sábado, 26 de novembro de 2022


26 DE NOVEMBRO DE 2022
CARPINEJAR

A vida cabe em um Fusca

Beatriz iria até a igreja com o clássico Chevrolet Bel Air vermelho e branco, ano 1956. Noivo nunca se preocupa em como chegará a seu casamento. É capaz de aparecer de táxi ou de Uber. Eu não queria isso para mim. Desejava que um amigo me levasse. Um segundo pai. Um irmão de jornada. E também que o veículo tivesse conexão com a minha história.

Lembrei-me do fotógrafo Nauro Júnior e seu Fusca azul-pastel chamado Segundinho, de 1968. Eu aprendi a dirigir num Fusca. Minha primeira saída oficial com habilitação foi dentro de um Fusca, morrendo de nervosismo e aguentando cinco amigos de carona que davam palpite.

Eu sonhava com aquele barulho cardíaco e tranquilizador do motor em meu trajeto até o altar. Seria o encontro da minha emancipação da adolescência com a maturidade do amor. Só que havia um problema. Nauro morava em Pelotas, e o matrimônio aconteceria na terra de minha noiva, Belo Horizonte, na Basílica Nossa Senhora de Lourdes.

Falei para Nauro da minha vontade mais como um capricho do que como algo realmente possível. Não é que o louco disse "sim"? - Vou até aí! Pode me esperar. É o meu presente de casamento.

Com a sua boina, com a sua camisa xadrez por cima da camiseta básica, com a sua barba rala, com o seu sotaque platino, percorreu 4 mil quilômetros por mim (ida e volta), dirigindo por nove dias de forma ininterrupta, para andar apenas oito quarteirões da capital mineira.

Não reclamou do cansaço, não cobrou gasolina, não estabeleceu nenhuma exigência. Não falou que o motor fundiu em Pouso Alegre e que teve que ressuscitá-lo numa oficina mecânica às margens da estrada, obrigado a pernoitar na Fernão Dias. Não me repassou nenhum problema ou adversidade. Não se envaideceu com o heroísmo do sacrifício.

Foi uma prova de lealdade silenciosa, como deve ser toda manifestação de mais pura da amizade. Essa é uma das peripécias do livro A Vida Cabe em um Fusca (www.expedicaofuscamerica.com.br), que Nauro Júnior acaba de publicar pelo seu selo Satolep Press. Sua carona foi terapêutica para aplacar a minha ansiedade. Eu sempre dizia que casar no religioso era para a existência inteira - tanto que entrei na basílica de bengala, assumindo o voto de envelhecer junto.

Nauro sabia da seriedade da minha decisão, percebia que eu havia escolhido uma parceira da alegria e da tristeza, e me apoiou incondicionalmente. Além de ser um excelente narrador, Nauro é um pescador: puxa a melhor versão do outro no oceano das palavras.

Ele não me lançou piadas terroristas, perguntando se eu tinha certeza ou avisando que havia tempo para fugir. Pelo contrário, rimos muito na véspera do casório porque ele exaltou a minha coragem de ser feliz. Ainda tive a chance de trocar as marchas na reta final do percurso.

Na chuva de arroz, não pude deixar de desferir um olhar irônico para Beatriz quando notei que o Fusca fez mais sucesso entre os convidados do que seu possante, charmoso e caro Bel Air. Já estávamos nos provocando, portanto já estávamos casados.

CARPINEJAR


26 DE NOVEMBRO DE 2022
FLÁVIO TAVARES

A TRAGÉDIA PRESENTE

Faltam adjetivos para definir o erro do Legislativo gaúcho ao alterar a chamada Lei Kiss com o fim de facilitar a concessão de alvarás do Corpo de Bombeiros para 991 diferentes atividades empresariais. Chame-se irresponsabilidade, absurdo, insensibilidade, cegueira ou o que for, tudo será pouco e parco para qualificar a decisão.

A tragédia da boate Kiss, anos atrás em Santa Maria, com 242 mortos e centenas de sequelados, foi esquecida por nossos deputados? Por 39 votos a sete, em debates sumários devido à "urgência", mudaram a lei vigente após a tragédia de Santa Maria. Só PT e PSol votaram contra. Daqui em diante, bastará apenas uma autodeclaração dos empreendedores pela internet afirmando que a atividade é segura e sem risco de incêndio.

O líder do governo no Legislativo, deputado Mateus Wesp (PSDB), vangloriou-se de que, com a alteração, "será possível abrir uma empresa em 10 minutos". Não é essa urgência, porém, que prevalece em casos de risco de incêndio. Na boate Kiss, em 10 minutos o fogaréu já asfixiava e matava?

A alteração da Lei Kiss relegou o Corpo de Bombeiros a plano inferior e fez dele simples burocracia, que, sem inspeção, atuará só pelo que disser a tal da autodeclaração recebida no computador. Indago: quem irá classificar sua própria atividade como "de alto risco" de incêndio?

Em Santa Maria, nem a banda que ateou fogo queria incendiar e matar.

A tragédia está presente até no futebol da Copa do Mundo, como no caso das ex-campeãs Argentina e Alemanha. A Seleção do Brasil estreou vencendo, mas guardo ainda na memória a tristeza de 16 de julho de 1950 na derrota final, no Maracanã, ante o Uruguai.

Após a derrota, dois desastres aéreos aterrorizaram o Rio Grande. Ainda sem radar, o Constellation da Panair bateu no Morro do Chapéu, em Sapucaia, e morreram 59 pessoas. Dois dias após, o avião em que viajava Salgado Filho, candidato a governador, caiu na fronteira, matando passageiros e tripulantes.

Mas nem isso superou o trauma da derrota no Maracanã. Anos depois, o capitão dos uruguaios, Obdúlio Varela, contou-me que, após o jogo, foi conhecer Copacabana e viu as pessoas chorando nas ruas: "Para acalmar o pranto, tive vontade, até, de entregar a taça Jules Rimet à Seleção do Brasil", disse-me ele.

FLÁVIO TAVARES

26 DE NOVEMBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

RUÍDOS E INDEFINIÇÕES

Começam a preocupar os ruídos e a articulação deficiente do governo eleito, o que tem levado a adiamentos na formulação do teor da chamada PEC da Transição. Era para proposta ser conhecida até a última quarta-feira, mas agora a previsão é a próxima terça-feira. Há claros problemas de articulação com o Congresso, ao mesmo tempo que transparecem divisões internas entre algumas das lideranças do PT mais próximas ao presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva.

