sábado, 3 de junho de 2023


02/06/2023 - 09h00min
Martha Medeiros

O fascinante mundo normal

O mundo gira e ando exausta de tantos fatos insólitos, então saio de fininho. Três quadradinhos de uma barra 80% cacau e um pequeno cálice de Lemoncello ou Cointreau, lá pelas 10 da noite, e a felicidade, tão metida a difícil, se senta ao meu lado e puxa conversa

Deram para surgir espinhas no meu rosto a essa altura da vida. Deve ser o chocolate amargo. Três quadradinhos de uma barra 80% cacau e um pequeno cálice de Lemoncello ou Cointreau, lá pelas 10 da noite, e a felicidade, tão metida a difícil, se senta ao meu lado e puxa conversa.  

Aciono o portão da garagem com o controle remoto e, enquanto a operação não se conclui, abro o Spotify e escolho uma música aleatória na playlist. Saio com o carro sonorizado e a sensação de que vou pegar a estrada, o que não é verdade, estou apenas indo ao mercado, mas na minha imaginação a mochila está jogada no banco de trás e em poucas horas verei o mar.

Sonolenta em frente ao computador, entra um áudio de oito minutos de uma amiga que mora fora do Brasil, e eu que, ao contrário de tanta gente, adoro um áudio longo, sem jamais acelerar a gravação, me atiro no sofá rindo sozinha das maluquices que ela apronta e me comovo com a perícia com que ela usa as palavras, e no mesmo instante respondo com um áudio mais longo ainda, e a gente fica o resto da tarde nessa visita sonora e vadia que salva nossa quinta-feira, ou quarta, ou terça.    

Em frente aos cabides que eu queria que fossem de madeira, mas são de plástico, seguro a ponta da toalha que encobre meu corpo úmido enquanto escolho com que roupa eu vou, e não estou indo para nenhuma balada, e sim a um cinema em que ficarei no escuro, mas valorizo o ritual de me vestir de acordo com meu espírito, mais do que com a temperatura lá fora, o que me faz, às vezes, colocar uma jaqueta em dias escaldantes, sempre a alma na contramão – nunca fiz selfies dentro do elevador.   

O namorado custa a visualizar minhas mensagens no WhatsApp e me irrito por essa bobagem, prendo e solto o cabelo que ainda não cortei, as canetas somem, nunca sei o volume de água que minhas orquídeas precisam, leio as projeções de uma astróloga americana e meu inglês vem melhorando, mas sobre meu futuro, só sei que daqui a três dias jantarei na casa de uma amiga que cozinha melhor do que qualquer Masterchef.

Segunda passada acordei com uma angústia que até me assustou, no dia seguinte passou. Ainda não sei que título colocar em meu novo livro, minhas unhas não crescem desde a pandemia, acho que foi pelo excesso de álcool gel, mas pode ser falta de vitamina. O mundo gira e ando exausta de tantos fatos insólitos, então saio de fininho. Chocolate amargo não é ruim como pensam. Tomara que toque agora uma música que dê vontade de viajar. Nasci privilegiada, mas tem dedo meu nesta serenidade. Não dou muito trabalho ao meu anjo da guarda, Leão e Capricórnio se complementam no meu mapa astral e, sinceramente, ando de boa com a vida banal.


27/05/2023 - 09h00min
CLAUDIA TAJES

Se milhares de pessoas gritam ofensas racistas e ninguém reage, então todos são racistas

Agora eu pergunto: quantos tiveram nomes e fotos expostos em sites? Eu respondo pra facilitar: zero

O problema é que o preto retinto que ele é continuou a fazer mal, dentro de campo, aos adversários; E isso o branco espanhol, pelo jeito, não perdoou

Vinícius Junior, que no Brasil era chamado de Vini Malvadeza pelo estrago que fazia nas defesas alheias, parou de usar esse apelido no Exterior para não ter alguma conotação negativa associada ao seu nome. O problema é que o preto retinto que ele é continuou a fazer mal – dentro de campo – aos adversários. E isso o branco espanhol, pelo jeito, não perdoou.

Vini Jr., 22 anos. Imagine o seu filho de 22 anos sendo ofendido por um estádio inteiro. Foi o que eu disse para um conhecido, que relativizou. “Ah, jogador de futebol está acostumado a ser xingado, sem falar que eles ganham milhões, o dinheiro compensa. Amanhã ele já esqueceu”. Será que o filho dele esqueceria?

Tem o ditado alemão que a gente volta e meia repete: se 10 pessoas estão numa mesa, um nazista senta e ninguém se levanta, então existem 11 nazistas na mesa. Se milhares de pessoas gritam ofensas racistas e ninguém reage, então todos são racistas.

Quem inventou que querer é poder só contribuiu para aumentar uma coisa em seu público-alvo, a frustraçãoQuem inventou que querer é poder só contribuiu para aumentar uma coisa em seu público-alvo, a frustração

O ex-árbitro Márcio Chagas, que sofreu um dos ataques mais revoltantes de racismo ao apitar um jogo na serra gaúcha, ele que foi agredido e teve o carro estragado dentro do estádio, ouviu do advogado do clube: “Chamar os negros de macacos não é ofensivo, eles nem dão bola, mas se deparar com o carro com as portas amassadas a pontapés, isso, sim, é doloroso para um homem, conforme a propaganda dos postos Ipiranga, pois brasileiro é apaixonado por carros”.

Parece stand-up daquele tal de Léo Lins, mas foi o que aconteceu no Tribunal de Justiça Desportiva do Rio Grande do Sul. Sobre a pena aplicada, essa, sim, foi risível.

Desde 2019 a FIFA lançou um código disciplinar de combate ao racismo que transfere para o árbitro a responsabilidade sobre os casos ocorridos na partida. Márcio Chagas observa que não existe sequer um árbitro negro apitando nas competições da Europa e pergunta: qual árbitro branco vai comprar essa luta?

O que apitou a partida entre Valencia e Real Madrid, com certeza, não. Tanto que nem relatou as agressões a Vini Jr. na súmula. Quando o episódio ganhou o mundo, o sujeito viu-se obrigado a rabiscar um PS. Só faltou escrever: é verdade esse “bilete”. Do VAR que expulsou o jogador também é melhor não se esperar muito.

Anielle Franco, a Ministra da Igualdade Racial, foi a público defender Vini Jr. O Itamaraty convocou a embaixadora da Espanha. Já o embaixador brasileiro em Madrid está em contato com a La Liga e com autoridades espanholas. Isso para a defesa justificadíssima de um cidadão brasileiro. Mas para os milhões que sofrem com o racismo todos os dias, há um gigantesco trabalho a fazer. Aliás, viu qual a principal característica para as polícias gaúchas abordarem alguém, segundo pesquisa que saiu nessa semana? Ser negro.

Vini Jr. publicou em suas redes um desabafo sobre o que vem passando. Se você ler e não ficar abalado, desculpe a sinceridade. Você é racista.

