sábado, 18 de fevereiro de 2023


18 DE FEVEREIRO DE 2023
FLÁVIO TAVARES

PERIGO À VISTA

O pacato e ordeiro dia a dia de cada um de nós no Brasil está sob ameaça de um esdrúxulo "exército privado", que tem em seu poder perto de 3 milhões de armas. Como se não bastasse o horror do crime organizado e do narcotráfico, nos últimos quatro anos, cresceu assustadoramente a quantidade de armas em poder de caçadores, atiradores e colecionadores, os chamados CACs, como adverte o Instituto Sou da Paz, baseado em dados oficiais.

Durante a gestão Bolsonaro, o governo facilitou o acesso a armas e munições, inclusive com isenção de taxas de importação, algo que não ocorreu sequer com medicamentos.

Em 2018, havia um total de 1,3 milhão de armas em mãos dos CACs. De 2019 a 2022, uma série de decretos, portarias e instruções normativas fez com que, em janeiro de 2023, houvesse 2 milhões e 950 mil armas em poder dos CACs.

As novas regras possibilitaram comprar ou importar armas potentes, como fuzis. Por sorte, não se permitiu comprar canhões?

Já na campanha eleitoral de 2018, Bolsonaro tornou público seu apego às armas. Era comum que, em comícios, imitasse um fuzil com o braço direito e os dedos. Ou pregasse armar a população para se defender de eventuais assaltos. A segurança de todos deixava de ser função do Estado para passar a algo pessoal. Até uma simples discussão no trânsito poderia redundar em morte, bastando que o "ofendido" tivesse um revólver.

Os números falam por si: em 2018, os CACs adquiriram 59 mil armas. As compras cresceram rápido com Bolsonaro - 78 mil em 2019 e 125 mil em 2020. O ápice foi em 2022, com 432 mil novas armas compradas pelos CACs.

Nesse período, a compra de fuzis cresceu mais de 50% no Estado de São Paulo e 16% no Rio de Janeiro. Não se revelaram dados do Rio Grande do Sul.

Nos Estados Unidos, onde comprar armas é tão fácil como comer um hambúrguer, acentuam-se os ataques a tiros em escolas e até hospitais, com mortos e feridos.

Permitiremos isso aqui?

Agora é Carnaval. Nenhuma folia, porém, se equipara ao carnaval do senador Hamilton Mourão nos gastos com o tal cartão corporativo quando vice-presidente da República. Gastou R$ 3,8 milhões em quatro anos, boa parte em alta gastronomia. Tão só no mercadinho gourmet La Palma, em Brasília, gastou R$ 311 mil.


18 DE FEVEREIRO DE 2023
OPINIÃO DA RBS

RIOS E SOLUÇÕES CONJUNTAS

As imagens de uma espécie de ilha de lixo do tamanho de um campo de futebol vistas nos últimos dias em um trecho do Rio Gravataí, em Cachoeirinha, na Região Metropolitana, chocam e convidam à reflexão. Quem conhece a área diz que a estiagem, por ter diminuído o nível do curso de água, causou a desoladora aglomeração de material flutuante. 

É possível concluir, portanto, que se o Estado atravessasse um período de chuvas normais, todos aqueles sacos plásticos, garrafas, latas, espumas de colchões, pedaços de isopor, partes de móveis e recipientes de todo tipo seguiriam o seu caminho até o Guaíba. Como o descarte de detritos e resíduos no Gravataí também não é novidade, pode-se depreender que é considerável o volume de lixo que singra a parte mais baixa do rio até sabe-se lá onde, além do que fica depositado em seu leito.

A partir da visão aterradora, a prefeitura de Cachoeirinha, com a ajuda de outros órgãos, agiu com a instalação de barreiras e com a contratação de uma empresa que nos próximos dias deverá retirar o material. A questão, no entanto, é bem mais profunda. Uma solução verdadeira, para que as cenas lastimáveis não se repitam, deve perseguir o fim do descarte irregular de lixo no Gravataí e em seus afluentes.

É uma tarefa complexa, que envolve várias frentes nos municípios que compõem a bacia hidrográfica. Passa, por exemplo, pelo aperfeiçoamento da coleta do lixo e pela educação ambiental, com conscientização da população sobre a importância do acondicionamento e da destinação correta dos detritos de residências e propriedades rurais. Uma atenção especial deve ser dedicada às escolas, para que as crianças aprendam o valor das atitudes que não agridem a natureza e levem essas informações para casa. Mesmo assim, estratégias como a instalação de ecobarreiras em arroios tributários são medidas possíveis para evitar que o lixo jogado siga rio abaixo.

Dez anos atrás, o IBGE divulgou um levantamento mostrando que o Rio Grande do Sul tinha três dos 10 rios mais poluídos do país. Um deles era o Gravataí. Os outros dois eram o Sinos e o Caí. Não existe bala de prata. Modificar esse quadro requer políticas de longo prazo e persistência. 

No caso do Sinos, por exemplo, houve um acontecimento apontado como um marco que acabou se transformando em um ponto de virada. Foi em 2006, com o episódio considerado uma das maiores tragédias ambientais do Estado, quando uma alta carga de poluição causou morte de toneladas de peixes, gerando cenas terrificadoras como as de agora. Criou-se então o Consórcio Pró-Sinos, com 28 municípios, que ao longo do tempo vem trabalhando pela melhoria da qualidade da água, com monitoramento, educação ambiental e fiscalização, entre outras ações.

Há pela frente desafios como o de cumprir os objetivos do novo Marco Legal do Saneamento. Já existem avanços na Região Metropolitana. A parceria público-privada entre a Corsan e a Aegea elevou em 32% o número de residências ligadas à rede de coleta e tratamento de esgoto nos últimos dois anos. Os rios da região agradecem. Outra necessidade é implementar as diretrizes do Plano Nacional dos Resíduos Sólidos, válido desde o ano passado, com diretrizes como elevar a reciclagem e acabar com lixões e aterros sanitários.

O próprio Pró-Sinos tem em andamento estudos para estruturar uma concessão do serviço de gestão de resíduos sólidos, fruto de uma parceria com a Caixa. O município de Cachoeirinha foi convidado a aderir à iniciativa no início deste ano. Soluções para problemas ambientais, sem dúvida, passam por uma atuação conjunta de prefeituras de uma mesma região e necessitam de persistência para alcançar metas que protejam os mananciais e a saúde da população. 


18 DE FEVEREIRO DE 2023
ROTEIRO DA ESTIAGEM

O drama de quem apostou suas economias

As botas do produtor rural Vinicius Ottoni, 44 anos, pisam no solo rachado da localidade de Rincão do Bugre, em Soledade, no limite com Espumoso e Mormaço, no norte do RS. O município convive com a pouca chuva desde novembro do ano passado. Os açudes e poços artesianos da região secaram e os grãos não vingaram, enquanto os animais vagam sem encontrar pasto verde.

Em algumas propriedades, as costelas salientes do gado são um triste retrato do cenário onde a seca mata. As fissuras no chão castigado se espalham em todas as direções.

- A perda na soja ultrapassa de longe os 80%. Não sei se vou conseguir colocar colheitadeira em alguns locais, se não chover - afirma Ottoni, debaixo de sol intenso.