As indefinições são sobre por quanto tempo o novo Bolsa Família poderá ficar excluído do teto de gastos e sobre o tamanho da licença de desembolsos que o novo governo terá em 2023. Ao que parece, o prazo não será indeterminado, como Lula gostaria, tampouco o extrateto será de R$ 200 bilhões. As hesitações atrasam definições importantes e alimentam o nervosismo no mercado financeiro, como o movimento de alta observado nos juros futuros nos últimos dias devido às interpretações de que o Banco Central poderá ter de continuar a elevar a Taxa Selic, o que seria péssimo para a economia, para os investimentos produtivos, para o crédito e para os endividados.

Um sinal de falta de alinhamento interno foi a troca de cobranças entre o senador Jaques Wagner (PT-BA), articulador político do governo eleito, e a presidente do PT, Gleisi Hoffman. O parlamentar disse que a falta de indicação do novo ministro da Fazenda atrapalha as negociações no Congresso e foi rebatido pela dirigente. Para Gleisi, é a falta de articulação adequada no Senado o principal entrave para a PEC.

Em meio à indefinição e diante das resistências do parlamento, voltou a ser cogitada a possibilidade de uma medida provisória liberando crédito extraordinário para assegurar o Bolsa Família no valor de R$ 600. Resta saber se essa hipótese é de fato um plano B, um balão de ensaio ou indício de inexistência de clareza sobre o melhor caminho para cumprir uma das principais promessas de campanha de Lula.

Uma definição seria facilitada, sem dúvida, se o Congresso e o mercado já conhecessem o futuro ministro da Fazenda e ao menos parte do primeiro escalão da equipe econômica. Um time que mesclasse credibilidade com boa capacidade de articulação política facilitaria a costura de um acordo com os parlamentares. 

Nomes que gerassem confiança e acenassem na direção da manutenção da austeridade, sem abrir mão dos compromissos sociais, por certo fariam com que deputados e senadores fossem um pouco mais condescendentes com as demandas do futuro governo. Sem esquecer que, junto a isso, deveria ser reforçado o comprometimento com a apresentação de uma proposta para ser a nova âncora fiscal do país devido à intenção repetida de Lula de substituir o teto de gastos.

Há 20 anos, durante a transição para o primeiro governo Lula, a esta altura do calendário, o então futuro ministro da Fazenda, Antonio Palocci, estava confirmado no cargo. Dava as cartas e centralizava a comunicação sobre política econômica, evitando a vocalização de visões distintas por diferentes integrantes da futura gestão e acalmando o mercado. Outras pastas importantes, como a Casa Civil, também já estavam definidas. 

Mesmo sem ser o preferido do mercado, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) desponta como favorito para a Fazenda. Uma possibilidade de dobradinha com o economista Pérsio Arida no Planejamento animou os investidores na quinta-feira, mas na sexta-feira Haddad esteve em um encontro com banqueiros e não empolgou os ouvintes. Quem bate o martelo, de qualquer forma, permanece silente. Em tempos de Copa do Mundo, já passou da hora de Lula começar a distribuir as camisetas, especialmente nas principais posições de seu time. 


26 DE NOVEMBRO DE 2022
+ ECONOMIA

PEC da Black Friday: dobro para metade

Desde que não se cite a fonte, aliados do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, admitem que a PEC da Transição de até R$ 198 bilhões de gastos fora do teto no orçamento de 2023 é a famosa estratégia de pedir o dobro para levar metade. Parece a antiga definição da Black Friday, que ofereceria produtos pela metade do dobro. O argumento de quem assegura que não chegará a tanto é o passado sindical de Lula.

Ao lidar com o Congresso, da mesma forma que fazia com os empregadores em negociações salariais, Lula não pede o 100 que deseja, por saber que vai levar 50. A intenção seria pedir 200 para garantir 120.

Para tentar acelerar a PEC, não se descarta fusão com a proposta encampada pelo senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), com autorização para gastos extras, dentro do teto, de R$ 78,6 bilhões. A intenção é buscar um meio-termo entre esse valor, tido como "insuficiente", e o original, considerado "excessivo".

é o valor em debêntures emitidos (títulos de dívida oferecidos para obter recursos) pela CEEE-G, dona de 15 hidrelétricas no Estado. A iniciativa é da CSN, que comprou a geradora por R$ 2,6 bilhões (R$ 928 milhões ao governo do RS, e R$ 1,94 bilhão à União pela outorga). A empresa se financia a partir do próprio ativo. As ações da CSN foram uma das poucas altas na bolsa.

Startup avança no RS

Startup do mercado imobiliário, a Loft passa a atuar em mais nove cidades do Estado: Bento Gonçalves, Canela, Capão da Canoa, Caxias do Sul, Gramado, Guaíba, Lajeado, Santa Maria e Torres. Com esse desembarque, já está em 17 municípios gaúchos.

A empresa projeta que o número de imóveis anunciados para venda no marketplace da sua plataforma chegue a 115 mil até o fim do ano, dos quais cerca de 30 mil no Rio Grande do Sul.

- As expansões mais recentes, para Porto Alegre e Região Metropolitana, foram realizadas em parceria com imobiliárias. Esse modelo é escalável e eficiente. Aprendemos muito com essa experiência no Rio Grande do Sul, e esse conhecimento nos permitiu desenhar a onda de expansão, a maior já planejada pela empresa - explica Diogo Elias, vice-presidente de parcerias da Loft.

Nas novas praças, a Loft opera com imobiliárias locais. A startup firmou parcerias com nomes tradicionais nesses mercados, como Serra Prime, na Serra Gaúcha, e Muck, em Canoas. Ambas se juntam à Foxter e à Auxiliadora Predial, parceiras da Loft desde o início de sua atuação em Porto Alegre.

MARTA SFREDO

Se saísse o golpe

Esta crônica é uma obra de ficção, mas qualquer semelhança com a realidade não será mera coincidência.

"Iludidos com as multidões em verde-amarelo que tomam as ruas para celebrar o Hexa, um grupo de militares renegados desfecha uma quartelada. Atendendo ao clamor dos adoradores de muros de quartel, eles proclamam a manutenção de Jair Bolsonaro no poder, dissolvem os tribunais superiores, com a prisão de seus ministros, e preveem, talvez para dali a uns anos, eleições com voto em papel. A cúpula do governo eleito é levada para local ignorado.

Em questão de horas, os EUA, a Europa e toda a América Latina, à exceção do Paraguai, repudiam o golpe e anunciam sanções ao Brasil. O país fica isolado. A China começa a procurar novos fornecedores de alimentos. As contas no Exterior dos financiadores do golpe são bloqueadas. Os golpistas e seus apoiadores, identificados por manifestações em redes sociais, são proibidos de entrar nos EUA e na Europa.

Os presidentes da Câmara e do Senado se levantam contra a intentona e são destituídos, bem como todos os mandatos parlamentares até que, talvez, haja nova eleição. Com as cortes superiores fechadas e sitiadas, Judiciário e Ministério Público entram em colapso. A imprensa é sufocada. Sem os holofotes do jornalismo, a fiscalização do MP e a punição pela Justiça, bilhões são rapinados dos cofres públicos.