“A cada rodada fora de casa, uma surpresa desagradável. E foram muitas nessa temporada. Desejos de morte, boneco enforcado, muitos gritos criminosos. Tudo registrado. Mas o discurso sempre cai em “casos isolados”, “foi apenas um torcedor”.

Não, não são casos isolados. São episódios contínuos espalhados por várias cidades da Espanha (e até em um programa de televisão). (...) Agora eu pergunto: quantos desses racistas tiveram nomes e fotos expostos em sites? Eu respondo pra facilitar: zero. Nenhum pra contar uma história triste ou pedir aquelas falsas desculpas públicas. O que falta para criminalizarem essas pessoas? E punirem esportivamente os clubes? Por que os patrocinadores não cobram a La Liga? As televisões não se incomodam de transmitir essa barbárie a cada fim de semana? O problema é gravíssimo e comunicados não funcionam mais. Me culpar para justificar atos criminosos também não. No es fútbol, es inhumano”. Não é futebol. É crime.



03 DE JUNHO DE 2023
PETRÓLEO E COMBUSTÍVEIS

PETRÓLEO E COMBUSTÍVEIS

Uma refinaria gaúcha com histórico de vanguarda

Prestes a virar biorrefinaria, a Riograndense tem trajetória que ajuda a contar as transformações pelas quais passa o setor

A Refinaria de Petróleo Riograndense (RPR) receberá investimentos de R$ 45 milhões para dar início à fase de testes industriais para produtos petroquímicos e combustíveis 100% renováveis. A unidade de Rio Grande - hoje gerida por Petrobras, Braskem e Ultra - será a primeira biorrefinaria brasileira.

A movimentação, avalia o ex-superintendente de Abastecimento da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e economista-chefe da consultoria ES Petro, Edson Silva, demarca a sintonia "necessária" da Petrobras com a dinâmica da transição energética de uma economia fundamentada em carbono (petróleo) para outra descarbonizada (biocombustíveis).

Da mesma forma que o etanol responde por um percentual na composição da gasolina (ou seja, diminui a quantidade de combustível fóssil na fórmula), o biodiesel que deverá ser produzido pela Riograndense é adicionado ao diesel comum, que é um dos derivados do petróleo.

Silva afirma que se trata de outro episódio de pioneirismo na trajetória da Riograndense, a primeira refinaria a entrar em operação no país, na década de 1930. Também avalia que o aporte permite reposicionar a empresa no mercado.

Potencial

Segundo ele, a RPR "perdeu seu peso ao longo do tempo", mas já foi uma das mais importantes e teve o auge em 2012, quando processou 934 milhões de litros de petróleo. Atualmente, representa só 0,6% da demanda por refino no país.

- Esse investimento reposiciona a RPR. Não será uma refinaria expressiva, até pelo seu porte, mas o objetivo não é esse, e sim o de aumentar a capacidade, coisa que já ocorre, pois no primeiro trimestre o processamento avançou 169% na comparação com 2022. De modo que o que assistimos agora é curioso. Foi a primeira refinaria e vai ser a primeira biorrefinaria. É algo icônico para entender o vaivém dos investimentos, sobretudo os da Petrobras nesse segmento ao longo dos anos - diz Silva.

Diretor da consultoria Maxiquim, João Luiz Zuñeda explica que o mercado em que a Riograndense será inserida, o de biodiesel, tem muito potencial. Ele lembra que, em 2022, as distribuidoras nacionais revenderam 63 bilhões de litros de diesel.

Nesse cálculo, comenta, estão incluídos percentuais de biodiesel acrescentados à fórmula, hoje, em torno de 10%. E a tendência é que a demanda aumente com o passar dos anos, em razão de movimentações que preveem elevar a adição mínima de biodiesel em cada litro de diesel.

- É preciso olhar esse anúncio por dois aspectos. O primeiro e mais importante é a retomada dos aportes na refinaria mais antiga do país e que está ao lado de um grande porto, o que gera benefícios para Rio Grande e todo o Estado. Os biocombustíveis são o tema do momento no mercado mundial e têm evolução garantida na demanda interna - destaca.

Silva complementa que a Riograndense continuará processadora de petróleo e, simultaneamente, uma produtora de biodiesel.

Alguns números

Empregos gerados hoje

320 vagas diretas.

150 contratos terceirizados.

2 mil postos de trabalho indiretos na cadeia produtiva.

Vendas de produtos

Em 2022, as vendas de derivados atingiram o volume de 772 mil metros cúbicos, alta de 1,4% sobre 2021.

No ano, foram comercializados 73 mil metros cúbicos de diesel S10, o maior volume da história.

Em igual período, a refinaria entregou 71 mil metros cúbicos de nafta petroquímica, o maior volume desde 2009.

Produção e mercados

A participação no mercado gaúcho de derivados de petróleo foi de 7,5% em 2022.

No ano anterior, respondia por 11% dos derivados de petróleo do RS.

Mas implantou estratégia de abertura de novos mercados para captura de melhores retornos.

Foram 29 mil metros cúbicos pelo modal marítimo (cabotagem) no mercado nacional e 43 mil metros cúbicos para países do Mercosul.

O volume total de exportações, marítimas e rodoviárias, atingiu 52 mil metros cúbicos em 2022.

Com a produção de biodiesel e a localização próxima do porto de Rio Grande, a refinaria está apta a desbravar outros mercados.

Breve perfil

Inaugurada em 7 de setembro de 1937, em Rio Grande, a então denominada Refinaria Ipiranga foi a primeira a processar petróleo no país.

O início da trajetória do grupo remete a 1933, quando os empresários brasileiros João Francisco Tellechea e Eustáquio Ormazabal se associaram a empresários argentinos e fundaram a Destilaria Rio-Grandense de Petróleo SA, em Uruguaiana, na Fronteira Oeste.

No ano seguinte ao início das operações em Rio Grande, por força de um decreto assinado por Getúlio Vargas em abril de 1938, a industrialização do petróleo foi nacionalizada ao ficar definido que só poderiam ser acionistas de refinarias os brasileiros natos, o que gerava conflitos em razão da composição do Grupo Ipiranga.

Após rearranjos para recomprar a participação dos estrangeiros, em 1997 uma nova lei reconduziu as diretrizes do setor petrolífero do país para a iniciativa privada, algo que não acontecia desde 1953. Na esteira dessa lei, a 9.478, os mecanismos de preços, produção e vendas das refinarias existentes seriam desregulamentados, inclusive nas privadas. Entre elas, estava, outra vez, o então Grupo Ipiranga, hoje, Refinaria Riograndense.

Nesse momento, a empresa encerrava período de 45 anos de restrições impostas à sua produção, devido a um acordo de transição fixado no passado e que limitava a capacidade anual de processamento de petróleo. Em 1999, atingiu a marca de 12 mil barris refinados diariamente, alta de 30% sobre os níveis permitidos até então.