Ele possui uma propriedade de 300 hectares e sobrevive graças a três plantios por ano. Soja, milho e plantas forrageiras se intercalam pelas quatro estações. Há poucos animais na propriedade, o foco está na lavoura. Com as perdas, o dinheiro desapareceu junto com a chuva.

- Tínhamos gordura de outras safras e investimos toda poupança nesta. Plantamos 100% da área por nossa conta. Não temos seguro e vamos perder tudo - desabafa Ottoni.

Na última segunda-feira, quando ZH esteve na propriedade de Ottoni, o calor era abrasivo, com temperatura batendo na casa dos 40ºC nas últimas semanas. E tudo o que está plantado, sofre e definha. A escassez de alimento também assusta, mas há um fantasma maior: a falta de água.

- Estamos vindo de três anos de pouca chuva. E gastando a água do subsolo - afirma Ottoni, salientando que, em outras localidades, falta água para saciar a sede dos produtores e de suas famílias.

Emergência

Em decorrência dos efeitos da estiagem, a prefeitura decretou situação de emergência em 27 de janeiro. Entre as áreas mais castigadas estão Margem São Bento, Bugre, Pinhal e São Tomé. Conforme o secretário de Agricultura do município, Elmar Aguirre, a situação é dramática na região.

- No milho, a perda será de 70% a 80%. Estamos fazendo silagem, mas dá para contar quantos grãozinhos têm dentro das espigas. Em questão de três a quatro dias, passa de milho verde para seco - relata o titular da pasta, dizendo que, se não chover, haverá perda significativa também na soja.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Soledade e Mormaço, Alessandro de Miranda Gasparin, também prevê prejuízo robusto nesta temporada, especialmente no milho.

- As perdas são bastante consideráveis. Temos muitas propriedades produtoras de leite que perderam, além da pastagem, também o milho para a silagem - afirma Gasparin, indicando que Linha Curuçu é uma das localidades mais atingidas.

O contexto é pouco otimista para qualquer lado que se olhe na região. - Acredito que o gado de leite, que perdeu pastagens e o milho, e a cultura do próprio milho, são os mais afetados - projeta Gasparin. O engenheiro agrônomo e assistente técnico regional da Emater/RS-Ascar, Josemar Parise, que acompanha 39 municípios da região, contextualiza a situação:

- No entorno de Soledade, pela característica do solo mais raso, a situação das lavouras é muito mais severa. As folhas caem e estão com aspecto murcho em grandes áreas.

Projeções

A estimativa da Emater é de que a produção de milho, prevista em 5,1 toneladas por hectare, será, em média, 30% menor do que o esperado. Em relação à soja, em que a projeção era de 3,2 toneladas de grãos por hectare, avalia-se que será 25% menor. Esses números não parecem tão acachapantes, em um primeiro momento, por envolverem os 39 municípios da região - alguns mais e outros menos atingidos. E ainda podem variar para cima ou para baixo, de acordo com a constância da chuva nos próximos dias.

- A estiagem continua e a tendência, neste milho mais tardio, é de ampliar a perda - diz Parise.

Os tempos de olhar para o horizonte e admirar os pastos verdejantes do interior do Rio Grande do Sul ficaram no passado. A estiagem transformou a paisagem no campo. Não chove suficientemente desde novembro em algumas localidades e produtores rurais, suas famílias e animais sofrem. O drama contrasta com a esperança por reviravolta no clima, com chuva abundante e - diferentemente da registrada nos últimos dias - melhor distribuída.

Pela segunda semana consecutiva, ZH fez um roteiro por algumas das regiões gaúchas mais castigadas pela estiagem, passando por Norte, Noroeste e Missões.

Em Cruz Alta, na região Noroeste, as perdas são robustas, seja na soja, seja no milho. O produtor Osmar Schwarzbold, de 74 anos, planta culturas variadas em sua propriedade de 34 hectares, na localidade de Santa Terezinha II.

- A seca está sendo fatal. Isso que vemos é uma desgraça - declara, com a experiência de 32 anos na lavoura. Schwarzbold chegou a Cruz Alta com 40 anos de idade. Veio de Redentora, também no Noroeste, para tirar o sustento da terra. Planta milho, soja, aveia e trigo. Além disso, tem um pomar com variadas frutas. E, para completar, possui 15 gatos, galinhas, cachorro e um coelho.

- Fiquei com três vacas - relata. - Me desfiz das outras porque não tinha "boia" para dar de comer para elas.

A perda na soja será de 80% para ele. O prejuízo bate na casa dos R$ 300 mil. Em sua propriedade, havia a nascente de um córrego. Secou por completo.

Em outros municípios, o cenário é semelhante.

- Nunca vi estiagem assim - afirma o produtor Jesus Cassiano de Oliveira, de 37 anos, que planta soja e milho em uma propriedade de 110 hectares no interior de Soledade, na região Norte. - As baixas na soja passam de 60%, enquanto no milho serão de 50% - contabiliza.

Em Linha Curuçu, a situação é difícil. Nos sete hectares de terras de Adão Flores, 65, o que mais chama a atenção, além da plantação de soja prejudicada, é o açude. Tinha três metros de profundidade. Agora, secou por inteiro.

- Me criei a vida toda aqui. Nunca vi isso assim. Se chover posso recuperar um pouco, mas a perda será de 60% para cima - assusta- se, olhando para as rachaduras do solo no fundo do açude onde, antes, havia água e peixes.

"Tristeza"

Nos 120 hectares de Jaime Pastoreo, 52, as perdas na soja serão totais. Há 40 anos, ele vive do que planta na terra em Soledade.

- Tem dia que acordamos às 3h da manhã para trabalhar. E, vendo isso, dá uma tristeza - desabafa, com chapéu largo na cabeça e o olhar perdido no horizonte.

Segundo recorda, a estiagem nunca esteve tão implacável: - Meu pai tem 76 anos e diz que nunca testemunhou algo assim. A região sofre, definha e precisa de chuva. Conforme dados do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Soledade e Mormaço, em dezembro choveu 53 milímetros no município. Em janeiro, apenas 35.

- É uma catástrofe - resume o produtor Diego Vincenzi, 39, na localidade de Volta Alegre, em Espumoso. Ele cultiva milho e soja. - Plantamos uma área de 290 hectares. A estimativa é de perda de quase 100%. É uma estiagem jamais vista, com rios secando e peixes precisando ser retirados dos açudes - conta.

O Rio São Bento, no limite com Espumoso, está com um palmo de altura em alguns pontos. O Rio Espraiado, que abastece Soledade, também apresenta nível baixo. A situação se repete em outros lugares. Falta água, sobra esperança. Que o diga Eliane Gonsiorkiwicz, 55, de Barra do São João, no interior de Santo Ângelo, nas Missões.

- Vendia pepino e ovos antes da seca. Morreram 40 galinhas minhas de calor - lamenta, sem deixar de acreditar em dias melhores.

Prejuízo

A venda dos ovos e dos pepinos para conserva representava uma renda de R$ 500 para ela e o marido, Cesario Lucas Soleucki, 45. Perderam o dinheiro, que já era pouco, e o açude, onde os animais bebiam água, secou na propriedade de 12 hectares.

