sábado, 3 de junho de 2023


03 DE JUNHO DE 2023
CAMPO E LAVOURA

Os ingredientes da queda no preço do frango em maio

Pegue um ingrediente sazonal, misture com outro conjuntural e acrescente uma pitada de especulação. Essa é a receita que embasa o recuo no preço médio do frango em maio, conforme levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea)/Esalq. No frango inteiro congelado, houve redução de 1,1% no atacado da Grande São Paulo, ficando o quilo em R$ 6,98. Em Porto Alegre, a diminuição também foi registrada, mas de forma mais sutil: 0,4%, com o quilo a R$ 9,09.

A queda se intensificou na segunda quinzena, puxada pela demanda enfraquecida. Um movimento usual para esse período do mês, explica a analista de mercado do Cepea Juliana Ferraz:

- No começo de maio, tínhamos observado uma melhora nos preços dos produtos de frango em geral. Com o avanço do mês, acabaram cedendo. Tradicionalmente, o consumo cai na segunda metade do mês.

Outros fatores se somaram à composição dos valores. Juliana cita a perda da força das exportações em relação a abril e o recuo nos valores de outras proteínas animais.

- Mas esse movimento de queda em maio está relacionado principalmente a uma menor procura - reforça a analista.

Ainda que os casos de influenza aviária detectados no Brasil tenham sido, até o momento, em aves silvestres, a chegada do vírus mexeu com o mercado interno, adicionando uma pitada de especulação.

- Isso faz parte também do nosso plano de contenção. Caso se acentuar, provavelmente as indústrias, por iniciativa própria, podem revisar seu planejamento de produção, até porque é preciso fazer frente aos custos - pontua José Eduardo dos Santos, presidente da Associação Gaúcha de Avicultura (Asgav).

Como mantém o seu status sanitário internacional, porque os casos seguem longe das granjas comerciais, o Brasil, maior exportador mundial de frango, segue com as portas abertas a seu produto. Como a entrada do vírus nesse circuito pode trazer grandes perdas, com eventuais restrições de mercado, a prevenção foi reforçada para o nível máximo. Juliana acrescenta que produtores, Ministério da Agricultura e indústria "terão de continuar trabalhando com sinergia".

- Para enfrentar esse encontro de questões, o setor agirá com cautela, observando até o final de junho. Se a retração continuar, o planejamento é diminuir o ritmo. Temos de estar preparados para uma potencial redução na oferta - pondera Santos.

Equipes mantêm vigilância no Taim

Equipes da Secretaria e do Ministério da Agricultura seguem neste sábado na Lagoa da Mangueira, em Santa Vitória do Palmar, para continuar o trabalho de vigilância no local onde houve a confirmação do primeiro foco de influenza aviária no Estado.

Na sexta-feira, mais cinco cisnes-de-pescoço-preto foram encontrados mortos na Estação Ecológica do Taim, ampliando para 70 o número de mortes de aves silvestres em razão do vírus. A espécie é a mesma que teve o diagnóstico confirmado por meio de amostras coletadas.

Diretor-adjunto do Departamento de Vigilância e Defesa Sanitária Animal da secretaria, Francisco Paulo Nunes Lopes disse que foram vistoriadas cerca de 80 propriedades de subsistência - e nenhum animal sintomático ou morto foi encontrado.

no radar

Na próxima segunda-feira, a partir das 13h, a Estação Experimental da Embrapa no município de Capão do Leão organiza o Dia de Campo Cultivos de Inverno em Terras Baixas. A ideia é apresentar tecnologias e alternativas de produção de cereais de inverno para a região. O evento é aberto ao público, mas recomenda-se inscrição prévia no site da instituição.

Conquista celebrada

É com entusiasmo - e um prêmio na bagagem - que a gaúcha Fabiane Kuhn (foto) desembarca para sua primeira aventura em solo chinês. Ela é uma das seis brasileiras reconhecidas com o Prêmio Mulan no BRICS Women Innovation Contest, que reconhece mulheres empreendedoras de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Embora tenha sido agraciada na edição de 2021, é agora que ela vai poder celebrar a conquista, em razão das restrições impostas à época pela pandemia. Deste sábado até o dia 12, ela participa de uma imersão na China, organizada pela Aliança Empresarial de Mulheres do BRICS (BRICS WBA).

E como foi parar lá?

A partir do trabalho desenvolvido à frente da Raks Tecnologia Agrícola, startup com sede no Tecnosinos, em São Leopoldo, da qual é cofundadora e CEO, e que criou um sistema de uso inteligente da irrigação.

- Hoje a Racks é uma empresa jovem, com fundadores jovens, e esses reconhecimentos vão dando credibilidade para o trabalho que estamos fazendo, sério, reconhecido - avalia Fabiane.

A tecnologia que faz da China uma referência mundial e o fato de o país asiático ser o número 1 em áreas irrigadas são dois fatores de grande expectativa na visita:

- É um mercado com potencial muito grande para nós. Espero conseguir entender um pouco como funciona a dinâmica do agronegócio e da irrigação, as possibilidades de expansão futura, de conexões, e aprender muito sobre como fazem tecnologia e as práticas de irrigação.

Sendo a mais nova do grupo que está indo para a China, ela também quer mostrar o empreendedorismo feminino jovem e colocar a tecnologia feita aqui no "mapa global". Técnica em Eletrônica e graduada em Ciência da Computação, foi no ambiente da pesquisa que Fabiane acabou se conectando ao universo do agronegócio, gerando uma sinergia que veio para ficar.

CAMPO E LAVOURA

03 DE JUNHO DE 2023
FÁBRICAS

Produção industrial registra queda de 0,6% em abril

A produção industrial brasileira recuou 0,6% em abril. O resultado ocorreu depois da alta de 1% em março. Naquele momento, o percentual interrompeu dois meses seguidos de redução.

Na comparação com igual mês do ano passado, a produção da indústria recuou 2,7%. O acumulado do ano apresenta queda de 1% e, em 12 meses, mostra variação negativa de 0,2%.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que divulgou na sexta-feira os dados da Pesquisa Industrial Mensal (PIM), com esses resultados a indústria ainda se encontra 2% abaixo do nível pré-pandemia (fevereiro de 2020) e 18,5% aquém do ponto mais alto da série histórica, obtido em maio de 2011.

O gerente da PIM, André Macedo, observou que diferentemente dos últimos três meses do ano passado, quando houve saldo positivo acumulado de 1,5%, no início de 2023 há uma maior presença de resultados negativos. "Em abril, observamos uma maior disseminação de quedas na produção industrial, alcançando 16 dos 25 ramos industriais investigados. Esse maior espalhamento de resultados negativos não era visto desde outubro de 2022", ressaltou, em texto publicado pelo IBGE.