Com mais flexibilidade e o aproveitamento das unidades em consonância com as demandas do mercado, sobretudo de diesel, em março de 2007 o controle acionário das Empresas Petróleo Ipiranga foi vendido e adquirido por Petrobras, Ultrapar e Braskem.

Em 2009, assumiu a nova identidade e passou a se chamar Refinaria de Petróleo Riograndense (RPR), mesmo ano em que alcançou 13.858 barris/dia. Hoje produz em média 15 mil barris a cada 24 horas.


03 DE JUNHO DE 2023
DIÁRIOS DO PODER

O impressionante PIB da Polônia

Segundo a consultoria Austin Rating, o Brasil foi o quarto país que mais cresceu no trimestre, se tomarmos as nações que divulgaram, até agora, o desempenho de seu Produto Interno Bruto (PIB). O Brasil compartilha a posição no ranking com a Tailândia. Ficamos atrás apenas de Hong Kong, Polônia e China, e à frente de Portugal, Croácia e Colômbia, Estados Unidos, Filipinas, México e Malásia.

Há um ponto fora da curva: o desempenho polonês, que surpreende.

Vizinha da Ucrânia, a Polônia foi o primeiro país a sofrer diretamente os impactos da guerra que se estende na região há mais de um ano. Sua população aumentou exponencialmente em semanas em fevereiro e março do ano passado devido à onda de refugiados que fugiam do conflito ali do lado. Nos meses seguintes, a Polônia, integrante da Otan, ficou exposta ao risco de um ataque russo que, certamente, levaria ao transbordamento da guerra para além das fronteiras ucranianas. Mísseis de Vladimir Putin, de fato, chegaram a cair muito próximo ao seu território.

Some-se a isso a decisão do governo polonês de aumentar os gastos em defesa para 3% do PIB (antes era 2%, em observância à recomendação da Otan). O país, que guarda resquícios cada vez menos visíveis da antiga Cortina de Ferro, integra a União Europeia, mas não faz parte da zona do euro, adotando ainda a sua moeda nacional, o zloty.

Mesmo assim, a Polônia cresceu 3,8% entre janeiro e março, ficando à frente do gigante chinês (2,2%). Como?

Parte da resposta deve-se ao fato de a economia polonesa ter conseguido manter sua recuperação após o clímax da pandemia. A indústria e as exportações tiveram bom desempenho. Paralelamente, a inflação diminuiu.

Percebe-se que, na zona do euro, apenas Portugal e Croácia se destacam entre os 10 primeiros colocados. Os países da região que adotam a moeda única tiveram o menor crescimento médio no primeiro trimestre do ano (0,1%). A Alemanha recentemente confirmou que está em recessão técnica. O Reino Unido escapou até agora, mas seu PIB vem crescendo a uma taxa de apenas 0,1% nos últimos dois trimestres consecutivos.

Na América Latina, além do Brasil, Colômbia e México aparecem entre os 10 primeiros.

Um olhar político sobre esses governos diz muito pouco sobre o desempenho do PIB: Hong Kong caminha para ser anexada completamente por Pequim e, dia após dia, perde autonomia. A Polônia é governada por Andrzej Duda, apoiado pelo partido de extrema direita Lei e Justiça (PiS), conhecido pela agenda iliberal. A China comunista centraliza cada vez mais poder em torno de Xi Jinping.

No Brasil, economistas avaliam que o bom resultado ainda não é reflexo do governo Lula.

Na Tailândia, que compartilha com o Brasil o quarto lugar, partidos de centro esquerda venceram as recentes eleições, derrotando o governo apoiado pelos militares no poder desde o golpe de 2014.

Portugal, assim como o Brasil, é governado pela centro esquerda, mesmo caso da Colômbia, onde Gustavo Petro venceu no ano passado.

O desempenho dos EUA, em sétimo lugar, deixou a desejar: cresceu 1,3%. O fantasma da recessão não foi afastado.

Na economia globalizada, em uma Europa ainda em guerra e com o mundo se recuperando dos efeitos da covid-19 em diferentes velocidades, vale comemorar o PIB brasileiro, mas é importante não tirar os olhos dos demais países.

RODRIGO LOPES

03 DE JUNHO DE 2023
CAMPO E LAVOURA

Os ingredientes da queda no preço do frango em maio

Pegue um ingrediente sazonal, misture com outro conjuntural e acrescente uma pitada de especulação. Essa é a receita que embasa o recuo no preço médio do frango em maio, conforme levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea)/Esalq. No frango inteiro congelado, houve redução de 1,1% no atacado da Grande São Paulo, ficando o quilo em R$ 6,98. Em Porto Alegre, a diminuição também foi registrada, mas de forma mais sutil: 0,4%, com o quilo a R$ 9,09.

A queda se intensificou na segunda quinzena, puxada pela demanda enfraquecida. Um movimento usual para esse período do mês, explica a analista de mercado do Cepea Juliana Ferraz:

- No começo de maio, tínhamos observado uma melhora nos preços dos produtos de frango em geral. Com o avanço do mês, acabaram cedendo. Tradicionalmente, o consumo cai na segunda metade do mês.

Outros fatores se somaram à composição dos valores. Juliana cita a perda da força das exportações em relação a abril e o recuo nos valores de outras proteínas animais.

- Mas esse movimento de queda em maio está relacionado principalmente a uma menor procura - reforça a analista.

Ainda que os casos de influenza aviária detectados no Brasil tenham sido, até o momento, em aves silvestres, a chegada do vírus mexeu com o mercado interno, adicionando uma pitada de especulação.

- Isso faz parte também do nosso plano de contenção. Caso se acentuar, provavelmente as indústrias, por iniciativa própria, podem revisar seu planejamento de produção, até porque é preciso fazer frente aos custos - pontua José Eduardo dos Santos, presidente da Associação Gaúcha de Avicultura (Asgav).

Como mantém o seu status sanitário internacional, porque os casos seguem longe das granjas comerciais, o Brasil, maior exportador mundial de frango, segue com as portas abertas a seu produto. Como a entrada do vírus nesse circuito pode trazer grandes perdas, com eventuais restrições de mercado, a prevenção foi reforçada para o nível máximo. Juliana acrescenta que produtores, Ministério da Agricultura e indústria "terão de continuar trabalhando com sinergia".

- Para enfrentar esse encontro de questões, o setor agirá com cautela, observando até o final de junho. Se a retração continuar, o planejamento é diminuir o ritmo. Temos de estar preparados para uma potencial redução na oferta - pondera Santos.

Equipes mantêm vigilância no Taim

Equipes da Secretaria e do Ministério da Agricultura seguem neste sábado na Lagoa da Mangueira, em Santa Vitória do Palmar, para continuar o trabalho de vigilância no local onde houve a confirmação do primeiro foco de influenza aviária no Estado.