- Se não fosse meu outro emprego, estaríamos passando fome - reconhece o marido, mostrando o local onde era para haver moranguinhos vermelhos. O casal não tem seguro, nem auxílio. E ainda há outra preocupação. Os dois compraram um tratorito por empréstimo.

Até quando terão dinheiro, não sabem. A estiagem matou tudo o que havia na terras deles.

 ANDRÉ MALINOSKI


18 DE FEVEREIRO DE 2023
+ ECONOMIA

Renner garante lucro recorde em 2022 Refinarias privadas temem perda

A Refinaria Riograndense, de Rio Grande, e outras quatro temem perda bilionária. Conforme Evaristo Pinheiro, advogado que representa a Refina Brasil (entidade que reúne esses negócios), ao isentar os combustíveis de PIS-Cofins, o governo anterior "esqueceu" de fazer o mesmo com o petróleo.

- Foi um erro corrigido em dois meses, mas essas refinarias acumularam R$ 1,5 bilhão em tributos não compensados. Como a margem de lucro do refino é de um dígito, recolher 11,65% na compra sem compensar gera desequilíbrio - afirma o advogado.

Além da perda já efetivada, as refinarias temem outra, de cerca de R$ 5 bilhões. A conta supõe que a desoneração se estenda até dezembro - o que é improvável - mas Pinheiro diz que essa é a informação disponível. A Refina Brasil cobra medida provisória que desonere a compra de petróleo até quando durar a medida.

é a estimativa do impacto fiscal das bondades pré-carnavalescas do governo Lula: aumento do mínimo, da isenção do IR e dos salários dos servidores. Apesar de o valor ser alto, no Ministério da Fazenda circula a estimativa de que a arrecadação de janeiro tenha sido R$ 19 bilhões acima da prevista no orçamento.

Gráfica cria área de preservação

A Box Print, de Campo Bom, na Região Metropolitana, se apresenta como "primeira gráfica do país a se tornar carbono neutro". Hoje, tem objetivo de reduzir o volume de gases de efeito estufa produzidos por suas atividades em 50% até 2030. Segundo Eduardo Bastos, responsável na companhia por projetos da área de ESG, inovação e sustentabilidade são pilares há muito tempo.

Em 2005, a empresa obteve o selo FSC. Quatro anos depois, já tinha uma área de reflorestamento e preservação de mata nativa. No mesmo ano, iniciou o processo de neutralização das emissões dos gases de efeito estufa:

- Em 2016, passamos a ?comprar? energia de fontes renováveis. No ano seguinte, começamos a participar do Programa Brasileiro GHG Protocol, da FGV.

A sequência de ações foi consolidada em 2020, com a publicação do relatório de sustentabilidade, inclusão na lista de empresas do Sistema B e aplicação do Selo Carbono Positivo. Em 2021, a firma adicionou ao documento as medidas que, atualmente, baseiam sua atuação:

- Nossa estratégia foi dividida em cinco pilares principais: recursos naturais, emissão de gases de efeito estufa, valor compartilhado, diversidade e desempenho econômico.

A companhia tem parceria com a Ecovalor, consultoria especializada em sustentabilidade e ESG. Internamente, o comitê de sustentabilidade comanda as ações.

- Com relação ao pilar social, em 2021 nos tornamos a primeira empresa parceira do Banco de Alimentos, para, com a Sodexo, fornecer o excedente de alimentos dos nossos refeitórios para a ONG Criança Cidadã. Também criamos campanhas como ?Somos todos iguais na diferença?- finaliza Bastos.

A Lojas Renner teve em 2022 o maior lucro nominal de sua história: R$ 1,29 bilhão, o dobro do valor obtido no ano anterior. Conforme o diretor financeiro e de relações com o mercado, Daniel Martins dos Santos, a fatia da companhia subiu 7% acima da média.

No quarto trimestre, o desempenho foi semelhante ao último de 2021, que havia registrado números fortes de vendas e lucro.

- Houve eleições e até Copa do Mundo, um frio que persistiu e aumento da inflação e da inadimplência - constata.

Na Renner, o atraso de mais de 90 dias está em torno de 19% ante média de 13%. Está alto, mas estável, diz o executivo.

Segundo Daniel, a Renner tem operações de risco sacado (as que originaram as tais "inconsistências" da Americanas) de só cerca de 4% da conta de fornecedores.

Com caixa de R$ 3,5 bilhões, a dívida é de R$ 2,4 bilhões, ou seja, tem dívida líquida positiva.

- Dá para contar nos dedos da mão, menos dois, as empresas nessa situação no setor - afirma.

Neste ano, a Renner planeja abrir 40 lojas, número igual ao de 2022:

- O cenário está mais difícil, mas a Renner quer seguir cres­cendo e ganhando mercado.

MARTA SFREDO




18 DE FEVEREIRO DE 2023
+ ECONOMIA

RS terá PPP para implantar agência de desenvolvimento

Com um dos motores no Transforma RS, centro colaborativo que completa três anos hoje, a parceria público-privada no Rio Grande do Sul caminha para a criação de uma agência de desenvolvimento. O projeto que une governo e universo empresarial deve ser detalhado no South Summit, de 29 a 31 de março.

Presidente do Transforma RS e da Empresas Randon, Daniel Randon diz que a ambição da agência é maior do que atrair investimentos: é atuar na remoção de obstáculos para o crescimento sustentável. Um dos focos, exemplifica, é preparar o caminho de projetos de hidrogênio verde:

- Estive em Davos e vi grande expectativa sobre o Brasil, que tem 80% de sua energia de fonte limpa. Existem várias oportunidades, e a agência pode ajudar nisso.

Nos últimos oito anos, avalia o empresário, o Estado avançou na busca do equilíbrio fiscal, e o Transforma RS contribuiu nos últimos três. No ano passado, definiu cinco eixos de atuação: gestão pública, educação, desenvolvimento, inovação e turismo.

Randon destaca o "investimento forte do Sistema S em educação" - Fiergs e Fecomércio anunciaram cerca de R$ 430 milhões em projetos de reforço ao ensino.

- Nosso trabalho é de longo prazo, passa pelo Pacto pela Educação. Quando comparamos dados do Estado com países que mais crescem, vemos que lá fora os jovens ficam na escola várias horas, o que já um diferencial competitivo no longo prazo. Isso se intensifica com a transformação digital. Temos a oportunidade de investir para adequar nossa educação, agora com tecnologia - observa Randon.

Ronald Krummenauer, primeiro CEO do Transforma RS que foi reconduzido para novo mandato, lembra que o centro "nasceu quase junto com a pandemia". Em vez de atrapalhar, sustenta, isso permitiu ajudar na definição de protocolos para lidar com a pandemia e atuar para buscar "equilíbrio entre saúde e economia". O trabalho, reforça, não se limita a reuniões periódicas, mas em participação constante e efetiva na identificação de problemas e busca de soluções.

MARTA SFREDO

sábado, 11 de fevereiro de 2023


11/02/2023 - 
CLAUDIA TAJES

Vale a pena casar se uma traição doeria mais no bolso do que no coração?

