% dos 5.850 brasileiros entrevistados se declaravam de direita e 11% de esquerda. Se levarmos em conta que apenas uma fração deles poderia ser qualificada de extremista fanatizada, chegamos a uma realidade social em que, em silêncio ou discrição, a maior parte da população virou refém de um debate radicalizado, do qual opta por manter distância segura.

Jonathan Haid é pessimista quanto ao futuro. Ele acredita que novas formas de radicalização pela direita populista e de execração social do pensamento dissidente pela esquerda ainda vão piorar antes de melhorar. Mas também pode ser que não. A mesma pesquisa do DataSenado revela que a grande maioria dos brasileiros não se alinha com os campos conflagrados. E a surpreendente união de países europeus contra a invasão da Ucrânia mostra que, diante de uma ameaça maior, a vida real acaba falando mais alto que o pugilato virtual.

MARCELO RECH

O jardineiro do palácio

Clorofitos, dionelas, coleus, strelitzias e alamandras são velhos conhecidos do Seu Darci, como é chamado pelos colegas, mas o que ele gosta mesmo é de ver as azaleias no auge, durante a primavera: em arbustos redondos, cheios e bem cortados, polvilhados de flores rosadas. Há duas décadas, Darci Figueiró, 69 anos, é jardineiro do Palácio Piratini - que acaba de completar 101 anos de história.

A missão chegou de surpresa. Certo dia, no início dos anos 2000, um emissário da Casa Civil foi até o Jardim Botânico de Porto Alegre em busca de um servidor para cuidar das plantas que ornamentavam a sede do governo do Estado. Seu Darci, que já havia feito cursos de jardinagem e paisagismo, foi o escolhido. Não perdeu tempo:

- Na segunda-feira seguinte, às 8h da manhã em ponto, eu me apresentei para trabalhar.

Logo que assumiu a função, ele se dedicou à Fonte da Egípcia, um recanto único, no quintal da ala residencial. Ali, entre ficus e pingos d?ouro, há uma estátua de ferro fundido na forma de dançarina egípcia (veja ao lado).

- Os ficus estavam desnivelados. Tirei as medidas e vim com serrote, facão e até machado. Fiz uma poda radical. O pessoal até se assustou, mas, em seis meses, estava tudo novo, lindo de se ver - recorda ele, orgulhoso.

Dali em diante, todos os canteiros passaram por melhorias. Seu Darci mandou vir da Ceasa caixas de begônias, amores-perfeitos, crisântemos e tudo mais que se possa imaginar.

- Fui enfeitando. É importante combinar bem as plantas. E saber o que é de sombra e o que é de sol. A grama preta, por exemplo, precisa de pouca luz - ensina.

Aos poucos, o experiente jardineiro - gaiteiro de mão cheia nas horas vagas - vem diminuindo o ritmo. Já está aposentado, mas ainda não pensa em parar.

- Gosto do que faço. Cuidar das plantas faz bem, dá uma energia boa. Nasci para mexer na terra - conclui Seu Darci, com a tesoura de corte na mão, enquanto poda um paredão verde nos fundos do palácio.

arte

O Jardineiro

Em 1899, o pintor francês Camille Pissarro concluiu O Jardineiro, (à esquerda). Com pinceladas curtas e luminosas, retratou o jovem de chapéu de palha em um dia de verão. A obra é da Staatsgalerie Stuttgart, na Alemanha, e não é a única sobre o tema.

Anos antes, o artista já havia pintado outro jardineiro, na figura de um velho camponês com um repolho na mão (no destaque). A tela pertence à National Gallery of Art, nos EUA.

JULIANA BUBLITZ 

sábado, 14 de maio de 2022


14 DE MAIO DE 2022
MARTHA MEDEIROS

Avalanche de existência

Ninguém nasce para uma vidinha besta. Sonhamos em ter pensamentos que nos façam crescer, conversas que nos inspirem a evoluir. Em ser abertos às novidades, em escutar os outros com interesse verdadeiro. Gostaríamos de acessar os sentimentos secretos de desconhecidos, não para fazer julgamento moral, mas para identificar nossas próprias loucuras. Saber de onde viemos e por que as coisas são como são, a fim de mudar o mundo. Redes sociais nos distraem e, dependendo de quem seguimos, nos informam, mas é pela leitura que começa a revolução de nos transformarmos em alguém que valha a pena.

Aí surge o intrigado: mas ler não seria o contrário de socializar? Um isolamento improdutivo, enquanto a correnteza da vida passa lá fora, por trás da janela? Leio de cinco a sete livros por mês e acho graça de quem se compadece da minha sina: "coitada, não vive".

Como toda cidadã mundana, vivo regularmente. Trabalho, namoro, viajo, frequento bares, faço exercícios e gasto um bom tempo xeretando no celular, mas ao menos por 30 minutos diários eu grudo em algum livro, e em vez de perder a correnteza que passa por trás da janela, derrubo a parede e inundo a casa toda, meu universo inteiro. Fico encharcada de existência.

Aos 11 anos, perdi pai e mãe num acidente de avião. Depois de me aposentar, fundei uma companhia de dança. Sou negra, criada pela minha avó. Tantos anos de batina e nunca havia escutado a confissão de um assassinato. Fui adotado por uma dona de bordel. Passei quatro anos sonhando todas as noites com Leila Diniz, minha ex-mulher. Morei dois anos na Índia e voltei reconciliado com a solidão. Chego todo dia exausto do trabalho e meu vizinho faz tanto barulho que um dia ainda vou matá-lo. Atravessei sozinha os Estados Unidos de carona. 

Ninguém foi tão pirada quanto minha mãe, nem tão poética. Estou ficando cega. Até os 19, eu nunca tinha comido um bife. Morei três meses dentro de um aeroporto. Fui estuprada uma manhã, ao sair de casa para correr. Ganhei o Nobel da Paz depois de ficar 27 anos preso. Minha cidade começou a ser bombardeada no instante em que minha família se sentou para jantar. Estávamos em lua-de-mel quando meu marido revelou que era bissexual. Meu filho mais velho é trans. Fiquei milionário fazendo jingles para um fascista. Me apaixonei por uma mulher casada.

Cada um de nós tem sua própria história, bonita e sofrida, mas insuficiente para que haja uma compreensão vasta do mundo. Para se ter a consciência realmente expandida e empática do que acontece lá fora, para embrenhar-se nos corações e mentes dos estranhos que adoramos condenar à distância, só derrubando paredes. Não há ninguém mais desinteressado pela vida do que o dono de uma estante vazia.