Na sexta-feira, mais cinco cisnes-de-pescoço-preto foram encontrados mortos na Estação Ecológica do Taim, ampliando para 70 o número de mortes de aves silvestres em razão do vírus. A espécie é a mesma que teve o diagnóstico confirmado por meio de amostras coletadas.

Diretor-adjunto do Departamento de Vigilância e Defesa Sanitária Animal da secretaria, Francisco Paulo Nunes Lopes disse que foram vistoriadas cerca de 80 propriedades de subsistência - e nenhum animal sintomático ou morto foi encontrado.

no radar

Na próxima segunda-feira, a partir das 13h, a Estação Experimental da Embrapa no município de Capão do Leão organiza o Dia de Campo Cultivos de Inverno em Terras Baixas. A ideia é apresentar tecnologias e alternativas de produção de cereais de inverno para a região. O evento é aberto ao público, mas recomenda-se inscrição prévia no site da instituição.

Conquista celebrada

É com entusiasmo - e um prêmio na bagagem - que a gaúcha Fabiane Kuhn (foto) desembarca para sua primeira aventura em solo chinês. Ela é uma das seis brasileiras reconhecidas com o Prêmio Mulan no BRICS Women Innovation Contest, que reconhece mulheres empreendedoras de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Embora tenha sido agraciada na edição de 2021, é agora que ela vai poder celebrar a conquista, em razão das restrições impostas à época pela pandemia. Deste sábado até o dia 12, ela participa de uma imersão na China, organizada pela Aliança Empresarial de Mulheres do BRICS (BRICS WBA).

E como foi parar lá?

A partir do trabalho desenvolvido à frente da Raks Tecnologia Agrícola, startup com sede no Tecnosinos, em São Leopoldo, da qual é cofundadora e CEO, e que criou um sistema de uso inteligente da irrigação.

- Hoje a Racks é uma empresa jovem, com fundadores jovens, e esses reconhecimentos vão dando credibilidade para o trabalho que estamos fazendo, sério, reconhecido - avalia Fabiane.

A tecnologia que faz da China uma referência mundial e o fato de o país asiático ser o número 1 em áreas irrigadas são dois fatores de grande expectativa na visita:

- É um mercado com potencial muito grande para nós. Espero conseguir entender um pouco como funciona a dinâmica do agronegócio e da irrigação, as possibilidades de expansão futura, de conexões, e aprender muito sobre como fazem tecnologia e as práticas de irrigação.

Sendo a mais nova do grupo que está indo para a China, ela também quer mostrar o empreendedorismo feminino jovem e colocar a tecnologia feita aqui no "mapa global". Técnica em Eletrônica e graduada em Ciência da Computação, foi no ambiente da pesquisa que Fabiane acabou se conectando ao universo do agronegócio, gerando uma sinergia que veio para ficar.

CAMPO E LAVOURA

03 DE JUNHO DE 2023
FÁBRICAS

Produção industrial registra queda de 0,6% em abril

A produção industrial brasileira recuou 0,6% em abril. O resultado ocorreu depois da alta de 1% em março. Naquele momento, o percentual interrompeu dois meses seguidos de redução.

Na comparação com igual mês do ano passado, a produção da indústria recuou 2,7%. O acumulado do ano apresenta queda de 1% e, em 12 meses, mostra variação negativa de 0,2%.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que divulgou na sexta-feira os dados da Pesquisa Industrial Mensal (PIM), com esses resultados a indústria ainda se encontra 2% abaixo do nível pré-pandemia (fevereiro de 2020) e 18,5% aquém do ponto mais alto da série histórica, obtido em maio de 2011.

O gerente da PIM, André Macedo, observou que diferentemente dos últimos três meses do ano passado, quando houve saldo positivo acumulado de 1,5%, no início de 2023 há uma maior presença de resultados negativos. "Em abril, observamos uma maior disseminação de quedas na produção industrial, alcançando 16 dos 25 ramos industriais investigados. Esse maior espalhamento de resultados negativos não era visto desde outubro de 2022", ressaltou, em texto publicado pelo IBGE.

Influências

Conforme a pesquisa, produtos alimentícios (-3,2%), máquinas e equipamentos (-9,9%) e veículos automotores, reboques e carrocerias (-4,6%), foram as principais influências negativas para o desempenho do indicador em abril. Entre as três influências, o setor de produtos alimentícios foi o responsável pelo maior impacto negativo no resultado deste mês, ao ter o quarto mês seguido de recuo na produção. No período, a perda acumulada é de 7,3%.

De acordo com o gerente, anteriormente à sequência de retrações, o setor teve resultados positivos por três meses consecutivos, o que resultou em um ganho acumulado de 20,2%, o que, para ele, ainda significa um saldo positivo.


03 DE JUNHO DE 2023
DADOS DE MAIO

Vendas de motos voltam a bater as de automóveis

As vendas de motos seguem em forte crescimento e já superam as de carros de passeio no acumulado do ano. Conforme balanço divulgado na sexta-feira pela Fenabrave, associação que representa as concessionárias, 161,4 mil motocicletas foram comercializadas no mês passado, 21% acima do volume de maio de 2022. Na comparação com abril, a alta foi de 33,5%.

O número ficou acima dos 127,5 mil automóveis de passeio emplacados no mês passado. No acumulado desde o primeiro dia do ano, as 639,4 mil motocicletas vendidas (crescimento de 24%) também superam os menos de 600 mil carros comercializados de janeiro a maio.

O resultado reflete a expansão dos serviços de entrega (delivery) e a busca do consumidor por veí­culos não só mais baratos, como também mais econômicos no consumo de combustível. Segundo o presidente da Fenabrave, José Maurício Andreta, apesar do cenário desafiador de crédito, a demanda por motocicletas segue alta, com os consumidores absorvendo o que a indústria produz.

- Muitos têm usado as motocicletas em substituição ao automóvel, por conta da economia de combustível e pelo próprio preço de aquisição - comentou.


03 DE JUNHO DE 2023
INFORME ESPECIAL

Por cidades mais "caminháveis"

Só se conhece verdadeiramente um lugar caminhando. Estima-se que uma pessoa saudável percorra, em média, 1,2 metro por segundo a pé. A velocidade reduzida ajuda o pedestre a voltar a enxergar a cidade ao redor, em todos os detalhes, belos e sórdidos, imperceptíveis da janela do carro.

Caminhar é um ato ancestral cada vez mais raro, solapado por uma urgência sem sentido. "Time is money", reluz o letreiro em neon piscando no alto de nossas cabeças. É preciso produzir, ganhar dinheiro, ser bem-sucedido. Se você for caminhando, esqueça: não haverá a tempo. Vá de carro. E fique preso no congestionamento.

