sábado, 29 de abril de 2023


29 DE ABRIL DE 2023
FLÁVIO TAVARES

PERIGOS DA CEGUEIRA

A destruição é visível e a ciência adverte para o perigo, mas nos fazemos de surdos e cegos ante o horror. O derretimento das geleiras nos polos eleva o nível dos mares e, no último ano, atingiu proporções ameaçadoras à vida no planeta, como adverte a Organização Meteorológica Mundial em seu último relatório sobre o clima.

As mudanças climáticas transformaram-se em crise profunda, que exige uma mudança radical no comportamento de cada um de nós frente ao esbanjamento da atual sociedade de consumo. Nos últimos 10 anos, a taxa de aumento médio do nível do mar duplicou devido ao derretimento das geleiras da Groenlândia e da Antártica, adverte a Agência Espacial Europeia.

Os mares são uma espécie de ferramenta de captação do calor do planeta, aliviando os perigos do efeito estufa, mas, paralelamente, têm efeitos em cadeia quando os ecossistemas marinhos são ameaçados.

"Enquanto a emissão de gases de efeito estufa cresce e muda a temperatura, a população mundial é afetada pelo clima extremo e seus graves efeitos", adverte o relatório da Organização Meteorológica Mundial.

Continuamos surdos, porém, às advertências e às observações da ciência. Seguimos poluindo o ar com automóveis movidos a petróleo, enquanto os carros elétricos continuam inacessíveis pelo alto preço, além de não terem onde se abastecer. Chegamos ao absurdo de gerar eletricidade com usinas térmicas a carvão mineral, pouco desenvolvendo a energia eólica ou, até mesmo, aproveitando as ondas marítimas da extensa costa do Brasil.

As florestas continuam a ser tratadas como um estorvo, quando - em verdade - são a grande dádiva da natureza. A destruição da Amazônia e da Mata Atlântica continua em ritmo acelerado. Não respeitamos sequer a água (que deu vida ao planeta), permitindo que o garimpo polua os rios amazônicos com mercúrio.

O mais aterrador, porém, é o fantasma da fome no mundo inteiro, pois as mudanças climáticas interferem diretamente na agricultura, alterando o ritmo das lavouras.

O ex-presidente Bolsonaro incorporou a morfina ao anedotário político. Em longo depoimento à Polícia Federal, tentou defender-se atribuindo aos "efeitos da morfina" (usada numa obstrução intestinal) as afirmações de que o resultado da eleição presidencial havia sido fraudado?

FLÁVIO TAVARES


29 DE ABRIL DE 2023
ORLA DO GUAÍBA

Centro de eventos nos planos para o trecho 2

A prefeitura de Porto Alegre e o governo do Estado trabalham em conjunto para a divulgação de um projeto que buscará uma Parceria Público-Privada (PPP) para construção de um centro de eventos no trecho 2 da orla do Guaíba, onde atualmente existe o Anfiteatro Pôr do Sol.

Na próxima sexta-feira, o secretário estadual de Turismo, Vilson Covatti, deve se reunir com o governador Eduardo Leite para apresentar o Plano de Manifestação de Interesse (PMI) elaborado pela prefeitura. Se aprovado, será levado a público.

- Eu e o Ricardo (Gomes, vice- prefeito) já aprovamos um PMI sobre o centro de eventos no trecho 2. Vou mostrar para o governador, pedir uma parceria, antes de apresentar ao público - disse o prefeito Sebastião Melo a GZH, no evento de inauguração do Pontal Shopping, na quarta-feira.

Interesse

De acordo com Covatti, a pauta do encontro com Leite deve ser a análise do plano da prefeitura e de outras alternativas. O secretário ressalta que a condução do projeto será feita pelo Executivo municipal, mas que o governo estadual tem interesse - e até certa pressa - em ver o centro de eventos sair do papel.

- Na reunião com o governador, vou mostrar os planos que a Setur analisou, incluindo este da prefeitura. A proposta da Orla é a que parece mais perfeita neste momento, ainda que ela tenha um prazo mais longo do que outras para ser construída. Nosso objetivo é iniciar a construção do centro de eventos ainda no ano que vem - projeta Covatti. - A região é ótima, vimos eventos como o South Summit, no Cais, sendo um sucesso absoluto. Estamos enfrentando dificuldades para trazer outros grandes eventos para Porto Alegre sem este centro de eventos - complementa.

O PMI é norteado pelo decreto federal Nº 8.428, de 2 de abril de 2015. Em resumo, o texto estabelece as normas pelas quais entes públicos e privados devem iniciar um diálogo visando investimento nos moldes de PPP. Para isso, é preciso que o PMI seja publicizado e que as empresas interessadas procurem a prefeitura oferecendo soluções para a demanda estabelecida pelo Executivo municipal.

- Queremos mostrar (ao governador) o conceito (do PMI), para depois recebermos as críticas e as contribuições em consultas públicas - respondeu o prefeito.

ROGER SILVA

sábado, 22 de abril de 2023



20/04/2023 - 09h00min
Claudia Tajes

Um pequeno passo para a humanidade, uma eternidade para duas pessoas que dormem e acordam juntas todos os dias

Faltaria espaço aqui para citar todos, o que mostra que um casamento duradouro não é tão raro assim

Beton Studio / stock.adobe.com

Felizes são os gatos, que têm sete vidas para se apaixonar

Beton Studio / stock.adobe.com

Estive em uma comemoração de 40 anos de casamento. Quarenta anos. Sei que tem gente casada há mais tempo que isso, alguns há muito mais tempo, mas ainda assim não consigo deixar de olhar com um espanto respeitoso para essas quatro décadas. Um pequeno passo para a humanidade, uma eternidade para duas pessoas que dormem e acordam juntas todos os dias. 

Quanta coisa aconteceu em 40 anos? Países se separaram ou foram anexados na marra. Algumas moedas foram criadas e outras submergiram nos desmandos da economia. Estrelas foram descobertas, Plutão deixou de ser considerado um planeta, coitado. Novas espécies de bichos e de plantas foram encontradas, outras sumiram para sempre. As ombreiras saíram da moda, voltaram e, graças à deusa, caíram no esquecimento outra vez. Ainda que sempre se corra o risco de algum estilista resgatá-las do cemitério das tendências passadas. Crianças cresceram, adultos envelheceram, nasceu gente que não acaba mais no mundo. Livros maravilhosos foram escritos, e uma tonelada de livros ruins, também. Amores começaram e terminaram.

E a Cíntia e o Luiz Paulo seguiram casados. Sou amiga dos dois há uns bons 20 anos, categoria dente de leite perto de outros presentes à cerimônia – alguns que, desconfio, têm com os noivos reincidentes relações que vêm de vidas passadas. Ainda que um longo casamento por vezes me pareça, digamos, exótico, eu que tenho uma ficha corrida amorosa regular, casais longevos não faltam e muitos estavam na festa. A Tânia e o Felicinho. A Chris e o Ricardo. A Nora e o Jorge. A Porto e a Maldo. A Diana e o Mário. A Paula e o Eduardo. A Lucia e o Luis Fernando. A Luciana e o Carlos. A Josa e o Zé. O Nestor e a Lúcia. Faltaria espaço aqui para citar todos, o que mostra que um casamento duradouro não é tão raro assim.

Raros são os encontros. Como é de praxe nos recasamentos, a Cíntia e o Luiz Paulo trocaram novas alianças e renovaram seus votos para mais algumas décadas. Os dois prometeram continuar cuidando um do outro, inventando reformas na casa, viajando sempre que o dólar permitir e lendo e escrevendo vida afora. Pausa para os nossos comerciais. A Cíntia está começando mais uma edição da sua clássica Oficina do Subtexto, que já revelou muitos autores e que publica um livro ao final do curso. As aulas são online e as informações você consegue aqui: cintiamoscovich@gmail.com

Entre lágrimas e risos, só sei que a festa foi até as seis da manhã e o Luiz Paulo ainda bebeu a última cerveja antes de dormir e entrar oficialmente no quadragésimo-primeiro ano do casamento. Encerro com os votos da Cíntia para ele: “No mais, prometo continuar fazendo o que sempre fiz, porque foi isso o que me trouxe até aqui. Sem prestar atenção a promessas, prometo te dar o restante da minha vida. Porque a maior parte dela já tiveste – e foi bem bom”. Adoro continuações felizes.


