sábado, 27 de maio de 2023


27 DE MAIO DE 2023
INFORME ESPECIAL

Se eu puder te dar um conselho

Há pais e filhos com relações rompidas. Há aqueles que não se veem há tempos e, quando finalmente se reencontram, brigam de novo e partem para mais 10 anos sem dar notícias. Há os que não conseguem superar a teimosia mútua, os conflitos geracionais e as visões de mundo incompatíveis, incapazes de fazer concessões, de dar o primeiro passo ou de estender a mão.

Há quem tenha duas mães ou dois pais. Há quem não tenha mais pai nem mãe. E há quem nunca os tenha tido.

Muitos perderam as figuras de referência para sempre e hoje se arrependem do que fizeram ou deixaram de fazer. Pais e filhos motivaram livros e músicas, sessões de terapia, teses de doutorado, artigos de jornal, poesias e posts no TikTok. Não é por menos.

A relação parental é feita de fases. Algo acontece quando os filhos atingem a maturidade e viram, eles próprios, adultos como seus pais. Aí tudo faz sentido. De certa forma, nos tornamos iguais, com alguns anos de diferença, que já não fazem mais tanta diferença assim.

Acabo de voltar de uma longa viagem com meus pais. Decidi levá-los comigo para, juntos, vivermos uma nova experiência em um país diferente. Tenho 43 anos. Minha mãe tem 69 e meu pai, 70 (fotos).

Dividimos o vinho e as descobertas com a cumplicidade de velhos amigos. Brigamos e fizemos as pazes, rimos de nós mesmos, registramos selfies memoráveis, nos emocionamos ouvindo uma banda qualquer tocando Stand By Me nas ruas de Lisboa. "Fique do meu lado", diz a canção eternizada na voz John Lennon.

Tive o privilégio - e meu amigo Fabrício Carpinejar vai gostar de saber disso - de comemorar dois dias das mães com quem me trouxe ao mundo. Em Portugal, a data é celebrada no primeiro domingo de maio. No Brasil, é no segundo. Na dúvida, festejamos as duas. Sorte ter a mãe por perto.

Se eu puder te dar um conselho, não hesite nem por um minuto: caso ainda seja possível, caso eles estejam aí ao lado ou mesmo a quilômetros de distância, convide seus pais para uma viagem em família. Não precisa ir longe. Não precisa de hotel de luxo. Se eu puder te dar um conselho, não deixe para depois.

Isso para mim é uma falsa cosmética, porque esqueceram de uma "pequena coisa" no projeto: dos barcos.

AMYR KLINK

Navegador e escritor, fazendo reparos às obras de revitalização da orla do Guaíba, em Porto Alegre.

O mundo vai olhar para o arcabouço legal e ver que a estrutura do governo não é a que ganhou as eleições, é a do governo que perdeu.

MARINA SILVA

Ministra do Meio Ambiente, criticando a retirada de atribuições de sua pasta pelo Congresso.

A questão foi a forma que uma publicidade de medicamentos foi feita, induzindo a população a consumi-los em um momento difícil para o país e sem as advertências necessárias.

SUZETE BRAGAGNOLO

Procuradora do Núcleo de Seguridade Social, Previdência Social e Assistência Social do Ministério Público Federal, uma das responsáveis por ajuizar a ação que condenou defensores do chamado tratamento precoce contra a covid-19.

Todos têm que entender que o Congresso brasileiro conquistou maior protagonismo.

ARTHUR LIRA

Presidente da Câmara, dando recado do governo Lula sobre nova correlação de forças, após votação do marco fiscal.

Tem dias que a gente acorda com notícias parecendo que o mundo acabou. Eu fui ler as notícias hoje, na verdade, tudo parecia normal.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

Presidente da República, minimizando revés do governo no Congresso relacionado a pautas ambientais e de funções de ministérios.

Não foi a primeira vez, nem a segunda, nem a terceira. O racismo é normal na La Liga.

VINICIUS JR

Jogador do Real Madrid e da Seleção Brasileira, após ser alvo de ataques racistas de torcedores do Valência.

Pelos números que vêm sendo apresentados, é muito possível termos preços abaixo de R$ 60 mil.

MÁRCIO LIMA LEITE

Presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), sobre política do governo federal para ter automóveis populares mais baratos.

arte - Cena de Família

Escolhi para esta edição uma obra de 1891, do pintor paulista Almeida Júnior - que seria conhecido como um dos grandes nomes da pintura brasileira no século 19. Na tela Cena de Família (ao lado), da Pinacoteca de São Paulo, o artista retratou o núcleo familiar de um engenheiro chamado Adolfo Augusto Pinto em uma cena cotidiana, ao lado da mulher e dos cinco filhos, em uma elegante sala de estar. Almeida Júnior caiu nas graças da burguesia paulista depois de uma temporada de estudos na Europa, custeada por dom Pedro II.

INFORME ESPECIAL

sábado, 20 de maio de 2023


20/05/2023 - 09h00min
Atualizada em 20/05/2023 - 09h00min

Egressas avaliam como a graduação pode ser um lugar de experimentação

Intercâmbio e projetos em conexão com o mercado podem garantir experiências únicas, segundo as ex-alunas

A diversidade de experiências que uma graduação pode trazer envolve, na maioria das vezes, situações que vão além da estrutura da instituição escolhida. As possibilidades de troca são tão importantes em um currículo quanto um bom laboratório para exercitar na prática a teoria aprendida em sala de aula. Garantir o contato com profissionais que possuam experiência acadêmica e de mercado, viagens de estudo e a relação com diferentes realidades e culturas são pontos a serem levados em consideração nesta etapa da formação profissional.

É buscando aproximar cada vez mais teoria e prática que a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) aposta em experiências além da sala de aula durante a jornada de formação de seus alunos. O currículo de graduação em Administração – Gestão para Inovação e Liderança (GIL) é um exemplo: durante o curso, o aluno pode realizar uma viagem internacional de estudos.

Francesca Dal Ben concluiu o curso em setembro do ano passado e estudou por um semestre na Universidade Autônoma de Barcelona, momento que ela considera como um dos mais desafiadores e maravilhosos de sua graduação.

– Acredito que essa oportunidade de morar em outro lugar, com uma cultura diferente da nossa, é uma das possibilidades mais bacanas que o curso proporciona. Por causa dos desafios como uma estudante estrangeira, pude desenvolver várias habilidades como a resolução de problemas, maior resiliência e inteligência emocional. O poder que um intercâmbio tem em transformar e ensinar sobre a vida é surpreendente. Esses seis meses me possibilitaram construir uma nova visão de mundo e uma nova visão de mim mesma – conta a administradora.

Francesca destaca que as múltiplas propostas encontradas no curso foram importantes para que ela pudesse experimentar diferentes áreas de atuação, além do desenvolvimento da pesquisa científica, de estágios observatórios, de visitas técnicas e do desenvolvimento de projetos sociais. Além dos seis meses na Espanha, ela teve a oportunidade de participar de um workshop sobre empreendedorismo no Peru.

Você pode conferir os mais de 70 cursos de graduação oferecidos pela Unisinos no site da instituição

– Acredito que a estrutura do curso me possibilitou desenvolver várias habilidades e competências. Pude me conectar com várias empresas e empreendedores, conhecer profundamente sobre o mundo da inovação, aprender na prática com professores incríveis e descobrir o mundo da sustentabilidade, no qual atuo como profissional hoje – revela Francesca.

Empreender e estudar

Fabiane Kuhn, egressa da Ciência da Computação da Unisinos, é um exemplo de que uma experiência dentro da graduação pode gerar frutos e relações importantes mesmo após o término do curso. Criadora da Raks Tecnologia Agrícola, startup incubada no Tecnosinos, o Parque Tecnológico de São Leopoldo, a estudante afirma que a criação do empreendimento surgiu dentro de um projeto de pesquisa, quando cursava o Ensino Médio em uma escola técnica. Mas, foi somente durante a graduação que a ideia virou realidade como um produto vencedor do Prêmio Rouser, promovido pela Unisinos.