MARTHA MEDEIROS

14 DE MAIO DE 2022
CLAUDIA TAJES

Atendimento eletrônico

Já foi Pour Elise nas mais trágicas versões, da marimba ao sax. Pode-se mesmo dizer que a tortura aos ouvidos do cliente começou com Pour Elise, o marco zero das trilhas do atendimento eletrônico. Incontáveis minutos de tururururururururu na orelha, até a ligação cair sem que a solicitação sequer começasse a ser atendida. Quem nunca?

Beethoven não merecia isso. Nós também não.

Hoje em dia, só o atendimento eletrônico verdadeiramente raiz continua recebendo suas vítimas, digo, consumidores, com Pour Elise. Diferentes músicas e propagandas se alternam nos mais diversos call centers enquanto o consumidor, digo, a vítima, pena para chegar a um atendente de carne e osso. Sem sucesso, na maioria das vezes. Você é do tipo que não gosta de fazer nada pelo site e quer resolver uma pendenga da conta da luz, por exemplo. 

Prepare-se para ouvir a história de glórias da concessionária desde a descoberta da eletricidade por Tales de Mileto. De vez em quando, a voz de um robô tenta minar sua determinação: su-a-po-si-ção-na-fi-la-é-8765. Acontece que, se o assunto não for resolvido, sua casa fica no escuro. Então você persiste. Sem querer minar sua determinação: o assunto não vai ser resolvido e sua casa vai ficar no escuro.

E a música eletrônica enquanto o paciente aguarda para marcar uma consulta com o cardiologista? A única explicação é que o filho DJ do médico estava precisando de uma força para mostrar seu trabalho. Se a pessoa sair dançando ao som da interminável espera da central, o doutor corre o risco de perder um paciente.

Nem vamos falar do atendimento dos planos de saúde. Não se deseja a ninguém a desventura de ligar para uma dessas operadoras. Nem para as operadoras de telefonia. Para as de TV a cabo, então, que os céus mantenham esse infortúnio longe de todos. Se precisar falar com uma companhia aérea, mais rápido pegar um ônibus e ir até a sede de São Paulo. Só que, às vezes, não há o que fazer. Então você abraça a família, avisa que vai passar um longo tempo fora e, estoicamente, liga.

- Bem-vindo à nossa empresa. Digite seu CPF. Digite seu RG. Digite sua data de nascimento. Dados incorretos, digite pausadamente. Dados incorretos. Certifique-se de sua data de nascimento e ligue novamente. Nossa empresa agradece o seu contato.

- Bem-vindo à nossa empresa. Se você já é cliente, digite um. Se você não é cliente, digite dois. Dois. Você não é cliente. Para ser atendido, entre em contato com nosso 0800, faça um plano, indique um amigo e ligue novamente.

- Bem-vindo à nossa empresa. Tutututututu.

- Bem-vindo à nossa empresa. Todas as nossas posições estão ocupadas. Em instantes, você será atendido. Enquanto isso, você sabia que nossos salames são feitos com carnes selecionadas e atendem aos mais rigorosos padrões de qualidade? O abate de nossos rebanhos é feito da seguinte maneira... (Nota da Redação: é aí que você desliga para não desmaiar com os detalhes.)

- Bem-vindo à nossa empresa. Você sabia que pode resolver todos os assuntos no nosso site? Entre em www.naomeincomodaquetenhomaisoquefazer.com.br, procure o seu problema e ache você mesmo a solução. Pedimos que fique em linha para avaliar nosso atendimento.

Pensando bem, o atendimento eletrônico era mais humano no tempo de Pour Elise.

CLAUDIA TAJES

14 DE MAIO DE 2022
LEANDRO KARNAL

RESSENTIR

Historiador, professor da Unicamp, autor de, entre outros, "Todos Contra Todos: o Ódio Nosso de Cada Dia".

Alguns ismos colaboraram: Cristianismo, Islamismo, Socialismos... As redes sociais e a própria evolução da ideia de Democracia também ajudaram a ladrilhar este chão. Do que estou falando? Da construção de uma ordem simbólica baseada na ideia de igualdade. Se existe diferença social, ela teria sido baseada no pecado ou na construção de mecanismos injustos de exclusão econômica. Porém, no fundo, todos seríamos ou deveríamos ser iguais. A igualdade é concebida como a realidade e a desigualdade, como uma anomalia produzida pelo desvio de um plano natural ou divino.

Para Rousseau, temos uma perfectibilidade que, juntamente com a liberdade, permite nossa distinção dos animais. Claro, o homem de Genebra também percebe que essa característica é fonte de quase toda infelicidade. Criamos um contrato social e, ao mesmo tempo, a desigualdade. Alguém se apropriou de uma parte da terra comum e ninguém o contestou. Em Rousseau, em Marx ou em Jesus, a igualdade era o plano original e feliz. Houve um desvio ou uma queda do homem natural para o que vemos agora.

Proposta por filósofos, defendida por profetas e estimulada por brechas abertas a partir da Revolução Francesa, paira sempre a ordem simbólica ideal da igualdade. O que mudou? O mundo é desigual há milênios, porém, agora, há redes sociais.

Há mais de 200 anos, se o povo quisesse ver Versalhes, teria de invadir o palácio em gesto com sangue e ousadia. Hoje, Maria Antonieta posta seus looks nas redes todos os dias: "Eu no Salão dos Espelhos com meus sapatos novos kkkkk"; "Sextei com brioches"... A vaidade, o interesse, a dor e toda espécie de novas formas de imaginário social elaboraram a explosão do ressentimento.

Ressentido é quem sente duas vezes. Sente pelo que não possui e tem nova dor pela alegria que identifica naquele que tem. Freud falou sobre a "covardia moral do neurótico". O neurótico se considera superior, moralmente acima da vulgaridade do mundo, todavia, incapaz de mudá-lo. Não perdoa, não age, apenas sente. E ressente. O espaço de ouro para o ressentido é o mundo agressivo das redes. Lá, a covardia pode vir com anonimato, destilar veneno, atacar, agredir e mostrar como o meu inimigo é inferior e imbecil. O que deriva disso? Nada, é uma impotência reconhecida, diluída na incapacidade de o ressentido assumir seu próprio desejo e de agir.

Veja uma distinção importante: existe desigualdade no mundo. Há pessoas que se revoltam contra ela e agem para mudá-la. Caridade, política, revolução: são três caminhos comuns de reação à carência de muitos. Há outros. Penso em quem não age, reflito sobre o ressentido. Ele interpreta a felicidade alheia como retirada dele. Aquele que sorri, no fundo, retirou do meu rosto a alegria. O bom corpo dela/dele estragou o meu. A viagem bonita foi feita em detrimento da minha. A vida que vejo na internet foi roubada de mim. Posso perdoar você por tudo, menos por ser mais feliz do que eu.