Se alguém tiver alguma coisa contra, diga agora ou cale-se para sempre. Eles estão apaixonados, decidiram casar e querem ficar juntos para sempre. Pelo sim, pelo não, um casal de Belo Horizonte decidiu firmar um acordo pré-nupcial que estabelece multa em caso de traição. O seguro morreu de velho, já dizia vovó. Foi o próprio Tribunal de Justiça de Minas Gerais que divulgou a informação. Segundo a nota, os noivos pediram que “o lado inocente receba a indenização pelo possível constrangimento e vergonha que possa passar aos olhos da sociedade”. 

Tudo indica que o casal apaixonado não está pensando apenas em uma traição no aconchego da alcova, mas em um furdunço. Por exemplo, um dos dois ser apanhado em público com a boca, ou outra parte do corpo, na botija no meio de um show, no provador de uma loja, em um banco de praça, na cozinha da lanchonete, dentro de um ônibus de linha, na escolinha dos filhos. 

Acredite, todos esses lugares já serviram de palco para traições conjugais. É só fazer uma pesquisinha na internet para ver. Pois é isso. O casal já enviou os convites para a cerimônia, deixou a lista de presentes no bazar, acertou com o bufê e contratou a banda para tocar na festa. Só que antes se preveniu. Valor da indenização no caso de alguém pular a cerca: R$ 180 mil. 

A juíza que deferiu o termo disse que os noivos têm liberdade para regular como será seu matrimônio, já que o dever da fidelidade está previsto no Código Civil Brasileiro. Nessa parte, confesso, me caíram todos os butiás do bolso. 

Por ignorância – e também por que tal dever nunca havia me passado pela cabeça – jamais imaginei que o Código Civil Brasileiro se ocupasse de quem dá para quem. Já pedi meu exemplar para me atualizar, ou me retroceder, com relação aos meus direitos e deveres civis. Não quero tomar uma multa.

Voltando à magistrada, foi assim que ela caneteou a decisão: “Os casais têm autonomia para decidir o conteúdo do pacto antenupcial, desde que não violem os princípios da dignidade humana, da igualdade entre os cônjuges e da solidariedade familiar”. Observadas essas condições, ao Poder Público não cabe intervir na vida privada e nos desejos dos envolvidos.

Está certa a juíza. O casal mineiro deve ter suas razões. E devem ser razões bem fortes para que a multa não fosse apenas simbólica. Uma cesta básica permitiria que o traidor recaísse. Um salário mínimo, também. Já R$ 180 mil vão exigir do candidato a infiel uma boa reflexão antes de cometer o adultério.

A pergunta é: vale a pena casar se tudo indica que um só não vai trair o outro por que doeria mais no bolso do que no coração?

Trazendo para a vida real, alguns pequenos acordos pré-nupciais talvez tornassem os matrimônios mais felizes. Coisas simples com multas pequenas, quase irrisórias, mas aplicadas com o rigor da Lei em caso de descumprimento das cláusulas. Alguns exemplos.

Deixar uma pilha de copos sujos e espalhados pela casa dá multa de trabalhos forçados: lavar a louça toda pela semana inteira.

Não repor o sabonete, obrigando o cônjuge a tomar banho com xampu para cabelos arruinados: multa de demorar apenas dois minutos contados no relógio embaixo do chuveiro, perdendo o alívio da água fria caindo no lombo no agradável verão gaúcho. 

Isso se você não morar em Sapucaia do Sul, Gravataí ou outra dessas cidades que penam com o descaso de quem deveria abastecer os cidadãos de água.

Deixar embalagens de leite, de água, de manteiga, de suco, de tomate pelado e do que for vazias na geladeira, dando a falsa impressão de que ainda existem víveres na residência: multa de ir ao supermercado e pagar a conta sozinho. Embora, atualmente, essa modalidade de punição exija uma poupança de mais ou menos R$ 180 mil. Se alguém tiver alguma coisa contra, diga agora ou cale-se para sempre.

11/02/2023 - 10h58min
MARTHA MEDEIROS 

Homenagem a Gloria Maria e a todos os que rompem correntes

De tempos em tempos, é preciso arrancar a gravata, tirar o salto alto, livrar-se do uniforme civilizatório e ficar desnudo para si mesmo. Sem movimento, a linha do monitor de batimentos cardíacos se horizontaliza e acusa o fimGilmar Fraga / Agencia RBS

Viver, para algumas pessoas, resume-se a evitar as inquietações existenciais, não se afastar muito do próprio bairro e economizar dinheiro para trocar de sofá. O que haveria de tão interessante lá fora, senão outros prédios, outras farmácias, outras árvores?

Quando comprei minha primeira passagem para o exterior, imaginei que faria um deslocamento cósmico. No entanto, deparei com outros prédios, farmácias e árvores – outro cenário, não outro planeta. O que virou minha cabeça foi o confronto com outro eu.

Nunca me conformei em preencher todos os meus dias com horários definidos para dormir e acordar, com os telefonemas regulares para a família, com os mesmos trajetos e as mesmas conversas. Até a temperatura de amanhã é prevista na véspera. 

Esse exaustivo ensaio de uma vida que nunca estreia já inspirou música boa – “Todo dia ela faz tudo sempre igual...” – mas o confinamento definha. Salve a rotina, desde que tracemos alguns planos de fuga.

Imagino que uma pessoa que precisou trabalhar na lavoura desde pequeno tenha uma ideia diferente de liberdade, são outras as premências. Ainda assim, em um momento de descuido, há de surgir uma fresta por onde escapar – se houver mesmo o desejo. E aí se faz uma estrada.

Mar aberto. Desertos. Florestas. Tribos indígenas. Montanhas. Canyons. Cidades históricas. Geleiras. Santuários ecológicos. Templos orientais. Pirâmides. Vulcões. Ilhas. Caminhos sagrados. Vilarejos humildes. Ruínas. Metrópoles de cinema. Praias selvagens.

De tempos em tempos, é preciso arrancar a gravata, tirar o salto alto, livrar-se do uniforme civilizatório e ficar desnudo para si mesmo. Trocar de pele. Morrer e renascer, morrer e renascer, a fim de voltar mais forte.

Sem movimento, a linha do monitor de batimentos cardíacos se horizontaliza e acusa o fim. Em vez de estacionar em ponto morto, que haja coragem para se expressar em um idioma diferente, encontrar outros meios de se traduzir, preparar o olhar para novas combinações de cores, refinar o paladar para sabores esquisitos, compreender que há outros jeitos de cumprimentar as pessoas, outros tipos de casamento, outras formas de higiene, outras maneiras de se atravessar um rio, outros deuses, outros modos de se vestir, outros mistérios. Essa incrível universalidade aniquila a soberba e desperta insuspeitas virgindades em nós, o que é sempre rejuvenescedor.

Não podendo viajar, nem tendo acesso a tipos diversos de seres humanos, pode-se ir bem longe através dos livros. Bibliotecas contêm todos os países e as almas mais exóticas. “Você não é nada mais do que sua vida”, definiu Sartre. Essa coluna é em homenagem a Gloria Maria e a todos os que rompem correntes, atravessam paredes e assumem o volante.


