sábado, 20 de maio de 2023


19/05/2023 - 16h30min

Fabrício Carpinejar

Sombras e pés 

Mães são a nossa sombra, para sempre cuidarmos de onde estacionamos os nossos sonhos. Mães são nossos pés, para sempre olharmos onde estamos pisando. Quando passeávamos de carro com a mãe, mantínhamos a consciência, mesmo crianças, de que nenhum trajeto seria maior do que o tempo de estacionar.

Não que a mãe tivesse algum trauma com balizas ou dirigisse mal, pelo contrário, ela dirige com prudência. E continua dirigindo até hoje, com 83 anos (84 no próximo dia 27). Renovou a carteira de habilitação pela enésima vez.

O dilema na época é que ela não aceitava qualquer vaga, precisava encontrar uma sombra. Sua obsessão se resumia a achar um cantinho debaixo das árvores. Ela não se preocupava apenas com o espaço livre entre os veículos, mas com o teto de galhos que proporcionaria refrigério para que não sofrêssemos com o abafamento depois.

Não havia direção hidráulica, mas um guidão impossível de se segurar com a exposição inclemente ao sol. Tornava-se ferro em brasa. Já o ar-condicionado se fazia presente apenas em automóveis de luxo.

Dávamos voltas e voltas no quarteirão, como se estivéssemos em um carrossel de cavalinhos, em busca da sagrada penumbra. A mãe poderia parar longe do nosso ponto de encontro sob o pretexto da sombra. Caminhávamos mais do carro para o nosso compromisso do que se partíssemos a pé desde o início da jornada.

Mas esquecíamos o cansaço da expedição ao testemunharmos a felicidade materna e seus gritos de comemoração. Não queríamos estragar a sua alegria com as nossas reclamações e protestos. Quando conseguia o seu intento, ela passava a manhã inteira se elogiando e agradecendo a Deus.

— Valeu o esforço. Localizei uma sombra maravilhosa, meus filhos. Uma sombra perfeita. Os ipês, os jacarandás, os chorões, as paineiras foram nossos flanelinhas por muito tempo. Não sei se recebiam gorjetas. Fora de casa, ela teimava com a sombra. Dentro do lar, sua preocupação era outra. O que eu mais ouvia dela era “não fique de pés descalços”.

Eu acordava e andava pela cozinha sem nada nos pés no azulejo frio. Fora de casa, ela teimava com a sombra. Dentro do lar, sua preocupação era outra. O que eu mais ouvia dela era “não fique de pés descalços”.

A mãe nem se preocupava que eu me cortasse ou que minha sola acabasse imunda na hora de colocar o tênis e ir para a escola. Sua observação se referia ao choque de temperatura após a cama quentinha. Ela insistia que eu iria gripar.

Hoje não largo o chinelo. Dificilmente estou sem ele. Para qualquer percurso. Saio com ele desde a cama. Conservo, inclusive, a marca branca da tira entre os dedos.

Minha esposa, diferentemente, permanece acordando de pés descalços. Perguntei para ela o motivo de nunca atender o meu pedido de cuidado e de proteção. Ela disse:— De pés descalços, eu ainda tenho a sensação de que a minha mãe está viva e vai aparecer chamando a minha atenção.

Eu me calei. E entendi: existem papéis, cadeiras em nossa vida que nunca mais serão ocupadas. Mães são a nossa sombra, para sempre cuidarmos de onde estacionamos os nossos sonhos. Mães são nossos pés, para sempre olharmos onde estamos pisando.

Mães são o chão da nossa saudade.


20 DE MAIO DE 2023
EVENTO

CINCO HORAS ILUMINADAS DE CULTURA E ENCONTROS

7ª Noite dos Museus leva mais de cem atrações a 16 espaços de Porto Alegre das 19h à meia-noite do sábado

Depois de aquecer uma noite fria em 2022 com o calor humano de 180 mil pessoas, a Noite dos Museus volta no sábado para a sua sétima edição, oferecendo uma programação com 16 instituições participantes, além de mais de uma centena de atrações culturais. O evento é gratuito e tem como objetivo democratizar a arte, prometendo uma grande festa entre as 19h e a meia-noite pelas ruas de Porto Alegre.

Neste ano, retornam 13 locais que já fizeram parte do projeto: o Centro Histórico-Cultural Santa Casa, a Cinemateca Capitólio, o Espaço Força e Luz, a Galeria de Arte do Dmae, o Instituto Goethe, o Museu da Brigada Militar, o Museu da UFRGS, o Museu de Arte do Paço Municipal de Porto Alegre, o Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo, o Museu Militar do Comando Militar do Sul, o Palácio Piratini, a Pinacoteca Ruben Berta e o Planetário da UFRGS.

Somam-se outras três instituições que fazem as suas estreias na Noite dos Museus: o Theatro São Pedro, o Centro Cultural da UFRGS e a Fundação Ecarta.

Estes espaços serão os protagonistas do evento, após a saída de cinco locais ligados à Secretaria de Estado da Cultura (Sedac) - entre eles, o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs) e a Casa de Cultura Mario Quintana, que reuniram grande público nas edições anteriores.

- A saída dos espaços ligados à Sedac não diminui o evento. A cultura não é restrita, não é ditada por cinco espaços. Ela é muito mais do que isso. E a gente está muito feliz porque os espaços que estão participando entendem a proposta perfeitamente, que é democratizar a cultura. O movimento de descentralização é ótimo, pois vai valorizar outras instituições maravilhosas que temos na cidade - afirma Rodrigo Nascimento, CEO da Rompecabezas, agência idealizadora da Noite dos Museus.

Com a proposta de facilitar o acesso do público, diminuindo as longas filas, que eram alvo de reclamações nas edições anteriores, a organização do evento está trabalhando neste ano com agendamentos prévios. A Noite dos Museus oferece opções de visitas livres e guiadas, com interpretação em Libras - esta última categoria, porém, já está esgotada. Os ingressos podem ser resgatados pelo site sympla.com.br. A exceção é o Palácio Piratini, que possui seu próprio sistema de ingresso no local.

Reforço

Tanto nas ruas quanto nas instituições, o público encontrará artistas que fazem parte da cena cultural da Capital, bem como atrações vindas de outras cidades do Rio Grande do Sul, sessões de cinema, trechos de espetáculos teatrais e de dança, roda de slam e parcerias inéditas entre músicos. Serão oferecidos shows de variados estilos musicais, passando pelo jazz, pelo blues, pela música nativista e pelo rock. Haverá ainda programações infantis e um show surpresa de uma atração internacional.

O público poderá conferir a inauguração de uma fotogaleria em homenagem a Porto Alegre, que ficará permanentemente nos Jardins do Dmae. A exposição foi concebida coletivamente através de um edital público lançado pela Noite dos Museus e conta com 30 trabalhos de fotógrafos locais que registraram pessoas e paisagens urbanas da Capital.

O evento, de acordo com os organizadores, terá reforço na segurança, com 130 soldados da Brigada Militar, 150 agentes de segurança privada, além de efetivo da Guarda Municipal no entorno dos espaços participantes e dos palcos no Centro. Para a limpeza, haverá empresas especializadas contratadas e a participação de agentes do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) - no total, serão disponibilizados 150 banheiros químicos. Para auxiliar o público, foram ainda contratados 50 monitores. Estas melhorias buscam sanar os pontos negativos das edições passadas do evento.