De novo: existe desigualdade social e algumas pessoas agem contra. O ressentido não está preocupado com ela, ele está irritado com o gozo material ou emocional que vê nas redes. Todavia, ele disfarça sua dor em julgamentos sociais. Alguém postou a compra de um celular de US$ 2 mil? O ressentido grita: daria muitas cestas básicas para uma comunidade. Ele tem razão, e o celular que o ressentido usa para isso também poderia virar feijão para muita gente. Essa é a diferença entre consciência social e ressentimento, entre ação e pura dor, entre sentimento e ressentimento.

A pessoa que luta por justiça social, por motivos filosóficos ou religiosos, fica perturbada pelo fato de que alguns possam ter um tênis caríssimo e tantos não tenham comida mínima. O ressentido quer o tênis para ele e, não conseguindo, nega-o a qualquer pessoa. Muitos movimentos políticos foram feitos assim: substituir uma forma de dominação que não me beneficiava por uma que me traga vantagens. Claro: tudo em nome do bem...

Separar Freud de Marx pode ser necessário. A dor pessoal pode ser um ponto de partida para qualquer envolvimento político, nunca deveria ser o de chegada. Muitas vezes, Maria Antonieta nos irrita porque gostaríamos de comer brioches no ambiente luxuoso. Como isso é feio como sentimento, melhor afirmar que buscamos a justiça social e a igualdade. O ressentido é um invejoso fracassado tingido com o verniz de Madre Teresa de Calcutá. A busca de uma genuína melhoria da dor alheia por empatia pura é tão rara na luta política como a vocação da freira albanesa na Índia no campo religioso.

Ampliemos. Fui uma criança em uma geração limitada com regras severas e punições diretas. Por que será que crianças mimadas me irritam hoje? Vivem o deleite que me foi negado?

Conhecer a si é o desafio que o Templo de Apolo em Delfos nos envia sempre. Pelo menos saberíamos que estamos lutando com moinhos reais e não gigantes alimentados pela minha dor quixotesca. Essa tem sido a minha esperança: lutar com a minha dor de forma consciente e não ser dominado pelo que me incomoda.

O espaço de ouro para o ressentido é o mundo agressivo das redes. Lá, a covardia pode vir com anonimato, destilar veneno, atacar, agredir e mostrar como o meu inimigo é inferior e imbecil.

LEANDRO KARNAL

14 DE MAIO DE 2022
DRAUZIO VARELLA

ANVISA É PRESSIONADA POR INDÚSTRIA DO CIGARRO, QUE LUCRA MILHÕES COM VICIADOS

Descontada a escravidão, o cigarro é o maior crime já praticado pelo capitalismo internacional.

Ele nada mais é do que um dispositivo projetado para administrar nicotina, droga que causa a mais escravizadora das dependências químicas. A experiência clínica em cadeias tem me ensinado que é mais fácil largar o crack. Não é à toa que cerca de 20% da população mundial caiu nas garras dos fornecedores: em sua maioria empresas multinacionais que fabricam 6 trilhões de cigarros por ano.

Tamanho sucesso de público é explicado pelo fato de que 15 segundos depois de uma tragada, cerca de 25% da nicotina chega aos neurônios dos centros de recompensa do cérebro. Está provado que quanto mais rápido o pico de ação de uma substância psicoativa, maior é o risco de dependência.

Causador de um grande número de doenças graves, o cigarro provoca cerca de 6 milhões de mortes por ano, segundo a OMS, a Organização Mundial da Saúde.

Se somarmos a esse contingente de desafortunados os que conseguem parar, entenderemos por que a indústria do tabaco adota estratégias de marketing tão perversas: a necessidade de repor a clientela perdida. Às custas de quem? Das crianças e dos adolescentes - os mais vulneráveis -, um a cada três dos quais irá sofrer e morrer por causa do fumo.

Por essa razão, a OMS classificou o tabagismo "no grupo dos transtornos mentais e de comportamento decorrentes do uso de substâncias psicoativas". Motivo pelo qual deve ser "considerado como doença crônica e epidêmica, transmitida por meio da publicidade e propaganda nas quais a indústria do tabaco exerce o papel de vetor".

A partir dos anos 1990, a prevalência do fumo no Brasil caiu de forma sustentada. Em minha adolescência, cerca de 60% dos rapazes fumavam (inclusive este que vos escreve); hoje a prevalência entre nós está abaixo de 10%. Fumamos menos do que os americanos e do que em todos os países da Europa, resultado inimaginável no passado, obtido numa população bem menos letrada do que a europeia e a americana.

Com muito esforço conseguimos destruir a imagem fake do cigarro que a publicidade construiu durante décadas, com recursos imorais. Ele deixou de estar associado ao sucesso de homens maduros, a caubóis indômitos, aos esportes radicais e às mulheres lindas e livres, para ficar reduzido ao que realmente é: um vício chinfrim, que dá mau hálito, mau cheiro no corpo, acessos de tosse com expectoração acinzentada, além de deixar a pele envelhecida e o rosto com aparência doentia.

Sempre atenta à queda nas vendas, a indústria foi atrás dos dispositivos eletrônicos para administração de nicotina, droga que fez a fortuna das grandes companhias. O pretexto era o da redução de danos: seria melhor fumar a nicotina "limpa" retirada das folhas do fumo, sem o alcatrão e demais impurezas do amaldiçoado cigarro.

Passaram, então, a defender os eletrônicos como tratamento para os que pretendem se livrar do fumo. Que gente generosa, não? Propõem disponibilizar um dispositivo para curar da doença provocada por outro, fabricado por eles mesmos.

A verdade é que a tal redução de danos nunca foi comprovada no caso dos eletrônicos. Há pouquíssimos estudos publicados; os existentes são de baixa consistência e contêm erros metodológicos graves. Da mesma forma, dizer que não fazem mal é negar as evidências científicas em contrário.

No outro lado da moeda, reside o vil interesse da indústria: a legião de crianças e adolescentes da geração que não fumaria cigarros comuns, mas que adere aos eletrônicos por julgá-los seguros. Para os fabricantes tanto faz qual dos dois o usuário prefere, desde que fique dependente de nicotina pelo resto da vida. É às custas da dependência química dos nossos filhos e netos que essa gente faz dinheiro.