Influências

Conforme a pesquisa, produtos alimentícios (-3,2%), máquinas e equipamentos (-9,9%) e veículos automotores, reboques e carrocerias (-4,6%), foram as principais influências negativas para o desempenho do indicador em abril. Entre as três influências, o setor de produtos alimentícios foi o responsável pelo maior impacto negativo no resultado deste mês, ao ter o quarto mês seguido de recuo na produção. No período, a perda acumulada é de 7,3%.

De acordo com o gerente, anteriormente à sequência de retrações, o setor teve resultados positivos por três meses consecutivos, o que resultou em um ganho acumulado de 20,2%, o que, para ele, ainda significa um saldo positivo.


03 DE JUNHO DE 2023
DADOS DE MAIO

Vendas de motos voltam a bater as de automóveis

As vendas de motos seguem em forte crescimento e já superam as de carros de passeio no acumulado do ano. Conforme balanço divulgado na sexta-feira pela Fenabrave, associação que representa as concessionárias, 161,4 mil motocicletas foram comercializadas no mês passado, 21% acima do volume de maio de 2022. Na comparação com abril, a alta foi de 33,5%.

O número ficou acima dos 127,5 mil automóveis de passeio emplacados no mês passado. No acumulado desde o primeiro dia do ano, as 639,4 mil motocicletas vendidas (crescimento de 24%) também superam os menos de 600 mil carros comercializados de janeiro a maio.

O resultado reflete a expansão dos serviços de entrega (delivery) e a busca do consumidor por veí­culos não só mais baratos, como também mais econômicos no consumo de combustível. Segundo o presidente da Fenabrave, José Maurício Andreta, apesar do cenário desafiador de crédito, a demanda por motocicletas segue alta, com os consumidores absorvendo o que a indústria produz.

- Muitos têm usado as motocicletas em substituição ao automóvel, por conta da economia de combustível e pelo próprio preço de aquisição - comentou.


03 DE JUNHO DE 2023
INFORME ESPECIAL

Por cidades mais "caminháveis"

Só se conhece verdadeiramente um lugar caminhando. Estima-se que uma pessoa saudável percorra, em média, 1,2 metro por segundo a pé. A velocidade reduzida ajuda o pedestre a voltar a enxergar a cidade ao redor, em todos os detalhes, belos e sórdidos, imperceptíveis da janela do carro.

Caminhar é um ato ancestral cada vez mais raro, solapado por uma urgência sem sentido. "Time is money", reluz o letreiro em neon piscando no alto de nossas cabeças. É preciso produzir, ganhar dinheiro, ser bem-sucedido. Se você for caminhando, esqueça: não haverá a tempo. Vá de carro. E fique preso no congestionamento.

Invejo os franceses, que têm até um termo para designar o caminhante sem destino, andarilho errante. Le flâneur. Nada mal "flanar" em Paris, perambulando nos grandes bulevares. Não estou na Cidade Luz, mas faço gosto de palmilhar as ruas nem sempre alegres de Porto Alegre (fotos). Tem lá seu charme.

Mover as pernas tornou-se algo tão importante nesse mundo de ponta-cabeça que, nas pesquisas de mobilidade urbana, ganha força um conceito de nome engraçado: "caminhabilidade", tradução de "walkability", em inglês.

Um dos primeiros estudos sobre o tema é do início dos anos 1990. Foi produzido por um canadense chamado Chris Bradshaw, em Ottawa. Desde então, a ideia se espalhou. Aqui, também temos um Índice de Caminhabilidade. O iCam foi lançado em 2016 pelo Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP Brasil), em parceria com uma série de pesquisadores. Composto por 15 indicadores, o índice ajuda a medir as condições do espaço urbano pela ótica de quem anda.

Não basta querer: é preciso se sentir seguro para caminhar e, no mínimo, ter calçadas decentes, com acessibilidade - afinal, todos temos os mesmos direitos. Há cidades onde isso é prioridade. Dê um Google em Hamburgo, na Alemanha, por exemplo. A urbe decidiu, ainda em 2014, tirar os carros das ruas em 20 anos. Veja o caso de Berlim, que criou uma legislação exclusiva para pedestres.

Estamos milhares de quilômetros atrás nessa caminhada, retardatários comendo poeira e fumaça de veículos movidos a combustíveis fósseis. Mas é bom nunca esquecer: andar é de graça, é ecológico, é democrático e faz um bem danado. Mudar essa realidade depende de nós.

INFORME ESPECIAL

quinta-feira, 1 de junho de 2023


01 DE JUNHO DE 2023
CARPINEJAR

Marco da omissão

Nossa memória nacional dura somente seis meses. Acredito firmemente que tudo de pior que acontece no país é esquecido no período de um semestre.

A amnésia nos cobre de injustiça. Em janeiro, testemunhamos o genocídio indígena, com registros assustadores de crianças yanomami adoecidas em Roraima, deitadas na rede com todas as costelas aparecendo, consumidas pela verminose e desidratação. Cerca de 10.193 menores estavam desassistidos. Cinquenta e dois por cento dessas crianças se mostravam desnutridas, índice que em comunidades de difícil acesso chegava a 80%.

Agora, a comiseração venceu sua data de validade e é aprovado na Câmara Federal o projeto do marco temporal, o que significa na prática a ausência de defesa dos povos originários contra ataques dos garimpeiros e exploração ilegal das madeireiras.

O projeto determina que as etnias só poderão reivindicar a demarcação de terras nas quais já viviam antes da Constituição de 1988. Ignora monstruosamente a desigualdade, a penúria e a violação histórica das demarcações. Centenas de comunidades foram expulsas de suas terras, seja por disputas com latifundiários ou grileiros, seja por omissão do governo; seja por catástrofes naturais, seja por doenças como malária que proliferaram por falta de insumos.

Ou seja, neutralizaremos qualquer revisão justa diante de expropriações indevidas. Não teremos como voltar atrás para repor áreas ocupadas ilegalmente. Isso, de modo nenhum, garante a sobrevivência indígena. É o caminho da sua extinção. Impede que a política de demarcação faça a correção dos seus erros ao longo de mais de três décadas.

Não haverá mais o ressarcimento de reservas, apenas o controle das que já existiam (e que não foram dizimadas) a partir da data da Constituição. Se parte foi tomada ou roubada antes, não terá quem possa recuperá-la.

Existem 300 processos de demarcação pendentes que vão prescrever, em sua maioria, em nome da segurança jurídica nacional (com o intuito de conter uma expansão ilimitada para áreas já incorporadas ao mercado imobiliário ou que se encontram em usufruto de agricultores).