20/04/2023 - 15h02min

@brunalombardi / Reprodução/Instagram

Bruna Lombardi revela detalhes íntimos do casamento de 45 anos: "A gente está sempre numa conquista, num tesão..."

Atriz é casada desde 1978 com o ator e diretor Carlos Alberto Riccelli. Eles se conheceram nas gravações da novela "Aritana", exibida pela extinta Rede Tupi

A atriz Bruna Lombardi é casada com o ator e diretor Carlos Alberto Riccelli. A atriz e apresentadora Bruna Lombardi, 70 anos, está prestes a completar 45 anos de casamento com o ator e diretor Carlos Alberto Riccelli,76. Em uma entrevista à revista Cidade Jardim, a artista avaliou seu relacionamento e contou detalhes íntimos de sua vida pessoal.

De acordo com Bruna, apesar de tanto tempo juntos, ela e o marido não perderam o carinho e desejo que um sente pelo outro e estão sempre buscando tornar o relacionamento mais saudável.

— Nossa relação é muito passional. Obviamente, há momentos mais serenos, mas a gente está sempre numa conquista, num tesão, um prazer. Mas isso não veio pronto. É uma construção — revelou a atriz à publicação.

Bruna e Carlos se conheceram durante as gravações da novela Aritana, que foi exibida de novembro de 1978 a abril de 1979 pela extinta Rede Tupi. Na produção, eles deram vida ao casal protagonista, o indígena Aritana e a mocinha Estela.

O casal acabou se apaixonando na vida real também. Pouco tempo depois de iniciarem o namoro, em 1978, os dois resolveram se casar. Da relação, nasceu o filho Kim, 41 anos, que atualmente segue os passos dos pais e atua como ator e diretor, especialmente no cinema.

Antes de conhecer Bruna, o ator havia se casado com outra colega da Tupi, a atriz Carmen Monegal, 71 anos. O matrimônio durou de 1973 a 1977. 

Atualmente, a musa dos anos 1980 e o diretor vivem em uma mansão em São Paulo. Por conta dos seus projetos pessoais, a apresentadora divide seu tempo entre a capital paulista e Los Angeles, nos Estados Unidos.

Na última semana, a artista compartilhou nas redes sociais uma foto da época em que conheceu e trabalhou pela primeira vez ao lado do marido. "Assim começou nossa história...", escreveu. O post recebeu vários comentários. "O tempo passou e vocês continuam lindos", elogiou uma internauta. "Maravilhosos. Fazem parte da minha história também", contou outra. "Que o universo proteja os dois", desejou um usuário do Instagram.



20/04/2023 - 09h00min
Moara Steinke

Chegada de Mercúrio retrógrado exige atenção para imprevistos e falhas na comunicação

Para a astrologia, período entre 21 de abril e 15 de maio favorece contratempos no cotidiano

Mercúrio retrógrado começa no dia 21 de abril e vai até 15 de maio

Who is Danny / stock.adobe.com

Mercúrio retrógrado está chegando no céu astrológico. Entre 21 de abril e 15 de maio, a retrogradação do planeta regente da comunicação, das negociações, do comércio e das atividades diárias promete um período de revisões e reavaliações sobre temas relacionados a gastos, investimentos e vida financeira. 

Além disso, valores pessoais, segurança emocional e apegos devem estar em alta nas próximas semanas. Entenda as principais características do novo aspecto:

Finanças

Um dos principais temas que devem ser revistos e/ou reorganizados nas próximas semanas é a segurança e a estabilidade em relação à vida financeira. É o momento em que gastos excessivos ou imprudentes devem passar por uma verdadeira auditoria no nível pessoal, seja de forma voluntária ou por provocações alheias. 

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O interesse por uma maior organização nos ganhos pessoais tende a aumentar e esse é um excelente momento para fazer uma triagem nas faturas e escolher melhor como administrar a grana. Mas, atenção: não é um bom momento para investimentos arriscados ou para ousar em novos projetos. O céu astrológico recomenda cautela e prudência ao lidar com dinheiro neste período.

Valores

Esse Mercúrio retrógrado traz de forma mais específica a energia de reavaliação sobre o que realmente tem valor na sua vida pessoal. Quais atividades, hábitos e até relações valem a pena? O convite astral é para atualizar e redefinir prioridades.

A segurança emocional também deverá ser tema de interesse nas próximas semanas. Por isso, não estranhe se algumas relações precisarem de ajustes. O desapego é uma das palavras-chave dessa posição astral: é hora de abrir mão do que não funciona mais e deixar a teimosia de lado. Touro é um signo que representa certezas e convicções. Portanto, cuidado para não ficar aprisionada nas mesmas opiniões. Aproveite o período para deixar ir o que já está velho e ultrapassado.

Comunicação

A posição de Mercúrio no signo de touro sugere uma comunicação mais prática, objetiva e até literal. Por isso, os diálogos podem perder um pouco da sensibilidade e da subjetividade. Esse aspecto é conhecido dentro da tradição astrológica por interpretar tudo ao pé da letra. Então, se quiser ser melhor compreendida durante o Mercúrio retrógrado, nem pense em deixar nada nas entrelinhas. É melhor falar na lata para se fazer entender e atingir o resultado desejado. 

Ainda assim, é de praxe que a comunicação fique truncada e com ruídos durante o aspecto. Por isso, paciência e persistência são grandes aliados nos diálogos das próximas semanas.

Intempéries

Para a astrologia, o planeta Mercúrio tem ligação com as atividades práticas do cotidiano. Durante sua retrogradação, é comum surgirem contratempos e imprevistos. Lidar com obstáculos inesperados é uma forte característica do Mercúrio retrógrado. Fazer um backup, salvar senhas, ter uma chave reserva e ficar de olho nos prazos são ações favoráveis no período. 

Vale lembrar que imprevistos e percalços podem servir para sair do piloto automático e observar com mais atenção o que se está fazendo e para onde está indo sua energia pessoal.


21/04/2023 - 19h16min
Rosane de Oliveira

Escalada de ódio está na raiz do atraso e da violência no Brasil

Polarização política não é a única explicação para esse aparente retorno à Idade da Pedra

A intolerância que divide famílias, extingue amizades, separa casais e nos catapulta para um mundo que substituiu o diálogo pelo grito (mesmo que seja um grito virtual, em letras maiúsculas) é a mãe dessa onda de ódio que só produz violência e atraso. Quando foi que o Brasil de uma população majoritariamente cordial começou a se transformar nesse país primitivo em matéria de relações sociais? 

É verdade que o “brasileiro cordial” de Sérgio Buarque de Hollanda comporta uma série de interpretações e não deixa de ser um mito. Afinal, nossa história nestes 523 anos desde a chegada dos portugueses é feita de revoluções em que se toleravam degolas e toda sorte de violências.

Seria muito reducionista atribuir à polarização política essa sensação de retorno ao tempo das cavernas – se é que na idade da pedra lascada não havia espaço para a gentileza. Um passeio pelos comentários em redes sociais ou em sites de notícias, mesmo aqueles que só tratam de banalidades, fornece uma pista para entender a violência que está nas pontas dos dedos.

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Brasil precisa responsabilizar big techs por publicações sobre ataques em escolas, dizem especialistasBrasil precisa responsabilizar big techs por publicações sobre ataques em escolas, dizem especialistas

Temor com discurso de ódio gera debate global sobre como regular redes sociais; Brasil também é destaqueTemor com discurso de ódio gera debate global sobre como regular redes sociais; Brasil também é destaque.