Neste momento, a Anvisa sofre o impacto do lobby milionário da indústria tabaqueira para liberar a comercialização dos eletrônicos. O parecer do corpo técnico da agência é contrário. Sugere a implementação de campanhas educativas para conscientizar crianças e adolescentes sobre os riscos dos eletrônicos, entre outras medidas preventivas.

Seria um ato inconsequente da nossa Anvisa a liberação dos eletrônicos, sem levar em conta o incentivo para criar uma multidão de crianças e jovens fissurados por nicotina. Vamos andar para trás também nessa área?

DRAUZIO VARELLA

14 DE MAIO DE 2022
BRUNA LOMBARDI

CORAÇÃO COERENTE

Existe uma gradativa construção de valores na nossa vida. Começa cedo e vai se fundamentando, criando raízes no decorrer da caminhada. Aprendemos com os nossos pais, amigos, professores, amores e vamos aprendendo e nos tornando quem queremos ser.

Mas antes mesmo dessa escala de valores adquiridos no contato social, trazemos dentro de nós, no cerne do nosso ser, ad core, no nosso ponto mais vital, valores que vieram na nossa essência. Aquilo que já somos.

E são esses que nos ajudam a selecionar e escolher os valores futuros, os ensinamentos, as coisas pelas quais nos interessamos.

Crianças nascem amorosas, e esse amor é distribuído aos pais, irmãos, aos bichos, a todas as formas de vida. Esse é o amor de um coração puro, que já sente e entende compaixão e empatia, mesmo sem ainda saber o que significam.

Com o tempo, vamos compreender a importância de preservar esses valores, de ter o que chamamos de coração coerente. Cada vez que falamos de felicidade, qualidade de vida ou saúde mental, estamos no fundo falando de um coração coerente.

Todos nós temos nossas contradições, idiossincrasias, nossas incongruências. Passamos por tantas mudanças, algumas radicais, podemos nos sentir perdidos, confusos, ter dúvidas e questionamentos. Isso tudo são vendavais na superfície das coisas. No nosso ponto mais profundo, existe uma raiz que não se abala. Podemos bater apressadamente as asas no meio de conflitos, mas se conseguirmos mergulhar no nosso oceano interior, vamos perceber que temos dentro de nós um lugar de águas calmas. A sabedoria do nosso coração coerente.

Quanto mais a gente conseguir se alinhar com esses valores profundos, mais paz vamos sentir para conduzir a vida que queremos ter. Muitas vezes a gente se debate demais na superfície das águas, se deixa levar por várias correntezas, se distraí com cada pessoas que nos influencia, com cada coisa que acontece e vamos nos tornando aquilo que não somos.

A gente passa a viver no conflito da dissonância. Entramos em desequilíbrio, perdemos nossa raiz, aquilo que nos sustenta. Quando entramos na estrada da dissonância, não sabemos onde ela pode nos levar. Existem tantas ciladas pra gente cair, e é aí que a gente se machuca.

O coração dissonante, ao contrário do coerente, distorce e deforma nossas vidas. Seca nossa energia vital, traz todas as dores e os valores do nosso ser inferior nos dominam. Raiva, inveja, ressentimento, a força da maldade, a capacidade de gerar sofrimento por onde passamos. Por isso nossas escolhas diárias, pequenas, constantes são fundamentais.

Somos todos seres curiosos, influenciáveis, queremos novidades, experiências, temos a capacidade de criar, reinventar e transformar. Não devemos perder essas qualidades, mas sim fazer delas uma extensão dos valores que trazemos e que são nossa base, a matéria da qual somos feitos.

Esse é o portal que gera o nosso verdadeiro poder. É preciso poder para manter nosso coração coerente.É preciso mais poder para construir do que para destruir. 

BRUNA LOMBARDI

14 DE MAIO DE 2022
SAÚDE MENTAL

UM PORTO NÃO TANTO ALEGRE

CIDADE É A CAPITAL COM MAIOR ÍNDICE DE DIAGNÓSTICOS DE DEPRESSÃO. ESPECIALISTAS EXPLICAM MOTIVOS

Desde que foi diagnosticada com depressão há seis anos, a advogada Bárbara (sobrenome ocultado a pedido da entrevistada), 24, faz terapia psicológica e usa remédios para ansiedade. Durante o auge da pandemia, em meio à falta de perspectiva e o solitário isolamento no apartamento de Porto Alegre, as crises depressivas pioraram - sobretudo nos frios meses do inverno gaúcho, mais melancólicos.

- Minha depressão é cíclica: passo um período bem e depois posso ter um episódio complicado. Nas minhas crises, me torno apática. Não é ficar triste chorando sozinha, mas ficar quatro dias sem sair da cama, sem tomar banho, sem comer. É não conseguir reagir. Na pandemia, tive mais episódios complicados - afirma.

Bárbara ilustra o resultado de uma pesquisa do Ministério da Saúde divulgada no mês passado, segundo a qual Porto Alegre é, proporcionalmente, a capital com mais diagnósticos de depressão. Os resultados sugerem que a doença cresceu entre jovens.

Realizada anualmente pelo Ministério da Saúde, a pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) indagou no ano passado a seguinte questão: "algum médico já lhe disse que o(a) senhor(a) tem depressão?". Responderam 27.093 brasileiros de todas as capitais.

Em Porto Alegre, 17,5% das pessoas relataram já terem sido diagnosticados com a doença, o maior índice entre capitais - na outra ponta, está Belém do Pará, com 7,2%. Na média nacional, 11,3% dos brasileiros foram classificados, por seus médicos, como pessoas que vivem com depressão.

É uma contradição que se desenha em Porto Alegre: a cidade com pôr do sol e rua mais bonitos do mundo, como clama o afetuoso bairrismo, abriga, também, os brasileiros mais deprimidos. Além disso, em 2021 a cidade registrou a maior taxa de suicídio entre todas as capitais brasileiras, segundo análise de ZH sobre dados são do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), plataforma do Ministério da Saúde. Foram 9,65 suicídios a cada 100 mil habitantes. A seguir, estão Campo Grande (9,61) e Teresina (8,04). A menor taxa é a do Rio, 1,02.

A depressão, vale lembrar, tem influência genética (se seus familiares têm depressão, você tem maiores chances de desenvolver), mas é afetada por fatores sociais (pobreza, desigualdade, desemprego, violência urbana), comportamentais (traumas, maus-tratos na infância) e até climáticos (países escandinavos têm mais taxas de depressão por conta do inverno rigoroso).