– Em 2017, eu e meus colegas Guilherme de Oliveira Ramos e Vinicius Muller Silveira abrimos a Raks. Eu fiz toda a minha graduação trabalhando na minha própria empresa, que fica dentro da universidade. Já entrei no curso de Ciência da Computação dentro dessa linha de empreendedorismo – relembra Fabiane.

Por tratar-se de uma empresa tecnológica, o desenvolvimento da Raks aconteceu em paralelo a formação da empresária, ajudando em vários aspectos técnicos e humanos.

– Cursar Ciência da Computação na Unisinos me auxiliou no conhecimento de programação e gestão de projetos para desenvolver nossa plataforma. Também foi muito importante na construção de relações e de contatos. Hoje, temos na nossa equipe uma colega de graduação que trabalha conosco. Essa conexão com profissionais e professores permite que a gente desenvolva outros aspectos pessoais, como a comunicação, algo que no ambiente profissional faz toda a diferença – avalia.

Para quem já pretende iniciar uma graduação ainda em 2023, a Unisinos está com inscrições abertas para o seu processo seletivo. No site da instituição é possível conhecer mais sobre os diversos cursos oferecidos e ainda verificar as possibilidades de financiamento da mensalidade, em que parte dos juros são pagos pela própria universidade.

Fique sabendo de todas as novidades pelo perfil do Instagram da Unisinos 


Atualizada em 19/05/2023 - 13h10min
Leandro Staudt

Sai do ar uma das rádios mais antigas do interior do RS 

Rádio Cultura de Bagé foi inaugurada em 1946. Há um ano, Rádio Cultura já não estava no histórico prédio da Avenida Sete de Setembro, em Bagé

Depois de quase 77 anos, a Rádio Cultura de Bagé saiu do ar na madrugada da última quarta-feira (17). Com problemas financeiros e dificuldades para regularizar a concessão, o empresário Odilo Dal Molin decidiu encerrar as atividades. Ele conta que comprou a emissora há mais de 20 anos, mas nunca conseguiu a transferência no Ministério das Comunicações. 

Dal Molin diz que pagou as indenizações para todos os funcionários, ficando pendente apenas a dívida com o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (ECAD), que cobra direitos autorais de músicas. Agora, o empresário pretende dar baixa na firma.

A Rádio Cultura 1470 AM, prefixo Z.Y.G-4, foi a primeira de Bagé. Em 4 de julho de 1946, iniciou as transmissões na Rainha da Fronteira. De acordo com o professor de jornalismo e pesquisador Luiz Artur Ferraretto, a emissora fez parte do primeiro grupo de comunicação voltado à radiodifusão no Rio Grande do Sul. Atahualpa Dias implantou, a partir de 1933, as rádios Cultura em Pelotas, Rio Grande, Bagé, Santana do Livramento e Jaguarão. 

Pelos microfones da Cultura, "A Pioneira", passaram grandes nome do rádio no interior do Estado. Nos primeiros tempos, o radioteatro estava em destaque da programação. Um programa que fez muito sucesso foi o "Corrente da Solidariedade". Na música gaúcha, um sucesso antigamente era o "Céu e Chão da Querência".

Na terça-feira (16), o radialista Edgar Muza apresentou seu último programa na Rádio Cultura de Bagé, que transmitia no 1460 AM e 107.5 FM. Ele começou a trabalhar na emissora em 1958. Depois de uma pausa entre 1963 e 1969, voltou à emissora para criar o programa "Visão Geral", que completou 54 anos no ar. 

— O fim da Rádio Cultura é como perder um filho - compara Muza. Outro radialista triste com o fechamento é Geraldo Saliba, que completou 35 anos na emissora. Saliba, Muza e outros colegas da Cultura não ficarão fora do ar por muito tempo, já que levarão os programas para uma rádio comunitária da cidade.

Integrante da Rede Gaúcha Sat, a Cultura retransmitia programas da Rádio Gaúcha. Lembro de apresentar duas edições do Correspondente Ipiranga no estúdio da emissora, em Bagé, em 2006. Na maior parte do tempo, a rádio ficou em um prédio da Avenida Sete de Setembro, de onde saiu pela última vez há um ano. Na fachada do imóvel de dois andares, está o nome da Rádio Cultura.  

Sobre a chance de reabrir a Rádio Cultura, Dal Molin disse que um interessado na emissora o procurou depois do anúncio do fechamento. O empresário afirma que encaminhou toda documentação para análise. 

O tempo dirá se a emissora ficará somente na memória dos ouvintes de Bagé.


19/05/2023 - 16h30min

Fabrício Carpinejar

Sombras e pés 

Mães são a nossa sombra, para sempre cuidarmos de onde estacionamos os nossos sonhos. Mães são nossos pés, para sempre olharmos onde estamos pisando. Quando passeávamos de carro com a mãe, mantínhamos a consciência, mesmo crianças, de que nenhum trajeto seria maior do que o tempo de estacionar.

Não que a mãe tivesse algum trauma com balizas ou dirigisse mal, pelo contrário, ela dirige com prudência. E continua dirigindo até hoje, com 83 anos (84 no próximo dia 27). Renovou a carteira de habilitação pela enésima vez.

O dilema na época é que ela não aceitava qualquer vaga, precisava encontrar uma sombra. Sua obsessão se resumia a achar um cantinho debaixo das árvores. Ela não se preocupava apenas com o espaço livre entre os veículos, mas com o teto de galhos que proporcionaria refrigério para que não sofrêssemos com o abafamento depois.

Não havia direção hidráulica, mas um guidão impossível de se segurar com a exposição inclemente ao sol. Tornava-se ferro em brasa. Já o ar-condicionado se fazia presente apenas em automóveis de luxo.

Dávamos voltas e voltas no quarteirão, como se estivéssemos em um carrossel de cavalinhos, em busca da sagrada penumbra. A mãe poderia parar longe do nosso ponto de encontro sob o pretexto da sombra. Caminhávamos mais do carro para o nosso compromisso do que se partíssemos a pé desde o início da jornada.

Mas esquecíamos o cansaço da expedição ao testemunharmos a felicidade materna e seus gritos de comemoração. Não queríamos estragar a sua alegria com as nossas reclamações e protestos. Quando conseguia o seu intento, ela passava a manhã inteira se elogiando e agradecendo a Deus.

— Valeu o esforço. Localizei uma sombra maravilhosa, meus filhos. Uma sombra perfeita. Os ipês, os jacarandás, os chorões, as paineiras foram nossos flanelinhas por muito tempo. Não sei se recebiam gorjetas. Fora de casa, ela teimava com a sombra. Dentro do lar, sua preocupação era outra. O que eu mais ouvia dela era “não fique de pés descalços”.

Eu acordava e andava pela cozinha sem nada nos pés no azulejo frio. Fora de casa, ela teimava com a sombra. Dentro do lar, sua preocupação era outra. O que eu mais ouvia dela era “não fique de pés descalços”.

A mãe nem se preocupava que eu me cortasse ou que minha sola acabasse imunda na hora de colocar o tênis e ir para a escola. Sua observação se referia ao choque de temperatura após a cama quentinha. Ela insistia que eu iria gripar.

Hoje não largo o chinelo. Dificilmente estou sem ele. Para qualquer percurso. Saio com ele desde a cama. Conservo, inclusive, a marca branca da tira entre os dedos.

Minha esposa, diferentemente, permanece acordando de pés descalços. Perguntei para ela o motivo de nunca atender o meu pedido de cuidado e de proteção. Ela disse:— De pés descalços, eu ainda tenho a sensação de que a minha mãe está viva e vai aparecer chamando a minha atenção.

Eu me calei. E entendi: existem papéis, cadeiras em nossa vida que nunca mais serão ocupadas. Mães são a nossa sombra, para sempre cuidarmos de onde estacionamos os nossos sonhos. Mães são nossos pés, para sempre olharmos onde estamos pisando.