Nascimento acredita que todos estes fatores somados minimizem a ausência das instituições da Sedac e colaborem para cinco horas de celebração à cultura:

- Vamos ver se o tempo também nos ajuda. Aparentemente, não vai chover e vamos ter um clima ameno, ao contrário do ano passado, que foi muito frio.

O organizador ainda aponta que o público está sendo conscientizado para colaborar em relação ao descarte de lixo e na preservação das instituições e das obras.

- As pessoas são coadjuvantes do evento. Então, a gente está justamente convidando elas a colaborar. Pretendemos, inclusive, atender o público espontâneo (que não reservou entradas antecipadamente), que é a maioria, orientando a resgatar os ingressos nos espaços. É um trabalho em conjunto. E a nossa expectativa é muito positiva, porque a gente vê que as pessoas estão felizes e engajadas nas redes sociais - aponta Nascimento.

Segundo ele, o evento deste ano não deve contar com a mesma efervescência do ano passado, em que as pessoas estavam ansiosas para sair de casa, depois de dois anos de pandemia. Mesmo assim, ele aposta em uma noite memorável para a cultura da Capital. E, para o ano que vem, o organizador do evento promete uma reformulação do projeto, além de destacar que está "de coração aberto" para voltar a firmar parceria com a Sedac.

Consulte a programação completa da Noite dos Museus pelo link gzh.rs/museus23_prog.

CARLOS REDEL


Mais do que um sonho

Destaque em duas das principais novelas atuais da Globo, Barbara Reis revela como trilha seu caminho em direção ao sucesso e fala sobre planos de casamento e maternidade

Há 10 anos, o nome Barbara Reis, provavelmente, não diria muita coisa a quem é fã de uma boa novela. Hoje, no entanto, quem ligar a TV no horário nobre da Globo ou buscar uma indicação de título campeão de audiência no streaming, vai deparar com a presença da atriz.

- Estou em um momento muito especial, único. É como se a vida tivesse organizado as coisas para, neste momento, estar com tudo, 100% entregue e dedicada. E muito feliz - comenta ela, em conversa por telefone, na pausa para o almoço de um dia frenético de gravações.

Aos 33 anos, a carioca que não nasceu no Méyer, mas ostenta uma bagagem de criação que atribui ao subúrbio do Rio de Janeiro, vive realmente uma fase de vibrações em alta. Ela acaba de estrear em Terra e Paixão, na pele de Aline, a protagonista, ao lado de grandes nomes da dramaturgia, como Tony Ramos, Débora Falabella e Leona Cavalli. Ao mesmo tempo, preenche boa parte das tramas de Todas as Flores, no Globoplay, dando vida a Débora, que cresceu a ponto de ser considerada personagem-chave na novela.

Sobre esta dualidade, entre uma batalhadora que encara desafios assustadores para defender o que acredita e a malvadona que entretém, a artista revela a qual das duas empresta mais de sua personalidade.

- Sempre correlaciono a Barbara com a Aline. A gente é muito parecida. Costumo dizer que o personagem vai atrás e encontra seu intérprete. Então, tenho muito dela e ela tem muito de mim - pontua a atriz.

Antes de consolidar seu lugar no time titular de elencos dos mais relevantes do Brasil, no entanto, a artista chegou a se aventurar por outros caminhos. Sua vida profissional começou na pet shop da família, em que fazia a tosa de animais, e inclui duas faculdades interrompidas - afinal, seu plano A funcionou, abrindo um alfabeto inteiro de oportunidades, desde 2016, quando apareceu pela primeira vez em novelas, com um papel secundário na primeira fase de Velho Chico, da Globo.

Novos capítulos também têm sido escritos em sua vida pessoal. Em um relacionamento de dois anos com o ator Raphael Najan, 39, tornou-se oficialmente noiva no dia 25 fevereiro, com direito a um pedido nada tradicional. O casamento, contudo, ainda não está no horizonte, embora façam planos com muito romance envolvido. Na entrevista a seguir, confira mais detalhes sobre essas e outras histórias de Barbara.

Como é se ver na tela como vilã e heroína simultaneamente?

Aline e Débora são completamente opostas em relação aos seus ideais, porém, igualmente fortes. As duas lutam por sobrevivência, sabe. O ideal delas é permanecer. Elas resistem para sobreviver e essa é a ideia que faz das duas também parecidas. Estar no streaming com um trabalho - que logo vai para a TV aberta também - ao mesmo tempo em que dou vida à Aline no horário das 21h, carro-chefe da emissora, é algo que nem em meus melhores sonhos imaginaria. Ser protagonista de dois produtos seguidos em horários um depois do outro: em um, protagonista, a principal da história, e em outro, vilã - porque, as pessoas vêm dizendo que ela realmente é a vilã de Todas as Flores - para mim, artisticamente, é um momento muito rico.

Tu chegaste a considerar outras duas profissões, certo?

Sim, há duas faculdades incompletas. Na verdade, elas entraram na minha vida em uma espécie de plano B, caso a carreira não caminhasse, pois me formei atriz primeiro. E fui tentar fazer Jornalismo para ter outra forma de me manter, mas a vida artística acabava sempre me puxando. Aí, abandonei e fui gravar, fazer minhas coisas. Só que, naqueles períodos de "entressafra", sempre vinha o medo, a angústia, o "será que vão me chamar para fazer outros trabalhos?".

Não quis ficar esperando, então, me matriculei na faculdade de Produção Audiovisual, que, na verdade, nada mais é do que algo que envolve meu trabalho, só que atrás das câmeras. E fui fazer. Até que a vida artística me convocou novamente e não consegui fazer as duas coisas juntas. Abandonei a faculdade para poder estar 100% dedicada. Naquele momento, era Velho Chico. Fiz essa novela e fui fazendo outra e outra e mais outra e não consegui voltar.

Tu costumas dizer que não temes críticas. De onde vem tua segurança?

Na verdade, parto do princípio de que ninguém sabe mais da minha personagem do que eu e quem está envolvido na construção da novela. E Walcyr Carrasco, que escreveu, é claro. Crio do zero, sei como isso acontece. Quando ouço críticas que não têm fundamento, de pessoas que não sabem de onde partiu aquela construção, penso que não tenho que me importar. É um trabalho tão particular e profundo, que ouvir coisas não construtivas é algo que descarto. Quando ouço algo construtivo, com certeza, vou agregar e tentar implementar na construção. Fora isso, não ligo.

Como é a tua relação com o público na internet?

Uso as redes sociais e gosto mais do Twitter, porque é um caminho mais rápido de perguntas e respostas. Interajo bastante, mas também com certo limite. Gosto muito de expor meus pensamentos com a proposta de que participem para que eu possa falar de volta. É uma galera muito questionadora e fiel, ao mesmo tempo. Gosto de usar como um termômetro essa rede social.

Tua bio no Instagram diz que és uma "atriz do Méyer". Qual o papel desse lugar na tua história?

A gente diz que "quem é do Méyer não bobéyer" (risos). É a grande especialidade de quem vem de lá. Me considero cria, porque é onde moro desde os seis anos até hoje. Faz parte da minha formação como ser humano, das minhas vivências, das amizades, de quem sou. É um lugar muito especial, pelo qual tenho muito respeito. Coloco na bio mesmo, para não esquecer de onde vim. Para abrir e pensar: "Olha de onde você veio. São suas raízes, que você não pode esquecer". É um lugar na Zona Norte, de uma mulher que teve as bases da sua educação focadas na honestidade, no pé no chão. É sobre isso.

Como te definirias hoje?