Primeiro, é impressionante que em um país que precisa urgentemente aumentar a produtividade para crescer tantas pessoas se prestem para dar sua opinião em sites de notícias ou de fofocas, como se isso fizesse uma grande diferença. 

Do divórcio de um casal de subcelebridades à coroação do rei Charles III, pode-se esperar avalanches de ódio em forma de palavras, não raro escritas com erros de grafia. Quando o assunto é política, então, tirem-se as crianças da sala, porque o que não faltam são mensagens obscenas, com frequência escritas por defensores da moral e dos bons costumes (para os outros).  

Quem lida com essas correntes de ódio tem saudade do tempo em que as pessoas escreviam cartas a mão, passavam a limpo e as levavam ao correio. Porque nesse processo tinham tempo para acalmar o espírito, podar as grosserias e fazer valer as lições de civilidade. Hoje não. O sujeito  nem termina de ler um texto e já corre para o computador xingar o emissário da notícia, incluindo a família inteira, ou o autor de uma opinião da qual discorda.

Essa escalada de ódio não produz nada de positivo. Ao contrário, está na raiz do atraso e na violência que assume diversas formas. Na política, o consenso possível foi substituído pela torcida para que o governo da vez fracasse, de forma a garantir a vitória do adversário na eleição seguinte. E assim andamos em círculo, sem conseguir avançar em qualidade de vida, meta que deveria ser de todos.

Aliás

A reprodução de discursos de ódio e o compartilhamento de supostas ameaças levaram pânico às escolas, o que em nada contribuiu para aumentar a segurança dos alunos. Quem tem responsabilidade sabe que o caminho é o outro.


O DESAFIO DE SER PAI

Há uns 30 anos, tive certeza de que os nossos filhos têm rotas independentes e autônomas e que a nossa participação será, no máximo, inspirá-los com exemplos. Claro que sempre torcendo que pelos menos algumas das nossas virtudes (essas que os pais sempre acham que têm de sobra) possam ser selecionadas para essa delicada missão de servir de modelo.

Naquela época, pela primeira vez, reclamei que uma encomenda tão preciosa viesse sem manual de instruções, justamente numa tarefa em que não podíamos errar, mesmo sendo falíveis como somos.

Com espírito científico, habituado a esgrimir teses por erros ou acertos, a acatar ou rejeitar hipóteses, me parecia desesperadora a possibilidade de que a conclusão, com a matéria pronta, pudesse resultar numa lacônica mensagem: "Inadequado para publicação e abaixo a relação de itens que precisam ser modificados para nova tentativa".

A vida avançando trouxe a descoberta de que o único elemento imprescindível no desempenho dessa tarefa puramente intuitiva é a disponibilidade de afeto, permanente e incondicional. Mas era frustrante não encontrar nem esta recomendação nos tratados de desenvolvimento do adulto.

Com tal pobreza bibliográfica, restavam-nos as âncoras afetivas de quem idolatramos desde pequenos, com lições que incorporamos não estudando nos livros, mas prestando atenção. Foi assim que aprendi com meu velho que o grande mérito de ser pai é se tornar confidente dos filhos. De modo que, diante de qualquer apuro, não tivéssemos dúvidas de a quem recorrer, e com a certeza de que haveria confidencialidade, fosse qual fosse o erro ou a crítica.

Senti muita saudade do meu pai quando o Evaristo, um fronteirista de 77 anos, com um jeitão sereno dos campesinos, submetido há apenas quatro dias a uma cirurgia torácica aberta, porque o SUS ainda não dá videocirurgia, me chamou para uma conversa séria. Quando entrei na enfermaria, estranhei a debandada dos outros quatro pacientes. Se a saída deles tinha a ver com a privacidade da conversa, então, de fato, era coisa séria. E era. "Pedi que eles saíssem quando o senhor chegasse porque nunca me acostumei com dividir problemas com quem não possa me ajudar", ele me disse.

Parecia meu velho ressuscitado, e me encantei com o Evaristo. "E eu, o que posso fazer, pelo senhor?", perguntei. "É um baita favor, doutor, e eu não estou preparado para ouvir um não."

Pela seriedade, eu tive certeza disso. "Bueno, doutor, mesmo que seja arriscado, eu preciso ir para casa amanhã bem cedinho!".

"Mas o que o aconteceu, seu Evaristo?" Ele me respondeu: "Essas coisas de filho. O mais moço, que anda sem trabalho, me ligou pedindo um dinheiro emprestado e eu disse que não era banco e que já era hora dele botar juízo na cabeça. Ele falou umas coisas que não gostei, eu disse outras, e ele desligou na minha cara. Mais tarde a minha velha me contou que ele tinha conseguido um emprego de tratorista em Melo, no Uruguai, e que o dinheiro era para a viagem! Imagine, doutor, tadinho do meu guri!".

Tentei argumentar: "Mas é uma viagem longa, e perigosa na sua situação. Seu menino não pode esperar?".

"Não, doutor, uma coisa que aprendi com a minha filharada é que aqui cabe a pressa, porque pai que é pai não deixa a mágoa de filho ressecar!".

J.J. CAMARGO 


22 DE ABRIL DE 2023
FLÁVIO TAVARES

OS RIVAIS IGUAIS

Já pensaram se, para caminhar mais rápido, fosse proposto dar um passo com as duas pernas ao mesmo tempo? Seria absurdo, tal qual fez o presidente Lula da Silva ao dizer que Rússia e Ucrânia são igualmente responsáveis pela guerra que já dura mais de um ano.

Comparar o agressor russo à agredida e invadida Ucrânia é uma forma direta de declarar-se a favor do invasor. Lula quis imitar os cangurus, que vão adiante saltando com ambas as pernas, mas cometeu um absurdo e se igualou ao antecessor e rival, Jair Bolsonaro. Só faltou visitar Putin no Kremlin?

Neste tema, serão iguais os rivais?

A repercussão negativa da desastrada visão do presidente do Brasil o levou, dias depois, a dizer o contrário, mas em discurso lido, redigido por assessor, no qual não se desgrudou do papel, mostrando que apenas lia, tal qual um papagaio repetidor.

A invasão da Ucrânia é a mais perigosa agressão da História, podendo transformar-se numa guerra nuclear, como já insinuou Putin. Mesmo assim, Lula recebeu com honras o chanceler russo, Serguei Lavrov, um dos ministros mais íntimos do chefe do Kremlin.

A imensa e poderosa Rússia é um país em guerra contra a pequena Ucrânia e, nessas circunstâncias, receber em Brasília o ministro de Relações Exteriores do país invasor significa amparar o agressor.

A invasão russa à Ucrânia é a mais tétrica guerra de todos os séculos, pois envolve uma potência com armas nucleares. Além disso, a Ucrânia se abastece de energia por centrais atômicas que, até agora, não foram bombardeadas, mas que podem (até por descuido ou erro) ser atacadas, disseminando o horror nuclear.

Quantas Hiroshimas significaria o bombardeio ocasional de uma única usina atômica da Ucrânia? Tudo é incalculável nesta guerra, até mesmo a semelhança, aqui no Brasil, da visão sobre o conflito dos rivais Lula e Bolsonaro?

O terror vandálico de 8 de janeiro concluiu-se só agora com a demissão do ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Gonçalves Dias. Não fosse, porém, a liberdade de informar, continuaríamos desconhecendo que o general-ministro do GSI nada fez para conter os terroristas que invadiram o Palácio do Planalto. As imagens divulgadas por uma emissora de TV mostraram até militares do GSI dando água mineral aos terroristas.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

22 DE ABRIL DE 2023
OPINIÃO DA RBS

PERDA DE TEMPO

É desnecessário e inoportuno instalar uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para tratar da invasão e da depredação dos prédios dos Três Poderes, no infame 8 de janeiro, em Brasília. São várias as razões que tornam uma pretensa investigação por parte de deputados e senadores, ao que parece agora inevitável, inadequada e inconveniente.