Em represália ao golpe, EUA e Europa congelam grande parte das reservas internacionais do Brasil. Os dólares oficiais somem e a cotação no paralelo salta para R$ 20. A inflação dispara, a Bolsa derrete. O país tem dificuldades para importar diesel. O transporte e o agronegócio operam aos solavancos. As prateleiras dos supermercados se esvaziam.

O novo regime só tem apoio firme dos ecocidas que querem fazer da Amazônia uma grande pastagem e de alguns pastores fanáticos. O Brasil vive dias de teocracia iraniana. Os muitos milhões que rejeitam o golpismo, e que até então olhavam para os grupos diante dos quartéis entre a indiferença e o desprezo, ocupam as ruas em gigantescos protestos. Repetições do episódio da Legalidade eclodem do Rio Grande do Sul ao Pará. O regime chama o Exército para reprimir as manifestações, mas os comandantes se negam a disparar contra civis desarmados. Massas famintas vagam pelas estradas e tentam sair do país. Os vizinhos, Venezuela inclusive, reforçam os controles nas fronteiras.

Com o caos generalizado, Bolsonaro foge para o Paraguai, onde é obrigado a conviver com Roberto Jefferson. O governo e o Congresso eleitos tomam posse, e os sediciosos que desencadearam o golpe são presos e condenados com base na Constituição. A paz e a ordem voltam a imperar, mas o país, destroçado, ainda levará anos para se recuperar".

Acordou? Era um pesadelo. Era?

MARCELO RECH

26 DE NOVEMBRO DE 2022
INFORME ESPECIAL

La Negra voa

Ana Medeiros dança com a alma. O olhar, a cadência, o bailado, tudo ali é ancestralidade, mas há algo mais na arte da bailarina chamada La Negra: o orgulho incontido de ser quem é e das barreiras que venceu para chegar onde chegou. Ana é um ícone do flamenco negro no Brasil e celebra 25 anos de carreira no palco (leia abaixo).

Nascida em Porto Alegre, a artista (nas fotos) perdeu a mãe ainda menina. Jamais esqueceu o som das castanholas (na imagem ao lado) vibrando nas mãos maternas. Mais tarde, voltou a ouvir o tilintar mágico do instrumento ao passar em frente à escola da coreógrafa Cadica Costa. Entrou e, mesmo sem dinheiro, ficou. Nunca mais deixou o tablado.

Entre ensaios, apresentações e novas parcerias, formou-se arquiteta. Não ergueu casas, mas seguiu concretizando sonhos. Em 2017, iniciou carreira solo, fundou a própria companhia de artes na Capital e deu asas a um estilo só seu - a começar pelo cabelo crespo e retinto que, enfim, parou de esconder. Foi o suficiente para que ela conhecesse a face brutal e dura do racismo.

- Ali entendi, de fato, o que é o preconceito - recorda Ana.

Respondeu à discriminação com talento, cabeça erguida e dedicação. Tornou-se a primeira concertista de castanholas a gravar um álbum no Rio Grande do Sul, acolheu bailarinas pretas e reverberou a luta antirracista em suas criações. Em 2021, arrebatou o Prêmio Açorianos de Dança com o espetáculo Flamenco Negro.

Agora, prepara mais um show, inspirado em versos do poeta francês Charles Baudelaire, que traduzem uma nova fase na vida da bailarina acostumada a pisar sobre espinhos. La Negra voa.

Elevación

O espetáculo Elevación, 25 Anos de Carreira de La Negra, será apresentado nesta quarta-feira, às 21h, no Theatro São Pedro (que aparece nas fotos), em Porto Alegre, com convidados especiais e direção artística de Everson Silva. Ingressos em teatrosaopedro.rs.gov.br.

É um sonho de criança realizado.

RICHARLISON

Centroavante da Seleção Brasileira, autor dos dois gols da vitória da equipe na estreia na Copa do Catar.

Minha dor é muito grande. Nem sei como dizer tudo o que eu penso desse meu amigo querido, meu grande irmão, meu ídolo.

ROBERTO CARLOS

Cantor, lamentando a morte de seu parceiro, Erasmo Carlos.

Aqui no Catar tomando sol escondida, porque na rua só com muita roupa mesmo, nada de fora.

GRETCHEN

Cantora, que está no país da Copa, divertiu seus seguidores nas redes sociais ao postar uma foto de biquíni, lembrando as regras locais rígidas para as mulheres.

É um golpe muito duro.

LIONEL MESSI

Craque argentino, após a derrota na estreia da Copa para a Arábia Saudita.

Acho que tem tudo para ter uma harmonia com o governo Lula, uma relação muito boa.

ILAN GOLDFAJN

Economista, primeiro brasileiro eleito para a presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), dizendo que as agendas da instituição e da gestão petista são parecidas.

Nossa luta em Brasília é para que essas prerrogativas permanecem, cresçam, para que se chegue no limite constitucional e não se avance um milímetro e nem também se recue um milímetro.

ARTHUR LIRA

Presidente da Câmara, indicando que não abrirá mão do chamado orçamento secreto, controlado pelo Congresso.

Está faltando articulação política no Senado, por isso acho que nós travamos na PEC. Não é falta de ministro.

Gleisi Hoffmann

Presidente do PT, rebatendo afirmação do senador e correligionário Jaques Wagner, de que está faltando um "ministro da Fazenda" para facilitar o andamento da PEC da Transição.

Bailarinas e sua arte foram alvo do interesse de grandes pintores, em especial de dois franceses contemporâneos: Edgar Degas e Henri de Toulouse-Lautrec. Cada um a seu modo retratou a plasticidade das figuras quase etéreas. Na obra ao lado, intitulada A Dançarina Espanhola,Toulouse-Lautrec (conhecido por pintar a vida boêmia de Paris do fim do século 19) delineou uma jovem de flores no cabelo que mais parece flutuar, tamanha a leveza dos traços. A tela foi elaborada entre 1883 e 1885 e hoje está resguardada no Van Gogh Museum, em Amsterdam, nos Países Baixos.

JULIANA BUBLITZ

segunda-feira, 21 de novembro de 2022


21 DE NOVEMBRO DE 2022
CARPINEJAR

Admiração eleva a libido

A apresentadora Bela Gil trouxe o termo à baila: sapiossexual. Ou seja, aquele que é atraído sexualmente por quem é inteligente. Ela confessou que o senso de beleza dela está vinculado ao intelecto. Não se vê enfeitiçada por um rosto simétrico e perfeito, ou por um corpo escultural, mas por um cérebro atuante. Pela capacidade de produzir sinapses, elaborar histórias e encantar com as palavras.