A Barbara é tranquila, relaxada, sempre tem uma palavra amiga, mas também é muito da escuta. Às vezes, recebo chacoalhões de quem quer debater e digo que a gente precisa escutar. Sou muito discreta e é difícil me abrir para novas interferências na vida. Meu ascendente é capricórnio, então, sou desconfiada e preciso ser conquistada nesse lugar de confiança. Para me abrir, tenho que sentir que estou em ambiente seguro.

E concordas que essa tendência à escuta leva a um maior acolhimento?

Confesso que tenho a característica de ser maternal com meus amigos. A partir do momento em que me abro, tento, de alguma forma, sempre cuidar. E, além disso, acabo tendo percepções muito maduras de determinadas situações, mesmo com o pouco de experiência que tenho, aos 33 anos. São 13 de vida adulta... 15, 20, talvez. É pouco tempo comparado ao de uma pessoa de 50, por exemplo.

Pensas em ser mãe?

Com certeza, não é o momento. Minha única filha agora é a Aline. Mas, claro, um dia, se tudo caminhar bem, sim. Sigo muito o fluxo da vida, mas desejo, um dia. E também, se não for, tudo bem. A gente vai preenchendo a vida com coisas que nos fazem felizes. Por enquanto, não tenho planos.

E o casamento? Vem logo?

O primeiro passo é estar noiva, né (risos)? Até tem gente que pula essa parte. Tem quem questione se ela é tão importante assim. Sou uma mulher romântica e as tradições valem muito para mim, mas não está nem perto da hora de pensar nessa possibilidade de casamento, festa. A gente planeja, sim, mas para esse ano, não. Nem para o ano que vem. Ainda nem conversamos sobre isso.

Tu te consideras uma mulher tradicional, nesse sentido?

Não acho que os rituais tenham que ser como sempre foram. Cada um tem que ter o seu. Meu pedido de noivado não foi com jantar, nos moldes tradicionais, joelho no chão. Nada disso. Na verdade, foi uma coisa muito natural, mas rolou o pedir, trocar aliança e coisa e tal.

Como foi?

Estava voltando de uma viagem ao Mato Grosso do Sul, de gravação da novela, e ele foi me buscar no aeroporto. Lá mesmo, de uma forma até destrambelhada, ele empurrando carrinho de mala, tentando pegar a caixinha dentro do bolso (...). Abriu e foi falando umas coisas que eu não estava entendendo. Aí, ele perguntou: "Você quer dividir a vida comigo?". Foi dessa forma surpreendente, que acho que é o mais importante. Às vezes, a pessoa fica repetindo "quero casar" e o outro acaba ficando nesse lugar de "ai, meu Deus, preciso fazer o pedido". Foi uma forma bem natural. O mais legal é a surpresa.

Tens alguma preocupação com a estética no dia a dia?

Na verdade, penso no autocuidado. Hoje, não vou dizer que no passado não me preocupava em relação ao corpo, mas a gente não deve tentar se encaixar em algum padrão. Me preocupo com uma vida de qualidade, pensando na terceira idade, no que posso fazer hoje para envelhecer com saúde e que não precise de uma ajuda para coisas básicas, sabe. Então, cuido de mim na alimentação, indo para a academia, por mais que não goste, porque sei que isso vai me dar qualidade lá na frente.

Uma coisa que tem me deixado feliz é que, quando a gente cuida da saúde, faz atividade física, se alimenta bem, não tem como o resultado não refletir esteticamente. Porque não acontece do dia para a noite. Coisas que vêm do dia para a noite não são legais. Se você não fica naquela ansiedade pelo resultado, quando menos espera, ele acontece. Me vejo numa fase feliz fisicamente e é tudo fruto dessa nova forma de enxergar. 

MARY SILVA 


20 DE MAIO DE 2023
PERFIL

A VOZ DO TAMANHODO MUNDO

Inesperadamente, um canto doce e harmonioso se prolifera pelo Jardim Lutzenberger na Casa de Cultura Mario Quintana. É uma tarde nublada, e os visitantes no local são surpreendidos com uma performance suave e ao mesmo tempo intensa. Eles silenciam e se voltam absortos para a voz. Que voz. Ao interpretar uma música em uma sessão de fotos para ZH, Luiza Hellena parou o tempo por ali.

O tempo, aliás, correu bastante para que a cantora e compositora finalmente gravasse seu disco de estreia. Com 78 anos, ela prepara o primeiro álbum por meio do edital Natura Musical 2022. O projeto intitulado Dona Luiza Hellena e a Velha Guarda da Praiana - Uma Voz, Um Encontro prevê não só um disco, mas também a gravação de um clipe e um show presencial com transmissão online.

Antes disso, uma amostra: a artista protagoniza o espetáculo Luiza Hellena, Uma Voz, no próximo sábado, dia 27, na Fundação Ecarta, na Capital. A entrada é franca, e também haverá transmissão ao vivo pelo canal do YouTube da instituição. Acompanhada de Silfarnei Alves (violão) e Heleno Goulart Rodrigues (percussão), ela cantará sambas, serestas e canções da MPB, além de seu trabalho autoral.

Luiza é uma das vozes negras da noite de Porto Alegre que atravessaram décadas cantando pelos bares da cidade, além de ser lembrada por sua atuação no Sindicato dos Músicos do RS (Sindimus-RS) pelos profissionais da área, mas seu potencial ficou invisibilizado. Sempre às margens.

Responsável pela produção do projeto contemplado pela Natura, além de atuar na produção do disco, o músico e pesquisador Paulinho Parada abordou a história de Luiza em sua dissertação de mestrado intitulada "Nós da noite: memória, esquecimento e atividade musical profissional em Porto Alegre", da pós-graduação em Música da UFRGS. Em 2021, ele dirigiu o curta documental Luiza Hellena - Uma Voz (disponível no YouTube), que venceu o Prêmio Açorianos de Música 2022 na categoria clipe do ano. Segundo o realizador, a produção tinha como finalidade refletir sobre a invisibilidade da mulher negra.

- Vi a força que ela tinha em sua história - atesta Parada sobre a ideia de trabalhar com a cantora.

Natural de São Lourenço do Sul, no sul do Estado, Luiza migrou ainda pequena para Pelotas. A artista crê que tenha nascido com o dom para a música, algo que a acompanhou desde o berço. Ela começou a cantar para valer aos 13 anos, tendo participado, naquela época, de um concurso da Rádio Cultura. Ficou em primeiro lugar, passando a integrar o casting de cantores da emissora pelotense. Porém, a atividade artística não era bem aceita pela família.

- Era penoso para mim porque minha mãe não aceitava - relata. - Eu tinha de me comportar muito bem para poder ir semanalmente cantar, aos domingos, em um programa de auditório.

Luiza salienta que, naqueles tempos, a menina que cantasse era "mal falada". Recorda que levava "surras homéricas" da família por cantar. Mesmo assim, tudo o que mais queria era ser cantora. E ela não via nada de errado nisso.

Aos 16 anos, Luiza saiu de casa rumo à Porto Alegre para realizar seu sonho. Tendo vivido na Restinga e na Medianeira, estabeleceu-se na Vila Farrapos há 35 anos. Porém, ao chegar à cidade ainda nos anos 1960, quebrou a cara:

- Não sabia nada da vida. Descobri que cantar não era glamour, era luta. Eu não conhecia ninguém, ninguém me conhecia, era uma menina. Passei muito trabalho.