É uma anistia descarada aos agressores, já que muitas comunidades foram impedidas de permanecer em seus territórios. Repetimos 1979 em 2023, estendendo a isenção dos crimes políticos para os ambientais. Como no fim do regime militar, qualquer contravenção contra os povos originários antes de 1988 será esquecida.

Houve votos favoráveis de 283 deputados, que, inflamados pela cobiça do agronegócio, temiam que os 14% da área indígena atual protegida no Brasil dobrasse de tamanho por direito. Não enlouqueceram, não se posicionaram de costas para uma reeleição futura, sabem que seus eleitores têm memória curta. Daqui a seis meses, todo mundo esquece.

Ou é esperar o corretivo da nossa deslembrança geral pelo Supremo Tribunal Federal (STF), com forte tendência a decidir contrariamente ao projeto aprovado pela Câmara, aumentando ainda mais a briga entre os poderes.

CARPINEJAR

terça-feira, 30 de maio de 2023


O remédio dos lençóis

Quando estou triste, uso um método eficaz: troco a muda de roupa da cama. Dificilmente a minha melancolia, o meu abatimento, a minha mágoa resistirão a lençóis perfumados. É um bem-estar indescritível esticar os pés no fundo deles. Deslizam na sensação de frescor.

Fico com a impressão de que a cama é nova com o incenso da lavanda. O edredom lavado completa o trabalho de reposição de energias. Ocorre uma fotossíntese entre os tecidos e a minha pele: aqueles lençóis limpos, que passaram por horas de sol, transmitem a sua luz para mim.

A fronha não estará mais marcada pelo suor dos cabelos, não terá o peso dos serões difíceis. Trata-se de uma reestreia, a página do calendário virada, a despedida dos problemas antigos. Se a cama estiver com o cheiro vencido, com o cheiro usado do corpo, de quem rolou por ali pela insônia das preocupações, a tristeza aumenta. Sou capaz de chorar inclusive por dores antigas. Sou capaz de reprisar feridas do ego e misturá-las no coração.

Com o quadro de abandono do meu cantinho de repouso, redobram as minhas chances de isolamento e de vitimização. As lágrimas saem fáceis e fartas quando percebo que nada mudou na minha vida. Existirá um apego a um esconderijo, a uma porta fechada, ao escuro.

Diante do enxoval reposto, organizado, esticado, é como se houvesse a transposição de lugar. Por uma noite, durmo com a alma fora de casa, durmo com a alma em hotel, durmo com a alma em viagem.

Minha esposa já conhece a minha tática de dar a volta por cima no humor, o meu feng shui amador, e nem mais reclama quando substituo os lençóis antes de eles completarem uma semana. De onde vem esse remédio caseiro, que não exige nenhuma receita médica?

Do quintal da minha infância. Da alegria de correr no pátio com os lençóis estendidos no varal, devidamente levantados por uma vara para suas bordas não tocarem no chão. Eu atravessava paredes de pano para poder brincar nos extremos do nosso terreno e alcançar a bergamoteira e o abacateiro. Serviam de biombos a meu teatro de fantoches, de obstáculos ao pega-pega com os irmãos.

Eu encostava a testa no lençol úmido, esticando-o ao máximo pelo rosto, até chegar ao outro lado. Ia e vinha sem parar.

Eu me enxergava curado com as repentinas compressas geladas pela cabeça. Para uma criança pequena, não deixava de ser uma aventura não enxergar o que tinha pela frente. Querer descobrir o futuro é estresse do adulto. Querer controlar o futuro é o que nos adoece.

Naquele tempo da minha meninice, bastavam o sol lá fora e um dia de cada vez. Os lençóis simplesmente me devolvem uma época feliz da minha existência, em que nada sabia e tudo sentia, em que eu era livre e solto pelo mundo.

CARPINEJAR 

sábado, 27 de maio de 2023



27 DE MAIO DE 2023
BRUNA LOMBARDI

BASTA UMA SÓ MULHER PARA FAZER UM PAÍS MAIS FELIZ

Assim como toda criança nasce feliz, dentro de todo adolescente que se preze tem que ter uma boa dose de rebeldia. Que vai desde? "o mundo não me compreende?" até "quero mudar tudo porque não concordo com nada!". A proposta nessa época da vida é sempre grandiosa, ousada, tem a audácia dos que sonham.

Todo jovem saudável tem uma natureza inconformista, sente que não pertence, acha tudo um absurdo. Quer ir contra o status quo, não quer repetir os erros das gerações que o antecedem.

Ele veio pra mudar todas essas convenções idiotas que não o traduzem. O que fazer e por onde começar? E como diz a canção, se os nossos ídolos ainda são os mesmos, vamos também sem perceber, acabar sendo como os nossos pais?

Mas se a gente pensar bem, a cada nova geração a coisa muda aos poucos. As ideias se ampliam, uma semente desse entusiasmo fica e nos tornamos agentes de alguma transformação. Até que de repente, numa dessas, vem Rita Lee e transforma tudo em maravilha.

A nossa Santa Protetora de todas as ovelhas negras das famílias já chegou propagando rebeldia. Mostrando aos mais comportados que era possível ter liberdade, humor e fantasia. Desfraldando convenções com a magia do lúdico. Com ela é possível criar uma realidade, inventar uma persona e o resultado é a alegria geral da nação.

A Rainha do Rock da Beleza, a Feiticeira que abriu a caixa mágica da criatividade e foi nos mostrando a Sabedoria de Todas as Coisas. A mulher que um dia resolveu mudar e fazer tudo o que queria fazer. E fez. E fez muito mais por todos nós do que seria possível sonhar. Com ela o sonho nunca acabou. O sonho foi se reinventando e seguiu mutante transformando e abrindo todas as portas da sua belíssima alma.

Tive a alegria de compartilhar momentos próximos com a Rita. Teve muita troca, conversa e risada. Tínhamos em comum um instinto de desobediência, uma certa indignação e uma vontade de abraçar o mundo.

Conversei com ela algumas vezes e numa dessas gravamos meu programa Gente de Expressão. Uma conversa de intimidade, sem máscaras, uma entrega feliz. Uma vez disseram numa matéria que nós falamos sobre o prazer da mulher, ela na música e eu na poesia, de uma forma inovadora. A gente simplesmente botou nossa verdade pra fora com vontade de dizer pro mundo: chega de repressão!

Num outro grande momento tive a delícia de estar com ela no palco, carregando a netinha dela no meu colo. Um desses presentes da vida, cantando junto "Toda mulher quer ser feliz".