Uma mistura em algum grau desses fatores explica a maior presença de depressão em Porto Alegre desde antes da covid-19. Diz a médica psiquiatra Cristiane Stracke, coordenadora do departamento de saúde mental da Secretaria Municipal de Saúde da capital gaúcha (SMS):

- Países com mais tempo de inverno têm índices de depressão mais altos, pela menor luz solar e interação durante o frio. Muito inverno e escuro interferem na biologia do organismo. Além disso, a maior parte das pessoas aqui tem descendência europeia, que é mais propensa a depressão e suicídio. Pode ser gene ou questão cultural. Alemães, por exemplo, têm uma rigidez maior.

u "os dados detectam também qualidade do serviço médico", diz psiquiatra

Ainda assim, a alta incidência da depressão na Vigitel deve ser lida com cuidado: as pessoas responderam se já haviam sido diagnosticadas ao longo da vida, e não se estavam com depressão naquele momento de pandemia, afirma Marcelo Fleck, coordenador do ambulatório de Depressão do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e professor de Psiquiatria na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ele destaca que Porto Alegre tem altos índices de depressão, mas pondera que o número de deprimidos pode não ser tão maior do que em outras capitais por duas razões: a cidade tem um dos Sistemas Únicos de Saúde (SUS) mais fortes do país e é reconhecida nacionalmente por treinar profissionais em saúde mental com excelência - fatores que facilitam o diagnóstico da população.

- Os dados detectam depressão, mas também qualidade do serviço médico. Pode ser que, em outra capital, a pessoa esteja deprimida, mas ninguém detectou. Os médicos daqui podem detectar melhor do que em outros Estados porque o sistema de saúde está mais organizado - pontua Fleck.

A hipótese conversa com os dados da pesquisa. As capitais com mais pessoas relatando depressão são mais ricas e com sistemas de saúde robustos: Porto Alegre, Belo Horizonte e Florianópolis. Na outra ponta, as capitais com menos diagnóstico foram Salvador, São Luís e Belém, conhecidas pela maior desigualdade social.

- Todas as doenças que exigem diagnóstico têm relação estreita com a presença de serviços de saúde: onde ha mais serviços, há mais diagnósticos. Um pouco da discrepância entre as cidades se deve a isso, o que não sabemos é o quanto dos dados se deve à falta de diagnóstico - afirma o coordenador da coleta de dados da Vigitel, Rafael Moreira Claro, professor do Departamento de Nutrição da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Conforme a cobertura vacinal aumentou e a covid-19 abrandou, a advogada Bárbara sentiu uma melhora na saúde mental. Para além de retomar perspectivas de futuro, não está mais, obrigatoriamente, sozinha: se precisa de ajuda e companhia, agora pode buscar o conforto de familiares e amigos, o que lhe era vedado antes, pelo medo de contaminação.

- A companhia e disponibilidade das pessoas é muito bom para mim, isso de saber que tenho uma rede de apoio. Antes, eu não queria me expor nem expor os outros. Talvez a intensidade das crises continue a mesma hoje, mas elas estão mais fáceis de resolver porque tenho para onde recorrer - diz Bárbara.

 MARCEL HARTMANN


14 DE MAIO DE 2022
J.J. CAMARGO

O QUANTO PRECISAMOS TER

"A comparação é a morte da alegria."

(Mark Twain)

Era uma manhã de inverno, e o Jacinto mantinha o cobertor grosso puxado até o pescoço. Tinha internado dois dias antes para tratar um câncer de pulmão em estágio avançado. Fui chamado pela esposa, que tínhamos operado no final dos anos 1990, para dar uma olhada no marido, e a encontrei no corredor, com olhos chorados:

- Dê uma força, doutor, ele tá sofrendo muito. Ele não quer falar, mas a enfermeira me disse que ele não tem dormido.

O sorriso escancarado da recepção sucumbiu à tristeza quando ele me atualizou:

- Mas bah, meu doutor, fui atiçar as verdades com o médico e me dei mal. Quis saber se ele achava que meu câncer tinha chance de cura e ele disse que não. Então me arrisquei um pouco mais e quis saber se eu devia ter esperanças de voltar para casa, e ele disse não, outra vez. Mesmo valente como um fronteirista que sou, não me animei a perguntar quanto tempo de vida eu teria, de medo que ele me dissesse. E ele respondeu tudo enquanto escrevia, e sabe que o especial nem me olhou!?

Ficamos um tempo de mãos dadas, e então ele fez um pedido que resumia o que lhe bastava, agora que não havia o que mais esperar:

- Me consiga um lugar para a minha velha ficar aqui por perto. Esta cama é boa e me tratam bem, mas eu não quero morrer sozinho.

As prioridades que anunciamos para os últimos dias traduzirão linearmente o modelo de vida que vivemos ou ostentamos. Muitos de nós pensamos felicidade com exigências que não correspondem às aspirações das pessoas comuns. Alguns anos atrás, a propósito do título de um dos meus livros, duas repórteres fizeram uma pesquisa entrevistando pessoas na rua com a pergunta "do que você precisa para ser feliz?". Ninguém disse que gostaria de ser feliz se tornando famoso ou ganhando na loteria. Ter saúde, um emprego que permitisse dar segurança à família, poder encaminhar os filhos para uma vida digna, isso já seria mais do que suficiente. Houve até um negro velho, cabeça grisalha, com uma cara boa, dessas que sempre me dá vontade de passar a mão, que confessou estar pronto para ser feliz, mas se pudesse fazer um pedido bem simples, seria convencer a negra velha a não lhe encher tanto o saco.

Certamente, se essa mesma pesquisa fosse levada à classe mais alta da sociedade, o índice de satisfação seria muito mais baixo. E o rol de necessidades para uma pretensa felicidade infinitamente maior na comparação com as pessoas mais humildes, que se contentam com o que têm, porque nunca tiveram a possibilidade nem de imaginar o que seria possível ter.

Aparentemente, de tanto querer o desnecessário, acabamos perdendo o que sempre esteve ao alcance da mão, mas que por estar assim, oferecido, foi ignorado. Isso também ocorre no plano material, onde coisas não necessariamente melhores despertam a cobiça dos consumistas, simplesmente por serem mais caras.

Na essência, o pequeno percentual da população que tem acesso a todas as portas que a riqueza abre espontaneamente está contaminado por dois paraefeitos acoplados à ambição: a insaciedade e a comparação. Infelizmente, quem fizer da vida a busca da superação nesses dois quesitos poderá até despertar a inveja dos incautos, mas intimamente, se viver o suficiente, lamentará o equívoco na escolha das prioridades.