11/02/2023 - 17h09min
Fabrício Carpinejar

Algo de podre no reino da Dinamarca

Quando o homem não é gentil e, mais do que de repente, surge com flores, com chocolate, com agrados para a esposa, significa que ele pisou na bola. "Antevemos o tamanho dessa besteira pelo valor dos mimos. Quanto mais caro o presente, maior o estrago que ele deseja esconder". Quando a esmola é demais, o santo desconfia. O provérbio tem um forro de verdade. Quando o homem não é gentil e, mais do que de repente, surge com flores, com chocolate, com agrados para a esposa, significa que ele pisou na bola.

Chuva de elogios é dilúvio na certa. Buquê de 36 rosas colombianas tem também mais espinhos. Ninguém muda o comportamento de uma hora para a outra, sem transição e terapia, sem evolução gradual, num passe de mágica.

Somente são românticos quando em perigo moral, criando distrações para as suas mentiras. Não estou me referindo aos românticos-raiz, constantes, mas aos românticos-Nutella, ocasionais.

Se o sujeito não era sentimental e aparece todo fofo, todo carinhoso, todo falante, todo grudento, concordando com tudo, querendo sair a sós para um jantar à luz de velas ou viajar no final de semana para um lugar paradisíaco, fez alguma besteira.

Antevemos o tamanho dessa besteira pelo valor dos mimos. Quanto mais caro o presente, maior o estrago que ele deseja esconder. Joias milionárias, então, podem encobrir infidelidade com gravidez. Pense no pior, e ainda será o trailer da omissão.

A princípio, o que parece generosidade é alguém pagando os seus pecados — e pecados caríssimos, com poder de destruir o futuro do romance. Da inércia, os suspeitos partem para uma hipermobilidade afetiva, não deixando espaço para incertezas. Enchem a sua parceira de surpresas em sequência, como que tocados pelo milagre da transmudação.

De vinagre genérico, viram vinhos de safra rara. Tudo o que não realizaram de cavalheirismo e cuidado em uma vida resolvem fazer em uma semana. Nem Juscelino, com a criação de Brasília e seu lema de crescimento de "50 anos em cinco", seria capaz de executar um plano de metas com tamanha celeridade e competência.

Não discutem, não brigam, suspendem o "não", aceitam por impulso o que não é do seu feitio, festejam a sogra e os jantares de família, afastam-se inexplicavelmente do vício do celular, abraçam os deveres de casa dos filhos. Tornam-se os homens certos e ideais, infelizmente, pelos motivos errados, e talvez tarde demais. Percebem que não serão perdoados e correm contra o tempo para conseguir atenuantes e tapar a precariedade de suas decisões com um relampejante conto de fadas.

Somente são românticos quando em perigo moral, criando distrações para as suas mentiras. Somente são românticos com culpa no cartório, assinatura autenticada várias vezes na deslealdade e já contando com testemunhas de suas traições.

Tentam enfeitar e perfumar a realidade para ocultar uma falha grave de fidelidade. É a força das palavras de Shakespeare diante da fraqueza humana. Excesso de romantismo inesperado escancara que há algo de podre no reino da Dinamarca.


11/02/2023
Jaime Cimenti
Assassinatos na ilha paradisíaca
O retiro (Editora Intrínseca, 400 páginas, R$ 69,90 livro impresso, R$ 46,90 versão e-book, tradução de André Czarnobai) é o novo romance da premiada escritora inglesa Sarah Pearse, autora do bestseller O Sanatório (Editora Intrínseca, 2022), que mergulhou na estonteante e ilusoriamente calma paisagem dos Alpes Suiços. O Sanatório foi apontado como um dos melhores títulos da literatura de mistério da atualidade e, sem exagero, a autora foi comparada a Agatha Christie, Stephen King e Alfred Hitchcock e ingressou no rol dos grandes autores da atualidade.
Neste O retiro Sarah Pearse traz como pano de fundo um idílico retiro de bem-estar inaugurado em uma ilha, que promete descanso e relaxamento para seus visitantes. Entretanto, lá nada é realmente o que parece. Poucos sabem que a ilha, conhecida localmente como Pedra da Morte, tem um passado altamente sombrio: foi palco de uma série de assassinatos alguns anos antes.
Um grupo de hóspedes busca refúgio e distância dos problemas nos cenários encantadores e, entre eles, duas irmãs e uma prima, que parecem alimentar ressentimentos do passado. Logo uma série de acontecimentos macabros tem início. Uma mulher é encontrada morta debaixo do pavilhão das aulas de ioga. Outro hóspede se afoga durante um mergulho. A detetive Elin, que já foi personagem do romance anterior de Sarah, percebe que as mortes não foram acidentais. Com sua intuição aguçada, ela percebe que a maioria dos hóspedes veio em busca de calma, mas que alguém está ali por vingança.
Com linguagem envolvente e ágil, com enredo cheiro de reviravoltas, em capítulos curtos e mostrando habilidade narrativa incomum, neste segundo livro a escritora faz uma releitura do modelo de Agatha Christie, dá uma referência gótica à ilha, mescla thriller psicológico com mistério, apresenta cavernas, boatos sobre uma maldição e mostra porque é considerada um dos grandes nomes da literatura de mistério da atualidade. 

Lançamentos

20 Poemas Para Novembro (ASERGHC, 90 páginas), do Conselho Raça, Gênero e Diversidade da ASERGHC, com organização de Gabrielle de Paula e Nathalia Bittencurt, e apresentação de José Antônio Souza da Silva, apresenta dezenas de poemas de quinze autores sobre escravidão, negritude e vozes erguidas em favor da liberdade.
Empreender sem Desculpas (Editora DVS, R$ 79,00), da consagrada jornalista, gestora e consultora portuguesa Ana Cristina Rosa, conta, em tom bem humorado e pessoal, como ela se tornou empreendedora global, trazendo conhecimento e exaltando o potencial do país na geração de novos negócios.
Soterrados (Ardotempo, 64 páginas, R$ 60,00), do consagrado poeta e compositor Martim César, natural de Jaguarão, traz longos e belos poemas, com ilustrações de Alfredo Aquino. Os versos tratam de lutas sociais, terra, pão, liberdade e sonhos por uma vida mais digna, evocando o grande Pablo Neruda.
Os muitos tons das ideologias
Especialmente nos últimos 100 anos, questões e definições envolvendo as nossas principais ideologias, especialmente as de natureza política, se tornaram mais e mais complexas - e a globalização e os meios de informação cada vez mais poderosos e tecnológicos, igualmente, são responsáveis pelos muitos tons das ideologias, no tempo e no espaço. Conceitos sobre esquerda e direita, por exemplo, hoje são muitos e de várias cores e é preciso ter uma visão ampla sobre eles.
Ideologias (Companhia das Letras, 246 páginas), da advogada e comunicadora paulista Gabriela Prioli, mestre em direito penal pela USP, doutoranda da FADISP e autora do livro Política é para todos (Companhia das Letras, 2021), apresenta as três principais ideologias - liberalismo, conservadorismo e socialismo - que nos ajudam a pensar a política e a sociedade da atualidade.
O volume é apresentado pelo ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, que escreveu: "A vida comporta muitos pontos de observação por lentes diferentes. Nesses tempos de intolerância e de donos da verdade, este livro traz luz, suavidade e conhecimento para um mundo que vive momentos de escuridão, aspereza e exaltação da ignorância. Há esperança. Ao expor sem maniqueísmo aquelas que são, no seu ponto de vista, as três principais vertentes ideológicas contemporâneas, a autora deixa implícito um ensinamento de grande maturidade: quem pensa diferente de mim não é meu inimigo, mas meu parceiro na construção de uma sociedade aberta, plural e democrática. Conviver com o diferente, respeitá-lo e aprender com ele é uma vitória do espírito."
A primeira parte da obra trata do liberalismo, com introdução, protoliberalismo e as três revoluções, os seis tipos de liberdade e, ao final, uma lista de autores.
A segunda parte do volume enfoca o conservadorismo e trata do nascimento do conservadorismo, da lógica do cubo mágico, de seus alicerces e da diferença entre distributistas e reacionários. Ao final, lista de autores sobre o tema.
A terceira e última parte trata de socialismo, com introdução, as origens do socialismo, utopia, a Revolução Francesa e a igualdade, os socialistas utópicos, Marx, Engels e o comunismo, as muitas esquerdas na esquerda e, ao final, lista de autores.
Nas páginas anteriores às referências bibliográficas e ao índice remissivo, Gabriela Prioli oferece uma clara e concisa conclusão, que merece ser reproduzida por aqui.
"Temos muitos problemas antigos cujos contornos se alteram constantemente, numa velocidade cada vez mais rápida. E temos, na mesma velocidade acelerada pela Revolução Tecnológica, novos problemas", escreve Gabriela Prioli. "Num mundo complexo, não existem respostas fáceis. A simplificação conforta porque ilude. Você prefere o conforto das ilusões que o carregam para o abismo ou a dureza da realidade que lhe permite, ainda que com alguma dificuldade, o desvio?"
A propósito...
Com sua linguagem acessível, Gabriela, hoje uma de nossas maiores e mais relevantes criadoras de conteúdo, muito mais do que meramente apresentar um grande panorama de ideias, nos convida a refletir e a dialogar respeitosamente com aqueles que têm opiniões divergentes. Disso precisamos, numa "aldeia global" tão dividida, multifacetada e, infelizmente, tantas vezes violenta. Antes de tudo é preciso acreditar que é possível pessoas e mundo melhores; depois é tratar da construção coletiva.