Rita nos deixou e o nosso desejo continua. Todas queremos ser felizes. E podemos nos ajudar umas às outras, assim como a Rita nos ajudou a todas. Ela com certeza cantou sentimentos de todas nós, explodiu a paixão e nos libertou de papéis opressores.

A coragem da Rita deixou um lastro por várias gerações e um rastro luminoso que a gente segue pra não se perder mais no caminho. Ela teve uma linda e duradoura história de amor e nos fez amar mais e melhor.

Basta uma só mulher para fazer um país mais feliz.

BRUNA LOMBARDI


27 DE MAIO DE 2023
TECNOLOGIA

OMS FAZ ALERTA SOBRE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

ORGANIZAÇÃO TEME ERROS MÉDICOS E DANOS A PACIENTES COM ADOÇÃO PRECIPITADA DA IA

A Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou recentemente um comunicado que pede cautela no uso de inteligência artificial (IA) "para proteger e promover o bem-estar, a segurança e a autonomia humanas e preservar a saúde pública". Na avaliação da OMS, falta a preocupação comum à inserção de tecnologias em saúde.

"A adoção precipitada de sistemas não testados pode levar a erros por parte dos profissionais de saúde, causar danos aos pacientes, minar a confiança na IA e, assim, minar (ou atrasar) os potenciais benefícios e usos de longo prazo de tais tecnologias em todo o mundo", diz o comunicado.

No mesmo dia, Sam Altman, diretor-executivo da OpenAI, criadora do programa ChatGPT, disse no Senado dos EUA que regular a inteligência artificial é "crucial" para limitar os riscos do uso dessa tecnologia.

A OMS preocupa-se com a possibilidade de treinamento das IAs com dados tendenciosos, geração de respostas incorretas que parecem verdadeiras e possível estímulo à desinformação. A organização recomendou que formuladores de políticas se dediquem a garantir a segurança e a proteção do paciente enquanto as empresas de tecnologia trabalham na comercialização.

Segundo a OMS, os modelos de linguagem (LLMs, em inglês) gerados por inteligência artificial, como a que compõe o ChatGPT, tentam imitar a compreensão, o processamento e a produção da comunicação humana. A "difusão pública meteórica" e o "crescente uso experimental para fins relacionados à saúde estão gerando um entusiasmo significativo", avalia.

A OMS também se diz "entusiasmada" com o uso apropriado de tecnologias, incluindo LLMs, para apoiar profissionais de saúde, mas diz estar preocupada "de que o cuidado que normalmente seria exercido para qualquer nova tecnologia não esteja sendo exercido de forma consistente com as LLMs". É "imperativo" que os riscos da adesão dessas tecnologias sejam "cuidadosamente" avaliados.


27 DE MAIO DE 2023
INFRAESTRUTURA

Gargalo para o fluxo atual de veículos

No lado brasileiro, a rodovia termina no meio da Ponte Internacional Getúlio Vargas/Agustín Pedro Justo, no quilômetro 726, que liga a cidade gaúcha da Fronteira Oeste à argentina Paso de los Libres. A estrutura, construída na década de 1940, foi a primeira travessia entre Brasil e Argentina.

A construção leva o nome dos presidentes dos dois países à época do lançamento da pedra fundamental. O combinado era de que a estrutura seria dividida em duas partes iguais, usando ferro brasileiro e cimento argentino. A inauguração, comemorada principalmente por comerciantes da região, foi em maio de 1947. Desde então, o movimento sobre a ponte aumentou, mas as pistas não foram ampliadas. Ao mesmo tempo, uma via férrea, onde passava um trilho de trem, foi desativada e hoje está coberta por vegetação.

- Foi planejada para um trânsito vicinal e muito pequeno se comparado com o que cruza hoje. Não estava nos sonhos de ninguém que cruzariam, pelo menos, 20 mil caminhões por mês - conta a diretora-executiva da Associação Brasileira dos Transportadores Internacionais, Gladys Vinci.

As intempéries do tempo e a sobrecarga de veículos sobre a ponte cobraram seu preço e, em setembro do ano passado, a estrutura apresentou rompimento na laje, na região central do arco de acesso. Em março deste ano, houve cerimônia de entrega da restauração emergencial do trecho. Segundo o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), foram investidos mais de R$ 6,3 milhões em serviços de recuperação da laje, viga e o reforço dos pilares.

O asfalto foi renovado e o guarda-corpo, pintado. Porém, passados alguns metros da parte revitalizada em direção à Argentina, já ficam evidentes buracos, sinalização apagada na pista e guarda-corpo danificado. O Dnit destaca que "no lado brasileiro da Ponte Internacional de Uruguaiana não há buracos no pavimento no momento e, quando surgem, a empresa responsável pela manutenção realiza o reparo o mais breve possível", e garante que "a sinalização é presente na ponte".

A estrutura não tem acostamento, e a pista é simples nos dois sentidos. Logo, motoristas de veículos de passeio e do transporte internacional de cargas trafegam pela mesma faixa, e não é incomum ver condutores dos veículos menores ultrapassando caminhões de maneira irregular.

O Dnit informou, em nota, que, "no que diz respeito à previsão de duplicação da ponte de Uruguaiana, o Dnit analisa reabilitação com alargamento da seção transversal. Há um projeto brasileiro pronto e estão sendo aguardadas as considerações do lado argentino para prosseguir na contratação das obras".

Gladys sugere uma solução para desafogar o movimento, que se intensifica na época do verão, quando turistas estrangeiros, principalmente argentinos, vêm passar as férias no Brasil:

- Ela tem duas calçadas laterais que não podem ser utilizadas pelos pedestres por uma questão de segurança. Elas poderiam ser retiradas para dar um espaço maior aos veículos.

A dirigente também apoia a criação de uma terceira pista que poderia ser liberada para os dois sentidos conforme fluxo ou bloqueios. Para isso, sugere um aproveitamento da estrutura que abriga o trilho desativado.



27 DE MAIO DE 2023
ACERTO DE CONTAS

Paradas de milhões

Terminou mais uma parada de manutenção da CMPC, fábrica gigante de celulose em Guaíba, na região metropolitana de Porto Alegre. O investimento foi de R$ 63,3 milhões e envolveu 3 mil profissionais de 97 empresas. Tradicionalmente, a fabricante direciona recursos para fornecedores locais. Desta vez, empresas gaúchas ficaram com R$ 25 milhões. Deste montante, R$ 14 milhões foram para companhias de Guaíba. E tem mais paradas de manutenção em 2023, ou seja, novos investimentos. Normalmente, a fábrica faz duas, mas serão três neste ano. As próximas duas serão no segundo semestre.