Invejo os franceses, que têm até um termo para designar o caminhante sem destino, andarilho errante. Le flâneur. Nada mal "flanar" em Paris, perambulando nos grandes bulevares. Não estou na Cidade Luz, mas faço gosto de palmilhar as ruas nem sempre alegres de Porto Alegre (fotos). Tem lá seu charme.

Mover as pernas tornou-se algo tão importante nesse mundo de ponta-cabeça que, nas pesquisas de mobilidade urbana, ganha força um conceito de nome engraçado: "caminhabilidade", tradução de "walkability", em inglês.

Um dos primeiros estudos sobre o tema é do início dos anos 1990. Foi produzido por um canadense chamado Chris Bradshaw, em Ottawa. Desde então, a ideia se espalhou. Aqui, também temos um Índice de Caminhabilidade. O iCam foi lançado em 2016 pelo Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP Brasil), em parceria com uma série de pesquisadores. Composto por 15 indicadores, o índice ajuda a medir as condições do espaço urbano pela ótica de quem anda.

Não basta querer: é preciso se sentir seguro para caminhar e, no mínimo, ter calçadas decentes, com acessibilidade - afinal, todos temos os mesmos direitos. Há cidades onde isso é prioridade. Dê um Google em Hamburgo, na Alemanha, por exemplo. A urbe decidiu, ainda em 2014, tirar os carros das ruas em 20 anos. Veja o caso de Berlim, que criou uma legislação exclusiva para pedestres.

Estamos milhares de quilômetros atrás nessa caminhada, retardatários comendo poeira e fumaça de veículos movidos a combustíveis fósseis. Mas é bom nunca esquecer: andar é de graça, é ecológico, é democrático e faz um bem danado. Mudar essa realidade depende de nós.

INFORME ESPECIAL

quinta-feira, 1 de junho de 2023


01 DE JUNHO DE 2023
CARPINEJAR

Marco da omissão

Nossa memória nacional dura somente seis meses. Acredito firmemente que tudo de pior que acontece no país é esquecido no período de um semestre.

A amnésia nos cobre de injustiça. Em janeiro, testemunhamos o genocídio indígena, com registros assustadores de crianças yanomami adoecidas em Roraima, deitadas na rede com todas as costelas aparecendo, consumidas pela verminose e desidratação. Cerca de 10.193 menores estavam desassistidos. Cinquenta e dois por cento dessas crianças se mostravam desnutridas, índice que em comunidades de difícil acesso chegava a 80%.

Agora, a comiseração venceu sua data de validade e é aprovado na Câmara Federal o projeto do marco temporal, o que significa na prática a ausência de defesa dos povos originários contra ataques dos garimpeiros e exploração ilegal das madeireiras.

O projeto determina que as etnias só poderão reivindicar a demarcação de terras nas quais já viviam antes da Constituição de 1988. Ignora monstruosamente a desigualdade, a penúria e a violação histórica das demarcações. Centenas de comunidades foram expulsas de suas terras, seja por disputas com latifundiários ou grileiros, seja por omissão do governo; seja por catástrofes naturais, seja por doenças como malária que proliferaram por falta de insumos.

Ou seja, neutralizaremos qualquer revisão justa diante de expropriações indevidas. Não teremos como voltar atrás para repor áreas ocupadas ilegalmente. Isso, de modo nenhum, garante a sobrevivência indígena. É o caminho da sua extinção. Impede que a política de demarcação faça a correção dos seus erros ao longo de mais de três décadas.

Não haverá mais o ressarcimento de reservas, apenas o controle das que já existiam (e que não foram dizimadas) a partir da data da Constituição. Se parte foi tomada ou roubada antes, não terá quem possa recuperá-la.

Existem 300 processos de demarcação pendentes que vão prescrever, em sua maioria, em nome da segurança jurídica nacional (com o intuito de conter uma expansão ilimitada para áreas já incorporadas ao mercado imobiliário ou que se encontram em usufruto de agricultores).

É uma anistia descarada aos agressores, já que muitas comunidades foram impedidas de permanecer em seus territórios. Repetimos 1979 em 2023, estendendo a isenção dos crimes políticos para os ambientais. Como no fim do regime militar, qualquer contravenção contra os povos originários antes de 1988 será esquecida.

Houve votos favoráveis de 283 deputados, que, inflamados pela cobiça do agronegócio, temiam que os 14% da área indígena atual protegida no Brasil dobrasse de tamanho por direito. Não enlouqueceram, não se posicionaram de costas para uma reeleição futura, sabem que seus eleitores têm memória curta. Daqui a seis meses, todo mundo esquece.

Ou é esperar o corretivo da nossa deslembrança geral pelo Supremo Tribunal Federal (STF), com forte tendência a decidir contrariamente ao projeto aprovado pela Câmara, aumentando ainda mais a briga entre os poderes.

CARPINEJAR

terça-feira, 30 de maio de 2023


O remédio dos lençóis

Quando estou triste, uso um método eficaz: troco a muda de roupa da cama. Dificilmente a minha melancolia, o meu abatimento, a minha mágoa resistirão a lençóis perfumados. É um bem-estar indescritível esticar os pés no fundo deles. Deslizam na sensação de frescor.

Fico com a impressão de que a cama é nova com o incenso da lavanda. O edredom lavado completa o trabalho de reposição de energias. Ocorre uma fotossíntese entre os tecidos e a minha pele: aqueles lençóis limpos, que passaram por horas de sol, transmitem a sua luz para mim.

A fronha não estará mais marcada pelo suor dos cabelos, não terá o peso dos serões difíceis. Trata-se de uma reestreia, a página do calendário virada, a despedida dos problemas antigos. Se a cama estiver com o cheiro vencido, com o cheiro usado do corpo, de quem rolou por ali pela insônia das preocupações, a tristeza aumenta. Sou capaz de chorar inclusive por dores antigas. Sou capaz de reprisar feridas do ego e misturá-las no coração.

Com o quadro de abandono do meu cantinho de repouso, redobram as minhas chances de isolamento e de vitimização. As lágrimas saem fáceis e fartas quando percebo que nada mudou na minha vida. Existirá um apego a um esconderijo, a uma porta fechada, ao escuro.

Diante do enxoval reposto, organizado, esticado, é como se houvesse a transposição de lugar. Por uma noite, durmo com a alma fora de casa, durmo com a alma em hotel, durmo com a alma em viagem.

Minha esposa já conhece a minha tática de dar a volta por cima no humor, o meu feng shui amador, e nem mais reclama quando substituo os lençóis antes de eles completarem uma semana. De onde vem esse remédio caseiro, que não exige nenhuma receita médica?

Do quintal da minha infância. Da alegria de correr no pátio com os lençóis estendidos no varal, devidamente levantados por uma vara para suas bordas não tocarem no chão. Eu atravessava paredes de pano para poder brincar nos extremos do nosso terreno e alcançar a bergamoteira e o abacateiro. Serviam de biombos a meu teatro de fantoches, de obstáculos ao pega-pega com os irmãos.