Mães são o chão da nossa saudade.


20 DE MAIO DE 2023
EVENTO

CINCO HORAS ILUMINADAS DE CULTURA E ENCONTROS

7ª Noite dos Museus leva mais de cem atrações a 16 espaços de Porto Alegre das 19h à meia-noite do sábado

Depois de aquecer uma noite fria em 2022 com o calor humano de 180 mil pessoas, a Noite dos Museus volta no sábado para a sua sétima edição, oferecendo uma programação com 16 instituições participantes, além de mais de uma centena de atrações culturais. O evento é gratuito e tem como objetivo democratizar a arte, prometendo uma grande festa entre as 19h e a meia-noite pelas ruas de Porto Alegre.

Neste ano, retornam 13 locais que já fizeram parte do projeto: o Centro Histórico-Cultural Santa Casa, a Cinemateca Capitólio, o Espaço Força e Luz, a Galeria de Arte do Dmae, o Instituto Goethe, o Museu da Brigada Militar, o Museu da UFRGS, o Museu de Arte do Paço Municipal de Porto Alegre, o Museu de Porto Alegre Joaquim Felizardo, o Museu Militar do Comando Militar do Sul, o Palácio Piratini, a Pinacoteca Ruben Berta e o Planetário da UFRGS.

Somam-se outras três instituições que fazem as suas estreias na Noite dos Museus: o Theatro São Pedro, o Centro Cultural da UFRGS e a Fundação Ecarta.

Estes espaços serão os protagonistas do evento, após a saída de cinco locais ligados à Secretaria de Estado da Cultura (Sedac) - entre eles, o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs) e a Casa de Cultura Mario Quintana, que reuniram grande público nas edições anteriores.

- A saída dos espaços ligados à Sedac não diminui o evento. A cultura não é restrita, não é ditada por cinco espaços. Ela é muito mais do que isso. E a gente está muito feliz porque os espaços que estão participando entendem a proposta perfeitamente, que é democratizar a cultura. O movimento de descentralização é ótimo, pois vai valorizar outras instituições maravilhosas que temos na cidade - afirma Rodrigo Nascimento, CEO da Rompecabezas, agência idealizadora da Noite dos Museus.

Com a proposta de facilitar o acesso do público, diminuindo as longas filas, que eram alvo de reclamações nas edições anteriores, a organização do evento está trabalhando neste ano com agendamentos prévios. A Noite dos Museus oferece opções de visitas livres e guiadas, com interpretação em Libras - esta última categoria, porém, já está esgotada. Os ingressos podem ser resgatados pelo site sympla.com.br. A exceção é o Palácio Piratini, que possui seu próprio sistema de ingresso no local.

Reforço

Tanto nas ruas quanto nas instituições, o público encontrará artistas que fazem parte da cena cultural da Capital, bem como atrações vindas de outras cidades do Rio Grande do Sul, sessões de cinema, trechos de espetáculos teatrais e de dança, roda de slam e parcerias inéditas entre músicos. Serão oferecidos shows de variados estilos musicais, passando pelo jazz, pelo blues, pela música nativista e pelo rock. Haverá ainda programações infantis e um show surpresa de uma atração internacional.

O público poderá conferir a inauguração de uma fotogaleria em homenagem a Porto Alegre, que ficará permanentemente nos Jardins do Dmae. A exposição foi concebida coletivamente através de um edital público lançado pela Noite dos Museus e conta com 30 trabalhos de fotógrafos locais que registraram pessoas e paisagens urbanas da Capital.

O evento, de acordo com os organizadores, terá reforço na segurança, com 130 soldados da Brigada Militar, 150 agentes de segurança privada, além de efetivo da Guarda Municipal no entorno dos espaços participantes e dos palcos no Centro. Para a limpeza, haverá empresas especializadas contratadas e a participação de agentes do Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) - no total, serão disponibilizados 150 banheiros químicos. Para auxiliar o público, foram ainda contratados 50 monitores. Estas melhorias buscam sanar os pontos negativos das edições passadas do evento.

Nascimento acredita que todos estes fatores somados minimizem a ausência das instituições da Sedac e colaborem para cinco horas de celebração à cultura:

- Vamos ver se o tempo também nos ajuda. Aparentemente, não vai chover e vamos ter um clima ameno, ao contrário do ano passado, que foi muito frio.

O organizador ainda aponta que o público está sendo conscientizado para colaborar em relação ao descarte de lixo e na preservação das instituições e das obras.

- As pessoas são coadjuvantes do evento. Então, a gente está justamente convidando elas a colaborar. Pretendemos, inclusive, atender o público espontâneo (que não reservou entradas antecipadamente), que é a maioria, orientando a resgatar os ingressos nos espaços. É um trabalho em conjunto. E a nossa expectativa é muito positiva, porque a gente vê que as pessoas estão felizes e engajadas nas redes sociais - aponta Nascimento.

Segundo ele, o evento deste ano não deve contar com a mesma efervescência do ano passado, em que as pessoas estavam ansiosas para sair de casa, depois de dois anos de pandemia. Mesmo assim, ele aposta em uma noite memorável para a cultura da Capital. E, para o ano que vem, o organizador do evento promete uma reformulação do projeto, além de destacar que está "de coração aberto" para voltar a firmar parceria com a Sedac.

Consulte a programação completa da Noite dos Museus pelo link gzh.rs/museus23_prog.

CARLOS REDEL


Mais do que um sonho

Destaque em duas das principais novelas atuais da Globo, Barbara Reis revela como trilha seu caminho em direção ao sucesso e fala sobre planos de casamento e maternidade

Há 10 anos, o nome Barbara Reis, provavelmente, não diria muita coisa a quem é fã de uma boa novela. Hoje, no entanto, quem ligar a TV no horário nobre da Globo ou buscar uma indicação de título campeão de audiência no streaming, vai deparar com a presença da atriz.

- Estou em um momento muito especial, único. É como se a vida tivesse organizado as coisas para, neste momento, estar com tudo, 100% entregue e dedicada. E muito feliz - comenta ela, em conversa por telefone, na pausa para o almoço de um dia frenético de gravações.

Aos 33 anos, a carioca que não nasceu no Méyer, mas ostenta uma bagagem de criação que atribui ao subúrbio do Rio de Janeiro, vive realmente uma fase de vibrações em alta. Ela acaba de estrear em Terra e Paixão, na pele de Aline, a protagonista, ao lado de grandes nomes da dramaturgia, como Tony Ramos, Débora Falabella e Leona Cavalli. Ao mesmo tempo, preenche boa parte das tramas de Todas as Flores, no Globoplay, dando vida a Débora, que cresceu a ponto de ser considerada personagem-chave na novela.

Sobre esta dualidade, entre uma batalhadora que encara desafios assustadores para defender o que acredita e a malvadona que entretém, a artista revela a qual das duas empresta mais de sua personalidade.

- Sempre correlaciono a Barbara com a Aline. A gente é muito parecida. Costumo dizer que o personagem vai atrás e encontra seu intérprete. Então, tenho muito dela e ela tem muito de mim - pontua a atriz.

Antes de consolidar seu lugar no time titular de elencos dos mais relevantes do Brasil, no entanto, a artista chegou a se aventurar por outros caminhos. Sua vida profissional começou na pet shop da família, em que fazia a tosa de animais, e inclui duas faculdades interrompidas - afinal, seu plano A funcionou, abrindo um alfabeto inteiro de oportunidades, desde 2016, quando apareceu pela primeira vez em novelas, com um papel secundário na primeira fase de Velho Chico, da Globo.

Novos capítulos também têm sido escritos em sua vida pessoal. Em um relacionamento de dois anos com o ator Raphael Najan, 39, tornou-se oficialmente noiva no dia 25 fevereiro, com direito a um pedido nada tradicional. O casamento, contudo, ainda não está no horizonte, embora façam planos com muito romance envolvido. Na entrevista a seguir, confira mais detalhes sobre essas e outras histórias de Barbara.