Ela não deixa de ter razão. A razão é fundamental para o desejo. A sensualidade reside na admiração. Em ter o outro como exemplo de conduta. Admiramos a quem nos convida ao desconhecido, ao maravilhoso, ao inesquecível.

Admirar é ter orgulho de quem nos acompanha, das estradas escolhidas. Admirar não é se achar inferior, mas tão poderoso quanto. É influenciar e ser influenciado. Quando a admiração enfraquece, restam o ciúme, a manipulação e a possessividade.

Ao amar, você transmite o legado de seu conhecimento. Suas mãos têm na ponta dos dedos os lugares que visitou, os livros que leu, os discos que ouviu, as pessoas que conheceu, os idiomas que aprendeu. Você busca ser desafiado a evoluir, a melhorar, a superar seus condicionamentos. A sabedoria não pode ficar de fora do envolvimento, a cultura não pode ficar de fora do carinho e do toque.

É um empecilho ao prazer a ignorância, a grosseria, a piada preconceituosa, a falta de curiosidade, a preguiça de acompanhar legendas, a completa ausência de uma biblioteca.

Restrito à aparência, você estará fadado a uma relação superficial. Não deve estar com alguém apenas pelo tesão físico, não terá o que conversar depois. Dependemos, sobretudo, para a longevidade dos laços, de um tesão intelectual, de uma fome mútua de viver, de um magnetismo afetivo, de uma cumplicidade de projetos e planos. Os egos não se encaixam, as almas, sim.

Se ficar com quem não gosta de pensar, essa pessoa jamais vai incentivar o seu crescimento profissional, o seu permanente estudo, a sua liberdade aventureira de buscar novos espaços de realização pessoal. Irá se satisfazer com a sua atrofia na mesmice. Talvez boicote qualquer aspiração antiga ou sonho engavetado.

Se ficar com quem não gosta de trocar ideias, sofrerá o constrangimento de perguntar a toda hora o que ele tem em mente. Conviverá com um fantasma mudo na frente do celular, da TV, do computador. Os diálogos serão abruptos e difíceis. Se ficar com quem não tem introspeção ou mundo interior, passará a ser recriminado no momento de experimentar tristezas e crises de consciência. Não existirá folga para as lágrimas, para refletir sobre a própria condição.

Se ficar com quem é linear, não poderá partilhar suas fantasias. Serão ameaças perante uma realidade empobrecida. O que mobiliza a pele não é o movimento do quadril, porém o que é dito no ouvido, e como é dito. Quando alguém fala bonito, você se sente bonito. A gentileza faz com que você se enxergue amado, feliz, atraente.

Todos nós temos lacunas de aprendizado, a questão é não querer aprender. Isso é broxante.

CARPINEJAR

sábado, 19 de novembro de 2022


19 DE NOVEMBRO DE 2022
FÍNDI DO CLUBE DO ASSINANTE

Musical "A Bela e a Fera" promete encantar a Capital

A noite de sábado será de pura magia no Ginásio Gigantinho (Av. Padre Cacique, 891). Mais de 40 artistas darão vida a A Bela e a Fera, o Espetáculo Musical, inspirado no clássico infantil que conta ainda com uma orquestra ao vivo. A sessão ocorre a partir das 17h.

A fábula francesa - que já foi adaptada em uma animação da Disney e, em 2017, em uma versão live-action estrelada por Emma Watson - conta a história de amor entre uma plebeia e um príncipe que foi enfeitiçado e transformado em Fera. A bondade de Bela a faz enxergar o lado humano da Fera, por quem se apaixona perdidamente, quebrando assim o feitiço.

Sob direção-geral de Bruno Rizzo, a apresentação é totalmente cantada ao vivo por um elenco que também dança e atua. A direção musical é do maestro Eduardo Pereira, enquanto Tatiana Abbiati assina as coreografias e Ewerton Novaes é responsável pelo elenco. A produção é da BRZ Produções.

Em três anos, A Bela e a Fera, o Espetáculo Musical já foi assistido por mais de 250 mil pessoas e passou por mais de 70 cidades do Brasil, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Goiânia, Natal e outras. A turnê também já passou pelo Uruguai e pela Argentina.

Os ingressos ainda estão à venda e contam com 50% de desconto para sócios do Clube do Assinante em todos os setores. Os bilhetes inteiros custam R$ 80 (arquibancada), R$ 120 (cadeira inferior), R$ 160 (cadeira prata), R$ 180 (cadeira ouro), R$ 200 (cadeira platinum) e R$ 250 (cadeira diamante). As compras podem ser feitas pela internet, em diskingressos.com.br, mediante taxa, ou presencialmente, em unidades das Óticas Diniz no Bourbon Shopping Wallig, no Moinhos Shopping e no Praia de Belas Shopping, com taxas no pagamento via cartão e sem taxas no pagamento em dinheiro.


19 DE NOVEMBRO DE 2022
LEANDRO KARNAL

Os ingleses valorizam o termo fleumático. A palavra descreve alguém sem grandes oscilações emocionais, um pouco indiferente às adversidades cotidianas. Existe até uma expressão para falar de alguém com quem se pode contar em qualquer temperatura: a man for all seasons, ideia aplicada em peça e filme ao filósofo Thomas Morus.

Médicos antigos descreviam o temperamento baseados na teoria dos quatro humores básicos do corpo. Os humanos com mais fleuma seriam calmos, um pouco lerdos, imperturbáveis. Os tipos opostos seriam os sanguíneos e os coléricos. Para a cultura tradicional de um bretão, ser fleumático é uma virtude moral. Os hooligans, em eventos esportivos, mostram que ser tranquilo é um ideal cultural, mais do que uma realidade absoluta.

A cultura brasileira comporta maior tolerância com oscilações. Uma pessoa diz que viria a minha casa e manda mensagem dizendo que, "devido à chuva", mudou de ideia. Não havia cláusula pluviométrica no nosso combinado, todavia aceitamos que alguém possa "descombinar" o acertado - sem dramas profundos. Não sei qual líquido específico confere personalidade ao sistema circulatório brasileiro, apenas entendo que aceitamos muito a oscilação.

Há palavras que possuem data de nascimento no meu cérebro. Lembro-me de, em um e-mail, quando trabalhava para um banqueiro, ler o termo ciclotímico pela primeira vez. Não era uma análise psiquiátrica ou descrição de um distúrbio. Era apenas a advertência sobre uma personagem importante que eu iria encontrar.

O dono do banco me advertia: "Ele é ciclotímico". Procurei no dicionário e fui ao encontro. O fleumático é uma linha reta; o ciclotímico, uma montanha-russa. De novo: não estou usando o termo no seu conteúdo técnico de algum tipo de bipolaridade. O indivíduo assim descrito era aquele que dava "ok!" para tudo que era dito na reunião e, no dia seguinte, dizia que tinha mudado de ideia. Não era um candidato à ajuda profissional. Era um... brasileiro.

