quinta-feira, 12 de outubro de 2023

A infância é uma fase crucial para o desenvolvimento humano, onde as experiências vividas nos primeiros anos de vida são fundamentais para a formação do adulto que a criança se tornará no futuro. É importante que a criança cresça em um ambiente saudável, cercada de afeto e com liberdade para brincar. O brincar é um fim em si mesmo e é uma das lições mais importantes da vida da criança. 

Além disso, a primeira infância, período que vai da concepção até os 6 anos de idade, é considerada uma janela de oportunidades crucial para a saúde, o aprendizado, o desenvolvimento e o bem-estar social e emocional das crianças. A cultura das infâncias diz respeito ao patrimônio material e imaterial das infâncias. 

O conjunto de brinquedos, brincadeiras, parlendas, cantigas, cirandas e experiências artísticas que atravessam a história são exemplos dessa cultura. Por mais que sociedades e culturas se modifiquem, e que existam muitos jeitos de ser criança, imersas em diferentes contextos, há um elemento comum que sustenta uma universalidade nas infâncias: o brincar livre. 

Quando brincam, as crianças expressam com muita potência quem elas são e percebem no mundo múltiplas possibilidades. Parabéns para a criança dentro de ti. Uma ótima quinta-feira. Feliz Dia da Criança...

sábado, 7 de outubro de 2023


07 DE OUTUBRO DE 2023
DRAUZIO VARELLA

ABAIXO O TROTE

Passou da hora de acabarmos com essa baixaria antiquada. Entra ano, sai ano, os estudantes que ingressam nas faculdades passam por essa humilhação ridícula e violenta, fruto da boçalidade, doença contagiosa.

O último episódio foi protagonizado por alunos do curso de Medicina, num jogo de vôlei em que participavam suas colegas de faculdade. Provocaram revolta as imagens daqueles moleques abaixando as calças para encenar um ato de masturbação coletiva. Segundo dizem, eram calouros que obedeciam às ordens de veteranos tão estúpidos quanto eles.

O objetivo do trote é impor ao novato uma posição subalterna para submetê-lo aos caprichos dos já iniciados, tributo a pagar para ser admitido no grupo. O calouro aceita passar por essa experiência vexaminosa por considerá-la parte do ritual para ser aceito pelo grupo. O consolo é que no ano seguinte ele irá à forra, perpetuando a baixaria.

Como toda imposição autoritária praticada em grupo, a escalada da violência é inevitável nessas ocasiões. No meio de brincadeiras aparentemente inocentes, como impedir que um veterano imbecil seja mais agressivo? Como evitar a repetição de cenas que mais parecem sessões de tortura? Está certo fecharmos os olhos quando meninas e meninos feridos vão parar no pronto-socorro, como tantas vezes acontece?

Na faculdade em que estudei, um rapaz morreu afogado porque foi jogado numa piscina, mesmo advertindo os colegas de que não sabia nadar. Alguém foi punido por esse crime? Numa comemoração no clube dos alunos, uma menina foi estuprada por colegas, sem que ninguém fosse preso. Teria havido tamanha leniência se os estupradores fossem pretos numa festa no Capão Redondo?

No passado, o trote ocorria apenas no primeiro dia de aula. Em muitas escolas, hoje, dura meses. A masturbação dos moleques na quadra esportiva ocorreu em abril, dois meses depois do início das aulas. No Interior, onde muitos moram em "repúblicas", os abusos não se limitam ao campus universitário, são entregues a domicílio no dia a dia.

Embora essa praga esteja espalhada pelo país inteiro nos cursos mais variados, a repercussão é maior quando envolve estudantes de Medicina. A sociedade fica revoltada ao tomar conhecimento da selvageria e de atos indecorosos quando praticados por aqueles que deveriam ser preparados para aliviar o sofrimento humano, a razão de existir da nossa profissão. Que médico será esse que violenta os mais novos? Que não respeita sequer as colegas de faculdade?

Não podemos esquecer que o médico tem acesso ao corpo do outro, relação interpessoal que exige respeito máximo. O estudante de Medicina deve ser formado para assumir essa responsabilidade desde o dia em que põe os pés na sala de aula. Os professores têm o dever de prepará-lo para aprender os aspectos éticos de uma profissão que não é apenas uma ciência, mas também uma arte sem a qual formaremos maus profissionais, ainda que conhecedores das técnicas.

Essa tarefa é cada vez mais premente, a farra da abertura de novas faculdades de Medicina dos últimos 10 anos deu ao Brasil o título de vice-campeão mundial em número de faculdades de Medicina. Temos mais escolas do que os Estados Unidos e do que a China, países com mais de 330 milhões e 1,4 bilhão de habitantes, respectivamente.

Com o descaso e os baixos salários com que a carreira universitária tem sido tratada, não temos professores capacitados para formar tantos alunos. Só a metade dos diplomados encontrará vagas para os anos de residência, os demais serão jogados no mercado de trabalho, ou seja, os mais despreparados serão aqueles que nos atenderão quando sofrermos um infarto noutra cidade ou num acidente na estrada.

As faculdades de Medicina têm que dar fim à complacência diante do trote. Não é uma brincadeira de crianças, os adultos que abusam dos mais novos sabem muito bem o que estão fazendo. Dizer que o trote aconteceu fora do campus não serve de desculpa.

Medidas educativas são absolutamente necessárias, mas não suficientes: é preciso proibir e punir essa indecência que maltrata justamente os que deveriam ser acolhidos de forma civilizada no ambiente universitário.

Pelas características humanitárias da profissão, as faculdades de Medicina devem ser as primeiras. Talvez o exemplo ajude outras escolas a dar um fim nessas agressões gratuitas contra os mais jovens.

DRAUZIO VARELLA

07 DE OUTUBRO DE 2023
MONJA COEN

NADA SAGRADO

Era uma vez um monge com mais de 60 anos de idade que fez a travessia entre a Índia e a China. O Budismo havia se expandido na China e havia muitos templos, mosteiros, monásticos, tradutores, professores e praticantes. Estamos no século 6.

Quando o monge chegou, o Imperador daquela província o convidou a visitar seu palácio. Reuniu toda aristocracia e os religiosos do Taoísmo e Confucionismo para o receber, bem como monges budistas.

De frente ao trono do Imperador, o monge foi questionado: - Tenho auxiliado na construção de templos, práticas religiosas e tradução de textos sagrados. O respeitável monge reconhece que tenho grandes méritos?

O sexagenário monge, sem titubear, respondeu secamente: - Não mérito. O Imperador se mexeu no trono e franziu a testa. Como assim? E tornou a perguntar:

- Então, o que é sagrado para o honrado monge? Ele respondeu secamente: Nada. Impaciente e furioso o imperador ainda perguntou: - Quem está à minha frente? Novamente o monge respondeu com duas palavras: - Não sei.