Como é se ver na tela como vilã e heroína simultaneamente?

Aline e Débora são completamente opostas em relação aos seus ideais, porém, igualmente fortes. As duas lutam por sobrevivência, sabe. O ideal delas é permanecer. Elas resistem para sobreviver e essa é a ideia que faz das duas também parecidas. Estar no streaming com um trabalho - que logo vai para a TV aberta também - ao mesmo tempo em que dou vida à Aline no horário das 21h, carro-chefe da emissora, é algo que nem em meus melhores sonhos imaginaria. Ser protagonista de dois produtos seguidos em horários um depois do outro: em um, protagonista, a principal da história, e em outro, vilã - porque, as pessoas vêm dizendo que ela realmente é a vilã de Todas as Flores - para mim, artisticamente, é um momento muito rico.

Tu chegaste a considerar outras duas profissões, certo?

Sim, há duas faculdades incompletas. Na verdade, elas entraram na minha vida em uma espécie de plano B, caso a carreira não caminhasse, pois me formei atriz primeiro. E fui tentar fazer Jornalismo para ter outra forma de me manter, mas a vida artística acabava sempre me puxando. Aí, abandonei e fui gravar, fazer minhas coisas. Só que, naqueles períodos de "entressafra", sempre vinha o medo, a angústia, o "será que vão me chamar para fazer outros trabalhos?".

Não quis ficar esperando, então, me matriculei na faculdade de Produção Audiovisual, que, na verdade, nada mais é do que algo que envolve meu trabalho, só que atrás das câmeras. E fui fazer. Até que a vida artística me convocou novamente e não consegui fazer as duas coisas juntas. Abandonei a faculdade para poder estar 100% dedicada. Naquele momento, era Velho Chico. Fiz essa novela e fui fazendo outra e outra e mais outra e não consegui voltar.

Tu costumas dizer que não temes críticas. De onde vem tua segurança?

Na verdade, parto do princípio de que ninguém sabe mais da minha personagem do que eu e quem está envolvido na construção da novela. E Walcyr Carrasco, que escreveu, é claro. Crio do zero, sei como isso acontece. Quando ouço críticas que não têm fundamento, de pessoas que não sabem de onde partiu aquela construção, penso que não tenho que me importar. É um trabalho tão particular e profundo, que ouvir coisas não construtivas é algo que descarto. Quando ouço algo construtivo, com certeza, vou agregar e tentar implementar na construção. Fora isso, não ligo.

Como é a tua relação com o público na internet?

Uso as redes sociais e gosto mais do Twitter, porque é um caminho mais rápido de perguntas e respostas. Interajo bastante, mas também com certo limite. Gosto muito de expor meus pensamentos com a proposta de que participem para que eu possa falar de volta. É uma galera muito questionadora e fiel, ao mesmo tempo. Gosto de usar como um termômetro essa rede social.

Tua bio no Instagram diz que és uma "atriz do Méyer". Qual o papel desse lugar na tua história?

A gente diz que "quem é do Méyer não bobéyer" (risos). É a grande especialidade de quem vem de lá. Me considero cria, porque é onde moro desde os seis anos até hoje. Faz parte da minha formação como ser humano, das minhas vivências, das amizades, de quem sou. É um lugar muito especial, pelo qual tenho muito respeito. Coloco na bio mesmo, para não esquecer de onde vim. Para abrir e pensar: "Olha de onde você veio. São suas raízes, que você não pode esquecer". É um lugar na Zona Norte, de uma mulher que teve as bases da sua educação focadas na honestidade, no pé no chão. É sobre isso.

Como te definirias hoje?

A Barbara é tranquila, relaxada, sempre tem uma palavra amiga, mas também é muito da escuta. Às vezes, recebo chacoalhões de quem quer debater e digo que a gente precisa escutar. Sou muito discreta e é difícil me abrir para novas interferências na vida. Meu ascendente é capricórnio, então, sou desconfiada e preciso ser conquistada nesse lugar de confiança. Para me abrir, tenho que sentir que estou em ambiente seguro.

E concordas que essa tendência à escuta leva a um maior acolhimento?

Confesso que tenho a característica de ser maternal com meus amigos. A partir do momento em que me abro, tento, de alguma forma, sempre cuidar. E, além disso, acabo tendo percepções muito maduras de determinadas situações, mesmo com o pouco de experiência que tenho, aos 33 anos. São 13 de vida adulta... 15, 20, talvez. É pouco tempo comparado ao de uma pessoa de 50, por exemplo.

Pensas em ser mãe?

Com certeza, não é o momento. Minha única filha agora é a Aline. Mas, claro, um dia, se tudo caminhar bem, sim. Sigo muito o fluxo da vida, mas desejo, um dia. E também, se não for, tudo bem. A gente vai preenchendo a vida com coisas que nos fazem felizes. Por enquanto, não tenho planos.

E o casamento? Vem logo?

O primeiro passo é estar noiva, né (risos)? Até tem gente que pula essa parte. Tem quem questione se ela é tão importante assim. Sou uma mulher romântica e as tradições valem muito para mim, mas não está nem perto da hora de pensar nessa possibilidade de casamento, festa. A gente planeja, sim, mas para esse ano, não. Nem para o ano que vem. Ainda nem conversamos sobre isso.

Tu te consideras uma mulher tradicional, nesse sentido?

Não acho que os rituais tenham que ser como sempre foram. Cada um tem que ter o seu. Meu pedido de noivado não foi com jantar, nos moldes tradicionais, joelho no chão. Nada disso. Na verdade, foi uma coisa muito natural, mas rolou o pedir, trocar aliança e coisa e tal.

Como foi?

Estava voltando de uma viagem ao Mato Grosso do Sul, de gravação da novela, e ele foi me buscar no aeroporto. Lá mesmo, de uma forma até destrambelhada, ele empurrando carrinho de mala, tentando pegar a caixinha dentro do bolso (...). Abriu e foi falando umas coisas que eu não estava entendendo. Aí, ele perguntou: "Você quer dividir a vida comigo?". Foi dessa forma surpreendente, que acho que é o mais importante. Às vezes, a pessoa fica repetindo "quero casar" e o outro acaba ficando nesse lugar de "ai, meu Deus, preciso fazer o pedido". Foi uma forma bem natural. O mais legal é a surpresa.

Tens alguma preocupação com a estética no dia a dia?

Na verdade, penso no autocuidado. Hoje, não vou dizer que no passado não me preocupava em relação ao corpo, mas a gente não deve tentar se encaixar em algum padrão. Me preocupo com uma vida de qualidade, pensando na terceira idade, no que posso fazer hoje para envelhecer com saúde e que não precise de uma ajuda para coisas básicas, sabe. Então, cuido de mim na alimentação, indo para a academia, por mais que não goste, porque sei que isso vai me dar qualidade lá na frente.

Uma coisa que tem me deixado feliz é que, quando a gente cuida da saúde, faz atividade física, se alimenta bem, não tem como o resultado não refletir esteticamente. Porque não acontece do dia para a noite. Coisas que vêm do dia para a noite não são legais. Se você não fica naquela ansiedade pelo resultado, quando menos espera, ele acontece. Me vejo numa fase feliz fisicamente e é tudo fruto dessa nova forma de enxergar. 

MARY SILVA 


20 DE MAIO DE 2023
PERFIL

A VOZ DO TAMANHODO MUNDO

Inesperadamente, um canto doce e harmonioso se prolifera pelo Jardim Lutzenberger na Casa de Cultura Mario Quintana. É uma tarde nublada, e os visitantes no local são surpreendidos com uma performance suave e ao mesmo tempo intensa. Eles silenciam e se voltam absortos para a voz. Que voz. Ao interpretar uma música em uma sessão de fotos para ZH, Luiza Hellena parou o tempo por ali.