Este seria o momento de o Congresso - que pouco produziu desde o início da nova legislatura - se dedicar com afinco a debater e votar temas essenciais ao país. O novo marco fiscal, decisivo para sinalizar o controle das finanças públicas, acaba de chegar à Câmara. A matéria deveria ser prioridade máxima. É necessário analisar o texto com seriedade, aperfeiçoá-lo e levá-lo aos plenários com a maior celeridade possível. A aprovação de uma boa regra será capaz de começar a criar condições para a queda da taxa Selic. O juro alto sufoca a economia. Asfixia famílias e empresas.

O risco, no entanto, é de que tempo e energia preciosos sejam desperdiçados pelas atenções do governo e de congressistas voltadas à CPMI. O mesmo vale para a reforma tributária, há décadas clamada pela sociedade. O país tem finalmente uma oportunidade palpável de materializar uma alteração substancial no sistema de cobrança de impostos. Nunca se esteve tão próximo de um consenso. Mas arrisca-se que o interesse dos parlamentares acabe canalizado para a disputa de "narrativas", para utilizar a palavra que se tornou usual nos últimos anos.

O histórico das CPIs em Brasília mostra que raras chegam a alguma consequência e contribuem decisivamente com a justiça. Em regra, viram um palco de exibicionismo para que seus membros busquem ganhar popularidade. O caráter histriônico tende a se aguçar agora. Basta ver a performance lamentável recente de congressistas em comissões, com gestos desrespeitosos, gritaria, bate-boca e ameaças de agressão física. Se o decoro já é comprometido em reuniões menos explosivas, não se deve esperar comportamento ajuizado em um assunto que vai gerar ainda mais confrontos. Alguns nomes cogitados, do lado do governo e da oposição, reforçam essa percepção. Mais do que apurar, o esforço será por ter o domínio das versões que circularão pelas redes sociais.

Por fim, há o objeto da CPMI. Todo o contexto e a profusão de imagens, nos meses anteriores e no dia, são claríssimos ao mostrar que os atos golpistas foram incitados, organizados, financiados e perpetrados por bolsonaristas radicais. As recentes imagens divulgadas do então ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Gonçalves Dias, circulando no ambiente interno do Palácio do Planalto sem confrontar os extremistas, deram gás à oposição. G. Dias, como é conhecido, tem o que explicar, e ainda na sexta-feira prestou depoimento à Polícia Federal (PF).

O governo também cometeu o erro grave de não ser transparente e tentar evitar a divulgação de todas as cenas. Mesmo assim, há grande distância entre o que ainda é preciso esclarecer e a possibilidade de levar a sério a tese de que o governo recém instalado, uma das vítimas do ataque, ao lado do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF), foi omisso de forma proposital. 

Nem é preciso lembrar de todos os fatos, amplamente conhecidos, o que não impede uma parcela da população de teimar em acreditar apenas no que confirma as suas crenças. As investigações, com técnica e sobriedade, estão sendo conduzidas pela PF, com supervisão do STF. Seria melhor deixar as apurações para quem entende do riscado, e o Congresso se dedicar aos temas em que pode ajudar o país. Além de ineficaz, a CPMI vai só acirrar a polarização destrutiva. 



22 DE ABRIL DE 2023
ACERTO DE CONTAS

Largada negativa da economia gaúcha

A economia gaúcha começou 2023 em queda. O Índice de Atividade Econômica Regional do Rio Grande do Sul (IBCRRS), calculado pelo Banco Central e considerado uma prévia do PIB, trouxe um recuo de 0,4% em janeiro sobre dezembro de 2022. Na média nacional, houve praticamente uma estabilidade, com redução pequena de 0,04%.

O mês trouxe avanço das vendas do varejo gaúcho (+1,6% no ampliado, que considera veículos e materiais de construção), mas estabilidade no setor de serviços (0%), que não avançou nem recuou. O baque veio da indústria, que produziu 3,4% menos, a queda mais intensa do país na pesquisa do IBGE.

O acumulado de 12 meses ainda traz alta de 1,4%. Economista-chefe da Câmara dos Dirigentes Lojistas de Porto Alegre (CDL Porto Alegre), Oscar Frank pondera que o PIB, que demora mais para ser calculado, tem capturado com mais precisão o impacto de estiagens, trazendo índices mais negativos do que os do Banco Central. A safra de grãos de verão enfrentou prejuizo da falta de chuva pelo segundo ano consecutivo.

Taxa digital

Defensor da cobrança dos impostos devidos em compras em sites asiáticos, o presidente da Associação Gaúcha do Varejo, Sérgio Galbinski, acredita ser factível a taxa digital proposta por lojistas e cogitada pelo Ministério da Fazenda. Ele cita plataformas dos Estados Unidos que já calculam o imposto e cobram antes quando o consumidor informa ser do Brasil. Se não paga, a compra nem é gerada, diz ele.

- O computador soma o frete e calcula o imposto. É fácil programar. A pessoa que enviar a encomenda ao Brasil cola no pacote a nota fiscal e a guia paga. Sem elas, a mercadoria seria mandada de volta.

Nesses 40 anos, já vivemos vários ciclos. Já acompanhamos desde marcas e produtos que foram absolutos sucessos, mas que eram, na verdade, algum modismo e acabaram caindo a outras marcas e segmentos que permanecem até hoje. Também já acompanhamos momentos de inflação altíssima e outras crises, sendo a pandemia a mais recente. Não percebemos um determinado segmento que esteja sofrendo mais, porque é um ciclo. Teve uma época, há uns cinco anos, quando capinhas de celular foram um boom. Todo mundo queria, tinham várias lojas, e todas vendiam muito. Depois, acaba se estabilizando. Sim, iniciamos o ano impactados com a Americanas, que impactou todo mundo, e outras situações de varejo, mas não enxergo um mix específico sofrendo.

Calçadista fechada sem aviso

Empresa do setor calçadista, o Grupo São Francisco, que estava em recuperação judicial, teve falência decretada pela Justiça. O negócio tem as operações Madra, Hiker, G. da Silva e São Francisco Indústria de Calçados, em Parobé e São Francisco de Paula. O plano de recuperação seria votado agora em abril, mas, semanas antes, os funcionários foram surpreendidos ao chegarem nas fábricas e encontrarem as portas fechadas. Além disso, viram que documentos, bens e maquinários foram retirados.

- Agora a empresa está lacrada e estamos organizando o leilão dos bens - explicou o advogado Diego Estevez, do escritório Estevez Guarda, que era administrador judicial na recuperação e agora é responsável pela massa falida.

De acordo com o presidente que representa os sapateiros em Parobé, João Nadir, cerca de 120 funcionários foram impactados. A coluna não conseguiu contato com os donos da empresa.

GIANE GUERRA

sábado, 15 de abril de 2023


15 DE ABRIL DE 2023
PÓS-CREDITOS

7 FILMES IMPERDÍVEIS DO FANTASPOA

Já começou a 19ª edição do Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre, o Fantaspoa, principal evento na América Latina para filmes de fantasia, ficção científica, suspense e terror (mas não só esses gêneros: há também comédias, musicais e animações). Até o dia 30 de abril, serão exibidos 85 longas- metragens e 87 curtas, vindos de vários cantos do mundo, em quatro salas de Porto Alegre: Cinemateca Capitólio, Instituto Ling, Sala Paulo Amorim e Sala Redenção (confira a agenda em fantaspoa.com/programacao). Se você não tem tempo (ou mesmo disposição) para tanto, aqui está a primeira leva de filmes imperdíveis:

JARDIM LUNAR (EUA, 2022)

De Ryan Stevens Harris. O diretor levou seis anos para produzir esta mescla de filmagens em 35mm, sequências de animação stop-motion e trucagens cinematográficas. O roteiro poderia ser menos explicativo, mas há belas virtudes neste conto de fadas sombrio sobre uma menina de cinco anos, Emma (a encantadora Haven Lee Harris, filha do cineasta), que, em meio a mais uma briga dos pais (Augie Duke e Brionne Davis), sofre um acidente e entra em coma. Então, a garotinha embarca em uma jornada interior por cenários ora industriais, ora lunares, na qual vai deparar com personagens ora ameaçadores, ora acolhedores. Esses cenários e esses personagens são tanto reflexos das situações da vida real quanto frutos de sua imaginação - ou talvez do seu desejo de que os pais se reconciliem. Tudo é pontuado pela melancólica trilha sonora composta por Michael Deragón, que por vezes funde sua música com a canção Without You (1971), sucesso de Harry Nilsson.

