quinta-feira, 8 de dezembro de 2022


03 DE DEZEMBRO DE 2022
LEANDRO KARNAL

Ana viu o vídeo várias vezes. Observou detalhes com a atenção que seu treinamento de psicóloga pedia. Shirley estava sentada em uma cadeira de plástico. Agitava-se com força. O pastor a segurava e outros membros da igreja reforçavam os gestos e as falas do dirigente. Havia gritos de Fora, Satanás! e Saia em nome de Jesus!.

Após um tempo longo, Shirley se acalmou e, finamente, abriu os olhos. O oficiante anunciou que ela estava livre do inimigo. Eram ouvidos coros de "aleluia" e de "amém". O exorcismo estava terminado.

Religião era a área de pesquisa de Ana. Ela tentava não julgar seu objeto. Buscava os melhores conceitos freudianos e lacanianos para lidar com a situação que acompanhava. Estava escrevendo sobre possessões. "Julgar atrapalha a análise e mostra apenas você, não o paciente" - ela aprendera o princípio em Antropologia Religiosa, durante um curso na Universidade de São Paulo (USP).

Havia uma luta interna. A pesquisadora não acreditava em entidades metafísicas divinas ou infernais. Ao mesmo tempo, sentia que a tradição psicanalítica era dura com a fé religiosa e bastante permissiva com crenças irracionais dos próprios psicanalistas. Sorriu ao pensar em tantos colegas de trabalho para os quais uma boa sessão de exorcismo teria, pelo menos, o efeito de serem tocados por muitas mãos. Crítica, Ana pensava no seu lugar de fala (urbano, branco, acadêmico) e em seu olhar sobre a pessoa naquela cadeira de plástico. Tentaria entrar na gramática da possuída mais do que na de um teórico austríaco ou francês.

Havia uma questão narcísica, claro. Shirley, a ex-endemoniada, tinha sido libertada de uma entidade que, afinal de contas, tentara gente ilustre como Adão, Eva e, acima de tudo, Jesus. Ter Satanás no seu corpo era um upgrade imenso. Ela era alguém em uma disputa cósmica. Impossível não notar os efeitos hipnóticos da Bíblia que o pastor agitava em movimento pendular. Os gritos da comunidade funcionavam de forma tribal para derrubar uma barreira de racionalidade ou de intimidade. Shirley era o prêmio que dois grupos disputavam com força: o team Jesus e o team capeta. Tudo ali a elevava. O poder das mãos sobre o corpo dela tinha até certo caráter sexual.

Ana tomava notas para preparar o artigo sobre aquele exorcismo. Esbarrou na ideia de sentimento oceânico: o termo de Romain Roland incorporado por Freud. Era a sensação de eternidade no instante, o mundo sem limites perceptíveis. Ali estava o prazer absoluto do bebê ou da memória de um ego primitivo e forte.

Naquele instante, a renomada pesquisadora percebeu que sentia tristeza pela intensidade da entrega de Shirley. Era uma inveja sofisticada que envolvia o sentimento oceânico, porém, era inveja. Sem julgamentos, empoderada, Shirley reinava na situação cercada de atenções da sua comunidade em um jogo que envolvia o Céu e o Inferno. Mãos humanas e planos divinos cercavam-na em um mar de atenções, no líquido quente do protagonismo. Entregue a todos, a possuída flutuava, majestosa, com a certeza de que a fé lhe dava a vitória final. Shirley estava possuída de si (no sentido positivo do termo). O grupo ao seu redor lutava contra o sintoma secundário: um espírito imundo.

Ana invejou a entrega no silêncio da sua sala naquele fim de tarde. Sentada em uma sofisticada poltrona de design dinamarquês, a psicóloga invejou a cadeira de plástico da igreja. Ela, Ana, passava anos analisando pessoas lentamente, minuciosamente, criteriosamente. Ali, em 15 minutos, em um ritual teatralizado, as coisas tinham ocorrido diretamente.

Parece que o demônio tinha fugido do corpo vasto de Shirley e se alojado em Ana. Um espírito ardiloso tinha colocado a dúvida na profissional da mente. A psicóloga não tinha sido informada de que nunca se deve discutir com o Príncipe das Trevas: ele é mais astuto e tem mais argumentos. A vida dela pareceu racional e vazia. Ana experimentou uma profunda tristeza que contrastava com o entusiasmo de Shirley, ao final do vídeo. Lembrando-se de um conceito de Rudolf Otto, Shirley tinha entrado em estado "numinoso", a maré suave que invade o fiel diante do mysterium tremendum. Havia um vasto e direto mistério ali... Shirley tinha sido capaz de alcançá-lo. Ana, não.

Perturbada, a psicóloga saiu do consultório para buscar seu supervisor. Queria compartilhar com outro intelectual sua inquietação, talvez seu medo. Seria o caso de um remédio, talvez? Ana não conseguiu distinguir se estava possuída de algo novo ou se, finalmente, tinha sido abandonada pelo espírito seco e insistente da racionalidade. O corpo, sempre o corpo, tomou sua própria decisão. Ela evitou os Jardins e dirigiu-se à Radial Leste, em São Paulo. Deu as costas ao endereço do seu supervisor-doutor e foi direto para uma pequena igreja com cadeiras de plástico. Lá, diante do pastor que ela reconheceu pelo vídeo, pediu, entre lágrimas, que ele a exorcizasse. O homem, gentil, atendeu ao desejo dela.

Depois de meia hora, ela se sentia diferente. O que tinha ocorrido? No céu dos psicanalistas, Lacan e Freud sorriam. Ana estava em paz no vasto oceano de uma nova vida. Agora, ela tinha esperança.

LEANDRO KARNAL

03 DE DEZEMBRO DE 2022
DRAUZIO VARELLA

NICOTINA, A PORTA DE ENTRADA

Consideramos porta de entrada a droga que reduz o limiar para a adição a outros agentes. Essa hipótese foi levantada em 1975 por Denise Kandel, ao observar que jovens envolvidos com drogas psicoativas costumam fazê-lo em estágios e sequências. Tipicamente, o abuso de tabaco e álcool precede o de maconha, que por sua vez antecede o de cocaína e outras drogas ilícitas.

Um grande inquérito americano publicado em 2012 mostrou que, entre os adultos de 18 a 34 anos que já haviam usado cocaína, 87,9% eram fumantes antes de experimentá-la, 5,7% começaram a consumir as duas drogas ao mesmo tempo, 3,5% usaram cocaína antes de ser fumantes e apenas 2,9% nunca fumaram cigarros.

Uma alternativa à hipótese da porta de entrada é a de que o uso repetitivo de uma droga psicoativa reflita determinadas características genéticas e comportamentais que aumentam o risco individual de adição a outras drogas.

Embora os levantamentos epidemiológicos possam evidenciar a sequência em que diferentes drogas são usadas e especificar suas associações, são incapazes de identificar os fatores envolvidos na progressão de uma droga para outra e os mecanismos responsáveis por ela.