11 DE FEVEREIRO DE 2023
PÓS-CREDITOS

O HOMEM QUE DESAFIOU PUTIN

Dos cinco indicados ao Oscar 2023 de melhor documentário, três já podem ser vistos no Brasil: All That Breathes, na HBO Max, Navalny, na mesma plataforma, e Vulcões: A Tragédia de Katia e Maurice Krafft, no Disney+. Completam a lista All the Beauty and the Bloodshed e A House Made of Splinters.

A disputa está acirrada. Quatro desses filmes também competem no Bafta, da Academia Britânica, e no DGA Awards, do Sindicato dos Diretores dos EUA, ambas entidades que têm votantes no Oscar.

All That Breathes, Navalny e Vulcões aparecem ainda na lista do PGA Awards, da Associação dos Produtores dos EUA. O suposto azarão é A House Made of Splinters, do dinamarquês Simon Lareng Wilmont, premiado no Festival de Sundance do ano passado ao narrar histórias de crianças alojadas em um orfanato no leste da Ucrânia, durante a guerra com a Rússia.

All That Breathes, do indiano Shaunak Sen, registra a luta de dois irmãos para, em meio à poluição e ao céu sombrio de Nova Délhi, proteger o pássaro conhecido como milhafre-preto (black kite).

Em Vulcões, a estadunidense Sara Dosa reconstitui a trajetória do casal francês Katia e Maurice Krafft, cientistas e documentaristas que morreram por causa de uma erupção vulcânica no Monte Uzen, no Japão, em 1991.

Em All the Beauty and the Bloodshed, a também estadunidense Laura Poitras acompanha a vida da artista Nan Goldin e a queda da família Sackler, a dinastia farmacêutica que foi a grande responsável pelo insondável número de mortos na epidemia de opioides - tema da premiada minissérie Dopesick (2021).

Navalny retrata o maior opositor de Vladimir Putin, que vem se perpetuando no poder da Rússia desde a renúncia de Boris Ieltsin, em 1999 - atualmente, está no seu quarto mandato como presidente (também já foi primeiro-ministro) do maior país do mundo em extensão territorial e o nono mais populoso (são 143,7 milhões de habitantes). Dirigido pelo canadense Daniel Roher, o documentário começa com uma pergunta do realizador a seu personagem, o advogado Alexei Navalny, 46 anos, líder do partido Rússia pelo Futuro e criador da Fundação Anticorrupção:

- Se você for morto, se isso acabar acontecendo, que mensagem você gostaria de deixar para o povo russo?

O entrevistado sorri:

- Me poupe, Daniel! Parece que está fazendo um filme para caso eu morra. Ok, eu estou pronto para responder à sua pergunta, mas, por favor, faça um filme diferente. Vamos fazer um thriller deste filme, e, se eu morrer, faça um filme chato in memoriam.

Nazistas

A resposta ajuda a dimensionar a personalidade do bonitão Navalny, que se notabilizou por organizar protestos contra Putin - "É a profissão mais perigosa do mundo", define uma jornalista no áudio de uma reportagem.

O atual ocupante do Kremlin o odeia tanto, que se recusa a citar seu nome, como indicam trechos de entrevistas reproduzidos no filme. O opositor também virou sucesso em plataformas digitais e redes sociais, especialmente o Tik Tok, onde estão os jovens eleitores. Sua ambição é destronar Putin, nem que para isso tenha de marchar ao lado de nazistas.

- Em um mundo normal, em um sistema político normal, claro, eu jamais estaria no mesmo partido que eles. Mas estamos criando uma coalizão ampla para lutar contra o regime, só para chegar à situação em que todos possam participar da eleição - justifica Navalny.

"Você não se sente desconfortável de ser visto em fotografias com eles?", questiona o diretor.

- Eu não me importo. Considero que seja meu superpoder político. Consigo falar com qualquer um - afirma Navalny. - De qualquer forma, eles são cidadãos da Rússia, e, se eu quiser vencer o Putin, se eu quiser ser um líder do meu país, não posso ignorar essa grande parte da população.

Envenenamento

Aquela pergunta inicial de Roher, por sua vez, remete ao assunto central do documentário: a tentativa de assassinato, por envenenamento com a substância chamada Novichok, de Navalny, durante um voo de Tomsk para Moscou, no dia 20 de agosto de 2020. Para profissionais da TV estatal, contudo, o político apenas sofreu efeitos colaterais porque, "como todos os opositores, toma remédios antidepressivos americanos". Ou então pagou o preço por "participar de orgias homossexuais intermináveis com álcool e cocaína", sugere outro comentarista.

Como o documentário mostra, Navalny já havia sido alvo de um ataque com um líquido verde tóxico, atirado em seu rosto ("A primeira coisa que pensei foi: Jesus, eu vou ser um monstro até o fim da minha vida"), além de ser detido pela polícia em algumas ocasiões ou condenado por convocar protestos "não autorizados".

- À medida que fui ficando mais famoso, tive certeza de que minha vida seria mais segura. Me matar seria problemático para eles - reflete.