Eu encostava a testa no lençol úmido, esticando-o ao máximo pelo rosto, até chegar ao outro lado. Ia e vinha sem parar.

Eu me enxergava curado com as repentinas compressas geladas pela cabeça. Para uma criança pequena, não deixava de ser uma aventura não enxergar o que tinha pela frente. Querer descobrir o futuro é estresse do adulto. Querer controlar o futuro é o que nos adoece.

Naquele tempo da minha meninice, bastavam o sol lá fora e um dia de cada vez. Os lençóis simplesmente me devolvem uma época feliz da minha existência, em que nada sabia e tudo sentia, em que eu era livre e solto pelo mundo.

CARPINEJAR 

sábado, 27 de maio de 2023



27 DE MAIO DE 2023
BRUNA LOMBARDI

BASTA UMA SÓ MULHER PARA FAZER UM PAÍS MAIS FELIZ

Assim como toda criança nasce feliz, dentro de todo adolescente que se preze tem que ter uma boa dose de rebeldia. Que vai desde? "o mundo não me compreende?" até "quero mudar tudo porque não concordo com nada!". A proposta nessa época da vida é sempre grandiosa, ousada, tem a audácia dos que sonham.

Todo jovem saudável tem uma natureza inconformista, sente que não pertence, acha tudo um absurdo. Quer ir contra o status quo, não quer repetir os erros das gerações que o antecedem.

Ele veio pra mudar todas essas convenções idiotas que não o traduzem. O que fazer e por onde começar? E como diz a canção, se os nossos ídolos ainda são os mesmos, vamos também sem perceber, acabar sendo como os nossos pais?

Mas se a gente pensar bem, a cada nova geração a coisa muda aos poucos. As ideias se ampliam, uma semente desse entusiasmo fica e nos tornamos agentes de alguma transformação. Até que de repente, numa dessas, vem Rita Lee e transforma tudo em maravilha.

A nossa Santa Protetora de todas as ovelhas negras das famílias já chegou propagando rebeldia. Mostrando aos mais comportados que era possível ter liberdade, humor e fantasia. Desfraldando convenções com a magia do lúdico. Com ela é possível criar uma realidade, inventar uma persona e o resultado é a alegria geral da nação.

A Rainha do Rock da Beleza, a Feiticeira que abriu a caixa mágica da criatividade e foi nos mostrando a Sabedoria de Todas as Coisas. A mulher que um dia resolveu mudar e fazer tudo o que queria fazer. E fez. E fez muito mais por todos nós do que seria possível sonhar. Com ela o sonho nunca acabou. O sonho foi se reinventando e seguiu mutante transformando e abrindo todas as portas da sua belíssima alma.

Tive a alegria de compartilhar momentos próximos com a Rita. Teve muita troca, conversa e risada. Tínhamos em comum um instinto de desobediência, uma certa indignação e uma vontade de abraçar o mundo.

Conversei com ela algumas vezes e numa dessas gravamos meu programa Gente de Expressão. Uma conversa de intimidade, sem máscaras, uma entrega feliz. Uma vez disseram numa matéria que nós falamos sobre o prazer da mulher, ela na música e eu na poesia, de uma forma inovadora. A gente simplesmente botou nossa verdade pra fora com vontade de dizer pro mundo: chega de repressão!

Num outro grande momento tive a delícia de estar com ela no palco, carregando a netinha dela no meu colo. Um desses presentes da vida, cantando junto "Toda mulher quer ser feliz".

Rita nos deixou e o nosso desejo continua. Todas queremos ser felizes. E podemos nos ajudar umas às outras, assim como a Rita nos ajudou a todas. Ela com certeza cantou sentimentos de todas nós, explodiu a paixão e nos libertou de papéis opressores.

A coragem da Rita deixou um lastro por várias gerações e um rastro luminoso que a gente segue pra não se perder mais no caminho. Ela teve uma linda e duradoura história de amor e nos fez amar mais e melhor.

Basta uma só mulher para fazer um país mais feliz.

BRUNA LOMBARDI


27 DE MAIO DE 2023
TECNOLOGIA

OMS FAZ ALERTA SOBRE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

ORGANIZAÇÃO TEME ERROS MÉDICOS E DANOS A PACIENTES COM ADOÇÃO PRECIPITADA DA IA

A Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou recentemente um comunicado que pede cautela no uso de inteligência artificial (IA) "para proteger e promover o bem-estar, a segurança e a autonomia humanas e preservar a saúde pública". Na avaliação da OMS, falta a preocupação comum à inserção de tecnologias em saúde.

"A adoção precipitada de sistemas não testados pode levar a erros por parte dos profissionais de saúde, causar danos aos pacientes, minar a confiança na IA e, assim, minar (ou atrasar) os potenciais benefícios e usos de longo prazo de tais tecnologias em todo o mundo", diz o comunicado.

No mesmo dia, Sam Altman, diretor-executivo da OpenAI, criadora do programa ChatGPT, disse no Senado dos EUA que regular a inteligência artificial é "crucial" para limitar os riscos do uso dessa tecnologia.

A OMS preocupa-se com a possibilidade de treinamento das IAs com dados tendenciosos, geração de respostas incorretas que parecem verdadeiras e possível estímulo à desinformação. A organização recomendou que formuladores de políticas se dediquem a garantir a segurança e a proteção do paciente enquanto as empresas de tecnologia trabalham na comercialização.

Segundo a OMS, os modelos de linguagem (LLMs, em inglês) gerados por inteligência artificial, como a que compõe o ChatGPT, tentam imitar a compreensão, o processamento e a produção da comunicação humana. A "difusão pública meteórica" e o "crescente uso experimental para fins relacionados à saúde estão gerando um entusiasmo significativo", avalia.

A OMS também se diz "entusiasmada" com o uso apropriado de tecnologias, incluindo LLMs, para apoiar profissionais de saúde, mas diz estar preocupada "de que o cuidado que normalmente seria exercido para qualquer nova tecnologia não esteja sendo exercido de forma consistente com as LLMs". É "imperativo" que os riscos da adesão dessas tecnologias sejam "cuidadosamente" avaliados.


27 DE MAIO DE 2023
INFRAESTRUTURA

Gargalo para o fluxo atual de veículos

No lado brasileiro, a rodovia termina no meio da Ponte Internacional Getúlio Vargas/Agustín Pedro Justo, no quilômetro 726, que liga a cidade gaúcha da Fronteira Oeste à argentina Paso de los Libres. A estrutura, construída na década de 1940, foi a primeira travessia entre Brasil e Argentina.

A construção leva o nome dos presidentes dos dois países à época do lançamento da pedra fundamental. O combinado era de que a estrutura seria dividida em duas partes iguais, usando ferro brasileiro e cimento argentino. A inauguração, comemorada principalmente por comerciantes da região, foi em maio de 1947. Desde então, o movimento sobre a ponte aumentou, mas as pistas não foram ampliadas. Ao mesmo tempo, uma via férrea, onde passava um trilho de trem, foi desativada e hoje está coberta por vegetação.