Estudos clássicos na área da psicologia demonstraram que a adição é uma forma de aprendizado e que as recaídas estão relacionadas com memórias persistentes das sensações de prazer obtidas com a droga.

Denise Kandel, o marido Eric Kandel (prêmio Nobel em 2000) e Amir Levine estudaram os efeitos da administração de nicotina e cocaína em ratos. Ratos que recebiam nicotina na água de beber não se tornavam mais ativos do que o grupo-controle tratado com água pura. Já os que recebiam cocaína movimentavam-se por um tempo 58% maior.

Os que tomavam água contendo nicotina durante sete dias, para depois receber nicotina mais cocaína por mais quatro dias, ficavam 98% mais ativos. A inversão dessa ordem (sete dias de cocaína seguidos de quatro dias de nicotina mais cocaína) não aumentava os níveis de atividade locomotora.

Um dos fatores de risco para recaídas entre usuários em abstinência é retornar aos locais em que habitualmente consumiam a droga. Descrita também em animais de laboratório, essa preferência condicionada por um local em particular está ligada aos circuitos cerebrais do sistema de recompensa.

Da mesma forma que no experimento anterior, ratos tratados durante sete dias com água contendo nicotina, seguidos de quatro dias de nicotina mais cocaína, permaneciam 78% a mais de tempo no canto da gaiola associado à administração de cocaína, do que aqueles do grupo-controle.

O casal de pesquisadores também estudou as moléculas envolvidas na plasticidade das sinapses entre os neurônios, numa área do cérebro (núcleo accumbens) encarregada de integrar os impulsos que trafegam pelos neurônios liberadores de dopamina e glutamato, mediadores das sensações de prazer e recompensa.

Uma única injeção de cocaína em ratos que haviam recebido nicotina por sete dias é suficiente para reduzir o limiar de estimulação dos neurônios que liberam dopamina e glutamato, potencializando a sensação de prazer por até três horas.

Como nos experimentos anteriores, a administração de apenas nicotina, apenas cocaína por sete dias ou cocaína durante sete dias seguidos por nicotina durante 24 horas não produz esse resultado.

Os autores demonstraram a mesma redução do limiar de excitação de neurônios induzida pela nicotina em outra área cerebral, a amígdala (responsável por orquestrar as emoções), região crítica para a adição.

Essas observações finalmente descrevem as bases biológicas e os mecanismos moleculares relacionados com a sequência do consumo de drogas encontrada em seres humanos. Uma droga age nas sinapses de certos circuitos cerebrais criando condições para potencializar os efeitos da outra.

A hipótese da porta de entrada não exclui a das tendências genéticas e comportamentais que afetam o risco de adição, pelo contrário, ambas são complementares.

Fatores gerais, como os genes e o comportamento, explicam a tendência para o uso de drogas psicoativas, enquanto fatores específicos explicam por que certos jovens usam determinadas drogas e o fazem em sequências particulares.

DRAUZIO VARELLA

03 DE DEZEMBRO DE 2022
MONJA COEN

GLADIADORES E CAMPOS DE FUTEBOL

O Coliseu, em Roma, era um grande estádio. Gladiadores lutavam pela vida. Algumas vezes com outros gladiadores armados de instrumentos de ferro e outras vezes contra leões. Alguns nem mesmo gladiadores eram, mas pessoas que caíram em desgosto das lideranças pelas razões mais variadas. Não sabiam se defender fisicamente. Alguns oravam e se entregavam às afrontas oferecendo seu martírio ao sagrado.

O público torcia, chorava, sorria. Identificavam-se ora com a vítima, ora com o vitimador. Ficavam horas nos espetáculos, até mesmo comiam e se divertiam com os jogos ali apresentados. O imperador era quem decidia, ao levantar um polegar, se o gladiador ficaria vivo. Se o imperador abaixasse o polegar morria. O povo apreciando, sangue escorrendo, dor sofrimento.

Alguns se recusavam a ir a esses locais. Outros iam para prantear e se despedir dos que ali morriam ou saiam deformados, mutilados. Ainda há situações semelhantes no mundo atual. Pessoas famintas sendo abusadas, feridas, mortas, excluídas e outros sentados, observando, comendo, se regalando como se estivessem sentadas nas pedras do Coliseu. Entretanto, a decisão da vida e da morte não é mais tomada publicamente, mas na calada da noite em reuniões secretas onde os mandantes se escondem.

Hoje, nos campos de futebol, cuja estrutura nos lembra as do Coliseu, há um jogo de vida e morte. Alguns ganhando muito e outros sem nada. Há os que compartilham, de suas mesas as migalhas. Há os que doam seus bens materiais e há os incapazes de sentir e querer bem, seja lá a quem.

No campo, os jogadores demonstram suas habilidades e os treinadores se desdobram em observar e escolher melhores sistemas de defesa, de ataque, de meio de campo. Muitos dos jogadores vieram de locais distantes, de vilarejos e famílias pequenas, de campos de terra ou areia, sem chuteiras, mas pelo gosto de desenvolver a habilidade de correr e levar a bola para onde quer, do jeito que quer. Lutam sobre a grama verde para defender um time, um grupo, um país, um povo. Alguns seguem as regras do jogo e respeitam seus adversários. Outros não respeitam, cometem faltas graves, ferem e não aceitam reprimendas, cartões amarelos, vermelhos. Não se importam com suspensões, pois no calor da emoção perdem a noção do certo e do errado.

Nem sempre por maldade, mas há também os violentos, estimulados a jogar assim, na brutalidade, a fazer malvadezas, ferir - com cara de não ter feito nada. Atualmente não há um imperador levantando ou abaixando o polegar para a decisão final. Há equipamentos de alta precisão, que em caso de dúvida, decidem, reveem jogadas, mostram detalhes em câmera lenta com muita rapidez facilitando as decisões do juiz.

Regras existem para jogos, regras existem em nome da justiça e da harmonia entre povos, entre pessoas, nas empresas, nas ruas e nas famílias. Há quem crie regras, há quem seja responsável por fazer que sejam respeitadas. Há processos educacionais que estimulam o cuidado, a ética, o bem estar social e coletivo, ações adequadas para resolver questões ambientais e climáticas, inclusão, saúde e compartilhamento da vida.

Nos jogos da Copa do Mundo no Qatar, vemos pessoas de todas as etnias, de todas as cores, religiões e maneiras de viver e de ser. Percebemos também intolerâncias e desconhecimentos da vida em sua pluralidade de manifestações. Podemos nos maravilhar com estádios, cidades, casas e palácios construídos sobre areia e podemos lamentar os pobres que morreram trabalhando para construí-los. Torcemos pelos nossos favoritos, e esse favoritismo é algumas vezes pessoal, individual, outras vezes é coletivo.

Brasil está em campo: alegria, suspense, emoção. Há de tudo rolando nos campos - alegria do gol, tristeza do cancelamento, festa da vitória, cabeça baixa da perda. Nada definitivo ou permanente. A ampulheta continua deixando a areia rolar. Nada permanece o mesmo - tudo está mudando.