Ele estava enganado, assume logo em seguida. O filme documenta o processo de recuperação de Navalny, na Alemanha, tendo ao lado sua esposa, a economista Yulia Navalnaya, e seus filhos, Dasha (hoje com 22 anos) e Zakhar (14), e a investigação conduzida pelo jornalista búlgaro Christo Grozev, que ajudou a equipe do russo a descobrir detalhes que indicam o envolvimento do Kremlin no plano homicida. Em certos momentos, o documentário assemelha-se mesmo a um thriller de espionagem, com direito a momentos de insuspeitado alívio cômico.

Mas logo fica claro que essa história não terá um final feliz. Motivado por um misto de idealismo, compromisso e vaidade, o regresso a Moscou, em janeiro de 2021, não será triunfal, ainda que uma multidão o estivesse esperando.

Atualmente, Alexei Navalny cumpre pena de nove anos em uma cela de três metros por dois metros em uma prisão localizada a 250 quilômetros de Moscou, sob acusação de "fraude e desacato". As últimas notícias dão conta das privações a que é submetido, incluindo o não acesso a atendimento médico. Recentemente, o ativista anunciou que, em 31 de dezembro, foi enviado pela décima vez a uma cela disciplinar, por um período de 15 dias, onde o seu isolamento e seus direitos ficam mais limitados. A punição se deu porque ele havia se banhado antes do horário regulamentar. Os partidários de Navalny denunciam uma tentativa do Kremlin de matá-lo pouco a pouco.

PÓS-CREDITOS

LITERATURA

O LIVRO

A amizade entre dois dos maiores escritores da América Latina terminou com desavença, empurrão e um soco no olho esquerdo de Gabriel García Márquez desferido por Mário Vargas Llosa. Essa é, também, uma das imagens mais famosas da literatura: a foto de Garcia Márquez com o olho roxo, gargalhando.

A amizade terminou ali mesmo, em 1976. O colombiano e o peruano eram amigos desde 1967, quando iniciaram uma amizade fervorosa, incomum até, para um pessoa como García Márquez, tipo reservado e que não levava desaforo para casa. Os dois nunca revelaram o motivo da briga. Podemos, apenas, especular, o que, aliás, ajudou a manter a história muito popular: ou foi motivo político ou ciúmes de mulher. Político porque Vargas Llosa, no princípio, era comunista fervoroso, simpatizante da Revolução Cubana, mas depois adernou à direita e hoje é um arauto do liberalismo. 

E García Márquez nunca deixou de ser um ferrenho comunista. Sobre as mulheres: mesmo baixinho, feio e dono de um bigodinho medonho, García Márquez tinha fama de galanteador. Vargas Llosa era um espécie de Alain Delon latino: alto, esbelto, cabelo parelho, penteado para trás. Não era só fama; ele de fato era um galanteador, embora casado.

Ambos ganharam o Prêmio Nobel após a publicação de livros memoráveis. García Márquez escreveu, entre outros, os best-sellers O Amor nos Tempos do Cólera e Do Amor e Outros Demônios, além do clássico Cem Anos de Solidão. Vargas Llosa deixará um legado também impactante: Pantaleão e as Visitadoras, Tia Julia e o Escrevinhador e os romances históricos igualmente geniais A Guerra do Fim do Mundo (sobre Canudos), e A Festa do Bode (sobre a ditadura de Rafael Trujillo na República Dominicana).

Em 1967, quando só haviam se visto uma vez na vida, eles se reencontraram em um debate sobre o romance latino-americano realizado em Lima. Vargas Llosa era o organizador. E convidou García Márquez, escritor que passara a admirar profundamente, sobretudo pelo impacto do então recém-lançado Cem Anos de Solidão. Era um tempo em que o termo "realismo fantástico" ainda não havia sido difundido. O evento foi tão prazeroso para ambos que acabou estendido, e García Márquez e Vargas Llosa, assim, puderam debater ao longo de dois dias, e não apenas um, como estava previsto inicialmente.

O resumo daqueles dois dias virou uma publicação momentânea, que se perdeu com o tempo e desapareceu. Mas ressurge agora no livro Duas Solidões - Um Diálogo sobre o Romance na América Latina, publicado no Brasil no final de 2022. Cem Anos de Solidão, naturalmente, foi o tema central do debate. Como entrevistado, García Márquez foi instigado a falar sobre a obra - e sobre a solidão, sobre sua vida pessoal, sobre o homem latino-americano. 

O colombiano mostra-se surpreendentemente à vontade - ele que tinha fama de tímido ao falar em público - e descreve, em detalhes, a vila onde morou na infância, a "poeirenta" Arataca. García Márquez nos ensina: "A primeira grande dificuldade é aprender a escrever. Essa é a parte que eu acho misteriosa, a parte inata, e que fez com que eu seja escritor ou estenógrafo. Aprende-se lendo, trabalhando sobretudo sabendo uma coisa: escrever é uma vocação excludente, todo o resto é secundário. A única coisa que a gente quer é escrever".

Vargas Llosa explora também os limites entre a vida pessoal e a obra literária. E apresenta aptidão e desenvoltura como entrevistador. Evoca outro gigante latino-americano, Jorge Luis Borges, e até parece que antevê o que fará no futuro quando analisa 35 clássicos da literatura no livro A Verdade das Mentiras. Sem tablet, teleprompter ou qualquer outro dispositivo eletrônico para auxiliar a leitura.

É o improviso que dá liberdade ao bate-papo. Tanto que, ao iniciar o segundo dia de conversa, García Márquez sequer lembra sobre o que discorria quando houve a interrupção, ao final do primeiro dia. Pode-se dizer que ali começava a amizade entre os dois mestres dos livros, amizade esta que terminaria com a misteriosa briga registrada sete anos depois.

Ao final de Duas Solidões - Um Diálogo sobre o Romance na América Latina, os leitores são brindados com um depoimento-entrevista atual em que Vargas Llosa fala sobre García Márquez, inclusive lamentando a morte do amigo, ocorrida em 2014. Vê-se que o peruano não guarda rancor do antigo parceiro com o qual brigou, há mais de 40 anos.

Duas Solidões - Um Diálogo sobre o Romance na América Latina - De Gabriel García Márquez e Mário Vargas Llosa. Tradução: Eric Nepomuceno. - Ed. Record, 112 páginas, R$ 45, em média 

DANIEL SCOLA 


11 DE FEVEREIRO DE 2023
J.J. CAMARGO

MEDICINA SEM PRESSA

Encontre uma pessoa de que supostamente goste e descubra o desconforto de perceber que ela está com pressa. Se estiver com saudade da figura, será ainda pior. Porque toda a pressa tem uma mensagem explícita: "Eu tenho uma coisa mais importante para fazer, que não é estar aqui".

Não por acaso, a pressa é considerada uma das formas mais grosseiras de desconsideração. E não adianta alegar que a vida anda muito corrida, porque não é dessa aceleração que estamos tratando. Há uma clara diferença entre estar atarefado ou simplesmente enfarado.

A propósito, os prepotentes, habituados ao exercício crônico da prepotência, nem se preocupam mais em disfarçar a cara de desagrado diante de qualquer interrupção casual. Não importando que seja o encontro inesperado de um colega antigo que não nunca mais deu as caras, ou a visita de um propagandista que quer lhe atualizar numa forma de terapia que se sabe não funciona, ou, muito comum, de um familiar aflito que busca notícias da mãe internada na UTI.