O tempo, aliás, correu bastante para que a cantora e compositora finalmente gravasse seu disco de estreia. Com 78 anos, ela prepara o primeiro álbum por meio do edital Natura Musical 2022. O projeto intitulado Dona Luiza Hellena e a Velha Guarda da Praiana - Uma Voz, Um Encontro prevê não só um disco, mas também a gravação de um clipe e um show presencial com transmissão online.

Antes disso, uma amostra: a artista protagoniza o espetáculo Luiza Hellena, Uma Voz, no próximo sábado, dia 27, na Fundação Ecarta, na Capital. A entrada é franca, e também haverá transmissão ao vivo pelo canal do YouTube da instituição. Acompanhada de Silfarnei Alves (violão) e Heleno Goulart Rodrigues (percussão), ela cantará sambas, serestas e canções da MPB, além de seu trabalho autoral.

Luiza é uma das vozes negras da noite de Porto Alegre que atravessaram décadas cantando pelos bares da cidade, além de ser lembrada por sua atuação no Sindicato dos Músicos do RS (Sindimus-RS) pelos profissionais da área, mas seu potencial ficou invisibilizado. Sempre às margens.

Responsável pela produção do projeto contemplado pela Natura, além de atuar na produção do disco, o músico e pesquisador Paulinho Parada abordou a história de Luiza em sua dissertação de mestrado intitulada "Nós da noite: memória, esquecimento e atividade musical profissional em Porto Alegre", da pós-graduação em Música da UFRGS. Em 2021, ele dirigiu o curta documental Luiza Hellena - Uma Voz (disponível no YouTube), que venceu o Prêmio Açorianos de Música 2022 na categoria clipe do ano. Segundo o realizador, a produção tinha como finalidade refletir sobre a invisibilidade da mulher negra.

- Vi a força que ela tinha em sua história - atesta Parada sobre a ideia de trabalhar com a cantora.

Natural de São Lourenço do Sul, no sul do Estado, Luiza migrou ainda pequena para Pelotas. A artista crê que tenha nascido com o dom para a música, algo que a acompanhou desde o berço. Ela começou a cantar para valer aos 13 anos, tendo participado, naquela época, de um concurso da Rádio Cultura. Ficou em primeiro lugar, passando a integrar o casting de cantores da emissora pelotense. Porém, a atividade artística não era bem aceita pela família.

- Era penoso para mim porque minha mãe não aceitava - relata. - Eu tinha de me comportar muito bem para poder ir semanalmente cantar, aos domingos, em um programa de auditório.

Luiza salienta que, naqueles tempos, a menina que cantasse era "mal falada". Recorda que levava "surras homéricas" da família por cantar. Mesmo assim, tudo o que mais queria era ser cantora. E ela não via nada de errado nisso.

Aos 16 anos, Luiza saiu de casa rumo à Porto Alegre para realizar seu sonho. Tendo vivido na Restinga e na Medianeira, estabeleceu-se na Vila Farrapos há 35 anos. Porém, ao chegar à cidade ainda nos anos 1960, quebrou a cara:

- Não sabia nada da vida. Descobri que cantar não era glamour, era luta. Eu não conhecia ninguém, ninguém me conhecia, era uma menina. Passei muito trabalho.

Foi aos 16 que ela teve o primeiro filho, Cláudio Luís. Foi mãe solteira. O segundo de seus dois filhos, Otone, viria três anos depois. Aos 19, ela se casou e deixou os palcos. O marido a proibiu de cantar.

- Ele tinha o mesmo pensamento arcaico, de que mulher cantora era mulher da vida. Preconceito enorme - queixa-se. - Fiquei sem cantar enquanto estive casada. Era um período dificílimo, quando tinha oportunidade, lá estava eu gorjeando, e ele ficava apavorado.

Poucos anos depois, quando Luiza já tinha 27, o matrimônio chegou ao fim. Então, ela se jogou na música. Passou a cantar na noite no início da década de 1970. Com um repertório de MPB, samba, samba-canção e o que ela define como "música de fossa" ("muito de Lupicínio Rodrigues"), a cantora se apresentou ao longo do tempo em bares e casas noturnas como Clube da Saudade, Sandália de Prata e Encouraçado. Também viajava para se apresentar no Interior, em outros Estados e até no Exterior - o que inclui passagens por Argentina, Uruguai e México. Ainda, marcava presença em programas de rádios.

- Queria voltar naquele tempo. Me sentia valorizada - suspira. - Depois de tudo, sigo achando que a música me eleva. Sempre digo que cantar é orar duas vezes. Cantando a gente viaja, se realiza, vive amores. É uma utopia que vivemos.

Luiza também cantava em bailes de Carnaval, chegando a ser intérprete de escola de samba em São Leopoldo. Em Porto Alegre, adotou a Praiana como escola do coração por ter pelotenses entre os fundadores.

Com tanta rodagem, resolveu entrar no sindicato dos músicos em 1993, chegando a integrar quadros administrativos da organização. Define-se como "extremamente radical" quanto ao respeito ao músico.

- Sempre fui de defender a classe, lutar pelos nossos direitos, sou meio rebelde (risos). E sou meio estourada. Me reconheço como difícil.

Para o antigo companheiro de palco Carlinhos Santos, 67 anos, é o contrário. O violonista garante que o bom humor dela é a primeira característica que chama atenção de quem a conhece. Ele também a define como obstinada por sua atuação no Sindimus:

- A Luiza é a própria figura quando se fala em sindicato dos músicos, sempre dedicada e maravilhosa. Fez de tudo para manter o sindicato atuante e fortalecido, mesmo nos momentos de dificuldades financeiras. Isso os músicos devem a ela.

Quando a noite não rendia, Luiza se virava. Diz que a música não é um conto de fadas. Então, foi cabeleireira, costureira, datilógrafa, recepcionista, telefonista e doméstica. Aprendeu de tudo um pouco.

Com previsão de lançamento para o segundo semestre, o disco de Luiza está em pré-produção. O álbum terá participações da Velha Guarda da Praiana - o que inclui o violonista Silfarnei Alves. Além de diretor musical, produtor e tocar violão 7 cordas, Paulinho Parada também é o responsável pelos arranjos, junto a Edu Neves (Zeca Pagodinho e Elza Soares). Segundo Parada, o cavaco fica com Fábio Azevedo Cabelinho, a percussão, de Manoel Macedo e Maicon Paquetá, além dos percussionistas da noite Bebinho e Maciel. Com foco no samba e no samba-canção, o projeto reunirá composições emblemáticas que fizeram parte da história da Praiana - como As Alegrias da Vida e Janaína -, mas também da trajetória de Luiza.

Ela também deve gravar Cantando a Vida, de Paulinho Parada; Minha Dor, de Nêgo Izolino; e Iemanjá, de Durque Costa Cigano. Mas a verve compositora de Luiza também será evidenciada no álbum. Ela lembra que começou a criar suas próprias canções nos anos 1980, geralmente motivada por desilusões amorosas.

- Componho mais quando levo uma guampa. Aí é meu chão - diverte-se. - Sou taurina, portanto sou extremamente passional.

Em Aviso Prévio, por exemplo, verbaliza sobre um parceiro ausente ("Eu já cansei de viver com todo seu descaso/ Você só vem em casa às vezes por acaso/ Então nosso caso não tem solução") e dá um "grito de independência" ("Se eu me arrepender amanhã, paciência/ Hoje sem brigas eu quero mudar").

- Tive um relacionamento que durou 19 anos. Como gosto de ser enganada! (Risos.) Uma hora eu cansei e dei o xeque-mate. Dei um aviso prévio para ele - brinca.

Já em Justiça, ela declara: "Cansei das injustiças que você me fez/ Mas não farei justiça com as minhas próprias mãos/ Um dia a justiça divina irá julgar você/ Portanto, agora, não adianta me pedir perdão". Ao lembrar sobre o episódio que inspirou a canção, Luiza reflete que os homens "culpam as mulheres das coisas que eles fazem".