O monge foi convidado a sair do palácio e depois de cruzar o grande rio, foi para uma caverna nos terrenos do Monte Shaolim , onde havia um grande mosteiro budista. Por nove anos manteve-se sentado, olhando para a parede, em zazen. Os outros monásticos o chamavam de monge zen, o religioso meditador voltado para a parede.

Certa ocasião, um praticante chinês pediu para ser seu discípulo. Ficou parado na entrada da caverna por dias e noites. O monge não se virou até o dia em que o chinês, desesperado, com a neve chegando até sua cintura, tomou da espada e amputou seu braço esquerdo. Ao fazê-lo deu um grito. Com isso o monge, Bodidarma, se virou. Vermelha a neve branca. O monge reconheceu a determinação e o recebeu como discípulo.

Essa história aparece em textos clássicos do Zen Budismo.

Alguns questionam se o chinês teria realmente decepado seu braço ou se era alguém que não tinha parte do braço por alguma outra situação e razão. Mas o fato é que o primeiro monge chinês do Zen Budismo não tinha parte de um dos braços. Essa história é recontada com o intuito dos praticantes perceberem que se não houver entrega completa, determinação e esforço não seremos capazes de adentrar o grande despertar.

O Monge da história é chamado de Bodidarma e é considerado o fundador do Zen Budismo na China. Esse diálogo aponta a essência do Zen. Não fazemos o bem para obter méritos, receber elogios e medalhas - foi o primeiro impacto da resposta do monge ao imperador.

Segundo, se o sagrado está presente da menor partícula ao maior espaço é impossível separar algo e dizer "isto é sagrado". "Nada sagrado" é a visão da unidade, da não dualidade, do respeito a todos os seres e todas as formas de vida.

E a pergunta final é a que peço a todos que façam a si mesmos: "Quem está à minha frente? Quem é você?". Pergunte a si: "Quem sou eu?". Enquanto houver respostas lógicas não chegamos à essência de nós mesmos. Ainda estaremos nomeando.

Além dos nomes, dos conceitos, das ideias, habitam as pessoas sábias. Entretanto, não se compare a Bodidarma nem ao Imperador. Não imite o primeiro praticante chinês e não fira seu corpo.

Pelo contrário, cuide de si, do templo sagrado do seu organismo vivo, que depende de todos os outros seres e formas de vida. Perceba o sagrado não apenas nos textos, templos, práticas especiais - mas em tudo que é, foi e será.

Dia cinco de outubro é o dia memorial do Monge Bodidarma - esta é a minha homenagem pública de gratidão e respeito. Sem ele nós não estaríamos hoje conhecendo e praticando o Zen. Mãos em prece

MONJA COEN

07 DE OUTUBRO DE 2023
J.J. CAMARGO

A INTENÇÃO SUICIDA: UM ALERTA

Um interessante - e preocupante - simpósio sobre suicídio foi realizado recentemente na Academia Nacional de Medicina, coordenado pelo Prof. Antônio Egídio Nardi, uma autoridade no assunto.

O suicídio continua sendo uma das principais causas de morte em todo o mundo, de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Todos os anos, mais pessoas morrem por suicídio do que por doenças como HIV, malária ou câncer de mama - ou guerras e homicídios. A propósito, em guerras como a do Iraque, mais soldados americanos morreram por suicídio do que em campo de batalha. Na última década, mais de 700 mil pessoas morreram por suicídio todos os anos, o que levou a OMS a produzir novas orientações para ajudar os países na prevenção dessa tragédia.

Assombra o crescimento de cerca de 200% em 10 anos da taxa de suicídio entre crianças de 10 a 15 anos. Entre os jovens de 15 a 29 anos, o suicídio foi a quarta causa de morte, depois de acidentes no trânsito e violência interpessoal.

Grandes tragédias, como a da covid-19, aumentam a incidência de suicídio pelo somatório de fatores assumidamente de risco, como perda de emprego, estresse financeiro e isolamento social. O confinamento, por ser estimulante da depressão certamente funciona como um gatilho para muitas dessas mortes intencionais.

As artes em geral, e especialmente a literatura e o cinema, têm alertado de maneira construtiva sobre a importância da informação no reconhecimento dos indícios da intenção suicida, e que podem ser explícitas ou sutis, mas nunca devem ser ignoradas. Praticamente sempre, com o suicídio consumado, vêm à lembrança atitudes ou frases aparentemente desconexas, que tinham a clara intenção de um pedido de socorro. 

Foi assim com um conhecido meu, que meses depois do suicídio do pai me confessou que se sentia muito culpado por ter desentendido o objetivo daquele conjunto de informações sobre finanças da família, e que ele, tolamente, interpretara como um sinal de ter, finalmente, granjeado a confiança do seu velho. A consciência tardia e irreparável de que aquela conversa era o anúncio da sua trágica decisão provavelmente o manterá culpado pelo resto da vida.

Outras vezes a intenção é completamente insuspeitada, como a de uma jovem que, conforme as câmeras do Centro de Transplante, entrou cantarolando no meio da tarde e, quando foi encontrada morta no banheiro, tinha um revólver na mão ensanguentada, além de um bilhete: "Sou doadora de órgãos".

Quando comecei a trabalhar com transplante de pulmão, fiquei chocado com a descoberta de desiludidos que, ao serem apresentados ao programa de preparação para que se tornassem os melhores candidatos ao sucesso do procedimento, assumiam que não tinham ânimo para enfrentar aquelas exigências disciplinares. Davam a entender que, no fundo, não se interessavam em batalhar por uma vida infeliz da qual não tinham tido coragem de se livrar pelo suicídio.

Para quem gosta de viver parecerá sempre um absurdo que alguém, no máximo da desmotivação, simplesmente transfira para uma doença a responsabilidade de dar um fim ao sofrimento, e que a natureza, toda experiente e poderosa, tome as devidas providências, para que o desfecho exima a todos do desconfortável sentimento de culpa.

Aprendi que, na seleção do melhor candidato ao transplante, nada é mais importante do que a equação: amor para dar e amor para receber. E que a reciprocidade de afeto é o melhor antídoto para o suicídio, porque mantém aceso o sentido da vida, que define a fronteira, muitas vezes estreita e traiçoeira, entre carregar a vida no peito ou ser arrastado por ela.

J.J. CAMARGO

07 DE OUTUBRO DE 2023
CARPINEJAR

Dispensando apresentações

Há uma injustiça quando você tem a trajetória profissional consolidada. Quanto maior o seu currículo, mais ele passará a ser deixado de lado. A fama desemboca na omissão. O locutor do evento apenas diz que você "dispensa apresentações", logo agora que você teria o que ostentar.