Sessões na Cinemateca Capitólio, no dia 26/4, às 16h30min, e no dia 30/4, às 13h

TERCEIRA GUERRA MUNDIAL (Irã, 2022)

De Houman Seyyedi. Foi o selecionado do Irã para o Oscar internacional e ganhou dois prêmios na mostra Horizonte do Festival de Veneza: melhor filme e melhor ator (Mohsen Tanabandeh). Shakib, um sem-teto de meia-idade que mantém uma espécie de relacionamento com uma prostituta surda e muda (Mahsa Hejazi), vira operário em um canteiro de obras que vai se transformar no cenário de um filme sobre as atrocidades da Segunda Guerra Mundial. Por incidentes fortuitos e por cair na simpatia do diretor, ele acaba escalado para substituir o ator que faria o papel de Adolf Hitler. Com essas tintas, Terceira Guerra Mundial faz um retrato das relações de poder, misturando as cores do absurdo e do abuso, e uma analogia dos campos de concentração nazistas, fazendo jus à epígrafe dos créditos de abertura: "A História não se repete, mas costuma rimar", uma frase atribuída ao escritor estadunidense Mark Twain. O roteiro é uma peça de ourivesaria: até os pequenos detalhes, supostamente desimportantes, vão ter um peso tremendo.

Sessões na Sala Paulo Amorim, neste sábado, às 17h30min, e no dia 19/4, às 15h30min

O TIO (Croácia, 2022)

De David Kapac e Andrija Mardesic. É como se fosse uma cruza de Feitiço do Tempo (1993), aquela comédia em que Bill Murray é condenado a reviver o mesmo dia indefinidamente, com os perturbadores filmes de Michael Haneke. Aparentemente, estamos no final da década de 1980, quando a Croácia ainda integrava a Iugoslávia, país que se dissolveu em várias repúblicas a partir do início dos anos 1990. Acompanhamos uma família - o pai (Goran Bogdan), a mãe (Ivana Roscic) e o filho (Roko Sikavica) - nos preparativos para um jantar de Natal, no qual terão como convidado o tio (Predrag "Miki" Manojlovic, assombroso) vindo da Alemanha. O que começa em um tom de humor esquisito e incômodo (o tio trata o sobrinho, que já tem seus 20 e tantos anos, como um adolescente imberbe e, lascivamente, compara a mulher da casa com Sophia Loren) vai ganhando contornos mais sinistros à medida que essa situação se repete, dia após dia. Mas por que essa situação se repete? O que explica alguns anacronismos? Quais são as reais intenções de todos os personagens? Desde já, O Tio é um dos filmes mais envolventes e intrigantes não só do Fantaspoa, mas do ano.

Sessões na Cinemateca Capitólio, no dia 16/4, às 14h45min, e no dia 19/4, às 16h30min

AS BESTAS (Espanha, 2022)

De Rodrigo Sorogoyen. Este eu ainda não vi, mas entra na lista por ter conquistado nove categorias no Goya, o prêmio da Academia Espanhola: melhor filme, direção, ator (Denis Ménochet), ator coadjuvante (Luis Zahera), roteiro original, fotografia, edição, som e música. A sinopse diz: Vincent (Ménochet) e Olga (Marina Foïs) são um casal francês que vive em uma aldeia no interior da Galícia. Lá, eles levam uma vida tranquila, cultivam vegetais e reabilitam casas abandonadas, embora sua convivência com os moradores locais não seja tão amistosa quanto desejam. Sua recusa em implementar um parque eólico acentuará os desacordos com os vizinhos, sobretudo os irmãos Xan e Lorenzo.

Sessões na Sala Paulo Amorim, no dia 18/4, às 19h30min, e no dia 29/4, às 19h30min

PÓS-CREDITOS

15 DE ABRIL DE 2023
POESIA

O LIVRO

Dividido em cinco partes, o novo livro de poemas de Celso Gutfreind é uma dádiva ao leitor. Já na partida, é perceptível o árduo trabalho com a linguagem, para torná-la sua, e a busca de expressão para os enigmas da vida. Ao longo da leitura, esse cuidado se confirma, na seleção das palavras, na suspensão das expectativas, inclusive sintáticas, em enjambements que violam sua própria natureza de ligação entre versos, nas pausas que deixam à imaginação o sentido escapadiço.

A obra exibe principalmente versos breves, acentuando o valor de suas poucas palavras. Um ritmo de rondó remete um verso a outro ou uma expressão a outra, um rondó vagaroso, como uma dança espaçosa para ser sentida aos poucos, movimento após movimento, calculadamente medidos para suscitar uma melancolia leve diante do que não se consegue evitar ou conquistar. Poder-se-ia associá-los ao efeito da Pavana para uma Infanta Morta, de Maurice Ravel, sem desmerecimento.

A primeira parte, Andarilhos, apresenta três seções. A primeira, No Parque, reúne poemas relacionados à descoberta de novos territórios, quando se sai do abrigo da casa, mas se encontra outra vez o refúgio no livro. Veja-se a recomendação de Idas e Vindas:

Sai do livro: só na rua vê o instrumentista rengo

rebocar o instrumento até escapar do silêncio.

Na segunda seção, No Mundo, o Eu lírico atende, em Fim de Moira, ao chamado:

- Vai, menino, ser viajante de ponte pênsil e dor!

Desafiando a autoridade, o menino se emancipa, lembrando os versos de Drummond, "Vai, Carlos! Ser gauche na vida", do Poema das Sete Faces. Já adulto, perambula pelo vasto mundo e invade os lados claro-escuros de cidades estrangeiras, no Caribe, em Cartagena, Paris, Havana, Lisboa, resgatados pela experiência ou pela contemplação da arte, nas figuras de artistas como Gaudí, García Márquez, Cervantes, Miró, que as redimem ou exaltam.

A segunda parte, Encontros, reparte-se como uma narrativa, em começo, meio e fim. Como sugere o título, examina o amor e os amores, em seus momentos jubilosos, desgastados e esgotados. A segunda seção, Meio, tematiza os vaivéns do amor, com suas perdas e achados. Na terceira seção, Fim, há mais anseio do que poderia ter sido, do que encerramento.

A segunda seção, Livre, começa evocando o lirismo triste/alegre de Manuel Bandeira, a ser praticado ante a "vida incognoscível", feita de perdas e ganhos, valorizando tanto a razão quanto o Eros, e a própria ignorância das coisas, compensada pela capacidade de brincar. A forma do soneto outra vez reaparece, em ritmo andarilho nos versos irregulares, com predomínio das nasalizações.

Em Mar, a quarta parte do livro, o Eu defronta-se com o elemento líquido, simbólico do nascimento e da morte, da incerteza e da instabilidade. Inclui sete poemas, todos atingidos pelos mistérios das águas, que podem fazer desaparecer ou ressurgir. No terceiro, o mar dos navios negreiros é figurado pela "vida seca sem veludo", vítima da "tirania", que termina na lâmina que talha o mar em "duas belezas contíguas", as quais podem ser entendidas como África e Brasil. Mas é na quinta parte, Morte, que o livro mergulha nos silenciosos abismos da finitude e de sua implacabilidade.

Leitor apurado de poesia, Gutfreind transita com facilidade entre nomes internacionais, de língua inglesa, Emily Dickinson, Kay Ryan, mas também aprecia a polonesa Wislawa Szymborska, Prêmio Nobel, o italiano Eugenio Montale e o francês Rimbaud. Não esquece os espanhóis, Lope de Veja e Antonio Machado, e os latino-americanos, os chilenos Vicente Huidobro e a uruguaia Ida Vitale. Na poesia brasileira, frequenta Cecília Meireles, Vinícius de Moraes, Murilo Mendes, Ferreira Gullar e Armindo Trevisan.