Foi aos 16 que ela teve o primeiro filho, Cláudio Luís. Foi mãe solteira. O segundo de seus dois filhos, Otone, viria três anos depois. Aos 19, ela se casou e deixou os palcos. O marido a proibiu de cantar.

- Ele tinha o mesmo pensamento arcaico, de que mulher cantora era mulher da vida. Preconceito enorme - queixa-se. - Fiquei sem cantar enquanto estive casada. Era um período dificílimo, quando tinha oportunidade, lá estava eu gorjeando, e ele ficava apavorado.

Poucos anos depois, quando Luiza já tinha 27, o matrimônio chegou ao fim. Então, ela se jogou na música. Passou a cantar na noite no início da década de 1970. Com um repertório de MPB, samba, samba-canção e o que ela define como "música de fossa" ("muito de Lupicínio Rodrigues"), a cantora se apresentou ao longo do tempo em bares e casas noturnas como Clube da Saudade, Sandália de Prata e Encouraçado. Também viajava para se apresentar no Interior, em outros Estados e até no Exterior - o que inclui passagens por Argentina, Uruguai e México. Ainda, marcava presença em programas de rádios.

- Queria voltar naquele tempo. Me sentia valorizada - suspira. - Depois de tudo, sigo achando que a música me eleva. Sempre digo que cantar é orar duas vezes. Cantando a gente viaja, se realiza, vive amores. É uma utopia que vivemos.

Luiza também cantava em bailes de Carnaval, chegando a ser intérprete de escola de samba em São Leopoldo. Em Porto Alegre, adotou a Praiana como escola do coração por ter pelotenses entre os fundadores.

Com tanta rodagem, resolveu entrar no sindicato dos músicos em 1993, chegando a integrar quadros administrativos da organização. Define-se como "extremamente radical" quanto ao respeito ao músico.

- Sempre fui de defender a classe, lutar pelos nossos direitos, sou meio rebelde (risos). E sou meio estourada. Me reconheço como difícil.

Para o antigo companheiro de palco Carlinhos Santos, 67 anos, é o contrário. O violonista garante que o bom humor dela é a primeira característica que chama atenção de quem a conhece. Ele também a define como obstinada por sua atuação no Sindimus:

- A Luiza é a própria figura quando se fala em sindicato dos músicos, sempre dedicada e maravilhosa. Fez de tudo para manter o sindicato atuante e fortalecido, mesmo nos momentos de dificuldades financeiras. Isso os músicos devem a ela.

Quando a noite não rendia, Luiza se virava. Diz que a música não é um conto de fadas. Então, foi cabeleireira, costureira, datilógrafa, recepcionista, telefonista e doméstica. Aprendeu de tudo um pouco.

Com previsão de lançamento para o segundo semestre, o disco de Luiza está em pré-produção. O álbum terá participações da Velha Guarda da Praiana - o que inclui o violonista Silfarnei Alves. Além de diretor musical, produtor e tocar violão 7 cordas, Paulinho Parada também é o responsável pelos arranjos, junto a Edu Neves (Zeca Pagodinho e Elza Soares). Segundo Parada, o cavaco fica com Fábio Azevedo Cabelinho, a percussão, de Manoel Macedo e Maicon Paquetá, além dos percussionistas da noite Bebinho e Maciel. Com foco no samba e no samba-canção, o projeto reunirá composições emblemáticas que fizeram parte da história da Praiana - como As Alegrias da Vida e Janaína -, mas também da trajetória de Luiza.

Ela também deve gravar Cantando a Vida, de Paulinho Parada; Minha Dor, de Nêgo Izolino; e Iemanjá, de Durque Costa Cigano. Mas a verve compositora de Luiza também será evidenciada no álbum. Ela lembra que começou a criar suas próprias canções nos anos 1980, geralmente motivada por desilusões amorosas.

- Componho mais quando levo uma guampa. Aí é meu chão - diverte-se. - Sou taurina, portanto sou extremamente passional.

Em Aviso Prévio, por exemplo, verbaliza sobre um parceiro ausente ("Eu já cansei de viver com todo seu descaso/ Você só vem em casa às vezes por acaso/ Então nosso caso não tem solução") e dá um "grito de independência" ("Se eu me arrepender amanhã, paciência/ Hoje sem brigas eu quero mudar").

- Tive um relacionamento que durou 19 anos. Como gosto de ser enganada! (Risos.) Uma hora eu cansei e dei o xeque-mate. Dei um aviso prévio para ele - brinca.

Já em Justiça, ela declara: "Cansei das injustiças que você me fez/ Mas não farei justiça com as minhas próprias mãos/ Um dia a justiça divina irá julgar você/ Portanto, agora, não adianta me pedir perdão". Ao lembrar sobre o episódio que inspirou a canção, Luiza reflete que os homens "culpam as mulheres das coisas que eles fazem".

- Quando reagimos, a errada é sempre a gente - aponta. - Quando o encurralei, ele disse que estava com intenção de reverter nossa situação. Respondi que não, "cansei das injustiças que você me fez". Tive problema de saúde, ele não ia em casa. Assim nasceu Justiça.

Como compositora, Luiza segue o legado de Lupicínio Rodrigues, versando sobre desamores, porém na perspectiva feminina. Umas das faixas previstas para o disco homenageia o compositor da Ilhota: Lupi - Sua Arte, Sua Glória. Há também um blues intitulado Longa Espera ("Que espera longa/ Mas o tempo não conta/ Peço passagem/ Ei de chegar, ei de chegar"), outro petardo da dor de cotovelo.

- Cantar o amor é muito fácil. Agora, ao cantar a tristeza, tu põe mais a alma, aí que sai melhor - avalia. - Às vezes a gente está cantando uma música triste de doer, daí você se dá conta, bah, mas o cara me fez isso. "Bem que eu podia chorar, mas não, tu não pode chorar, vou botar na voz." Dá tudo de ti. Tu quer mostrar que foi apaixonada. Isso enriquece a arte.

Presente no disco e no show da Ecarta, Silfarnei tem 66 anos, dos quais calcula conhecer a Luiza há quase 40. Os dois se apresentam juntos esporadicamente. Para o violonista, a cantora tem bom gosto ao escolher o repertório, que costuma permear nomes como Elis Regina, Alcione e Lupicínio. Estima, em especial, a interpretação que ela dá a Sonhos de um Palhaço, sucesso na voz de Antônio Marcos.

- Ela é uma das últimas grandes cantoras - diz Silfarnei. - Não que a gente não tenha boas cantoras agora, mas aquele jeito dela de cantar, aquela elegância, aquele respeito à música, deixa marcas.

A designer de moda Suelci Silva conheceu Luiza por meio da Praiana. Com 64 anos e integrando da Velha Guarda, ela é autora de temas enredos das escolas de samba. Suelci frisa que a companheira de escola leva as pessoas a viajar com seu o timbre e a doçura da voz.

- Isso é o diferencial da Luiza. Há muitos cantores, mas os que te fazem viajar são raros. A leveza dela te inebria, e tu prestas atenção naquela figura mionzinha, pequena, mas com um vozeirão do tamanho do mundo - descreve Suelci.