- Quando reagimos, a errada é sempre a gente - aponta. - Quando o encurralei, ele disse que estava com intenção de reverter nossa situação. Respondi que não, "cansei das injustiças que você me fez". Tive problema de saúde, ele não ia em casa. Assim nasceu Justiça.

Como compositora, Luiza segue o legado de Lupicínio Rodrigues, versando sobre desamores, porém na perspectiva feminina. Umas das faixas previstas para o disco homenageia o compositor da Ilhota: Lupi - Sua Arte, Sua Glória. Há também um blues intitulado Longa Espera ("Que espera longa/ Mas o tempo não conta/ Peço passagem/ Ei de chegar, ei de chegar"), outro petardo da dor de cotovelo.

- Cantar o amor é muito fácil. Agora, ao cantar a tristeza, tu põe mais a alma, aí que sai melhor - avalia. - Às vezes a gente está cantando uma música triste de doer, daí você se dá conta, bah, mas o cara me fez isso. "Bem que eu podia chorar, mas não, tu não pode chorar, vou botar na voz." Dá tudo de ti. Tu quer mostrar que foi apaixonada. Isso enriquece a arte.

Presente no disco e no show da Ecarta, Silfarnei tem 66 anos, dos quais calcula conhecer a Luiza há quase 40. Os dois se apresentam juntos esporadicamente. Para o violonista, a cantora tem bom gosto ao escolher o repertório, que costuma permear nomes como Elis Regina, Alcione e Lupicínio. Estima, em especial, a interpretação que ela dá a Sonhos de um Palhaço, sucesso na voz de Antônio Marcos.

- Ela é uma das últimas grandes cantoras - diz Silfarnei. - Não que a gente não tenha boas cantoras agora, mas aquele jeito dela de cantar, aquela elegância, aquele respeito à música, deixa marcas.

A designer de moda Suelci Silva conheceu Luiza por meio da Praiana. Com 64 anos e integrando da Velha Guarda, ela é autora de temas enredos das escolas de samba. Suelci frisa que a companheira de escola leva as pessoas a viajar com seu o timbre e a doçura da voz.

- Isso é o diferencial da Luiza. Há muitos cantores, mas os que te fazem viajar são raros. A leveza dela te inebria, e tu prestas atenção naquela figura mionzinha, pequena, mas com um vozeirão do tamanho do mundo - descreve Suelci.

O músico, compositor e produtor cultural Henrique Mann observa que a artista tem boa presença de palco e segurança da execução. Ele assegura que Luiza foi uma das melhores cantoras com quem trabalhou em estúdio - na coletânea Nós da Noite, em que canta Justiça. Destaca a afinação da artista:

- O tempo passa e ela continua com a voz forte, mesmo tendo problemas de saúde, enfrentando muitas situações adversas, sua voz adapta-se e não perde a afinação. Acho que isso tem muitas explicações, como o fato de ela sentir-se feliz quando canta, a experiência de cantar por muitos anos e nas circunstâncias mais variadas, que tornou-a muito experiente. Ela sabe escolher os caminhos mais seguros.

Prestes a chegar aos 80, Luiza lida com diabetes e insuficiência renal. Sofreu um infarto em 2021 e, a parti daí, passou a fazer hemodiálise. A cantora, então, vê o disco como um projeto de vida que chega bem a tempo.

- Nunca deixei meu sonho de lado, nunca morreu, nunca deixei de acreditar. Veio agora um prêmio. Fico emocionada. É ainda melhor receber esta homenagem agora, porque ainda estou viva e vou colher os frutos - anima-se.

Para Suelci, Luiza sempre foi uma pessoa à frente de seu tempo. - Abandonar o sonho ao casar, ter filhos e depois voltar para o sonho... Ela é uma pessoa que se reinventa a cada instante - define.

Parada relata que Luiza crê que a história dela é uma história comum. De uma mulher que casou cedo, constituiu família, que foi impedida de cantar, era surrada por ser cantora de rádio - algo que ela entende ser só mais uma história corriqueira. Mas, para o produtor, não se trata apenas disso:

- Ela é uma voz que representa milhares de vozes invisibilizadas. Trata-se de uma representatividade.

Depois que Dona Luiza interpretou As Alegrias da Vida, samba-enredo da Praiana no Carnaval de 1980, no Jardim Lutzenberger, ela foi aplaudida pelos visitantes ali presentes.Ninguém a conhecia. Ela parou o tempo por ali e o devolveu. 

WILLIAM MANSQUE

20 DE MAIO DE 2023
DRAUZIO VARELLA

VOCÊ, EUE O ACASO

Somos mamíferos. Pertencemos a uma subclasse dos vertebrados com mais de 6 mil espécies, entre as quais morcegos, baleias e girafas. O que caracteriza animais tão diversificados capazes de viver na terra, no ar e nas águas é a amamentação e a presença da placenta, estrutura que lhes permite manter os filhotes dentro do útero durante meses, para que se desenvolvam em segurança.

No último fim de semana, li um artigo que o paleontólogo Steve Brusatte, professor da Universidade de Edimburgo, publicou na revista Scientific American. Nele, o autor traça o caminho seguido pelos ancestrais dos mamíferos até dar origem aos seres humanos.

Você, prezado leitor, e você também, caríssima leitora, com paciência para ler esta coluna, verá que chegamos até aqui por uma sucessão infindável de acontecimentos fortuitos que se acumularam no decorrer de milhões de anos. E que a vida porventura existente em outro planeta, teria que sofrer os mesmos revezes para gerar seres com os quais pudéssemos nos entender.

Anos atrás, a ciência acreditava que os mamíferos só teriam surgido depois da extinção dos dinossauros. A paleontologia moderna, no entanto, revelou que os mamíferos tiveram origem concomitante com eles no período Jurássico, cerca de 225 milhões de anos atrás, época em que os cinco continentes ainda estavam ligados por terra, formando a Pangeia.

Nesse tempo, a Terra começava a se recuperar da maior extinção em massa de sua história, provocada pela erupção de grandes vulcões na Sibéria, que derramaram lava e gás carbônico na atmosfera, durante milhões de anos. A poluição e o aquecimento global extinguiram perto de 95% das espécies existentes.

Quando os vulcões se calaram, os animais remanescentes se apressaram em ocupar o vácuo ecológico deixado. Entre eles estavam os ancestrais dos dinossauros e dos mamíferos.

Nos 160 milhões de anos seguintes, dinossauros e mamíferos adotaram estratégias opostas. A seleção natural privilegiou o aumento de tamanho dos dinossauros: quanto mais fortes, maior a probabilidade de sobreviver. Nos mamíferos, ao contrário, foram selecionados os de pequeno porte, roedores noturnos em sua maioria. Tem lógica, não? Fora das tocas, que chance teria um animal do tamanho de um boi com aqueles mastodontes na vizinhança?

Entre 201 milhões e 66 milhões de anos, nos períodos Jurássico e Cretáceo, os dinossauros e os mamíferos se diversificaram. Eles, cada vez maiores, enquanto nossos ancestrais, que se alimentavam de frutas, tubérculos e flores, não passavam do tamanho de um coelho. No decorrer dos 79 milhões de anos de duração do Cretáceo, a diversificação dos mamíferos se acentuou. Apareceram os primeiros ancestrais dos primatas.

Um belo dia do Cretáceo, há 66 milhões de anos, quiseram as leis da Física que um asteroide de 9 km de extensão entrasse em rota de colisão com nosso pobre planeta, entretido na translação ao redor do sol, sem causar mal a ninguém. O choque aconteceu na península de Yucatán, no México. Equivalente a mais de 1 bilhão de bombas atômicas, o impacto monumental abriu uma cratera de mais de 16 km de profundidade e 160 km de largura.

Tsunamis, erupções vulcânicas, incêndios florestais e terremotos devastaram o planeta. As nuvens de poluentes escureceram os céus durante anos, as plantas perderam a capacidade de fazer fotossíntese e de alimentar os animais herbívoros, bem como os carnívoros que se alimentavam deles.