A do final do ano conectará os equipamentos do BioCMPC, projeto de ampliação que está com 80% das obras concluídas e soma um investimento de R$ 2,75 bilhões, antecipado pela coluna ainda em 2021.

Quando os carros ficarão populares

Após o Ministério da Fazenda definir os detalhes, a redução dos tributos dos carros será por decreto e medida provisória que passa pelo Congresso. Mas quando chega na loja? Integrante da diretoria do sindicato que representa as revendas no Rio Grande do Sul (Sincodiv-RS), Hugo Pinto Ribeiro disse à coluna que, apesar de não haver certeza de prazos, assim que sair o desconto exato para cada modelo, as lojas poderão praticar os novos preços com os estoques. O abatimento pode chegar a 10,96%.

Voo a Joinville

Começam em 1º de junho os voos diretos entre Porto Alegre e Joinville (SC). As viagens serão diárias, pela Latam em parceria com a empresa Voepass.

A rota faz parte de um combo de novos destinos que a Latam anunciou no Rio Grande do Sul, explicou à coluna o deputado Frederico Antunes, presidente da Frente Parlamentar da Aviação.

GIANE GUERRA

Tropeço na LRF adiou conta do incentivo a automóveis

Era visível o certo desconforto do vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, ao anunciar os estímulos fiscais para veículos com preços abaixo de R$ 120 mil, no Dia da Indústria.

E mais intrigante foi outro anúncio: o de que as regras ainda levariam 15 dias para ficar prontas. Não é coincidência que isso tenha ocorrido no dia seguinte à aprovação do novo marco fiscal. Na sexta-feira, os motivos apareceram: foi preciso voltar à prancheta porque a equipe do Mdic levou em conta, nos cálculos para justificar a medida, um suposto aumento de arrecadação com outro suposto aumento de vendas dessas unidades - o que a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) proíbe.

Esse cálculo é crucial porque redução de tributos significa renúncia fiscal, o que, por sua vez, implica menos arrecadação, justo quando o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, luta para enxugar a montanha de estímulos fiscais que ele mesmo estima em R$ 600 bilhões - e tenta diminuir ao menos R$ 150 bilhões, com sérias dificuldades para conseguir.

Nas contas para avaliar quanto o governo perderá em arrecadação com a redução de IPI, PIS e Cofins nos veículos de menos de R$ 120 mil, foi incluída a projeção de aumento de receita com maiores vendas. O problema é que essa é uma hipótese que carece de confirmação na vida real. Acima de tudo, é vedada pela LRF.

No anúncio, Alckmin avisou que esse estímulo seria temporário. Os problemas de Haddad para reduzir os já concedidos evidenciam que encerrar um programa como esse é ainda mais difícil do que dar a partida.

Shopping a povoar

Quem circula pelos corredores do Pontal Shopping, aberto oficialmente no final de abril, percebe que há poucas lojas funcionando - menos de um terço do total.

Conforme Ricardo Jornada, diretor corporativo da SVB Par, empresa que controla o empreendimento, há 40 unidades em operação, enquanto a ocupação total prevista é entre 130 e 140 - são 160 módulos, mas há expectativa que alguns sejam unidos por maior área.

- Os shoppings têm duas datas no ano para abrir portas, antes do Dia das Mães e antes do Natal, porque são duas datas que marcam o varejo - explica o executivo sobre a decisão de abrir as portas ao público mesmo com baixa ocupação.

E apesar do baixo número de operações já em funcionamento, Jornada diz que mais de 80% dos espaços estão comercializados, incluindo todas as âncoras.

- Cerca de um terço já está aberto, e um segundo terço deve passar a operar em 60 dias. Prevemos abrir 10 lojas a cada mês e chegar a cem no final do ano. Entre a assinatura do contrato e a abertura, há um trâmite de aprovação do projeto com o shopping, que leva de 30 a 45 dias, e as obras, que levam ao menos 60 dias.

Angelo Boff, sócio-diretor da SVB Par, afirma que o Pontal é considerado um "sucesso" do ponto de vista da comercialização:

- Temos fechado três novas operações por semana. Depois que o shopping foi inaugurado, aumentou a procura dos lojistas. As pessoas não sabiam como seria, porque o Pontal não é um shopping convencional.

Segundo Angelo, o Pontal é um complexo multiuso, mais do que um shopping. Admite que o cenário econômico impacta o varejo, mas a SVB Par aposta em atividades com "enorme potencial turístico"

MARTA SFREDO 

27 DE MAIO DE 2023
DIÁRIOS DO PODER

entrevista

ALEXANDRE BUBLITZ Pediatra que atuou na crise yanomami em Roraima.

Que realidade o senhor encontrou entre as comunidades yanomami?

Eu estava em Surucucu, onde há várias comunidades yanomami. É um lugar onde há muitos pontos de garimpo, sobretudo em regiões de rios. A grande crise humanitária ocorreu em Surucucu e Auaris. Em todas essas regiões, já existia um sistema de saúde prévio, com profissionais que faziam atendimentos. Mas, nos últimos anos, todo esse sistema de atenção aos pacientes indígenas estava debilitado. 

Houve um processo de sucateamento, não houve contratações de tantos profissionais. Junto a isso, veio o garimpo, com destruição de terras dessas comunidades, poluição dos rios e conflitos entre indígenas e garimpeiros. Essa região foi uma das mais afetadas por esse processo. Começaram a ocorrer vários problemas de saúde. Como os rios estão poluídos, fica dificultada a pesca e a caça. As terras onde havia plantações de mandioca e bananas foram afetadas. Começou a haver casos de desnutrição infantil e malária.

Como é a estrutura para atendimento médico à população indígena?

Esse local em que fiquei, Surucucu, é um polo base, um centro de referência para atendimento dessas comunidades. Sempre que havia um problema de saúde, a pessoa era levada para lá. A estrutura é composta por uma casa de madeira na qual havia local para a internação dos pacientes. Como a população indígena não usa cama, são montados leitos em redes. Depois da intervenção do governo, foram criadas tendas para maior atendimento, onde há ventilador mecânico, desfibrilador e uma estrutura para pacientes mais graves. Outra curiosidade é que, em qualquer hospital, você tem direito a um acompanhante. Lá também, dificilmente o paciente vai sozinho. Mas busca atendimento médico com um monte de gente: se vai a mãe e um dos filhos, tem de ir os demais filhos juntos.

Em que situação o senhor encontrou as crianças?