- Foi planejada para um trânsito vicinal e muito pequeno se comparado com o que cruza hoje. Não estava nos sonhos de ninguém que cruzariam, pelo menos, 20 mil caminhões por mês - conta a diretora-executiva da Associação Brasileira dos Transportadores Internacionais, Gladys Vinci.

As intempéries do tempo e a sobrecarga de veículos sobre a ponte cobraram seu preço e, em setembro do ano passado, a estrutura apresentou rompimento na laje, na região central do arco de acesso. Em março deste ano, houve cerimônia de entrega da restauração emergencial do trecho. Segundo o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), foram investidos mais de R$ 6,3 milhões em serviços de recuperação da laje, viga e o reforço dos pilares.

O asfalto foi renovado e o guarda-corpo, pintado. Porém, passados alguns metros da parte revitalizada em direção à Argentina, já ficam evidentes buracos, sinalização apagada na pista e guarda-corpo danificado. O Dnit destaca que "no lado brasileiro da Ponte Internacional de Uruguaiana não há buracos no pavimento no momento e, quando surgem, a empresa responsável pela manutenção realiza o reparo o mais breve possível", e garante que "a sinalização é presente na ponte".

A estrutura não tem acostamento, e a pista é simples nos dois sentidos. Logo, motoristas de veículos de passeio e do transporte internacional de cargas trafegam pela mesma faixa, e não é incomum ver condutores dos veículos menores ultrapassando caminhões de maneira irregular.

O Dnit informou, em nota, que, "no que diz respeito à previsão de duplicação da ponte de Uruguaiana, o Dnit analisa reabilitação com alargamento da seção transversal. Há um projeto brasileiro pronto e estão sendo aguardadas as considerações do lado argentino para prosseguir na contratação das obras".

Gladys sugere uma solução para desafogar o movimento, que se intensifica na época do verão, quando turistas estrangeiros, principalmente argentinos, vêm passar as férias no Brasil:

- Ela tem duas calçadas laterais que não podem ser utilizadas pelos pedestres por uma questão de segurança. Elas poderiam ser retiradas para dar um espaço maior aos veículos.

A dirigente também apoia a criação de uma terceira pista que poderia ser liberada para os dois sentidos conforme fluxo ou bloqueios. Para isso, sugere um aproveitamento da estrutura que abriga o trilho desativado.



27 DE MAIO DE 2023
ACERTO DE CONTAS

Paradas de milhões

Terminou mais uma parada de manutenção da CMPC, fábrica gigante de celulose em Guaíba, na região metropolitana de Porto Alegre. O investimento foi de R$ 63,3 milhões e envolveu 3 mil profissionais de 97 empresas. Tradicionalmente, a fabricante direciona recursos para fornecedores locais. Desta vez, empresas gaúchas ficaram com R$ 25 milhões. Deste montante, R$ 14 milhões foram para companhias de Guaíba. E tem mais paradas de manutenção em 2023, ou seja, novos investimentos. Normalmente, a fábrica faz duas, mas serão três neste ano. As próximas duas serão no segundo semestre.

A do final do ano conectará os equipamentos do BioCMPC, projeto de ampliação que está com 80% das obras concluídas e soma um investimento de R$ 2,75 bilhões, antecipado pela coluna ainda em 2021.

Quando os carros ficarão populares

Após o Ministério da Fazenda definir os detalhes, a redução dos tributos dos carros será por decreto e medida provisória que passa pelo Congresso. Mas quando chega na loja? Integrante da diretoria do sindicato que representa as revendas no Rio Grande do Sul (Sincodiv-RS), Hugo Pinto Ribeiro disse à coluna que, apesar de não haver certeza de prazos, assim que sair o desconto exato para cada modelo, as lojas poderão praticar os novos preços com os estoques. O abatimento pode chegar a 10,96%.

Voo a Joinville

Começam em 1º de junho os voos diretos entre Porto Alegre e Joinville (SC). As viagens serão diárias, pela Latam em parceria com a empresa Voepass.

A rota faz parte de um combo de novos destinos que a Latam anunciou no Rio Grande do Sul, explicou à coluna o deputado Frederico Antunes, presidente da Frente Parlamentar da Aviação.

GIANE GUERRA

Tropeço na LRF adiou conta do incentivo a automóveis

Era visível o certo desconforto do vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, ao anunciar os estímulos fiscais para veículos com preços abaixo de R$ 120 mil, no Dia da Indústria.

E mais intrigante foi outro anúncio: o de que as regras ainda levariam 15 dias para ficar prontas. Não é coincidência que isso tenha ocorrido no dia seguinte à aprovação do novo marco fiscal. Na sexta-feira, os motivos apareceram: foi preciso voltar à prancheta porque a equipe do Mdic levou em conta, nos cálculos para justificar a medida, um suposto aumento de arrecadação com outro suposto aumento de vendas dessas unidades - o que a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) proíbe.

Esse cálculo é crucial porque redução de tributos significa renúncia fiscal, o que, por sua vez, implica menos arrecadação, justo quando o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, luta para enxugar a montanha de estímulos fiscais que ele mesmo estima em R$ 600 bilhões - e tenta diminuir ao menos R$ 150 bilhões, com sérias dificuldades para conseguir.

Nas contas para avaliar quanto o governo perderá em arrecadação com a redução de IPI, PIS e Cofins nos veículos de menos de R$ 120 mil, foi incluída a projeção de aumento de receita com maiores vendas. O problema é que essa é uma hipótese que carece de confirmação na vida real. Acima de tudo, é vedada pela LRF.

No anúncio, Alckmin avisou que esse estímulo seria temporário. Os problemas de Haddad para reduzir os já concedidos evidenciam que encerrar um programa como esse é ainda mais difícil do que dar a partida.

Shopping a povoar

Quem circula pelos corredores do Pontal Shopping, aberto oficialmente no final de abril, percebe que há poucas lojas funcionando - menos de um terço do total.

Conforme Ricardo Jornada, diretor corporativo da SVB Par, empresa que controla o empreendimento, há 40 unidades em operação, enquanto a ocupação total prevista é entre 130 e 140 - são 160 módulos, mas há expectativa que alguns sejam unidos por maior área.

- Os shoppings têm duas datas no ano para abrir portas, antes do Dia das Mães e antes do Natal, porque são duas datas que marcam o varejo - explica o executivo sobre a decisão de abrir as portas ao público mesmo com baixa ocupação.

E apesar do baixo número de operações já em funcionamento, Jornada diz que mais de 80% dos espaços estão comercializados, incluindo todas as âncoras.