E você? Quais suas escolhas possíveis e perceptíveis? Considere cuidadosamente.

MONJA COEN

03 DE DEZEMBRO DE 2022
FRANCISCO MARSHALL

VENDILHÕES!

Esse termo aparece no evangelho de João, 2:13-22, na cena da limpeza do templo, em que o personagem bíblico Jesus Cristo expulsa vendedores (tous polountas, 2:13) e cambistas (tous kermatistas, 2:14 e tous kollibystous, 2:15) do templo de Jerusalém. Por vez única no texto bíblico, Jesus usa força bruta, com um chicote feito de cordas (João, 2:15) ou, na escrita de Mateus (21:12-13), derrubando as mesas e cadeiras dos cambistas e vendedores de pombas, que para este autor faziam do templo um covil de bandidos (spélaion léston, 21:13). Se a literatura bíblica tem valor alegórico, além de fábulas antigas pode referir algo do nosso universo histórico, e animar as perguntas: quem são os vendilhões atuais? Que fazer com eles?

Encabeçam essa lista os pastores que misturam fé, religião, política e negócios escusos para extrair recursos dos crentes e do Estado, em empresas suspeitas. Muitas religiões cristãs, mormente as pentecostais, o fazem desde sempre, como parte de sua mecânica e de sua complexa atuação histórica, em que se incluem lobos entre ovelhas. Hoje, todavia, mercê de isenções fiscais exageradas e de proselitismo político abusivo, este quadro supurou. 

Forrada de dinheiro, há mala, falha a justiça. Esses elementos agridem a república, a democracia, a modernidade e a fé ingênua de milhões de pessoas cultural e economicamente frágeis. Parte da crise recente, que quase matou este país, é devida a esses vendilhões, e o saneamento da pátria não pode perdê-los de vista.

Caso igualmente grave é o dos privatistas, que tomam o patrimônio público, difícil de obter e árduo de gerir, para variadas formas de negociatas. Vendilhões atuais pretendem passar nos cobres recantos nobres de liberdade e vida, como os parques de nossa cidade, e empresas com notória função social e desempenho admirável. Eis o que ora assombra Porto Alegre, diante da absurda ameaça do prefeito Sebastião Melo de privatizar a Redenção e outros parques. 

Começou com a cafonice ímpar de colocar lanchonetes na área do antigo orquidário, agredindo a natureza de um parque para atender a filisteus esfomeados e premiar gananciosos com preciosa área pública. Depois disso, e mesmo diante da contrariedade das pessoas sensatas, da voz do Cara da Sunga e amigos e da unânime condenação em audiências públicas, avançam com essa proposta em tudo nociva para a cidade, privatizar nosso precioso parque, sem qualquer ganho para o povo. É oportuno lembrar que a privatização da CEEE foi uma catástrofe, com grave perda patrimonial e severa degradação dos serviços, destino ora prometido por Melo ao Dmae e à Carris e por Eduardo Leite à Corsan.

É parte das obrigações dos mandatários eleitos administrar os bens públicos. Que se esmerem na realização de suas responsabilidades, sem fugir delas com expedientes insensatos. Sabemos que há uma ideologia rapineira que os conduz, o neoliberalismo, e boiada útil que saúda essa imoralidade como se modernidade fosse, quando nada mais é que confissão de incompetência, com irresponsabilidade, e de cativeiro ideológico, com fanatismo. Xô, vendilhões!

FRANCISCO MARSHALL

03 DE DEZEMBRO DE 2022
CRISTINA BONORINO

MIGRAÇÕES

Durante a pandemia aconteceram coisas terríveis e, paradoxalmente, algumas coisas boas. Uma das coisas boas foi a aproximação entre jornalistas e cientistas. Com a gigante onda de notícias falsas se espalhando pelas redes sociais de forma indiscriminada, jornalistas e cientistas, que nunca tinham conversado muito bem, migraram para a mesma direção, convergindo quanto ao anseio de divulgar informações corretas para a população para evitar maiores tragédias do que as já estavam acontecendo.

Aliás, foi nesse momento que se escancarou o quanto a falta de critério e monitoramento de veracidade das informações transmitidas por essas redes contribui para estimular pensamentos fantasiosos em pessoas que já têm tendência para isso, ou têm pouco acesso a qualquer outro tipo de informação, ou educação.

A falta de educação e ciência é a semente que regimes opressores regam cuidadosamente com mentiras, repetidas tantas vezes quantas forem necessárias para transformá-las em verdade. Uma das maneiras de fazer isso, é claro, são cortes progressivos nos recursos que sustentam essas áreas, formando um combo explosivo com a enxurrada de notícias falsas. Com o tempo, cresce a população dos que acreditam piamente que a Terra é plana, que vacinas não funcionam ou que exércitos marcharão fazendo com que isso se torne realidade.

Dentro desse processo de aproximação dos jornalistas verificando fatos e cientistas tentando explicar processos complexos, surgiu uma relação muito interessante, que beneficiou a todos. Assim foram veiculadas as informações corretas, papel que deveria ter sido dos governos, mas que em muitos países, como o nosso, se esquivaram como puderam de auxiliar a população a combater o vírus. E o Twitter, nesse processo, sempre foi a rede favorita dos cientistas - desculpa, Zuckerberg, mas é a verdade - para conversar. Criamos entre nós uma coisa que carinhosamente chamávamos de Science Twitter. Cientistas criaram a internet, há décadas, para trocar informações entre si. Então é uma necessidade profissional, porque debatemos e checamos um ao outro constantemente, e o Twitter era uma rede usada por ambos os grupos, que fazia alguma checagem de fatos - mais do que o WhatsApp, ao menos.

E agora o Elon Musk, entre outras decisões-desastre, decidiu que informações falsas podem voltar a ser veiculadas pelo Twitter. Musk não é burro, né? Ele entende a quem serve isso - e está claramente ao lado deles. Os cientistas estão migrando, portanto, para fora do Twitter. A rede escolhida, por enquanto, é o Mastodon - algo descentralizado, onde jornalistas podem ser verificados sem pagar. Perdas e ganhos, o futuro dirá como isso vai funcionar. A longo prazo, o trabalho é empurrar quem só quer confundir e deseducar as pessoas a migrar para longe, para fora, ou de volta ao lugar triste de onde saíram.

CRISTINA BONORINO

03 DE DEZEMBRO DE 2022
ENTREVISTA

"Me sinto mais segura para ser quem eu sou"

IZA cantora e compositora - William Mansque

Cada vez mais dona de si, Iza volta a Porto Alegre neste sábado. A cantora faz show no Auditório Araújo Vianna (Av. Osvaldo Aranha, 685) às 21h. Será uma noite de hits e novidades.