O livro de poemas de Celso Gutfreind enfeixa, nas suas diversas partes, um conjunto de saberes que se ocultam em metáforas evasivas, talvez de apreensão trabalhosa, que, de algum modo, repercutem sua experiência de terapeuta, impregnada de ternura ante as questões aflitivas da existência humana. Não se trata de uma poesia filosófica ou pedagógica: está voltada para a poetização dos assuntos cotidianos, que interessam a todos. Não hesita em violar os cânones do verso, mas o faz sem emular os modernos. É tecido de vislumbres da atualidade, apreendidos fragmentariamente, como se apresenta a nós a vida de hoje, iluminando-a ante o que mal compreendemos, e nos consolando de nossa inexorável finitude.

O Auge da Minha Liberdade É Quando Não Ando Sozinho

De Celso Gutfreind.

Ed. Artes & Ecos, 116 páginas, R$ 45. Pré-lançamento com conversa com o autor neste sábado, às 10h, no Contemporâneo - Instituto de Psicanálise (Rua Casemiro de Abreu, 651, em Porto Alegre). Lançamento dia 27, às 20h, online (evento em paralelo ao curso A Poesia na Psicanálise, no Espaço Criar, que fica na Rua Tobias da Silva, 137, também na Capital). Outras informações em arteseecos.com.br. 


15 DE ABRIL DE 2023
LEANDRO KARNAL

Aristóteles pensou na corrupção do sistema democrático. O demagogo conduz o povo, como diz a própria palavra. Explorando brechas da democracia, o líder desse tipo usa o apelo emocional, define os males como externos, cria um inimigo comum, adula as massas com elogios e, finalmente, é um bom orador.

Se temos fortes exemplos no mundo antigo, como Cléon de Atenas, nossa época expande a ideia demagógica. A primeira fonte é o acesso das massas ao voto e à ideia de que possuem poder. O segundo ponto, claro, são os meios de comunicação. Nenhum demagogo, de esquerda ou de direita, teria subido ao poder, no mundo contemporâneo, sem rádio e, depois, televisão e internet. As redes sociais trouxeram o palanque demagógico para dentro de cada casa, por vezes no sofá e na cama do eleitor.

O agravamento político no Brasil e no mundo teria apenas relação com algoritmos cibernéticos? Não. Também creio que a ideia de que todos devamos ser plenamente felizes, em estado de abundância e euforia, está provavelmente na base da expansão contemporânea da estrada demagógica. Se minha vida deveria ser plena, mas, mesmo assim, patino no lodo do fracasso, a culpa só pode estar fora de mim. O "condutor das massas" tem a função pedagógica de dar a explicação que o eleitor gostaria de ouvir. Nossa incapacidade de lidar com a dimensão trágica (ou patética) da existência é a porta que convida tais pessoas em todos os campos.

Ouso elaborar, para fins didáticos, o roteiro para construir o demagogo. Meu objetivo (é claro!) seria advertir contra ele, ao mostrar quais as partes que o constituem. Vamos lá:

1) O cidadão alvo do discurso dele é perfeito, ético, trabalhador e sempre honesto. O mal está no outro: estrangeiro, radicais de esquerda ou de direita, criminosos, gays, sindicalistas, judeus, islâmicos, intelectuais etc. O primeiro passo é reforçar o ego abalado do alvo do discurso. O mal é externo, fruto de uma conspiração nacional e mundial. Precisa criar a figura do homem ético para que se justifiquem todas as atrocidades. O homem de bem não mata por interesse, tampouco agride por egoísmo: ele age como um necessário anticorpo contra o vírus externo.

2) Todo demagogo reforça o ego do eleitor, afirmando que ele pertence à melhor comunidade do mundo. O grupo envolve sentimentos nacionalistas, religiosos ou de classe social. Apelos aos bons sentimentos do povo brasileiro: o autêntico, o real, o "raiz" são fundamentais. "Seríamos a maior potência do mundo pelas nossas virtudes intrínsecas se... não fossem tais e tais pessoas ou grupos adversários." A retórica do demagogo adula por necessidade e é bélica por consequência. Somos bons e devemos eliminar os maus. O clássico demagogo não é um político que busque o diálogo das partes, mas um estrategista de guerra a constituir inimigos e a solidificar o coletivo da tropa.

3) O demagogo profissional sabe elaborar ideias simples e diretas. Exemplos? Basta assinar as medidas X e Y, pois toda a economia entrará no eixo. Se fizermos uma lei tal, o crime terminará. Nada de detalhes sociologizantes ou sofisticações jurídicas. O demagogo é anti-intelectual não porque seja necessariamente burro, todavia sabe que o argumento mais elaborado tem pouca penetração midiática.

4) O demagogo funciona como o vinho de algumas regiões: ele sabe que qualidades medianas podem ser suplantadas por boa propaganda. No mundo contemporâneo, a catequese política implica domínio das redes sociais, dos seus agentes naturais e artificiais.

Velha piada da área de dieta diz - se o que se está comendo agrada ao paladar, cuspa porque engorda ou faz mal. A minha geração pensava que o bom mertiolate agia à proporção do ardor incômodo que causava. "Se arde, cura!" era um pensamento antigo. O que isso tem de relação demagógica?

Se ouço o discurso de alguém e acho maravilhoso, se as propostas do candidato parecem todas boas, se saio emocionado ao ouvir uma fala... "Cuspa, que faz mal!"

Aristóteles propunha, ao final da Política, a educação (Paideia) como parte essencial da felicidade na pólis grega. Acho que os demagogos existem e continuarão existindo. Não temos como calar a boca de todos, sem propor um tipo de repressão desagradável. Se não podemos evitar a fala dos falsos profetas, minha esperança está no refinamento dos ouvidos dos eleitores. A melhora de qualidade dos receptores pode crescer com programa de leituras críticas. Discurso agradável? Pode ser um vendedor ou um demagogo. O bom vendedor vai explorar fraquezas, como o sedutor político competente fará.

Resumo? Concordou com tudo? Sentiu o gosto do açúcar forte? Há chance de ser uma sedução falsa. Desagradou ou achou complicado? Pode ser, repito, pode ser que contenha mais verdade. Gente frágil busca elogios. Minha esperança continua na Educação. Como no passado, a ação política deve arder para curar. A condição de sucesso atual ainda está no placebo açucarado. Infelizmente!

LEANDRO KARNAL

15 DE ABRIL DE 2023
COM A PALAVRA

COM A PALAVRA

Escritora, 72 anos A espanhola será a conferencista de abertura do Fronteiras do Pensamento 2023, no dia 31 de maio

Um dos principais nomes da literatura espanhola contemporânea, a escritora Rosa Montero abre a temporada de 2023 do Fronteiras do Pensamento. Sua conferência será realizada no dia 31 de maio, no Teatro Unisinos (Av. Nilo Peçanha, 1.600). Rosa atuou como jornalista no El País entre os anos 1970 e 90, hoje é colunista do jornal. Aos 72 anos, ela se consagrou como romancista por sua prosa direta e profunda, em obras como Lágrimas na Chuva (2011) e História do Rei Transparente (2005). Porém, seus trabalhos que mesclam ficção, biografia e autobiografia também se destacam, como A Ridícula Ideia de Nunca Mais Te Ver (2013), A Louca da Casa (2003), Paixões (1999) e Nós, Mulheres (1995). Nesta entrevista, a escritora fala sobre a escrita, seus trabalhos mais recentes e sua ex-profissão.

SEU ÚLTIMO LIVRO LANÇADO NO BRASIL, A BOA SORTE (2022), TEM SIDO CLASSIFICADO COMO SEU ROMANCE MAIS AMBICIOSO. VOCÊ O VÊ ASSIM TAMBÉM?