Demorou uma vida para acumular graduações e títulos, e nada mais é mencionado? A amnésia dói mais do que uma lembrança triste.

Toda a luta para alcançar excelência é subestimada. As madrugadas viradas, os estágios superados sem nenhuma compensação financeira, o despertar cedo, as viagens incansáveis, a cabeça batendo no vidro do ônibus, a falta de grana para o final de semana, a ruptura de namoros porque se entregava demais para seus deveres, os trabalhos de conclusão de curso, a criatividade para conciliar universidade e emprego viram pó.

Corta-se a biografia de sucesso pela raiz. Não restam nem folhagens. Você fica sem nada quando tem tudo para mostrar. A organização do evento se aflige ante seu histórico de cinco páginas.

Isso acontece por simpatia, para não entediar o público presente e começar logo o bem-bom de seu discurso, porém parece que você não existiu, que representa uma aposta, não uma realidade. O palestrante conhece o amargo vácuo pelo seu excesso de informações. Como sua relevância é extensa, termina resumido em uma frase ou em um sorriso desajeitado.

Eu sempre fico com cara de paisagem quando sou dispensado de apresentações. Meus 51 livros somem, meus prêmios somem, minha qualificada formação some, o tempo na docência some, a pós-graduação some, as pesquisas somem, os artigos e publicações somem, as referências elogiosas e os prefácios somem.

Torno-me um desmemoriado. Sou ninguém de novo. No momento em que posso finalmente despertar inveja, exerço uma modéstia imposta pela falta de tempo. A pressa rouba a dedicação de uma vida inteira.

Entendo a finalidade do cerimonial de não cansar os outros com detalhes técnicos e minúcias. Mas considero como um bocejo necessário antes dos aplausos. Deveria ser descrita a biografia do convidado para justificar o seu lugar ao microfone.

O mais engraçado é que, quando não havia coisa alguma para me vangloriar, no início da minha carreira, todo o currículo era lido. Nenhuma linha escapava. Ficava envergonhado pela ausência de acontecimentos, vendo-me obrigado a colocar cursos de datilografia ou de Excel para forrar os meus feitos.

Os constrangimentos no sucesso ou na estreia são, ironicamente, parecidos. O primeiro pelo intento de encurtar experiências para ganhar alguns minutos, e o segundo pela invenção delas, no costume de estendê-las para fingir importância.

Eu experimentei uma dose cavalar de humildade quando me apresentei recentemente no TEDx de São Paulo. Fui chamado para o palco com um grito de viking do mestre de cerimônias: -Venha para cá o poeta mais do que famoso: Maurício Carpinejar! Nesse caso, eu realmente dispensava apresentações.

CARPINEJAR

07 DE OUTUBRO DE 2023
LEANDRO STAUDT

A história de Muçum

Em um porto à beira do Rio Taquari, prosperou o município de Muçum, devastado na enchente do mês passado. O território cercado de montanhas verdes já fez parte dos municípios de Rio Pardo, Triunfo, Taquari, Estrela, Lajeado e Guaporé. Os 4,6 mil habitantes têm muitas origens, mas predominam os italianos, que chegaram a partir do final do século 19.

O historiador e escritor Airto Francisco Gomes, autor do livro Muçum: 60 Anos de História, conta que o nome está relacionado ao peixe muçum, presente no rio. Em 1862, durante exploração no Taquari, o capitão do Exército imperial Antônio Augusto Arruda registrou em mapa o nome "Cachoeira de Mussum". É o registro mais antigo. O peixe deu nome à cachoeira, que denominou o porto, que deu origem ao povoado.

O prefeito de Muçum, Mateus Trojan, lembra que a comunidade São Faustino e Juvita é a mais antiga, formada por famílias de origem portuguesa em 1873. A capela de 150 anos foi reinaugurada, após reforma, em 2023.

Em 1905, com o nome General Osório, o local passou a ser o 3º distrito de Guaporé, município criado dois anos antes. Moradores e até documentos oficiais continuaram citando os dois nomes: Mussum e General Osório. Em 1938, decreto estadual oficializou o nome antigo e mais popular.

O professor de história Ademar Vivian conta que eram vários pequenos portos, muito importantes na primeira metade de século 20. Em trilhos, mercadorias eram transportadas dos armazéns na parte alta das margens do rio até as embarcações. Os produtos das colônias seguiam até Estrela e, depois, Porto Alegre. Na década de 1930, quatro bancos operavam em Muçum. O ciclo da navegação terminou no final da década de 1940.

A emancipação ocorreu em 1959. O novo município passou a ter o nome com a grafia alterada para Muçum. Na década de 1970, a região recebeu a Ferrovia do Trigo, com seus belos túneis e viadutos. Muçum se apresenta como a Princesa das Pontes.

Neste momento difícil, os moradores podem buscar inspiração no passado de trabalho dos pioneiros para a reconstrução de Muçum.

LEANDRO STAUDT

07 DE OUTUBRO DE 2023
FLÁVIO TAVARES

O PETRÓLEO É NOSSO

O título deste artigo resume a grande "batalha" da segunda metade do século 20 no Brasil. Quando a Petrobras completa 70 anos, rememoro a tempestuosa época em que a exploração do petróleo aparecia como a redenção nacional que abriria um novo tempo de riqueza e fartura ao Brasil e a seus habitantes.

No entanto, a campanha "O petróleo é nosso" levou à prisão milhares de brasileiros no governo do general Eurico Dutra, que triunfou na primeira eleição após o final do Estado Novo. Se o petróleo significava a redenção econômica, qual o motivo dessas prisões?

A pergunta soa como inexplicável e sem sentido, mas naqueles anos de inícios da Guerra Fria, tudo o que significasse mudança na economia ou no comportamento social era "coisa de comunista" e "a serviço da União Soviética". Além disso, o Relatório Link, produzido por um geólogo norte-americano, afirmava "não haver petróleo no Brasil" e que as jazidas terminavam na Venezuela, a quilômetros do nosso país.

Assim, os Centros de Defesa do Petróleo eram considerados antros comunistas, que buscavam apenas substituir-se ao Partido Comunista, ilegal desde 1947. Mesmo que figuras exponenciais do Exército participassem da campanha "O petróleo é nosso", como o general Horta Barbosa, a iniciativa foi tachada de "comunista" pelos governos da época. Aqui no RS, o governador Valter Jobim reprimiu com rigor os Centros de Defesa do Petróleo.

O esdrúxulo preconceito só foi quebrado com a eleição de Getúlio Vargas à Presidência. Mas mesmo assim, o próprio Getúlio (que implantou a Petrobras) foi cuidadoso no anteprojeto enviado ao Congresso, que, de fato, não instituía o monopólio estatal. Para discordar de Getúlio, a feroz oposição conservadora propôs emendas que implantavam o monopólio do Estado, aceitas e ampliadas pelo governo.