Acompanhada de oito bailarinos e banda, Iza trará ao palco do Araújo faixas de seu primeiro álbum, Dona de Mim (2018) - Pesadão, Ginga e Dona de Mim. Outros singles que a cantora lançou desde então também devem integrar o repertório, vide Brisa, Meu Talismã e Gueto, entre outros.

O que deve entrar no setlist também é o projeto Três, uma trinca de singles lançada em setembro: Mole, Mó Paz e Droga. Essas faixas estarão presentes no novo disco, previsto para sair ainda este ano.

Em entrevista a ZH, Iza falou sobre o show, o novo álbum e seus projetos além da música.

Como será seu show em Porto Alegre?

Estou ansiosa! Há bastante tempo não vou para Porto Alegre e estou muito feliz em voltar. A última vez que estive aí foi antes da pandemia. Tenho um público aí que me acompanha há tanto tempo, então com certeza podem esperar muita emoção porque eu e minha equipe estamos muito felizes em voltar. Vou levar todo o meu balé e minha banda para esse show, e o público vai poder ouvir as músicas do começo da minha carreira, além das canções lançadas mais recentemente.

Como é sua relação com o Rio Grande do Sul? Como costumam ser seus shows por aqui?

Meus shows são sempre muito maravilhosos no Sul, e eu fico sempre muito feliz com a receptividade e com o público que se joga do início ao fim. Acho que tem a ver com a nossa saudade também, porque eu acabo não indo com tanta frequência. Todas as vezes em que a gente se encontra é sempre muito gratificante.

Você volta ao RS embalada pelo projeto Três, que saiu em setembro e será o carro-chefe de seu novo álbum. Que tipo de recorte Mole, Mó Paz e Droga representam de seu novo disco?

Mole, Mó Paz e Droga representam uma questão audiovisual muito profunda para mim e acho que isso é o que mais vai estar presente no meu álbum, esse caminho audiovisual, do que as músicas em si. Elas trazem afrobeat, dance hall, coisas que escuto no meu dia a dia, que são referências para as minhas novas músicas, mas as referências delas para o novo disco são sobre a questão visual mesmo. É um momento novo para mim, que pretendo explorar muito no álbum.

De que maneira você pretende avançar nesse disco com aquilo que foi trabalhado em Dona de Mim?

Me sinto mais segura para ser quem eu sou e sou muito mais dona de mim do que na época em que lancei o primeiro álbum. Acho que me sinto mais madura para falar sobre coisas que talvez eu não falasse antes ou então se eu falava de tudo, hoje falo de uma maneira mais íntima, com menos vergonha de ser quem eu sou.

Você está no ar com The Voice Brasil. Desta vez, o programa traz novidades no elenco, com a chegada de Fátima Bernardes à apresentação e Thais Fersoza nos bastidores. Como tem sido trabalhar com a Fátima e Thais? O que você destacaria dessa nova edição do reality musical?

É muito legal participar de uma edição onde a maioria do elenco é feminina e é um presente trabalhar com a Fátima, a Gaby (Amarantos) e a Thais. Eu sempre acompanhei o trabalho da Thais e sempre a achei uma atriz extraordinária. Além disso, sou formada em comunicação, então já dá para entender que estou muito emocionada de estar trabalhando com esse ícone do jornalismo que é a Fátima. Ela navega muito bem pelo entretenimento e está tirando onda e sendo sensacional. Não dá realmente para saber o que vai acontecer no programa porque a edição está muito equilibrada, e os competidores são todos de alto nível.

Você está lançando o projeto Entra na Roda, em parceria com o Instituto Identidades do Brasil, que seleciona e premia pequenos negócios liderados por empreendedores negros, nas áreas de alimentação, entretenimento, beleza, moda e negócios de impacto social. O que significa para você integrar um projeto que dá visibilidade a empreendedores negros?

Representa uma conquista muito grande porque eu sempre quis criar um projeto como esse, mas tinha que ser feito na hora certa, com os parceiros certos e da forma correta. Ao me sentir preparada para isso, significa que tudo caminhou para que esse momento acontecesse. Então, estou muito feliz em poder realizar esse sonho e, de certa forma, gerar oportunidades para outras pessoas que só precisam de uma chance mesmo, porque já são brilhantes.

O que você planeja para 2023? Pensa em realizar trabalhos mais internacionais?

Os trabalhos internacionais vêm acontecendo naturalmente e não sei se isso vai ser o foco para 2023, mas nunca vou deixar de viver aquilo que a música tem para me oferecer.

iza

Sábado, às 21h, no Auditório Araújo Vianna (Av. Osvaldo Aranha, 685), em Porto Alegre. Ingressos a partir de R$ 270 (inteiro) ou R$ 140 (solidário), à venda em sympla.com.br. Desconto de 50% sobre o valor inteiro para sócios do Clube do Assinante e acompanhante.


03 DE DEZEMBRO DE 2022
J.J. CAMARGO

O CENTENÁRIO DE SARAMAGO

"De que adianta falar de motivos, às vezes basta um só, às vezes nem juntando todos." (José Saramago)

Ouvi, quando jovem, que não temos que necessariamente ser o melhor fazendo o que fazemos, até porque sempre haverá alguém que o faça melhor do que nós, mas temos, sim, a obrigação moral de tentar ser.

Mas, mesmo que haja consciência dessa obrigação, muitas vezes vacilamos na energia que colocamos nas nossas escolhas.

Outras vezes desistimos ao descobrir o trabalho que dá essa pretensão, mas nada nos eximirá da responsabilidade de fazer com que esse intrometido que cruzou a nossa frente bata todos os recordes.

Quando revisamos biografias de sucesso, ainda desconcerta muito a evidência do quanto fatores aleatórios foram decisivos no desfecho. Saramago, nascido José de Souza, em 16 de novembro de 1922 (completou-se recentemente o centenário de seu nascimento), só soube por ocasião do serviço militar que o escrivão, por desleixo ou deboche, agregara ao seu nome uma alcunha da família, procedente de Azinhaga, uma região de Ribatejo, onde "saramago", uma herbácea florida, é característica daquela região. José viveu lá até os dois anos, quando mudou-se para Lisboa.

José, assim Saramago, o maior escritor contemporâneo da língua portuguesa, é um desses exemplos de pessoas comuns, soltas no mundo sem manual de instruções. Sem formação acadêmica, fez um curso profissionalizante e foi trabalhar de serralheiro, mas sem desviar os olhos da leitura, que o arrastava com frequência para as bibliotecas de Lisboa. O futuro mostrou que a inclusão de aulas de leitura no curso de serralheiro não tinha sido em vão.

A atração pelas letras resultou num primeiro esboço, Terra do Pecado, em 1947, que, tendo sido quase ignorado, arrefeceu seu entusiasmo, mantendo-o conectado a obras menores enquanto sobrevivia como tradutor e editor de jornal. Em 1975, retornou ao Diário de Notícias como diretor-adjunto, e lá permaneceu por 10 meses, até 25 de novembro do mesmo ano, quando os militares portugueses intervieram na editora, em represália ao que consideraram excessos da Revolução dos Cravos, demitindo vários funcionários.