O músico, compositor e produtor cultural Henrique Mann observa que a artista tem boa presença de palco e segurança da execução. Ele assegura que Luiza foi uma das melhores cantoras com quem trabalhou em estúdio - na coletânea Nós da Noite, em que canta Justiça. Destaca a afinação da artista:

- O tempo passa e ela continua com a voz forte, mesmo tendo problemas de saúde, enfrentando muitas situações adversas, sua voz adapta-se e não perde a afinação. Acho que isso tem muitas explicações, como o fato de ela sentir-se feliz quando canta, a experiência de cantar por muitos anos e nas circunstâncias mais variadas, que tornou-a muito experiente. Ela sabe escolher os caminhos mais seguros.

Prestes a chegar aos 80, Luiza lida com diabetes e insuficiência renal. Sofreu um infarto em 2021 e, a parti daí, passou a fazer hemodiálise. A cantora, então, vê o disco como um projeto de vida que chega bem a tempo.

- Nunca deixei meu sonho de lado, nunca morreu, nunca deixei de acreditar. Veio agora um prêmio. Fico emocionada. É ainda melhor receber esta homenagem agora, porque ainda estou viva e vou colher os frutos - anima-se.

Para Suelci, Luiza sempre foi uma pessoa à frente de seu tempo. - Abandonar o sonho ao casar, ter filhos e depois voltar para o sonho... Ela é uma pessoa que se reinventa a cada instante - define.

Parada relata que Luiza crê que a história dela é uma história comum. De uma mulher que casou cedo, constituiu família, que foi impedida de cantar, era surrada por ser cantora de rádio - algo que ela entende ser só mais uma história corriqueira. Mas, para o produtor, não se trata apenas disso:

- Ela é uma voz que representa milhares de vozes invisibilizadas. Trata-se de uma representatividade.

Depois que Dona Luiza interpretou As Alegrias da Vida, samba-enredo da Praiana no Carnaval de 1980, no Jardim Lutzenberger, ela foi aplaudida pelos visitantes ali presentes.Ninguém a conhecia. Ela parou o tempo por ali e o devolveu. 

WILLIAM MANSQUE

20 DE MAIO DE 2023
DRAUZIO VARELLA

VOCÊ, EUE O ACASO

Somos mamíferos. Pertencemos a uma subclasse dos vertebrados com mais de 6 mil espécies, entre as quais morcegos, baleias e girafas. O que caracteriza animais tão diversificados capazes de viver na terra, no ar e nas águas é a amamentação e a presença da placenta, estrutura que lhes permite manter os filhotes dentro do útero durante meses, para que se desenvolvam em segurança.

No último fim de semana, li um artigo que o paleontólogo Steve Brusatte, professor da Universidade de Edimburgo, publicou na revista Scientific American. Nele, o autor traça o caminho seguido pelos ancestrais dos mamíferos até dar origem aos seres humanos.

Você, prezado leitor, e você também, caríssima leitora, com paciência para ler esta coluna, verá que chegamos até aqui por uma sucessão infindável de acontecimentos fortuitos que se acumularam no decorrer de milhões de anos. E que a vida porventura existente em outro planeta, teria que sofrer os mesmos revezes para gerar seres com os quais pudéssemos nos entender.

Anos atrás, a ciência acreditava que os mamíferos só teriam surgido depois da extinção dos dinossauros. A paleontologia moderna, no entanto, revelou que os mamíferos tiveram origem concomitante com eles no período Jurássico, cerca de 225 milhões de anos atrás, época em que os cinco continentes ainda estavam ligados por terra, formando a Pangeia.

Nesse tempo, a Terra começava a se recuperar da maior extinção em massa de sua história, provocada pela erupção de grandes vulcões na Sibéria, que derramaram lava e gás carbônico na atmosfera, durante milhões de anos. A poluição e o aquecimento global extinguiram perto de 95% das espécies existentes.

Quando os vulcões se calaram, os animais remanescentes se apressaram em ocupar o vácuo ecológico deixado. Entre eles estavam os ancestrais dos dinossauros e dos mamíferos.

Nos 160 milhões de anos seguintes, dinossauros e mamíferos adotaram estratégias opostas. A seleção natural privilegiou o aumento de tamanho dos dinossauros: quanto mais fortes, maior a probabilidade de sobreviver. Nos mamíferos, ao contrário, foram selecionados os de pequeno porte, roedores noturnos em sua maioria. Tem lógica, não? Fora das tocas, que chance teria um animal do tamanho de um boi com aqueles mastodontes na vizinhança?

Entre 201 milhões e 66 milhões de anos, nos períodos Jurássico e Cretáceo, os dinossauros e os mamíferos se diversificaram. Eles, cada vez maiores, enquanto nossos ancestrais, que se alimentavam de frutas, tubérculos e flores, não passavam do tamanho de um coelho. No decorrer dos 79 milhões de anos de duração do Cretáceo, a diversificação dos mamíferos se acentuou. Apareceram os primeiros ancestrais dos primatas.

Um belo dia do Cretáceo, há 66 milhões de anos, quiseram as leis da Física que um asteroide de 9 km de extensão entrasse em rota de colisão com nosso pobre planeta, entretido na translação ao redor do sol, sem causar mal a ninguém. O choque aconteceu na península de Yucatán, no México. Equivalente a mais de 1 bilhão de bombas atômicas, o impacto monumental abriu uma cratera de mais de 16 km de profundidade e 160 km de largura.

Tsunamis, erupções vulcânicas, incêndios florestais e terremotos devastaram o planeta. As nuvens de poluentes escureceram os céus durante anos, as plantas perderam a capacidade de fazer fotossíntese e de alimentar os animais herbívoros, bem como os carnívoros que se alimentavam deles.

Com exceção de alguns pássaros, os dinossauros foram varridos da face da Terra. Azar deles, sorte nossa. Se a rota do asteroide desviasse um milésimo de grau, ele passaria a milhares de quilômetros do nosso planeta que, aliás, não seria nosso até hoje, mas daqueles brutamontes.

No Paleoceno, período que sucedeu o Cretáceo, ocorreram várias extinções de espécies de mamíferos. É possível que tenham sobrevivido apenas 7%; entre eles, os que dariam origem à linhagem dos primatas modernos. Durante milhões de anos, eles seriam submetidos à implacável seleção natural que eliminaria os menos aptos, até surgirem os nossos parentes mais próximos: orangotangos, gorilas, chimpanzés e bonobos; e nós mesmos.

Os seres humanos ainda enfrentariam sucessivos processos de seleção antes de chegar ao Homo sapiens, espécie que por acaso daria origem a você e eu.

DRAUZIO VARELLA

20 DE MAIO DE 2023
ACOLHIMENTO

Capital organiza a Operação Inverno

Ações terão início no dia 1º de junho, com previsão de ampliação do número de vagas à população adulta em situação de rua

A Operação Inverno 2023, promovida anualmente pela prefeitura de Porto Alegre, terá início no dia 1º de junho e duração total de três meses. A informação foi divulgada pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (SMDS) na quinta-feira. A Capital executa o Procedimento Operacional Padrão (POP) - Operação Inverno em períodos de baixas temperaturas, em ações integradas com diferentes secretarias.

Uma delas diz respeito ao período liderado pela Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc), no qual há ampliação de vagas no sistema de proteção para a população adulta em situação de rua. Neste ano, 23 espaços extras serão abertos em albergues e abrigos da cidade.

Atualmente, Porto Alegre conta com 950 vagas para pessoas nessa condição, entre albergues, abrigos e pousadas. Na Operação Inverno, as equipes seguem um protocolo de ações composto por duas fases: na primeira, ocorre a ampliação de 13 vagas no Abrigo Bom Jesus e de 10 vagas no Albergue Dias da Cruz. Haverá ainda espaços de retaguarda, com atendimentos nos abrigos Marlene, Casa Lilás, Abrigo de Famílias, dois albergues (Acolher I e II) e pousadas. Os órgãos ainda estudam ampliar o número de vagas nos próximos dias.