O estilo getuliano de governar fez nascer a Petrobras, e a prosperidade do petróleo perdurou até que se descobrisse o Petrolão, o escândalo que nos governos do PT quase quebrou a maior empresa do país.

Jornalista e escritor - FLÁVIO TAVARES

07 DE OUTUBRO DE 2023
OPINIÃO DA RBS

DE OLHO NOS RISCOS EXTERNOS

Os mercados financeiros globais vêm sendo sacudidos nas últimas semanas pelos EUA. A economia e o mercado de trabalho resilientes por lá têm levado o banco central norte-americano a abrir a possibilidade de manter o juro elevado por mais tempo para combater a inflação e apelar para uma alta adicional ainda em 2023. 

Hoje está na faixa entre 5,25% e 5,50% ao ano. Na sexta-feira foi anunciado que a criação de postos de trabalho em setembro superou em muito as expectativas, gerando mais estresse. Essa é uma conjuntura que tem levado os juros dos títulos de longo prazo dos EUA a uma valorização incomum. É um movimento que funciona como um ímã, atraindo capitais ao redor do mundo, em especial os aplicados em países emergentes como o Brasil. E soa um alerta.

Ainda na sexta-feira, após o susto inicial, os mercados se acalmaram. As bolsas, aqui e no Exterior, recuperaram-se do tombo do início da manhã e, no Brasil, o dólar reverteu a disparada e passou a operar em queda. Mas a moeda norte- americana, que estava no patamar de R$ 4,85 em meados do mês passado, chegou a R$ 5,22 na sexta-feira. Tudo em função do forte fluxo financeiro de saída de recursos. Ao fim, fechou a sessão em R$ 5,16, em leve recuo.

Esse é um risco externo a ser monitorado de perto pela equipe econômica do governo federal. Gera mais consequências, afinal. Uma delas é uma aposta que começa a ganhar mais força. A de que, talvez, o ciclo de afrouxamento monetário pelo Banco Central (BC) não se encerre na casa dos 9% ao ano, mas sim acima de 10%. Selic mais alta, como é amplamente conhecido, é um fator que inibe a economia, os investimentos produtivos e encarece o crédito. 

Por outro lado, também gera preocupação o desaquecimento da China, principal cliente das exportações brasileiras, concentradas em commodities. Um alívio recente veio do petróleo. Temia-se que o tipo brent alcançasse US$ 100 o barril, forçando reajuste nos combustíveis e alimentando a inflação. Menos mal que os preços recuaram nos últimos dias e, após passarem de US$ 96 no final de setembro, na sexta-feira os negócios saíam ao redor de US$ 84.

No caso do Brasil, o cenário externo relativo ao juro norte-americano eleva a pressão sobre o desempenho fiscal. É inequívoco que a economia brasileira tem apresentado surpresas positivas. Mas o crescimento tende a ocorrer em um nível menor até o fim do ano, o que acrescenta dúvidas sobre a capacidade de elevar a arrecadação federal. É cada vez maior o ceticismo relacionado à promessa de zerar o déficit em 2024. Um horizonte de aumento da dívida pública pode gerar repique na inflação e comprometer a magnitude do ciclo de redução da Selic.

Não há razão para alarmismo, é prudente ressaltar. Mesmo assim, a conjuntura reforça a importância de o Brasil fazer a lição de casa para enfrentar com a menor turbulência possível a tensão global. Isso passa, em grande medida, por um esforço para não minar a credibilidade do novo marco fiscal. Será inevitável que o ajuste passe também por uma revisão de despesas, sem contar somente com uma melhora incerta na arrecadação.


07 DE OUTUBRO DE 2023
GERENCIAMENTO DE RISCOS

Entenda por que Santa Catarina é referência na prevenção a desastres

Inaugurado em 2018, centro integrado foi uma iniciativa fundamental para a mudança de cultura do Estado vizinho

Engenheiros, meteorologistas, geólogos e outros profissionais: ao todo, 160 servidores ficam reunidos em um mesmo prédio, em Florianópolis, analisando dados de satélites, fazendo estudos e projetando cenários. A edificação de quatro pavimentos, chamada de Centro Integrado de Gerenciamento de Risco e Desastres de Santa Catarina (Cigerd), foi inaugurada em 2018, dando maior estrutura aos profissionais que atuam para diminuir riscos e criar projeções.

O Estado catarinense é vigilante quando o assunto é fenômenos climáticos. A lição veio em meio à dor. Em novembro de 2008, após um período de muitas chuvas, inundações e deslizamentos, 135 pessoas morreram, 24 delas na cidade de Blumenau, no Vale do Itajaí.

- Tínhamos de reagir, de dar resposta. Estruturamos a Defesa Civil. Isso levou quase oito anos - destaca o diretor de gestão de desastres da Defesa Civil catarinense, Cesar Nunes.

Neste prédio, que recebeu investimento de R$ 44 milhões, uma sala de crise chama a atenção logo no primeiro piso. Ela conta com imagens de satélites mostrando a previsão do tempo, os níveis dos rios e oferece possibilidade de reunir integrantes da Polícia Militar, Bombeiros, Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (Casan), Centrais Elétricas de Santa Catarina (Celesc), além de representantes da Defesa Civil. Dependendo da situação, poderá contar com servidores da Polícia Rodoviária Federal, Exército e quantos outras pessoas precisar.

Antes de reunir os agentes, porém, o Cigerd se certifica do que está por vir. Nos segundo e terceiro andares da edificação, sete meteorologistas analisam a previsão do tempo, atentos a fenômenos como ciclones, chuva excessiva e estiagem prolongada. Em casos considerados críticos, uma primeira reunião é realizada com os integrantes da equipe, traçando planejamento para potenciais novos encontros. 

É neste momento que as unidades regionais da Defesa Civil são integradas e as prefeituras, avisadas. Geólogos e hidrólogos projetam o que está por vir e analisam as áreas de risco, previamente mapeadas pelos servidores municipais.

Energia

Um exemplo para solucionar problemas de forma rápida se deu por conta de cobrança e pressão sobre a companhia de luz catarinense, a Celesc. Foi a partir dessa pressão que, atualmente, o tempo de desligamento da rede seja um dos menores do país, em torno de três a quatro horas até o restabelecimento. Em parte, porque a companhia tem cadastrado empresas e profissionais terceirizados que serão acionados em caso de emergência.

Hoje, quando cai a energia, o aplicativo da Celesc informa o tempo que a região atingida ficará sem iluminação. Na avaliação dos integrantes da Defesa Civil, as instituições perceberam suas dificuldades e passaram a responder com mais precisão.