Eu não diria que é o meu romance mais ambicioso, mas sim o mais maduro. São coisas distintas. Foi difícil para mim porque tem uma voz narrativa bem inusitada, que vai se transformando ao longo do romance. Logo, é como um relógio, que vai se desenvolvendo de maneira circular. A princípio, não se sabe nada sobre o que está acontecendo. O que se passa a esse homem? Por que faz as coisas tão estranhas? À medida que o romance avança, com as respostas que vão surgindo, tu percebes que há mentiras. A construção é muito complexa, mas eu trabalhei para que essa complexidade fosse invisível.

 Assim, a narração precisa fluir como um rio calmo. Para esse tipo de estrutura, você precisa dominar a artesania do romance. Portanto, é algo que eu não poderia produzir antes, pois o romance é um gênero de madurez. É preciso dominar a escrita. Aliás, os romances que eu costumo gostar mais foram escritos pelos autores com idade avançada. Quando eu era mais jovem, dizia que o meu auge seria entre os 45 e 55 anos. À medida que o tempo passou, fui aumentando a faixa (risos).

EM A BOA SORTE, PABLO É UM ARQUITETO QUE ANSEIA POR SER OUTRA PESSOA. UM DIA ELE DESCE DO TREM E, INESPERADAMENTE, COMPRA UM APARTAMENTO EM UMA CIDADE PEQUENA. SUA SITUAÇÃO É COMPLEXA, COMO VAMOS DESCOBRINDO. O QUE TE INSPIROU A DESENVOLVER ESSE PERSONAGEM?

Você não escolhe os livros que escreve, mas sim as histórias te escolhem. São como sonhos a olhos abertos que te obrigam a escrever sobre eles. A ideia que pus em marcha é a mesma que se passa com o protagonista no primeiro capítulo. Eu estava em um trem rumo ao sul da Espanha para participar de um clube de leitura. Estava escrevendo em meu notebook, levantei a cabeça e vi uma cidadezinha industrial e empobrecida. Vi um prédio com um apartamento precário, contendo varanda com ferros quebrados e enferrujados e um cilindro de gás arrebentado. Ali havia um cartaz de "aluga-se". 

A primeira coisa que pensei: pobre gente! Justo na rua em frente aonde passa o trem. Não vão vender nunca! (Risos.) Depois, com essa cabeça louca que temos nós, os escritores, me veio o "e se?". E se alguém neste trem levanta a cabeça, vê esse apartamento, desce na próxima estação, compra o imóvel, passa a viver naquele lugar horroroso, desaparece e não chega nunca ao seu destino? Quando cheguei ao clube de leitura, contei o que havia me ocorrido e que seria o começo de um romance. Mas eu não sabia nada. Não sabia por que esse homem desceu do trem, nem se seria homem ou mulher.

VOCÊ CHEGOU A COGITAR UMA PROTAGONISTA FEMININA?

Primeiro, pensei a história com uma mulher, mas não funcionava. Não que isso seja alguma generalização, mas, de alguma maneira, as mulheres são mais verbais. Um personagem tão fechado em si, tão carente de palavras, eu não via como mulher. Pensei que deveria ser protagonizado por um homem, o que funcionou melhor. Escrever o romance foi o caminho para entender o que eu havia pensado. Um autor experiente é aquele que tem humildade para deixar que sua história seja contada por seus personagens. Foi o que decidi. Esse homem nem sabe porque desceu do trem. Foi um movimento instintivo. Por isso ele fica ali, naquele apartamento, vendo passar os trens, o que é praticamente uma metáfora de sua situação: está fora de sua própria vida, vendo-a passar em sua frente. A partir daí, ele passa a reconectar-se e a tentar uma vida nova. E conhece Raluca, que é o personagem mais luminoso que já escrevi.

RALUCA É UM CONTRAPONTO PERTINENTE A PABLO. É UMA PERSONAGEM QUE AMA O SENTIMENTO DE ESTAR APAIXONADA.

Exato. Pablo é um tipo de pessoa que tem medo de seus próprios sentimentos, pois acha que as emoções o debilitam. Ele teve uma infância difícil e construiu uma espécie de defesa, que é um erro abissal. Supostamente, amar alguém te deixa mais vulnerável. Não só apaixonadamente, mas também amar um amigo, amar a um cachorro. Mas não se pode retrair esses sentimentos, virar uma espécie de ilha ou viver em uma bolha, pois isso é escolher morrer em vida. Somos animais sociais, precisamos dos outros. É uma dessas opções impossíveis, como envelhecer. Envelhecer não tem nenhuma graça, certo? A única opção para não envelhecer é morrer, que certamente tem menos graça (risos). Pablo é assim, escolheu não sentir nada. Afortunadamente, Raluca o tira do abismo em que ele havia se metido.

E ELA ROUBA A HISTÓRIA.

É graciosa. Originalmente, Raluca seria um personagem menor. Começou a crescer e a crescer em minha cabeça até dominar o romance. Converteu-se na verdadeira protagonista. Inclusive, o título do romance foi alterado por causa dela. No começo, livro se chamava El Silencio ("O Silêncio"). Um dia, enquanto realizava anotações sobre a história, escutei a Raluca falar na minha cabeça. É uma personagem que teve uma vida muito difícil, viveu em orfanato, um montão de coisas. 

Eu a escutei dizer: "Sempre tive muita sorte. Sou uma pessoa com uma sorte incrível e menos mal que sempre tenho sorte, porque senão, com a vida que tive, teria sido horrível". Me pareceu comovente que essa personagem se apaixonasse por Pablo. Então, compreendi que o romance tinha que se chamar A Boa Sorte, pois o que dizia Raluca era que a boa sorte consiste em enxergar o mundo de outra maneira, sobretudo contar as coisas de outro modo. O importante é a narração que se faz da vida. Nós, seres humanos, somos narrações. Somos palavras em busca de sentido. Se troca a narração, muda a vida. É isso que Raluca vem contar.

VOCÊ COSTUMA DIZER QUE ESCREVER UM ROMANCE É COMO SE APAIXONAR. COMO SERIA ISSO?

É parecidíssimo. É alienante. Te tira de você mesma, a todo momento você se pega pensando na pessoa amada. Está escovando os dentes e no espelho está vendo o fantasma dessa paixão. À noite, ao dormir, sonha com a amada ou amado. Com um romance acontece o mesmo. Quando está metida de verdade com a escrita, passa-se por outra alienação maravilhosa, pois está todo o tempo pensando na história e nos personagens. Outra coisa é que em ambas as situações você se sente às vésperas de um milagre. Quando está produzindo um romance tem muitas vezes a sensação de que, no momento seguinte, será capaz de escrever a página perfeita, de elaborar a beleza mais pura. Mas isso não ocorre em nenhum dos dois casos (risos).

MAS O ESCRITOR OU ESCRITORA PODE TER TAMBÉM UMA RELAÇÃO TÓXICA COM SEUS ROMANCES, NÃO?

O romance é um gênero de trabalho colossal. Te obriga a estar sentada em um canto de sua casa durante horas, semanas, meses e anos escrevendo mentiras. É uma atividade bizarra, com momentos amargos e desesperadores. Para mim, dois romances já morreram. Duas histórias que não pude terminar. Em um perdi três anos de trabalho, e em outro foram dois. Podemos passar dois meses escrevendo e não aproveitar nada, porque nada te agrada, porque não flui. Mas também é a oportunidade de brincar de ser Deus, brincar como uma criança criando mundos e vidas. É tão maravilhosa essa possibilidade de sentir emoções e viajar pelos personagens criados, que, por mim, estou disposta a pagar o preço. Os desesperos momentâneos, no fim, não importam. Escrever é uma paixão que te salva a vida.