Os médicos vivem diariamente, na relação com os pacientes, o dilema de manter uma agenda ensandecida e dar atenção a quem está assustado porque adoeceu. E ainda, na medida do possível, tranquilizar a quem foi arrastado pelo temor da perda, sempre presente no núcleo da família, confirmando que ninguém adoece sozinho.

Esta premência por todo afeto disponível se acentua na doença, e o paciente, que por coerência é a razão de ser da medicina, não pode ser tratado como um freguês qualquer que se confunda com o consumidor que frequenta uma loja de ferragens, ou o infeliz que dependa do atendimento em uma repartição que a burocracia lhe impôs, e as alternativas oferecidas são esperar e esperar. Até porque, no cotidiano, esses calvários são fugazes, e logo a vida volta ao normal, incluindo no máximo dois ou três xingões. Silenciosos, claro, como manda a boa educação.

A diferença é que, na doença, a tolerância reduz muito, a ansiedade está severamente agravada pelo medo do desconhecido, e o médico que faz mais do que medicina preventiva é desafiado diariamente a ser empático, muitas vezes atribulado por precárias condições de trabalho.

Aliás, essas mazelas do trabalho enfrentadas pelo médico, especialmente na saúde pública, são completamente ignoradas pelo paciente que, compreensivelmente, não as coloca entre suas prioridades. E até as posturas agressivas que alguns desses pacientes assumem, conscientemente ou não, temos que estar dispostos a relevar. Por uma razão simples: a ameaça da doença e o medo dela decorrente transfiguram as pessoas, neste processo de transferência de culpa que é uma característica inata do ser humano no limite do sofrimento.

Quando um grupo de formandos pediu-me que explicasse melhor o que era a novidade da "slow medicine", ocorreu-me reproduzir a sensação que experimentei ao receber no ambulatório dos convênios a dona Antônia, que se deslocava com a velocidade que lhe permitiam seus 90 anos. Quando perguntei o que podia fazer para ajudá-la, ela me disse: "Não sei como dizer, mas a primeira coisa que preciso lhe pedir é que o senhor não fique bravo comigo, porque eu não tenho doença nenhuma, mas eu gosto das coisas que o senhor escreve e queria tanto ter alguém que pudesse me ouvir".

E conversamos, muito. Não lembro nada daquele dia que devesse ter sido feito e não foi. Mas impossível esquecer a ternura da despedida. Havia ali a gratidão genuína de quem foi ouvida, sem pressa. Deem a esta medicina o nome que quiserem, mas ela é encantadoramente real. Pelo silêncio constrito dos meninos, acho que entenderam.

J.J. CAMARGO

11 DE FEVEREIRO DE 2023
LEANDRO STAUDT

O muro da baronesa

O muro do Pão dos Pobres guarda a história de uma das famílias mais ricas de Porto Alegre no século 19. Com o pórtico e as grades de ferro, na Avenida Praia de Belas, a estrutura traz lembranças da época do palacete do barão e da baronesa de Gravataí. Antes do aterramento do Guaíba e da canalização do Arroio Dilúvio, o casarão ficava no terreno entre o lago e o riacho. O complexo de prédios da Fundação Pão dos Pobres ocupa a área da antiga chácara.

João Baptista da Silva Pereira e Maria Emília da Silva Pereira foram os primeiros proprietários da área entre as décadas de 1820 e 1830. O historiador Pedro Meirelles, que pesquisa o passado do Pão dos Pobres, afirma que a primeira menção documentada sobre o palacete é de 1845. O comendador fez fortuna no comércio, inclusive de escravos. Morreu em 1853, um ano depois de receber o título de barão. Com o falecimento do marido, a baronesa ficou com a chácara. Em 1879, teria loteado parte das terras herdadas, permitindo à Câmara Municipal a abertura de ruas. O palacete foi alugado, abrigando a Escola de Infantaria e Cavalaria e a Enfermaria Militar. Ela morreu em 16 de março de 1888.

Os herdeiros continuaram alugando o imóvel até 1895, quando foi comprado pelos barões de Nonoai, que provavelmente nunca residiram no casarão. Um incêndio o destruiu totalmente em 1899. Poucos meses depois, o cônego José Marcellino de Souza Bitencourt assinou a certidão de compra do terreno para implantar o Abrigo das Famílias Pobres e Honestas, nome antigo do Pão dos Pobres. Ele é o fundador da instituição em 1895. 

Começou oferecendo esmolas, pão bento e roupas para necessitados na catedral. Quando foi para a Cidade Baixa, a instituição ocupou prédios não atingidos pelo incêndio. Em 1904, foi construído imóvel de um pavimento para moradia de famílias. Em 1930, depois de cinco anos em obras, ficou pronto o maior prédio, que está em reforma hoje. É desconhecido o ano de construção do muro, feito de tijolos maciços e arrematado com pedra-arenito. Ele também será restaurado, mantendo viva uma parte da história da cidade.

LEANDRO STAUDT

11 DE FEVEREIRO DE 2023
ACERTO DE CONTAS

Futuro das lojas da Livraria Cultura

Com a falência decretada pela Justiça, começa a surgir dúvidas sobre o futuro das lojas físicas da Livraria Cultura. A empresa ainda tem duas operações em funcionamento pelo país, uma delas em Porto Alegre, no shopping Bourbon Country. A coluna consultou dois advogados especializados em reestruturação de empresas para saber quais serão os próximos passos do processo.

No entendimento do advogado Guilherme Caprara, sócio da Medeiros, Santos e Caprara Advogados, o próximo passo já seria a lacração das lojas físicas, termo usado para se referir ao fechamento:

- Não há um prazo específico na lei, mas na lógica, decretada a quebra, nomeado o administrador, o passo seguinte é lacrar o estabelecimento, arrecadar os ativos e, posteriormente, começar a venda, a liquidação dos ativos para credores, em leilão.

Ainda pode haver o entendimento de que a manutenção das lojas abertas seria melhor para arrecadação da companhia. Para a fundadora do escritório Laís Lucas Advogados Associados e professora de direito empresarial da PUCRS, Laís Lucas, não dá para afirmar que as lojas fecharão "em breve". Segundo ela, é feita, antes, uma análise entre o administrador judicial e o juiz para avaliar o que causará menos "custos" para a companhia: fechar a loja ou mantê-la aberta para vender os livros.

- É possível, pela legislação, que a falida continue em operação se isso reduzir os prejuízos. Se eles já têm os livros para vender, e conseguirem vendê-los, talvez seja vantagem manter aberto. Mas também é calculado se não é melhor fechar as lojas e parar de pagar o aluguel.

Em nota, a empresa diz que recebeu a informação da falência com "grande surpresa": "Nesse momento iremos analisar a decisão do juiz, mas pretendemos recorrer, pois entendemos que há soluções mais apropriadas à empresa". Também confirmou que as operações físicas e o site "mantém-se normalmente em funcionamento".

Caso ela de fato recorra, pode, também, pedir um efeito suspensivo para manter as atividades funcionando.

A Livraria Cultura abriu em Porto Alegre em 2003.

ACERTO DE CONTAS