- Quando os desastres começam a trazer prejuízos, um plano de contingência adequado é eficiente para combatê-los. O despreparo deflagra prejuízos. Diversas instituições chegam até a gente para fazer um plano de contingência neste sentido - destaca o geógrafo e gerente de operações da Defesa Civil de Santa Catarina, Rodrigo Nery e Costa. 

JOCIMAR FARINA

"Consultoria é uma moda no modelo de gestão"

RAQUEL TEIXEIRA Secretária estadual de Educação

O que o senhor gostaria de ter feito, que não foi possível fazer?

Olha, tudo está colocado nesses 12 pontos que tratamos ali (na carta). Mas eu acho que é fundamental que a ideia dos Cieps (Centros Integrados de Educação Pública) como modelo de escola emancipadora, formadora de cidadãos e cidadãs, de resgate dessas crianças e jovens, seja retomada. Veja que esse modelo surgiu no início dos anos 1990, com o (Leonel) Brizola e com o (Alceu) Collares. Boa parte daquele ideário, tudo aquilo está sendo apagado a cada ano que passa.

O senhor não concorda com o investimento no ensino de tempo integral na etapa do Ensino Médio?

Onde mais precisamos dele é no Ensino Fundamental. E é essa lógica que não consigo acompanhar. No Ensino Médio, o que o governo está tentando fazer, e corretamente, é dar algum viés de formação profissional, que acho importante. São projetos corretos, mas isso exige investimentos, exige infraestrutura. Tem de ser uma coisa muito bem estruturada. O que defendo com todas as letras é a ideia de uma federalização do sistema de educação. 

Por que temos os institutos federais, as escolas técnicas federais e algumas escolas técnicas municipais e estaduais que funcionam com muita qualidade? Por que todo o sistema não funciona assim? A educação não pode fazer voto de pobreza. A educação exige investimentos, investimento para o futuro desse país. Não há saída para o país que não seja através da educação. A gente está cansado de falar isso. Quando a gente elege a educação como prioridade, isso tem de ser uma verdade de fato. Em três anos, Collares construiu 94 Cieps, com a mesma legislação, com a mesma burocracia.

O senhor diz na carta que preocupa o elevado volume de recursos empenhados em consultorias na pasta. A secretária Raquel diz que não se gasta dinheiro com consultorias, e que, talvez, o senhor estivesse falando sobre avaliações. Sobre o que o senhor está falando?

A consultoria é uma moda no modelo de gestão, e isso causa alguma curiosidade em relação ao porquê de toda a gestão pública ter de trabalhar com consultoria. E por que essas consultorias têm de ser feitas por empresas que, talvez, não tenham exatamente a dimensão da realidade de uma região, de uma instituição? Falo disso porque, quando estive na universidade, também houve algumas tentativas de realização de consultorias. E nós conseguimos resolver grande parte delas com soluções internas. O Estado do Rio Grande do Sul, a Secretaria da Educação, tem pessoal técnico capacitado, instituições do nosso entorno, públicas ou privadas, que podem tranquilamente resolver essas questões. Essa é a minha observação.

Sua questão não é com o gasto de dinheiro com essas consultorias, então?

Deveria se priorizar parcerias com instituições gaúchas e com a própria estrutura do Estado. Temos milhares de professores, por exemplo, que conhecem a educação como poucos conhecem, com os problemas e as dificuldades. 



07 DE OUTUBRO DE 2023
CHAMOU ATENÇÃO

Nova travessia no Marinha

Uma nova passagem pavimentada, com atrações para pedestres e ciclistas, surge entre as avenidas Edvaldo Pereira Paiva e Borges de Medeiros, no bairro Praia de Belas, em Porto Alegre. Construída dentro do Parque Marinha do Brasil, a travessia está pronta e aguarda pela liberação da prefeitura.

Na manhã de sexta-feira, Zero Hora esteve no local e não havia ninguém trabalhando na obra. As pistas de concreto, os pórticos de entrada e saída, os jardins e os itens do mobiliário urbano pareciam visualmente aptos para uso.

A estrutura é composta por duas pistas de concreto, uma com sinalização pintada para orientação de ciclistas, nos dois sentidos, e outra sem delimitações visuais. As extremidades conectam a Rua Cecília Meireles - entre a Praça Itália e o shopping Praia de Belas - e a sinaleira que controla o fluxo de automóveis na Edvaldo Pereira Paiva e leva à pista de skate do trecho 3 da orla do Guaíba.

Atrações

Ao longo do percurso dentro do Marinha, há locais para estacionar bicicletas, pracinha com balanço e escorregador infantil fixados ao chão, duas áreas de cachorródromo com bebedouros, divididas por porte dos animais, lixeiras, jardins, mapas de orientação das atrações e quadras esportivas, além de um espaço para fazer reparos em bicicletas.

A construção começou em julho e foi financiada pelo Iguatemi, administrador do Praia de Belas. O investimento é uma contrapartida em relação a obras realizadas. Procurada, a Secretaria de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade informou que não há data para liberação do trecho. 

ROGER SILVA

07 DE OUTUBRO DE 2023
MARCELO RECH

Cada um na sua

No longínquo 1995, numa daquelas ondas de violência no Rio de Janeiro, o novo chefe de Polícia do Estado, Hélio Luz, decretou: "A partir de agora, a Delegacia Antissequestro não sequestra mais, a Delegacia de Homicídios não assassina mais e a Delegacia de Roubos não rouba mais". O aviso de então poderia ser invertido e adaptado às competências dos três poderes, porque, no Brasil de 2023, Executivo e Judiciário legislam, enquanto o Legislativo executa.

Por mais óbvias que sejam as atribuições de cada poder, ao longo dos 35 anos da Constituição os papeis foram se embaralhando. Uma das origens do desvirtuamento é a criação das medidas provisórias, que nada mais são do que leis emanadas do Executivo que só deveriam ser empregadas em casos emergenciais ou de grande relevância É verdade que as MPs precisam ser aprovadas em até 120 dias pelo Congresso para seguirem em vigor, mas, para tanto, alargou-se a segunda disfunção: boa parte dos congressistas passou a decidir seu voto com base na liberação ou não de emendas parlamentares.

As emendas se transformaram numa graxa a desemperrar votações em parlamentos de norte a sul do país, o que foi cegando o eleitorado e ampliando a sanha por verbas. Quando o "bom deputado" é visto como aquele que despacha diretamente dinheiro público para o que bem entende, o parlamento substitui sua missão de debater e propor as grandes transformações e reformas em troca do toma lá dá cá. É, no fundo, um apequenamento da função parlamentar.

Já o Executivo, que deveria definir de forma impessoal e apartidária o uso de recursos públicos, transforma-se em repassador de verbas que subvertem a escolha eleitoral, pois as emendas privilegiam quem já tem mandato. As consequências dessa anomalia: menor renovação de parlamentos, paternalismo, formação de currais e, no limite, mais corrupção.