Enquanto, para a maioria das pessoas, uma demissão é uma marca negativa, para Saramago representou uma virada de chave. Por conta dessa demissão, ele resolveu dedicar-se apenas à literatura, substituindo de vez o jornalista pelo ficcionista: "Estava à espera de que as pedras do quebra-cabeças do destino - supondo-se que haja destino, não creio que haja - se organizassem. É preciso que cada um de nós ponha a sua própria pedra, e a que eu pus foi esta: ?não vou mais procurar trabalho?".

A dedicação exclusiva à literatura liberou a genialidade de sua cabeça prodigiosa, mas foi por conta do tal destino que ele só deslanchou no mundo das letras, em plena maturidade, com uma produção literária impressionante a partir de então. O Evangelho Segundo Jesus Cristo foi sem dúvida sua obra mais polêmica, tendo despertado a ira da Igreja por apresentar um Jesus muito mais humano, suscetível a erros e tentações.

Adepto do realismo fantástico, produziu pérolas, três delas baseadas no "se": se todos ficassem cegos (Ensaio sobre a Cegueira), se ninguém morresse (As Intermitências da Morte), se todos votassem em branco (Ensaio sobre a Lucidez).

No último quarto da sua vida, produziu como ninguém, publicando duas dezenas de livros, poesias, peças de teatro e romances famosos, que foram adaptados para o cinema. Em 1995, recebeu o Prêmio Camões, o maior galardão da língua portuguesa, e, em 1998, consagrou-se definitivamente como o único autor da língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel de Literatura.

Saramago não nasceu escritor, mas se fez escritor. Seu mérito maior: acreditar em si mesmo, sem jamais colocar na equação do futuro, o tempo previsto de vida por viver.

E, neste século que festejamos, sobreviveu através de suas palavras. O engenho de Saramago sempre esteve à serviço da sabedoria.

J.J. CAMARGO

03 DE DEZEMBRO DE 2022
FLÁVIO TAVARES

A GRANDE DÍVIDA

Todos os ramos da ciência concordam que as mudanças climáticas são o mais grave problema a enfrentar para que o planeta sobreviva. A ONU promove reuniões anuais para encontrar caminhos e comprometer os governantes a adotar medidas para evitar a catástrofe do aquecimento global antes que seja irreversível.

Dias atrás, encerrou-se em Sharm El-sheik, no Egito, a conferência deste 2022, e, outra vez, os alertas viraram advertências. É necessário agir com urgência urgentíssima, avisou o secretário-geral da ONU, António Guterres, ao abrir a reunião. As conclusões, porém, foram pífias.

De fato, os países participantes não se comprometeram a adotar medidas concretas e urgentes para minorar o aquecimento global. O documento final revela, em verdade, apenas intenções, nunca obrigações.

Em 1992, assisti no Rio de Janeiro à Eco-Rio, que preparou a "Agenda 21", advertindo para as medidas a serem adotadas no novo século. Já se passaram mais de duas décadas, e as mudanças climáticas se transformam em crise do clima. Aí estão as cenas (vistas na TV) das enxurradas em Santa Catarina, na Bahia e em Sergipe, com mortes e soterramentos.

Mas na reunião do Egito, as conclusões não levaram ao compromisso de cortar as emissões de combustíveis fósseis, como carvão e petróleo, responsáveis diretos pelo aquecimento global. Em vez de compromissos, a reunião marcou apenas meras intenções.

Continuamos com a grande dívida. O palavrório rebuscado e genérico das reuniões internacionais seguiu vigente na reunião do Egito. Jair Bolsonaro não compareceu, alardeando seu descuido pelo meio ambiente, mais preocupado em armar a população. O presidente eleito, Lula da Silva, lá esteve e se comprometeu a preservar a Amazônia. Mas enquanto não traçar os rumos do futuro governo e indicar o novo ministro do Meio Ambiente, permanece a incógnita e também a dúvida. E com ela, também a dívida, sem ser mero jogo de sons?

Além do palavrório, aqui no país um fato concreto revela o desprezo governamental pelo meio ambiente - o Ibama está sem verbas para pagar até as contas de eletricidade e água, além da pesquisa em si.

Ao ser o órgão ativo do meio ambiente, o Ibama reúne as ações governamentais de preservação, mas agora vira órgão inerte.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

03 DE DEZEMBRO DE 2022
OPINIÃO DA RBS

NA SAÚDE, O TEMPO É DECISIVO

São alarmantes os dados levantados pelo Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde (Conass) sobre os atendimentos e procedimentos represados na área. Conforme a entidade, os dois primeiros anos da pandemia legaram 11,6 milhões de cirurgias eletivas e ambulatoriais atrasadas em todo o país. Outros 1,3 milhão exames diagnósticos deixaram de ser feitos. As conclusões foram levadas à equipe de transição do novo governo, que agora tem de se debruçar sobre as informações e encontrar meios para começar a recuperar este déficit.

Procedimentos como cirurgias ou exames, quando não são feitos no momento certo, tendem a levar ao agravamento do quadro de saúde da pessoa que necessita do atendimento. Tratamentos iniciados tardiamente têm menores chances de alcançar o resultado esperado. São vidas que estão em jogo. Note-se que, do total de 1,3 milhão de exames abaixo da média no período, 1 milhão são mamografias. Essa é a averiguação mais adequada para descobrir o câncer de mama de forma precoce, antes da detecção clínica. O diagnóstico feito no início do surgimento do problema eleva significativamente as chances de cura. Mesmo assim, é a principal causa da morte por câncer em mulheres no país.

Esse gargalo era previsível. Hospitais, demais unidades de saúde e profissionais da área centraram esforços, nos dois anos iniciais da pandemia, no atendimento às questões relacionadas à covid-19. O temor de contaminação também diminuiu a procura por outros serviços. Será necessário, agora, encontrar estratégias para acelerar a retomada desses procedimentos, um atraso que certamente se concentra entre a população mais carente e dependente do Sistema Único de Saúde (SUS).

Para o enfrentamento deste quadro preocupante, o Conass reivindica um aporte extra e emergencial de R$ 3 bilhões pelo Fundo de Ações Estratégicas e de Compensação (Faec), o que tornaria possível começar a recuperar a defasagem a partir do início de 2023. Mais recursos, por certo, ajudam bastante, mas é preciso ter em vista que o espaço orçamentário é limitadíssimo e, neste momento, há diversas outras áreas da administração pública disputando verbas para as suas demandas. Aguarda-se do novo governo uma análise acurada para a definição das prioridades. Trata-se aqui, por exemplo, de casos cujo pior desfecho pode ser evitado.

Verbas são necessárias, mas também são imprescindíveis ações que assegurem efetividade às medidas e alocação eficiente dos recursos. Melhorar a gestão, qualificar a parceria do governo federal com Estados e municípios, buscar maior resolutividade da atenção básica, aperfeiçoar a regulação, identificar prioridades regionais e a utilização da telessaúde são algumas das estratégias complementares possíveis para alcançar melhores resultados. Na saúde, o tempo é decisivo.