Com exceção de alguns pássaros, os dinossauros foram varridos da face da Terra. Azar deles, sorte nossa. Se a rota do asteroide desviasse um milésimo de grau, ele passaria a milhares de quilômetros do nosso planeta que, aliás, não seria nosso até hoje, mas daqueles brutamontes.

No Paleoceno, período que sucedeu o Cretáceo, ocorreram várias extinções de espécies de mamíferos. É possível que tenham sobrevivido apenas 7%; entre eles, os que dariam origem à linhagem dos primatas modernos. Durante milhões de anos, eles seriam submetidos à implacável seleção natural que eliminaria os menos aptos, até surgirem os nossos parentes mais próximos: orangotangos, gorilas, chimpanzés e bonobos; e nós mesmos.

Os seres humanos ainda enfrentariam sucessivos processos de seleção antes de chegar ao Homo sapiens, espécie que por acaso daria origem a você e eu.

DRAUZIO VARELLA

20 DE MAIO DE 2023
ACOLHIMENTO

Capital organiza a Operação Inverno

Ações terão início no dia 1º de junho, com previsão de ampliação do número de vagas à população adulta em situação de rua

A Operação Inverno 2023, promovida anualmente pela prefeitura de Porto Alegre, terá início no dia 1º de junho e duração total de três meses. A informação foi divulgada pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social (SMDS) na quinta-feira. A Capital executa o Procedimento Operacional Padrão (POP) - Operação Inverno em períodos de baixas temperaturas, em ações integradas com diferentes secretarias.

Uma delas diz respeito ao período liderado pela Fundação de Assistência Social e Cidadania (Fasc), no qual há ampliação de vagas no sistema de proteção para a população adulta em situação de rua. Neste ano, 23 espaços extras serão abertos em albergues e abrigos da cidade.

Atualmente, Porto Alegre conta com 950 vagas para pessoas nessa condição, entre albergues, abrigos e pousadas. Na Operação Inverno, as equipes seguem um protocolo de ações composto por duas fases: na primeira, ocorre a ampliação de 13 vagas no Abrigo Bom Jesus e de 10 vagas no Albergue Dias da Cruz. Haverá ainda espaços de retaguarda, com atendimentos nos abrigos Marlene, Casa Lilás, Abrigo de Famílias, dois albergues (Acolher I e II) e pousadas. Os órgãos ainda estudam ampliar o número de vagas nos próximos dias.

Alternativa

A segunda fase é acionada quando a temperatura chega aos 5ºC. Neste caso, são disponibilizadas vagas em ginásios como alternativa ao suporte oferecido pela rede de acolhimento. Conforme o secretário municipal de Desenvolvimento Social, Léo Voigt, o Ginásio do Departamento Municipal de Habitação (Demhab), no bairro Santana, está sendo preparado para utilização nas noites de frio intenso, quando a população aceita mais o acolhimento, e caso o número de vagas seja insuficiente.

- O problema é a falta de aceitação do acolhimento. Quando a temperatura está muito baixa, uma parte da população acaba aceitando a oferta, e aí podemos acolher no ginásio na medida em que o sistema de vagas dos albergues e abrigos estiver esgotando - diz.

Em 2023, o valor investido em toda a operação será de R$ 10 milhões, conforme o prefeito Sebastião Melo afirmou em entrevista à Rádio Gaúcha na quinta-feira. A SMDS está segura de que conseguirá alcançar uma cobertura suficiente de acolhimento.

- É pouco provável que tenhamos pessoas que aceitem ofertas sem acessá-las - avalia o secretário.

Além disso, a campanha do agasalho, que ocorre ao longo de todo o ano, será intensificada. Neste ano, a iniciativa está direcionada a captar alimentos e roupas novas, de modo a entregar os melhores suprimentos possíveis à população necessitada. O secretário lembra ainda que a oportunidade é de solidariedade, e não de descarte.

FERNANDA POLO

sábado, 13 de maio de 2023


12/05/2023 - 09h49min
Martha Medeiros

Mãe nunca larga de mão

Venho há alguns anos tentando me equilibrar entre ser uma desestressada e uma madre superiora

Nenhuma pesquisa científica comprova, é achismo meu: mães são mais controladoras que os pais, mais vigilantes que os pais. Resultado: os pais viram os fofos da casa e as mães, as megeras – ainda que megeras essenciais. O problema é que ser essencial pesa. A garotada acaba preferindo a companhia dos relaxadões, pais que parecem irmãos mais velhos. Tudo em tese, gente. Em tese.

Venho há alguns anos tentando me equilibrar entre ser uma mãe desestressada e uma madre superiora. Não tenho mais criança em casa, sou mãe de duas jovens adultas, tem cabimento se meter na vida delas? Claro que tem cabimento, óbvio que tem cabimento, mas a Associação Psicanalítica do Universo pode aparecer por aqui e me levar algemada para averiguações, então a gente finge que largou a filharada de mão.

Mãe nunca larga de mão. Never. Jamé.

Ainda assim, andava me sentindo evoluída, certa de que tinha alcançado o nirvana da maternidade, quando minha filha mais velha me deu uma situada. Estávamos falando pelo telefone e ela reclamou sobre algo que aconteceu no trabalho dela. 

Eu prontamente apresentei um desenlace para acabar com o problema. Foi quando ela me disse: “Mãe, é só uma queixa trivial, uma bobagem, estou desabafando. Já reparou que a cada vez que eu comento sobre alguma coisa, tu tens a solução na ponta da língua?”

Mãe aguenta cada injustiça. Fingi que concordei, mas só depois de desligar o telefone é que concordei de fato. Lembrei que a cada vez que ela falava que fazia frio (mora no Exterior), eu recomendava uma rede de lojas que vende cashmere por um preço em conta. Se ela dizia que andava se sentindo cansada, eu sugeria que ela fizesse outro teste de covid. Se ela havia errado o ponto do molho, eu vinha com uma receita tirada não sei de onde (o fogão e eu mal nos conhecemos). Se ela reclamava do próprio cabelo, eu mandava por WhatsApp a foto do corte perfeito. Se ela brigava com o namorado, então, eu vinha com uma palestra pronta. E não sou chata, imagina se fosse.

Sou mãe. É autoexplicativo.

Sejam nossos filhos destrambelhados ou bem resolvidos, estamos sempre a postos para resolver suas questões. Os coitados não podem abrir a boca. 

“Meu colega da faculdade vai se casar”(a mãe: precisa mandar lavar aquele seu terno azul marinho). “Amanhã tenho que estar no aeroporto às 7h” (mãe: não esquece de programar o despertador). “Vou participar de uma maratona” (mãe: treina bastante antes de correr, tem gente tendo ataque cardíaco aos 30.

Deliciosamente trágica.

Mas melhorei bastante. Minha filha vai mesmo participar de sua primeira maratona, mesmo não tendo preparo físico para correr atrás de um ônibus. Estou fingindo naturalidade. Não sobrou uma unha nos dedos, mas ando super querida, relaxadona, praticamente um pai.


13 DE MAIO DE 2023
MÚSICA

DIA DAS MÃES COM TRILHA DO REI

Roberto Carlos promete homenagem a elas (e elas a ele) no domingo, em show no Auditório Araújo Vianna

WILLIAM MANSQUE

Uma multidão de Ladys Laura deve ocupar o Auditório Araújo Vianna neste domingo. Em pleno Dia das Mães, Roberto Carlos sobe ao palco da casa a partir das 20h. Na plateia, muitas fãs estarão celebrando a data em dobro.

É o caso de Marta Peicher Gunther, 57 anos, que verá o seu primeiro show do Rei. Mãe de Chrystian, 33, e Khetlyn, ela nasceu em Taió (SC), mas vive há 28 anos em Boa Vista do Buricá, Noroeste do Estado. Acompanhada de seu marido, Sigmar, ela viajará cerca de 500 km até Porto Alegre. A fã destaca que nunca teve condições de assistir ao cantor, e ele tampouco esteve próximo de onde vive.