Agora, para piorar o quadro, o STF naturalizou a invasão de atribuições de outros poderes. Quando ministros legislam despudoradamente, a ponto de quererem definir a quantidade legal de maconha, ou se manifestam com argumentos e desenvolturas mais apropriados para a tribuna do Senado, o desgaste da Corte é inevitável. E aí, como reação a essa distorção vem mais distorção, como a proposta de emenda constitucional que dá ao Congresso o poder de anular julgamentos do STF.

Para o leito deste rio recuar, antes que o país degringole de vez, só há uma solução: um acordo sensato de autocontenção entre os poderes para que cada um cuide do que é da sua conta. Na lógica inversa de Hélio Luz, bastaria que o tratado de paz entre os poderes proclamasse: a partir de agora, o Legislativo legisla, o Executivo executa e o Judiciário julga.

MARCELO RECH

07 DE OUTUBRO DE 2023
INFORME ESPECIAL

Urban Sketchers POA

Com lápis e papel nas mãos, uma comunidade global de voluntários está desenhando a história das nossas cidades e compartilhando o resultado nas redes sociais. O movimento começou nos Estados Unidos, em meados dos anos 2000, e não parou mais. É gente de diferentes idades e profissões, que olha a paisagem urbana de um jeito único - e que gosta de fazer isso em grupo.

São os Urban Sketchers, e eles também estão em Porto Alegre.

Sketchers vem de "sketch", "esboço" em inglês. São, basicamente, desenhistas diletantes, que compartilham a paixão por retratar prédios e monumentos. - Mesmo quem acha que não sabe, pode participar. É só gostar de desenhar - diz Veronica Daudt, uma das vozes do coletivo na Capital.

O @uskpoa (veja no Instagram) surgiu em 2016 e, desde 2023, organiza atividades quinzenais. Com apoio da UFRGS, a turma passou a reproduzir espaços da universidade - entre eles, o prédio da antiga Escola de Engenharia (nas fotos).

Eu não só acompanhei a ação no local, como também desenhei (ou tentei). O grande barato não é apenas "brincar de artista", como no meu caso, mas estar ao lado de pessoas interessantes, dar uma pausa no mundo virtual e, de certa forma, voltar ao passado - já que rabiscar lembra a infância.

Ao final, cada uma das criações recebe um carimbo oficial, para marcar o feito. No fundo, o movimento é uma forma de valorizar o lugar onde se vive e de ocupar espaços. É um jeito de olhar e - de fato - ver a cidade ao redor.

Exposição

Para quem ficou curioso, a partir de 26 de outubro haverá uma exposição do grupo, de graça, nas Salas Nogueira, do Centro Cultural da UFRGS.

arte

Ursa Maior

Que tal conhecer ou rever obras de grandes escultores gaúchos? Um deles é o uruguaianense Vasco Prado (1914-1998), autor de criações como Ursa Maior (ao lado). Ele influenciou e formou gerações de artistas no Brasil. Passou pela Escola de Belas Artes de Porto Alegre e estudou em Paris, mas sempre foi um autodidata convicto. Há trabalhos seus em praças, prédios públicos e coleções particulares. Só no Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs) são 106 itens.

JULIANA BUBLITZ

sábado, 30 de setembro de 2023


30 DE SETEMBRO DE 2023
LEANDRO KARNAL

Já viajei bastante e já vivi muitas experiências. Porém, há muitas coisas que eu gostaria de ver neste terço final da existência. Tornou-se uma mania em livros identificar coisas ou lugares obrigatórios. Já encontrei Cem Filmes para Ver Antes de Morrer ou Cem Livros Indispensáveis para sua jornada neste planeta. A crônica é mais curta: tratarei sobre 10 tópicos. Serão fatos/tendências, imagens que me alegrariam muito antes do fim inexorável. Veja se algum desejo combina com o seu, iluminada leitora e esclarecido leitor. Complete ou substitua a lista.

1. Adoraria ver a aurora boreal. Fracassei nas tentativas anteriores. Um céu com cores variadas em raios de tom de opala. Deve ser algo incrível. Provavelmente eu, homem de poucas lágrimas, choraria em abundância diante do fenômeno.

2. Sonho com a ideia de estar em um barco ou na ponta de uma península, para ver baleias saltando no mar e caindo com estardalhaço. Uma azul, uma jubarte, uma orca; um baleal: deve ser muito emocionante! Já vi golfinhos, tubarões, arraias... Até o Nemo em corais. Nunca vi baleias livres e felizes no mar.

3. Tenho um delírio que é abrir o jornal e ver esta notícia: segunda, às 8h da manhã, as duas casas do Congresso estavam trabalhando arduamente, no plenário, por leis sobre saneamento básico, educação, investimentos estruturais e outras questões. Depois, no entardecer de sexta, exaustos, os nobres legisladores encerrariam o expediente. Sim, um deputado e um senador fazem muito trabalho em comissões e visitas in loco, eu sei. Porém, num dia, verei o Congresso fazendo o que todo trabalhador brasileiro faz. Num dia...

4. Sonho em entrar no aeroporto/rodoviária/estação de trem/ônibus e todas as pessoas estarem lendo. Sim, podem estar diante do celular, mas nada de vídeos com dancinhas: todo mundo lendo em papel ou nas telas, sorrindo, chorando ou franzindo o cenho diante de uma cena forte. Silêncio profundo e olhos concentrados. Um sonho...

5. Um delírio antigo! A aula deveria terminar ao meio-dia. O professor, cansado, tenta encerrá-la às 11h50min. Os alunos protestam e afirmam que ainda possuem 10 minutos de chances de descobertas, de aprofundamento, de novos insights. O mestre concorda, fala ainda mais e indica novos livros. Esse professor manda ler um conto, e os discípulos afirmam: "Só um? Não seria melhor ler uns quatro, ao menos, para perceber o estilo do autor?". Alunos conscientes dos seus protagonismos e cheios de interesse. Discípulos que superam os limites do tutor. Gente empolgada com sua própria formação... Quem sabe?

6. A reforma da sua casa foi prevista para dois meses. Deveria terminar dia 30 de novembro. Faltando 72 horas, o empreiteiro anuncia que a obra já está finalizada. O material comprado foi suficiente. O orçamento não necessitou de verba complementar. Tudo tem um acabamento perfeito. Você se despede do contratado com um aperto de mãos, feliz. Um sonho. Um delírio, talvez...

7. Encontro uma pessoa que gosta do meu trabalho. Ela se apresenta entre sorrisos. Faz umas perguntas curiosas e mostra que, de fato, lê e está informada do que eu penso e faço. Por fim, a fã se despede com alegria. Não são feitas as fotos. Nada é postado. Foi uma experiência pessoal sem ###. Fato único. Evento humano. Seres encontrando-se, apenas. O real basta e transborda. A vida flui, olho no olho, sem celular.