03 DE DEZEMBRO DE 2022
SANEAMENTO NA CAPITAL

Grupo para deslanchar a concessão do Dmae

Ainda sem prazo para enviar à Câmara de Vereadores o projeto de concessão do Departamento Municipal de Água e Esgotos (Dmae), a prefeitura de Porto Alegre acelera o passo, nas próximas semanas, para concluir os estudos que irão definir o modelo da parceria público-privada. A proposta de conceder o Dmae já havia sido assumida durante a campanha pelo prefeito Sebastião Melo (MDB), em 2020.

Em abril deste ano, o prefeito chegou a viajar para o Rio de Janeiro e a São Paulo com a finalidade de conhecer os projetos de concessão em saneamento locais.

Na última quarta-feira, Melo assinou a criação de um grupo de trabalho que ficará responsável por reunir as informações a respeito da concessão. Em 30 dias, o grupo coordenado pelo vice-prefeito Ricardo Gomes (PL) irá apresentar a Melo os resultados. No mesmo período, deve ficar pronto o estudo encomendado ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) sobre a concessão.

A etapa seguinte do processo é a formulação do projeto de lei e o envio à Câmara. - Não é um grupo decisório, resolutivo. É um grupo de trabalho. Vamos organizar o checklist do que falta (para a concessão). É um processo decisório que está chegando perto do fim - explica Gomes.

Modelo

O principal ponto de interrogação é o modelo da concessão. Uma das possibilidades, citada por vereadores aliados, é a concessão apenas do serviço de coleta e tratamento do esgoto. A captação, tratamento e distribuição da água permaneceria sob gestão pública.

Mas o vice-prefeito não descarta que a água também seja concedida a um parceiro privado.

- Tem vários cenários na mesa, e a gente vai considerar todos. Existem casos (no mundo) em que houve concessão plena de água e esgoto, ou concessão de esgoto, ou da gestão da água e do esgoto - pondera Gomes.

Tecnicamente, o processo em estudo envolve a concessão do Dmae e não a privatização. Ocorre que o departamento é uma autarquia e, por questões jurídicas, não pode ter o patrimônio alienado a um terceiro. Se quisesse privatizar, a prefeitura teria de enviar proposta à Câmara para transformar o Dmae em empresa pública, mas isso está fora de cogitação neste momento.

Se a concessão se concretizar, a prestação do serviço será transferida para uma empresa privada por um determinado período - que ainda não está definido e dependerá da modelagem.

A prefeitura argumenta que o investimento privado é o caminho mais viável para cumprir as metas do marco legal do saneamento, aprovado em 2020 no Congresso. A legislação determina que 99% da população tenha acesso a abastecimento de água e 90%, a coleta e a tratamento de esgoto até 2033.

Abrangência

No início da semana, vereadores aliados de Melo afirmaram que havia a expectativa do envio de projeto de concessão apenas para o tratamento de esgoto.

Na segunda-feira, o líder do governo na Câmara, vereador Claudio Janta (Solidariedade), chegou a dizer que a prefeitura não abriria mão de "captar e distribuir" a água.

Procurado na quinta-feira, Janta ponderou que haverá muita dificuldade para aprovar a proposta em caso de concessão conjunta da água e do esgoto. Na visão do vereador, a melhor alternativa seria o município manter a gestão pública da água.

- Nada na Câmara é impossível, mas hoje eu acho muito difícil. Vamos precisar de muita negociação, se a água entrar (na concessão). Se for só esgoto, acredito que seja mais fácil - avalia Janta.

O presidente do Legislativo, Idenir Cecchim (MDB), faz coro à avaliação de Janta.

- O prefeito tem falado principalmente sobre o tratamento de esgoto. Porto Alegre tem capacidade instalada para tratar 80% do esgoto, com dutos por dentro do rio, e estamos tratando 60% só. Falta perna para o Dmae. Talvez o esgoto (seja concedido). A água acho que ainda não, mas o esgoto deverá entrar em discussão - afirmou Cecchim à reportagem, na última terça-feira.

Críticas

Líder da oposição na Câmara, o vereador Aldacir Oliboni (PT) considera "lamentável" a posição de Melo de buscar a concessão do Dmae.

- Quem vai pagar o preço é a população. O que aconteceu na Corsan vai acontecer no Dmae. O preço vai subir, e os pobres vão pagar a conta. É lamentável a posição de um governo que não quer fazer gestão do serviço público, quer entregar tudo.

Oliboni diz que a oposição buscará impedir na Justiça a concessão. O vereador do PT afirma que a justificativa de que é preciso cumprir o marco do saneamento é uma "desculpa" do governo:

- A Justiça é o que nos resta, tomara que consigam nos ouvir. A população, gente do próprio governo e da própria base deles estão indignados. Ele (Melo) que reduza o quadro dos CCs. Se a empresa é superavitária, por que não tem condições de buscar recursos?

 BRUNO PANCOT


Fundação anuncia iniciativas selecionadas

Pelo sétimo ano consecutivo, o Grupo RBS e a Fundação Maurício Sirotsky Sobrinho (FMSS) promovem o projeto Editais, direcionado a ações que contribuem para a transformação da sociedade. Neste ano, por meio de leis de incentivo fiscal, a iniciativa destinará cerca de R$ 149 mil para quatro ONGs de Porto Alegre voltadas às crianças e aos adolescentes, à cultura e ao esporte.

Na área da cultura, os selecionados são o projeto Lupi: Pode Entrar que a Casa é Tua, da Invideo Produções Cinematográficas Ltda, que propõe uma exposição em homenagem ao músico e compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues; e Tito Lívio Firmino de Sousa Filho, que pretende fortalecer o acesso à arte circense.

Hidroterapia

Na categoria Funcriança, a Casa do Menino Jesus de Praga foi a iniciativa escolhida com o projeto Terapia na Piscina. A ideia é reativar a piscina de hidroterapia da instituição, visando melhor qualidade de vida ao público acolhido atualmente.

Por meio da Lei de Incentivo ao Esporte, a iniciativa selecionada é a L?aqua - Centro de Desenvolvimento de Esporte, Lazer e Cultura para Pessoas com Necessidades Especiais. Com o benefício, o programa dará continuidade às atividades realizadas, promovendo a inclusão social de pessoas com deficiência física, visual, intelectual, auditiva e deficiência múltipla, por meio do esporte e lazer.