Alternativa

A segunda fase é acionada quando a temperatura chega aos 5ºC. Neste caso, são disponibilizadas vagas em ginásios como alternativa ao suporte oferecido pela rede de acolhimento. Conforme o secretário municipal de Desenvolvimento Social, Léo Voigt, o Ginásio do Departamento Municipal de Habitação (Demhab), no bairro Santana, está sendo preparado para utilização nas noites de frio intenso, quando a população aceita mais o acolhimento, e caso o número de vagas seja insuficiente.

- O problema é a falta de aceitação do acolhimento. Quando a temperatura está muito baixa, uma parte da população acaba aceitando a oferta, e aí podemos acolher no ginásio na medida em que o sistema de vagas dos albergues e abrigos estiver esgotando - diz.

Em 2023, o valor investido em toda a operação será de R$ 10 milhões, conforme o prefeito Sebastião Melo afirmou em entrevista à Rádio Gaúcha na quinta-feira. A SMDS está segura de que conseguirá alcançar uma cobertura suficiente de acolhimento.

- É pouco provável que tenhamos pessoas que aceitem ofertas sem acessá-las - avalia o secretário.

Além disso, a campanha do agasalho, que ocorre ao longo de todo o ano, será intensificada. Neste ano, a iniciativa está direcionada a captar alimentos e roupas novas, de modo a entregar os melhores suprimentos possíveis à população necessitada. O secretário lembra ainda que a oportunidade é de solidariedade, e não de descarte.

FERNANDA POLO

sábado, 13 de maio de 2023


12/05/2023 - 09h49min
Martha Medeiros

Mãe nunca larga de mão

Venho há alguns anos tentando me equilibrar entre ser uma desestressada e uma madre superiora

Nenhuma pesquisa científica comprova, é achismo meu: mães são mais controladoras que os pais, mais vigilantes que os pais. Resultado: os pais viram os fofos da casa e as mães, as megeras – ainda que megeras essenciais. O problema é que ser essencial pesa. A garotada acaba preferindo a companhia dos relaxadões, pais que parecem irmãos mais velhos. Tudo em tese, gente. Em tese.

Venho há alguns anos tentando me equilibrar entre ser uma mãe desestressada e uma madre superiora. Não tenho mais criança em casa, sou mãe de duas jovens adultas, tem cabimento se meter na vida delas? Claro que tem cabimento, óbvio que tem cabimento, mas a Associação Psicanalítica do Universo pode aparecer por aqui e me levar algemada para averiguações, então a gente finge que largou a filharada de mão.

Mãe nunca larga de mão. Never. Jamé.

Ainda assim, andava me sentindo evoluída, certa de que tinha alcançado o nirvana da maternidade, quando minha filha mais velha me deu uma situada. Estávamos falando pelo telefone e ela reclamou sobre algo que aconteceu no trabalho dela. 

Eu prontamente apresentei um desenlace para acabar com o problema. Foi quando ela me disse: “Mãe, é só uma queixa trivial, uma bobagem, estou desabafando. Já reparou que a cada vez que eu comento sobre alguma coisa, tu tens a solução na ponta da língua?”

Mãe aguenta cada injustiça. Fingi que concordei, mas só depois de desligar o telefone é que concordei de fato. Lembrei que a cada vez que ela falava que fazia frio (mora no Exterior), eu recomendava uma rede de lojas que vende cashmere por um preço em conta. Se ela dizia que andava se sentindo cansada, eu sugeria que ela fizesse outro teste de covid. Se ela havia errado o ponto do molho, eu vinha com uma receita tirada não sei de onde (o fogão e eu mal nos conhecemos). Se ela reclamava do próprio cabelo, eu mandava por WhatsApp a foto do corte perfeito. Se ela brigava com o namorado, então, eu vinha com uma palestra pronta. E não sou chata, imagina se fosse.

Sou mãe. É autoexplicativo.

Sejam nossos filhos destrambelhados ou bem resolvidos, estamos sempre a postos para resolver suas questões. Os coitados não podem abrir a boca. 

“Meu colega da faculdade vai se casar”(a mãe: precisa mandar lavar aquele seu terno azul marinho). “Amanhã tenho que estar no aeroporto às 7h” (mãe: não esquece de programar o despertador). “Vou participar de uma maratona” (mãe: treina bastante antes de correr, tem gente tendo ataque cardíaco aos 30.

Deliciosamente trágica.

Mas melhorei bastante. Minha filha vai mesmo participar de sua primeira maratona, mesmo não tendo preparo físico para correr atrás de um ônibus. Estou fingindo naturalidade. Não sobrou uma unha nos dedos, mas ando super querida, relaxadona, praticamente um pai.


13 DE MAIO DE 2023
MÚSICA

DIA DAS MÃES COM TRILHA DO REI

Roberto Carlos promete homenagem a elas (e elas a ele) no domingo, em show no Auditório Araújo Vianna

WILLIAM MANSQUE

Uma multidão de Ladys Laura deve ocupar o Auditório Araújo Vianna neste domingo. Em pleno Dia das Mães, Roberto Carlos sobe ao palco da casa a partir das 20h. Na plateia, muitas fãs estarão celebrando a data em dobro.

É o caso de Marta Peicher Gunther, 57 anos, que verá o seu primeiro show do Rei. Mãe de Chrystian, 33, e Khetlyn, ela nasceu em Taió (SC), mas vive há 28 anos em Boa Vista do Buricá, Noroeste do Estado. Acompanhada de seu marido, Sigmar, ela viajará cerca de 500 km até Porto Alegre. A fã destaca que nunca teve condições de assistir ao cantor, e ele tampouco esteve próximo de onde vive.

Marta estará cumprindo uma promessa a si mesma, feita em 2015. Naquele ano, Roberto se apresentou no estádio Beira- Rio. Chateada por não ter ido, ela decidiu que veria o Rei ao vivo a qualquer custo.

- Nem que tivesse que lavar chão por aí, eu ia conseguir - relata Marta. - Quando veio o anúncio deste show, liguei para o meu filho e pedi: "Filho, faz um favor: entra no site e compra o ingresso para a mãe e o pai, nem que precise financiar". E ele conseguiu.

A fã destaca que os filhos estão felizes por verem a mãe realizar um sonho. Aliás, os dois aprenderam com ela a ter um apreço por Roberto. Um dos motivos para isso era o programa especial de fim de ano do cantor, que costumava ser uma tradição de família.

- Não havia evento nenhum que me tirasse da frente da televisão! Se tivesse alguma janta ou outra coisa, eu declinava, pois era dia de Roberto Carlos. Era sagrado. Meus filhos viam e acabavam gostando - lembra.

Fã de Roberto desde os 12 anos, Marta não esconde a ansiedade de uma vida para o show deste domingo. Para ela, é a oportunidade de finalmente presenciar tudo aquilo a que sempre assistiu na TV.

- O grande sonho seria chegar perto dele e ganhar uma rosa. Mas é uma coisa quase impossível. Então, tenho a expectativa de ouvir boas músicas, como ele tem, que transmitem paz, ternura e amor - diz Marta.