EM A LOUCA DA CASA, VOCÊ ESCREVEU QUE A PAIXÃO TALVEZ SEJA O EXERCÍCIO CRIATIVO MAIS COMUM DA TERRA E QUE É A NOSSA VIA MAIS HABITUAL DE CONEXÃO COM A LOUCURA. QUE A IMAGINAÇÃO ESTÁ INTIMAMENTE LIGADA AO QUE CHAMAMOS DE LOUCURA. NO ANO PASSADO, VOCÊ LANÇOU EL PELIGRO DE ESTAR CUERDA (PREVISTO PARA CHEGAR EM NOVEMBRO AO BRASIL, SEGUNDO A EDITORA TODAVIA), QUE ABORDA ESSE TEMA. NO FIM, ESCREVER UM ROMANCE É TAMBÉM UM ATO DE LOUCURA?

É um livro que trata sobre isso, a criação e a loucura. Desde o início dos tempos, se discute se há uma relação entre a criatividade e o transtorno mental. Minha teoria é que as pessoas que se dedicam a coisas criativas têm um cérebro parecido às pessoas com transtornos mentais. O neurocientista Eric Kandel, Nobel de Medicina em 2000, diz que todos os transtornos mentais se devem a uma falha entre as conexões neurológicas. Então, quem se dedica a coisas criativas têm um cérebro com cabeamentos distintos aos da maioria. Um cérebro que não terminou de amadurecer. Um dos passos fundamentais para o primeiro amadurecimento ocorre quando começa a adolescência. 

Até então, o cérebro das crianças está tremendamente hiperconectado. Todos os neurônios estão conectados uns aos outros. Por isso a criança tem uma imaginação transbordante. Quando começa a puberdade, tem início uma poda neurológica dessas conexões que não são úteis para concentrar o cérebro no que seria útil, no que seria necessário para a sobrevivência da espécie. Mas há entre 15 e 20% de pessoas no mundo que pulam esse passo de amadurecimento cerebral e nunca terminam de podar o cérebro. Seguem tendo o cérebro hiperconectado. Entre essa porcentagem, há aqueles com transtornos mentais e aqueles que se dedicam a criar. Então, creio que sejamos primos ou irmãos (risos).

VOCÊ CURSOU PSICOLOGIA, CERTO?

Sim, pensava que estava louca quando tive os primeiros ataques de pânico, decidi estudar Psicologia para descobrir o que se passava comigo.

E O QUE VOCÊ APRENDEU?

Nada. Não aprendi nada (risos). Não terminei o curso. Quando pude me entender, quando descobri o que se passava comigo, deixei a graduação (risos).

COMO VOCÊ ENFRENTOU OS ATAQUES DE PÂNICO?

Creio que precisamos aprender a conviver com a nossa "mala de trevas". Todos temos uma mala, pode ser maior ou menor, dependendo da pessoa. É necessário aprender a lidar com ela. Eu perdi o medo ao medo, digamos assim. Medo de que os ataques voltassem. Isso me ajudava que passassem. Para mim, creio que foi essencial começar a publicar romances periodicamente a partir dos 30 anos. É curioso, desde os 19 eu trabalhava como jornalista, mas o jornalismo não te proporciona esse efeito psicológico em sua estrutura. Eu escrevia ficção desde os cinco anos, mas não publicava nada. Isso tampouco me servia. A combinação que servia era escrever ficção, publicá-la e ser lida. 

O que chamamos de transtorno mental, na realidade, é uma ruptura da narração comum. Você se sente que se vai da coletividade e da espécie humana. Quando você tem um transtorno mental, sente como se um gigante te pegasse e arrancasse do mundo. Sente-se uma solidão colossal, que não se pode explicar ou entender. Te engana e te faz crer que isso que ninguém mais sente. Alguns especialistas dizem que o romance é um delírio controlado. Então, escrever um romance é sacar de si o seu mundo mais íntimo, tirar um pedaço mais profundo do coração. Quando se publica, há gente que vem e te diz: "Este mundo que você vê eu também vejo". "O que você sente eu também sinto." Isso te insere de volta na realidade.

TEM SIDO ASSIM A RECEPÇÃO DE EL PELIGRO DE ESTAR CUERDA?

Uma viagem alucinante! Não tive recepção igual com nenhum livro. Todo mundo vem e me conta suas histórias, que o livro lhes permitiu sentir-se menos solitárias, compreender que não são loucos, que deixaram de ter vergonha por coisas que andaram ocultando. Tenho chorado muito com as coisas que me contam. Tudo muito bonito e precioso.

VOCÊ TAMBÉM É UMA JORNALISTA RENOMADA, ATUANTE EM MAIS DE DUAS DÉCADAS. AGORA VIVEMOS UMA ERA DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL, FAKE NEWS, CONCORRÊNCIA COM CRIADORES DE CONTEÚDOS NAS REDES SOCIAIS, ENTRE OUTROS FATORES. VOCÊ ACHA QUE VIVEMOS UM PERÍODO DESAFIADOR PARA O JORNALISMO?

Vivemos um momento desafiador não só para o jornalismo, mas em todos os aspectos da vida e da sociedade. O jornalismo passou por um período longo de travessia no deserto, de adequação às novas tecnologias e mudanças de mercado. Foi um dos setores mais afetados com a crise de 2008. De lá para cá, muitos jornais desapareceram. Os sites jornalísticos não podem se manter por meio da publicidade, o que não se sabia, pensava-se que podiam sobreviver assim, mas não funcionava. As pessoas não queriam pagar pelo digital, o que resultou em uma fase espantosa, muita gente foi demitida, muitos profissionais experientes foram despedidos, enquanto jornalistas inexperientes foram contratados no lugar por salários mais baixos. Revisores foram demitidos. Redações contando com menos gente, e esse pessoal tendo que fazer 27 mil coisas - digital, papel, não sei o que mais. 

Mas creio que essa crise está passando. As empresas de streaming, como Netflix e Spotify, começaram a acostumar as pessoas a pagarem por conteúdos, o que inclui jornais digitais. Muita gente também perdeu a cabeça pensando que as redes sociais poderiam funcionar como um jornalismo urbano, o que se confirmou como uma mentira. Se alguém te manda algum tuíte de uma manifestação em, por exemplo, Teerã, isso não é jornalismo, mas sim uma fonte primária. Esse tuíte pode ser verdadeiro ou não. Terá que passar pelas verificações de um repórter. O jornalismo segue sendo absolutamente necessário, ainda mais nesses tempos de fake news. O que se passa é que precisamos aprender a lidar com isso. Agora existe a possibilidade de elaborar uma imagem, por exemplo, de Joe Biden matando uma idosa. E, realmente, parece que é real. Temos de ensinar as pessoas a separar o que é real e o que é manipulado.

SENTE SAUDADES DE SEUS TEMPOS DE JORNALISTA?

Nenhuma. Nada. Sigo escrevendo artigos, mas não quero fazer nada além disso.

ESTÁ MAIS QUE BOM PARA QUEM, SEGUNDO SUAS PRÓPRIAS CONTAS, JÁ REALIZOU 2 MIL ENTREVISTAS...

Sim, é muito bonito ser jornalista. Me encantou, mas já faz muitos anos, prefiro fazer outras coisas.

EM A RIDÍCULA IDEIA DE NUNCA MAIS TE VER, VOCÊ COMENTA QUE A INFÂNCIA, A JUVENTUDE E A MATURIDADE DOS BIOGRAFADOS COSTUMAM OCUPAR UM ESPAÇO ENORME NO LIVROS. PORÉM, COMO VOCÊ ESCREVEU, CHEGA UM MOMENTO DA NARRATIVA QUE, DE REPENTE, TUDO PARECE SE ESVAZIAR, ACELERAR OU COMPRIMIR. VOCÊ OBSERVA QUE A MENOS QUE MORRAM JOVENS, QUANDO CHEGAM À VELHICE PARECE POUCO INTERESSANTE O QUE LHES ACONTECE. SENTE RECEIO QUE ISSO ACONTEÇA EM SUA BIOGRAFIA?

(Risos.) Não sinto nenhum receio assim. Para mim, não há posterioridade. Aliás, quase ninguém passa para a posterioridade. Eu espero uma velhice de muita vivacidade. Quero morrer estando muito viva. Essa é a minha maior aspiração no momento. 

WILLIAM MANSQUE