Com o mundo repleto de exemplos, parece recomendável que se quisermos monitorar o nosso projeto de vida como gerador potencial de felicidade, temos que incluir humanismo nesta checklist. As figuras mais reverenciáveis da história sempre foram identificados pela preocupação com o outro. Enquanto os ególatras, enclausurados na redoma da autossuficiência, podem até ter angariado riquezas, mas experimentarão no fim da vida a amargura da solidão plena, aquela que ainda consegue ser requintada pela companhia mal disfarçada dos interesseiros.

J.J. CAMARGO

14 DE MAIO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

CAMPEÕES DA SUPERAÇÃO

Encerra-se neste fim de semana, em Caxias do Sul, a 24ª edição das Surdolimpíadas. Muito além do caráter competitivo, o evento realizado pela primeira vez na América Latina deixa como grande legado a confirmação da força do esporte como elemento de inclusão e de integração entre os povos. Foram 15 dias de intensa e rica convivência entre atletas, demais membros das delegações, voluntários e a comunidade da Serra.

Mais do que por medalhas e marcas batidas, sempre importantes para os desportistas, o evento será lembrado no Rio Grande do Sul pelas belas histórias de superação dos participantes, pessoas surdas ou com perdas auditivas que, ao longo da vida, souberam vencer os obstáculos da limitação. São inúmeros atletas com trajetória de grande perseverança, como a da brasileira mesatenista que, além de não ouvir, era a única participante com Síndrome de Down, ou a do corredor, órfão na infância, que chegou a ser morador de rua e encontrou no atletismo a razão para perseverar e retomar uma vida com dignidade.

Carrega ainda grande simbolismo o fato de o quadro de medalhas ser liderado pela Ucrânia. Com a nação em guerra devido à invasão russa, muitos atletas acabaram acolhidos por outras federações para treinarem e estarem aptos para a competição, ao mesmo tempo que mantinham a aflição com conhecidos e familiares que permaneceram em território ucraniano. Mais um eloquente exemplo de solidariedade e prova de que o espírito olímpico pode estar acima da disputa por um lugar no pódio.

As Surdolimpíadas foram realizadas pela primeira vez em Paris, em 1924. São consideradas pioneiras no mundo como evento esportivo internacional para pessoas com necessidades especiais. Costumam ocorrer a cada quatro anos. Originalmente deveriam ter sido realizadas em 2021, mas acabaram adiadas devido à pandemia. Sete países cogitados optaram por não receber a competição. A vinda para o Rio Grande do Sul é resultado da obstinação do caxiense Gustavo Perazzolo, atual presidente do Comitê Internacional de Esportes para Surdos (ICSD).

Os números falam por si e dão a dimensão da relevância das Surdolimpíadas na Serra. São 77 países, com 4,2 mil atletas (sendo 199 brasileiros, entre eles 45 gaúchos) que disputaram 20 modalidades e movimentaram não apenas Caxias, mas outras cidades da região nas últimas duas semanas. Mais 250 voluntários e 30 intérpretes completam o mutirão esportivo que está prestes a chegar ao fim, de forma amplamente exitosa. O fim de semana terá as últimas medalhas em disputa e será a derradeira oportunidade para o público comparecer, vibrar e se emocionar com todos os atletas que, no pódio de suas modalidades ou não, merecem efusivos aplausos por serem verdadeiros campeões da superação.

OPINIÃO DA RBS

14 DE MAIO DE 2022
DIÁRIOS DO MUNDO

Turquia se opõe ao ingresso de Finlândia e Suécia na Otan

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, disse na sexta-feira que a Turquia não é a favor das adesões de Finlândia e Suécia à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

- Não temos uma opinião positiva. Os países escandinavos são uma casa de hóspedes para organizações terroristas - disse.

O presidente referia-se a integrantes do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), considerado grupo "terrorista" pela Turquia. Erdogan afirmou que não quer que se repita "o mesmo erro que foi cometido com a adesão da Grécia", país com o qual a Turquia tem fortes tensões.

Trata-se da primeira voz dissonante na Otan sobre a possibilidade de Finlândia e Suécia aderirem à aliança militar. Desde o início da guerra no Leste Europeu, a Turquia tem feito o possível para manter boas relações tanto com Ucrânia quanto com Rússia, dos quais sua economia depende muito.

Para um novo membro ser aceito na Otan, é preciso que os parlamentos de todos os integrantes aprovem a medida. Uma rejeição travaria o mecanismo.

Na sexta-feira, um relatório oficial da Suécia foi anunciado, citando vantagens de uma aderência à Otan, o que pavimenta o caminho para a candidatura. Neste domingo, o Partido Social-Democrata sueco deve se pronunciar sobre a candidatura. Seu apoio eliminaria o último obstáculo significativo.

RODRIGO LOPES


14 DE MAIO DE 2022
+ ECONOMIA

Palazzo para viver fora do tempo

A coluna retoma a seção interrompida na semana passada pela necessidade de atenção - e espaço - ao South Summit. Desta vez, o foco está na Vila Evangelista, entre os municípios de Serafina Corrêa e Casca, a 154 quilômetros de Porto Alegre. Lá, um Palazzo Veneto propõe experiência de hospedagem, gastronomia e vinhos em um só lugar.

Prestes a completar um ano de abertura do projeto, Adelar Mariussi conta que nasceu da ideia de preservar a história dos imigrantes italianos e poloneses, além de estimular o potencial turístico da região:

- Estamos no começo ao que se refere ao turismo, o pessoal ainda está ?descobrindo? a região. Evangelista tem cenário que permite viagem no tempo, para conhecer costumes, paisagem e arquitetura.

Antes de prosseguir, a coluna esclarece: em italiano "palazzo" significa prédio, edificação, não "palácio", como a grafia sugere. Então, não espere instalações luxuosas. Trata-se de uma referência aos prédios toscanos com mais personalidade do que sofisticação.

Para receber os hóspedes, há quatro opções de chalé: Veneza, Pádua, Treviso e Verona, nomes de cidades dessa região da Itália. A diária para casal custa R$ 650, aos sábados, e R$ 600 nos outros dias da semana, nos dois casos com café da manhã.

Além da hospedagem, outra atração é o restaurante, chamado Cantina. Funciona aos sábados, a partir das 19h30min e tem menu composto por 30 pratos típicos, acompanhados por 40 rótulos nacionais e internacionais de bebidas. Há uma sequência de quatro pratos por R$ 165, e outra de três, por R$135. O estabelecimento também reserva o espaço para eventos de 70 a 120 pessoas.