A ideia era fazer um tratamento de casos agudos, sobretudo de crianças com desnutrição. Usamos um "Middle Upper Arm Circumference" (Muac) para medir o grau de desnutrição pelo tamanho da circunferência do braço. Quando ela é menor do que 115 milímetros, a criança é classificada como desnutrida. Havia algumas com quadro de malária e outras com desnutrição crônica. Elas vinham recebendo pouco alimento havia muito tempo. Isso afeta crescimento, imunidade e desenvolvimento. Mas elas se mantinham. O problema é que, quando pegam uma doença, uma pneumonia, uma infecção intestinal ou malária, afundam. Não conseguem se alimentar direito. E aquele quadro, que é estável de desnutrição crônica, agudiza e vira uma desnutrição aguda severa. É o que a gente acaba vendo: emagrecimento nas pernas, na região das costelas, no rosto.

Qual era a sua função?

Existe lá, hoje, uma equipe com cinco médicos, todos contratados pelo programa Mais Médicos. Fomos em duas equipes, com um médico em cada, e dois enfermeiros, para darmos suporte à equipe local, que é muito boa, mas voltada para medicina de família.

Que dificuldades havia para trabalhar?

Há várias questões culturais que são difíceis. A língua yanomami naquela região não tem números. Eles não contam as coisas com números. Se preciso dar um antibiótico, que a gente tem de fazer uso de oito em oito horas por sete dias, por exemplo, não consigo prestar esse tratamento. Então, fazemos de forma assistida: precisa ter alguém que vá lá, dê o remédio, veja que a pessoa está tomando e segurá-la pelos dias necessários. Isso dificultava muito nosso trabalho. O próprio entendimento de saúde que aquela população indígena daquela região tem é muito mais vinculada a uma questão espiritual. (...) Quando você precisa internar um paciente, pegar um acesso, colocar uma sonda, isso causa uma estranheza muito grande e, por vezes, é visto como uma violência para eles.

Como o senhor viu a relação dos indígenas com o garimpo?

O garimpo está presente em todos os locais. E boa parte da comunidade indígena acaba também se vinculando e trabalhando no garimpo. Essas comunidades são, muitas vezes, compradas com escambo, como há 500 anos, quando indígenas recebiam espelhos (dos colonizadores). Eles fazem essas trocas hoje: armas, sabonetes, bolachas. Os garimpeiros entram nas comunidades e compram o acesso às terras.

O senhor visualizou áreas de garimpo?

Só a partir do helicóptero. O garimpo fica sempre junto ao rio. Consegue-se ver que há o rio e, em volta, áreas desmatadas e com terra. A água é desviada para bolsões, onde é utilizada para limpar, peneirar e se fazer a retirada do material. O problema no território indígena yanomami é crônico. Hoje, existe uma situação emergencial lá, e o governo está tentando melhorar a situação daquela população, mas a gente sabe que ainda há muitas coisas por fazer. 

Esses desafios não vão ir embora tão cedo. Inclusive são desafios que existem diante da população indígena como um todo no Brasil: entre yanomami na região Norte, mas também aqui no Sul, os guaranis e os caingangues. Só vamos conseguir solucionar esses problemas quando tivermos a participação da população indígena junto, quando eles puderem tomar a frente desse processo e pudermos ouvi-los e ajudá-los nessa luta, que é de todos nós. A tragédia humanitária dos yanomami resultou na morte de pelo menos 570 crianças em Roraima e no Amazonas, segundo o governo federal. 

Diante das fotos de crianças indígenas esquálidas que chocaram o Brasil e boa parte do mundo, em janeiro, o pediatra gaúcho Alexandre Bublitz decidiu se inscrever, como voluntário, para participar da Força Nacional do SUS, que atua no tratamento emergencial das vítimas. O médico de 36 anos adiou plantões no Hospital Presidente Vargas, em Porto Alegre, e reorganizou a agenda na Unisinos, onde é professor, e embarcou em 2 de maio para o norte do país. Trabalhou, durante 20 dias, em Surucucu, a 270 quilômetros de Boa Vista. De volta à capital gaúcha, ele contou como está a crise. Confira os principais trechos.

RODRIGO LOPES


27 DE MAIO DE 2023
INFORME ESPECIAL

Se eu puder te dar um conselho

Há pais e filhos com relações rompidas. Há aqueles que não se veem há tempos e, quando finalmente se reencontram, brigam de novo e partem para mais 10 anos sem dar notícias. Há os que não conseguem superar a teimosia mútua, os conflitos geracionais e as visões de mundo incompatíveis, incapazes de fazer concessões, de dar o primeiro passo ou de estender a mão.

Há quem tenha duas mães ou dois pais. Há quem não tenha mais pai nem mãe. E há quem nunca os tenha tido.

Muitos perderam as figuras de referência para sempre e hoje se arrependem do que fizeram ou deixaram de fazer. Pais e filhos motivaram livros e músicas, sessões de terapia, teses de doutorado, artigos de jornal, poesias e posts no TikTok. Não é por menos.

A relação parental é feita de fases. Algo acontece quando os filhos atingem a maturidade e viram, eles próprios, adultos como seus pais. Aí tudo faz sentido. De certa forma, nos tornamos iguais, com alguns anos de diferença, que já não fazem mais tanta diferença assim.

Acabo de voltar de uma longa viagem com meus pais. Decidi levá-los comigo para, juntos, vivermos uma nova experiência em um país diferente. Tenho 43 anos. Minha mãe tem 69 e meu pai, 70 (fotos).

Dividimos o vinho e as descobertas com a cumplicidade de velhos amigos. Brigamos e fizemos as pazes, rimos de nós mesmos, registramos selfies memoráveis, nos emocionamos ouvindo uma banda qualquer tocando Stand By Me nas ruas de Lisboa. "Fique do meu lado", diz a canção eternizada na voz John Lennon.

Tive o privilégio - e meu amigo Fabrício Carpinejar vai gostar de saber disso - de comemorar dois dias das mães com quem me trouxe ao mundo. Em Portugal, a data é celebrada no primeiro domingo de maio. No Brasil, é no segundo. Na dúvida, festejamos as duas. Sorte ter a mãe por perto.

Se eu puder te dar um conselho, não hesite nem por um minuto: caso ainda seja possível, caso eles estejam aí ao lado ou mesmo a quilômetros de distância, convide seus pais para uma viagem em família. Não precisa ir longe. Não precisa de hotel de luxo. Se eu puder te dar um conselho, não deixe para depois.

Isso para mim é uma falsa cosmética, porque esqueceram de uma "pequena coisa" no projeto: dos barcos.

AMYR KLINK

Navegador e escritor, fazendo reparos às obras de revitalização da orla do Guaíba, em Porto Alegre.

O mundo vai olhar para o arcabouço legal e ver que a estrutura do governo não é a que ganhou as eleições, é a do governo que perdeu.