Vou defender os que oscilam. Quando vemos os planos de outra pessoa, suas ideias, disposições e propósitos, podemos aderir com certo entusiasmo. Depois, sozinhos, pesamos os argumentos ouvidos. Encontramos falhas na ideia. Surge um "cansaço prévio" para nossa cota de esforço. Usando a linguagem de Hamlet, "a consciência nos torna covardes". Não ficamos mais fracos, apenas, talvez, mais prudentes.

Claro: o ideal no campo do trabalho e na vida pessoal é pesar tudo isso quando apresentado. Seria útil ouvir os argumentos sem fechar o negócio, sem aceitar a viagem familiar, sem entregar o valor pedido na emotividade instantânea da demanda apresentada.

Deveríamos incorporar o hábito de ouvir convites, sorrir e dizer que consideraremos com o máximo de atenção e daremos a resposta em pouco tempo. Se for pesado o protelamento, basta culpar terceiros: "Preciso perguntar à minha esposa, preciso consultar meu gerente de investimentos, terei de ver com o departamento X etc.". Um sim imediato tem alguma chance de ser precipitado e, tendo de voltar atrás, mesmo no Brasil, ficarei com a fama de ciclotímico ou "enrolado".

Não somos ingleses. Temos uma quase solene indiferença ao horário. Nosso humor oscila mais aqui nos trópicos do que no aprazível vilarejo de Bourton-on-the-Water. Lá, a última grande angústia deve ter sido a chance de os bombardeios alemães atingirem a região de Cotswolds em 1940...

Aqui em São Paulo ou no Recife, a natureza, os criminosos, o governo e outros fatores fazem a fleuma ferver com maior facilidade. Uma partida de críquete favorece gente calma...

Quando eu digo que estarei em uma festa de casamento daqui a dois meses, estou estabelecendo um compromisso formal que ignora toda e qualquer mudança nos próximos sessenta dias. O aceite seguido do futuro é taxativo: "Sim, eu irei!". O futuro é estranho ao comum da nossa fala. Preferimos o gerúndio ou algum termo que implique a possibilidade de mudança. "Eu vou ver se dá" é muito Brasil. "Se eu puder, eu ligo para você no dia." São frases que podem ser traduzidas para o inglês ou alemão, todavia jamais serão compreendidas. Nossos termos garantem tal chance de revogação do contrato que fazem a glória de quem deixa para decidir segundo o clima do dia do evento e a morte de quem necessita planejar algo.

A questão com a qual encerro é mais subjetiva e está além das Ilhas Britânicas ou do nosso país. As culturas apresentam oscilações de práticas, e as linguagens registram as variáveis. Porém, em qualquer língua, se alguém disse que "vai ver se dá", diante de um convite seu, é óbvio que a pessoa está esperando algo melhor para realizar até lá.

Quase sempre, mesmo levando em conta os humores de Hipócrates, há uma chance de você ser opção e não prioridade. A amizade é uma esperança que não oscila.

LEANDRO KARNAL

19 DE NOVEMBRO DE 2022
FRANCISCO MARSHALL

O DEUS MERCADO

Os antigos inventaram muitas divindades, mas nenhuma tão bizarra como o totem dos liberais, o deus Mercado, venerado como mito, a crença de uma religião corporativa, com ambição de hegemonia. Imaginem cultuar o poder mágico de um sistema de trocas, e dar a este deus a autoridade máxima, como fonte da realidade e critério do mundo! Mas se há um deus Mercado, quais sua origem e seu papel em um sistema de crenças, e qual religião é favorecida por essa mitologia? Como, ademais, evidenciar o vazio inato deste santo de pau oco?

A fonte mítica do deus Mercado está em Adam Smith (1723-1790), que armou o ninho do liberalismo e ali formulou a tese mágica da mão invisível, um mito que se alastrou como ideologia desde sua origem. O patrono da ideologia liberal usou desta imagem para tentar explicar como o capital permaneceria dentro da nação quando se abrissem as fronteiras. 

Livre comércio (free trade) foi bandeira da primeira era do liberalismo, ao final do século XVIII e primeira metade do XIX; este lema era a máscara formal da pirataria sem limites então praticada pela Inglaterra. Smith, na obra Teoria dos Sentimentos Morais (1765) e em A Riqueza das Nações (1776), presumiu que há um comportamento contraditório que faria com que os burgueses garantissem o interesse nacional e guardassem sua riqueza em solo pátrio, mesmo com a tentação de emigrar. 

O liberalismo tornou-se desde a origem a ideologia do capital e também de seu primeiro guardião, o imperialismo britânico; esta guarda, todavia, era realizada pelo Estado-nação, que aliás também garante a propriedade privada. Eis as questões contraditórias tratadas por Adam Smith com pensamento mágico. Posteriormente, o mito da mão invisível tramou outra quimera do liberalismo: a ilusória tese de que cada indivíduo, buscando apenas seus próprios interesses, colaboraria para o bem comum.

Caberia ao filósofo nascido em Trier, em 1818, demonstrar que o capital visa acima de tudo ao próprio engrandecimento, e que o faz diante da exploração da natureza e do trabalho. Marx foi o novo paradigma das teorias de economia política e o antídoto humanista para aquela mitologia interesseira. O desenvolvimento do próprio liberalismo jogou por terra a fantasia teológica de Smith, especialmente no estágio neoliberal, desde os anos 1990, quando se assistiu à absoluta transnacionalização do capital. 

Ademais, o mito da mão invisível, teologia primordial do liberalismo, transmitiu-se como base de um sistema de crenças incapaz de explicar racionalmente as realidades que pretende dominar. É o caso, similar, do mito de que os liberais tratam de economia com a austeridade necessária. Mentira. Tratam só dos interesses do capital, operados por meio de cavalos, mitos e monstros, e usurpam a palavra economia como o fazem com a palavra liberdade. Pura ideologia, impura teoria.

Um dia filósofos depuseram o mito, como agora o voto popular o faz. E algo maior que deus Mercado ora supera essa farsa egoísta, indiferente à miséria, ao trabalho e à natureza: a sociedade humanizada e a soberania política. Com verdadeira economia e muita liberdade.

FRANCISCO MARSHALL

19 DE NOVEMBRO DE 2022
CRISTINA BONORINO

AUSÊNCIAS

O Brasil está em processo de reconstrução. Parecemos um país saindo de uma guerra: nossas instituições públicas arrasadas como edifícios bombardeados. SUS, Ministério da Saúde, da Educação, universidades. As pessoas, ainda um pouco em choque, conversam com um misto de expectativa e alívio. Mas, de modo geral, vejo ao meu redor uma urgência de trabalho, uma preocupação de resgatar a capacidade que temos de funcionar como nação e cuidar não só dos nossos, mas de todos.