8. Uma pessoa adota um cachorrinho. Outra prefere comprar em um canil. Alguém adere ao mundo vegetariano. Outra come carne. Um é ateu e, ao seu lado, está um evangélico. Todos são felizes com suas escolhas. Ninguém "torra" ninguém. Desaparece o projeto missionário de converter o outro aos seus valores. Ninguém mais assume o papel de zelador da vida alheia. Um sonho antes da minha partida.

9. Antes de dar meu último suspiro, deliro com a ideia de acompanhar o desaparecimento da tecnologia de áudio em celulares. Ninguém mais envia mensagens sonoras. O mundo redescobre a escrita surgida na Mesopotâmia há quase 5 mil anos.

10. Por fim: deixemos de importar da Europa o péssimo hábito de considerar crianças um incômodo. Terminem os restaurantes e hotéis que não admitem crianças. Que o choro de uma criança em um avião seja encarado como sinal de vida e reação natural ao estresse da viagem. Todos entendam que o barulho infantil é muito mais saudável do que o silêncio amargurado de alguns adultos. 

Os pais devem fazer esforço pela boa educação dos seus rebentos, porém uma criança inteiramente adestrada é prenúncio de uma pessoa infeliz no futuro. Que as crianças corram, que riam, que chorem, que eructem. Que os pais estimulem a percepção do ambiente e, com palavras doces, indiquem que ali não é lugar de gritar. E que elas, rebeldes, façam da vida um valor maior do que a norma. Parece que estamos ficando intolerantes à vida. Sem os pequenos, não pode existir esperança.

LEANDRO KARNAL

30 DE SETEMBRO DE 2023
ARTIGO

OS DESAFIOS DO ENVELHECIMENTO

NO BRASIL, O IDOSO É UM SOBREVIVENTE SOB VÁRIOS ASPECTOS, ESCREVE PSICÓLOGA

Ser idoso no Brasil é um exercício de muitos desafios e enfrentamentos. O idoso em nosso país é um sobrevivente sob vários aspectos. Essa população enfrenta a exclusão do mercado de trabalho onde eles são considerados incapazes e improdutivos para desenvolver alguma atividade laboral.

Diferentemente dos países asiáticos, onde velhice é sinônimo de sabedoria e experiência, no Brasil os velhos são vítimas do etarismo (preconceito, neste caso relacionado à faixa etária). Outros desafios da pessoa que passa a ser considerada idosa é ficar incapacitada de suas atividades cotidianas, tornar-se dependente dos seus familiares e lidar com o surgimento de doenças neurodegenerativas, como as demências.

As mudanças decorrentes dessa faixa etária, a partir dos 60 anos, envolvem modificações físicas, psicológicas, neurológicas e sociais, alterando a relação do idoso com as outras pessoas e consigo mesmo.

Em 2019, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou 32,9 milhões de pessoas com 60 anos ou mais residentes no Brasil. Isso significa que, em menos de 10 anos, esse número aumentou 29,5%. Estima-se que até 2060 chegue a 58,2 milhões de pessoas consideradas idosas. A conclusão é de que o Brasil está ficando velho, e precisamos unir esforços com cuidados de previdência e saúde, além de repensarmos nossas atitudes, preconceitos e estereótipos sobre o envelhecimento.

O fato é que a imaturidade das instituições sociais brasileiras retira a oportunidade de os mais velhos terem uma vida digna e produtiva. Os avanços tecnológicos e a globalização auxiliaram no bem-estar dessa população, porém ainda não podemos considerá-los como ideais.

O artigo terceiro do Estatuto do Idoso refere que: "É obrigação da família, comunidade, da sociedade e do poder público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária". 

Porém, o que ocorre efetivamente é que as políticas públicas garantidas pelo Estatuto do Idoso e pela Constituição não são trabalhadas adequadamente, com atendimentos difíceis de serem acessados e os idosos, na maioria das vezes, se sentem excluídos dos programas e da sociedade. Desta forma, o Brasil precisa criar esforços para lidar com a realidade atual: tornar as políticas públicas e sociais já existentes eficientes, além de criar novas.

Para isso, precisamos mudar os conceitos e pré-conceitos em relação aos mais velhos para que não sejam considerados inúteis para o trabalho e que tenham garantidos a saúde, o bem-estar psicológico e social, independência e participação em diferentes setores e contextos.

Com essa população mais longeva, é dever da família, da sociedade e do setor público olhar para os velhos com respeito e dignidade, contrariando julgamentos enraizados de que as pessoas senis são um fardo para a sociedade, como sinônimo de improdutividade, reconhecendo a extensa diversidade de suas experiências. É preciso oferecer a eles condições para que a longevidade seja acompanhada por qualidade de vida e bem-estar.

Referente a saúde mental, o mês de setembro foi escolhido para a conscientização e sensibilização da população sobre os riscos decorrentes do Alzheimer, doença neurodegenerativa progressiva que tem como características a atrofia lenta e progressiva do cérebro causando comprometimento na memória (perda da memória recente) e funções cognitivas, além de desorientação, depressão, afasia (distúrbio na fala), agressividade, irritabilidade, delírios, dentre outras. 

O diagnóstico das demências é clínico por meio de entrevistas, teste cognitivo e exames (laboratoriais e de imagem). Em geral, a pessoa pode demorar anos para saber que é portadora da doença, e o principal motivo para o retardo na procura por ajuda é pelo fato de os sintomas, como raciocínio lento, serem interpretados como consequências do envelhecimento. A atenção dos familiares é essencial, pois a pessoa normalmente não percebe esses sinais e pode negar quando advertido de alguma manifestação.

Além da importância do diagnóstico precoce, hábitos diários e estilos de vida podem auxiliar no retardo do quadro, como estimular o cérebro com leituras, aprender tarefas novas, fazer atividades prazerosas, exercitar-se regularmente, investir em trabalhos criativos, manter o controle do estresse, de exames e alimentação saudável. Ao ser diagnosticado precocemente, maior serão as chances de tratar os sintomas, retardando a evolução da doença, além de garantir um envelhecimento com maior qualidade de vida. E algumas estratégias terapêuticas podem ser utilizadas quando do diagnóstico positivo, como terapia ocupacional, acompanhamento psicológico e interação social.

Entender e aceitar as mudanças corporais da idade, as fragilidades funcionais causadas pela ação do tempo e as limitações físicas decorrentes desse período são essenciais para um envelhecimento saudável. Envelhecer não é uma escolha: faz parte do desenvolvimento humano e é mais uma etapa do ciclo da vida.

LECI MARIA SORIANO BOBSIN CORRÊA (*)

30 DE SETEMBRO DE 2023
BRUNA LOMBARDI

DO QUE RIMOS?