MARINA SILVA

Ministra do Meio Ambiente, criticando a retirada de atribuições de sua pasta pelo Congresso.

A questão foi a forma que uma publicidade de medicamentos foi feita, induzindo a população a consumi-los em um momento difícil para o país e sem as advertências necessárias.

SUZETE BRAGAGNOLO

Procuradora do Núcleo de Seguridade Social, Previdência Social e Assistência Social do Ministério Público Federal, uma das responsáveis por ajuizar a ação que condenou defensores do chamado tratamento precoce contra a covid-19.

Todos têm que entender que o Congresso brasileiro conquistou maior protagonismo.

ARTHUR LIRA

Presidente da Câmara, dando recado do governo Lula sobre nova correlação de forças, após votação do marco fiscal.

Tem dias que a gente acorda com notícias parecendo que o mundo acabou. Eu fui ler as notícias hoje, na verdade, tudo parecia normal.

LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA

Presidente da República, minimizando revés do governo no Congresso relacionado a pautas ambientais e de funções de ministérios.

Não foi a primeira vez, nem a segunda, nem a terceira. O racismo é normal na La Liga.

VINICIUS JR

Jogador do Real Madrid e da Seleção Brasileira, após ser alvo de ataques racistas de torcedores do Valência.

Pelos números que vêm sendo apresentados, é muito possível termos preços abaixo de R$ 60 mil.

MÁRCIO LIMA LEITE

Presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), sobre política do governo federal para ter automóveis populares mais baratos.

arte - Cena de Família

Escolhi para esta edição uma obra de 1891, do pintor paulista Almeida Júnior - que seria conhecido como um dos grandes nomes da pintura brasileira no século 19. Na tela Cena de Família (ao lado), da Pinacoteca de São Paulo, o artista retratou o núcleo familiar de um engenheiro chamado Adolfo Augusto Pinto em uma cena cotidiana, ao lado da mulher e dos cinco filhos, em uma elegante sala de estar. Almeida Júnior caiu nas graças da burguesia paulista depois de uma temporada de estudos na Europa, custeada por dom Pedro II.

INFORME ESPECIAL

sábado, 20 de maio de 2023


20/05/2023 - 09h00min
Atualizada em 20/05/2023 - 09h00min

Egressas avaliam como a graduação pode ser um lugar de experimentação

Intercâmbio e projetos em conexão com o mercado podem garantir experiências únicas, segundo as ex-alunas

A diversidade de experiências que uma graduação pode trazer envolve, na maioria das vezes, situações que vão além da estrutura da instituição escolhida. As possibilidades de troca são tão importantes em um currículo quanto um bom laboratório para exercitar na prática a teoria aprendida em sala de aula. Garantir o contato com profissionais que possuam experiência acadêmica e de mercado, viagens de estudo e a relação com diferentes realidades e culturas são pontos a serem levados em consideração nesta etapa da formação profissional.

É buscando aproximar cada vez mais teoria e prática que a Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos) aposta em experiências além da sala de aula durante a jornada de formação de seus alunos. O currículo de graduação em Administração – Gestão para Inovação e Liderança (GIL) é um exemplo: durante o curso, o aluno pode realizar uma viagem internacional de estudos.

Francesca Dal Ben concluiu o curso em setembro do ano passado e estudou por um semestre na Universidade Autônoma de Barcelona, momento que ela considera como um dos mais desafiadores e maravilhosos de sua graduação.

– Acredito que essa oportunidade de morar em outro lugar, com uma cultura diferente da nossa, é uma das possibilidades mais bacanas que o curso proporciona. Por causa dos desafios como uma estudante estrangeira, pude desenvolver várias habilidades como a resolução de problemas, maior resiliência e inteligência emocional. O poder que um intercâmbio tem em transformar e ensinar sobre a vida é surpreendente. Esses seis meses me possibilitaram construir uma nova visão de mundo e uma nova visão de mim mesma – conta a administradora.

Francesca destaca que as múltiplas propostas encontradas no curso foram importantes para que ela pudesse experimentar diferentes áreas de atuação, além do desenvolvimento da pesquisa científica, de estágios observatórios, de visitas técnicas e do desenvolvimento de projetos sociais. Além dos seis meses na Espanha, ela teve a oportunidade de participar de um workshop sobre empreendedorismo no Peru.

Você pode conferir os mais de 70 cursos de graduação oferecidos pela Unisinos no site da instituição

– Acredito que a estrutura do curso me possibilitou desenvolver várias habilidades e competências. Pude me conectar com várias empresas e empreendedores, conhecer profundamente sobre o mundo da inovação, aprender na prática com professores incríveis e descobrir o mundo da sustentabilidade, no qual atuo como profissional hoje – revela Francesca.

Empreender e estudar

Fabiane Kuhn, egressa da Ciência da Computação da Unisinos, é um exemplo de que uma experiência dentro da graduação pode gerar frutos e relações importantes mesmo após o término do curso. Criadora da Raks Tecnologia Agrícola, startup incubada no Tecnosinos, o Parque Tecnológico de São Leopoldo, a estudante afirma que a criação do empreendimento surgiu dentro de um projeto de pesquisa, quando cursava o Ensino Médio em uma escola técnica. Mas, foi somente durante a graduação que a ideia virou realidade como um produto vencedor do Prêmio Rouser, promovido pela Unisinos.

– Em 2017, eu e meus colegas Guilherme de Oliveira Ramos e Vinicius Muller Silveira abrimos a Raks. Eu fiz toda a minha graduação trabalhando na minha própria empresa, que fica dentro da universidade. Já entrei no curso de Ciência da Computação dentro dessa linha de empreendedorismo – relembra Fabiane.

Por tratar-se de uma empresa tecnológica, o desenvolvimento da Raks aconteceu em paralelo a formação da empresária, ajudando em vários aspectos técnicos e humanos.

– Cursar Ciência da Computação na Unisinos me auxiliou no conhecimento de programação e gestão de projetos para desenvolver nossa plataforma. Também foi muito importante na construção de relações e de contatos. Hoje, temos na nossa equipe uma colega de graduação que trabalha conosco. Essa conexão com profissionais e professores permite que a gente desenvolva outros aspectos pessoais, como a comunicação, algo que no ambiente profissional faz toda a diferença – avalia.

Para quem já pretende iniciar uma graduação ainda em 2023, a Unisinos está com inscrições abertas para o seu processo seletivo. No site da instituição é possível conhecer mais sobre os diversos cursos oferecidos e ainda verificar as possibilidades de financiamento da mensalidade, em que parte dos juros são pagos pela própria universidade.