Alcance

Os valores para cada modalidade foram distribuídos entre os projetos de acordo com a solicitação durante a inscrição, considerando a viabilidade de execução e a possibilidade de alcançar o maior número possível de beneficiados. Essa é uma das principais ações sociais do Grupo RBS, por meio da FMSS. Desde 2016, o projeto já beneficiou mais de 75 mil pessoas no RS, totalizando R$ 1,1 milhão em doações para todo o Estado.

sábado, 26 de novembro de 2022


26 DE NOVEMBRO DE 2022
LEANDRO KARNAL

Os celulares multiplicaram a chance de golpes. São de todo tipo: falsas pirâmides, ofertas de criptomoedas, oferecimento de serviços, falsos sequestros de familiares e assim por diante. Nossos sentimentos são sempre os mesmos: quando analisamos o golpe em setores que nunca nos enganariam, ficamos desolados com a ingenuidade alheia; quando se trata de algo que já fizemos ou que chega ao nosso universo de valores, somos compreensivos. Nossa empatia é narcísica, em geral.

Critiquei meu pai que quase caiu, lá por 2008, em um golpe de falso sequestro meu. "Como, pai, você, advogado, acostumado a analisar estelionatos, pode ter acreditado em uma história tão estapafúrdia?"

Ele argumentou comigo que o risco a um filho cegava quaisquer prudências e acionava um modo automático de defesa. O suposto grito de um filho apagava o título de advogado, e o risco à minha integridade o fragilizava. Aceitei que assim fosse. O amor tem razões alheias à razão em si, advertia Pascal.

Pensando nas chances de golpes, acho importante que todos tenhamos presentes as zonas desprotegidas da mente. Risco aos filhos? Inquietudes financeiras? Histórias obscuras do passado? Carências de todo tipo? Sabendo onde estão nossos fios desencapados, fica mais fácil identificar risco de choque grave. Como posso agir então?

Devo programar meu cérebro a partir do risco. A voz gritando da minha filha me desestabiliza? Vou treinar e insistir muitas vezes que, em caso de ter o alarme acionado por uma ligação repentina, tomarei duas atitudes: ligarei para ela e para uma terceira pessoa (de preferência sem o mesmo envolvimento emocional) e seguirei a crise com a orientação alheia. Devo repetir, treinar, repetir e formar meu cérebro a essa reação.

Reitero comigo todos os dias: "Se minha filha estiver em risco, envolverei meu cunhado e ligarei para ela". Treinar a reação não impede a cegueira das prudências, mas cria um botão emergencial. Ao vivo e em segredo, a família pode treinar uma palavra-passe de emergência. O nome da avó em comum, por exemplo, ou o nome de um animal de estimação conhecido de todos. A palavra-passe não deve estar no celular, pois ele pode ser clonado.

Uma pessoa com muito desejo sexual e carente pode ser enganada por um sedutor ou uma sedutora, nas redes. Alguém com ambição enorme pode ser atraído para um negócio imperdível. Todos possuímos fragilidades. Não devemos julgar as alheias, apenas aprender sobre o que nos tira do sério.

O golpe está aí: cairemos todos. Os que se prepararem internamente possuirão maior esperança de evitar trambiqueiros.

LEANDRO KARNAL

26 DE NOVEMBRO DE 2022
ELIANE MARQUES

A ESTRANHA FAMILIAR

Quando se torna professora (1847), Maria Firmina dos Reis se recusa a desfilar nas costas de escravizados sobre um palanque em São Luís, no Maranhão. A professora argumenta que eles não eram bichos para carregarem pessoas neles montadas. A posição social alcançada com o magistério contribui para que ela publique seu primeiro livro, Úrsula (1859). Logo se seguiram o romance Gupeva (1861), o poemário Cantos à Beira-mar (1871) e o conto A Escrava (1887). 

Aposentada do ensino público (1881), Maria Firmina funda a primeira escola mista (gratuita) do Brasil, o que escandaliza os círculos locais em Maçaricó. Depois de dois anos e meio de aulas para filhos e filhas de lavradores e de fazendeiros do povoado, impôs-se a ela o fechamento da escola. Diliquinha, seu apelido familiar, escreve para vários jornais, tais como A Verdadeira Marmota, Semanário Maranhense, O Domingo, O País, Federalista e O Jardim dos Maranhenses. No campo da música, ela se destaca com as composições Hino da Libertação dos Escravos e Hino à Mocidade.

Nascida em 11 de outubro de 1825, na ilha de São Luís, filha de mãe considerada branca e de pai Negro, ainda criança Maria Firmina se transfere, com a família, para a Vila de São José de Guimarães. Mas parte de sua vida ela passa na casa de uma tia materna, de melhores condições econômico-raciais, quando então entra em contato com outras referências culturais e com parentes seus ligados à literatura, como Sotero dos Reis.

A trajetória de Maria Firmina dos Reis se assemelha à de muitas mulheres amefricanas contemporâneas, especialmente marcadas pelo abandono do local de nascimento e pela fixação do domicílio em outro, com o objetivo de conquistar melhores condições de vida. Nem sempre amistosos, diálogos com homens e mulheres estranhos ao círculo familiar e racial advertem a escritora de que quase tudo não é como se almeja. Na casa de sua tia rica e branca, Maria Firmina se encontra não apenas com a vida das classes "mais altas", mas também ouve seus segredos íntimos, em posição semelhante às outras mulheres negras que, além de cozinhar, limpar e cuidar, oferecem conselhos "aos seus brancos", tornando-se frequentemente membros honorários dessas famílias - É como se fosse da família!

Também é provável que Maria Firmina tenha descoberto que a posição de privilégio ocupada por eles adviesse não da superioridade racial ou intelectual ou mesmo do estágio superior da humanidade em que eles pudessem se encontrar, mas da exploração sistemática do outro como corpo de trabalho forçado. Se nessa época ainda não tinha se tornado Negra, essa foi uma importante oportunidade.

Tudo isso fez com que, em Úrsula, ela antecipasse quase em 80 anos o Movimento da Negritude. No romance ela repudia uma narrativa heroica da vida escravizada, adotando, antes, uma perspectiva mais crítica das relações sociais. Com isso, vai minando as bases do tempo linear em que se mantém o regime patriarco-escravocrata e o romantismo como sua forma estética.

ELIANE MARQUES

26 DE NOVEMBRO DE 2022
BRUNA LOMBARDI

UMA VOZ TAMANHA

Agora é o silencio. Porque depois da voz dela se espalhar no ar, depois do mundo cantar junto, depois de fazer a vida ficar melhor e tão mais bonita, depois de você, Gal, só o silêncio.

Um silencio imenso e profundo, onde todas as vozes, os murmúrios, o burburinho das pessoas ficou num outro plano, desaparecendo ao fundo da cena, sumindo dentro de uma súbita neblina que cobriu tudo. De repente o show parou. O palco ficou vazio. No centro, no foco de luz, sua ausência.

Aos poucos sua voz vai ser multiplicada, e, por todos os lados, como jorros de luz, vamos escutar esse som que vem dos anjos, de algum lugar que é puro deslumbramento.

Os planos da minha memória se sobrepõem. Recebi a notícia ao embarcar e agora, do meio das nuvens, revejo fragmentos de uma história. Gal Costa se foi, e com ela se vai uma era. Um país que tive a sorte de vivenciar, um sonho do qual fiz parte, uma emoção sem fim.