Nesse processo, algumas ausências são notáveis. A primeira é a dos responsáveis pelo atual governo - caracterizando extrema irresponsabilidade. Ainda temos seis semanas até o fim do mandato, contudo os ministérios funcionam praticamente em modo automático, graças aos funcionários técnicos. Assim saiu o Enem. Mas onde estão as vacinas atualizadas para as variantes do SARS-CoV-2? Onde estão as campanhas de vacinação de crianças? Quanto precisam crescer as internações hospitalares para que o ministro faça o seu trabalho? Não é hora de encerrar o expediente.

Da mesma forma, notei a ausência, até quarta-feira passada, de menções e nomes para o grupo de transição de ciência e tecnologia do governo eleito. Porque isso já anuncia uma definição de prioridades. Os acontecimentos dos últimos três anos deveriam ter provocado um reset na mente de líderes políticos - como o fez em grande parte da população. E, se hoje estamos aqui discutindo o futuro, devemos isso à ciência.

Na verdade, a pandemia ensinou que ciência não é algo alijado das demais áreas das nossas vidas, especialmente da economia. O certo, para líderes políticos que aprenderam algo com esse episódio mundial, seria incorporar cientistas em todas as áreas do seu governo - e não apenas em uma pasta. Como forjar uma economia pujante sem cientistas hoje? Como criar um setor agropecuário independente do clima sem cientistas? Sem falar em como prevenir catástrofes climáticas sem cientistas, impensável. Os gigantescos danos causados por informações falsas só podem ser revertidos com uma reforma educacional que inclua o pensamento científico no dia a dia de todos os níveis escolares - como brinca Neil DeGrasse Tyson, aulas de como identificar mentiras.

Não menos importante é a mais notável das ausências: nomes de minorias nas equipes de transição. Os dados - essa mania dos cientistas! - mostram que metade da população do Brasil é feminina; e mais da metade não é branca. Um governo que pensa em reconstruir o Brasil não deve pensar apenas em esquerda e direita - a representação vai muito além disso. A diversidade é a maior fonte de resiliência e renovação. Se é difícil encontrar nomes neste momento, aqui fica um recado para as equipes do governo recém eleito: não parem por aqui. Usem as redes sociais, usem os currículos Lattes e preencham rapidamente esses vazios se quiserem ser levados a sério pela maioria das pessoas.

CRISTINA BONORINO

19 DE NOVEMBRO DE 2022
MONJA COEN

O DESPERTAR DA CONSCIÊNCIA

Minha avó era filha de Maria. Rezava o terço e se benzia: Cor Jesus Sacratissimo ("Sagrado Coração de Jesus").

Era conhecida pelos descendentes dos povos que foram escravizados como Nhá Bem. Era a Boa Sinhá, a patroinha gentil e amorosa que queria ser freira e se casou com o primo, meu avô. O pai de Vovó era antiescravagista e reunia grupos de homens em sua casa, no interior de São Paulo. Recebeu a Comenda da Ordem da Rosa, que minha avó guardava com amor. Talvez fosse maçon. Era poeta, Eugênio Leonel.

Meu avô, chamado de Seu Dê - aquele que doava, que era bom e compartilhava - tocava violão e viola, cantava e assim conquistou a Nhá Bem. Vovô se unia pelas noites adentro, até o nascer do sol, nas rodas musicais, quando os funcionários (ex-escravizados) cantavam repetidamente, como se fossem mantras o estribilho: "O galo cantou, é para amanhecer".

Vovô era o 17º filho, o caçula. Ele nos ensinou a amar e respeitar a natureza, a vida em suas múltiplas formas, as crianças, os animais, os pássaros, os idosos e as pessoas, todas as pessoas, especialmente as que vieram da África. Sempre nos contava que na fazenda de seus pais, quando houve a abolição, apenas um homem foi embora. Já nas terras de seu primo, todos sumiram. Nessa outra fazenda foram abusados, apanharam. Meu avô os queria bem, tinha memórias de afeto e cuidado. O carinho recebido do menino que o cuidava, o leite farto das mamas negras que alimentavam famílias inteiras.

Domingo, 20 de novembro, é dia do aniversário de nascimento de minha avó - Nhá Bem. Dia da Consciência Negra, dia de nos lembrarmos de todas as maldades cometidas contra os filhos e filhas da mãe África, berço da vida humana no planeta, dia de nos arrependermos e nos comprometermos com a inclusão e o respeito.

Vidas pretas importam. Menos abusos, menos crimes sociais, mais cotas, menos violência. Criar causas e condições para diminuir o racismo estrutural que ainda, infelizmente, existe nestas terras brasileiras e em outras terras, por seres que não despertaram.

Quando assistimos à Copa do Mundo, que também começa neste dia 20, não pensamos se são brancos ou pretos, vermelhos ou amarelos, judeus ou muçulmanos, cristãos ou xamãs originários, budistas ou evangelistas. São jogadores de futebol - cada um com suas crenças, suas linguagens específicas, sua capacidade de jogar, de perceber o campo, de correr com a bola e fazer gol, ou não. Gente capaz de jogar bonito, sem inveja, sem vingança, sem raiva, mas com garra de vencer.

Que o Brasil possa se destacar e nos trazer alegrias. Que andamos precisando muito ser felizes novamente, sentir a liberdade de jogar sem cartas marcadas e correr pelos gramados - verdes da esperança e da cura - com arte e sabedoria.

Agradeço minha vó Virgilina, a Nhá Bem, que rezava o terço e era gentil. Agradeço meu bisavô, que trabalhou com tantos no século 19 pela abolição e meu avô que soube sempre incluir e transformar, educando e orientando pessoas ao grande despertar.

Que toda e qualquer forma de discriminação preconceituosa seja impedida de se espalhar. Que a lei seja cumprida. É crime, gente. É crime.

Que a educação seja para todos, bem como a saúde, os alimentos, os condimentos, os tetos e as paredes em áreas seguras para um mundo sem fome, sem miséria, sem abusos. É possível, sim.

Se você não aprendeu com seus avós, seja você a transformação que quer no mundo. Cuide da terra, das águas e do ar. Sustentabilidade, questões climáticas e redução de venenos significa progresso, empregos, crescimento social, político e econômico. Primeiro, gente, criar projetos sociais, ambientais, sustentáveis. Depois a procura dos meios financeiros para os realizar.

Reflita sobre a prioridade da vida, pois pobre, quando ganha salário, gasta, investe e estimula a economia. Que a Copa do Mundo, o Dia da Consciência Negra e o aniversário de minha avó Nhá Bem possam beneficiar todos os seres. Que todos possam despertar.