Marta estará cumprindo uma promessa a si mesma, feita em 2015. Naquele ano, Roberto se apresentou no estádio Beira- Rio. Chateada por não ter ido, ela decidiu que veria o Rei ao vivo a qualquer custo.

- Nem que tivesse que lavar chão por aí, eu ia conseguir - relata Marta. - Quando veio o anúncio deste show, liguei para o meu filho e pedi: "Filho, faz um favor: entra no site e compra o ingresso para a mãe e o pai, nem que precise financiar". E ele conseguiu.

A fã destaca que os filhos estão felizes por verem a mãe realizar um sonho. Aliás, os dois aprenderam com ela a ter um apreço por Roberto. Um dos motivos para isso era o programa especial de fim de ano do cantor, que costumava ser uma tradição de família.

- Não havia evento nenhum que me tirasse da frente da televisão! Se tivesse alguma janta ou outra coisa, eu declinava, pois era dia de Roberto Carlos. Era sagrado. Meus filhos viam e acabavam gostando - lembra.

Fã de Roberto desde os 12 anos, Marta não esconde a ansiedade de uma vida para o show deste domingo. Para ela, é a oportunidade de finalmente presenciar tudo aquilo a que sempre assistiu na TV.

- O grande sonho seria chegar perto dele e ganhar uma rosa. Mas é uma coisa quase impossível. Então, tenho a expectativa de ouvir boas músicas, como ele tem, que transmitem paz, ternura e amor - diz Marta.

Se a mãe de Boa Vista do Buricá estará vendo Roberto pela primeira vez, por outro lado, Fatima Mascitti já perdeu as contas de quantas vezes foi em um show do Rei. Moradora de Canoas, ela tem 62 anos e bate ponto nas apresentações do cantor na capital gaúcha desde os 18. Sua última vez, no entanto, foi em São Paulo, em 2019. A fã viajou sozinha para matar a saudade de Roberto.

Fatima é mãe de três filhas: Dayane, 39; Michelle, 33; e Camille, 25. Ela conta que o trio sempre lhe deu força em relação a Roberto. Inclusive, a fã nunca esqueceu de um aniversário em que Dayane mandou um carro de som que tocou Como É Grande o meu Amor por Você. Suas filhas costumam ajudá-la também a escolher seus looks para os shows - neste domingo, ela adianta que estará de vestido e unhas azuis, cor favorita do cantor.

No Araújo Vianna, Fatima espera entregar um presente para Roberto que ela tentou dar em São Paulo. Trata-se de uma placa prateada com os dizeres "Hoje venho fazer essa singela homenagem de quem lhe admira muito pelas suas composições e canções. Obrigada, querido".

Fã de Roberto desde os cinco anos, Fatima crê que será emocionante rever seu ídolo neste domingo.

- A minha esperança é pegar a flor. Quem sabe tirar foto com ele e entregar o presente. - anseia. - Ele é o Rei. As composições trazem várias reflexões, é muito romântico, fala da fé também, da natureza etc.

Saudade

Presente no repertório dos shows recentes de Roberto, a canção Lady Laura deve acalentar as mães presentes no Araújo neste domingo. Integrando o disco autointitulado do cantor lançado em 1978, a música homenageia a mãe do artista, Laura Braga.

Abordando um filho que relembra momentos de infância e relata saudade da progenitora, a música se tornou um clássico nas apresentações do Rei. Ao longo de sua vida, Roberto sempre foi muito apegado à sua mãe.

No entanto, no último especial de fim de ano, que foi ao ar pela TV Globo em dezembro de 2022, ele revelou que não canta mais Lady Laura com a mesma alegria que a compôs com Erasmo Carlos. Pelo contrário. A mãe de Roberto morreu aos 96 anos, em 2010, então a música ganhou outras nuances para o cantor desde então.

- Canto essa canção sem alegria alguma. Mas o amor é cada vez maior por minha mãe, Lady Laura - admitiu na apresentação.

Além desse hino de amor maternal, as mães presentes no Araújo poderão ver o Rei cantar clássicos como Emoções, O Calhambeque, Outra Vez, Evidências (famosa nas vozes de Chitãozinho & Xororó), entre outros sucessos que têm entrado no repertório, e fechar o show com Jesus Cristo. Um show para alegrar qualquer Lady Laura.

ROBERTO CARLOS

Domingo, às 20h, no Auditório Araújo Vianna (Av. Osvaldo Aranha, 685), em Porto Alegre. Ingressos a partir de R$ 890 (solidário, mediante doação de 1 kg de alimento não perecível). Ponto de venda com taxa: site eventim.com.br. Ponto de venda sem taxa: Loja Planeta Surf do Shopping Praia de Belas (sábado, das 10h às 22h, e no domingo, das 15h às 20h). 


13 DE MAIO DE 2023
BRUNA LOMBARDI

O MISTÉRIO DAS MÃES

Você também sente que a relação entre mães e filhos é uma das mais significativas, complexas e misteriosas que existem? Com uma sincronicidade que vai além da nossa compreensão?

Sinto que essa ligação permanente, essa fortíssima conexão, se inicia naquele processo de fazer uma pessoa dentro do nosso corpo. De alguma forma mágica, as nossas experiências e sensações são transmitidas para nossos filhos por canais que não conhecemos. Existe uma troca inconsciente e ininterrupta, filamentos invisíveis se comunicando.

Durante minha gravidez, senti a necessidade de passar o lado belo do mundo pro meu filho. Em qualquer circunstância que estivesse, eu buscava paz de espírito, olhava muito para a natureza e fazia o possível para ter só bons pensamentos. Sabia que o alimentava com isso.

Mães e filhos possuem uma percepção extra, e de forma instintiva um sabe do outro. Um sente o outro mesmo à distância, compreende de forma extra cognitiva o que se passa no espírito. O Kim e eu temos uma extraordinária sintonia que toda hora nos surpreende. Um pensa e o outro liga. Tantas vezes falamos juntos a mesma coisa, dizemos ao mesmo tempo a mesma palavra ou piada. E a gente brinca dizendo: sai do meu cérebro!

Existem relações de desentendimentos e mágoas, que enfraquecem essa comunicação. Como uma antena que num local difícil não consegue captar os sinais. Mas isso é apenas uma interferência. Um ruído que pode ser resolvido. Coisas a serem superadas. Porque a conexão existe e pode transcender tudo isso. A ligação desse amor é forte o suficiente para vencer.

Cada um de nós nasce de uma determinada mãe, em um determinado momento e lugar, e isso parece mais do que uma simples coincidência. Temos a percepção de que nossa mãe foi escolhida especificamente por nós e para nós. Somos frutos, geramos frutos, que vão gerar novos frutos, numa contínua sucessão, uma corrente que nos entrelaça com o que existe de mais precioso na vida.

Sempre agradeço ao universo pela vinda do Kim. Nosso amor é incondicional e instintivo, a força da mais intensa energia. No primeiro instante em que olhamos e somos olhadas por nosso bebê, tudo passa a fazer sentido.

E mesmo com toda essa conexão, a verdade é que nenhuma mãe sabe o que fazer. Não tem a mínima ideia de como agir, não sente a menor segurança para tamanha responsabilidade. Criar uma pessoa é o trabalho mais importante do mundo.

Vamos passar por todas as fases e em cada uma delas vamos aos poucos descobrindo por instinto o que fazer. É um jogo de erros e acertos. Uma vez eu disse pro Kim ainda menino que para mim também era a primeira vez, que eu também, assim como ele, não sabia o que fazer e estava aprendendo. Para ele, foi um espanto, porque achava que mãe sabia tudo.

Às vezes sabe. E tem humor. Como quando aquele adolescente disse pra mãe que ela tava invadindo a privacidade dele. E ela respondeu que ele tinha saído da privacidade dela.

BRUNA LOMBARDI