O local ainda vende três variedades de vinho: cabernet, teroldego (casta originária de Trentino Alto Adige, região no norte da Itália) e rebo (variedade criada de cruzamento entre merlot e teroldego). São produzidos por vinícola familiar parceira e vendidos com o rótulo "da casa", o Nostra Firmata.

- Acreditamos na agricultura sustentável orgânica, na valorização dos produtores locais e no consumo consciente. Queremos que nossos visitantes tenham contato com a história do lugar e levem consigo um pouco da nossa cultura - pontua.

Desde 2019, a Vila Evangelista faz parte da Rota Regional - Caminhos Integrados. Ou seja, inclui a possibilidade de conhecer outros estabelecimentos e fazer outras visitas. O projeto oferece passeios guiados a cascatas, trilhas ecológicas, caronas de trator e visita ao Museu Luigi Pinzetta.

A iniciativa é dos municípios de Casca, Serafina Corrêa, Guaporé, Dois Lajeados e Vista Alegre do Prata. Para reservar e conhecer detalhes da rota, o contato do Palazzo Veneto é (54) 99956-1641.

MARTA SFREDO

14 DE MAIO DE 2022
ECONOMIA

Há seis anos fila do desemprego passa de 10 milhões de pessoas

Montante foi atingido em 2016. Hoje, 11,9 milhões de brasileiros, mais do que a população do RS, buscam vaga no mercado

A estabilidade da taxa de desocupação no país, em 11,1%, e em quase todos os Estados nos primeiros três meses do ano, reforça a persistência de um cenário desanimador enfrentado pelos brasileiros há exatos seis anos: a convivência com altos níveis de desemprego. Agora, são 11,9 milhões de pessoas fora do mercado de trabalho, o que equivale a pouco mais da totalidade da população do Rio Grande do Sul.

Os dados coletados entre janeiro e março de 2022 pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados na sexta-feira, não demonstram, na avaliação de muitos especialistas, a estabilidade dos saldos de vagas em território nacional ou a volta aos patamares pré-pandemia. Pelo contrário, apontam, sim, para a permanência de um quadro de estagnação que impede a acomodação de mais de 10 milhões de pessoas no mercado de trabalho e amplia os efeitos da retração para a economia.

Esse é o contingente de cidadãos que vive às margens do emprego no Brasil desde o primeiro trimestre de 2016. E, mesmo com algumas oscilações nas últimas amostragens do ano passado, de acordo com o coordenador da PNAD/IBGE no RS, Walter Rodrigues, chegar ao nível anterior ao da pandemia, em 2019, não pode "ser considerado um grande feito". Ele justifica a afirmação pela correlação estreita entre desemprego e produção:

- Vivemos um ciclo negativo: se a situação está ruim nos empregos, a população tem menos poder aquisitivo. Isso faz com que a economia não cresça. Uma economia que não cresce não contrata e ingressa-se num processo de retroalimentação desse mesmo ciclo.

Em meio ao espiral de problemas, Rodrigues destaca um fenômeno que também é bastante típico do Rio Grande do Sul. Trata-se da escalada de postos gerados na subcategoria dos trabalhadores por conta própria, ou os informais. Segundo ele, percebe- se, a partir de 2021, uma recuperação, "que inicialmente poderia parecer positiva", mas foi centralizada nesses grupos, isto é, os que recebem as piores remunerações.

Entre as causas, ele aponta a rápida saída do mercado de trabalho das pessoas que ganhavam menos, na pandemia. E acrescenta: rendimentos médios experimentaram elevação por período restrito, "pois os que recebiam menos deixaram de puxar a média salarial para baixo".

A partir do ano passado, diz Rodrigues, a curva inverteu. Informais retornaram e, outra vez, achataram os cálculos salariais. Esse é um dos fatores que levaram o rendimento médio apurado, de janeiro a março, ao patamar de R$ 2.548. Apesar do aumento de 1,5% em relação ao último trimestre de 2021 (R$ 2.510), a cifra é 8,7% inferior à registrada em igual período do ano passado (R$ 2.789).

 RAFAEL VIGNA


14 DE MAIO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

CAMPEÕES DA SUPERAÇÃO

Encerra-se neste fim de semana, em Caxias do Sul, a 24ª edição das Surdolimpíadas. Muito além do caráter competitivo, o evento realizado pela primeira vez na América Latina deixa como grande legado a confirmação da força do esporte como elemento de inclusão e de integração entre os povos. Foram 15 dias de intensa e rica convivência entre atletas, demais membros das delegações, voluntários e a comunidade da Serra.

Mais do que por medalhas e marcas batidas, sempre importantes para os desportistas, o evento será lembrado no Rio Grande do Sul pelas belas histórias de superação dos participantes, pessoas surdas ou com perdas auditivas que, ao longo da vida, souberam vencer os obstáculos da limitação. São inúmeros atletas com trajetória de grande perseverança, como a da brasileira mesatenista que, além de não ouvir, era a única participante com Síndrome de Down, ou a do corredor, órfão na infância, que chegou a ser morador de rua e encontrou no atletismo a razão para perseverar e retomar uma vida com dignidade.

Carrega ainda grande simbolismo o fato de o quadro de medalhas ser liderado pela Ucrânia. Com a nação em guerra devido à invasão russa, muitos atletas acabaram acolhidos por outras federações para treinarem e estarem aptos para a competição, ao mesmo tempo que mantinham a aflição com conhecidos e familiares que permaneceram em território ucraniano. Mais um eloquente exemplo de solidariedade e prova de que o espírito olímpico pode estar acima da disputa por um lugar no pódio.

As Surdolimpíadas foram realizadas pela primeira vez em Paris, em 1924. São consideradas pioneiras no mundo como evento esportivo internacional para pessoas com necessidades especiais. Costumam ocorrer a cada quatro anos. Originalmente deveriam ter sido realizadas em 2021, mas acabaram adiadas devido à pandemia. Sete países cogitados optaram por não receber a competição. A vinda para o Rio Grande do Sul é resultado da obstinação do caxiense Gustavo Perazzolo, atual presidente do Comitê Internacional de Esportes para Surdos (ICSD).

Os números falam por si e dão a dimensão da relevância das Surdolimpíadas na Serra. São 77 países, com 4,2 mil atletas (sendo 199 brasileiros, entre eles 45 gaúchos) que disputaram 20 modalidades e movimentaram não apenas Caxias, mas outras cidades da região nas últimas duas semanas. Mais 250 voluntários e 30 intérpretes completam o mutirão esportivo que está prestes a chegar ao fim, de forma amplamente exitosa. O fim de semana terá as últimas medalhas em disputa e será a derradeira oportunidade para o público comparecer, vibrar e se emocionar com todos os atletas que, no pódio de suas modalidades ou não, merecem efusivos aplausos por serem verdadeiros campeões da superação.