- Cerca de um terço já está aberto, e um segundo terço deve passar a operar em 60 dias. Prevemos abrir 10 lojas a cada mês e chegar a cem no final do ano. Entre a assinatura do contrato e a abertura, há um trâmite de aprovação do projeto com o shopping, que leva de 30 a 45 dias, e as obras, que levam ao menos 60 dias.

Angelo Boff, sócio-diretor da SVB Par, afirma que o Pontal é considerado um "sucesso" do ponto de vista da comercialização:

- Temos fechado três novas operações por semana. Depois que o shopping foi inaugurado, aumentou a procura dos lojistas. As pessoas não sabiam como seria, porque o Pontal não é um shopping convencional.

Segundo Angelo, o Pontal é um complexo multiuso, mais do que um shopping. Admite que o cenário econômico impacta o varejo, mas a SVB Par aposta em atividades com "enorme potencial turístico"

MARTA SFREDO 

27 DE MAIO DE 2023
DIÁRIOS DO PODER

entrevista

ALEXANDRE BUBLITZ Pediatra que atuou na crise yanomami em Roraima.

Que realidade o senhor encontrou entre as comunidades yanomami?

Eu estava em Surucucu, onde há várias comunidades yanomami. É um lugar onde há muitos pontos de garimpo, sobretudo em regiões de rios. A grande crise humanitária ocorreu em Surucucu e Auaris. Em todas essas regiões, já existia um sistema de saúde prévio, com profissionais que faziam atendimentos. Mas, nos últimos anos, todo esse sistema de atenção aos pacientes indígenas estava debilitado. 

Houve um processo de sucateamento, não houve contratações de tantos profissionais. Junto a isso, veio o garimpo, com destruição de terras dessas comunidades, poluição dos rios e conflitos entre indígenas e garimpeiros. Essa região foi uma das mais afetadas por esse processo. Começaram a ocorrer vários problemas de saúde. Como os rios estão poluídos, fica dificultada a pesca e a caça. As terras onde havia plantações de mandioca e bananas foram afetadas. Começou a haver casos de desnutrição infantil e malária.

Como é a estrutura para atendimento médico à população indígena?

Esse local em que fiquei, Surucucu, é um polo base, um centro de referência para atendimento dessas comunidades. Sempre que havia um problema de saúde, a pessoa era levada para lá. A estrutura é composta por uma casa de madeira na qual havia local para a internação dos pacientes. Como a população indígena não usa cama, são montados leitos em redes. Depois da intervenção do governo, foram criadas tendas para maior atendimento, onde há ventilador mecânico, desfibrilador e uma estrutura para pacientes mais graves. Outra curiosidade é que, em qualquer hospital, você tem direito a um acompanhante. Lá também, dificilmente o paciente vai sozinho. Mas busca atendimento médico com um monte de gente: se vai a mãe e um dos filhos, tem de ir os demais filhos juntos.

Em que situação o senhor encontrou as crianças?

A ideia era fazer um tratamento de casos agudos, sobretudo de crianças com desnutrição. Usamos um "Middle Upper Arm Circumference" (Muac) para medir o grau de desnutrição pelo tamanho da circunferência do braço. Quando ela é menor do que 115 milímetros, a criança é classificada como desnutrida. Havia algumas com quadro de malária e outras com desnutrição crônica. Elas vinham recebendo pouco alimento havia muito tempo. Isso afeta crescimento, imunidade e desenvolvimento. Mas elas se mantinham. O problema é que, quando pegam uma doença, uma pneumonia, uma infecção intestinal ou malária, afundam. Não conseguem se alimentar direito. E aquele quadro, que é estável de desnutrição crônica, agudiza e vira uma desnutrição aguda severa. É o que a gente acaba vendo: emagrecimento nas pernas, na região das costelas, no rosto.

Qual era a sua função?

Existe lá, hoje, uma equipe com cinco médicos, todos contratados pelo programa Mais Médicos. Fomos em duas equipes, com um médico em cada, e dois enfermeiros, para darmos suporte à equipe local, que é muito boa, mas voltada para medicina de família.

Que dificuldades havia para trabalhar?

Há várias questões culturais que são difíceis. A língua yanomami naquela região não tem números. Eles não contam as coisas com números. Se preciso dar um antibiótico, que a gente tem de fazer uso de oito em oito horas por sete dias, por exemplo, não consigo prestar esse tratamento. Então, fazemos de forma assistida: precisa ter alguém que vá lá, dê o remédio, veja que a pessoa está tomando e segurá-la pelos dias necessários. Isso dificultava muito nosso trabalho. O próprio entendimento de saúde que aquela população indígena daquela região tem é muito mais vinculada a uma questão espiritual. (...) Quando você precisa internar um paciente, pegar um acesso, colocar uma sonda, isso causa uma estranheza muito grande e, por vezes, é visto como uma violência para eles.

Como o senhor viu a relação dos indígenas com o garimpo?

O garimpo está presente em todos os locais. E boa parte da comunidade indígena acaba também se vinculando e trabalhando no garimpo. Essas comunidades são, muitas vezes, compradas com escambo, como há 500 anos, quando indígenas recebiam espelhos (dos colonizadores). Eles fazem essas trocas hoje: armas, sabonetes, bolachas. Os garimpeiros entram nas comunidades e compram o acesso às terras.

O senhor visualizou áreas de garimpo?

Só a partir do helicóptero. O garimpo fica sempre junto ao rio. Consegue-se ver que há o rio e, em volta, áreas desmatadas e com terra. A água é desviada para bolsões, onde é utilizada para limpar, peneirar e se fazer a retirada do material. O problema no território indígena yanomami é crônico. Hoje, existe uma situação emergencial lá, e o governo está tentando melhorar a situação daquela população, mas a gente sabe que ainda há muitas coisas por fazer. 

Esses desafios não vão ir embora tão cedo. Inclusive são desafios que existem diante da população indígena como um todo no Brasil: entre yanomami na região Norte, mas também aqui no Sul, os guaranis e os caingangues. Só vamos conseguir solucionar esses problemas quando tivermos a participação da população indígena junto, quando eles puderem tomar a frente desse processo e pudermos ouvi-los e ajudá-los nessa luta, que é de todos nós. A tragédia humanitária dos yanomami resultou na morte de pelo menos 570 crianças em Roraima e no Amazonas, segundo o governo federal. 

Diante das fotos de crianças indígenas esquálidas que chocaram o Brasil e boa parte do mundo, em janeiro, o pediatra gaúcho Alexandre Bublitz decidiu se inscrever, como voluntário, para participar da Força Nacional do SUS, que atua no tratamento emergencial das vítimas. O médico de 36 anos adiou plantões no Hospital Presidente Vargas, em Porto Alegre, e reorganizou a agenda na Unisinos, onde é professor, e embarcou em 2 de maio para o norte do país. Trabalhou, durante 20 dias, em Surucucu, a 270 quilômetros de Boa Vista. De volta à capital gaúcha, ele contou como está a crise. Confira os principais trechos.

RODRIGO LOPES