Tem um verso num dos meus livros que diz: "Das liberdades, meu amor, eu quero todas". A ideia de liberdade me acompanha desde criança porque fui criada com esse conceito. Não me deixar intimidar, restringir, acuar, diminuir. Não me sentir presa, nem obediente ao que não

concordo. Meus pais me ensinaram a me manifestar, defender, posicionar. Não é uma tarefa fácil para nenhuma mulher. Requer um esforço, uma atitude e atenção permanentes. Um estado de alerta e ataque a qualquer movimento ameaçador.

Requer abrir mão de conforto, segurança e comodidade para conquistar o próprio espaço e encontrar a própria voz. Com todas as perdas e danos que isso possa causar. Dúvidas, decepções, sofrimentos inevitáveis. Um preço caro para se livrar das amarras, correntes, censuras e auto censuras. Repressão interna e externa que bloqueiam o caminho.

Mas quero é falar sobre o humor. A força desfraldada e maravilhosa do humor. Do que rimos? Quais as coisas que nos fazem rir? A começar por nós mesmos. Rir do que nos acontece, do que erramos, do jeito que reagimos, é uma ótima maneira de aliviar a vida.

O pior de uma viagem vai ser sempre o mais engraçado para contar aos amigos. Pode ser ruim na hora, mas a gente sabe que um dia vamos rir disso tudo. O humor quebra barreiras, entra em lugares proibidos. A criança gargalha com o humor escatológico. O palavrão quebra a rigidez de certos comportamentos.

Mas desde muito cedo comecei a perceber um tipo de humor que me incomodava. Era o humor tácito do preconceito e tão familiar que estava em qualquer programa de TV. Era a piada sobre o gay, a feia, a gorda e assim por diante, ridicularizando e ferindo pessoas. Eu era adolescente e não achava a menor graça nisso.

Hoje, muita gente discute a ideia do politicamente correto, sem entender de fato a extensão que há por trás. O estigma. A marca indelével nas pessoas que são atingidas por essas flechas de humor que causam danos irreversíveis.

Se uma piada ri do preço barato de um puteiro de beira de estrada, está rindo exatamente do quê? O que existe por trás desse humor? A tragédia da miséria, do machismo, do abuso e violência contra a mulher. É bom rir disso?

Não se trata de censura e nem de politicamente correto, mas sim de humanamente concebível. Criamos um tipo de humor machista e preconceituoso que se repete há tanto tempo e se diz libertador.

Não, não é. Na verdade liberta toda uma sociedade de reforçar um comportamento tóxico, um preconceito estrutural, uma ferida social atenuada pela gargalhada.

Criei uma cena no nosso filme O Signo da Cidade, que deu prêmio de melhor ator ao brilhante Juca de Oliveira. Ele está numa cama de hospital e pede como último desejo ver uma mulher nua. Uma enfermeira se recusa e uma outra aceita. É uma mulher gorda, e a plateia ri antecipando a piada.

Em seguida, há um silencio profundo de todos diante de uma das cenas de maior afeto que já escrevi na vida. E todos compreendem que não é uma cena de humor, mas de extraordinária generosidade.

P.S.: podem assistir na Netflix.

BRUNA LOMBARDI

30 DE SETEMBRO DE 2023
J.J. CAMARGO

PREVENÇÃO DO REMORSO

"Muitas noites não consigo dormir de remorso das coisas que não fiz." (Mario Quintana)

Como de hábito, não valorizamos o que temos, até que nos falte, e desperdiçamos um tempo irresgatável, sem perceber que estamos armazenando remorso para pesar no futuro, depois que os amados se forem e a saudade bater, incômoda e inútil.

Cada vez que ouço alguém dizer que não passa um dia sem lembrar do seu pai ou sua mãe, só não pergunto para não roçar na ferida se essa necessidade afetiva significava uma chamada por dia, enquanto eles ainda estavam por aqui.

Provavelmente não, afinal estamos tão atabalhoados e além do mais sobram tantas desculpas, porque passaremos juntos o próximo fim de semana (ou será no feriado?). Melhor deixar pra lá, de qualquer modo, adiante teremos tempo de sobra para atualizarmos o papo. E assim, de transferência em transferência, vamos gastando um tempo de convívio que não temos a menor noção do quanto será.

Com muita frequência, comento com os alunos da faculdade que uma condição perigosa do tempo maravilhoso que significa a planície dos 20 anos é a ameaça de que a crise de autossuficiência exacerbada que caracteriza essa idade mantenha-os afastados de suas famílias. Na verdade, um grande indício da chegada da maturidade é a percepção de que, de repente, estamos carentes daquele cuidado que nos pareceu sufocante na adolescência. Não há nada de errado nesta sequência, mas há um risco, sim: o de que a descoberta do amadurecimento só ocorra depois que os avós já se foram.

Acho que nós, como guias circunstanciais da juventude posta aos nossos cuidados, temos obrigação de alertá-los do quanto é injusto que, por pura distração, percamos um convívio tão rico e carinhoso. A julgar pelo brilho dos olhos e os agradecimentos reiterados, esse comentário, de aparência despretensiosa, mexe muito com eles, e eu tenho me sentido bem ao admitir silenciosamente que possa estar despertando verdades adormecidas à espera de um grito de alerta.

O problema é que a juventude entorpece a noção do tempo.

Mas então passam as décadas, e um dia descobrimo-nos confortáveis na fila de "prioridades por lei" para embarque no aeroporto. Se houver isenção para julgar as nossas desídias, teremos que assumir o completo despreparo para encarar a finitude, nossa e dos nossos queridos. Simplesmente porque sempre nos parecerá menos mórbida a negação.

Uma pesquisa instigante, comandada por um psicólogo espanhol (Rafael Santandreu), foi baseada na observação de que a valorização teórica da nossa dependência afetiva não combina como nossas atitudes porque, segundo ele, nosso cérebro está programado para não pensarmos no tempo que nos resta, o que nos induz a acreditar que sempre teremos outras oportunidades.

Usando critérios estatísticos, baseados na idade de cada par estudado, no número de vezes que se visitam e na duração desses encontros, foi possível projetar o tempo que eles teriam para passar com seus entes queridos.

Os amigos estudados confessaram que esperavam conviver muitos anos, e a informação de que esse tempo se contava em poucas semanas e, em alguns casos, não mais do que dias, gerou uma comoção.

Igualmente chocante foi a estimativa de que os sobreviventes dos próximos 40 anos gastarão 520 dias vendo séries, oito anos assistindo à televisão e 10 anos explorando a internet.

Validados estes números, com grande chance de terem sido subestimados, o futuro determinará, inapelavelmente, a substituição da saudade pelo remorso.

J.J. CAMARGO