Fique sabendo de todas as novidades pelo perfil do Instagram da Unisinos 


Atualizada em 19/05/2023 - 13h10min
Leandro Staudt

Sai do ar uma das rádios mais antigas do interior do RS 

Rádio Cultura de Bagé foi inaugurada em 1946. Há um ano, Rádio Cultura já não estava no histórico prédio da Avenida Sete de Setembro, em Bagé

Depois de quase 77 anos, a Rádio Cultura de Bagé saiu do ar na madrugada da última quarta-feira (17). Com problemas financeiros e dificuldades para regularizar a concessão, o empresário Odilo Dal Molin decidiu encerrar as atividades. Ele conta que comprou a emissora há mais de 20 anos, mas nunca conseguiu a transferência no Ministério das Comunicações. 

Dal Molin diz que pagou as indenizações para todos os funcionários, ficando pendente apenas a dívida com o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (ECAD), que cobra direitos autorais de músicas. Agora, o empresário pretende dar baixa na firma.

A Rádio Cultura 1470 AM, prefixo Z.Y.G-4, foi a primeira de Bagé. Em 4 de julho de 1946, iniciou as transmissões na Rainha da Fronteira. De acordo com o professor de jornalismo e pesquisador Luiz Artur Ferraretto, a emissora fez parte do primeiro grupo de comunicação voltado à radiodifusão no Rio Grande do Sul. Atahualpa Dias implantou, a partir de 1933, as rádios Cultura em Pelotas, Rio Grande, Bagé, Santana do Livramento e Jaguarão. 

Pelos microfones da Cultura, "A Pioneira", passaram grandes nome do rádio no interior do Estado. Nos primeiros tempos, o radioteatro estava em destaque da programação. Um programa que fez muito sucesso foi o "Corrente da Solidariedade". Na música gaúcha, um sucesso antigamente era o "Céu e Chão da Querência".

Na terça-feira (16), o radialista Edgar Muza apresentou seu último programa na Rádio Cultura de Bagé, que transmitia no 1460 AM e 107.5 FM. Ele começou a trabalhar na emissora em 1958. Depois de uma pausa entre 1963 e 1969, voltou à emissora para criar o programa "Visão Geral", que completou 54 anos no ar. 

— O fim da Rádio Cultura é como perder um filho - compara Muza. Outro radialista triste com o fechamento é Geraldo Saliba, que completou 35 anos na emissora. Saliba, Muza e outros colegas da Cultura não ficarão fora do ar por muito tempo, já que levarão os programas para uma rádio comunitária da cidade.

Integrante da Rede Gaúcha Sat, a Cultura retransmitia programas da Rádio Gaúcha. Lembro de apresentar duas edições do Correspondente Ipiranga no estúdio da emissora, em Bagé, em 2006. Na maior parte do tempo, a rádio ficou em um prédio da Avenida Sete de Setembro, de onde saiu pela última vez há um ano. Na fachada do imóvel de dois andares, está o nome da Rádio Cultura.  

Sobre a chance de reabrir a Rádio Cultura, Dal Molin disse que um interessado na emissora o procurou depois do anúncio do fechamento. O empresário afirma que encaminhou toda documentação para análise. 

O tempo dirá se a emissora ficará somente na memória dos ouvintes de Bagé.


19/05/2023 - 16h30min

Fabrício Carpinejar

Sombras e pés 

Mães são a nossa sombra, para sempre cuidarmos de onde estacionamos os nossos sonhos. Mães são nossos pés, para sempre olharmos onde estamos pisando. Quando passeávamos de carro com a mãe, mantínhamos a consciência, mesmo crianças, de que nenhum trajeto seria maior do que o tempo de estacionar.

Não que a mãe tivesse algum trauma com balizas ou dirigisse mal, pelo contrário, ela dirige com prudência. E continua dirigindo até hoje, com 83 anos (84 no próximo dia 27). Renovou a carteira de habilitação pela enésima vez.

O dilema na época é que ela não aceitava qualquer vaga, precisava encontrar uma sombra. Sua obsessão se resumia a achar um cantinho debaixo das árvores. Ela não se preocupava apenas com o espaço livre entre os veículos, mas com o teto de galhos que proporcionaria refrigério para que não sofrêssemos com o abafamento depois.

Não havia direção hidráulica, mas um guidão impossível de se segurar com a exposição inclemente ao sol. Tornava-se ferro em brasa. Já o ar-condicionado se fazia presente apenas em automóveis de luxo.

Dávamos voltas e voltas no quarteirão, como se estivéssemos em um carrossel de cavalinhos, em busca da sagrada penumbra. A mãe poderia parar longe do nosso ponto de encontro sob o pretexto da sombra. Caminhávamos mais do carro para o nosso compromisso do que se partíssemos a pé desde o início da jornada.

Mas esquecíamos o cansaço da expedição ao testemunharmos a felicidade materna e seus gritos de comemoração. Não queríamos estragar a sua alegria com as nossas reclamações e protestos. Quando conseguia o seu intento, ela passava a manhã inteira se elogiando e agradecendo a Deus.

— Valeu o esforço. Localizei uma sombra maravilhosa, meus filhos. Uma sombra perfeita. Os ipês, os jacarandás, os chorões, as paineiras foram nossos flanelinhas por muito tempo. Não sei se recebiam gorjetas. Fora de casa, ela teimava com a sombra. Dentro do lar, sua preocupação era outra. O que eu mais ouvia dela era “não fique de pés descalços”.

Eu acordava e andava pela cozinha sem nada nos pés no azulejo frio. Fora de casa, ela teimava com a sombra. Dentro do lar, sua preocupação era outra. O que eu mais ouvia dela era “não fique de pés descalços”.

A mãe nem se preocupava que eu me cortasse ou que minha sola acabasse imunda na hora de colocar o tênis e ir para a escola. Sua observação se referia ao choque de temperatura após a cama quentinha. Ela insistia que eu iria gripar.

Hoje não largo o chinelo. Dificilmente estou sem ele. Para qualquer percurso. Saio com ele desde a cama. Conservo, inclusive, a marca branca da tira entre os dedos.

Minha esposa, diferentemente, permanece acordando de pés descalços. Perguntei para ela o motivo de nunca atender o meu pedido de cuidado e de proteção. Ela disse:— De pés descalços, eu ainda tenho a sensação de que a minha mãe está viva e vai aparecer chamando a minha atenção.

Eu me calei. E entendi: existem papéis, cadeiras em nossa vida que nunca mais serão ocupadas. Mães são a nossa sombra, para sempre cuidarmos de onde estacionamos os nossos sonhos. Mães são nossos pés, para sempre olharmos onde estamos pisando.

Mães são o chão da nossa saudade.