MONJA COEN

19 DE NOVEMBRO DE 2022
J.J. CAMARGO

O ESTIGMA DO NOBEL

Na semana que passou, Carpinejar lamentou que o Brasil nunca tenha sido agraciado pelo Prêmio Nobel, festejado no mundo desenvolvido como um parâmetro da excelência, e listou várias personalidades de múltiplas áreas do conhecimento que fizeram por merecer essa comenda.

Afora a o deprimente desapreço pela ciência e as artes em geral, ainda vivemos a mendicância espiritual que não permite que reconheçamos valor em quem ouse pensar diferente de nós. Esse limitador de reconhecimento ao talentoso explica a enorme dificuldade que temos em homenagear brasileiros vivos, mas prontificamo-nos a erguer monumentos antes da missa de sétimo dia. Como o Nobel é destinado aos vivos que representem uma unanimidade em seus países, a inveja, em várias circunstâncias, tem sido um obstáculo intransponível.

Na área médica, uma vítima assumida dessa pobreza intelectual foi o professor Carlos Chagas, um infectologista de prestígio internacional, que, apesar da impressionante contribuição à saúde da humanidade com a identificação do Trypanosoma cruzi, uma doença parasitária responsável por milhares de mortes, não recebeu naquele momento o apoio do governo e da comunidade acadêmica do Rio de Janeiro e teve seu nome preterido pela Academia Sueca, pouco convicta de proezas científicas ao Sul do Equador.

Para quem acredita em azar, às vezes ele também dá lá a sua contribuição: em 15 de fevereiro de 1915, nasceu em Petrópolis, no Estado do Rio, Peter Medawar, filho de um empresário inglês que enriquecera em Londres trabalhando com material dentário e ótico, e resolvera expandir seus negócios, emigrando com a esposa, para o Rio, nos primórdios do século 20. Com uma grande loja da Óptica Inglesa em Copacabana, e residência na região serrana do Rio, tiveram dois filhos brasileiros, Peter e Pamela, registrados simultaneamente no Cartório de Petrópolis e na Embaixada Inglesa, no Rio de Janeiro.

Na adolescência, ambos foram mandados à Inglaterra para cumprirem o High School e, vivendo lá, Peter recebeu, aos 18 anos, a convocação para o serviço militar brasileiro. Preocupado em não interromper seus estudos, mandou uma carta pedindo dispensa, usando como intermediário o então ministro da Aviação, Salgado Filho, amigo do pai e seu padrinho. E aqui o azar estava de prontidão, porque o pedido de Salgado Filho percorrendo os caminhos burocráticos esbarrou na má vontade de Eurico Gaspar Dutra, então ministro da Guerra e seu desafeto antigo. Por conta dessa picuinha, o pedido de dispensa teria sido negado e, não comparecendo à convocação, perdeu a nacionalidade brasileira, que nunca mais figurou em seu currículo.

Formado em Zoologia em Oxford, Peter Medawar trabalhou, durante a Segunda Guerra Mundial, na Unidade de Queimados da Glasgow?s Royal Infirmary. Naquele tempo, os transplantes de pele eram usados em escala crescente nos pacientes com grandes queimaduras, resultantes dos bombardeios diários sobre o Reino Unido. À época se atribuía o sucesso ou o fracasso do procedimento à técnica cirurgia, mas Medawar resolveu estudar os enxertos perdidos e descobriu que havia neles um número impressionante de linfócitos, que são glóbulos brancos relacionados com a imunidade, e com isto abriu a porta para o entendimento do mecanismo da rejeição celular. 

Em reconhecimento ao fato de que todo o desenvolvimento dos transplantes se deve a esta descoberta elementar, deram a Peter Medawar o Nobel de Medicina em 1960, um título que o Brasil não pode compartilhar, aparentemente por uma rusga entre dois ministros, que participaram involuntariamente na produção do tal azar. Anos depois, já como uma personalidade festejada no mundo científico, Peter foi convidado para vir ao Rio de Janeiro, onde proferiu uma conferência histórica, registrada nos Anais da Academia Nacional de Medicina. 

Com os pais já falecidos e tendo a família se desfeito dos bens materiais no Brasil, ele pediu para ir a Petrópolis, rever o local onde tinha passado uma infância muito feliz. Contam que, na volta, desceu a serra chorando, completamente comovido por reencontrar, intactas, as imagens de uma meninice que levava no coração com uma intensidade que não podia, de nenhuma maneira, ser borrada por uma decisão burocrática.

Esta história deve entristecer os cientistas brasileiros de todos os tempos. Os mais sensíveis chorarão. Mas haverá quem pergunte: que diferença fará na nossa vida, ter ou não ter esse tal de Nobel? Embora que está começando a Copa.

J.J. CAMARGO

A maior surra da infância

Vou narrar um fato de minha infância. Eu estava prestes a apanhar na escola, de um garoto muito maior do que eu. Um colega terrível, bagunceiro, que vivia roubando nossas merendas, bolitas, figurinhas e baixando a nossa calça de abrigo na frente das meninas.

Ninguém continha sua soberba raivosa. Notas vermelhas, ameaças de reprovação, bilhetinhos do SOE (Serviço de Orientação Educacional) não lhe surtiam efeito, não mudavam o seu comportamento desordeiro.

Era um ciclone destruindo os momentos bons e a cumplicidade das conversas no recreio. Repetia a série e se portava como dono por usucapião da sala de aula. Ele havia me jurado vingança durante o último período daquele dia, porque não passei cola na prova de história: "Vou te pegar na saída!".

Fez o gesto fatídico da mão direita socando a esquerda para mim. Testemunhas entenderam que eu me tornava alvo de seu ódio. A turma passou a informação da briga adiante, para as outras classes. Criou-se um tumulto de coliseu, um alarido de arena, à espera do toque da sineta e liberação dos professores.

Não tive condições de fugir pulando os muros do campo de futebol, minha tradicional saída de emergência dos conflitos, pois o corredor polonês estava formado no pátio. Colegas me empurravam para o ringue e seguravam a minha mochila.

No meio da rodinha - quando já contava com a surra monumental e o mercúrio cromo ardendo na minha pele, já me imaginava com as bochechas inchadas e os olhos de urso panda -, o meu irmão caçula, Miguel, apareceu pedindo licença.

Ele era magrinho e mirrado, com cabelos cacheados e um guarda-chuva de cílios cobrindo suas íris amendoadas. Ninguém entendeu aquela figura frágil avançando, passo a passo, em direção ao meu agressor.

Calmamente, alheio aos gritos e incentivos, Miguel falou algo nos ouvidos do valentão. Eu não sei o que ele disse, mas o garoto desabou a chorar, virou as costas e partiu. A frustração coletiva diante da ausência de pancadaria se converteu em vaias.