Se a mãe de Boa Vista do Buricá estará vendo Roberto pela primeira vez, por outro lado, Fatima Mascitti já perdeu as contas de quantas vezes foi em um show do Rei. Moradora de Canoas, ela tem 62 anos e bate ponto nas apresentações do cantor na capital gaúcha desde os 18. Sua última vez, no entanto, foi em São Paulo, em 2019. A fã viajou sozinha para matar a saudade de Roberto.

Fatima é mãe de três filhas: Dayane, 39; Michelle, 33; e Camille, 25. Ela conta que o trio sempre lhe deu força em relação a Roberto. Inclusive, a fã nunca esqueceu de um aniversário em que Dayane mandou um carro de som que tocou Como É Grande o meu Amor por Você. Suas filhas costumam ajudá-la também a escolher seus looks para os shows - neste domingo, ela adianta que estará de vestido e unhas azuis, cor favorita do cantor.

No Araújo Vianna, Fatima espera entregar um presente para Roberto que ela tentou dar em São Paulo. Trata-se de uma placa prateada com os dizeres "Hoje venho fazer essa singela homenagem de quem lhe admira muito pelas suas composições e canções. Obrigada, querido".

Fã de Roberto desde os cinco anos, Fatima crê que será emocionante rever seu ídolo neste domingo.

- A minha esperança é pegar a flor. Quem sabe tirar foto com ele e entregar o presente. - anseia. - Ele é o Rei. As composições trazem várias reflexões, é muito romântico, fala da fé também, da natureza etc.

Saudade

Presente no repertório dos shows recentes de Roberto, a canção Lady Laura deve acalentar as mães presentes no Araújo neste domingo. Integrando o disco autointitulado do cantor lançado em 1978, a música homenageia a mãe do artista, Laura Braga.

Abordando um filho que relembra momentos de infância e relata saudade da progenitora, a música se tornou um clássico nas apresentações do Rei. Ao longo de sua vida, Roberto sempre foi muito apegado à sua mãe.

No entanto, no último especial de fim de ano, que foi ao ar pela TV Globo em dezembro de 2022, ele revelou que não canta mais Lady Laura com a mesma alegria que a compôs com Erasmo Carlos. Pelo contrário. A mãe de Roberto morreu aos 96 anos, em 2010, então a música ganhou outras nuances para o cantor desde então.

- Canto essa canção sem alegria alguma. Mas o amor é cada vez maior por minha mãe, Lady Laura - admitiu na apresentação.

Além desse hino de amor maternal, as mães presentes no Araújo poderão ver o Rei cantar clássicos como Emoções, O Calhambeque, Outra Vez, Evidências (famosa nas vozes de Chitãozinho & Xororó), entre outros sucessos que têm entrado no repertório, e fechar o show com Jesus Cristo. Um show para alegrar qualquer Lady Laura.

ROBERTO CARLOS

Domingo, às 20h, no Auditório Araújo Vianna (Av. Osvaldo Aranha, 685), em Porto Alegre. Ingressos a partir de R$ 890 (solidário, mediante doação de 1 kg de alimento não perecível). Ponto de venda com taxa: site eventim.com.br. Ponto de venda sem taxa: Loja Planeta Surf do Shopping Praia de Belas (sábado, das 10h às 22h, e no domingo, das 15h às 20h). 


13 DE MAIO DE 2023
BRUNA LOMBARDI

O MISTÉRIO DAS MÃES

Você também sente que a relação entre mães e filhos é uma das mais significativas, complexas e misteriosas que existem? Com uma sincronicidade que vai além da nossa compreensão?

Sinto que essa ligação permanente, essa fortíssima conexão, se inicia naquele processo de fazer uma pessoa dentro do nosso corpo. De alguma forma mágica, as nossas experiências e sensações são transmitidas para nossos filhos por canais que não conhecemos. Existe uma troca inconsciente e ininterrupta, filamentos invisíveis se comunicando.

Durante minha gravidez, senti a necessidade de passar o lado belo do mundo pro meu filho. Em qualquer circunstância que estivesse, eu buscava paz de espírito, olhava muito para a natureza e fazia o possível para ter só bons pensamentos. Sabia que o alimentava com isso.

Mães e filhos possuem uma percepção extra, e de forma instintiva um sabe do outro. Um sente o outro mesmo à distância, compreende de forma extra cognitiva o que se passa no espírito. O Kim e eu temos uma extraordinária sintonia que toda hora nos surpreende. Um pensa e o outro liga. Tantas vezes falamos juntos a mesma coisa, dizemos ao mesmo tempo a mesma palavra ou piada. E a gente brinca dizendo: sai do meu cérebro!

Existem relações de desentendimentos e mágoas, que enfraquecem essa comunicação. Como uma antena que num local difícil não consegue captar os sinais. Mas isso é apenas uma interferência. Um ruído que pode ser resolvido. Coisas a serem superadas. Porque a conexão existe e pode transcender tudo isso. A ligação desse amor é forte o suficiente para vencer.

Cada um de nós nasce de uma determinada mãe, em um determinado momento e lugar, e isso parece mais do que uma simples coincidência. Temos a percepção de que nossa mãe foi escolhida especificamente por nós e para nós. Somos frutos, geramos frutos, que vão gerar novos frutos, numa contínua sucessão, uma corrente que nos entrelaça com o que existe de mais precioso na vida.

Sempre agradeço ao universo pela vinda do Kim. Nosso amor é incondicional e instintivo, a força da mais intensa energia. No primeiro instante em que olhamos e somos olhadas por nosso bebê, tudo passa a fazer sentido.

E mesmo com toda essa conexão, a verdade é que nenhuma mãe sabe o que fazer. Não tem a mínima ideia de como agir, não sente a menor segurança para tamanha responsabilidade. Criar uma pessoa é o trabalho mais importante do mundo.

Vamos passar por todas as fases e em cada uma delas vamos aos poucos descobrindo por instinto o que fazer. É um jogo de erros e acertos. Uma vez eu disse pro Kim ainda menino que para mim também era a primeira vez, que eu também, assim como ele, não sabia o que fazer e estava aprendendo. Para ele, foi um espanto, porque achava que mãe sabia tudo.

Às vezes sabe. E tem humor. Como quando aquele adolescente disse pra mãe que ela tava invadindo a privacidade dele. E ela respondeu que ele tinha saído da privacidade dela.

BRUNA LOMBARDI

13 DE MAIO DE 2023
SAÚDE PÚBLICA

DAS MÃOS LAVADAS À ANTISSEPSIA CIRÚRGICA

15 DE MAIO É O DIA NACIONAL DO CONTROLE DAS INFECÇÕES HOSPITALARES

Nos hospitais do século 19, mulheres morriam aos montes após o parto em decorrência de infecções. Quem dava à luz em casa ou mesmo nas ruas tinha chances de sobrevivência melhores do que em uma internação hospitalar. Na época, os pacientes eram aglomerados doentes em camas coletivas e sem distanciamento, além de serem atendidos por médicos que não limpavam suas ferramentas ou lavavam suas mãos.

Isso mudou em 1847, quando ainda se defendia a teoria da geração espontânea (que dizia que pequenos animais como insetos e larvas surgiam por geração espontânea), um legado dos antigos gregos. Na época, o médico obstetra húngaro Ignaz Semmelweis decidiu incorporar uma atitude simples - a lavagem das mãos - no dia a dia do hospital em que trabalhava em Viena, na Áustria, antes mesmo da teoria microbiana dos germes se tornar consenso entre cientistas.