OPINIÃO DA RBS

14 DE MAIO DE 2022
INFORME ESPECIAL

Quem pagará pelas escolas fechadas

A cada dia que passa, vêm à luz do sol os efeitos ruinosos a mais secreta de todas as tragédias sociais que este país já teve em sua história moderna: o fechamento, por quase dois anos seguidos, das escolas, sobretudo as voltadas ao ensino público.

Poucos desvarios terão um preço tão alto para o Brasil quanto esse crime legal, praticado por governadores e por prefeitos nos tempos da covid – com a licença, o incentivo e a benção do Supremo Tribunal Federal.

Foram roubados das crianças brasileiras, para toda a vida, dois anos de aprendizado, e esse roubo não pode ser ressarcido; não há seguro para tal tipo de perda. As vítimas sofrerão por causa disso, no seu dia a dia prático, até o fim das suas vidas.

Ficou combinado na mídia, na vida política e nas classes intelectuais que não se fala dessa tragédia – o que permite, naturalmente, que os responsáveis por ela não se sintam incomodados com o desastre que criaram.

Ao contrário: quando tocam hoje no assunto, para denunciar “o descalabro da educação no governo Bolsonaro”, falam como se não tivessem nada a ver com a catástrofe que está aí. É a hipocrisia levada aos seus extremos.

A esquerda foi a grande fornecedora da ideologia que sustentou essa calamidade, e agiu assim unicamente porque o presidente da República estava do outro lado. Agora, com a casa no chão, vem fazer de conta que está preocupada com o problema.

A esquerda, que não fala em outra coisa a não ser na eliminação da pobreza no Brasil, agiu a favor da perpetuação das suas causas. É absolutamente simples: ignorância é miséria.

Quando se leva em conta que o começo, o meio e o fim do problema social do Brasil estão no baixo nível da educação pública, que priva a população pobre da única saída real para a pobreza – a aquisição de conhecimento – fica evidente o tamanho da agressão social contra os pobres que foi feita com o fechamento das escolas.

Os pobres não saem da pobreza com “políticas sociais”. Só têm alguma chance de melhorar de vida quando adquirem conhecimentos que lhes deem a oportunidade de subir no mercado de trabalho. Perder dois anos de escola foi o que se podia fazer de mais eficaz para reduzir essas oportunidades.

Adversários ferozes da volta às aulas, na ânsia de ficar ao lado dos professores sindicalistas-grevistas e contra o “genocídio” do governo, dizem hoje que lutaram pela “volta segura” às salas de aula. É mentira. Lutaram, na vida real, para manter as escolas fechadas pelo período de tempo mais longo possível.

Na verdade, os fechadores de classes ficam piores com a proximidade das eleições. Prometem agora, e como sempre, “mais investimentos para a educação” – seu candidato, aliás, diz que vai acabar com a obrigação de respeitar o teto de gastos públicos para “investir” em escolas que, até outro dia, seu partido exigia que estivessem fechadas. A tragédia continua do mesmo tamanho, com viés de piora.

 Conteúdo distribuído por Gazeta do Povo Vozes - J.R. GUZZO


14 DE MAIO DE 2022
PAULO GERMANO

Deus existe?

Escrevi esses tempos que a verdade é a verdade e acabou. Quer dizer: não existe isso de "cada um tem a sua verdade". Cada um pode ter sua opinião sobre uma verdade, claro, mas a verdade em si, por definição, é indiscutível - porque ela é justamente o que não pode ser posto em dúvida. Ela é o retrato inquestionável dos fatos, ela é inegociável, ela é absoluta. Ela é a verdade.

Por exemplo: Paulo Germano é jornalista. Isso é uma verdade, não há como discutir, eu realmente me formei em jornalismo e exerço a profissão. Agora, se sou bom ou mau jornalista, aí é uma avaliação de cada um.

Dito isso, bem, existem casos em que a verdade ainda não apareceu. Nem a ciência, nem a polícia, nem o jornalismo, nem qualquer estudo, auditoria ou investigação foram capazes até hoje de revelar a verdade sobre determinados temas. Deus é um bom exemplo. Qual é a verdade sobre Ele? Um dia, quando entrevistei para Zero Hora o padre Fábio de Melo, perguntei-lhe exatamente isso:

- Como o senhor tem certeza de que Deus existe?

E ele respondeu que, "se tivesse certeza, não precisaria ter fé".

- A experiência da fé nos dispensa das certezas - sorriu o padre. - Fé é confiança, não é certeza. É o que você pode experimentar, por exemplo, como filho. Você tem certeza do amor da sua mãe?

- Claro que tenho - respondi depressa. - E você tem provas científicas desse amor por você?

- Não...- Mas você confia. Você acredita. E basta.

Achei perfeito. Por isso as pessoas dizem "eu acredito em Deus". Porque acreditam que essa seja a verdade. Se houvesse plena convicção sobre a verdade, não faria sentido "acreditar" nela. Uma pessoa só acredita naquilo que julga provável, aceitável, possível, mas a verdade NÃO é isso. A verdade é irrefutável. A verdade é.

Talvez por isso, por considerar falaciosa a conversa de "cada um tem a sua verdade", uma das grandes inquietudes da minha vida se refira justamente a essa pergunta: Deus existe?

- Não há nenhuma evidência concreta disso - ouço dos ateus e até concordo, mas logo vem o adendo: - Quem acredita nele é que precisa provar.

Mas desde quando quem sente algo precisa provar qualquer coisa? Se uma pessoa de fato sente a existência de Deus - como sinto o amor da minha mãe -, quem sou eu para contestá-la? Ora, vai ver Ele existe. Só que alguns fiéis desaforados, tentando impor sua fé como verdade, preferem desdenhar:

- Você aceitará Deus quando realmente precisar dele.

Olha, já precisei dele uma meia dúzia de vezes e não creio que um momento de extrema dor ou desespero seja o mais indicado para avaliações sensatas. Nem o mais indicado para encontrar a verdade.

E o fato é que essa verdade a humanidade não vai descobrir. O máximo a que podemos chegar é "acreditar" na existência de Deus - ou não acreditar também. Paciência. Talvez o que importe, mesmo, seja o que o padre Fábio de Melo me disse ao final daquela entrevista:

- Conheço muitos ateus que agem como se tivessem Deus no coração. No fim, é isso o que Ele quer.

INTERINO