Todos começaram a chamá-lo de covarde. Depois disso, o menino passou a fugir quando eu me aproximava pelo corredor da escola. Se me via, dava meia volta. Parou de me incomodar, de surrupiar os meus pertences e de importunar os alunos indefesos.

Até hoje não descobri o que Miguel cochichou. É o segredo de Fátima da família. Não consigo adivinhar qual o conteúdo de sua frase matadora que desarmou a violência e socorreu o meu destino. Mesmo após quarenta anos, ainda não foi revelado. Nem a mãe, sempre onisciente, tem conhecimento. Hoje juiz em Dois Irmãos (RS), Miguel jamais demonstrou caridade com a minha curiosidade. Ele apenas ri e levanta os ombros, como se não se lembrasse do episódio.

Guardo, desse estranho acontecimento, uma certeza: não há maior arte marcial do que a linguagem. Existe um poder de persuasão da inteligência que desmonta os mais férreos escudos e os mais impenetráveis ferrolhos. Afinal, o que são os punhos perto da força das palavras?

CARPINEJAR 

19 DE NOVEMBRO DE 2022
FLÁVIO TAVARES

PARADOXO PARADOXAL

As bandeiras verde-amarelas agitadas defronte aos quartéis em algumas capitais do país, em 15 de novembro, não festejavam os 123 anos da república. Paradoxo dos paradoxos, pediam "intervenção militar", ou seja, implantar uma ditadura, que é o oposto à forma republicana de governar.

A organizada infraestrutura, com carros de som, banheiros químicos e distribuição de sanduíches, mostrava que nada era espontâneo e que havia financiadores das manifestações, convocadas pelas "redes sociais". Agora, relatórios policiais e do Ministério Público Federal nos Estados (a pedido do ministro Alexandre de Moraes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral) apontam donos de estandes de tiro, empresários do agronegócio e ex-policiais como líderes e financiadores dos pedidos de golpe sob alegação de "fraude" na eleição presidencial.

Em Porto Alegre, os pedidos de golpe se fizeram defronte ao Comando Militar do Sul. Em São Paulo, os manifestantes se ajoelharam e rezaram, invocando o nome de Deus em vão e, assim, ofendendo os mandamentos ditados no Monte Sinai. Há muito esses manifestantes se apoderam da bandeira nacional e a empunham como símbolo do apoio a Jair Bolsonaro, quando - de fato - simboliza toda a nação.

Mais ainda: desfraldam bandeiras para agitar e confundir, como baderneiros e adeptos do caos. Não propõem a união de todos para enfrentar graves problemas, como o aumento do custo de vida, o desemprego ou as calamidades geradas pela crise climática. Estão a caminho do terrorismo ou - indago - querem transformar o poder estatal num ente terrorista?

Além dos grotescos paradoxos, há também o que festejar. Em Porto Alegre, o imenso painel que Kelvin Koubik pintou na parede do prédio-sede do IPE retrata José Lutzenberger, nosso ambientalista mor, e coincide com a conferência sobre o clima no Egito. Na reunião da ONU, a visão de nosso Lutz sobre a Amazônia serviu de inspiração e guia ao presidente eleito, Lula da Silva, para assumir o compromisso de respeitar a floresta.

Lembram-se de quando Lutz (como ministro do Meio Ambiente na gestão Collor) recusou-se a usar um bilionário financiamento internacional por exigir a derrubada da floresta? Nascia aí a percepção de que a floresta em pé multiplica o valor em si mesma.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

19 DE NOVEMBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

A RECUPERAÇÃO DO EMPREGO CONTINUA

Alenta constatar que o desemprego segue em queda no Rio Grande do Sul e no país. No Estado, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa encerrou o terceiro trimestre de 2022 em 6%, uma retração de 0,3 ponto percentual ante o intervalo de três meses imediatamente anterior e 2,4 pontos abaixo de um ano atrás. É um sinal de que, a despeito das turbulências políticas internas resultantes das eleições e da instabilidade internacional, a economia segue se reorganizando após o período mais duro da pandemia.

A taxa gaúcha está abaixo da média nacional, de 8,7%. Anima ainda o dado mostrado pelo IBGE apontando que a informalidade no Estado segue sendo reduzida, indicador de uma ocupação mais qualificada dos trabalhadores, com carteira assinada ou sob um CNPJ. Um dos pontos interessantes a ser observado é o de que o desempenho ocorre a despeito da forte retração do PIB do Rio Grande do Sul no ano. O nível de atividade no Estado recuou 8,4% no primeiro semestre, conforme o apurado pelo Departamento de Economia e Estatística, órgão vinculado à Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão do governo gaúcho.

Era amplamente esperado que o resultado da economia gaúcha em 2022 seria afetado pela severa estiagem do último verão. Como a agropecuária tem grande peso no PIB do Rio Grande do Sul, as perdas elevadas nas lavouras, especialmente nas de soja, levaram a atividade para o campo negativo, como ocorre normalmente em anos de seca forte. Mesmo assim, os demais setores, felizmente, mostram resiliência e seguem avançando. Os números do emprego de julho a setembro, na comparação com abril a junho, são ilustrativos. Indústria de transformação (56 mil postos), construção civil (26 mil) e comércio (18 mil) seguiram abrindo vagas, mais do que compensando a retração dos postos no setor rural (-13 mil).

São indicadores que corroboram observações feitas neste espaço dois meses atrás, quando foi divulgado o PIB gaúcho até junho. Em síntese, apesar de o número final da economia ser ruim, as fábricas seguem produzindo e com demanda, mais serviços são prestados e o comércio permanece em sua trajetória de elevação das vendas, em linha com a recuperação da economia nacional.

Além da queda do desemprego e da redução da informalidade, são positivas as informações sobre os ganhos das pessoas ocupadas. O rendimento médio real no Estado chegou a R$ 3.117, uma alta de 6,7% ante um ano atrás e de 7,2% sobre o segundo trimestre deste ano. É preciso lembrar que, mesmo com os níveis de ocupação melhorando nos últimos meses, os ganhos dos trabalhadores estavam em queda, uma realidade altamente desafiadora para a população diante de um período de inflação persistente.

O fato é que o Rio Grande do Sul, com a taxa de 6%, teve o menor nível de desemprego desde 2015. Se o clima ajudar a colher uma boa safra de verão, há espaço para mais vagas serem abertas a partir do próximo ano. O Estado, no entanto, não é uma ilha e também depende do quadro da economia nacional. Assim, deseja-se que o novo governo federal acerte o passo, especialmente em relação à sustentabilidade das contas públicas, para injetar confiança nos consumidores, empresários e investidores, gerando reflexos positivos na atividade e no mercado de trabalho.

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