- Esse médico viu que, onde as puérperas estavam sendo cuidadas por parteiras que higienizavam as mãos e usavam água quente, havia menos infecção do que as cuidadas pelos médicos porque eles às vezes saíam de salas de necropsia, manipulavam corpos e iam direto fazer os partos - explica a médica infectologista Caroline Deutschendorf, coordenadora da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA).

Com isso, a mortalidade nos partos decaiu drasticamente, e a data da medida implementada por Semmelweis foi instituída como o Dia Nacional do Controle das Infecções Hospitalares. Hoje, mais de 175 anos depois, lavar as mãos continua a ser uma das principais medidas de prevenção para todos os que passam por unidades de saúde - médicos, enfermeiros, pacientes ou visitantes.

u Foco especial em pacientes com cateteres, sondas e pós-operatórios

De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), só a higiene das mãos e dos ambientes em unidades médicas está associada à redução de complicações de saúde em cerca de 40%, além de reduzir o risco de morte pela metade. Segundo o órgão, a medida é uma das intervenções com o melhor custo-benefício na saúde, por ser barata e eficaz.

Caroline explica que toda pessoa que interna em um hospital está sob risco de contrair uma infecção, sobretudo aqueles que recebem cateteres, sondas ou fazem cirurgias. Ou seja: incisões e cortes que deixam o interior do corpo, de algum modo, exposto. Por isso, os ambientes hospitalares - dos quartos e corredores às unidades de terapia intensiva e salas de cirurgia - passam por higienizações constantes.

- Focamos muito nesses pacientes em especial porque sabemos que eles têm mais risco e nossa principal medida, carro-chefe, até hoje, é a higiene das mãos - explica Caroline.

Fora a medida já consagrada, em quartos hospitalares, por exemplos, há outras como o distanciamento entre leitos para deixar a convivência segura e o isolamento dos pacientes que estiverem infectados com micro-organismos ou bactérias resistentes, explica a enfermeira Ariane Monteiro, coordenadora de Enfermagem do Serviço de Controle de Infecção do Hospital São Lucas (HSL).

Já em unidades de tratamento intensivo (UTI), para onde vão muitos dos pacientes em situação mais delicada, a adesão à higiene das mãos é monitorada junto com o uso de dispositivos, como respiradores e acessos endovenosos.

- Temos três linhas de prevenção muito fortes: à infecção de corrente sanguínea, de trato urinário e de pneumonia associada à ventilação mecânica. Cada uma delas tem itens de rotina que o controle de infecção avalia, como uma espécie de auditoria - diz a enfermeira.

u Salas de cirurgia requerem ainda mais rigor nos cuidados

Em locais como salas de cirurgia, os cuidados são ainda mais rigorosos. Há controle até no fluxo do ar condicionado para evitar que partículas caiam no paciente, afirma Caroline, do Hospital de Clínicas. À exceção de partos, os visitantes não são permitidos e, em muitos casos, os pacientes tomam antibióticos para prevenir infecções bacterianas.

- Todos usam barreiras máximas de proteção: avental, gorro, máscara e luva para evitar transmissão de infecção - explica a médica do HCPA, que diz que luva e avental são esterilizados e trocados em todo procedimento para garantir que não haja transmissão de bactérias, por exemplo.

Ariane também ressalta que, no pré-operatório, tanto pacientes como a equipe assistencial passam por antissepsias cirúrgicas, como banhos com uma solução de clorexidina, um antibactericida e antifúngico. Há todo um cuidado no preparo da pele do paciente na escovação das mãos dos profissionais de saúde, explica a enfermeira. A mesma estratégia de fluxos de ar especiais das salas cirúrgicas também é usada em outras alas sensíveis de hospitais, como as que atendem pacientes com imunidade suprimida ou nas UTIs.

Visitantes também devem contribuir na prevenção

Além de pacientes, hospitais também recebem o fluxo de visitantes e consultas ambulatoriais. De modo geral, no caso de visitas, o ideal é evitar que haja muita gente circulando, apesar do volume ficar mais intenso, sobretudo em caso de pacientes mais graves, com família e amigos preocupados.

- Reforçamos a importância da higiene de mãos e que, se o visitante veio visitar seu familiar, ele não pode aproveitar para visitar outros - diz a enfermeira Ariane.

Essa lavagem das mãos pode ser feita com álcool gel ou água e sabonete antes de se realizar quaisquer cuidados em relação ao paciente visitado. A médica Caroline alerta que, no inverno, há muita gente que se gripa ou resfria, não toma os cuidados e vai ao hospital, de modo que transmite doenças infectocontagiosas aos pacientes internados.

E os visitantes devem evitar oferecer lanches "de fora", já que os pacientes têm dietas específicas entregues pelos hospitais. Caroline lembra que os controles nas cozinhas dos hospitais são rigorosos, com uso de máscaras e gorros o tempo inteiro, além do apoio das equipes de higienização. Se o visitante for lanchar, o ideal é fazer isso fora dos quartos.

PEDRO NAKAMURA

13 DE MAIO DE 2023
J.J. CAMARGO

AS IMPREVISÍVEIS REAÇÕES À DOR

Toda cirurgia é, em princípio, dolorosa. O que não segue nenhuma cartilha é a resposta de cada operado, com queixas discrepantes, muitas vezes submetidos a procedimentos idênticos.

As primeiras descrições desse fenômeno de diversidade sensorial reportam a experiências com soldados em campos de batalha que chegavam aos hospitais americanos de retaguarda, com as vísceras de fora, mas pouco queixosos, por estarem vivos, e porque, como sobreviventes, em breve estariam voltando para casa, para serem festejados como heróis.

Perfeitamente compreensível que usassem menos da metade da morfina exigidas por pacientes das clínicas de luxo de Boston, submetidos a cirurgias eletivas, muito onerosas, e com ganhos menos ostensivos e ainda carentes de comprovação.

Um importante atenuante da dor é a existência, no processo, de alguma barganha. É muitíssimo menor a queixa de dor de quem é operado para resolver, por exemplo, uma hemorragia, com sua assustadora ameaça de morte, na comparação com quem tem indicação de remover um tumor assintomático, descoberto por acaso. Apesar do diagnóstico precoce ser festejado pelo médico, essa contingência será sempre vista pelo paciente como uma agressão despropositada.

De todas as situações em que o fator emocional interfere, certamente a mais comovente é a da mãe que se submete a uma cirurgia torácica extremamente dolorosa para doar uma parte de seu pulmão ao filho amado, e que no pós-operatório dispensa sedativos porque, inacreditavelmente, não sente dor. Como se essa queixa, vista como menor no contexto, pudesse diminuir o tamanho de um dos maiores gestos de amor.

Uma das mais conhecidas lendas da solidariedade humana envolve dois soldados americanos, num dos momentos mais críticos da Segunda Guerra, quando os aliados foram emboscados pelos nazistas em Dunquerque. Um deles, gravemente ferido, foi carregado pelo outro por mais de 16 quilômetros em um campo nevado, durante a noite.

Quando finalmente, ao amanhecer, chegou ao hospital com sua preciosa carga, o soldado foi saudado como herói. E quando lhe perguntaram como conseguira carregá-lo durante tanto tempo e em condições tão adversas, ele simplesmente respondeu: "Mas ele não pesa nada. Ele é meu irmão!".

Aparentemente, o amor incondicional é um poderoso analgésico! Que brota espontâneo no coração dos amados, e como tudo o que é incontestável na origem, dispensa definições, e certamente não precisa de receituário com tarja preta.

J.J. CAMARGO