Começa na minha adolescência, descobrindo maravilhada um mundo que falava de paz, amor e liberdade. Uma explosão de ideias e talentos, expressões, roupas, atitudes, liberdade, sexo e música, muita música.

Meu nome é Gal, cantava aquela voz de cristal, um clima selvagem nas dunas da Gal, cabelos soltos, roupas leves, corpos flutuantes e um verão que parecia nunca ter fim. A gente cantava nas ruas e, mesmo sem dinheiro para ir ao show, sentia a vibração desse novo tempo onde a Gal surgia já icônica.

Esse foi o mundo que me encantou e me deu um norte, um rumo, um pertencimento. Estávamos todos na mesma frequência, caminhando na direção do sol, sem lenço e sem documento, sem querer repetir os erros de uma sociedade que não nos traduzia.

A vida era jovem e tinha uma proposta. Tinha uma clara filosofia. Uma mudança de valores, a perspectiva da grande transformação. Era o Brasil dos anos 1970 em plena ditadura, censura e repressão. A arte era uma forma de resistência, a manifestação de um infinito talento que criou esperança de um mundo possível.

Sobrevivemos de paixão, tesão e alegria. Nem todos sobreviveram, mas essa é outra história. Agora aqui, no meio das nuvens, revejo amigos e sei como tudo isso foi me mostrando o caminho. O astral feliz dessa gente linda deu significado para as coisas e foi parte da matéria-prima que me faz ser o que sou.

Eu era a menina que queria abraçar toda a extensão do planeta, e a Gal explodia sensual na trilha sonora. O mundo discutia a revolução sexual, o poder do feminismo, do movimento black power, a contracultura e tantas outras questões fundamentais para a construção de uma nova sociedade.

A poesia concreta nas esquinas de Sampa, o Xingu e suas terras demarcadas graças aos irmãos Villas-Boas, os intelectuais brilhavam, o mundo buscava cultura, inteligência, beleza. Gente é para brilhar, e não para morrer de fome.

O Ri e eu, apaixonados, íamos em todos os shows, Doces Bárbaros, Caetano, Gil, Bethânia, Gal, Chico, Milton Nascimento, Rita Lee, Djavan, Cazuza, Marina. Nessa altura já éramos todos amigos, frequentávamos as casas uns dos outros, bares, conversas, risadas. Tudo perigoso, tudo divino maravilhoso.

Gal, amiga querida, você é para sempre.

BRUNA LOMBARDI

26 DE NOVEMBRO DE 2022
DRAUZIO VARELLA

COMO DIMINUIR A MORTALIDADE COM 15 A 20 MINUTOS DE ATIVIDADE FÍSICA

Convencer o fumante a largar o cigarro e o sedentário a andar foram os dois maiores fracassos que colecionei no curso de minha profissão.

Em 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um guia sobre atividade física e comportamento sedentário, com a recomendação de que pessoas adultas dediquem 150 a 300 minutos semanais à prática de atividade física moderada ou intensa.

Escrever guia é fácil, quero ver é convencer mulheres e homens a andar 30 minutos - ou pior, uma hora - cinco vezes por semana. Ao fazer esse tipo de prescrição, o médico deve se preparar para ouvir um rosário de lamentações, tantas são as atribulações diárias alegadas pela pessoa.

Na natureza, caríssima leitora, animais adultos só gastam energia em três situações: atrás de alimentos, no sexo ou para fugir de predadores. Com essas necessidades satisfeitas, evitam sair do lugar. Por isso, quando vem a ideia de praticar exercícios, desaba sobre nossos ombros o peso da preguiça sedimentada em milhões de anos de evolução.

Para uma organização como a OMS, recomendar 150 a 300 minutos semanais de atividade física é moleza, quero ver é motivar gente acostumada a ir de carro até a padaria da esquina criar coragem para levantar da cama ou do sofá, calçar tênis, vestir calção e sair para suar a camiseta.

Com essa introdução, pretendo defender que essas normas sejam modificadas, porque são utópicas e existe uma luz no fim do túnel.

E se eu disser que talvez bastem 15 a 20 minutos semanais de atividade física vigorosa para reduzir a mortalidade geral e as mortes por doença cardiovascular e câncer? Míseros 15 a 20 minutos por semana, até o mais vagabundo dos poucos leitores desta coluna consideraria razoável. Ou não?

O European Heart Journal acaba de publicar um estudo prospectivo conduzido no Reino Unido com 71.893 mulheres e homens de 55 a 68 anos (média 62,5 anos), acompanhados durante 5,9 anos, em média. A atividade física foi medida com um acelerômetro de pulso. Cerca de 80% dos participantes foram classificados como sedentários.

Simplificadamente, atividade vigorosa equivale a andar a passos rápidos (acima de 4 km/h a 5 km/h), correr, andar de bicicleta a velocidades acima de 16 km/h, jogar basquete, futebol, tênis individual, pular corda e subir escadas rapidamente.

Durante os 5,9 anos de acompanhamento a mortalidade geral e as mortes por câncer e por doença cardiovascular ficaram distribuídas da seguinte maneira:

1) 4,17% entre os sedentários

2) 2,12% nos que praticavam de zero a 10 minutos semanais

3) 1,78% entre aqueles que praticavam entre 10 e 30 minutos semanais

4) 1,47% nos que praticavam entre 30 e 60 minutos semanais

5) 1,1% nos que praticavam mais de 60 minutos semanais

Houve relação inversa entre o volume de atividade vigorosa e a mortalidade geral, por doença cardiovascular ou câncer.

A prática considerada ideal, aquela associada à mortalidade mais baixa, foi a de 53 minutos semanais. É possível que outras mais prolongadas consigam um impacto que seja ainda maior, mas o número dos que as praticaram foi insuficiente para atingir a significância estatística.

Naqueles que alternaram práticas moderadas e intensas, como andar e depois correr dois minutos, a mortalidade por doença cardiovascular caiu para 35%.

Você, leitor incrédulo, dirá que os resultados de um único estudo não podem ser generalizados. Tem razão, ninguém conhece esse princípio mais do que o ovo, ora acusado ora inocentado. Mas estudos recentes chegaram a resultados semelhantes.

Publicada no mesmo número da revista, uma pesquisa realizada com 88 mil ingleses chegou às mesmas conclusões. Entre elas, a de que andar sete minutos diários depressa reduz mais a mortalidade do que andar 14 minutos devagar.

Em 2011, um estudo publicado na revista The Lancet mostrou que a prática diária de exercícios vigorosos diminui a mortalidade geral. Resultados semelhantes foram publicados no Journal of the American College of Cardiology: correr cinco a 10 minutos por dia faz cair o número de mortes precoces, independentemente da causa.

Que desculpa você inventará agora, prezado leitor, para não dedicar 15 a 20 minutos da sua semana para viver mais e melhor? E se puder investir mais tempo, por que não?

DRAUZIO VARELLA